Mostrar mensagens com a etiqueta O Teatro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Teatro. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pedro Calderón de la Barca: Durante os últimos anos da sua vida só compõe autos e comédias para estrear na corte. Autor de uma obra vasta que marca decisivamente a história do teatro em língua castelhana. Entre as suas peças há autos sacramentais, zarzuelas, entremeses, comédias religiosas e de amor, ciúme e filosóficas

(1600-1681)
Madrid
Cortesia de umaseoutras

Pedro Calderón de la Barca foi um dramatugo e poeta espanhol.
Estuda no Colégio Imperial dos Jesuítas, onde cursa Humanidades e se familiariza com os clássicos. Em 1620 abandona a carreira eclesiástica e «ruma» a Madrid e vive na corte uma vida livre e não isenta de atribulações. Por esta altura começa a apresentar-se em certames poéticos.

No ano de 1625 inicia a sua carreira dramática, transformando-se no dramaturgo oficial da corte e em  1651 é ordenado sacerdote.

Cortesia de escenicascarandewordpress
Em 1663 é nomeado capelão de honra do rei e fixa-se novamente na corte, dirigindo a representação de autos sacramentais e outras peças teatrais. Durante os últimos anos da sua vida só compõe autos e comédias para estrear na corte.
Autor de uma obra vasta que marca decisivamente a história do teatro em língua castelhana. Entre as suas peças, autos sacramentais, zarzuelas, entremeses, comédias religiosas, de costumes, de amor e ciúme e filosóficas, salientam-se:
  • El dragoncillo;
  • El laurel de Apolo;
  • El mágico prodigioso;
  • La dama duende;
  • El alcalde de Zalamea;
  • La vida es sueño; 
  • El gran teatro del mundo.

Cortesia de higuerasarte
Utilizava frequentemente peças menores que reformulava, eliminando cenas inúteis. Diminuía o número de personagens e reduzia a riqueza polimétrica do teatro lopesco. Igualmente, sistematizou a exuberância criativa de seu modelo, e construiu a obra em torno de um protagonista único.
De certa maneira, limpou o teatro lopesco de seus elementos mais líricos, e buscou sempre os mais teatrais. Ángel Valbuena Briones tem verificado que no seu estilo cabe distinguir dois registros:
  • Num primeiro grupo, reordena, condensa, e reelabora o que em Lope de Vega aparece de maneira difusa e mais caótica, estilizando seu realismo tradicionalista, e voltando-se mais ao cortesão. Nelas aparece uma rica galeria de personagens representativos de seu tempo e sua condição social, todos os quais têm em comum os três temas do teatro barroco espanhol: o amor, a religião, e a honra;
  • Num segundo grupo, o dramaturgo inventa, mais além do repertório cavaleiresco, uma forma poética-simbólica ainda desconhecida, e configura um teatro essencialmente lírico, cujas personagens se elevam acima do simbólico e espiritual.
No panorama dos dramas filosóficos, a obra mestra é La vida es sueño e ainda El médico de su honra, e El alcalde de Zalamea entre os dramas que abordam a honra.
Casa de Pedro Calderón de la Barca
Cortesia de flickriver
Cortesia de wikipédia/Vidas Lusófonas/JDACT

domingo, 24 de outubro de 2010

Almeida Garrett: Teatro I. Um Auto de Gil Vicente. «Mas eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro»


Cortesia de portoeditora

Cortesia de evanog

A primeira obra de Almeida Garrett no plano de reinvenção do teatro português. Para tal, o autor foi buscar Gil Vicente e a tradição vincentina.
A obra inclui como personagens, Bernardim Ribeiro, Garcia de Resende, Gil Vicente e sua filha Paula Vicente, e o rei D. Manuel I para a evocar um passado de grandezas, não só materias, mas também do teatro nacional.

Cortesia de cercarte
O Auto de Gil Vicente foi representada pela primeira vez no teatro da Rua dos Condes, em 1838 em Lisboa, mas publicado apenas em 1841 em conjunto com Mérope.

Cortesia de anaicfer
Drama histórico da autoria de Almeida Garrett, representado pela primeira vez em Agosto de 1838, no Teatro da Rua dos Condes, e publicado posteriormente em volume. No prefácio teórico do autor, este debate o problema do declínio da arte dramática em Portugal e defende a urgência de se fazer ressuscitar o teatro nacional, projecto a que a obra se encontra concretamente ligada: «o drama de Gil Vicente que tomei para título deste não é um episódio, é o assunto mesmo do meu drama; é o ponto em que se enlaça e do qual se desenlaça depois a acção; (...) Mas eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro».

Nesta peça, evoca-se a corte de D. Manuel I e as duas grandes individualidades literárias que nela evoluíram: Bernardim Ribeiro (representante da poesia aristocrática) e Gil Vicente (defensor do teatro). Almeida Garrett conseguiu a proeza de abordar o Teatro através do teatro, tendo como pano de fundo os ensaios para a peça Cortes de Júpiter, escrita por Gil Vicente para celebrar a partida da Infanta D. Beatriz para Sabóia, onde se casaria com Carlos III.

Cortesia de cercarte
«A peça é dividida em 3 actos, sendo que cada um se desenrola num espaço diferente. O primeiro passa-se em Sintra onde Pêro Çafio, um dos frequentes actores das peças de Gil Vicente, ensaia a sua participação nas Cortes de Júpiter. É então que surge Bernardim Ribeiro a quem Çafio confidencia que durante a representação, uma moura de nome Taes, envergando uma máscara, entregaria um anel a D. Beatriz. Bernardim, apaixonado por D. Beatriz, arquitecta o plano de assumir a personagem de Taes para se poder aproximar da Infanta. No mesmo acto, contracenam Paula Vicente e Dona Beatriz, confessando esta última o grande amor que nutre pelo poeta de Menina e Moça.

Cortesia de cm-alcacerdosal
No segundo acto, desenrolado nos Paços da Ribeira, assistem-se aos preparativos da representação: Gil Vicente e Paula Vicente não gostam do ensaio de Joana do Taco, destacada para interpretar Taes. Bernardim aparece disfarçado e pede para falar com Gil Vicente, pedindo-lhe o papel da moura. Mediante a interferência de Paula, Gil acede. Inicia-se a apresentação da peça com a presença de D. Manuel I e dos altos dignatários da Corte, entre os quais Garcia de Resende. Quando Bernardim entra em cena, modifica as falas da moura, conferindo-lhes um grande lirismo. O Rei percebe que se trata de Bernardim e manda interromper a representação, retirando-se com enfado, sem se aperceber que D. Beatriz tinha desmaiado.

Cortesia de flickr
O terceiro acto passa-se a bordo do Galeão Santa Catarina que levará a Infanta ao seu destino. D. Manuel vem despedir-se da sua filha e traz consigo Chatel, o seu Secretário, que demonstra algumas desconfianças sobre a postura da Infanta. Por intermédio de Paula Vicente, Bernardim consegue visitar D.Beatriz a quem declara o seu amor». In Infopédia. Um Auto de Gil Vicente. Porto: Porto Editora, 2003-2010. 
 http://www.infopedia.pt/$um-auto-de-gil-vicente>.

Cortesia de Infopédia/wikipédia/JDACT

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Parte IV. O Teatro. A Ópera. De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios


JDACT
O Teatro

Com a devida vénia a Joaquim Manuel S. Correia e Natália Brito C. Guedes, «O Paço Real de Salvaterra de Magos», Livros Horizonte, 1989, ISBN 972-24-0723-6, publico algumas palavras.

«Sobressai a toda esta vila a eminência da Casa da Opera de Sua Majestade e adjunto a esta o Palácio Real» observava o P. Miguel Cerqueira nas «Memórias Paroquiais» que redigiu em 1758.

«O Real teatro de Salvaterra de Magos foi inaugurado em 2I de Janeiro de 1753 com a Opera «Didone Abandonata» (composição de Metastásio e música de David Perez) tendo-se representado também no Carnaval desse ano e talvez no mesmo dia o «intermezzo» a duas vozes «La Fantesca, de Adolfo Hasse». Diversas representações, dramas, sérios ou jocosos, «intermezzos», se lhe sucedem com grande êxito cénico e musical sempre que no Inverno a Familia Real permanecia em Salvaterra.

Um ilustre viajante francês que ali se deslocou, no Carnaval, em 1765 registou, nas suas «Memórias»: «À noite assistimos à Ópera composta por oitenta músicos italianos, não só instrumentistas mas também cantores; como a Rainha não gosta de actrizes, os papéis femininos são executados por jovens castrados que têm vozes encantadoras, tão bem vestidos e representando com tanta perfeição que quem não estiver prevenido, enganar-se-á .. Tocava-se «Demetrius, de Metastásio, em que a música do Sr. Perez é de grande beleza, quer em frases quer em acompanhamento, e os instrumentos estão tão bem ligados às vozes que se pode dizer que é uma das melhores óperas que existe na Europa.

JDACT
«Esta Ópera de «Demetrius» custou ao rei 200 mil cruzados. O guarda-roupa, bordado a ouro e prata finos, é riquissimo, bordado em Milão. As decorações são pintadas pelos melhores pintores. O rei, a rainha, a princesa do Brasil e as princesas suas irmãs, são grandes músicos e cantam bem (...).

JDACT
«A sala de espectáculos de Salvaterra tem uma lotação de 500 pessoas; tem três filas de camarotes de primeira (três camarotes de cada lado); ao fundo um anfiteatro com uma galeria que prolonga de cada lado os primeiros camarotes. Este anfiteatro está coberto com um reposteiro franjado, apoiado em pilares como uma tenda; neste se situa o lugar do Rei que se senta num cadeirão, ao meio, tendo à sua direita o Infante D. Pedro, seu irmão e seu genro e à sua esquerda a Rainha, a Princesa do Brasil e as três outras princesas e ao longo da galeria, à esquerda, as damas de honor. O outro lado, à direita da galeria, fica vazio há oito segundos e oito terceiros camarotes que são ocupados por portugueses aos quais se oferecem bilhetes. Os Ministros do Rei estão sentados na plateia com os fidalgos, sem distinção de categoria. A orquestra tem cerca de 25 a 30 instrumentos. O teatro é bastante grande, ocupando todo o comprimento da sala; o espectáculo começa logo que o Rei entra, vulgarmente cerca das seis e meia, sete horas. A ópera dura 4 horas; verificando-se o maior silêncio. O bailado do 1º «acto do «Demetrius» representa a sala de um mecânico ou maquinista que mostra a um curioso ou estrangeiro um autómato, em que premindo uma mola faz executar diferentes danças e bailados. Primeiro assiste-se a uma entrada de «Pierrots» em seguida a uma de «Espanhóis», de «Arlequins» e «Columbinas» às «mosqueteiros», etc., em que os passos são executados pelos dançarinos como se fossem comandados por molas. Vêm comunicar ao Maquinista que alguém o chama; este sai e o curioso aproveita a sua ausência para examinar os autómatos e observa a máquina, pressiona a mola e os autómatos recomeçam a dançar; como pretende mudar rapidamente a dança anima-se, embaraça-se e por fim escangalha-se a mola; a máquina desafina-se e os autómatos caem de cabeça para baixo, pés para cima, cada um com uma atitude diferente do que resulta um espectáculo divertido; com o barulho o Maquinista chega espantado ao ver as máquinas viradas; tenta recuperá-las e percebe que os fios ou molas estão partidos. Precipita-se sobre elas desesperado e corre atrás do curioso; este foge, atravessando os acessos em que tinham descido os autómatos. «Este bailado é muito bem desenhado e de agradável invenção. O bailado do2º acto é Pantomina. Vê-se ao longe uma ilha sobre o mar e um Príncipe que nela naufraga esta ilha é ocupada por uma feiticeira que quando se apaixona transforma os seus companheiros em estátuas».

JDACT
Ela apressa-se em fazer amizade com o Príncipe mas este está ocupado em procurar os seus companheiros; logo que os descobre fica furioso. A feiticeira toca-lhe com a sua varinha, adormecendo-o, e ele cai sobre uma cama de relva; algumas ninfas vêm com flores e saem de repente. Ele acorda e parece envergonhado por se encontrar prisioneiro; a feiticeira finge em ter pressa de o libertar. Ele aparenta querer agradecer-lhe beijando-lhe a mão, mas este era o pretexto para lhe apanhar a varinha. Com a varinha, toca a feiticeira que é arrastada por um carro puxado por dragões. Ele reanima os seus companheiros e imediatamente embarca para fugirem desta ilha.
...«No dia seguinte o Rei voltou da caça às 5 horas. Depois do jantar foi à Ópera ouvir um pequeno «intermezzo» italiano, intitulado «La Cacina».

Alguns cartazes da época
JDACT
O gosto pela música era timbre da Família Bragança, atraindo-os em especial a ópera; foi aliás no Paço Ducal de Vila Viçosa que o duque D. João, futuro rei, promovera os primeiros espectáculos pré-operáticos. Os tradicionais «vilancicos» cantados nas noites de Natal e dos Reis, «tragicomédias», «zarzuelas» (memorável a de 1704 «Hazer de cuenta sin ia huéspede» a que assistiu D. Pedro II) prepararam a boa aceitação, em Setecentos, da nova expressão teatral em moda, de influência italiana, a ópera. Se até final do século XVII eram preferidas as composições espanholas, com o início do reinado de D. João V será a Itália que se vão buscar os libretos dos «intermezzi» de Il D. Chisciotte della Mancia (1728), «La Pazienza dì Socrate» (1733), «La finta Pazza» (1731) e «La Spinalba» (I739) representadas num palco improvisado do Paço da Ribeira.

O primeiro teatro de ópera italiana em Portugal será organizado pelo violinista da Capela Real de Lisboa, Alessandro Paghetti, na Academia da Praça da Trindade; a este se sucedem o Teatro Novo da Rua dos Condes, onde se representava «ópera séria» de compositores italianos e o Teatro do Bairro Alto, em que desde 1733 se representavam «óperas Portuguesas» de António José da Silva.
Em Março de 1755 inaugura-se o Teatro junto ao Paço da Ribeira, a «Opera do Tejo», segundo projecto do Arquitecto italiano Giovanni Carlo Bibiena, que o terramoto, sete meses depois, reduziria a cinzas.

Alguns cenários 
JDACT
Os teatros do Paço de Queluz, da «Quinta de Cima» da Ajuda e o do Paço de Salvaterra passam então a ser frequentados com maior assiduidade pela corte. Sobretudo o de Salvaterra não interrompe a sua actividade; no período conturbado que se seguiu à grande catástrofe, a corte acompanhando a Família Real manteve as deslocações àquela vila, no início de cada ano.
«Demetrius» teria custado ao Rei, em 1765, duzentos mil cruzados, diz-nos o citado viajante francês, sem comentários. Soma diminuta para o seu País, habituado há quase um século a espectáculos musicais que envolviam grande aparato, mas para o erário português era considerável dispêndio; Por este motivo o Rei determinava saíssem do seu «Bolsinho Particular» grandes reforços, permitindo que à ópera assistissem desde «os simples burgueses», diz-nos o viajante francês, «ao mais alto Senhor» que, obedecendo à pragmática, trajava comummente de «saragossa castanha»; "O Conde de Oeiras, o Duque de Cadaval e outros, não trazem outras casacas"...

As despesas com as óperas de Salvaterra estão detalhadamente documentadas no «Arquivo da Casa Real» oscilando o total, na década de 70, entre 20 a 25.000$000 anuais; as parcelas mais elevadas eram sempre a iluminação, as comedorias, o guarda-roupa e as ajudas de custo.
Duzentas e noventa moedas de ouro de quatro mil e oitocentos réis cada, foi o "cachet" do casal de artistas italianos Vitalba, em 1754, tendo direito ainda a viagens pagas e «casa armada» em Lisboa.

JDACT
Nas últimas décadas do século XVIII o guarda-roupa Para as principais óperas era executado em Milão, encomendado por intermédio de João Piaggio, cônsul de Portugal em Génova; os materiais para decoração da cena e adorno dos artistas são minuciosamente descritos na correspondência que acompanhava as «guias de remessa». De 1753 a 1792, foram representadas em Salvaterra 64 produções operáticas e ali actuaram os mesmos artistas dos restantes teatros régios.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

domingo, 11 de julho de 2010

Miguel Torga: Nasce em Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. As fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos. Évora e os seus monumentos atraem-no vivamente. Ela sintetiza a diversidade dos povo anteriores, latinos, mouros e os outros...

(1907-1995)
S. Martinho de Anta, Sabrosa
Cortesia de wikipédia 
Adolfo Correia da Rocha, que será conhecido por Miguel Torga, nasce em Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. Mesmo quando não referidos, estão sempre presentes o Pai, a Mãe, o professor primário Sr. Botelho, as fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos em que a região é pródiga. Emigra para o Brasil em 1920 onde trabalha na fazenda do tio. A dureza da «capinagem» do café. O tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores notam as suas capacidades.
Regressa a Portugal em 1925. Entra da Faculdade de Medicina de Coimbra. Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio brasileiro conclui a formatura em 1933.
Cortesia de portuguesferrol
A família é um dos pontos fulcrais da sua vida. O pai, com quem a comunicação se faz quase sem necessidade de palavras, é um dos fortes esteios da sua ternura, amor e respeito. Cortei o cabelo ao meu pai e fiz-lhe a barba.(...) Foi sempre bonito, o velhote... Recorda os braços do pai pegando pela primeira vez na neta, recém nascida. O mesmo amor em poemas dedicados à mãe. Por sua mulher e filha um afecto profundo, também.
Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:
  • Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.

O desejo de perfeição absoluta e de verdade:
  • Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...

Cortesia de academialiteraria
A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não porque atinja já uma idade relativamente avançada ou sofra de doença incurável. Na casa dos quarenta e até antes, já o envolvem. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.
No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos. O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.
Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.

Cortesia wikipédia
Os monumentos entusiasmam-no. Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis que fizeram construir o convento. Os monumentos paleolíticos fascinam-no.
«Sou uma encruzilhadas de duas naturezas». De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...
A sua desconfiança e menos paciência com os intelectuais é bastante viva: «converso até onde me vejo obrigado, (...) largo-o logo que posso e regresso a um convívio menos tenso e mais fecundo, (...) sem esperança nos letrados, (...) junto dos analfabetos encontro ainda o riso, a indignação, o espanto...»

Cortesia de desencontrarte
O Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, é um dos seus grandes amores. Sempre na sua alma viaja com ele, parece vê-lo em toda a parte. Surge a cada momento na sua prosa. Sempre enaltecida como terra de Deus e dos deuses. Não sendo apenas dele, sê-lo-á apenas dos que queiram merecê-lo. Assim o diz em Portugal, onde faz um quadro de outro dos seus amores: o país. Esta adoração conduz a excessos. No vizinho Minho mostra-se enfastiado com a presença permanente do verde. Desanimado, à procura de um Minho com menos milho, menos erva, menos videiras de enforcado. Encontra-o onde a relva dá lugar à terra nua, parda, identificada com o panorama humano. Ou seja: com o seu Trás-os-Montes natal. Nesse seu torrão vê o que os outros não conseguem ver. Um paraíso onde basta estender a mão e logo se desentranha em batatas, azeite, figos, nozes. Um sem número de outras riquezas e mimos que nenhuma imaginação descreve. Reconhece que o estar bem jantado é condição para admirar a beleza da cor e do relevo dos cumes das serranias...
O exagero atinge níveis que só a simbiose da paixão com a poesia e os sem limites da genialidade explicam. As rixas entre os naturais que às vezes se agridem, (...) que parecem feras, resulta de uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes...

Cortesia de maisevora
Évora e os seus monumentos atraem-no vivamente. Ela sintetiza a diversidade dos povo anteriores, latinos, mouros e os outros...
Um tanto estranhamente aceita o conceito da multicontinentalidade, embora temperado pelo seu humanismo universalista. Mais tarde vinca as diferenças de privilégios entre as duas etnias. Cada monumento, cada pedra, cada planície, o mar, a serra, desde que portugueses, são fervorosamente enaltecidos...
Um certo iberismo: a minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, (...) a telúrica nos Pirinéus. Não reflecte uma posição pela união política. É feito das própria referências a um legado cultural e um destino comuns. Em A Vida (Poemas Ibéricos) ao referir os povos vasco, andaluz, galego, asturiano, catalão e português, esquece os castelhanos. Colocando os heróis lado a lado, chama desumano e brutal a Cortez, enquanto de Albuquerque parece apenas que chora o seu chorar:

(...) Por isso a Índia há-de acabar em fumo
Nesses doirados paços de Lisboa;
Por isso a pátria há-de perder o rumo
Das muralhas de Goa.

Publicado antes do livro, nos Poemas Ibéricos sobressairá o que dedica a Lorca. Antecedendo o prefácio da sua mulher à edição bilingue (português e castelhano em tradução de Eugénio de Andrade), Torga diz trazer torgas à rosa de Granada e que virá enquanto houver poesia, vida e povo na Ibéria.
Coimbra é uma das ligações de Torga à vida. Aí estuda e, depois de 1939, aí exerce medicina, aí vive, aí a sua actividade criadora se revela como vulcão em permanente actividade. Tem as suas tertúlias e os seus amigos e passa todos os dias umas horas de cavaqueira com o seu amigo João Fernandes, antes de chegar ao Central, à Brasileira ou ao Arcádia. Coimbra suscita-lhe sentimentos opostos: paixão e timidez, a humildade e a desumildade, a (des)valorização do que está próximo. As suas posições políticas ligam-se aos seus conceitos criticas quanto ao ensino universitário de então. A Universidade, casarão para ensinar camponeses (...) defende-se de toda a originalidade ou pensamento subversivo (...). A mistificação da borla e capelo. Devoto de tudo o que é belo e monumental, no seu Portugal não tem uma palavra para a Igreja de Santa Cruz, para a Sé Velha, Almedina, Igreja de Santiago. Ou para as ruelas da Baixa, com o seu encanto especial que não deixa ninguém indiferente.

Cortesia de purl
A «tradição parola» explica este estado de espírito. Mais longamente exposto em trecho intitulado A Formatura transcrito em Memórias de Alegria, volume antológico organizado por Eugénio de Andrade, onde se fala das praxes e tradições do meio académico. Sempre as combateu abertamente. À capa e batina, símbolos anacrónicos, chama farda. Crime de lesa praxe, efectua o seu acto de formatura com o seu fato banal. Não evita que as suas vestes, conforme o costume, sejam rasgadas e destruídas pelos colegas.

Cortesia de placidooliveira
Mas Coimbra é um dos seus amores. Aí vive, trabalha e passa o seu tempo. A mais bela cidade do pais", (...) cenário para um perpétuo renascimento do espírito.
Não é fácil, com rigor, situar Torga politicamente. Antes do 25 de Abril, sem dúvida é um homem da oposição, do «contra». Várias prisões e algumas das suas obras apreendidas. Viajando a Paris aí convive com exilados que, em grande número, virão a constituir o Partido Socialista. Sugerem-lhe que com eles fique. Recusa com o argumento de que não se ajustará à distância do Pais. Volta, é preso e encerrado no Aljube. O passaporte é-lhe negado várias vezes.
Preside á primeira reunião do órgão regional do Centro do Partido Socialista. Esclarece que não é filiado, e que o faz na qualidade de homem socialista que sempre foi. É mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais (...) fraterno que disciplinadamente correligionário.

Cortesia de foranadaevaotres
Afirma que não será com sistemas e métodos alheios (...) que permaneceremos de bem com o nosso semblante constitutivo e lançados na senda progressiva da democracia, (...) só o conseguiremos mediante soluções originais. (...) O capitalismo não hesita mesmo diante de um leito de sofrimento; aponta a sua incorrigível voracidade e, em outro trecho, vê raízes judaico-cristãs no comunismo. Uns anos antes, a respeito dos intelectuais nos palcos da política, dissera: nada há de menos sociológico de que a aplicação a uma comunidade viva do estrito espírito do sistema. E acusa Sartre de ter posto o preconceito acima do conceito com o fim de promover a sua imagem, sem se importar de ter eventualmente corrompido gerações inteiras. A sua manifesta impaciência para com os políticos e o seu distanciamento do poder, concilia-se com afirmações de que tem uma raiz anarquista. Os seus sentimentos políticos lembram um socialismo proudhoniano, com fortes interacções de um anarquismo nobre, profundamente humano, não violento. Sempre em oposição com o poder constituído, pelo que o poder representa de afastamento do humano que lhe serve de suporte. O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares. A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição. Com ironia e descrença relata conversas que os políticos têm com ele, independentemente da convergência ou divergência no plano partidário.

Retrato de Miguel Torga a carvão de Isolino Vaz
Cortesia de cm-coimbra

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria. É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania.
Sobre a regionalização, pergunta:

  • o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?
Decide adoptar o pseudónimo de Torga. Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha autodefine-se pelo pseudónimo que criou, "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

Não escolhe o nome por acaso. Torga, ou urze, planta bravia, humilde, espontânea e com o seu habitat no chão agreste por todo o Portugal, mas particularmente nas serranias do norte, é o correspondente no reino vegetal dessa força que será o poeta e o prosador.
Mais que um prenúncio é todo um programa. Da insubmissão à própria natureza e, em todos os outros planos, humano, político, social, que constituirão a sua obra, plena de força, independência e intransigência. Contra todas as barreiras, vertentes aparentemente contraditórias mas que se complementam, expõe a sua verdade sem quaisquer restrições na apreciação de pessoas, acontecimentos e factos; não receia atacar o estabelecido ao mesmo tempo que não põe de lado conceitos conservadores em que acredita; altera as suas próprias posições desde que a "sua" verdade o exija. Não há uniformidade de critério possível perante a surpreendente e paradoxal diversidade da vida (Diário XII, p.133).
Na década de 20, as suas primeiras publicações, ainda estudante, são assinados por Adolfo Correia da Rocha, o nome de baptismo.
Adere, logo na fundação, ao grupo da Presença com a companhia dos grandes poetas do tempo. Sai em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo Betancourt, por considerar haver imposição de limites à liberdade criativa.
Equipara à morte a (má) sorte das posições sem relevo (Altitude). O esforço de todos os momentos da vida e na produção literária...
Funda com Branquinho da Fonseca uma nova revista, Sinal, que tem um percurso bastante curto. Mais tarde, com Albano Nogueira, uma outra, Manifesto. Efémera também.

Cortesia de pimentanegra
A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras trasmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da Natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da Natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a Natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à Natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a Natureza mau grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga fazem do homem único ser digno de adoração.
Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e carácter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas a gente pobre e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa.
Torga era conhecido popularmente nos meios intelectuais de Coimbra como o rei dos chatos.

Prosa:
  • 1931 - Pão Ázimo;
  • 1931 - Criação do Mundo;
  • 1934 - A Terceira Voz;
  • 1937 - Os Dois Primeiros Dias;
  • 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo;
  • 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo;
  • 1940 - Bichos;
  • 1941 - Contos da Montanha."Diário I";
  • 1942 - Rua;
  • 1943 - O Senhor Ventura. "Diário II";
  • 1944 - Novos Contos da Montanha;
  • 1945 - Vindima;
  • 1946 - "Diário III";
  • 1949 - "Diário IV";
  • 1951 - Pedras Lavradas. "Diário V";
  • 1953 - "Diário VI";
  • 1956 - "Diário VII";
  • 1959 - "Diário VIII";
  • 1964 - "Diário IX";
  • 1968 - "Diário X";
  • 1973 - "Diário XI";
  • 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo;
  • 1976 - Fogo Preso;
  • 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo;
  • 1982 - Fábula de Fábulas.
Peças de teatro:
  • 1941 - "Terra Firme" e "Mar";
  • 1947 - Sinfonia;
  • 1949 - O Paraíso;
  • 1950 - Portugal;
  • 1955 - Traço de União;
Poesia:
  • Frustração;
  • Liberdade;
  • Viagem;
  • Portugal;
  • Poema Melancólico a não sei que Mulher;
  • Quase um Poema de Amor;
  • Mãe;
  • Identidade;
  • Esperança;
  • Inocência;
  • Princípio;
  • Conquista;
  • Tempo;
  • Fraternidade;
  • Cântico de Humanidade;
  • Da Realidade;
  • À Beleza;
  • Aos Poetas;
  • Amor
... venha o anjo da visita e do poema,
 e traga o lume e a lenha
o incêndio pedido.
Em 1950 o Cântico do Homem, logo reeditado. Sem pôr de lado a resistência e a esperança, cântico de lamento da condição humana:
Mas o fruto humilhante da falência
Tem um azedo gosto que me excita
(...)
Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!

Não se confina aqui a produção poética. Em 1941 começa a publicação do Diário que, ao longo de dezasseis volumes, incluirá inúmeros poemas ao lado de prosa variada. Apreciação dos acontecimentos mais variados, introspecção intimista, poesia, crónica e análise política, social, critica de costumes, apontamentos de paisagem. Exame de culturas, impressões de viagem. Seria suficiente para que Torga fosse considerado dos maiores, não só do século, mas de sempre, não apenas português mas universal.
Jorge Amado considerá-lo-á acima dos prémios, inclusive do Nobel, para que é proposto em 1960. Sem êxito, possivelmente por interferências do Poder de então. Voltará a ser considerado uns anos mais tarde, não lhe tendo sido atribuído, como se sabe.
São-lhe entretanto atribuídos vários prémios:
  • Em 1976 o "Prémio Internacional de Poesia" de Knokke-Heist;
  • "Prémio Montaigne", da Fundação Alemã F.V.S;
  • Em 1989 o "Prémio Camões";
  • "Prémio Personalidade do Ano" (1991);
  • Prémio "Vida Literária" da Associação Portuguesa de Escritores, na sua primeira atribuição (1992);
  • Em 1969 o prémio literário "Diário de Notícias";
  • Em 1980, ex-aecquo com Carlos Drummond de Andrade, o "Prémio Morgado de Mateus".
Aos Poetas
Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.
Miguel Torga, in 'Odes'

Cortesia de vidaslusofonas/JDACT

sábado, 3 de julho de 2010

Gil Vicente: O Poeta da Virgem. Exprime-se de forma inspirada, dionisíaca, nem sempre obedecendo a princípios estéticos e artísticos de equilíbrio. É também versátil nas suas manifestações. Mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata

(1465?-1536)
Cortesia de wikipédia
Gil Vicente é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta de renome. Há quem o identifique com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano - partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina.
Cortesia de wikipédia
A obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.
A sua obra vem no seguimento do teatro ibérico popular e religioso que já se fazia, ainda que de forma menos profunda. Os temas pastoris, presentes na escrita de Juan del Encina vão influenciar fortemente a sua primeira fase de produção teatral e permanecerão esporadicamente na sua obra posterior, de maior diversidade temática e sofisticação de meios. De facto, a sua obra tem uma vasta diversidade de formas:
  • o auto pastoril;
  • a alegoria religiosa;
  • narrativas bíblicas;
  • farsas episódicas;
  • autos narrativos.

O seu filho, Luís Vicente, na primeira compilação de todas as suas obras, classificou-as em autos e mistérios (de carácter sagrado e devocional) e em farsas, comédias e tragicomédias (de carácter profano).
Cortesia de wikipédia
Contudo, qualquer classificação é redutora - de facto, basta pensar na Trilogia das Barcas para se verificar como elementos da farsa (as personagens que vão aparecendo, há pouco saídas deste mundo) se misturam com elementos alegóricos religiosos e místicos (o Bem e o Mal).
Gil Vicente retratou, com refinada comicidade, a sociedade portuguesa do século XVI, demonstrando uma capacidade acutilante de observação ao traçar o perfil psicológico das personagens. Crítico severo dos costumes, de acordo com a máxima que seria ditada por MolièreRidendo castigat mores» - rindo se castigam os costumes). Gil Vicente é também um dos mais importantes autores satíricos da língua portuguesa. Em 44 peças, usa grande quantidade de personagens extraídos do espectro social português da altura. É comum a presença de marinheiros, ciganos, camponeses, fadas e demónios e de referências – sempre com um lirismo nato – a dialectos e linguagens populares.

Entre as suas obras:
  • Auto Pastoril Castelhano (1502);
  • Auto dos Reis Magos (1503), escritas para celebração natalina;
  • Auto da Sibila Cassandra (1513), que, embora até muito recentemente tenha sido visto como um prenúncio dos os ideais renascentistas em Portugal, retoma uma narrativa já presente na General Estória de Afonso X;
  • A trilogia de sátiras Auto da Barca do Inferno (1516), Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519), considerada a sua obra prima;
  • A Farsa de Inês Pereira (1523);
  • Auto de Mofina Mendes, onde se inclui uma anunciação, de acordo com os temas marianos. Como aspectos positivos, a imaginação e originalidade evidenciada, o sentido dramático e o conhecimento dos aspectos relacionados com a problemática do teatro.

Alguns autores consideram que a sua espontaneidade, ainda que reflectindo de forma eficaz os sentimentos colectivos e exprimindo a realidade criticável da sociedade a que pertencia, perde em reflexão e em requinte. De facto, a sua forma de exprimir é simples, chã e directa, sem grandes floreados poéticos.
Cortesia de wikipédia
Gil Vicente exprime-se de forma inspirada, dionisíaca, nem sempre obedecendo a princípios estéticos e artísticos de equilíbrio. É também versátil nas suas manifestações. Se, por um lado, parece ser uma alma rebelde, temerária, impiedosa no que toca em demonstrar os vícios dos outros, quase da mesma forma que se esperaria de um inconsciente e tolo bobo da corte, por outro lado, mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata.
Cortesia de wikipédia
O seu lirismo religioso, de raiz medieval e que demonstra influências das Cantigas de Santa Maria está bem presente, por exemplo, no Auto de Mofina Mendes, na cena da Anunciação, ou numa oração dita por Santo Agostinho no Auto da Alma. Por essa razão é, por vezes, designado por «poeta da Virgem».
Cortesia de wikipédia
O seu lirismo patriótico presente em «Exortação da Guerra», Auto da fama ou Cortes de Júpiter, não se limita a glorificar, em estilo épico e orgulhoso, a nacionalidade: de facto, é crítico e eticamente preocupado, principalmente no que diz respeito aos vícios nascidos da nova realidade económica, decorrente do comércio com o Oriente (Auto da Índia). O lirismo amoroso, por outro lado, consegue aliar algum erotismo e alguma brejeirice com influências mais eruditas.
A obra de Gil Vicente transmite uma visão do mundo que se assemelha e se posiciona como uma perspectiva pessoal do Platonismo. «Existem dois mundos - o Mundo Primeiro, da serenidade e do amor divino, que leva à paz interior, ao sossego e a uma resplandecente glória, como dá conta sua carta a D. João III, e o Mundo Segundo, aquele que retrata nas suas farsas, um mundo todo ele falso, cheio de canseiras, de desordem sem remédio, sem firmeza certa». Estes dois mundos reflectem-se em temas diversos da sua obra. Por um lado, o mundo dos defeitos humanos e das caricaturas, servidos sem grande preocupação de verosimilhança ou de rigor histórico.

Vejamos alguns Autos, numa primeira abordagem.
Auto da Índia é uma peça de Gil Vicente. O Auto teve a primeira representação em 1509, em Almada perante a rainha D. Leonor. O Auto da Índia fala do adultério como consequência das viagens dos Descobrimentos. Constança, insatisfeita com seu marido e ao que tudo indica casada apenas por interesse, arranja dois amantes (um castelhano chamado Juan de Zamora e um português chamado Lemos) enquanto o marido está numa viagem com destino à Índia. A cena desenrola-se em sua casa, com a cumplicidade a contragosto de sua empregada, designada simplesmente por Moça, que tenta a custo defender a moral do seu Senhor. No final do auto o marido retorna à casa, e Constança, cheia de cinismo e falsidade recebe-o de braços abertos, pois este retorna cheio de riquezas.

O Velho da Horta. Esta farsa é o seu argumento que um homem honrado, já velho, tinha uma horta e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão, veio uma moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o velho em tanta maneira se enamorou dela, uma alcoviteira que um dia fora comprar ervas e vendo que o velho estava passando por um sofrimento, perguntou o que havera acontecido?. Vendo que o velho parecia estar realmente apaixonado ofereceu-se para ajudar a conquistá-la.  A alcoviteira ia até a um lugar, falava para o velho que tinha ido até lá para ver a mulher desejada, e toda vez que voltava falava que precisava de algo, e o velho gastando todas as suas economias. A mulher do velho logo descobre dessa suposta «traição». Logo aparece uma mocinha, a mando de sua tia para pagar uma conta na horta do velho. E descobriu através da mocinha que a moça se casara com um jovem da mesma idade. Então chega o delegado policial e prende a alcoviteira, que não devolve o dinheiro e é açoitada em praça pública. E o velho senhor acaba ficando pobre, sem família nem dinheiro, nem a moça por quem ele estava apaixonado.
Cortesia de wikipédia
Nesta farsa, Gil vicente retrata os infortúnios do amor de um velho que, ironizado pela moça, termina a peça revelando uma grande frustação. No entanto, a preocupação da farsa vicentina não se restringe ao amor incorrespondido, mas vai além da simples crítica social, atingindo as críticas morais, de interesses pessoais e, sobretudo, materiais. Ademais,revela com bastante fidelidade as ideologias e costumes desse periodo de transição para o Renascimento, mas que ainda conserva hábito como o açoite em praça pública, ato que ainda perpetuaria por muitos séculos adiante. Gil Vicente regista o comportamento e a idelogia do homem medieval, mas também já se prenuncia sobre as novas ideologias que estavam por iniciar uma nova página na história da literatura e da sociedade portuguesa.

Cortesia de História do Teatro/wikipédia/JDACT