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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Urbanismo na Composição de Portugal. Luísa Trindade. «De norte a sul domavam‑se terras incultas, secavam‑se pântanos e pauis, povoavam‑se matas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Luísa Trindade

«(…) Simultaneamente, a criação de uma marinha nacional permitia, finalmente, fazer frente a pirataria sarracena que ainda assolava as costas portuguesas, possibilitando a ocupação do litoral e a própria libertação do espaço marítimo para actividades primárias e comerciais. Mas a posse e defesa do território passava sobretudo pela ocupação humana, pelo povoamento concentrado de comunidades organizadas que reconhecessem no rei o seu senhor e no espaço habitado uma parte do reino. Por isso, no computo dos dois reinados, o numero de cartas de foral atingiu o maior volume até então registado e nunca depois ultrapassado. Em troca de privilégios e isenções, tanto mais significativos quanto repulsivo fosse o território, o rei exigia a fixação dos povoadores por um prazo previamente acordado, estabelecia os tempos para a edificação das casas e para o plantar das vinhas. De norte a sul domavam‑se terras incultas, secavam‑se pântanos e pauis, povoavam‑se matas. Por entre os direitos e deveres contratados de parte a parte definiam‑se mecanismos financeiros que permitissem o erguer de estruturas defensivas. As muralhas de pedra, as portas sobrepujadas pelas armas reais ou a presença protectora da torre de menagem, foram elementos cruciais para a captação dos povoadores, garantindo a salvaguarda de corpos e bens contra a violência e destruição provocadas pelos exércitos inimigos. Mas foram também símbolos desse mesmo poder real, que a época transformou em garante de ordem, não apenas contra as ameaças exteriores mas contra toda a injustiça.

O desenvolvimento dos mecanismos de enquadramento das populações, implementado extensivamente em todo o reino, mas com particular incidência nas regiões mais recônditas e periféricas, constituiu a condição necessária a execução de todo um conjunto de medidas que, simultânea e concomitantemente, possibilitaram o desenvolvimento económico do território e com ele o fortalecimento do erário régio. Bastara, como exemplos, destacar a progressiva eficácia e rigor do sistema de recolha de rendas, nas quais a moeda cada vez mais substituía as prestações em géneros, a instituição, em rede e de forma concertada, de dezenas de feiras ou a defesa e melhoramento de caminhos e a construção de pontes. De forma indissociável, para alem destas medidas que paulatinamente criavam um espaço nacional de comércio, incentivou‑se o comércio externo de que a criação da bolsa de mercadores, a utilização da frota marítima para o comércio com a Flandres e Génova ou a unificação do sistema monetário com a substituição do maravedi de ouro pela libra usada na Europa, constituíram pontos‑chave». In Luísa Trindade, Urbanismo na Composição de Portugal, Imprensa da Universidade de Coimbra, Tese de Doutoramento, 2013, ISBN 978-989-260-535-7.

Cortesia de IUCoimbra/JDACT

JDACT, Luísa Trindade, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Universidade, Coimbra,

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Urbanismo na Composição de Portugal. Luísa Trindade. «… próxima do poder, se detecta a consciência de que a Nação existe, tem já a sua coerência e a sua autonomia, os seus caracteres próprios, a sua capacidade de resistência… 1250‑1325…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Luísa Trindade

«Em 1990, num congresso dedicado ao monarca Afonso Henriques, realizado em Braga, A. H. Oliveira Marques proferia uma conferência onde, de forma breve mas incisiva, equacionava dois grandes momentos da História portuguesa: os reinados de Afonso Henriques e de Afonso III. As palavras com que finalizou resumiam expressivamente a questão que, de forma inusitada, lançava a assembleia: com Afonso III nascia de facto Portugal. Afonso Henriques, monarca portugales, cedia lugar a Afonso III, rei português. Continuando a seguir o mesmo autor, e esse pleno Reino de Portugal que aqui nos interessa tratar: o que nasce em meados do seculo XIII quando, com o termo da Reconquista, o espaço cristão se une definitivamente ao espaço muçulmano. O tempo forte que sucede à formação do reino e que é também a última etapa da composição inicial do país. Foi esse o termo, composição, que José Mattoso escolheu para subtítulo do II volume da sua obra Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal 1096‑1325. Não por acaso, o intervalo abordado terminava em 1325, ano da morte do rei Dinis I, quando, mesmo que ainda circunscrita a elite mais próxima do poder, se detecta a consciência de que a Nação existe, tem já a sua coerência e a sua autonomia, os seus caracteres próprios, a sua capacidade de resistência 1250‑1325: balizas de dois longos reinados em que o sentido geral da política e estratégia de âmbito territorial evoluiu sem solução de continuidade. O tempo forte em que a Reconquista pelas armas se seguiu uma outra conquista, desta feita interna, resgatando um território sob muitos aspectos desorganizado, com zonas de povoamento quase rarefeito, lado a lado com outras onde as comunidades gozavam ainda de forte autonomia ou se sujeitavam a poderes concorrenciais. Um território não totalmente conhecido e em grande parte subaproveitado. A chamada à guerra sucedia‑se, agora de forma sistemática e programada, o apelo ao povoamento, substituindo‑se a passagem rápida e esporádica dos exércitos por uma ocupação permanente do espaço. As hostes de cavaleiros e peões davam lugar aos pobradores, equipados com arados e enxadas.

Conhecer, delimitar e desenvolver economicamente o território foram as grandes linhas de força de toda a política implementada após 1250. Se, isoladamente, poucas seriam as medidas novas, a firmeza e a forma concertada com que a partir de então foram postas em prática, não encontra paralelo nos reinados anteriores. A concepção cesarista do estado, sustentada na aplicação do direito romano, e a construção de uma cada vez mais complexa máquina administrativa, indissociável da criação de uma nova nobreza de corte, zelosa e totalmente fiel ao rei, constituíram vectores inéditos, capazes de assegurar um efectivo controlo do território. Porque era disso que se tratava: fazer chegar a todo o reino o mando régio ou, como sugestivamente escreveu Armindo Sousa, por olhos, ouvidos e maos de rei, em todo o lado. Com Dinis I, o rei não era já apenas o mais poderoso de todos os senhores mas o único senhor de um território cujos contornos urgia conhecer e definitivamente fixar.

A itinerância da corte e a presença física do monarca, a multiplicação dos inquéritos gerais, gradualmente mais invasivos e consequentes, a atuação de mais e melhores funcionários régios com um poder fortalecido no domínio da escrita e na imposição de leis gerais, são apenas alguns dos aspectos que contribuíram para o conhecimento cada vez mais preciso do reino. Reino que, estabilizados os limites a sul, construía as suas fronteiras (vocábulo que, significativamente, se fixa nesta mesma altura) a leste e norte, definindo uma identidade por oposição ao outro, processo a que não terá sido alheia a criação da universidade ou a substituição do latim pela língua vulgar. A acção das equipas que, com marcos e malhões, demarcavam o território, assinalando a posse com as armas portuguesas e garantindo a sua estabilidade para além do tempo através dos registos oficiais, associava‑se a recuperação sistemática de todo um conjunto de fortalezas que, dotadas das mais avançadas técnicas de guerra, asseguravam a integridade do reino. No desenhar dessas novas linhas fronteiriças, erguiam‑se muitas outras materializando em estruturas físicas os limites negociados diplomaticamente, processo que culminaria nos anos em torno de 1297 e da assinatura do tratado de Alcanizes». In Luísa Trindade, Urbanismo na Composição de Portugal, Imprensa da Universidade de Coimbra, Teses de Doutoramento, 2013, ISBN 978-989-260-535-7.

Cortesia de IUCoimbra/JDACT

JDACT, Luísa Trindade, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Universidade, Coimbra,

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Lenda do Brasão de Coimbra. Leo Duarte. «Sobre o entablamento de cada portal ergue-se um segundo corpo em que se destacam, como motivos principais, as estátuas dos reis Dinis I e de João III, saídas do cinzel do imaginário Manuel Sousa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Lenda relatada originalmente por frei Bernardo Brito

História

«(…) Porta Férrea

A entrada para o Pátio das Escolas faz-se através da Porta Férrea, edificada nos anos subsequentes ao de 1633. Substituiu a velha porta medieval do paço, que era cingida por dois fortes torreões. O nome advém-lhe do forte portão e da bandeira de ferro que fecham o seu vão. Esta obra foi patrocinada pelo reitor Álvaro Costa, tendo ficado o projecto a cargo do arquitecto conimbricence António Tavares e a execução ao mestre construtor Isidro Manuel. Estilisticamente integra-se num maneirismo típico da região, ainda muita apegado às formas decorativas da Renascença.

A estrutura dos dois portais, o interior e o exterior, é a mesma, só diferindo em pequenos pormenores decorativos e na imaginária. Os vãos rectangulares são ladeados por partes de colunas coríntias e um amplo nicho nos inter-colúnios, que encerram figuras alegóricas das antigas faculdades: Medicina e Leis, no exterior; e Teologia e Cânones, no interior.

Sobre o entablamento de cada portal ergue-se um segundo corpo em que se destacam, como motivos principais, as estátuas dos reis Dinis I e de João III, saídas do cinzel do imaginário Manuel Sousa, igualmente autor das que encimam o frontão curvo interrompido e que simbolizam a Sapiência, figura emblemática da Universidade. O corredor de passagem é fechado por um artístico e pesado portão, sendo a cobertura abobadada e às quartelas.

Via Latina

Designa-se por Via Latina a elegante colunata erguida no eirado do paço quinhentista, em tempo do reitorado de Francisco Lemos, nos finais do século XVIII. A meio, destaca-se da linha geral da frontaria um corpo de aparato, cujo acesso se faz por uma escadaria nobre. É formado por três arcos altos que sustentam um frontão triangular com o escudo nacional, sobre o qual se eleva uma figura alegórica da Universidade. Este corpo inclui um conjunto escultório executado por Claude Laprade em 1701, no qual se pode admirar a imagem esculpida do rei José I, já saída das mãos de outro artista, quando da remodelação da Via Latina, ao tempo da Reforma Pombalina. Dois atlantes suportam um frontão curvo e, na base, podem ver-se duas graciosas figuras femininas evocadoras da Justiça e da Fortaleza.

Sala Grande dos Actos

Da Sala dos Archeiros tem-se acesso a um extenso corredor que possui varandas que dão para a Sala Grande dos Actos, mais conhecida por Sala dos Capelos. É aqui que ainda hoje ocorrem os mais importantes actos da vida académica, como a investidura dos Magníficos Reitores, a cerimónia de abertura do ano lectivo e os doutoramentos. Este amplo espaço foi primitivamente o salão nobre do Paço, remodelado na segunda década do século de quinhentos, pelo mestre arquitecto Marcos Pires. Em meados da centúria de Seiscentos foi definitivamente transformado pelo construtor António Tavares, o responsável por muitas obras na Universidade, nomeadamente a Porta Férrea. Estas remodelações foram levadas a efeito durante o reitorado de Manuel Saldanha.

A pintura do tecto, apainelado, é obra de Jacinto Pereira Costa, e as grandes telas com as figuras dos reis, de vários autores, sendo as dos anteriores a Afonso VI da autoria de Carlos Falch. Todas estas obras de pintura datam dos anos precedentes ao de 1655, e nelas trabalharam ainda Manuel Costa e André Almeida. Os azulejos, de magnífica policromia e do tipo tapete, foram fabricados em olarias lisboetas. A toda a volta da sala, no plano mais elevado, encontram-se os doutorais, grandes brancos corridos, onde só têm assento os Doutores durante as cerimónias académicas. No topo oposto à estrada, a meio, e também ao nível dos bancos, fica a cadeira reitoral onde o Reitor preside aos actos. Convidados e outras entidades ocupam o lugar dentro da teia, a nível baixo, ficando o resto da sala disponível para o público.

Sala do Exame Privado

Outra das dependências notáveis é a Sala do Exame Privado, remodelada em 1701 pelo mestre-de-obras da Universidade, José Cardoso. O seu principal motivo de interesse reside na decoração que consta de um lambril de azulejos executados pelo oleiro e pintor conimbricence Agostinho Paiva, e por um friso de pinturas retratando antigos reitores, sendo os que viveram antes de 1701 da autoria de António Simões.

A pintura do tecto foi obra do lisboeta José Ferreira Araújo, devendo-se as insígnias a João Vidal. Nesta empreitada trabalhou ainda o pintor Gonçalo Mesquita. A obra de carpintaria e a decoração em madeira correu a cargo do mestre Manuel Pereira. Todas estas obras foram patrocinadas pelo Reitor Nuno Silva Teles». In Leo Duarte, Lenda do Brasão de Coimbra, Pedro Dias, Coimbra, Arte e História, I.H.A., Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, 1988, Editora João Romano Torres, 1904-1915.

 

Cortesia de EJRomanoTorres/UdeCoimbra/JDACT

 

JDACT, Frei Bernardo Brito, Leo Duarte, Coimbra, Cultura e Conhecimento,

sábado, 30 de janeiro de 2021

Lenda do Brasão de Coimbra. Leo Duarte. «… estatutos elaborados e aprovados pela Assembleia da Universidade (eleita e representativa dos estudantes, dos docentes e dos funcionários) e pretende, sobretudo, ser um pólo de constante modernização»

Cortesia de wikipedia e jdact

Lenda relatada originalmente por frei Bernardo Brito

História

«(…) Hoje a Universidade de Coimbra, que compreende sete Faculdades, Letras, Direito, Medicina, Ciências e Tecnologia, Farmácia, Economia e Psicologia e de Ciências da Educação, e em breve contará com a oitava (a Faculdade de Educação Física e Ciências do Desporto), ultrapassou o espaço tradicional da Velha Alta, estendendo-se a novos pólos de desenvolvimento. Funciona com base nos seus próprios estatutos elaborados e aprovados pela Assembleia da Universidade (eleita e representativa dos estudantes, dos docentes e dos funcionários) e pretende, sobretudo, ser um pólo de constante modernização.

Mas este caminhar para o futuro não a faz esquecer as suas seculares tradições. A praxe académica adaptada às condições de vida moderna, as festas dos estudantes, nomeadamente a queima das Fitas (que simboliza o fim do ano escolar e, para muitos, o fim do curso), o fado, canção que se foi adaptando às novas realidades culturais e até políticas e sociais, os Doutoramentos solenes com o seu ritualismo próprio, as Repúblicas (residências autogeridas por estudantes) e a existência de uma Associação Académica forte, fazem da Universidade de Coimbra uma instituição muito peculiar e de características inigualáveis.

Pátio da Universidade


 

Colégio de S. Pedro

Situa-se imediatamente à esquerda da Porta Férrea e tem a sua fachada principal virada para o grande terreiro. O exterior do edifício, de linhas muito sóbrias bem próprias do maneirismo regional, apresenta o carácter que lhe conferiu recentes obras de restauro, levadas a cabo pelos Monumentos Nacionais, que estenderam o seu corpo no último terço, do lado do gradeamento.

Como principal elemento de carácter decorativo destaca-se o portal de aparato barroco, executado em 1713. O Colégio de S. Pedro ocupou os aposentos dos infantes do paço manuelino, por iniciativa dos governantes em tempo do rei Sebastião, albergando os candidatos às magistraturas superiores das Faculdades. Foi extinto em 1834 e, dois anos mais tarde, as suas instalações foram definitivamente integradas na Universidade. A partir de 1855, parte da construção foi reservada para residência da Família Real, quando esta ou algum dos seus membros estanciava em Coimbra, e também para residência dos reitores». In Leo Duarte, Lenda do Brasão de Coimbra, Pedro Dias, Coimbra, Arte e História, I.H.A., Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, 1988, Editora João Romano Torres, 1904-1915.

 

Cortesia de EJRomanoTorres/UdeCoimbra/JDACT

 

JDACT, Frei Bernardo Brito, Leo Duarte, Coimbra, Cultura e Conhecimento,

Leo Duarte. Lenda do Brasão de Coimbra. «Com o liberalismo de 1820 e com a sua institucionalização em 1834, a Universidade vai passar por tempos conturbados de conservantismo e de mudança, de crise e de dinamismo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Lenda relatada originalmente por frei Bernardo Brito

História

«(…) Expulsos os Jesuítas em 1759, ficaram vagas vastas dependências onde se instalaram algumas das novas faculdades e serviços de criação pombalina. São desta época, aliás de grande capacidade económica (João V e José I), alguns dos belos edifícios que, ainda hoje, marcam a vida da Universidade: a Torre e a Biblioteca Joanina, (do período pré-pombalino), o Museo de História Natural, o Laboratório Chímico e o Jardim Botânico.

Com o liberalismo de 1820 e com a sua institucionalização em 1834, a Universidade vai passar por tempos conturbados de conservantismo e de mudança, de crise e de dinamismo, de tentativas frustradas de reforma face ao governo, que manifestava compreensivelmente outras intenções no âmbito da política do ensino. Da década de 60 do século XIX ao advento da República (em 1910) movimentos académicos de grande significado, em que pontificavam ilustres vultos da nossa literatura, como Almeida Garret, Antero de Quental, João de Deus, Eça de Queiróz, entre outros, protagonizaram revoltas contra o conservantismo académico e o aparecimento de formas organizadas de associação como grupos dramáticos, literários e corais. Nesta época, situa-se também a fundação da Associação Académica (1887) que viria ao longo da sua existência a salientar-se pela contestação organizada contra o poder político na Universidade e fora dela afirmando-se, mesmo em tempos adversos, como um forte baluarte de autonomia e, através das muitas secções especializadas, como pólo difusor de uma vida associativa e cultural dinâmica.

Com a implantação da República (1910) o Estado, que apostava na democratização do ensino, incentivou e patrocinou a criação de outras Universidades em Lisboa e no Porto, ao mesmo tempo que se operavam algumas reformas na Universidade de Coimbra. Em 1911, um ano após a implantação do regime republicano, deixou de funcionar a Faculdade de Teologia, sendo criada a de Letras. As faculdades de Matemática e de Filosofia (natural) fundiram-se originando a de Ciências e foram instituídas as escolas de Farmácia e Normal Superior. A de Farmácia seria mais tarde elevada à categoria de Faculdade.

A ditadura militar emergente da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926 e a instituição do Estado Novo, em 1933, foram os grandes responsáveis pela amputação de alguns históricos edifícios da Velha Alta não escapando ao impiedoso camartelo igrejas, colégios renascentistas e casas manuelinas ou barrocas. No seu lugar foram implantados novos edifícios que marcaram o tipo arquitectónico característico da época. Nos aspectos científico e pedagógico assistiu-se também, nesta época, a uma preocupante cristalização. Que não era já possível ignorar os movimentos sociais, políticos, científicos e culturais vividos em toda a Europa, aperceberam-se, na década de 70, o então chefe do Governo, prof. Marcelo Caetano e o ministro prof. Veiga Simão. Viveu-se, assim uma tentativa de modernização da Universidade, surgindo cursos de sentido prático e tecnológico (em 1972 a Faculdade de Ciências passou a Faculdade de Ciências e Tecnologia e foi criada a Faculdade de Economia) e criando-se novas Universidades (Aveiro, Braga e Évora).

Os movimentos estudantis têm neste período grande expressão como formas organizadas de contestação e de luta por melhores condições para o ensino e também por ideais políticos e sociais. Com a Revolução de Abril, 1974, a Universidade como que explode, subindo em flecha o número de alunos inscritos. Instituem-se formas de funcionamento democrático e ressurge a luta pela conquista da autonomia que vem a concretizar-se em Setembro de 1989 com a aprovação, pela Assembleia da República, da Lei Quadro da Autonomia Universitária». In Leo Duarte, Lenda do Brasão de Coimbra, Pedro Dias, Coimbra, Arte e História, I.H.A., Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, 1988, Editora João Romano Torres, 1904-1915.

 

Cortesia de EJRomanoTorres/UdeCoimbra/JDACT

 

JDACT, Frei Bernardo Brito, Leo Duarte, Coimbra, Cultura e Conhecimento,

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Lenda do Brasão de Coimbra. Leo Duarte. «A Universidade foi fundada em 1290 pelo monarca Dinis I e transferida, definitivamente, para Coimbra, em 1537»

Cortesia de wikipedia e jdact

Lenda relatada originalmente por frei Bernardo Brito

«Ataces, rei dos Alanos, depois de destruir completamente a cidade de Conímbriga, decidiu fundar ou restaurar uma outra com o mesmo nome na margem direita do Mondego. Quando Ataces andava a dirigir a edificação dessa nova Coimbra, eis que subitamente surge o rei suevo Hermenerico com seu exército, para dela se apoderar e se vingar de derrotas sofridas. O combate que se travou entre as duas facções foi de tal modo sanguinolento que as águas do Mondego se tingiram de vermelho!

Hermenerico retirou-se para o Norte, mas Ataces foi em sua perseguição e o rei suevo viu-se forçado a pedir a paz. Para tanto, ofereceu ao vencedor a mão da princesa Cindazunda, sua filha. Como é de regra em tais casos, diz a lenda que Cindazunda era extremamente bela e que Ataces logo dela se enamorou. Vem o régio par de noivos a caminho de Coimbra, acompanhado de sogro e pai, e em breve se realizam os esponsais e bodas, com a magnificência devida.

Para comemorar tão extraordinário acontecimento, Ataces concedeu à cidade de Coimbra o brasão que ainda hoje se mantém no fundamental. A donzela coroada é Cindazunda; a taça representa o seu casamento com Ataces; o leão é o timbre de Ataces; o dragão o timbre de Hermenerico.

A história escreveu-se com sonoridades celtas até ao século II a C., século marcado pela chegada dos romanos e da qual ficaram até aos nossos dias sinais de uma cultura grandiosa que podemos admirar no Criptopórtico da Civitas Aeminium que hoje integra o Museu Nacional de Machado de Castro. Coimbra fez-se depois mourisca e já Almedina era o nome da cidade dentro das muralhas, quando chegou o tempo da afirmação da Fé Cristã pela Reconquista. As urbes protegiam-se então à volta dos templos, e Coimbra, por vontade do rei Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, viu nascer em 1131 o Mosteiro de Santa Cruz e fez-se cidade, berço de Reis.

A Sé Velha, sagrada em 1184, testemunha ainda hoje o imaginário da Arte Românica. Mas Coimbra deve aos monges de S. Bento e de Cister os mosteiros e conventos de grande sobriedade, onde a luz iluminava paredes nuas e arcos elevavam as construções a Deus. Santa Clara-a-Velha, que é deste tempo, testemunhou sempre a devoção que o povo prestava à Rainha Dona Isabel de Aragão, que o tempo tornou Santa. Foi em Santa-Clara-a-Velha que viveu Inês de Castro, essa bela mulher por quem Pedro I se tomou de amores. E foi também aqui que Afonso IV mandou executar dona Inês e iniciou assim a mais trágica e imortal história de amor escrita em Português.

Mas é o Renascimento e a Universidade que distinguem, secularmente, Coimbra. A Universidade foi fundada em 1290 pelo monarca Dinis I e transferida, definitivamente, para Coimbra, em 1537. Várias salas abertas hoje a turistas reflectem ainda a altivez de tempos idos em que madeiras exóticas e ouro do Brasil decoravam os espaços mais sublimes. Em meados do século vinte deu-se, talvez, o maior crime arquitectónico da cidade, quando Oliveira Salazar ordenou a destruição da velha Alta e nela construiu as faculdades e departamentos que hoje conhecemos ao longo da Rua Larga. Foi um período de mudança, mas que sem dúvida permitiu a expansão da Universidade a novas áreas de estudo e a mais estudantes que deram e continuam a dar a Coimbra fados e baladas, livros e poemas, sonhos e Saudade.

História

Data de 1 de Março de 1290 o diploma do rei Dinis I que anuncia a constituição do Estudo Geral. Assim foi fundada a Universidade que a bula do papa Nicolau IV confirmou em 9 de Agosto do mesmo ano. Nela funcionavam todas as faculdades lícitas: Cânones, Leis, Medicina e Artes. Exceptuava-se Teologia (só criada perto de 1380). Tendo alternado o seu funcionamento entre Lisboa e Coimbra, fixou-se definitivamente nesta cidade em 1537, por decisão do rei João III, que ao mesmo tempo a reformou profundamente. Foram então criados vários colégios, entre os quais o das Artes, o de São Paulo e o de São Pedro, que se estende a sul da Porta Férrea, com funções de ensino, pensionato e assistência. Durante o reinado de José I (1750-1777) começa a sentir-se em Portugal o absolutismo esclarecido, que protagonizou uma das mais importantes reformas universitárias. Ela ocorreu em 1772 e anos seguintes e teve como principais intérpretes o poderoso ministro marquês de Pombal, que fora nomeado Visitador da Universidade, e o Reitor-Reformador Francisco Lemos. Novos estatutos foram entregues solenemente por Pombal em 29 de Setembro de 1772, e a partir dai, começam a surgir as marcas da reforma pombalina». In Leo Duarte, Lenda do Brasão de Coimbra, Pedro Dias, Coimbra, Arte e História, I.H.A., Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume IV, 1988, Editora João Romano Torres, 1904-1915.

 

Cortesia de EJRomanoTorres/UdeCoimbra/JDACT

 

JDACT, Frei Bernardo Brito, Leo Duarte, Coimbra, Cultura e Conhecimento,

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Início da Expansão
«(…) De uma forma geral é aceite que a expansão portuguesa se divide em cinco grandes grupos geograficamente distintos: o norte de África, as ilhas atlânticas, a costa africana, o Oriente e o Brasil. No norte de África o domínio português, que se iniciou no princípio do século XV, é marcado em termos urbanos sobretudo pela construção de fortalezas. A actuação nesta altura é marcada, não por uma acção planificada no sentido de uma política urbanizadora, mas sim por um sentido defensivo cujo interesse passava por razões estratégicas. Contemporânea à ocupação do Norte de África é a ocupação das ilhas atlânticas. Com o objectivo de futuros empreendimentos ligados ao interesse de chegar à Índia, a criação de uma rede urbana ligada pela navegação originou o interesse e a colonização das ilhas. Estas, em oposição aos estabelecimentos do Norte de África, reflectem uma forma de urbanização, claramente com um sentido colonizador, idêntica ao que se praticava no continente. A ocupação dos arquipélagos atlânticos iniciou-se na Madeira em 1422, seguindo-se as Canárias 1424, os Açores em 1439, depois Cabo Verde em 1462 e finalmente São Tomé em 1485. Com base na agricultura destinada à exportação, introduziu-se o açúcar, o vinho, as plantas tintureiras e o trigo, sendo estas culturas introduzidas durante a primeira fase de ocupação. As cidades que mais se desenvolveram nestes arquipélagos durante os séculos XV e XVI foram, na Madeira, a cidade do Funchal; no arquipélago dos Açores, as cidades de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada; no arquipélago de Cabo Verde, a cidade da Ribeira Grande (embora, só até ao século XVII, tendo-se verificado o seu declínio a partir dessa altura); e no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a cidade de São Tomé e Santo António.

As cidades das Ilhas Atlânticas de Origem Portuguesa. Funchal, Angra do Heroísmo e Ribeira Grande.
Como já foi referido é comummente aceite que a prática que se processava no continente foi de certa forma exportada para as cidades da expansão. Certamente que a tradição e prática que se processava no continente na época (século XV), e em épocas anteriores (séculos XIII e XIV) e posteriores (século XVI), foi o modelo que lhes serviu de base. Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente. Através da análise da evolução do traçado urbano e de alguns elementos da morfologia do tecido urbano (estrutura de quarteirões, ruas e largos, implantação de edifícios de grande significado e pontos defensivos), apreendeu-se um conjunto de traços comuns às três cidades.

Evolução da Estrutura Urbana
Nas três cidades estudadas a malha urbana nasce a partir de uma rua principal que une dois núcleos urbanos, constituindo esta o elemento gerador e estruturador da referida malha urbana. Para a cidade do Funchal sabemos que a cidade teve origem em dois núcleos urbanos: no núcleo primitivo de Santa Maria do Calhau (onde se ergue a igreja de Santa Maria) e em Santa Catarina onde o capitão mandou erguer a sua casa. O núcleo de Santa Maria do Calhau definiu-se a partir de uma igreja e de um largo que lhe estava associado e de uma rua paralela ao mar, a Rua de Santa Maria. Esta rua, paralela ao mar, existia entre o largo da igreja (junto à Ribeira de Santa Luzia) e a zona onde existe o forte de S. Tiago. Para o lado poente da Ribeira de Santa Luzia e no seguimento da Rua de Santa Maria desenha-se, nesta fase de desenvolvimento, a Rua de Santa Catarina (posteriormente designada Rua dos Mercadores e depois Rua da Alfândega) ligando os dois pólos primitivos, de Santa Maria do Calhau e de Santa Catarina. A este tipo de desenvolvimento corresponde uma estrutura alongada no sentido da costa, percorrendo toda a zona junto ao mar.
Também para a cidade de Angra se reconhece um crescimento deste tipo. Assim temos que o primeiro núcleo urbano se desenvolveu no alto de uma colina no lugar onde se ergueu a primeira fortaleza. Paralelamente a este núcleo desenvolve-se um outro (S. Pedro) do lado oposto da baía de Angra para o lado poente. A ligar estes dois núcleos desenvolve-se uma rua, a actual rua da Sé que liga o núcleo do castelo a S. Pedro. Com o desenvolvimento do porto na zona baixa da cidade houve necessidade de ligar o castelo e o cais. É então que se assiste a um novo crescimento linear através da Rua de Santo Espírito, mas este ao contrário do que acabamos de ver para o Funchal é um crescimento linear, neste caso, perpendicular à costa». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista»

Cortesia de wikipedia e jdact

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
«(…) De resto, mau grado a precocidade da referência à paróquia de Marvila, em 1186, é indiscutível que nos decénios seguintes se observava ainda nas proximidades deste templo uma malha cadastral frequentemente interpolada por espaços vazios, denunciados pelo topónimo Pedreira ou pela doação de um ferragial em 1251, localizado a Este da igreja paroquial. Estes dados não permitem perspectivar a elevada densidade construtiva que seria espectável numa antiga medina. Pelo contrário, levam-nos a concordar com Ângela Beirante quando concluiu, a partir dessas referências documentais que a valorização de Marvila parece posterior à Reconquista. O registo arqueológico também não sustenta uma intensa ocupação do espaço nos séculos XI e XII. Resumindo-se praticamente à identificação de silos, que no momento em que a sua funcionalidade primária se esgotou foram colmatados com sedimentos que embalaram materiais de cronologia islâmica, a sua presença deve ser também encarada com precaução. Se em 2002 se verificava que no planalto de Marvila (…) nunca foram encontradas quaisquer estruturas de carácter habitacional ou outro, para além das fossas escavadas na rocha, a que habitualmente se chamam silos, as publicações posteriores sobre escavações na cidade não alteraram esse panorama (um artigo inserto na colectânea Santarém e o Magreb refere uma cisterna islâmica na Praça Sá da Bandeira sem no entanto apresentar qualquer comprovação material ou estratigráfica da cronologia proposta).
A permanente glosada aptidão cerealífera das planícies aluviais ribatejana e a sua posição, no cruzamento de importantes vias terrestres e fluviais dinamizariam em muito a propensão comercial da cidade, especialmente potenciada durante os primeiros séculos de domínio islâmico, período em que a linha de costa sofreu vários raides marítimos de que são exemplos as incursões normandas, enquanto a relativa interioridade de Santarém a tornou menos exposta a esta conjuntura de instabilidade militar (situação entretanto normalizada pela organização das defesas marítimas pelos califas omíadas nos finais do século X). Nesta perspectiva a frequência de covas de pão poderá significar não uma ocupação residencial generalizada mas antes a adscrição de amplas áreas ao armazenamento de produtos agrícolas.
A julgar pelos contextos arqueológicos estudados e já publicados, verifica-se de facto que nas duas centúrias que antecederam a conquista de Afonso Henriques, muitos silos foram abandonados, o que poderá denunciar um decrescimento dos excedentes agrícolas armazenados na vila. Uma explicação razoável para este processo seria a afirmação crescente da função comercial de Lisboa que passaria a redistribuir as produções do termo de Shantarin, embarcadas directamente na Ribeira. Muito embora a verificação desta tese só possa ser realizada com um estudo comparativo, que se afasta do propósito deste artigo, enquadra-se perfeitamente na imagem transmitida pelas fontes geográficas islâmicas coevas, que ilustra um processo de hierarquização dos pólos urbanos do Vale do Tejo, com vantagem para a cidade do estuário durante os séculos XI e XII.
Em conclusão, no actual patamar da investigação, cremos que o povoamento durante época islâmica estaria concentrado entre a Alcáçova e a necrópole agora identificada, enquanto a ocupação no planalto de Marvila, a existir, seria certamente muito incipiente. Os quatro a seis hectares ocupados pela cidade alcandorada, permitem perspectivar uma urbe de reduzidas dimensões (foi já sugerida uma área de 30 hectares, dos quais dois terços corresponderiam ao planalto de Marvila) quando comparada com as suas congéneres plenamente mediterrânicas como Sevilha ou Huelva, mas perfeitamente condizente com o seu posicionamento na periferia geográfica e política da rede urbana do Garb Al-Andaluz. E seriam ainda complementados pela área ocupada pela Ribeira. Muito embora seja necessário sistematizar as informações relativas ao arrabalde portuário, a sua importância para a dinâmica da urbe é revelada pela construção de uma muralha em época islâmica, sendo verosímil que a contabilização da sua malha cadastral faça triplicar o valor global (na Baixa Idade Média estendia-se por 10 há).
Como bem realçou Mário Viana é nesta dicotomia fortaleza/porto que a feição urbana da cidade deve ser entendida, afirmando-se como centro de consumo e plataforma de redistribuição comercial dos proventos da exploração agrícola, numa área cujas potencialidades de rendimento dinamizavam a estruturação de uma densa malha de pequenos núcleos de povoamento, glosada pelas fontes árabes e sugerida pela toponímia e que a arqueologia começa, ainda que timidamente, a comprovar (recentemente foi identificado um núcleo de povoamento rural islâmico junto a Muge, que se terá estruturado no século X). Este esquema de povoamento, com forte humanização dos campos no hinterland da cidade, poderia mesmo explicar a tardia urbanização de Marvila, só possível com um crescimento demográfico pós-reconquista, alimentado por uma eventual concentração populacional no centro urbano (a apropriação por parte dos monarcas da primeira dinastia de grandes parcelas de terreno junto ao Tejo poderia dinamizar o abandono de pequenos povoados estruturados em torno da sua exploração. Sobre as quezílias em torno das lezírias ribatejanas) e pela documentada chegada de colonos setentrionais, certamente atraídos pela produtividade das aluviões do Tejo mas também pela proximidade com as urbes meridionais que ainda hasteavam a bandeira do Crescente, repletas de recursos ao alcance de uma cavalgada estival». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

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Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «… dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques…»

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«(…) Assim, as tropas muçulmanas terão acampado no planalto de Marvila, en la montaña que domina a Santaren y esta contigua a ella, destruindo algumas construções no exterior das muralhas e preparando a partir daí o assédio às fortificações da cidade. Depois atacaram o complexo de Alpran, que transpuseram sem grande dificuldade, sendo que os seus defensores se salvaram in extremis, recolhendo ao interior da muralla de la alcazaba. A memória cronística portuguesa de Quatrocentos, muito embora apresente um versão diferente dos sucessos militares, também não nos afasta dessa interpretação registando que no contexto desse ataque o rei Sancho se fortificara não dentro nos muros da Villa, nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, mas antes se susteve sempre nos arrabaldes da Villa em palanques, e estancias, que com madeiras somente afortalezou. Consideramos que os primeiros muros mencionados por Rui de Pina correspondem a Alporão, sendo claro que a Alcáçova é um espaço militar individualizado materialmente, mas que não teria castelo. Já os palanques mencionados poderão significar uma reactivação da barbacã de terra batida almorávida, reforçada por estruturas em materiais perecíveis.
Verifica-se portanto que constituem informações absolutamente coincidentes com o sistema defensivo construído entre 1111 e 1147 descrito na DES. Registe-se também que ambas as descrições da ofensiva almóada relatam algumas estruturas habitacionais no planalto de Marvila, embora sejam unânimes em considerá-lo como arrabalde. Os desenvolvimentos posteriores à incursão almóada de 1184 são concordantes com a imagem esquemática do espaço urbano e peri-urbano fornecida pelas fontes já citadas. Muito embora a cidade tenha resistido, as fragilidades reveladas pelo sistema defensivo terão compelido o monarca Sancho I a reestruturá-lo (a fonte árabe afirma que transpuseram a linha de Alpram, enquanto as fontes cristãs oferecem a versão de que D. Sancho aguentara no palanque até à chegada de reforços. Da síntese destes dois testemunhos, a fragilidade da linha de Alporão sai relevada: o monarca português sentiu necessidade de reforçar a defesa no seu exterior). Nesse sentido se deverá entender a implantação topográfica do conjunto claustral de S. João de Alporão, junto das portas homónimas, reforçando portanto a sua protecção com um contingente de Hospitalários que na década de 80 do século XII eram presença cada vez mais frequente e eficaz nas campanhas militares portuguesas.
No entanto, a premissa fundamental seria obstaculizar a penetração de comitivas inimigas no planalto de Marvila, pelo que se iniciara a edificação de uma terceira linha de muralhas como demonstram as referências ao muro de Marvila em 1191 e às portas de Atamarma em 1218 e de Manços em 1232, sucessão cronológica que parece comprovar que este novo projecto construtivo se constituiu como uma reacção à aparente facilidade com que os almóadas assediaram a linha de Alporão e ameaçaram a Alcáçova.

A expansão urbana nos finais do século XII. A densificação construtiva no planalto de Marvila
Na sequência das informações documentais e arqueológicas que fomos tratando parece-nos prematuro defender que Marvila se tenha afirmado como centro cívico, religioso e comercial durante o domínio muçulmano. Em primeiro lugar pela conhecida aversão a vizinhar com áreas de necrópole que se encontrava, durante o século XI senão em utilização, certamente visível a cerca de 120 metros. Depois porque nos parece inverosímil que o poder almorávida deixasse sem protecção a zona mais nobre da cidade. Por último, as crónicas cristãs e árabes são consensuais em afirmar que os combates de 1184 decorreram num espaço de arrabalde, realçando a sua exterioridade face ao núcleo mais urbanizado». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

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Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra…»

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«(…) Recuperada pelos Almorávidas em 1111, a estratégia de Afonso Henriques durante os decénios seguintes, nomeadamente a fortificação de Leiria em 1135, anunciava um ataque eminente a Shantarin (de acordo com a Crónica de Afonso VII, a fortificação teria como objectivo  combater tanto Santarém como Lisboa e Sintra e outros castelos dos Sarracenos que estão na região. Mesmo não levando o carácter ofensivo deste castelo à letra, é indubitável que as guarnições de Leiria garantiam a defesa de Coimbra, mas podiam também assediar facilmente a linha do Tejo).
O relato da tomada de Santarém undecentista (De expugnatione Scallabis, doravante DES), regista indubitavelmente a reacção a essa conjuntura por parte do poder almorávida que criara em Alporão em data anterior a 1147, uma linha protectora composta por muralhas, torres e um baluarte, possivelmente antecedido por uma barbacã em terra batida (o governador almorávida ordenara o aterro dos fossos antigos até acima, à laia de um monte, com terra trazida às costas dos cativos), edificada com o entulhamento de um complexo defensivo anterior composto por fossos ou estruturas positivas (as leituras do documento latino não são consensuais, sendo que alguns autores referem entulhamento de fossos e outros de muros. Embora não dominemos o latim, parece-nos mais provável o transporte de terra para o interior de uma estrutura negativa, do que para cobrir uma muralha anterior. Adicionalmente, o acompanhamento arqueológico das ruas João Afonso\ 1º de Dezembro, registou duas estruturas negativas de grandes dimensões, escavadas no sentido Este-Oeste, colmatadas em período tardo-islâmico, uma delas junto da igreja de Marvila. Muito embora afastadas de Alporão, podem ser vestígios de um primitivo sistema defensivo que dificultava a progressão pelo planalto. Agradecemos a informação a Helena Santos que também coordenou esta intervenção). Este complexo defensivo foi portanto erigido poucos metros a oriente da área da intervenção arqueológica e poderá relacionar-se directamente com o terminus das inumações nesse espaço, que passaram a estar localizadas no interior do perímetro amuralhado. No entanto, reafirmamos que não foram registados indícios de urbanização anteriores à conquista cristã, o que sugere uma inexistência ou uma reduzida densidade construtiva na área, pelo que esta segunda linha de muralhas, mais do que defender contingentes populacionais significativos, teria como objectivo imediato criar um primeiro impedimento à progressão de beligerantes nas cotas mais elevadas da urbe.
Da mesma maneira que o campo cristão não esquecera que Afonso VI só conseguira tomar a cidade pela fome, o governador almorávida consideraria fundamental impedir que um eventual exército cristão levantasse cerco junto dos muros das Alcáçova. De facto, se os sitiados se circunscrevessem aos 4 hectares da alcáçova, para além de mais facilmente serem atingidos por projécteis arremessados do exterior, o acesso a recursos alimentares seria dificultado: o relevo envolvente dificultaria sortidas esporádicas e o espaço disponível para o armazenamento de víveres num momento prévio ao cerco seria bastante reduzido (nos finais da década de 80 foram escavados 26 silos islâmicos na alcáçova em apenas 36 metros quadrados, o que demonstra a concentração destas estruturas de armazenamento. Pelo menos neste ponto da Alcáçova estavam esgotadas as capacidades de armazenamento, não sendo possível abrir novas estruturas sem interceptar as existentes).
Os dados disponíveis parecem confirmar esta linha de interpretação e permitem perspectivar que em 1147 existiriam duas linhas defensivas autónomas. É certo que a DES regista que Afonso Henriques, investindo pela direita em direcção às portas de Alporão acabou por entrar pela porta da cidade, com muito maior segurança, o que sugere a existência de uma só cintura defensiva, sem separação material entre aquela entrada e a Alcáçova, tomada assim pela ardilosa penetração de uns poucos guerreiros. No entanto, cremos bastante plausível que o panegírico de um monarca que escorava o seu prestígio na proficiência militar, tendesse a abreviar os factos que conduziram à captura da cidade, concentrando-se exclusivamente na acção bélica mais espectacular, olvidando uma eventual entrega pacífica da Alcáçova (de acordo com José Mattoso, a rapidez da conquista, a sobrevivência de muitos habitantes, que rumaram posteriormente a Lisboa e o fraccionamento interno da sociedade local, indiciam que poderá ter havido conivência da parte de alguém da cidade, facilitando a entrada de Afonso Henriques), que se encontrava indiscutivelmente cercada por muros (as derrocadas do esporão, que reduziram sucessivamente a sua área, impedem a identificação rigorosa de um traçado romano, mas certamente estaria já cercada em período baixo-imperial), como nos demonstra a descrição da ofensiva almóada de 1184». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

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Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII). A necrópole visigoda e islâmica de Alporão. Marco Liberato. «Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito…»

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«(…) Dada a implantação tipificada para as necrópoles islâmicas, invariavelmente no exterior da cidade dos vivos (as excepções admitidas estavam reservadas a personagens de elevado estatuto social, como elementos da família real ou em situações de assédio militar à cidade), é seguro que a zona a este de Alporão se manteve vazia de construções durante os primeiros séculos após a integração da cidade nos domínios muçulmanos uma vez que as inumações continuaram, interceptando frequentemente os contextos funerários anteriores. Os seus aspectos formais são absolutamente consonantes com os rituais prescritos pela religião do Corão, uma vez que os cadáveres foram depositados em decúbito lateral direito, no interior de simples fossas escavadas na rocha, não se detectando qualquer espólio votivo associado.
No entanto, se bem que todos os enterramentos identificados partilhassem as características mencionadas, verifica-se que alguns deles, restritos à secção Norte da área intervencionada, têm uma orientação ligeiramente desfasada da posição canónica, estando orientados Norte/Sul, com a face virada a Nascente. Já no quadrante sul e sueste da área intervencionada, todos as sepulturas estão dispostas na direcção NE/SW que no Al-Andaluz garantia um correcto alinhamento com a quibla (a sua direcção astronómica encontra-se em torno dos 100 graus, mas era considerado válido qualquer ponto no quadrante SE). Obviamente que os períodos de transição tendem a originar situações de heterodoxia, quer pela natural vigência de soluções de continuidade, quer pela reduzida intensidade dos novos comportamentos e opções culturais. O incremento da actividade arqueológica das últimas décadas tem-se revelado fundamental para revelar, ainda que timidamente, o conspecto material dessas alterações. A mesma hesitação na orientação dos enterramentos de período islâmico tem sido referenciada em assentamento rurais, estruturalmente menos permeáveis às mudanças culturais, como no sítio do Vale do Bouto, Loulé, onde algumas inumações em decúbito lateral continuaram a ser orientadas E-W, mas também em povoações marcadamente urbanas como Mértola, onde 13% dos esqueletos do Rossio do Carmo estão, à semelhança dos identificados em Santarém, depositados no sentido Norte-Sul.
Em ambiente urbano, o desajustamento da orientação nos primeiros momentos da presença islâmica pode ser explicado pela conversão de templos anteriores em mesquitas, o que implicava um desajustamento da quibla face à sua direcção astronómica e cartográfica. É certo que frequentemente o mirab era colocado na parede Sul por una aversion a orar hasta Este (a imitar a los cristianos), mas possivelmente, em especial nas cidades mais afastadas dos centros políticos e religiosos do Al-Andaluz e/ou junto de comunidades recentemente islamizadas, as igrejas poderão ter sido utilizadas sem alteração, o que explicaria a orientação N/S de algumas das sepulturas de Santarém e também de Mértola. Só a construção ex-novo de templos permitiria orientá-los perfeitamente para Meca pelo que a construção da mesquita aljama de Santarém pelo califa Hisam II, no século X, poderá ter contribuído para normalizar o ritual funerário, difundido definitivamente a solução canónica por todos os necrotérios da cidade.
Este espaço de necrópole foi abandonado ainda durante o domínio islâmico, uma vez que vários enterramentos foram interceptados por estruturas negativas, correspondendo certamente a silos, posteriormente reconvertidos em lixeiras e entulhados com despejos domésticos. Muito embora seja necessário sistematizar o estudo de todos os materiais arqueológicos recuperados no seu interior, a datação contextual da última utilização de algumas estruturas aponta para um período entre a segunda metade do século XI e a centúria seguinte.

A reorganização funcional nos séculos XI-XII
Consideramos que amortização da função funerária neste espaço não estará relacionada com um processo de expansão do tecido urbano, mas antes com os equilíbrios geoestratégicos observados no extremo ocidental da Península e que colocaram Santarém, precisamente nessa cronologia, na linha da frente dos confrontos entre as unidades políticas que se digladiavam pela sua administração. O sinal de alerta definitivo para o campo muçulmano terá sido a integração durante 18 anos da cidade nos domínios leoneses». In Marco Liberato, Novos dados sobre a paisagem urbana da Santarém medieval (séculos V-XII), a necrópole visigoda e islâmica de Alporão, Revista Medievalista, Nº 11, 2012, ISSN 1646-740X.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões»

Cortesia de purl

«[…]
Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, neste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.

Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veio a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo Rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao Rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o Rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto.
Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o Rei, porem, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo:

Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Alem disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.

O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões. Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame:

Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há-de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.

E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer.

Quanto ás coudelarias militares ou antes potrís eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.

No tocante à questão das subsistências, o Rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT