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sexta-feira, 20 de março de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). O Descobridor de ilhas. O Visionário de um continente cheio de riquezas. Ilídio Amaral. «… podendo comparar-se aos tres más insignes descubridores que ha habido en el mundo: Colón, Gama y Magallanes…»

jdact

Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«(…) Pelas suas descobertas e visões sobre o que não descobrira Queirós comparava-se a Cristóvão Colombo, figura a que ele se referia muitas vezes. Concluída a viagem de 1605-1606, regressado a Espanha e mantido em Madrid, foi escrevendo Memoriales, sem ver atendidos os seus pedidos de meios para voltar ao Pacífico, para descobrir, de facto, o continente austral e levar gente para construir colónias e assim consolidar a posse dessas terras pela coroa e dilatar a fé cristã, sem tirar disso qualquer proveito económico pessoal. Por outro lado, seria a forma de evitar que ingleses e holandeses que já sulcavam os mares de uno y outro polo y que de levante a poniente han taladrado el mundo se lançassem na colonização das terras austrais. Queirós não percebia porque motivos lhe estavam a ser negados os meios que tinham sido dados a Colombo: pergunto cuánto vale un Colón y también pido la razón por qué mi causa pierde por mi, o por qué yo pierdo por ella (Memorial 41). Si a Cristobal Colón sus sospechas le hicieron porfiado, a mi (me) hace tan importuno lo que vi y 1o que palpe y lo que ofrezco, para lo qual mande V.M. que de tantos medios cuantos hay, se dé uno para que pueda conseguir lo propuesto, advirtiendo que en todo me hallarân a la razón y dare en todo satisfación (Memorial 24). Colón, para hacer su viage, fue despachado de Moguer, cuyos gritos desde ahi casi los pudieran oir los reyes, y de vuelta se desembarcó en España, sin tener más barrancos que saltar, y en ella fue con amor recebido, y brevemente despachado con gruesa armada de naos y gente, y las provisiones necesarias (Memorial 41). /.../ ... a Colón ni a los otros que en semejantes empresas se ocuparon no se les negarón, más antes se les dió para ello mucho más de lo que yo pido no para mi sino para servir a V.M., y no merezco menos (Memorial 31, datável de Janeiro de 1610). /… /… ... quiero decir que en este particular no reciba yo menos mercedes que las que se hizo a Colón, con todo cuanto varió (Memorial 53).
Queirós, ainda que por vezes se dissesse destituído de ambições de título e de fortuna e que agia somente para o aumento da glória da coroa castelhana ou espanhola e para a dilatação da fé cristã, em certos momentos não resistiu a solicitar ao rei que se me dé cédula de mi titulo de Gobernador y Capitán General, y outra cédula para que ministros de S.M., a donde quiera que llegar, no me impidan y todos me ayuden, y la cédula de los 6 mil ducados de mi ayuda de costa que se me deen aquí para desempeñarme (Memorial 36). No Memorial 44 voltou a fazer o mesmo pedido em termos idênticos: Falta-me el título de Gobernador y Capitán General que no puedo excusar, que si pudiera ir sin él no lo pidiera. E no seu Memorial 41 foi mais longe nas comparações: Alejandro y Ulisis, griegos, los fenícios, cartagineses y romanos y los otros que en aquelles tiempos pasados merecieron lauros, triunfos, estatuas y eternizados sus nombres por alargarse en caminos, entiendo que no pasaran del Indo o Ganges al oriente, ni de Hibernta al occidente, ni del Tanais al septentrion, y poco de la isla Meroe, en el Nilo, al mediodia, y esto con toda la comodiad /… /… ... y yo caminando por España y por ltalia, solo y arrimado a una caña, siguiendo mi pretensión y comiendo por principal frutas verdes y silvestres, y mojo y otras yerbas del campo, y muchas veces sin tenerlas en estas y otras partes, y la causa sin principio y sin valedor, y tantas las dificuldades halladas tras cada paso, que se hace increible entender que contra ellos porfié y se vencierón (gracias a Dios).
No Memorial 47, datável de Novembro-Dezembro de 1611, Queirós também se referiu a Vasco da Gama, comparando a sua experiência como navegante com a do homólogo português nos seguintes termos: Don Manuel, Rey de Portugal, hizo descubrir por tierca la India Oriental, y por la mar la costa de Africa hasta el Cabo de Buena Esperanza, y después armó naos, buscó, rogó y prometió las grandes mercedes que cumplió a Vasco de Gama, porque fuere a acabarla de descubrir. Yo Señor, no sé lo que Gama sabia de aquel menester, mas sé muy bien que tengo diez y siete años contínuos de experiencias vivas de solo en el caso de que trato, sem que isso lhe fosse reconhecido e recompensado com a confiança de uma nova missão. Em Memorial anterior, o número 28, lamentando o facto de em Madrid o obrigarem a estar tan malgastado de mi vida por protelarem as decisões acerca do seu projecto de ir descobrir as terras austrais acrescentaria que podendo comparar-se aos tres más insignes descubridores que ha habido en el mundo: Colón, Gama y Magallanes, contudo o tempo que eles tinham gasto e os caminhos que tinham percorrido valiam 12 anos e quinze mil léguas, enquanto ele percorrera 20 mil léguas, gastando 14 anos e meses. Portanto a sua causa não era inferior às deles». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). En la parte Austral Incognita. Projectos para a sua colonização. Quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI). Ilídio Amaral. «… tengo descubierto un Paraiso terrenal que deseo poblar de Angeles y de Santos y con ellos desde alli acabar de descubrir y saber de cierto lo que es todo aquel resto del mundo…»

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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«(…) As suas reflexões sobre o que pode observar em quatro ilhas meridionais do arquipélago das Marquesas na viagem feita com Álvaro de Mendaña Neyra contribuíram, sem dúvida, para a elaboração de tal projecto. Em sua defesa foi de tal modo convincente que obteve os pareceres favoráveis de sábios notáveis que se debruçaram sobre o projecto e documentos por ele apresentados, numa reunião havida em Roma; a adesão do Embaixador de Espanha nessa cidade; a atenção do papa, Clemente VIII, que o recebeu e o ouviu, atentamente, e não só lhe prometeu todo o apoio como escreveu ao rei de Espanha, Filipe III, aconselhando-o a dar tudo o que Queirós precisava para a tal descoberta, demasiado importante para a Igreja católica e para a coroa espanhola. Filipe III, ultrapassando o Conselho de Índias, órgão de Estado com a competência dos assuntos relacionados com as Índias, ordenaria ao vice-rei do Peru que desse satisfação aos pedidos de Queirós e, caso excepcional, tudo por conta da Fazenda Real. A viagem de 1605-1606 com a descoberta e a observação de aspectos físicos e humanos de uma vintena ilhas e, particularmente, da Austrialia del Espiritu Santo, que Queirós imaginou ser a parte terminal de um esporão da Terra Australis (afinal uma ilha grande de um arquipélago), o conhecimento de representações idealísticas da parte austral incógnita propostas por vários cartógrafos ilustres abriram os caminhos para a construção das imagens descritas no seu Memorial ocho e também noutros enviados ao rei, da grandeza de las tierras nuevamente descubiertas habitadas por milhões de almas carecidas de receberem a religião cristã, libertando-as assim das unhas de Satanás, terras abundantes em tudo, desde os produtos alimentares, dos reinos vegetal e animal, às especiarias e às riquezas minerais, ouro e prata, e pérolas e muitas outras coisas de valor. Impressiona a forma coerente das descrições assentes no entrecruzamento da geografia com a história e a utopia. Esta sintetizada na seguinte expressão do Memorial 53: tengo descubierto un Paraiso terrenal que deseo poblar de Angeles y de Santos y con ellos desde alli acabar de descubrir y saber de cierto lo que es todo aquel resto del mundo.
Dos seus Memoriales o que recebeu o número 40, datável de Outubro de 1610 é, sem dúvida, o mais extenso e em escrita grandiloquente, que reúne tudo quanto Queirós quis transmitir ao rei, sobre o que viu e sobre o que imaginou, para conseguir que lhe fosse dada uma nova missão, depois da viagem de 1605-1606, para a ocupação e o povoamento (colonização) das Tierras Australes. Tudo era imensidão, bom e farto de produtos dos. três reinos da natureza, os habitantes eram fortes e belos prontos a receberem a Fé, tudo descrito com a exuberância de uma imaginação fértil com base no que pudera ver em partes de ilhas do sul do Pacífico, extrapolando para as míticas terras austrais ainda por descobrir. Se nos seus Memoriales escritos em Madrid, depois da missão de 1605-1606, reinam os pensamentos utópicos, em alguns relatos dessa expedição, sobretudo nos de reconhecida autoria do seu secretário Luís Belmonte Bermúdez, Queirós é retratado como um homem temeroso, mas também realista. Sirva de exemplo o Relato datável de Julho de 1606, que consta do Capítulo LXXII, intitulado Dicense los latimosos discursos que hiso el capitán y otros para mitigar el dolor que sintió por haber perdido el puerto ..., transcrito em Hist. Descubr., por Justo Zaragoza, na viagem de regresso às terras americanas: sem ter descoberto a Terra Australis, limitava-se a reconhecer que dejaba descubiertas tantas y tan buenas gentes y tierras, sin saber que fin tenían, y una buena bahia y tan buen puerto dentro en ella; [...] y que todo esto era princípio con muy grandes fundamentos para poblar y acabar de descubrir y saber todo cuanto aquellas tierras contienen». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pedro Fernandes Queirós ou Pedro Fernández Quirós (1565-615). O Descobridor de ilhas. O Visionário de um continente cheio de riquezas. Ilídio Amaral. «… no regresso da viagem de 1595, arquitectou o projecto de fazer a descoberta da mítica “Terra Australis Incognita”, partindo do Peru, de Callao, porto da cidade de Lima»

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Quem era Pedro Fernandes Queirós?
«Nascido em Évora em 1565, Queirós sabe-se muito pouco sobre as suas origens e nos seus escritos aparecem raríssimas referências à família, à infância e juventude, à formação escolar. É um homem enigmático. Prestadas por ele encontrei informações num dos seus relatos de viagens dos anos iniciais de 1600 referindo-se ao facto de ter encontrado em Caracas três sobrinhos, filhos de um irmão de quem não havia sabido em muitos anos e que teria casado e morrido aí; de uma lista feita por ele, provavelmente em 1614-1615, de pessoas que se propunha levar para a colonização das terras austrais, El Capitan Pedro Fernández de Quirós, Francisco de Quirós, su hijo, Lucas de Quirós, su sobrino y Maria de Guevara, su mujer; e num registo da Casa de Contratação de Sevilha, datado de 14 de Março de 1615, Información presentata por el Capitan Pedro Fernández de Quirós /.../ à las Indias con su mujer, hijos y criados ..., feito meses antes da sua viagem de regresso às terras americanas e falecimento no Panamá em 1615. De acordo com algumas fontes mais recentes, como a de Justo Zarugoza na Historia del Descubrimiento de las Regiones Australes hecho por el General Pedro Fernández de Quirós, 1876-1882, e de Ignacio Gracia Noriega em Entrevista de la historia, de 2006, Pedro Fernandes Queirós foi educado pelos franciscanos da Província de Piedade, vizinha da Província de San Gabriel da Extremadura espanhola. Estas províncias eram dominadas por sectores da Ordem dos Frades Menores (Ordo fratrum minorum) em que se incluíam os espirituais, defensores dos princípios fundadores da pobreza franciscana, com a sua ala mais radical, rígida defensora da pobreza absoluta, dita dos zelanti ou fraticelli, e os conventuais reformados ou descalços que queriam adaptar a sua pobreza às necessidades do momento procurando um compromisso com a Igreja institucional, sendo estes mais influentes na área de Évora, com sede em Vila Viçosa, onde eram mais conhecidos por capuchos. Dedicados a uma vida espiritual emocional que procurava imitar a de Jesus Cristo, sobretudo os espirituais alimentavam uma visão milenarista peculiar que antecipava o Paraíso na Terra. No século XV tinham retomado as ideias do abade cisterciense Giacchino Fiore ou Joaquin Fiore (cerca de 1135-1202) recompostas no neo-joaquinismo, e no século XVI as influências da Utopia de Thomas More. Uma das principais contribuições de Joaquin Fiore foi a de ter concebido uma percepção espiritual ou mítica da história da humanidade. Por um lado, estudando as correlações bíblicas chegou à conclusão que as Sagradas Escrituras continham a revelação exacta do propósito de Deus; e, por outro lado, elas permitiam dividir a história da humanidade em três idades ou eras do mundo (de tribuis statibus mundi) de acordo com as três pessoas da Santíssima Trindade. A primeira, a do Deus-Pai, entre Adão e Jesus Cristo, da lei ou da pena de talião incluía Moisés (o Antigo Testamento), em que as figuras importantes tinham sido os profetas; a segunda, a de Deus-Filho, do nascimento de Jesus o Cristo (Novo Testamento), da resolução de conflitos e do perdão mútuo, tendo os sacerdotes como figuras de relevo, ia até ao ano de 1260; e a terceira, a do Espírito Santo, a da inteligência espiritual, da liberdade, do amor universal, da igualdade, sendo as figuras mais importantes os monges, de 1260 até à consumação dos tempos. Surgiria a Nova Jerusalém.
É nos relatos de viagens, mas sobretudo nos Memoriales, que poderá ser visto como estas ideias estiveram presentes no espírito de Queirós e nas suas decisões. Segundo Justo Zaragoza e Gracia Noriega, ainda jovem Queirós mudou-se para Lisboa onde passou a frequentar a Rua Nova, ouvindo dos mareantes que por aí passavam as descrições sobre as terras que iam sendo descobertas. Seduzido pela aventura terá conseguido embarcar como escrivão num barco em viagem pela costa de África e, como o oficio lhe deixava muitos tempos livres, aproveitou-os para adquirir conhecimentos sobre os barcos e os modos de navegar, o que lhe terá permitido, noutra viagem, embarcar como piloto. Entre 1588 e 1589 contraiu matrimónio com dona Ana Chacón Miranda, de 25 anos, natural de Madrid, e ofereceu os seus serviços à Corte castelhana. Do casamento nasceu uma filha em Madrid em 1590. Não era passado muito tempo Queirós partiu para o Peru. Em 1595 embarcou em Callao como piloto chefe de uma Armada comandada por Álvaro Mendaña Neyra (1542-1595), começando assim as suas viagens pelo Pacífico. É de crer que teve outro matrimónio porque na lista de 1613-1614 com os nomes de pessoas que pensava levar para a colonização das terras austrais aparece uma dona Maria Guevara como esposa. A leitura dos seus escritos, sobretudo dos 54 Memoriales publicados por O. Pinochet la Barra, alguns deles muito longos e cheios de pormenores, por vezes repetindo-se, revela um homem profundamente religioso, que invocava Deus com demasiada frequência, persistente, dotado de uma cultura vasta e sólida, conhecedor da historia e das descobertas recentes, da situação de crise não só da Monarquia Hispânica mas também do resto da Europa. Tudo começou quando, no regresso da viagem de 1595, ou durante ela, arquitectou o projecto de fazer a descoberta da mítica Terra Australis Incognita, partindo do Peru, mais propriamente, de Callao, porto da cidade de Lima, e regressar a Espanha pelo Índico e pelo Atlântico, depois de dobrado o cabo de Boa Esperança». In Ilídio Amaral, Pedro Fernandes de Queirós ou Pedro Fernández de Quirós (1565-615), o Descobridor de ilhas, o Visionário de um continente cheio de riquezas “en la parte Austral Incognita” e de Projectos para a sua colonização: quando a História, a Geografia e a Utopia se cruzam (séculos XVI-XVI), Edições Colibri, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-446-7.

Cortesia de EColibri/JDACT

sábado, 12 de março de 2011

Navegações Portuguesas: Naufrágios II. Parte XVIII. «Todo o problema dos naufrágios apresenta variantes muito interessantes e que mostram um pouco dos limites a que a navegação à vela estava exposta nos séculos XVI e XVII numa rota tão especial como a da Carreira da Índia... A sobrecarga e a exploração dos limites das condições meteorológicas teve efeitos bem funestos»

Cortesia de viticodevagamundo

Com a devida vénia a Rui Godinho.

«São muitas as causas geralmente apontadas para os naufrágios:
  • carga excessiva e mal acondicionada,
  • má construção, idade avançada dos navios,
  • defeitos de calafetagem, reparações imperfeitas e incompletas,
  • mau estado dos aparelhos e do próprio navio ou o número insuficiente de bombas.
Outros motivos podiam ser as partidas tardias, o excessivo tamanho das naus, a pressa em chegar ao destino, a obstinação de alguns pilotos e a inexperiência de muitos capitães. Quanto a estas causas não existem grandes dúvidas; o que as provoca ou facilita é que pode variar.
Exemplo disso era a sobrecarga à volta (bastante comum) porque todos queriam transportar os seus pertences (as liberdades e quintaladas) independentemente do espaço disponível; os regimentos proibiam tais práticas mas como todos lucravam acabava-se por não se apurar responsabilidades.

Os dados para as causas revelam a dificuldade e o estado embrionário em que se encontram estes estudos com cerca de 40% dos casos com causas desconhecidas. Temos, ainda assim:
  • a má navegação com 16%,
  • as tempestades com 12,8%,
  • os inimigos com 10,5%,
  • o mau estado de conservação com 10%,
  • incêndios e outros acidentes com 6,8%,
  • o excesso de carga com 5,5%.

Cortesia de curiosidadesgaleriacores
Os exemplos para quaisquer destes casos pode ser encontrado disperso nas muitas fontes e foram apontados ainda durante o século XVII. O próprio D.Filipe I, em 1597, dirige-se ao Vice-Rei D.Francisco da Gama e define as causa principais «não ser a gente da nauegação qual conuem, virem sobejamente carregadas de fazendas de partes, e partirem tarde», para logo de seguida exigir ao mesmo que faça cumprir os regimentos que havia para todas estas situações e que eram o remédio mais que necessário para elas. Este problema só será resolvido após a primeira metade do século XVII com acções mais drásticas que incluem algumas penas de morte aplicadas (e não perdoadas) a oficiais responsabilizados pela perda do galeão Santo Milagre em 1647 e do S.Lourenço em 1649.
O viajante Laval confirma a má fama dos artilheiros e considera os portugueses «a gente mais frouxa na guerra do mar, que há em tôda a cristandade e nessa reputação são tidos, segundo o que eu por mim mesmo pude conhecer». A capacidade dos soldados parece ser bastante melhor. Os portugueses sempre preferiram o combate com arma branca depois de uma abordagem. A abordagem directa era um dos modelos de combate preferido pelos portugueses, talvez por ser mais «cavaleiresco» e assim mais digno de um nobre como o eram os capitães.
Se até 1586 a segurança parece estar assegurada, após essa data (em que Francis Drake ataca os Açores) e até 1635 são 15 os navios perdidos por acção inimiga o que mesmo assim representa apenas 10% das perdas e 3% das viagens tentadas.
Assiste-se em 1591 e 1599, pela primeira vez, à não chegada de qualquer navio a Lisboa e em 1598, também pela primeira vez, à não partida da armada devido a um bloqueio inglês. Entre 1587 e 1668 apenas 3,8% das viagens tentadas foram travadas. A entrada de holandeses e ingleses nesta corrida não é inocente e traz um impacto significativo para a estrutura imperial portuguesa já instalada, mas desadequada às novas realidades que estas potências vão introduzir.

Cortesia de leyendesasturianes
Quanto aos locais das perdas, tendo em atenção as condições de navegação ou os problemas com os ataques inimigos:
  • temos a costa portuguesa e a sua proximidade,
  • os Açores,
  • a área do Canal de Moçambique,
  • a zona do cabo da Boa Esperança,
  • do Natal.
Estas 5 zonas, somadas aos casos desconhecidos, representam cerca de ¾ do total de perdas.
Todo o problema dos naufrágios apresenta variantes muito interessantes e que mostram um pouco dos limites a que a navegação à vela estava exposta nos séculos XVI e XVII numa rota tão especial como a da Carreira da Índia. O cruzamento de factores e causas, bem como o seu número e impacto relativo na Carreira foi muito variável com os responsáveis portugueses a sofrerem bastante com a viragem de 1590, mas a responderem, dentro do possível, até à década de 1620 onde novos problemas vêm dar novo golpe com o crescimento das perdas e do seu impacto. Mesmo assim factores como os ataques inimigos ou a falta de perícia dos pilotos portugueses não é tão grande como por vezes se aventou, ao mesmo tempo que a sobrecarga e a exploração dos limites das condições meteorológicas teve efeitos bem funestos». In Rui Godinho, Viagens, Viajantes e Navegadores, CVC, Instituto Camões.

Bibliografia
BOYAJIAN, James C., Portuguese Trade under the Habsburgs, 1580-1640, Baltimore e Londres, 1993.
DUNCAN, T. Bentley, “Navigation Between Portugal and Asia in the Sixteenth and Seventeenth Centuries”, Asia and the West. Encounters and Exchanges from the age of Explorations. Essays in Honor of Donald F. Lach, Notre Dame-Baltimore, 1986, pp.3-25.
GODINHO, Vitorino Magalhães, “Rota do Cabo”, Dicionário de História de Portugal, Vol. V, Porto, imp.1989, pp.371-390.
LOPES, António Lopes, FRUTUOSO, Eduardo e GUINOTE, Paulo, “O Movimento da Carreira da Índia nos séculos XVI-XVIII. Revisão e Propostas”, Mare Liberum, nº 4, Dezembro de 1992, pp.187-265
IDEM, Naufrágios e outras perdas da “Carreira da Índia”- Séculos XVI e XVII, Lisboa, 1998.
VIDAGO, João, ”Sumário da Carreira da Índia. 1497-1640”, Anais do Clube Militar Naval, Vol. XCIX, Tomos 1-3, 4-6, 7-9 e 10-12, Janº-Mar., Abr.-Jun., Jul-Setº e Outº-Dezº de 1969, pp.61-99, 291-329, 565-594 e 863-900.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

Navegações Portuguesas: Naufrágios I. Parte XVII. «O espelho dessa visão é a História Trágico Marítima, compilação do século XVIII de Bernardo Gomes de Brito, apontada como o culminar e exemplo do declínio do Império Português e incluída num género que se convencionou chamar de literatura de viagens»

Cortesia de docadosaflitos

Com a devida vénia a Rui Godinho.
Naufrágios
«O tema dos naufrágios tem vindo a constituir-se como um dos pontos centrais utilizado para analisar a evolução da Carreira e a história de Portugal de 1500 a 1700. O sinal mais evidente é a sua ligação à perda da independência em 1580 e às «visões decadentistas da realidade nacional», opondo a exaltação ao fatalismo histórico.
O espelho dessa visão é a História Trágico Marítima, compilação do século XVIII de Bernardo Gomes de Brito, apontada como o culminar e exemplo do declínio do Império Português e incluída num género que se convencionou chamar de literatura de viagens. A dramaticidade, a forma de narração e o recorte trágico dos personagens são as características mais individualizadoras dos relatos de naufrágios, onde o castigo divino que está sempre presente. São os instintos mais básicos dos homens e a sua luta pela sobrevivência que nos são servidos revelando situações que ninguém pensa serem possíveis no seu quotidiano. Bernardo Gomes de Brito e a sua compilação colocam ao dispor do público toda uma gama de informações que irá ser utilizada no retrato que se pretende criar da Carreira da Índia.

Cortesia de viticodevagamundo
Dentro do tema dos naufrágios existem dois campos que têm vindo a ser estudados intensamente:
  • o seu número,
  • as causas.
A evolução e o nível de perdas retiveram a atenção de diversos autores sendo consensual a importância da entrada dos holandeses e ingleses no comércio oriental. As visões mais catastrofistas têm, no entanto, vindo a mudar. Vitorino Magalhães Godinho apontou um crescimento das perdas de 10% para 24 % entre 1500-1589 e 1590-1635. Estudos mais recentes fizeram uma análise exaustiva da periodização das perdas. Numa primeira abordagem chegou-se a valores, que apontam para uma concentração das perdas nos períodos de 1500-1529 e 1600-1629, na ordem dos 25% a 35%. Temos que na primeira metade do século XVI as perdas são elevadas em número, mas menos representativas em percentagem devido ao envio de armadas muito numerosas. Um segundo momento de meados do século XVI até 1590 é marcado por uma grande estabilidade com poucas ocorrências. O terceiro momento vai de finais do século XVI até meados do século XVII e corresponde ao período de maior perturbação onde as perdas se concentram na volta.

Um dado interessante é apontado por James Boyajian:
  • a Carreira podia suportar perdas na ordem dos 25% enquanto os lucros se mantivessem acima dos 300%.
Ora, seguindo Boyajian, o mesmo (quanto aos lucros) deixou de verificar-se após 1550 e em 1580 rondaria os 150%. Isto vem confirmar que o peso das perdas no dealbar do século XVI e do século XVII foi bastante diferente. Enquanto num primeiro momento havia lucros e capitais que superavam este risco e este nível de perdas, num segundo os mesmos lucros e capitais disponíveis não permitem novos investimentos». In Rui Godinho, Viagens, Viajantes e Navegadores, CVC, Instituto Camões.

Bibliografia
BOYAJIAN, James C., Portuguese Trade under the Habsburgs, 1580-1640, Baltimore e Londres, 1993.
DUNCAN, T. Bentley, “Navigation Between Portugal and Asia in the Sixteenth and Seventeenth Centuries”, Asia and the West. Encounters and Exchanges from the age of Explorations. Essays in Honor of Donald F. Lach, Notre Dame-Baltimore, 1986, pp.3-25.
GODINHO, Vitorino Magalhães, “Rota do Cabo”, Dicionário de História de Portugal, Vol. V, Porto, imp.1989, pp.371-390.
LOPES, António Lopes, FRUTUOSO, Eduardo e GUINOTE, Paulo, “O Movimento da Carreira da Índia nos séculos XVI-XVIII. Revisão e Propostas”, Mare Liberum, nº 4, Dezembro de 1992, pp.187-265.
IDEM, Naufrágios e outras perdas da “Carreira da Índia”- Séculos XVI e XVII, Lisboa, 1998.
VIDAGO, João, ”Sumário da Carreira da Índia. 1497-1640”, Anais do Clube Militar Naval, Vol. XCIX, Tomos 1-3, 4-6, 7-9 e 10-12, Janº-Mar., Abr.-Jun., Jul-Setº e Outº-Dezº de 1969, pp.61-99, 291-329, 565-594 e 863-900.
 
Cortesia de Instituto Camões/JDACT