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domingo, 8 de março de 2015

Neste Domingo. Homenagem. Fernanda de Castro. «O perfeito não se manifesta. O santo chora e é humano. Por isso podemos amar o santo (a), mas não podemos amar os deuses…»

jdact e wikipedia

Alegria
«De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

Duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raiz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!
Poema de Fernanda de Castro, in ‘D'Aquém e D'Além Alma’


JDACT

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Jazz em Quinta. Brasil. Bossa Nova. «Eu que só quero o que ninguém cobiça, oiros de sol e pratas de nevoeiros, filigranas de flores nos canteiros, folhas soltas que o vento desperdiça, espuma de marés, conchas vazias, cintilações de estrelas, céus distantes, gotas de orvalho…»

jdact

«Eu que só gosto de vestidos velhos,
de velhas casas com paredes tortas,
de poeiras ancestrais, de cinzas mortas,
de desbotados rosas e vermelhos…

Eu que só gosto de velhos quintais
com ásperas roseiras mal regadas;
de cortinas de rendas passajadas
por velhos dedos, com velhos dedais…

eu que só gosto de velhas gavetas,
de velhas malas com cetins puídos,
sedas, fitas, perfumes esquecidos,
leques, missais, raminhos de violetas…
[…]


«Eu sei onde nasci; naquela rua
de árvores mortas e de velhas casas
onde ensaiei os meus primeiros passos,
e onde as minhas pueris, tímidas asas,
se transformara simplesmente em braços.

Mas que importa? Sinto-me perdida
como alguém que em menino se perdeu
e sei que a minha vida é outra vida,
e sei que não sou eu, que não sou eu!
Que venho de mais longe… da distância
que medeia entre o sonho e a realidade,
que nunca teve pátria a minha infância,
que nunca teve idade a minha idade.
Que o meu país, se existe, é como a quilha
de um barco a demandar inutilmente
uma impossível, ignorada ilha
banhada por um mar inexistente.

E contudo eu nasci naquela rua
de árvores mortas e de velhas casas
onde ensaiei os meus primeiros passos,
e onde as minhas pueris, tímidas asas,
se transformaram simplesmente em braços».
Poemas de Fernanda de Castro, in ‘Exílio

JDACT

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Flores do Exílio. Poesia. Maria Elvira. «Não possuem a frescura e a louçania das flores viçosas da actualidade. Expostas a um ambiente estranho deixar-se-ão morrer por certo. É o destino das flores e das almas sensitivas… Deixarem-se morrer… Devem ter perdido o vago e longínquo perfume que dizem ser a alma das flores»

jdact

Os meus sonhos
«Como um sonho de névoas e lamento,
lembro-me de em criança alguém contar
que há até quem faça o rouxinol cegar
para melhor cantar, com mais alento.

Na dor, na solidão do desalento,
também vencida uma alma a soluçar
aprende muitas vezes a cantar,
com a própria mágoa do seu sofrimento.

Assim, se os versos meus que são meus cantos,
derem doce consolo a alheios prantos,
prantos que repercutam meu sofrer,

deixo que a vista seja-me apagada,
afim de que mais triste e amargurada,
possa melhor cantar, até morrer».
Soneto de Maria Elvira, in ‘Flores do Exílio


JDACT

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andersen. Pátria. « Pedra, rio, vento, casa, pranto, dia, canto, alento, espaço, raíz e água, ó minha Pátria e meu centro»

Cortesia de montgomeryrenosca

Pátria

Por um país de pedra e vento duro
por um país de luz perfeita e clara
pelo negro da terra e pelo branco do muro.

Pelos rostos de silêncio e de paciência
que a miséria longamente desenhou
rente aos ossos com toda a exactidão
dum longo relatório irrecusável.

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento.

E pela limpidez das tão amadas
palavras sempre ditas com paixão
pela cor e pelo peso das palavras
pelo concreto silêncio limpo das palavras
donde se erguem as coisas nomeadas
pela nudez das palavras deslumbradas.

- Pedra, rio, vento, casa,
pranto, dia, canto, alento,
espaço, raíz e água,
ó minha Pátria e meu centro.

Me dói a lua me soluça o mar
e o exílio se inscreve em pleno tempo.
Poema de Sophia Andresen 

Cortesia de wbadviesnl

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domingo, 25 de abril de 2010

As Paixões da Alma: Os dias da Música 2010. O desejo, a alegria e a tristeza

Cortesia do CCB

«Em 1649, ano em que parte para Estocolmo a convite da rainha Cristina da Suécia, René Descartes (1596-1650) publica o Tratado das Paixões, correntemente conhecido como As Paixões da Alma. Descartes aprofunda aí a sua especulação sobre o pensamento humano, desmistificando a crença de que os sentimentos se localizavam no coração e insistindo em que é o cérebro que comanda todas as manifestações exteriores das paixões da alma, e contribui para uma longa tradição de tentativas de sistematização das paixões. Dos artigos 53 a 67 enumera todas as paixões, mas no artigo 69 sustenta que há apenas seis “que são simples e primitivas”. Todas as outras derivam destas. Ei-las: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza.
Este conjunto de paixões revelou-se o ponto de partida perfeito para os Dias da Música 2010. Na escolha das obras e compositores a ser apresentados nesta edição do festival, procurámos abranger os mais variados géneros e épocas, fazendo apelo à comunidade musical para que reflectisse connosco uma programação transversal aos séculos, abrangente e, esperamos, surpreendente na evocação das paixões que cada obra inspira. No fundo, queremos proporcionar-lhe três dias em que possa divertir-se, desfrutando de obras já bem conhecidas e de outras por descobrir, tudo sob uma perspectiva diferente: a das paixões da alma». In Boletim Abril, Maio, Junho 2010 do CCB.








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