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sábado, 11 de abril de 2020

William Wordsworth. Poesia. «Ou coisas simples são do quotidiano viver? Essas dores de coração, que já foram e hão-de ser?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Ceifeira Solitária
«Só ela no campo vi:
solitária de altas terras,
ceifa e canta para si.
Não digas nada, que a aterras!
Sozinha ceifa no mundo
E canta melancolia.
Escuta: o vale profundo
Transborda à de harmonia.

Nunca um rouxinol cantou
em sombras da Arábia ardente
ao que exausta repousou
mais grata canção dolente;
ou gorjeio tão extremado
se escutou na Primavera,
cortando o Oceano calado
entre ilhas de Além-Quimera.

Quem me dirá do que se canta?
Será que o que ela deplora
é antigo, triste e distante,
como batalhas de outrora?
Ou coisas simples são
do quotidiano viver?
Essas dores de coração,
que já foram e hão-de ser?

Seja o que for que cantara
é como infindo cantar,
que a vi cantando na seara,
no trabalho de ceifar.
Sem falar, quieto, eu escutava
e, quando o monte subia,
no coração transportava
o canto que não se ouvia.
Poema de William Wordsworth, in Lyrical Ballads

Cortesia de LBallads/JDACT

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O assassínio dos Medici. The History Channel. «Houve um tempo em que a República de Florença era o pulsar cultural do mundo e o seu coração foram os jovens irmãos Médici, Lourenço e Julião. A sua influência na banca, na religião e na política espalhava-se por toda a península Itálica»

Cortesia de wikipedia

«Os Médici foram uma das famílias mais importantes do Renascimento italiano. De extraordinária influência na arte, no comércio e na religião, as suas desapiedadas redes de influência e alianças trouxeram-lhes muitos inimigos que os quiseram afastar do poder. Em 1478, os seus rivais uniram-se para matar os irmãos Lourenço e Julião de Médici na catedral de Florença, conhecida por Duomo. Durante quinhentos anos, a a versão popular da conjura interpretou o que se passou como uma disputa entre duas poderosas famílias: os Médici e os seus rivais, os Pazzi. Não há dúvida de que membros da família Pazzi mataram Julião, e também quase conseguiram eliminar Lourenço, mas, na realidade, o crime de há quinhentos anos ainda é um caso por resolver. Foram realmente os Pazzi os cérebros desta tentativa de assassínio e foi apenas uma luta entre famílias? No ano 2000, um estudante da Universidade de Yale, Marcello Simonetta, encontrou uma carta secreta nos arquivos de Urbino que indica as forças impulsionadoras daquele acto sangrento, descrevendo-o como uma complexa conspiração com tentáculos que chegavam até ao papado.
Houve um tempo em que a República de Florença era o pulsar cultural do mundo e o seu coração foram os jovens irmãos Médici, Lourenço e Julião. A sua influência na banca, na religião e na política espalhava-se por toda a península Itálica, uma força que Lourenço entendia muito bem, apesar de ter apenas 20 anos quando chegou ao poder. Culto, refinado, brilhante e audaz, muito seguro de si e dotado de grande inteligência, Lourenço de Médici, digno neto de Cosme, realizou durante o seu principado (1469-1492) o ideal do Renascimento italiano: poeta, filósofo, mecenas e diplomata, era muito consciente do poder da cultura florentina como ferramenta diplomática, assegura a historiadora Melissa Bullard, da Universidade da Carolina do Norte. O seu irmão mais novo, Julião, aberto, atraente e nada político, era seu assessor. O trabalho dos dois irmãos era muito diversificado: proteger artistas como Miguel Ângelo, atribuir cargos, ser a importantíssima banca do papado, conquistar novos territórios... Porém, pela sua juventude, davam a impressão de vulnerabilidade e a inexperiência criava-lhes inimigos.
Em 1470, Lourenço cometeu muitos erros políticos. Distanciou-se de muita gente. Os irmãos enfrentavam adversários em todas as esferas de influência, explica o historiador Niccolò Capponi. Na banca, a família Pazzi receava o poder e a riqueza deles. Na Igreja, o papa Sisto IV ofendeu-se com a recusa de Lourenço em lhe conceder um empréstimo. E, na política, outros senhores, como o duque de Urbino, mudaram a sua lealdade da Florença de Lourenço para outras cidades, procurando sempre unir forças com quem possuísse o maior poder na península naquele momento. Os ingredientes desta poção de rancor eram sobejamente conhecidos mas, ao longo dos séculos, prevaleceu uma história sobre a conspiração dos Pazzi, baseada na tentativa de matar os dois irmãos durante a missa pascal no Duomo de Florença. No entanto, culpabilizar só os Pazzi simplifica demasiado o assassínio, fazendo que pareça que a família dos banqueiros foi a única responsável. O historiador Marcello Simonetta começou a investigar o acontecido após o descobrimento de uma carta escrita em 1478 por Frederico II de Montefeltro,9.º conde e primeiro duque de Urbino, suposto amigo dos Médici, a Cicco Simonetta, regente de Milão e importante aliado de Lourenço de Médici, além de antepassado renascentista do historiador. Investigando a vida do seu antepassado, encontrou essa carta, num achado que aumentou a sua curiosidade. Marcello Simonetta começou então uma pesquisa para reconstruir os acontecimentos anteriores à conspiração e encontrar pistas sobre o artífice da trama. A pista seguinte foi-lhe trazida por uma segunda carta do duque de Urbino, indicando a Cicco que tivesse cuidado com Lourenço e advertindo-o de que não era um aliado seguro. A carta descrevia Lourenço como inimigo secreto de Cicco Simonetta, explica Marcello Simonetta, actual historiador e professor da Universidade Wesleyan. O duque de Urbino tinha capitaneado operações militares de Lourenço e actuava dos dois lados, pondo Cicco contra Lourenço. Esta contradição fez Marcello Simonetta pensar que o duque tinha a chave do mistério sobre o artífice da chamada conspiração dos Pazzi. Mas uma coisa eram as suas suposições e outra muito diferente seria conseguir as provas da conjura». In The History Channel, Los Grandes Misterios de la Historia, Randon House Mondadori, 2008, O assassínio dos Medici, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Os Segredos de Stonehenge. The History Channel. «Se compararmos os dois conjuntos pré-históricos, Woodhenge será o equivalente à ermida da aldeia ou à igreja local, enquanto Stonehenge, com a sua estrutura de pedra, seria a catedral»

Cortesia de wikipedia

O sílex e o novo estilo de vida
«(…) Ao contrário do que pode parecer, o talhe lítico é um processo muito técnico e preciso. É imprescindível ter alguns conhecimentos e perícia para converter um pedaço de sílex num machado. Mas, além disto, nos finais da Idade da Pedra estas ferramentas serviram ainda para cortar árvores de grande porte, de modo que os povos nómadas que tinham sido caçadores e recolectores formaram comunidades e dedicaram-se à agricultura e à criação de animais, dado que os bosques já podiam converter-se em quintas. Ao mesmo tempo que os homens do Neolítico mudavam o seu estilo de vida, em Stonehenge, que até então não passava de um fosso primitivo cavado com picaretas de corno de animal, outra etapa se iniciava. A nova tecnologia do sílex permitiu erguer uma estrutura do lado de dentro do talude composta por 56 postes de madeira que seguiam a mesma forma circular. Não existe nenhuma de pé, mas os arqueólogos analisaram o tipo de terra que enche os 56 buracos nos quais assentavam, também eles escavados no solo calcário do local, e conseguiram perceber que em cada um se fixava um poste de madeira. O que já não é possível adivinhar é se, à semelhança do modelo de pedra posterior, estes postes suportariam outros troncos, em cima, à maneira dos lintéis. Não se trataria do único monumento pré-histórico construído principalmente com este material, assegura Julian Richards.
A uns escassos três Km dos blocos megalíticos de Stonehenge encontra-se Woodhenge, henge é o nome que os arqueólogos dão a este tipo de construções pré-históricas de forma circular. Ambas as ruínas pré-históricas seguem um plano de círculos concêntricos muito semelhante. Até ao ano de 1920, acreditou tratar-se das ruínas de um enorme túmulo funerário que fora despojado da terra. No entanto, assim que foram tiradas as primeiras fotografias aéreas, descobriu-se que cada um dos pontos escuros que apareciam marcados no terreno, indicava a posição de um poste de madeira e que todos juntos formavam um círculo. Mas este lugar tem algo mais do que a simples semelhança arquitectónica com Stonehenge. No decorrer das escavações no centro do círculo de Woodhenge, foi desenterrado o cadáver de uma criança trepanada, fruto, possivelmente, de um sacrifício ritual cujo desenvolvimento apenas podemos imaginar mas que não conhecemos de fonte segura. Em redor dos seis anéis concêntricos que o compõem, explica Julian Richards, foram encontrados diversos objectos, desde ossos de animais a cerâmica muito ornamentada e, mesmo no centro, a sepultura da criança. Woodhenge contava com uma estrutura de madeira com uma função de tipo claramente religioso e, apesar da sua construção ter requerido um enorme esforço, o facto é que não passava de uma simples estrutura feita de troncos. Se compararmos os dois conjuntos pré-históricos, Woodhenge será o equivalente à ermida da aldeia ou à igreja local, enquanto Stonehenge, com a sua estrutura de pedra, seria a catedral. Em Stonehenge, esclarece Richards, não se encontram vestígios de sacrifícios humanos, mas inúmeros vestígios de incinerações dentro dos buracos onde assentavam os primitivos postes de madeira. Portanto, durante quatrocentos anos, antes de as árvores serem cortadas, antes de os povos neolíticos que habitavam a zona substituírem a madeira pelos gigantescos blocos de pedra que hoje conhecemos, Stonehenge foi, antes de tudo, um cemitério do qual a própria cinza das piras funerárias chegou aos nossos dias». In The History Channel, Los Grandes Misterios de la Historia, Randon House Mondadori, 2008, Os Segredos de Stonehenge,  tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os Segredos de Stonehenge. The History Channel. «Do céu conseguimos ver que não se trata de simples ruínas mas que elas representam toda uma cultura, afirma Julian Richards. Num perímetro de vários quilómetros quadrados, encontrámos, por exemplo, o Cursus, uma calçada…»

Cortesia de wikipedia

«Stonehenge é o monumento pré-histórico mais famoso da Terra e uma das ruínas de pedra mais misteriosas no mundo. Nunca foi descoberto. Antes da chegada dos anglo-saxões, antes dos romanos, antes mesmo do aparecimento da linguagem escrita, Stonehenge já existia, já estava ali. Há milhares de anos e de gerações que estes gigantescos blocos megalíticos se mantêm ali, repletos de segredos. Desconhece-se com exactidão a finalidade de uma construção tão monumental, mas investigações arqueológicas recentes forneceram algumas explicações científicas sobre a forma como terá sido edificado, a razão que levou à sua construção e ainda sobre aqueles que, há mais de cinco mil anos, iniciaram as obras deste incomparável e valioso testemunho da cultura pré-histórica.
Situadas no condado de Wiltshire,43 quilómetros a norte do canal da Mancha e a 13 quilómetros a noroeste de Salisbury, no meio das suaves ondulações da planície inglesa, estas ruínas deram origem a inúmeras histórias e lendas sobre grandiosas cerimónias e rituais. Pelo seu carácter misterioso foram reivindicadas tanto por místicos modernos que asseguram tratar-se do centro de uma incrível fonte de energia, como por adoradores locais ou até por brincalhões paranormais que, ainda não há muito tempo, traçaram, nos terrenos circundantes, com a ajuda de uma corda e de um pedaço de madeira, enormes círculos nas searas, à maneira de estranhos sinais, vindo posteriormente a explicar a toda a gente a sua farsa... Mas a verdadeira história de Stonehenge teve início há mais de cinco mil anos e engloba muito mais do que o monumento que chegou até aos nossos dias. Os trabalhos arqueológicos tiveram início em 1901 e realizaram-se periodicamente até 1964. Decidiu-se então deixar tudo como estava, com o fim de preservar o que ainda se mantinha intacto pelo que as escavações foram proibidas pelas autoridades. Os cientistas ainda hoje tentam encontrar resposta para vários dos seus enigmas.
O arqueólogo inglês Julian Richards, autor de um dos estudos mais exaustivos sobre o tema, destaca, nas suas investigações, a importância dos montículos funerários ou sepulturas espalhadas pelos arredores de Stonehenge, algo que só pôde comprovar-se com uma perspectiva aérea. Sobrevoando a zona, a vista a partir de cima permitiu observar a extensão da paisagem que o rodeia. É a área que possui a mais elevada concentração de ruínas pré-históricas de todo o Reino Unido, algumas ainda mais antigas do que o próprio Stonehenge. Do céu conseguimos ver que não se trata de simples ruínas mas que elas representam toda uma cultura, afirma Julian Richards. Num perímetro de vários quilómetros quadrados, encontrámos, por exemplo, o Cursus, uma calçada que até há pouco se acreditava ser parte de um hipódromo romano até se ter descoberto que, na realidade, datava de há dois mil anos antes da invasão romana, e os Barrows, um campo de túmulos funerários onde as escavações trouxeram à luz esqueletos humanos e jóias de cobre e de bronze. A parte mais antiga de Stonehenge é formada por um fosso e a sua terraplanagem, abertos num solo calcário que logo após ser escavado, brilharia com uma intensa cor branca. Tem forma circular aberta a noroeste e uns trinta metros de diâmetro. Graças aos testes com carbono 14 realizados às ferramentas que os construtores deixaram no fundo do fosso primitivo, sabemos hoje que as primeiras obras foram levadas a cabo entre os anos 3000 e 2920 a. C.. As ferramentas que se utilizaram durante a Idade da Pedra e no período Neolítico, foram pontas aguçadas feitas de corno de veado. O fosso de Stonehenge não é especialmente profundo, pelo que não deveria ser demasiado complicado escavá-lo com um instrumento tão rudimentar, mas em Grimes Graves,320 quilómetros a noroeste de Stonehenge, estas mesmas pontas de corno de animal foram utilizadas para escavar algo muito diferente. Poços de minério. Nesta mina, os arqueólogos descobriram passagens estreitas com cerca de nove metros de profundidade, através das quais o material recolhido vem à superfície. Nalgumas galerias ainda se vêem as marcas que cada golpe deixava na pedra e até dedadas que datam de há mais de cinco mil anos.
Grimes Graves conta quatrocentos poços neolíticos onde, durante mais de mil anos, trabalharam duramente servindo-se destes simples cornos de veado, equipas de mineiros em busca do recurso mineral mais apreciado na época, uma variedade de rocha de silício denominada sílex que encontravam formando nódulos de cor preta brilhante que hoje conhecemos como pederneira. O sílex era, na época, o recurso mineral mais valioso, a matéria-prima de uma nova economia. A extracção e o comércio desta pedra converteu-se numa das forças motrizes do universo de Stonehenge, pelo facto de com o sílex, convenientemente talhado, se construírem machados e outras ferramentas. O que significou um enorme salto tecnológico e social». In The History Channel, Los Grandes Misterios de la Historia, Randon House Mondadori, 2008, Os Segredos de Stonehenge,  tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT