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quarta-feira, 20 de março de 2024

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «… éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Era a primeira vez que eu iria sair da morte. Por estreada vez iria escutar, sem o filtro da terra, as humanas vozes do asilo. Ouvir os velhos sem que eles nunca me sentissem. Uma dúvida me enrugava. E se eu acabasse gostando de ser um passa-noite? E se, no momento de morrer por segunda vez, me tivesse apaixonado pela outra margem? Afinal, eu era um morto solitário. Nunca tinha passado de um pré-antepassado. O que surpreendia era eu não ter lembrança do tempo que vivi. Recordava somente certos momentos mas sempre exteriores a mim. Recordava, sobretudo, o perfume da terra quando chovia. Vendo a chuva escorrendo por Janeiro, me perguntava: como sabemos que este cheiro é da terra e não do céu? Mas não lembrava, no entanto, nenhuma intimidade do meu viver. Será sempre assim?

Os restantes mortos teriam perdido a privada memória? Não sei. Em meu caso, contudo, eu aspirava ganhar acesso às minhas privadas vivências. O que queria lembrar, muito-muito, eram as mulheres que amei. Confessei   esse desejo ao pangolim. Ele me sugeriu, então: Você mal chegue à vida queime umas sementes de abóbora. Para quê? Não sabe? Queimar pevides faz lembrar amantes esquecidos.

No dia seguinte, porém, eu repensei a minha viagem à vida. Esse pangolim já estava demasiado gasto. Poderia eu confiar em seus poderes? Seu corpo rangia que nem curva. Seu cansaço derivava do peso de sua carapaça. O pangolim é como o cágado, caminha junto com a casa. Daí seus extremos cansaços.

Chamei o halakavuma e lhe disse da minha recusa em me transferir para o lado da vida. Ele que entendesse: a força do crocodilo é a água. Minha força era estar longe dos viventes. Eu nunca soube viver, mesmo quando era vivo. Agora, mergulhado em carne alheia, eu seria roído por minhas próprias unhas. Ora, Ermelindo: você vá, o tempo lá está bonito, molhado a boas chuvinhas.

Eu que fosse e agasalhasse a alma de verde. Quem sabe eu encontrasse uma mulher e tropeçasse em paixão? O pangolim vaselinavam a conversa e engrossava a vista. Ele sabia que não era assim fácil. Eu tinha medo, o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer. O pangolim me assegurava futuros mais-que-perfeitos. Tudo se passaria ali, na mesmíssima varanda, no debaixo da árvore onde eu estava enterrado.

Olhei o frangipani e senti saudade antecedida dele. Eu e a árvore nos semelhávamos. Quem, alguma vez, tinha regado as nossas raízes? Ambos éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse: Aqui é onde os deuses vêm rezar». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Mia Couto, Moçambique, O Saber, 

sábado, 17 de junho de 2017

Terra Sonâmbula. Mia Couto. «Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada»

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«(…) Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro. Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos ofendem- se lhes mostramos nojo. Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz: sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Não quer apanhar sombra? Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui. E porquê? Cheiram-lhe mal? O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Escuta-se apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio. Peço-lhe, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos. O velho apressa-se a emendar: não sou seu tio! E ameaça: o moço que não abuse das familiaridades. Mas aquele tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga. 
Em você não gosto. Não lhe chamo nunca mais. E me diga: quer encontrar os seus pais porquê? Já expliquei tantas vezes. Não consigo entender. Vou-lhe contar uma coisa: os seus pais não lhe vão querer ver nem vivo. Porquê? Em tempos de guerra, filhos são um peso que atrapalha. Saem a enterrar os cadáveres. Não vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa estava empapada em sangue, nem se notava a cor original. Junto dele estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé. Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado. Eh pá, este gajo não cheira. Atacaram o machimbombo há pouco tempo. O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente do que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruaram a terra. Depois de fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro. Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga: abre, vamos ver o que está dentro. Forçam o fecho, apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspecciona os papéis. Veja, Tuahir. São cartas. Quero saber é das comidas. O miúdo remexe no resto. As mãos curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa. Tira só essa papelada. Serve para acendermos a fogueira. O jovem retira os caderninhos. Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre, cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo passeia os seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como um congolote. O machimbombo rende-se à quietude, tudo é silêncio taciturno. Mais tarde, começa-se a escutar um pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho levanta-se e ralha: pára de chorar! É que me dói uma tristeza... Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada. Nós nunca mais vamos sair daqui. Vamos, com certeza. Qualquer coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada já se vai encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente. Mais sereno, o velho passa um braço sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta: tens medo da noite? Muidinga acena afirmativamente. Então vai acender uma fogueira lá fora. O miúdo levanta-se e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois senta-se ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho. Que estás a fazer, rapaz? Estou a ler. É verdade, já me esquecia, você é capaz de ler. Então leia em voz alta que é para me adormecer». In Mia Couto, Terra Sonâmbula, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0790-9.

Cortesia de Caminho/JDACT

sexta-feira, 16 de junho de 2017

E se Obama fosse Africano. Mia Couto. «O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança»

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O guardador de rios
«Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país e um programa de registo foi iniciado para os mais importantes cursos fluviais. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projecto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram o projecto acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido activo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para grafar, a carvão, os dados hidrológicos que era necessário registar. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Orgulhoso, o guarda recebeu os visitantes à entrada e apontou para a madeira da porta: começa-se a ler por aqui, para ir habituando os olhos ao escuro. A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.
O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança. Como se me lembrasse que devo dialogar com invisíveis rios e tudo em meu redor podem ser paredes onde eu nego a tentação do desalento.
Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor. Com a excepção do artigo sobre a eleição de Obama, todos os restantes textos foram concebidos para alocuções a serem proferidas em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique. Conservei o mais possível a forma coloquial e deixei intencionalmente escapar, aqui e ali, pequenas repetições e improvisações.
Alguns destes textos foram concebidos para o contexto de Moçambique e, eventualmente, pecarão por essa especificidade para o leitor não moçambicano. Acredito, porém, que os rios que percorrem o imaginário do meu país cruzam territórios universais e desembocam na alma do mundo. E nas margens de todos esses rios há gente teimosamente inscrevendo na pedra os minúsculos sinais da esperança. In Mia Couto.

Mia Couto, E se Obama fosse Africano, Edições Caminho, colecção Outras Margens, 2009, ISBN 978-972-212-023-4.

Cortesia ECaminho/JDACT

terça-feira, 28 de junho de 2016

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Lembrei o caso do camaleão. Todos sabem a lenda: Deus enviou o camaleão como mensageiro da eternidade. O bicho demorou-se a entregar aos homens o segredo da vida eterna. Demorou-se tanto que deu tempo a que Deus, entretanto, se arrependesse e enviasse um outro mensageiro com o recado contrário. Pois eu sou um mensageiro às avessas: levo recado dos homens para os deuses. Me estou demorando com a mensagem. Quando chegar ao lugar dos divinos já eles terão recebido a contrapalavra de outrem.
Certo era que eu não tinha apetência para herói póstumo. A condecoração devia ser evitada, custasse os olhos e a cara. Que poderia eu fazer, fantasma sem lei nem respeito? Ainda pensei reaparecer no meu corpo de quando eu era vivo, moço e felizão. Me retroverteria pelo umbigo e surgiria, do outro lado, fantasma palpável, com voz entre os mortais. Mas um xipoco que reocupa o seu antigo corpo arrisca perigos muito mortais: tocar ou ser tocado basta para descambalhotar corações e semear fatalidades. Consultei o pangolim, meu animal de estimação. Há alguém que desconheça os poderes deste bicho de escamas, o nosso halakavuma? Pois este mamífero mora com os falecidos. Desce dos céus aquando das chuvadas. Tomba na terra para entregar novidades ao mundo, as proveniências do porvir. Eu tenho um pangolim comigo, como em vida tive um cão. Ele se enrosca a meus pés e faço-lhe uso como almofada. Perguntei ao meu halakavuma o que devia fazer. Não quer ser herói? Mas herói de quê, amado por quem? Agora, que o país era uma machamba de ruínas, me chamavam a mim, pequenito carpinteiro!? O pangolim se intrigou: não lhe apetece ficar vivo, outra vez? Não. Como está a minha terra, não me apetece. O pangolim rodou sobre si próprio. Perseguia a extremidade do corpo ou afinava a voz para que eu lhe entendesse? Porque não é com qualquer que o bicho fala. Ergueu-se sobre as patas traseiras, nesse jeito de gente que tremexia comigo. Apontou o pátio da fortaleza e disse: veja à sua volta, Ermelindo. Mesmo no meio destes destroços nasceram flores silvestres. Não quero regressar para lá. É que aquele será, para sempre, o teu jardim: entre pedra ferida e flor selvagem.
Me irritavam aquelas vagueações do escamudo. Lhe lembrei que eu queria era conselho, uma saída. O halakavuma ganhou as gravidades e disse: você, Ermelindo, você deve remorrer. Voltar a falecer? Se nem foi fácil deixar a vida da primeira vez! Seguindo a tradição de minha família não deveria ser sequer tarefa fazível. Meu avô, por exemplo, durou infinidades. Com certeza, não morreu ainda. O velho deixava a perna de fora do corpo, dormia junto de perigosas folhagens. Oferecia-se, desse modo, à mordedura das cobras. O veneno, em doses, nos dá mais vivência. Falava assim. E parecia a vida lhe dava razão: cada vez ele ficava mais cheio de feitio e forma. O halakavuma se parecia com meu avô, teimoso como um pêndulo. O bicho insistia-me: escolha um que esteja próximo para acabar. O lugar mais seguro não é no ninho da cobra-mamba? Eu devia emigrar em corpo que estivesse mais perto de morrer. Apanhar boleia dessa outra morte e dissolver-me nessa findação. Não parecia difícil. No asilo não faltaria quem estivesse para morrer. Quer dizer que eu vou ter que fantasmear-me por um alguém? Você irá exercer-se como um xipoco. Deixe-me pensar, disse eu. No fundo, a decisão já tinha sido tomada. Eu fingia apenas ser dono da minha vontade. Nessa mesma noite, eu estava transitando para xipoco. Pelas outras palavras, me transformava num passa-noite, viajando em aparência de um outro alguém. Caso reocupasse meu próprio corpo eu só seria visível do lado da frente. Visto por detrás não passaria de oco de buraco. Um vazio desocupado. Mas eu iria residir em corpo alheio. Da prisão da cova eu transitava para a prisão do corpo. Eu estava interdito de tocar a vida, receber directamente o sopro dos ventos. De meu recanto eu veria o mundo translucidar, ilúcido. Minha única vantagem seria o tempo. Para os mortos, o tempo está pisando nas pegadas da véspera. Para eles nunca há surpresa. No princípio, ainda depositei dúvida: esse hala-kavuma dizia a verdade? Ou inventava, de tanto estar longe do mundo? Há anos que ele não descia ao solo, suas unhas já cresciam a redondear umas tantas voltas. Se mesmo as patas dele tinham saudade do chão, por que motivo sua cabeça não fantasiava loucuras? Mas, depois, eu me fui deixando ocupar pela antecipação da viagem ao mundo dos vivos.
Me enchi tanto desta vontade que até sonhei sem chuva nem noite. O que sonhei? Sonhei que me enterravam devidamente, como mandam nossas crenças. Eu falecia sentado, queixo na varanda dos joelhos. Descia à terra nessa posição, meu corpo assentava sobre areia que haviam retirado de um morro de muchém. Areia viva, povoada de andanças. Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos. Então, espetavam à minha volta paus de acácias. Tudo em aptidão de ser flor. E para convocar a chuva me cobriam de terra molhada. Assim eu me aprendia: um vivo pisa o chão, um morto é pisado pelo chão. E sonhei ainda mais: após a minha morte, todas as mulheres do mundo dormiam ao relento. Não era apenas a viúva que estava interdita a abrigar-se, como é hábito da nossa crença. Não. Era como se todas as mulheres tivessem, em mim, perdido o esposo. Todas estavam sujas por minha morte. O luto se estendia por todas as aldeias como um cacimbo espesso. As lamparinas iluminavam o milho, mãos trémulas passavam com o cadinho do fogo entre os espigueirais. Limpavam-se os campos dos maus-olhados. No dia seguinte, mal acordei me pus a abanar o halakavuma. Queria saber quem era a pessoa que ia ocupar. É um que está para vir. Um? Qual? É um de fora. Vai chegar amanhã. Depois, acrescentou: foi pena não me ter lembrado antes. Uma semana antes e tudo estaria já resolvido. Há uns poucochinhos dias mataram um grande, lá no asilo. Que grande? O director do asilo. Foi morto ao tiro. Por motivo desse assassinato vinha da capital um agente da polícia. Eu que me instalasse no corpo desse inspector e seria certo que morreria. Você vai entrar nesse polícia. Deixe o resto por minhas contas. Quanto tempo vou ficar lá, na vida? Seis dias. É o tempo do polícia ser morto». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«Sou o morto. Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. A pessoa deve sair do mundo tal igual como nasceu, enrolada em poupança de tamanho. Os mortos devem ter a discrição de ocupar pouca terra. Mas eu não ganhei acesso a cova pequena. Minha campa estendeu-se por minha inteira dimensão, do extremo à extremidade. Ninguém me abriu as mãos quando meu corpo ainda esfriava. Transitei-me com os punhos fechados, chamando maldição sobre os viventes. E ainda mais: não me viraram o rosto a encarar os montes Nkuluvumba. Nós, os Mucangas, temos obrigações para com os antigamentes. Nossos mortos olham o lugar onde a primeira mulher saltou a lua, arredondada de ventre e alma. Não foi só o devido funeral que me faltou. Os desleixos foram mais longe: como eu não tivesse outros bens me sepultaram com minha serra e o martelo. Não o deviam ter feito. Nunca se deixa entrar em tumba nenhuns metais. Os ferros demoram mais a apodrecer que os ossos do falecido. E ainda pior: coisa que brilha é chamatriz da maldição. Com tais inutensílios, me arrisco a ser um desses defuntos estragadores do mundo. Todas estas atropelias sucederam porque morri fora do meu lugar. Trabalhava longe da minha vila natal. Carpinteirava em obras de restauro na fortaleza dos portugueses, em São Nicolau. Deixei o mundo quando era a véspera da libertação da minha terra. Fazia a piada: meu país nascia, em roupas de bandeira, e eu descia ao chão, exilado da luz. Quem sabe foi bom, assim evitado de assistir a guerras e desgraças.
Como não me apropriaram funeral fiquei em estado de xipoco, essas almas que vagueiam de paradeiro em desparadeiro. Sem ter sido cerimoniado acabei um morto desencontrado da sua morte. Não ascenderei nunca ao estado de xicuembo, que são os defuntos definitivos, com direito a serem chamados e amados pelos vivos. Sou desses mortos a quem não cortaram o cordão desumbilical. Faço parte daqueles que não são lembrados. Mas não ando por aí, pandemoniando os vivos. Aceitei a prisão da cova, me guardei no sossego que compete aos falecidos. Me ajudou o ter ficado junto a uma árvore. Na minha terra escolhem um canhoeiro. Ou uma mafurreira. Mas aqui, nos arredores deste forte, não há senão uma magrita frangipaneira. Enterraram-me junto a essa árvore. Sobre mim tombam as perfumosas flores do frangipani. Tanto e tantas que eu já cheiro a pétala. Vale a pena me adoçar assim? Porque agora só o vento me cheira. No resto, ninguém me cuida. Disso eu já me resignei. Mesmo esses que rondam, pontuais, os cemitérios, que sabem eles dos mortos? Medos, sombras e escuros. Até eu, falecido veterano, conto sabedoria pelos dedos. Os mortos não sonham, isso vos digo. Os defuntos só sonham em noites de chuva. No resto, eles são sonhados. Eu que nunca tive quem me deitasse lembrança, eu sou sonhado por quem? Pela árvore. Só o frangipani me dedica nocturnos pensamentos.
A árvore do frangipani ocupa uma varanda de uma fortaleza colonial. Aquela varanda já assistiu a muita história. Por aquele terraço escoaram escravos, marfins e panos. Naquela pedra deflagraram canhões lusitanos sobre navios holandeses. Nos fins do tempo colonial, se entendeu construir uma prisão para encerrar os revolucionários que combatiam contra os portugueses. Depois da Independência ali se improvisou um asilo para velhos. Com os terceiro-idosos, o lugar definhou. Veio a guerra, abrindo pastos para mortes. Mas os tiros ficaram longe do forte. Terminada a guerra, o asilo restava como herança de ninguém. Ali se descoloriam os tempos, tudo engomado a silêncios e ausências. Nesse destempero, como sombra de serpente, eu me ajeitava a impossível antepassado. Até que, um dia, fui acordado por golpes e estremecimentos. Estavam a mexer na minha tumba. Ainda pensei na minha vizinha, a toupeira, essa que ficou cega para poder olhar as trevas. Mas não era o bicho escavadeiro. Pás e enxadas desrespeitavam o sagrado. O que esgravatava aquela gente, avivando assim a minha morte? Espreitei entre as vozes e entendi: os governantes me queriam transformar num herói nacional. Me embrulhavam em glória. Já tinham posto a correr que eu morrera em combate contra o ocupante colonial. Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça, tribo e região. Para contentar discórdias, equilibrar as descontentações. Queriam pôr em montra a etnia, queriam raspar a casca para exibir o fruto. A nação carecia de encenação. Ou seria o vice-versa? De necessitado eu passava a necessário. Por isso me covavam o cemitério, bem fundo no quintal da fortaleza. Quando percebi, até fiquei atrapalhaço. Nunca fui homem de ideias mas também não sou morto de enrolar língua. Eu tinha que desfazer aquele engano. Caso senão eu nunca mais teria sossego. Se faleci foi para ficar sombra sozinha. Não era para festas, arrombas e tambores. Além disso, um herói é como o santo. Ninguém lhe ama de verdade. Se lembram dele em urgências pessoais e aflições nacionais. Não fui amado enquanto vivo. Dispensava, agora, essa intrujice». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

domingo, 15 de novembro de 2015

A Confissão da Leoa. Mia Couto. «O rugido do leão ecoaria dentro de si, rasgando-lhe as horas. Ficou um tempo na varanda a perscrutar o escuro. Talvez essa quietude lhe trouxesse repouso. Mas o silêncio é um ovo às avessas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A notícia
«(…) A voz regressou-lhe, já mansa: Pense assim, mulher: não há cova para um filho. Não quero ouvir, vou sair. Sair? Vou buscar o que resta da nossa filha por aí pelo mato… Não vai. Daqui de casa você não sai. A mim ninguém me vai impedir. Sairia de casa, sim, andaria por onde já não há caminhos de gente, os seus pés sangrariam, queimar-se-iam os olhos de encontro ao Sol, mas iria buscar o que restava de Silência, a sua eterna menina. Barrando-lhe a passagem, o marido ameaçou: Vou atá-la com uma corda, como se faz com os bichos. Pois me amarre. Há muito que sou um bicho. Há muito que você dorme com um bicho na sua cama… Era a pedra sobre o assunto: Hanifa enroscou os braços nas pernas, em silêncio, como se quisesse render-se ao sono. Vai dormir no chão?, inquiriu Genito. Ela estendeu o corpo no chão, a cabeça assente na pedra. A sua intenção era escutar as entranhas do mundo. As mulheres de Kulumani sabem segredos. Sabem, por exemplo, que dentro do ventre materno os bebés, a um dado momento, mudam de posição. Em todo o mundo, eles rodam sobre si próprios, obedecendo a uma única e telúrica voz. Acontece o mesmo com os mortos: numa mesma noite, e só pode suceder nessa noite, eles recebem ordem para se revirarem no ventre da terra. É então que, à superfície das campas, emergem luzes, um revolutear de prateadas poeiras. Quem dorme com o ouvido de encontro ao chão escuta essa circunvolução dos defuntos. Por essa razão, que Genito desconhecia, Hanifa recusou leito e travesseiro.
Estendida no solo, ficou escutando a terra. Não tardaria que a filha se fizesse sentir. Quem sabe até as gémeas Uminha e Igualita, as antigas falecidas, lhe entregassem recados do outro lado do mundo? O marido não se deitou: sabia que o esperava uma longa noite. A lembrança do corpo dilacerado da filha lhe afugentaria o sono. O rugido do leão ecoaria dentro de si, rasgando-lhe as horas. Ficou um tempo na varanda a perscrutar o escuro. Talvez essa quietude lhe trouxesse repouso. Mas o silêncio é um ovo às avessas: a casca é dos outros, mas quem se quebra somos nós. Uma dúvida o amargurava: como acontecera aquela tragédia? A filha teria saído de casa a meio da noite? E se assim acontecera, teria ela a intenção de pôr cobro à vida? Ou, ao inverso, o leão invadira o espaço caseiro, em jeito mais de ladrão do que de fera? De repente, o mundo inteiro se estilhaçou: furtivos passos riscaram o sossego do mato. O coração de Genito lhe cresceu mais do que o peito. Estava acontecendo aquilo que sempre sucede: os leões vinham comer os restos do dia anterior. Inesperadamente, como se ficasse possesso, o homem desatou aos berros, enquanto corria em círculos: Sei que estão aí, filhos do demónio! Mostrem-se, quero ver-vos sair do mato, vocês são vantumi va vanu!
Da janela o vi nesse agitado delírio, reclamando contra os leões-pessoas, os vantumi va vanu. Inesperadamente, tombou desamparado como se lhe tivessem quebrado os joelhos. Ergueu o rosto lentamente e viu que escuras asas de morcego o abraçavam. Não se escutava um ruído, nem folha nem asa crepitavam por cima da sua cabeça. Genito Mpepe era pisteiro, sabia dos imperceptíveis sinais da savana. Muitas vezes ele me dissera: só os humanos sabem do silêncio. Para os demais bichos, o mundo nunca está calado e até o crescer das ervas e o desabrochar das pétalas fazem um enorme barulho. No mato, os bichos vivem de ouvido. Era o que meu pai, naquele momento, invejava: ser um bicho. E, longe dos humanos, regressar à sua toca, adormecer sem pena nem culpa. Eu sei que estão aí! Desta vez, as suas palavras já não carregavam raiva. Apenas a rouquidão lhe fazia murchar a voz. Repetindo os impropérios, retornou a casa para se refugiar no quarto. A mulher permanecia enroscada, estendida no chão, tal como a havia deixado. Quando lhe ajeitou a manta, Hanifa Assulua, estremunhada, apertou com veemência o corpo do marido e exclamou: Vamos fazer amor! Agora? Sim. Agora! Estás muito confusa, Hanifa. Não sabes o que estás dizer. Recusa-me, marido? Não quer fazer um amorzinho comigo? Sabes que não podemos. Estamos de luto, a aldeia vai ficar suja. É isso que eu quero: sujar a aldeia, sujar o mundo.
Hanifa, escuta bem: o tempo vai passar, a gente vai esquecer. As pessoas esquecem até que estão vivas. Há muito que eu não vivo. Agora, já deixei de ser pessoa. Meu pai olhou-a, desconhecendo-a. A mulher nunca falara assim. Aliás, ela quase não falava. Sempre fora contida, guardada em sombra. Depois de morrerem as gémeas, ela deixou de pronunciar palavra. De tal modo que o marido, de vez em quando, lhe perguntava: Estás viva, Hanifa Assulua? Não era, porém, a fala que era pouca. A vida, para ela, tornara-se um idioma estrangeiro. Mais uma vez, a esposa se preparava para essa ausência, pensou Genito, sem reparar que, no escuro, Hanifa se estava despindo. Já nua, ela o abraçou por trás e Genito Mpepe deixou-se sucumbir perante aquele aconchego de serpente. Parecia rendido quando, de repente, sacudiu a mulher e se retirou com passo estugado para o pátio exterior. E logo desapareceu no escuro. No côncavo do quarto, minha mãe se entregou a ousadas carícias como se o seu homem realmente lhe comparecesse. Desta feita, ela comandava, galopando na sua própria garupa, dançando sobre o fogo. Suava e gemia: Não pares, Genito! Não pares! Foi então que sentiu o cheiro do suor. Ácido e intenso, como o dos bichos. Depois, escutou o ronco. A minha mãe ocorreu, então, que por cima dela não estava o seu homem, mas um bicho dos matos, sequioso de seu sangue. Durante o acto amoroso, Genito Mpepe se convertera numa fera que literalmente a devorava. Dissolvida na avidez do outro, ela permanecia paralisada, à mercê dos seus felinos apetites». In Mia Couto, A Confissão da Leoa, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-163-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

A Confissão da Leoa. Mia Couto. «É por medo. Temos receio de que regressem. Esse medo, com o tempo, torna-se maior que a saudade. Todos os familiares respeitaram o mando: o carreiro de regresso foi bem diverso do usado na ida»

Cortesia de wikipedia e jdact

A notícia
«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o actual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar. Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação. Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.
No regresso do funeral, havia demasiado céu nos olhos da minha pobre mãe. O caminho até casa era apenas de uns passos: o cemitério familiar ficava nas cercanias da aldeia. Hanifa fez uma breve passagem pelo rio Lideia para os banhos purificadores, enquanto, mais atrás, eu apagava as pegadas que conduziam à sepultura. Sacudam os pés, as poeiras gostam de viajar. No chão sagrado do nosso cemitério figurava mais uma cruz a mostrar que éramos distintos, entre muçulmanos e pagãos. Hoje eu sei: colocamos uma lápide sobre os mortos, não é por respeito. É por medo. Temos receio de que regressem. Esse medo, com o tempo, torna-se maior que a saudade. Todos os familiares respeitaram o mando: o carreiro de regresso foi bem diverso do usado na ida. Todavia, a imagem pegajosa não arredava da minha cabeça: o corpo de Silência erguido em ombros, envolto em panos brancos que balançavam como asas quebradas. Na soleira da nossa porta, a mãe olhou a casa como se a culpasse: tão viva, tão antiga, tão eterna. A nossa casa diferia das demais palhotas. Era feita de cimento, com telhados de zinco, apetrechada de quartos, sala e cozinha interior. Sobre o chão espalhavam-se tapetes e nas janelas pendiam poeirentos cortinados. Nós também éramos diferentes dos demais habitantes de Kulumani. Sobretudo a minha mãe, Hanifa Assulua, era distinta, assimilada e filha de assimilados. No regresso do funeral reparei como era bela: mesmo com o cabelo rapado, em obediência ao luto, o seu rosto vencia a tristeza.
Por um tempo, fitou-me como se avaliasse quanto eu lhe era preciosa. Pensei que havia maternal ternura nesse olhar. Não era assim. Outro sentimento lhe desenhou as palavras: Não terás nunca que passar por tristezas de mãe. Por favor, mamã, acabei de perder a minha irmã, disse eu. Não perderás nunca uma filha. Foi Deus que assim quis. E virou costas. Já descalça, venceu a porta e se afundou na cama. Pode-se enterrar uma filha, sim. Ela já o fizera antes. Mas não se regressa nunca dessa despedida. Ninguém pede mais a atenção de uma mãe que um filho morto. Meu pai pediu, então, às mulheres do choro que se retirassem do nosso terreiro. Entrou na penumbra da casa e debruçou-se sobre a mulher para lhe perguntar: Por que rapou o cabelo? Não somos cristãos? Hanifa encolheu os ombros. Naquele momento, ela não era coisa nenhuma. Findara o lamento das carpideiras e ela não sabia lidar com tão vasto silêncio. E o que fazemos agora, ntwangu?
Como todas as mulheres de Kulumani, chamava o marido por ntwangu. O homem chamava-se Genito Serafim Mpepe. Por razão de respeito, porém, a mulher nunca se dirigia a ele pelo nome. Éramos assimilados, sim, mas pertencíamos demasiado a Kulumani. Todo o nosso presente era feito de passado. Naquele momento, anichando-se junto dela, o marido falou-lhe com suavidade a que ela não estava habituada, cada palavra uma nuvem reparando os céus. O que fazemos agora? Ora, agora… agora, vivemos, mulher. Eu já não sei viver, ntwangu. Ninguém sabe. Mas é isso que a nossa filha nos pede: que vivamos. Não me fale sobre o que a nossa filha pediu. Você nunca a escutou. Agora não! Agora não, mulher. Não entendeu a minha pergunta: o que fazemos com a parte da nossa filha que não enterrámos? Não quero falar disso. Vamos dormir. Ela soergueu-se, apoiada num cotovelo. Os olhos estavam rasgados como os de um afogado.
Mas a nossa Silência… Calada, mulher! Esqueceu que não podemos nunca mais pronunciar o nome da nossa filha? Eu preciso saber: que partes do corpo enterrámos? Já disse para se calar, mulher. Um tremor de folha na sua voz: meu pai brigava com infernos interiores. O ensanguentado saco contendo os restos da filha ainda pingava na sua memória. E, de novo, a insepultável lembrança o assaltou: o tropel de vozes e espantos que o despertara na anterior madrugada. Genito Mpepe cruzara o pátio, adivinhando a tragédia. Momentos antes, ele tinha escutado os leões rondando a casa. De repente, rugidos, gritos e lamentos dissolveram-se no vazio, o mundo afundado aos despedaços: nada mais restava dentro dele. Para tanto esquecer é preciso não ter nunca vivido. O coração?, voltou a inquirir Hanifa. Outra vez? Eu não disse que se calasse? Enterrámos o coração? Você sabe bem o que fazem com o coração… O meu pai respirou fundo, contemplou as velhas roupas penduradas no interior do telhado. Não se sentiu diverso daquele vestuário, tombando informe e sem alma no vazio». In Mia Couto, A Confissão da Leoa, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-163-2.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

sábado, 7 de novembro de 2015

Raiz de Orvalho. Paradoxos da Vida Breve. Mia Couto. «Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Costa, de Portas, de todos eles, da ‘troika’, do défice, da crise, de editoriais, de analistas…»

jdact

Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo.
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,
escrevo»
Abril de 1984

Ave
«Seria um pássaro

No sono das asas
ondulava
toda a solidão do céu

Terrestre,
só a fugitiva sombra

Paisagem nenhuma
lhe dava abrigo

Pousado,
o corpo
de si mesmo se exilava

Nos ensinava
a deslumbrância da viagem
a nós que só na morte
olharemos os céus de frente»
Junho de 1987


Poema mestiço
«Escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

Sangro norte
em coração do sul

Na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

Hei-de
começar mais tarde

Por ora
sou a pegada
do passo por acontecer»
Janeiro de 1985

Poemas de Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho-Poesia

JDACT

Raiz de Orvalho. Paradoxos da Vida Breve. Mia Couto. «Nasceram três melros na trepadeira do muro do meu jardim; já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas olhando, olhando à inusitada actividade junto ao muro…»

jdact

Solidão
«Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo»
Outubro de 1982


Raiz de orvalho
«Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que se não morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei a ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura da raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco das mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno»
Agosto 1982

Poemas de Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho-Poesia

JDACT

quinta-feira, 26 de março de 2015

Poesia. Mia Couto. «Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso»

jdact

Manhã
«Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos»
Novembro 1979


Palavra que desnudo
«Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo
Abril 1981

Poemas de Mia Couto, in ‘Raíz de Orvalho

JDACT 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Poesia. Mia Couto. «Descobri a vossa intenção; deceptar as minhas raízes mais profundas, obrigar-mr à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me na solidão»

jdact e wikipedia

No teu rosto
«No teu rosto
competem mil madrugadas.

Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas.

A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego».

Fundo do mar
«Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados.

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço»


Morte silenciosa
«A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave da inquietação.

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida.

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada»
Poemas de Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho, 1981

JDACT