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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos»

jdact

Aleph
«(…) Só o silêncio desnudo e desvinculado de qualquer estratagema artístico me permitiria homenagear uma força que chamo Deus e cuja grandeza inimaginável tento vagamente imaginar sabendo que apenas o meu silêncio pode render homenagem digna a uma força que eu mesmo conceberia como demasiado poderosa para poder ser vista em todo o seu esplendor imenso, como se fosse uma única areia do deserto que tentasse imaginar como seria o céu constelado que cobre o universo visível. Só o silêncio atemorizado, à maneira daquele que Pascal angustiadamente sentia, esse silêncio eterno dos espaços infinitos e tácitos, me pode socorrer para imaginar o que Deus possa ser: algo que só pelo meu absoluto e resignado silêncio posso respeitar e temer na sua suposta grandeza excessiva. Calar-me, em suma, seria a forma suprema de imaginar aquilo que excessivamente me ultrapassa e a que talvez eu pudesse dar o nome cómodo, ou convencional, de divino. Mas nada disto me aproximaria um milímetro daquilo que concebo como podendo ser a infinitude de um ser chamado Deus, uma vez que apenas me dispensaria de ter uma ideia antropomorfizada do conceito de Deus, tornando-lhe, ainda assim, incapaz de conceber a sua luminosa treva sem fundo.

Beth
Nunca entendi como é que se pode querer, ou intentar querer, provar Deus, demonstrá-lo. Há mesmo qualquer coisa de absurdo e fátuo nesse intento, como se ele fosse uma paródia da divindade que se quer mostrar como demonstrada ou demonstranda. Como é que algo tão transcendente pode ser demonstrado como se fosse o teorema de Fermat ou ainda qualquer outro enigma matemático ou lógico ou de qualquer outra natureza afim? Falar de Deus é, desde logo, verbiagem frívola, acto de loucura atrevida, desfaçatez da razão humana: porque é que durante séculos de fez teologia em vez de se ter ficado calado, humildemente calado diante de tamanho mistério incompreensível, desse mysterium tremendum e sem solução possível que era poder haver ou dever haver uma entidade transcendente anterior ao tempo, fundadora do tempo, actuante no tempo e, apesar disso, intemporal? Só a teologia negativa medieval ousou intentar um caminho diferente para Deus, atrevendo-se a dizê-lo impossível de ser nomeado, descrito, explicado, demonstrado, etc. Mas essa via negativa da teologia ficou-se pelo caminho, subsumiu-se na corrente da teologia positiva, mesmo quando alimentava subterrâneos veios místicos heterodoxos, não tendo decisiva sequência no pensamento cristão ocidental, ainda que todo ele tivesse sido marcado pela sua influência seminal, estabelecendo-se como prólogo de outras aventuras místicas mais intrépidas, mais fundas, a dois passos da heresia.
O mistério de Deus, e da sua improvável relação com as suas criaturas, devia ter sido sempre tomado como mistério, apenas como mistério, portanto de todo em todo insusceptível de demonstração ou prova alguma, filosófica, racional, teológica ou científica. A única prova de Deus só poderia ser fornecida pelo próprio Deus, comparecendo diante de nós e, ante nossos olhos mortais, varando-nos com a sua terrível presença, agindo de modo que o entendêssemos, ouvíssemos e víssemos, ou seja, de maneira que os nossos sentidos e a nossa pobre razão não tivesse outra solução a não ser a de aceitar a prova provada de um Deus que assim se abaixaria a provar-nos que é. No fundo, as duas grandes religiões do Livro optaram por um Deus pessoal, que se personaliza e antropomorfiza, que convive com os homens por ele criados, que intercede junto deles, se intromete nos seus negócios temporais e amorosos, lhes barra o caminho ou, ao contrário, propõe rotas para a salvação, lhes abre o mar para que passem, lhes dá as tábuas da sua Lei ou fulmina-os quando estes desobedecem a ditames que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos. Em suma, estamos diante de um Deus que se faz humano, sobretudo no cristianismo, a ponto de baixar à terra numa dada época da História humana, para se misturar com os homens e por estes ser crucificado. Ou um Deus que, em pleno século oitocentista, vindo do desaguar das Luzes, se digna convocar o Príncipe das Trevas para lhe perguntar como vai e se pode participar num repto lançado a um sábio germânico, já que é assim que pode ser entendido o Prolog im Himmel do Fausto de Goethe, ainda que coubesse a Mefistófeles garantir que não lhe interessam nem o mundo nem os sóis mas tão só como os homens se atormentam, prólogo no céu, do Fausto…» In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Despedida no 31. João Chichorro. «Um homem que pudesse ter em si próprio, em certo grau, génio, talento e inteligência estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua inteligência, na sua época pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos…»

jdact e joaochichorro

Génio, talento e celebridade
«Pode-se supor que a presença no mesmo homem de mais de um elemento intelectual facilitaria a sua imediata celebridade. Até certo limite é assim, mas o é até um limite menor do que se poderia conjecturar na ociosidade da hipótese. Um homem dotado ao mesmo tempo de grande génio e de grande inteligência (como Shakespeare), ou de grande génio e grande talento (como Milton), não acumula na sua época ou na seguinte os resultados do génio e os resultados de outra qualidade. É que estes diferentes elementos intelectuais estão misturados por coexistirem no homem, e derrama-se na substância da inteligência ou do talento o sagrado veneno do génio; a bebida é amarga, embora retenha algo do seu gosto comum. Os antigos misturavam mel com vinho e achavam isso gostoso; mas o néctar não pode fazer qualquer vinho gostoso ao paladar da gente comum. Um homem que pudesse ter em si próprio, em certo grau, génio, talento e inteligência estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua inteligência, na sua época pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos e épocas pelo seu génio. Mas como o seu génio afectaria o seu talento, e o seu talento e o seu génio a sua inteligência, pois as coisas que coexistem na mente coexistem por interfusão e não por mera continuidade, menor seria o seu talento puro, e menos atrairia gerações mais amplas; e menos seria a sua inteligência pura e menos acariciaria a simplicidade de todos os presentes. Qualquer exemplo tornaria isto claro para quem compreende por meio de exemplos. Um homem de espírito que, entre os seus pares, faz uma piada, daquelas que um espírito talentoso poderia inteligentemente conceber, provoca uma gargalhada geral de apreço. Esta coisa impura é pura inteligência. O homem que, no mesmo grupo, faz uma piada, com uma alusão clássica ou com uma distensão de espirituosidade intelectual, pode mostrar ao analista que acrescentou alguma coisa à inteligência, mas, no efeito moderado que produziu nos ouvintes, ter-lhe-á subtraído algo. Se, além disso, o mesmo homem for um génio e acontecer que faça tal piada em que o seu génio claramente se mostre e inunde a sua inteligência com a sua cor, terá de enfrentar o daltonismo de cada ouvinte diante do qual torna ridícula a sua sabedoria. Será algo de parecido como fazer uma piada em língua estrangeira. O presente não tem segunda visão e a ponta permanece na bainha». In Fernando Pessoa.

João! Que estejas em Paz.

JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência…»

Cortesia de wikipedia

Aleph
«(…) Contudo, ao escrever e pensar estas limitações ao acesso do divino pela mente humana, não estarei, afinal, a imaginar Deus, a postulá-lo com uma hipótese ou uma premissa garantida? Creio que não. Limito-me, sim, a conceber que Deus é uma entidade desde logo inconcebível, porque, se existisse, ultrapassaria tudo quanto a nossa pobre mente seria capaz de pensar dele: inconcebivelmente vasto, complexo, misterioso, transcendente, inacessível, inatingível, incompreensível, etc. Só recorrendo ao quia absurdum seria o meu espírito capaz de o aceitar como graniticamente existente e susceptível de ser conhecido. Não intento sequer aproximar-me desse deserto imenso e interminável que seria Deus ou desse mar profundo e infinito sem margens finais em lado nenhum do espaço universal que seria, assim, a sua imensidão inexaurível, a sua prodigiosa e derrotante grandeza sem quaisquer termos ou fronteiras ou limites.
Por isso, à maneira da teologia negativa da Idade Média, desde o corpus areopagiticum do chamado pseudo-Dionísio (século VI d.C.), que imprimiu um selo platónico a toda a escolástica e mística da Idade Média, fascinando todo o seu pensamento, o pseudo-Dionísio definia Deus como extra-ser, aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência (De mysthica Theologia), só posso conceber a minha própria incapacidade de o conceptualizar e abarcar, a minha nativa e insuperável inabilidade para imaginar o que Deus possa ser ou como possa ser, definindo-o negativamente. Nenhum voo vertical me levantaria, assim, do chão miserável onde rasteja o meu espírito, como a serpente bíblica condenada por Deus por ter auxiliado Adão e Eva a julgarem pelos próprios intelectos. Deus fica sempre para além de tudo quanto eu possa imaginar ou intentar racionalmente exprimir, a menos que desde logo o decretasse como cognoscível, ser a amar, ser amado, e nessa medida susceptível de ser atingido pelo meu caminho persistente para ele ou de algum modo erguido até ele pelo próprio amor que ele me tivesse, à maneira de todos os utopistas individuais que se chamam místicos, viajantes temerários que buscam tão ardentemente uma incógnita terra buscada e sonhada, a qual, mesmo que não existisse, Deus a criaria para que a achassem algum dia.
Crer em Deus supõe, ao fim e ao cabo, a graça de crer nele, a vontade que é só dele de se fazer amado por mim, a graça que ele me desse para que eu o amasse, o pudesse ou quisesse amar. Só com a sua ajuda, portanto , a minha alma poderia achá-lo ou concebe-lo, o que é, evidentemente, absurdo para quem não parta de um pressuposto de crença prévia nele, como é o nosso caso. Como é que eu posso imaginar esse espantoso ser inimaginável, a menos que previamente me sinta dotado da capacidade, ou do mérito, de por ele ser encaminhado, ou erguido, para a sua esfera transcendente, ou capaz de anular a infinita distância que me separa do seu trono pela simples presença de uma vontade que, no fundo, me anula e supera, de molde a encurtar essa infinidade espacial que me separa de Deus e, deste modo, tornar possível o meu caminho para ele? Simone Weil, ardente enamorada de Cristo, supunha que o ser humano é uma flor que Deus se abaixa a colher porque só ele é capaz do infinito amor que tal gesto de humildade implica. A vinda do seu filho à terra e o seu sacrifício eram uma prova suprema deste mesmo amor desta infinita humildade dadivosa e sacrifical do amor de Deus pelos homens, deste sacrifício por nós. Mas como posso aceitar esta postura, se não creio em Deus nem no seu filho feito homem?
Que fazer então, em relação a uma realidade tão vasta que não se deixa conceptualizar pela mente humana sem o auxílio do próprio divino, a menos que ela mesma se digne auxiliar esse pobre e grotesco instrumento de medida com o qual se intenta medir o incomensurável? O registo poético permite-me, talvez, superar distâncias infindas, imaginando tropos que me ajudariam a esboçar o que Deus possa ser. O que, desde logo, me parece ser um recurso de astúcia artística que pode satisfazer um esteta mas não a alma que buscasse uma certeza íntima e satisfatória, ou seja, artifício que não passa afinal de uma vaidade ridícula de substituir a questão da transcendência divina pelo mero sortilégio do violino quebrado que, afinal, toda a arte dos homens é. Não há maneira de escapar a esta aporia: se Deus não me ajudasse a pensá-lo e a chegar até ele, eu seria incapaz de o pensar e de chegar até ele, mesmo que andasse séculos e subisse verticalmente de avião em direcção aos céus. Tal hipótese suporia que Deus se interessasse desde logo pela minha patética busca dele, o que não passaria de uma maneira inaceitável de erguer o meu pobre Ego miseravelmente pequeno de humano a dimensões de vertigem: o que é que me pode tornar digno de ser amado e acolhido pelo amor de DeusIn João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aleph
«(…) A impensabilidade de Deus, a impensabilidade de tudo quanto seja divino: Deus não pode ser pensado por nós, mesmo que ele nos tivesse criado. A magnitude abissal do que ele seria, se fosse, basta para não o tentarmos pensar, mesmo com metáforas e linguagem poética. Deus é sempre demasiado: demasiado grande, demasiado complexo, demasiado incompreensível, demasido misterioso, etc., para a nossa mente, limitada para a vertiginosa pequenez do ser humano, mortal e vão. A nossa mente não pode conceber o ilimitamente ilimitado que seria Deus, só o podemos imaginar vagamente, como quem passeia à beira de um oceano cujos exactos limites nem a nossa vista nem a nossa imaginação logram conceber na sua extensão total. Imaginá-lo na sua infinita extensão e grandeza relevaria de uma espécie de aposta, diferente daquela que imaginou Pascal, mas com igual sentido de tentar acertar por palpite, intento desde logo vão e nada seguro. Pensar Deus é, deste modo, um absurdo: só podemos imaginar vagamente, por exemplo, o que possa ser o Infinito ou a Eternidade ou o Tempo sem limites ou a simples morte.
Deus fica sempre para além de, para além de toda a nossa possibilidade conceptual ou mesmo imaginativa ou artística, humana, meramente humana, porque finita, vulnerável, incerta, limitada, de o conceber, de falar dele, de indicar as suas eventuais propriedades, dimensões, capacidades, etc. Deus é um absoluto absolutamente insusceptível de ser pensado, apreendido pelo nosso cogito. Mesmo almas tão crentes e ousadamente cristãs como a de Simone Weil não hesitaram em observar esse fenómeno de inacessibilidade da esfera do divino: … a infinidade do espaço e do tempo separa-nos de Deus. Como o procurarmos? Como irmos até ele? Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente. Não podemos dar um passo em direcção aos céus. (Pensées sans ordre concernant l'amour de Dieu, 1942).
A mística francesa, saída de um judaísmo que nunca chegara a conhecer, caminhando em plena tormenta dos anos negros da ocupação e da barbárie nazi em direcção a um Cristo que ela amava com a paixão fervorosa de quem se converte a um ideal extremo e inevitável, com a mesma dolorosa e dadivosa vontade que a fizera bater-se pelos republicanos espanhóis, acrescentava, logo a seguir ao texto acabado de citar, que essa infinidade de espaço podia ser superada pelo amor de Deus: … para além da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem-nos colher. Ele vem na sua hora. Semelhante asserção parte de um postulado místico apriorístico, o de que Deus ama quem o busca e quem quer por ele ser encontrado, cabendo-nos tão só acertar ou recusar essa socilitude do próprio divino: Deus ama-nos e vem buscar-nos movido por esse amor infinito por nós. Petição de princípio de raiz crente, que nada adianta para quem, como nós, não parte de semelhante premissa, de qualquer amor prévio e consentidor por parte do próprio Deus, não aceitando que Deus queira ser amado e procurado, antes duvida que a infinidade do espaço entre a alma humana e Deus alguma vez possa ser transposta, não fazendo sentido que seja Deus a tomar a iniciativa de ultrapassar essa distância. Muito ao invés da postura crente dessa alma esfolada que era Simone, a nossa atitude é de que, de facto, nunca faríamos mais do que andar à roda da terra se tentássemos ascender em direcção a Deus, até porque Deus é, desde logo, insusceptível de ser pensado ou abarcado pela nossa mente ou explicado, descrito ou sequer referido pela indigente palavra humana». In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph,seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu»

Cortesia de wikipedia

Para que Nunca Mais
«O Holocausto, expressão habitualmente utilizada para referir o que os judeus designam por Shoah, continua a ser a ferida mais teimosamente aberta na memória do conturbado século XX. A crueldade indescritível do aparelho de extermínio nazi provocou a morte a mais de seis milhões de pessoas em campos de concentração espalhados por vários países da Europa Central, designadamente a Alemanha, a Polónia e a Checoslováquia. Esses campos de horror foram a trágica etapa final de milhões de vidas ceifadas por uma máquina de destruição que não poupou judeus, opositores políticos, ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová. Das vítimas conhecidas, seis milhões eram judeus. O seu único crime foi pertencerem a uma etnia e a uma religião, praticada ou não, transformando-se, só por esse motivo, no alvo daquilo que Hitler e os seus sequazes designaram por Solução Final.
O horror dos militares Aliados e das tropas soviéticas ao entrarem pela primeira vez nesses campos de extermínio, numa altura em que o regime nazi se encontrava já na fase de colapso final, continua a ser partilhado por todos quantos, nos nossos dias, tomam contacto com essa realidade que as palavras são sempre parcas para definir e classificar. Como disse um filósofo do século XX, o horror dos campos de concentração é imprescritível, ou seja, não pode nem deve ser apagado da memória contemporânea, tão volátil, tão apressada e tão esquiva que tenta condenar ao esquecimento tudo aquilo que a incomoda e põe em causa, sobretudo se estiver associado aos valores humanistas que consubstanciam o nosso pacto com a liberdade e com a condição humana.
O Espaço dos Exílios, criado pela CM de Cascais, em Fevereiro de 1999, pretende dar um contributo no sentido de que a memória dessa época não prescreva nem se apague. Por esta zona do país passaram dezenas de milhares de pessoas, na sua maioria judeus, que, fugindo do terror nazi, buscavam em Portugal condições para partirem para lugares onde uma nova vida pudesse iniciar-se. A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu.
Vários pontos do concelho, e, em particular, Cascais e Estoril, foram o ponto de abrigo para gente de várias origens e distintas culturas que fugia da humilhação e do extermínio, perplexa e acossada perante a sanha assassina que os elegera como vítimas preferenciais. Passaram décadas desde o Holocausto. No entanto, imagens como zaquelas conservam intacta a sua actualidade. Essa actualidade resulta da circunstância de, na Europa e noutros pontos do mundo, continuarmos a assistir, diariamente, ao atropelo reiterado e sistemático dos direitos humanos. Quer isto dizer que o ser humano continua a ser capaz da maior grandeza e maior vileza, consoante as condições históricas em que se encontra e as situações com que é confrontado. Historicamente, está provado que não tem povos incapazes de actos bárbaros dependendo o seu potencial de agressividade e beligerância das circunstâncias com que são confrontados». In José Jorge Letria, Para que nunca mais, João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

terça-feira, 29 de abril de 2014

Jazz. Poemas del Alma. Orquestra do Algarve. «Não me acordes. Estou morta na quermesse dos teus beijos. Etérea, a minha espécie nem teus zelos amantes a demovem. Mas quanto mais em nuvem me desfaço mais de terra e de fogo é o abraço com que na carne queres reter-me jovem».

jdact e cortesia de joaochichorro


«Aquí
en esta orilla blanca
del lecho donde duermes
estoy al borde mismo
de tu sueño. Si diera
un paso mas, caerla
en sus ondas, rompiéndolo
como un cristal. Me sube
el calor de tu sueño
hasta el rostro. Tu hálito
te mide la andadura
del soñar: va despacio.
Un soplo alterno, leve
me entrega ese tesoro
exactamente: el ritmo
de tu vivir soñando.
Miro. Veo la estofa
de que está hecho tu sueño.
La tienes sobre el cuerpo
como coraza ingrávida.
Te cerca de respeto.
A tu virgen te vuelves
toda entera, desnuda,
cuando te vas al sueño.
En la orilla se paran
las ansias y los besos:
esperan, ya sin prisa,
a que abriendo los ojos
renuncies a tu ser
invulnerable. Busco
tu sueño. Con mi alma
doblada sobre ti
las miradas recorren,
traslúcida, tu carne
y apartan dulcemente
las señas corporales,
por ver si hallan detrás
las formas de tu sueño.
No lo encuentran. Y entonces
pienso en tu sueño. Quiero
descifrarlo. Las cifras
no sirven, no es secreto.
Es sueño y no misterio.
Y de pronto, en el alto
silencio de la noche,
un soñar mío empieza
al borde de tu cuerpo;
en él el tuyo siento.
Tú dormida, yo en vela,
hacíamos lo mismo.
No había que buscar:
tu sueño era mi sueño».
Poema de Luis Cernuda, in ‘Poemas del Alma’

JDACT

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Jazz. Companhia. Amizade. «Os bichos lá estão loucos. A ordem do céu é a mesma da loucura. O realismo celeste é mágico e transcendente. A cabra tem rabo de peixe. O dragão convive com as ursas a águia com o cisne»

Cortesia de joaochichorro, jdact



«A lua espalha claridade e é tão diferente
a cara branca de todas as coisas escuras,
como o dia que é mais luz é preto e de amarguras,
como a noite que é menos luz é límpida e
transparente!»

JDACT

Jazz. Universalidade. Poesia. «Os conjuntos de estrelas são mitos. As constelações são estórias da terra pintadas a Luz no firmamento. Formas que correm mas imóveis. Estrelas de sangue mas em incorpóreo azul»

Cortesia de wikipedia,jdact 
«As tuas coxas de firme e elástico contorno
e de doces energias,
que cálice de segredos rompe a sua dureza vertical?
Que sombra de apertadas e nocturnas pestanas
lhes empresta essa agilidade comprometida?
Peixe que só tem a água do amor»


JDACT

Jazz. Poesia. Encantamento. «Há no céu uma floresta cheia de seiva. E a flora luxuriante verde e húmida que alimenta uma fauna misteriosa. São tudo formas imaginadas mas formas vivas que não morrem»

Cortesia de wikipedia, jdact


«Arco na noite
gato preto dispara lentamente
o cinzento colorido
das suas estrelas de nervos.
O teu corpo de mulher
dispara o sal puro
e a maciez da espuma
do arco branco da areia da praia».

JDACT

Jazz. Arte. Poesia. «O céu é um vale de terra com flores e animais mas flores que nunca murcham e animais que não vertem sangue. Nem dor nem morte. Nesse redenho da noite passeiam-se capricórnios e touros peixes e licornes, crescem rosas e dálias»

Cortesia de joaochichorro, jdact

«Quando a minha cabeça e o meu coração forem
como dois irmãos,
se derem as mãos,
poderei navegar nas rotas que sonhei
tornar real o que aprendi e sei».


JDACT