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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A Vida Secreta das Princesas Árabes. Jean Sasson. «Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A minha mãe casou com o meu pai aos doze anos. Ele tinha vinte. Estava-se em 1946 o ano em que a Segunda Guerra Mundial interrompera a produção petrolífera, O petróleo, a força vital da Arábia Saudita do presente, ainda não trouxera, na altura, grande riqueza à família de meu pai, os AISaud, no entanto o impacto que tinha sobre os seus membros fazia-se sentir em pequenos pormenores. Os chefes das grandes nações haviam começado a prestar vassalagem ao nosso rei. Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês, presenteara o rei Abdul Aziz com um luxuoso Rolls Royce. Verde-metalizado, com um banco traseiro que fazia lembrar um trono: o automóvel refulgia como uma jóia ao sol. Apesar de imponente, algo no automóvel o desiludiu nitidamente, pois o rei ofereceu-o, depois de o inspeccionar, a Abdullah, um dos seus irmãos preferidos. Abdullah, que era tio e amigo chegado de meu pai, colocou-lhe o automóvel à disposição para a sua viagem de lua-de-mel a Gidá. Ele aceitou, para grande deleite de minha mãe, que nunca conhecera semelhante meio de transporte. Em 1946 deixando para trás séculos incontáveis , o camelo era o meio de transporte habitualmente usado no Médio Oriente. Passar-se-iam três décadas antes de o saudita médio trocar o dorso de um camelo pelo conforto de um automóvel. Assim, os meus pais atravessaram alegremente o deserto, durante sete dias e sete noites, até chegarem a Gidá. Malogradamente, o meu pai, na sua pressa em partir de Riade, esquecera-se da sua tenda; este descuido e a presença constante de vários escravos levou a que o seu casamento só fosse consumado depois de chegarem a Gidá.
Aquela viagem poeirenta e cansativa tornou-se uma das recordações mais felizes de minha mãe. Depois dela, dividiu sempre a sua vida entre a altura anterior à viagem e a altura a seguir à viagem. Em certa ocasião, disse-me que a viagem representara o fim da sua juventude, pois era demasiado nova para compreender o que a esperava no final da longa deslocação. Seus pais haviam morrido durante uma epidemia de febre, deixando-a órfã aos oito anos. Aos doze casara com um homem temperamental, propenso a crueldades tenebrosas. Não estava preparada para fazer outra coisa na vida que não fosse servi-lo. Após uma breve estada em Gidá, meus pais regressaram a Riade, pois era aí que a família patriarcal dos AISaud dava continuidade à sua dinastia. O meu pai revelou-se um homem impiedoso, e, como não podia deixar de ser, minha mãe tornou-se uma mulher melancólica. A sua união trágica acabou por dar origem a dezasseis filhos, dos quais onze sobreviveram a infâncias perigosas. Hoje, as suas dez filhas levam vidas controladas pelos homens com quem casaram. O único filho sobrevivente, um importante príncipe e homem de negócios saudita com quatro esposas e numerosas amantes, leva uma vida de grande fausto e prazer.
As minhas leituras levaram-me a saber que sucessores mais civilizados de culturas antigas sorriem diante da ignorância dos seus antepassados, à medida que a civilização avança, o medo da liberdade individual é ultrapassado pelo esclarecimento. A sociedade humana apressa-se, ansiosamente, a ir ao encontro do saber e da mudança. Surpreendentemente, na terra dos meus antepassados pouco mudou desde há um milhar de anos. É certo que surgiram edifícios modernos, os cuidados de saúde mais avançados estão à disposição de todos, no entanto a consideração pelas mulheres e pela sua qualidade de vida continua a ser alvo de um encolher de ombros displicente. É incorrecto, porém, atribuir à nossa fé islâmica a responsabilidade pela posição subalterna que a mulher ocupa na nossa sociedade. Embora o Alcorão determine que a mulher vem a seguir ao homem, muito à semelhança da Bíblia, em que o homem é autorizado a exercer o seu domínio sobre a mulher, o nosso profeta Maomé só preconizou o bem e a justiça para quem pertence ao meu sexo. Os homens que vieram depois de Maomé é que preferiram seguir os costumes e tradições da Idade das Trevas, em vez de seguirem as palavras e o exemplo do Profeta. Este desprezava a prática do infanticídio, um costume vulgar no seu tempo, segundo o qual as famílias se livravam das meninas indesejadas. As próprias palavras do Profeta transmitem veementemente a sua preocupação perante a possibilidade de as mulheres serem alvo de maus tratos e indiferença: que Deus conceda o Paraíso a quem teve uma filha e não a enterrou viva nem a desprezou ou preferiu os filhos varões a ela». In Jean Sasson, A Vida Secreta das Princesas Árabes, 2012, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-674-1.

Cortesia de EASA/JDACT

A Vida Secreta das Princesas Árabes. Jean Sasson. «Os primeiros AISaud eram homens cujos sonhos não os levaram além da conquista de terras desérticas circunstantes e da aventura que eram os ataques nocturnos a tribos vizinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Sou princesa numa terra onde os reis ainda governam. Devem conhecer-me apenas por Sultana. Não posso revelar o meu nome verdadeiro, pois receio que possa acontecer algo de mal a mim e à minha família pelo que vos irei contar. Sou uma princesa saudita, membro da família real da Casa de AISaud, os actuais governantes do Reino da Arábia Saudita. A minha qualidade de mulher num país governado por homens não me permite falar-vos directamente. Pedi a uma amiga e escritora americana, Jean Sasson, que me ouvisse e, posteriormente, contasse a minha história. Nasci livre, no entanto hoje estou presa por grilhões. Invisíveis, mantiveram-se lassos e passaram despercebidos até a idade da razão reduzir a minha vida a um estreito segmento de medo. Não me restam recordações dos primeiros quatro anos. Imagino que tenha rido e brincado como todas as outras crianças pequenas, abençoadamente alheia ao facto de o meu valor, dada a ausência de um órgão reprodutor masculino, não ser significativo na minha terra natal. Para compreenderem a minha vida, é necessário conhecerem aqueles que vieram antes de mim. Nós, os AISaud do presente, somos a sexta geração que descende dos primeiros emirados do Nadj, as terras beduínas que hoje fazem parte do Reino da Arábia Saudita. Os primeiros AISaud eram homens cujos sonhos não os levaram além da conquista de terras desérticas circunstantes e da aventura que eram os ataques nocturnos a tribos vizinhas. Em 1891, a calamidade abateu-se sobre o clã AISaud quando este foi derrotado em batalha e se viu obrigado a abandonar o Nadj. Abdul Aziz, que um dia seria meu avô, era uma criança na altura. Foi com dificuldade que sobreviveu às agruras daquela fuga pelo deserto. Mais tarde, recordaria a profunda vergonha que sentira quando o pai lhe ordenara que se enfiasse num alforge grande que depois foi pendurado na sela do seu camelo. Nura, sua irmã, ia encolhida num alforge pendurado no outro lado do camelo que transportava seu pai. Amargurado por ser demasiado jovem para combater e ajudar, assim, a salvar o seu lar, o jovem espreitou, irado, pela abertura do saco, enquanto ia balançando ao ritmo das passadas do animal. Humilhado pela derrota sofrida pela família, ao ver desaparecer de vista a beleza assombrosa da sua terra natal, contaria, mais tarde, que aquele momento representara um ponto de viragem na sua jovem vida. Após dois meses de travessia nómada do deserto, a família dos AISaud encontrou refúgio no país do Kuwait. A vida de um refugiado era tão detestável para Abdul Aziz que este jurou, ainda muito novo, reconquistar as areias do deserto que outrora haviam sido o seu lar.
Assim, em Setembro de 1901, Abdul Aziz, então com vinte e cinco anos, regressou à nossa terra. A 16 de Janeiro de 1902, depois de meses de grandes provações, ele e os seus homens derrotaram estrondosamente os Rashid, seus inimigos. Nos anos que se seguiram, a necessidade de consolidar a lealdade das tribos do deserto levou Abdul Aziz a desposar mais de trezentas mulheres, as quais, a seu tempo, deram à luz mais de cinquenta filhos varões e oitenta filhas. Os filhos das esposas favoritas foram honrosamente distinguidos; esses filhos, agora adultos, constituem o próprio centro do poder na nossa terra. A mais amada de todas as esposas de Abdul Aziz foi Hassa Sudairi. Os filhos de Hassa estão hoje à cabeça das forças combinadas dos AISaud e governam o reino formado pelo pai. Fahd, um desses filhos, é hoje o nosso rei. Muitos filhos e filhas desposaram primos dos ramos proeminentes da nossa família, tal como os AITurki, os Jiluwi e os AIKabir. Os príncipes que resultaram destas uniões e chegaram aos nossos dias encontram-se entre o número dos AISaud mais influentes.
Presentemente, corre o ano de 1991, a nossa numerosa família é formada por cerca de vinte e um mil membros. Deste número, aproximadamente mil são príncipes e princesas que descendem directamente do nosso grande líder, o rei Abdul Aziz. Eu, Sultana, sou uma dessas descendentes directas. A minha primeira recordação nítida é de violência. Tinha eu quatro anos de idade quando fui esbofeteada no rosto pela minha mãe, uma mulher que, normalmente, era meiga. Porquê? Porque imitara o meu pai nas suas orações. Em vez de orar a Meca, filo ao meu irmão de seis anos, Ali. Tomei-o por um deus. Como poderia imaginar que não era? Já lá vão trinta e um anos e não esqueci ainda a dor pungente que aquela bofetada me provocou e o início das dúvidas na minha cabeça: se o meu irmão não era um deus, porque o tratavam como tal?
Numa família de dez filhas e um filho, o medo imperava na nossa casa: medo de que a morte levasse o único varão vivo; medo de que não viessem mais filhos varões; medo de que Deus tivesse amaldiçoado a nossa família com filhas. A minha mãe vivia cada gravidez aterrorizada, rezando por um filho macho, receando que viesse uma filha. Estas foram nascendo, umas atrás das outras, até perfazerem dez. O maior receio da minha mãe tornou-se realidade quando o meu pai procurou uma esposa mais jovem com a finalidade de esta lhe dar mais filhos preciosos. A nova esposa presenteou-o com três rapazes que nasceram mortos, antes de ele se divorciar dela. Finalmente, no entanto, a quarta esposa ofereceu a meu pai uma abundância de varões. O meu irmão mais velho, porém, seria sempre o primogénito e, como tal, o chefe supremo. Eu, à semelhança das minhas irmãs, fingia venerá-lo, mas a verdade é que o odiava como só os oprimidos sabem fazer». In Jean Sasson, A Vida Secreta das Princesas Árabes, 2012, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-674-1.

Cortesia de EASA/JDACT

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A Escolha de Yasmeena. Jean Sasson. «Depois de entrar na cela, o homem enfiou a chave no bolso da calça antes de tentar sentar-se com as pernas cruzadas sobre o fino colchão abandonado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não há vencedores no inferno. Mesmo vencendo, você perde. Dá tudo na mesma. Você está no inferno. Quando Yasmeena foi escolhida pelo capitão, ela sabia que não ganhara um prêmio. Ganhara um lugar num inferno feito pelos homens. Por diversos e longos momentos, ela espreitava cuidadosamente por entre as barras da sua cela. Não via ninguém, apesar de escutar o ruído abafado de vozes masculinas e femininas. Finalmente, sentou-se no fino colchão colocado no centro da cela mal iluminada. Olhava para o vazio, com rosto imóvel e mente activa, imaginando como poderia sair do inferno. Pressentia que sofreria horrivelmente nas mãos do homem que a havia reclamado como sua, caso não conseguisse escapar. O aterrorizante pesadelo de Yasmeena tornou-se subitamente mais real quando o capitão apareceu para tomar o que havia declarado como seu. Ele não olhou para ela quando destrancou a porta da cela. Na verdade, parecia estar com outras coisas na cabeça, talvez a sua família lá no Iraque, ou algum desjejum especial que prepararia no dia seguinte. O comportamento calmo do homem disparou os alarmes da intuição de Yasmeena e ela recuou até ao canto da cela, vagarosa e silenciosamente, como um vigilante treinador de animais, sem querer despertar a atenção da besta que poderia mudar da tranquilidade para uma postura traiçoeira a qualquer instante.
Depois de entrar na cela, o homem enfiou a chave no bolso da calça antes de tentar sentar-se com as pernas cruzadas sobre o fino colchão abandonado por Yasmeena momentos antes. Quando finalmente olhou para ela, a ausência de sentimentos humanos nos seus olhos acentuou o medo crescente. Ele finalmente falou, de forma suave, com voz seca e sem emoção, ordenando calmamente: dispa-se… Yasmeena enrijeceu. Apesar de ter 23 anos, era virgem. Jamais havia beijado um homem, apesar de, certa vez, ter permitido que um belo homem que conhecera em Paris segurasse a sua mão. A voz grave do soldado era baixa e calma, com ligeiras hesitações suavizando os seus modos. A voz gentil parecia fazer dele uma pessoa suave, mas Yasmeena sabia que a voz era uma fachada. Ele tossiu e pigarreou, voltando-se para cuspir num canto: um homem a quem jamais haviam ensinado boas maneiras. Então, com aquela mesma voz calma, ele lançou uma mensagem mais alarmante: tire tudo ou mando os meus homens despirem você. E isso não será muito agradável, minha querida.
Yasmeena conseguiu unir forças para usar a voz, apesar de sair falhada e apenas um pouco mais audível do que um sussurro. Por favor, não faça isso. Eu sou árabe. Você é árabe. Eu sou muçulmana. Você é muçulmano. Por favor, não faça isso. Ele a olhou calmamente, como se ela não houvesse dito nada importante, talvez algo trivial, como preferir ovos cozidos em vez de mexidos. O seu tom ficou mais duro quando ordenou: tire as suas roupas. Todas. Quero vê-la. Por favor. Pense na sua irmã ou na sua mãe. Você não iria querer que isso acontecesse com elas. Por favor. Não. Nenhum de seus argumentos conseguiu comovê-lo. Ele permanecia distante e inabalado pelos aterrorizados pedidos. O seu rosto impassível estava talhado em granito, e ele disse: então, vai ser assim. Nesse momento, ele avançou até ela. Um passo largo bastou para que ele a agarrasse pelo pescoço com força, usando a outra mão para arrancar as roupas, até deixá-la nua, sem se importar em fazer isso com delicadeza, rasgando-as». In Jean Sasson, A Escolha de Yasmeena, Edições ASA, 2014, ISBN 978-989-232-798-3.

Cortesia de EASA/JDACT

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Por Amor a um Filho. Jean Sasson. «Nesse momento, o inspector segurou minha mão e me levou de volta à professora na sala de aula. Quando minha professora se abaixou para ajudar, tentei fugir de suas mãos curiosas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O coração das trevas bate no Afeganistão. Quando os homens são os únicos detentores de todos os privilégios, nem a riqueza, a beleza, a inteligência, a educação, a força ou a família podem competir com o género. Os únicos aliados das mulheres são as orações e a esperança. Os homens que fazem parte das vidas delas podem casá-las com um ancião, tirar seus filhos ou até mesmo matá-las. As mulheres vivem sabendo que ninguém virá em seu socorro. A libertação feminina não faz parte da cultura local».

«No Afeganistão, as meninas podem sonhar, mas só os sonhos dos meninos se tornam realidade. Os meninos são donos do próprio mundo, enquanto as meninas basicamente são servas obrigadas a agradar aos homens de suas famílias. Embora se espere que os meninos afegãos tratem as mulheres com dureza, meu coração se comoveu enquanto eu observava as garotinhas entrando timidamente na escola de Share-i-Now, em Cabul, em seu primeiro dia no jardim de infância. Levantei os ombros, estufei o peito e puxei minha mãe pela mão enquanto passava, cheio de presunção, pelas criaturas tímidas que se aninhavam, com medo, nas saias das irmãs mais velhas e das mães. Sentia a importância do momento porque tudo o que estava usando era novo: a camisa branca com colarinho alto, o short cinzento e os mocassins pretos. Olhei para baixo para conferir se a poeira de Cabul não tinha encoberto o brilho de meus sapatos, tão polidos que eu podia ver meu reflexo. Eu vestia roupas caras porque as famílias afegãs gastam até o último centavo para dar tudo de melhor aos filhos, embora em nossa casa não fosse preciso fazer sacrifícios, porque tínhamos uma vida confortável.
Era o ano de 1966 e eu tinha cinco anos. No Afeganistão, os meninos e as meninas são separados na puberdade, mas enquanto pequenos podem se associar. Dessa forma, eu estaria na mesma sala de aula com garotas da minha idade, embora, como menino, eu fosse considerado mais importante. Entramos na sala em fila e minha mãe e eu escolhemos uma carteira na área em que todos os meninos estavam se reunindo. Minha mãe se abaixou para beijar minha face, mas eu me afastei certo de que era adulto demais para demonstrações públicas de afecto. Ela acariciou minha cabeça recém-raspada, a moda aprovada para um garoto pequeno. Lançou um último olhar antes de se afastar, relutante de deixar seu único filho, Yousef Agha Khail. Aquele foi o momento mais feliz de minha curta vida, porque eu sabia que estava a caminho de me tornar um homem, como sempre desejei.
Olhei em volta. As meninas estavam se reunindo de um lado da sala e os meninos do outro. Pouco acostumadas a ficar longe das mães, as garotinhas pareciam paralisadas de ansiedade e mantinham as cabeças baixas enquanto os meninos se sentavam com a cabeça erguida, cheios de autoconfiança. Olhei para trás e vi minha mãe parada à porta. Fiz para ela um aceno rápido, numa demonstração de sangue frio. Lembro-me de que naqueles primeiros meses no jardim de infância eu brinquei, assumindo a posição de garoto mais ousado, e trabalhei arduamente nas lições, porque se esperava muito dos meninos. A vida escolar correu sempre igual até o dia terrível em que minha velha ama, que todos chamávamos de Muma, inadvertidamente vestiu em mim um short com um fecho difícil de abrir. Agora já sou capaz de perdoar aquele erro elementar, porque Muma era tão velha que seu cabelo tinha a cor da neve das montanhas, mesmo que, às vezes, o tingisse com henna. Ela era natural de Pansher, uma região do Afeganistão onde as mulheres têm fama de produzir mais leite do que o necessário para seus filhos. Por essa razão, muitas famílias cultas contratavam pansheris como amas de leite. Muma foi ama de leite na família de minha mãe por muitos anos. Quando minha mãe ficou grávida pela primeira vez, minha avó Hassen mandou Muma cuidar dela. Quando minha irmã Nadia nasceu, ficou evidente que o leite da ama já tinha secado há muito tempo, mas apesar disso minha mãe manteve a fiel serva a seu lado. Naquela manhã, quando senti vontade de ir à casa de banho, descobri que meus dedinhos não conseguiam abrir o fecho do short. O responsável pelo banheiro dos meninos se ofereceu para me ajudar, mas eu tinha um segredo que não queria revelar, por isso o afastei. No entanto, logo fiquei desesperado porque corria o risco de urinar na roupa. Minha proverbial autoconfiança desapareceu, substituída por soluços de ansiedade. Nesse momento, o inspector segurou minha mão e me levou de volta à professora na sala de aula. Quando minha professora se abaixou para ajudar, tentei fugir de suas mãos curiosas.
Minha imensa ansiedade aumentou o volume de meus gritos, fazendo minha professora, surpresa, mandar o inspector procurar minha irmã mais velha. Nadia entrou correndo na sala e desabotoou o cós de minhas calças. Minha irmã não estava pensando com clareza porque, em vez de parar por aí, abaixou meu short diante da turma inteira. Todo mundo soltou uma exclamação. Olhei para baixo, ofegante. Meu segredo estava exposto. Yousef Khail não era um menino! Yousef Khail era uma menina! Horrorizada, puxei as calças para cima e corri para a casa de banho dos meninos, onde finalmente me aliviei. Depois disso, fiquei andando pelo corredor da escola, envergonhada demais para encarar a professora e os colegas, mas logo me mandaram voltar para a sala de aula. Quando entrei, meus intrigados colegas me encararam. Ouvi alguns deles rirem, portanto fui depressa para meu lugar e me sentei com a cabeça baixa, subitamente igual às menininhas que eu tinha tratado com tanto desprezo. Em alguns instantes, fui transformada de garoto popular em menina humilhada». In Jean Sasson, Por Amor a um Filho, 2010, BestSeller, 2014, ISBN 978-857-684-866-0.

Cortesia de BestSeller/JDACT

Vítimas da Tradição. Jean Sasson. «Em seguida, ela e Amani escolheram deliberadamente ocupar lados opostos da sala, representando o papel de perfeitas desconhecidas»

jdact

«(…) Quando Amani tentou espreitar por baixo do corpo da irmã para se certificar de que não estava lá nenhum gatinho escondido, Maha, enfurecida, bateu com o cotovelo no rosto da irmã partindo-lhe um dente. Embora na altura aquilo não tivesse sido nada divertido, pois Kareem e eu tivemos de explicar ao médico da família a constrangedora natureza dos ferimentos das nossas filhas, o comentário de Sara e a sua natureza apaziguadora constituíram o antídoto perfeito para a raiva. Kareem e eu trocámos olhares e rimo-nos a bom rir da memória daquele tempo longínquo em que o comportamento das nossas filhas não raro se assemelhava ao de duas feras selvagens que andassem à solta na nossa casa. Amani, sem pitada de humor, não aprovou as nossas gargalhadas. Afastou-se do pai, sacudindo o vestido com a mão como se o sucedido fosse insignificante. Em seguida, cumprimentou a tia Sara com uma troca rotineira de beijos, mudando de assunto e inquirindo-a sobre a sua neta doente, cuja curta vida fora recentemente ameaçada por um ataque grave de tosse convulsa. Maha, triunfante como um guerreiro conquistador, sacudiu-se da mãe e tocou afectuosamente no ombro da tia predilecta, antes de se servir de uma bebida fresca feita de limões acabados de espremer. Em seguida, ela e Amani escolheram deliberadamente ocupar lados opostos da sala, representando o papel de perfeitas desconhecidas.
Amo as minhas duas filhas tanto quanto qualquer mãe ama a sua prole mas, mesmo adultas, elas continuam a testar a minha paciência. Anos atrás, agarrara-me à esperança de que a idade adulta lhes trouxesse maturidade, mas infelizmente enganei-me. Olhando para elas, vi que ambas ostentavam uma expressão de sobranceira satisfação. Contive um desejo intenso de lhes dar dois estalos. Enquanto fazia conversa com Sara e Kareem, não deixava de pensar na nossa vida, perguntando-me como é que duas filhas dos mesmos pais não conseguiam encontrar um ponto de concórdia. Desde a juventude que as nossas filhas chocavam em todos os aspectos da nossa vida de sauditas. Maha é uma rapariga forte e independente que desde tenra idade teve uma consciência aguda dos constrangimentos culturais e sociais impostos às mulheres da Arábia Saudita. Ao longo dos anos, a sua raiva inflamou-se perante as injustiças dos nossos costumes sociais com respeito ao género; passou a detestar cada restrição e era frequente declarar a sua determinação em testar todas elas. Amani abraçou as convicções mais tradicionais da nossa terra, contanto que se dirigem-se às mulheres. Havia alturas em que me parecia que Amani acreditava que os grilhões que confinavam as mulheres não eram suficientemente fortes.
Com o tempo, cheguei à triste conclusão de que as mulheres da Arábia Saudita estavam mais bem governadas por clérigos que detestavam mulheres do que por uma mulher conservadora como a minha filha. Muitas foram as vezes em que pus em causa as minhas capacidades como mãe, perguntando-me o que desviara a minha Amani, outrora tão doce e dócil. Após anos de episódios e ocorrências traumáticos, a tranquilidade bafejou o nosso lar, mas só depois de Maha persuadir os pais de que nunca conheceria a verdadeira felicidade enquanto fosse obrigada a viver na Arábia Saudita. Kareem e eu sentíamo-nos verdadeiramente preocupados com a possibilidade de ela de facto testar cada rigorosa lei social e tribal que versasse as mulheres, caso fosse obrigada a residir no reino. A nossa Maha é uma rapariga audaz, intrépida e inabalável face à autoridade. Talvez cometesse algum acto considerado culturalmente tão grave que se levantasse um coro de reprovação da comunidade seguido de clamores para que o nosso tio, o rei, fizesse da nossa filha um caso exemplar. Depois de muitas conversas prolongadas, Kareem e eu diligenciámos para que Maha frequentasse uma universidade na Europa. Para nossa felicidade, a personalidade agressiva da nossa filha aligeirou-se consideravelmente depois de ela ir para fora. Estava tão satisfeita na Europa que acabámos por aceitar que construiria o seu lar longe do nosso reino do deserto. Daquela altura em diante, Maha fazia apenas raras visitas à Arábia Saudita, embora nós a visitássemos muitas vezes». In Jean Sasson, Vítimas da Tradição, 1992, Edições ASA, Grupo Leya, 2015, ISBN 978-989-233-039-6.

Cortesia ASA/JDACT

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Vítimas da Tradição. Jean Sasson. «Naquele momento, a minha irmã Sara entrou silenciosamente na sala. Chegara cedo para a festa organizada pela família para celebrar a visita de Maha. A expressão de Sara era, como sempre, de uma calma cativante»

jdact

«Amani, só vais até onde te levam os teus pés!, berrou Maha, a minha filha mais velha. Para enfatizar ainda mais o seu desprezo, rosnou, rodopiando para longe da irmã. E nem mais um passo! Estremeci de desalento. Onde, e com quem, teria a minha maravilhosa filha aprendido a uivar como se estivesse possuída? Maha fizera da Europa o seu lar nos últimos sete anos e eu passara muitas noites ansiosas preocupada com a nova vida da minha filha mais corajosa no estrangeiro. Seriam aqueles uivos uma indicação de que viveria uma vida psicótica a milhares de quilómetros de distância da mãe? Tive pouco tempo para ponderar o bizarro uivo de Maha. Amani, a mais nova dos meus filhos, e a segunda das raparigas, pôs-se em acção, mostrando o rosto tingido de um profundo vermelho de raiva ao saltar qual gazela do deserto para cima da irmã mais velha. Se eu não estivesse presente, as minhas duas filhas adultas teriam certamente batido uma na outra e possivelmente atirando-se para o chão num confronto físico semelhante ao que se envolviam quando eram crianças. Agarrei Maha pelo braço e puxei-a com toda a força. Ela veio contra mim e Amani tropeçou e colidiu com Kareem, o meu marido, que entrara na sala de estar levado pela explosão de gritos femininos.
O meu querido marido é um dos pais que há mais tempo sofrem no mundo árabe: antes da visita de Maha, anunciara que não continuaria a tolerar que ela e Amani se comportassem como crianças. Afinal, Amani era agora uma mulher casada, e mãe. A nossa filha mais nova, normalmente, vivia com serenidade, proclamando-se feliz no casamento e no papel de mãe de um rapazinho. A vida de Maha era o contraste absoluto; vivendo solteira numa das maiores cidades da Europa, trabalhava como executiva numa das empresas do pai e tinha uma vida social normal acompanhada dos amigos. Por repetidas vezes, Maha demonstrou capacidade de gerir facilmente a maior parte dos problemas do mundo adulto. Kareem lançou-me um olhar de incredulidade antes de levantar a voz e gritar, para se fazer ouvir acima dos protestos desdenhosos de Amani e dos guinchos raivosos de Maha. Isto tem de acabar! Já!, ordenou Kareem. Embora as minhas filhas muitas vezes ignorem as exigências da mãe, é raro furtarem-se a reagir adequadamente às ordens do pai. Senti-me a presenciar um milagre quando os gritos e insultos cessaram imediatamente.
Naquele momento, a minha irmã Sara entrou silenciosamente na sala. Chegara cedo para a festa organizada pela família para celebrar a visita de Maha. A expressão de Sara era, como sempre, de uma calma cativante, mas os seus grandes olhos negros aumentaram bastante de tamanho quando observou que a irmã e o cunhado transpiravam abundantemente, agarrados às filhas adultas. Sara olhou com interesse para a cena inusitada durante alguns momentos e depois os seus lábios curvaram-se num sorriso. Minhas queridas sobrinhas, ainda tão enfeitiçadas pelas brigas, mesmo depois de dois ossos partidos e um dente lascado? Sara recordava a mais violenta das batalhas entre as minhas filhas, ocorrida depois de Amani ter cometido a imprudência de esticar um fio no corredor das traseiras que desembocava num quarto especial onde se alojavam gatinhos recém-nascidos. Amani via os seus gatinhos como tesouros tais, que andava completamente obcecada pela ideia de alguém tentar roubá-los e vendê-los no souk dos animais.
Quis o destino que Maha se tornasse sua vítima involuntária, quando se apressava a descer o corredor. Tropeçando no fio, Maha sofreu uma queda violenta que resultou em dois pulsos partidos, pois amparara o peso do corpo com as mãos. Quando ouviu o barulho, a pequena Amani correu a descobrir a identidade do ladrão de gatinhos e descobriu a irmã a contorcer-se de dores. Ignorando que Maha sofria realmente, Amani, irritada, acusou a irmã de se preparar para roubar os gatinhos todos apenas para desocupar a casa de mais oito animais de estimação. Quando Amani era adolescente, a nossa família viajou até Meca para a peregrinação. Durante a cerimónia religiosa, a fé de Amani transformou-se; se em criança a sua fé estivera adormecida, em jovem ela apresentou-se determinada a abraçar todos os aspectos da nossa fé islâmica com uma intensidade angustiante. Desde aquela experiência religiosa crucial que Amani possuía o hábito infeliz de lançar uma sombra de dúvida sobre o comportamento de toda a gente, chegando várias vezes a acusar aqueles que a rodeavam de actos criminosos ou contrários à moral». In Jean Sasson, Vítimas da Tradição, 1992, Edições ASA, Grupo Leya, 2015, ISBN 978-989-233-039-6.

Cortesia ASA/JDACT