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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ribatejo. Menina, Tejo. Pedro Barroso. «… aprendi nos ‘Esteiros’ com Soeiro aprendi na ‘Fanga’ com Redol tenho no rio grande o mundo inteiro e sinto o mundo inteiro no teu colo aprendi a amar a madrugada que desponta em mim quando sorris…»

jdact

Menina dos olhos de Água
«Menina em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar
menina em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar
menina em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos nuvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro que nem sei explicar
se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar
aprendi nos Esteiros com Soeiro
aprendi na Fanga com Redol
tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo
aprendi a amar a madrugada
que desponta em mim quando sorris
és um rio cheio de água levada
e dás rumo à fragata que escolhi
se houver alguém que não goste
não gaste, deixe ficar...,
que eu só por mim quero-te tanto
que não vai haver menina p'ra sobrar»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Cantos da Borda D’Água, 1985


JDACT

sexta-feira, 15 de março de 2013

Crisfal. Cristóvão Falcão. «E com quanto era Maria piquena, tinha cuidado de guardar milhor o gado o que lhe Crisfal dezia; mas, em fim, foi mal guardado. A qual, logo aquele dia que soube de seus amores, aos parentes de Maria fez certos e sabedores de tudo quanto sabia»

jdact

I
Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.

II
A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam,
que o dia que não se viam,
se viam na saudade
o que ambos se queriam.

III
Algas horas falavam,
andando o gado pascendo,
e então se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
piquena, tinha cuidado
de guardar milhor o gado
o que lhe Crisfal dezia;
mas, em fim, foi mal guardado;

IV
Que, depois de assi viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
não ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).

V
A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.

VI
E como em a baixeza
do sangue q e pensamento
é certa esta certeza -
cuidar que o mericimento
está só em ter riqueza -
enquerirom que teria[m]
e do amor não curarom;
em que bem se descontarom
riquezas, se faleciam,
por males que sobejarom.

VII
Então, descontentes disto,
levarom-na a longes terras,
esconderom-na entre as serras,
onde o sol não era visto,
e a Crisfal deixarom guerras.
Além da dor principal,
pera mor pena lhe dar,
puserom-na em lugar
mau para dizer seu mal,
mas bom pera o chorar.

VIII
Ali os dias passava
em mágoas, da alma saídas,
dizer a quem longe estava,
e chorava por perdidas
as horas que não chorava.
Em vale mui solitário e
sombrio e saudoso,
send’o monte temeroso,
pera o choro necessário,
pera a vida mui danoso,

IX
Dizer o que ele sentia,
em que queira, não me atrevo,
nem o chorar que fazia;
mas as palavras que escrevo
são as que ele dezia.
Ali sobre a ribeira
de mui alta penedia,
donde a água d’alto caía,
dizendo desta maneira
estava a noite e o dia:

X
Os tempos mudam ventura
bem o sei, pelo passar;
mas, por minha gram tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a tristeza;
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

In Cristóvão Falcão, Crisfal, Coleção Textos Literários, Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa, 2ª. Edição, Lisboa, 1962.

Cortesia de Textos Literários/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2011

Bernardim Ribeiro: História de Avalor e Arima. «... Quanto mais se ia alongando, se ia alongando o soar; de seus ouvidos aos olhos a tristeza foi igualar...»

Cortesia de wikipedia 

Pola ribeira dum rio
que leva as ágoas ao mar,
vai o triste de Avalor;
não sabe se há-de tornar.

As ágoas levam seu bem,
ele leva o seu pesar.

Só vai e sem companhia,
que os seus for leixar;
que quem não leva descanso,
descansa em só caminhar.

Descontra onde ia a barca,
se ia o sol abaixar;
indo-se abaixando o sol,
escorecia-se o ar.

Tudo se fazia triste
quanto havia de ficar.

Da barca levantam remos
e, ao som do remar,
começaram os remeiros
do barco este cantar:

Que frias eram as ágoas!

Quem as haverá de passar!,

Dos outros bancos respondem:

"Quem as haverá de passar,
senão quem a vontade pôs
onde a não pode tirar."

Trás a barca o levam olhos
quanto o dia dá lugar;
não durou muito, que o bem
não pode muito durar.

Vendo o sol posto contra ele,
soltou os olhos ao chorar,
soltou rédea a seu cavalo
deu beira do rio a andar.

E a noite era calada
pera mais o magoar,
ca o compasso dos remos
era o do seu sospirar.

Querer contar suas mágoas
seria areas contar.

Quanto mais se ia alongando,
se ia alongando o soar;
de seus ouvidos aos olhos
a tristeza foi igualar.

Assi como ia a cavalo
foi pela ágoa dentro entrar,
e dando um longo sospiro,
ouvira longe falar:

"Onde me ágoas levam alma
vão também corpo levar",

Mas indo assi por acerto
foi c'um barco n'ágoa dar
que estava amanado à trra
e seu dono era a folgar.

Salta assi como ia dentro
e foi a amarra cortar;
a corrente e a maré
acertaram-no ajudar.

Não sabem mais que foi dele,
nem novas se podem achar.

Sospeitou-se que era morto,
mas não é para afirmar,
que não no embarcou ventura
para isso o só guardar.

Mas são ás ágoas do mar
de quem se pode fiar.
Bernardim Ribeiro

Cortesia de ftpinfoeuropaeurocid

JDACT

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bernardim Ribeiro: Menina e Moça. Parte II. «Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vos comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós fostes, tudo se tomou tristeza. nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis»

Cortesia de tertuliabibliofila

Menina e Moça
Bernardim Ribeiro
Introdução
1. Monólogo da Menina
«Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda.
Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.

Cortesia de fcg
Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e cuidados há i algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a míngoa da conversação da gente fosse como já pera meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém. Estando eu assi só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e do outro ágoas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes tudo havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com rezão. Mas parece que das desaventuras há mudança para outras desaventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assi que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram diante meus olhos apresentadas em coisas alheas todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem sua parte de dor.
( ... )
Cortesia de behappyaveiro
Se em algum tempo se achar este livro de pessoas alegres, não o leam. Que, por aventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudáveis como os aqui contados, o seu prazez lhes será menos prazer. Isto, onde eu estivesse, me doeria, porque assaz abastava nacer eu pera minhas mágoas, senão ainda para as doutrem. Os tristes o poderão ler, mas aí não os houve mais homens, depois que nas mulheres houve piedade. Nas mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor. Mas para elas não o faço eu, que, pois que o seu mal é tamanho que se não pode confortar com outro nenhum, é para as mais entristecer. Sem-razão seria querer euque o lessem elas, mas antes lhes peço muito que fujam dele e de todalas cousas de tristeza.
Que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas, porque assi está ordenado pela desventura com que elas nascem. Para uma só pessoa podia ele ser. Mas desta não soube eu mais parte, depois que suas desditas e minhas o levaram para longes terras e estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem prazer nenhum.

Cortesia de emulecom
Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tão longe? Que vos comigo e eu convosco, sós soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pequenos para os de despois! A vós contava eu tudo. Como vós fostes, tudo se tomou tristeza. nem parece ainda senão que estava espreitando já que vos fôsseis. E porque tudo ainda mais me magoasse, tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de saber para que parte de terra íeis, que descansaram meus olhos em levarem para lá a vista. Tudo me foi tirado, no meu mal nem remédio nem conforto houve aí. Para morrer asinha, me pudera isto aproveitar, mas para isto não me aproveitou.
Inda convosco usou desaventura algum modo de piedade em vos alongar desta terra, pois que pera não sentirdes mágoas não havia remédio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou falando e não vejo ora eu que leva o vento as minhas palavras, e que me não pode ourvir a quem falo!» In História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian 2000.

Cortesia da Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Menina e Moça: O fado do colega e amigo José Barros Ferreira






Bernardim Ribeiro: Vozes e disfarces de «Menina e Moça». Parte II


Uma das inovações mais atractivas de «Menina e Moça» de Bernardim Ribeiro é o uso de uma, ou mais, narradora feminina. Essa inovação rompe com a tradição das narrativas em voz masculina estabelecidas desde a primeira novela sentimental escrita em castelhano, Siervo libre de amor, de Juan Rodriguez del Padron, embora pelo menos duas das obras que influenciaram o desenvolvimento do género sentimental na Península Ibérica (de Boccaccio e de Ovídio) sejam já narrativas em voz de mulheres.
Naturalmente, há antecedentes peninsulares: na lírica medieval, tnto as cantigas de amigo, que se tornaram populares no século XV, género, que segundo Helder Ribeiro era sensível em Bernardim.
As vozes de mulheres que dominam a narrativa não constituem uma categoria estável e Menina e Moça. Deste modo, Bernardim mostra-se consciente das limitações convencionais, isto é, de género, desse procedimento e tematiza-as no curso da narrativa.
A Menina, que dá o título à narrativa, está sozinha junto a um rio, observando como um rochedo no meio da corrente interrompe o fluxo do rio, separando as águas. O mesmo episódio do Rouxinol (em português é um substantivo do género masculino) é depois repetido enquanto acontecimento narrado a uma outra outra personagem. Esta, é uma mulher mais velha, a Dona do tempo Antigo, que vem ter com a Menina pouco depois do acontecido, e é dessa dupla narrativa que o texto se ocupa a seguir.
Descobrimos que existe uma dualidade no uso do género gramatical, e por isso na marca do sexo: a passagem começa com o Rouxinol, marcado como masculino, e logo depois muda para o feminino, com a substituição de «rouxinol»  por «avezinha» um substantivo feminino e também um diminuitivo.
Enquanto que o rouxinol masculino revela uma sensibilidade no feminino, a voz feminina reinscreve mais do que uma voz masculina, a mais importante das quais é a de Avalor.
In Isabel de Sena, Journal of Institute of Romance Studies (3) 1994-95.
O amor e as tristezas não se deixam explicar. A Menina não conhece a causa da sua levada, a fadiga de Aónia e de Bimarder aparece-lhes injustificada no momento em que se dão um ao outro e vão morrer. O amor não traz consigo um princípio de razão, mas tão-só infindos e múltiplos desvairos. Viver pelo amor é o único sentido da vida, como as mulheres o sabem.
Nesta ontologia negativa reside o enigma da Menina e Moça. O amor permanece um enigma que ninguém pode desvelar. A Menina e Moça são várias maneiras de o dizer. Os arvoredos espessos, as sombras, as aparições misteriosas, o mar sem limites (na história de Avalor) repetem o retiro do amor.
As coisas sofrem, a mágoa da rola a quem o caçador mata o companheiro e cujos filhos morrem imediatamente não é menor qua a da criatura humana (é o mistério desta ave). É para guardarem o amor que as mulheres desejam ouvir tristezas e por isso também já entre os homens todos os caminhos vão dar a contos de mulheres porque também os homens são apanhados pelo amor.
A frase-chave da Menina e Moça, enunciando o enigma, é e será:

Trazem-nos os nossos fados com não sei que antolhos, que temos as coisas diante e não nas vemos.

É o que ilustra a história do Cavaleiro da Ponte, morto por amor oito dias antes de expirar o prazo de três anos de espera e de esforço que por amor havia aceite.
In Fernando Gil e Helder Macedo, Viagens do Olhar: Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Bernardim Ribeiro: «Menina e Moça». Parte I

Editor: Delfim Guimarães
Release Date: January 6, 2009 [EBook #27725]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net/
Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) foi um escritor e poeta português renascentista. A sua principal obra é a novela Saudades, mais conhecida porém como Menina e Moça (da primeira frase da novela, que se tornou um tópico da literatura portuguesa: Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe…).
Monumento a Bernardim Ribeiro na vila de Torrão, Alentejo
Teria frequentado a corte de Lisboa, colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que assim como Bernardim pertenceu à roda dos poetas palacianos juntamente com Sá de Miranda, Gil Vicente e outros. Foi o introdutor do bucolismo em Portugal.
Praticamente nada se sabe de certo na vida de Bernardim Ribeiro. Presume-se que nasceu por volta de 1482. Não se conseguiu ainda provar que este poeta Bernardim Ribeiro e um seu homónimo que frequentou, entre 1507 e 1511, a Universidade de Lisboa, e que em 1524 foi nomeado escrivão da câmara, fossem a mesma pessoa.
Esteve algum tempo na Itália, onde tomou conhecimento inovações literárias. Tão misterioso quanto o nascimento é a morte do escritor. Alguns autores datam-na como 1552. Porém, pela leitura da écloga Basto, de Sá de Miranda e escrita antes de 1544, verificamos que este autor se refere ao seu «bom Ribeiro amigo» como já falecido.
Considerando especulativas todas as referências sobre as datas e locais de nascimento, período de vida e morte de Bernardim Ribeiro, algumas alusões autobiográficas à «aldeia que chamam Torrão» e a um «monte» podem levar-nos a considerar que o autor era oriundo da vila do Torrão, Alentejo. Na vila encontra-se actualmente uma estátua em homenagem ao escritor. Outro monumento ao autor está no Museu de Évora, onde existe uma estátua de António Alberto Nunes (1838 - 1912).

«Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha».
A sua obra resume-se a doze composições insertas no Cancioneiro Geral, cinco éclogas, a sextina Ontem pôs-se o Sol, a novela Menina e Moça e o romance Ao longo de uma ribeira, única composição portuguesa inserida no Cancioneiro Castelhano de 1550 (cf. Carolina Michaelis), só apareceu publicado com as obras completas do poeta na edição de 1645.
Sob o título Trovas de dous pastores, foi feita, em 1536, a primeira impressão de uma écloga (a de Silvestre e Amador). Em 1554, na oficina do hebreu exilado Abraão Usque, em Ferrara (Itália), são editadas as suas obras. Menina e Moça é editada sob o título de História de Menina e Moça. Na segunda edição, de 1557-58, em Évora, com o título de Saudades e a terceira realizada em Colónia a partir da primeira edição.
A segunda edição possui um prolongamento que se costuma aceitar como sendo do autor até ao cap. XXIV. Segundo o investigador Teixeira Rego, não é de recusar liminarmente a hipótese de que Bernardim Ribeiro fosse de origem hebraica. Na verdade, e ainda segundo o referido investigador, o estilo de queixume e lamentoso, mesmo algo bíblico, que encontramos nos primeiros capítulos da Menina e Moça, alguns termos utilizados pelo autor na obra referida, nomeadamente «transmatação» ou «transmigração» e algumas alusões a perseguições e cisões do povo hebraico, implícitas nas falas de uma personagem, podem ser indicadores positivos e atestantes desta hipótese. Soma-se a essas circustâncias o facto do primeiro editor de Menina e Moça ter sido um judeu português exilado em Itália.
Por outro lado, e de acordo com a afirmação de Hélder Macedo, os textos benardinianos encerram «uma meditação mística pessimista… em torno do amor humano e da saudade». Analisando o seu conteúdo, podemos considerar que a Menina e Moça tem um fundo autobiográfico e é, em certa medida, um "roman à clef", definições sugeridas pela recorrência de anagramas (palavras ou frases formadas com a transposição das letras de outras. Ex.: «Natércia é anagrama de «Caterina»), tais como: Binmarder (Bernardim), Aónia (Joana), Avalor (Álvaro), Arima (Maria), Donanfer (Fernando), etc.
Como poeta, é autor de cinco éclogas, um romance em verso, a cantiga aqui publicada e alguns poemas menores. Foi um dos primeiros (se não o primeiro) a adotar em Portugal: o dolce stil nuovo (pelo menos a écloga – gênero helenístico, celebrizado por Teócrito, grego de Siracusa, e continuada por Virgílio e pelos italianos, sendo Sannazaro o mais célebre), mas em suas composições pastoris pulsa, na verdade, um cultor entranhado da ‘medida velha’ peninsular.Senhor de uma linguagem estilizada, repleta de arcaismos, Bernardim prolonga a tradição dos Cancioneiros medievais, tendente a confundir-­se com a simplicidade da linguagem popular – neste caso, uma simplicidade sábia ( a sageza) de poeta culto e complexo (não erudito, embora leitor de Virgílio, Ovídio, Petrarca, Sannazaro), um dos grandes representantes do «abstracionismo lírico», da «intelecção devaneadora» ( cf. Jorge de Sena) que permeia toda a poesia portuguesa, dos Cancioneiros a Camões, Antero de Quental e Femando Pessoa.

Em Benardim – continua Jorge de Sena – «a melancolia mergulha no mais cruciante desespero, raiando pelo desvario de um fatalismo herético, muito diferente da anarquia heróica do lirismo camoneano».
Wikipédia/JDACT