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domingo, 2 de outubro de 2011

A Dez Anos da Morte de José Régio: Na morte de José Régio. «Nesta sala foi feita a câmara ardente do nosso grande Régio. Entrei. Dormia ele placidamente de mãos cruzadas sobre o peito, dentro da urna, última guarda do seu corpo. Quatro velas e uma lamparina de azeite ardiam e bailava a sua chama…»

Cortesia de editorialresistencia

«Duas cadeiras de braços, muito bem trabalhadas, muito ricas pertencem também a esta sala. Régio, no decorrer da sua doença, porque não podia estar deitado na cama, permanecia sentado, muito sustentado por almofadas, numa delas. Foi numa delas que ele morreu. Recorda-me agora um dia, do último verão, em que estávamos nessa sala a conversar. Louvávamos a beleza e até o conforto destas duas cadeiras. Eu, mais atrevido e jovem, sugeri que seria numa delas que ele, poeta, deveria adormecer para o sono da eternidade. Sorriu-se para mim mas acenou-me com um sinal de enfado como a indicar-me que não gostava que ,lhe falasse naquele assunto. Quase como quem vai dar uma sapatada, acenou-me que me calasse e eu assim fiz. Mas mal pensava eu e muito menos ele decerto que seria mesmo numa dessas cadeiras que ele iria morrer.

Nesta sala foi feita a câmara ardente do nosso grande Régio. Entrei. Dormia ele placidamente de mãos cruzadas sobre o peito, dentro da urna, última guarda do seu corpo. Quatro velas e uma lamparina de azeite ardiam e bailava a sua chama a um sopro de corrente que fazia. As empenas das janelas não haviam sido fechadas e o sol batia suavemente nos móveis da sala, nos seus pés juntos com um ramo de violetas já a emprestar um ar de vida. Uma pequena mesa junto à cabeceira, com uma linda Nossa Senhora com o Menino ao colo; por cima, o grande Cristo de braços abertos, sem dedos, preso na parede sem cruz e Régio dorme tranquilamente. Uma única pessoa, neste momento, vela junto do seu corpo, é o seu particular amigo, o poeta Alberto Serpa.

Cortesia de editorialresistencia

Ficámos os dois - eu e Alberto Serpa. Em breve, chegou o irmão de Régio, o Júlio. Alberto Serpa foi para junto dele. Eu fiquei sozinho com o corpo do poeta. Chegou depois o irmão mais novo, o João Maria. Falámos. Foi ele o primeiro a relatar-me a última noite e contou-me os pormenores daquele passamento suave. Foram chegando outras pessoas.
Voltei a casa e levei a minha filha, de seis anos, para ver o Régio. Ela foi e tagarela como todos os pequenos, gostou de ir e encheu-me de perguntas. Isabel Maria ficará sempre com uma imagem do poeta que dorme agora o sono eterno. Muitas vezes o viu aqui em casa, mas isso podia-lhe passar despercebido. Suponho que é a primeira pessoa morta que ela viu e isso ficar-lhe-á na memória.
No dia seguinte, foi o enterro, pelas 4 e meia da tarde. Um grande acompanhamento, muita gente, muitos amigos e admiradores vindos de fora da terra. Da Sua, porém, pouca gente. Ninguém é profeta na sua terra e Régio parece que tinha poucas pessoas que o admiravam na sua dimensão nacional. Entretanto, a família de Régio, pensando que cumpria um desejo dele, queria que fosse celebrada uma missa de corpo presente, na câmara ardente, em casa; essa missa seria celebrada pelo Padre João Marques. Tentou-se isso e, de princípio, parece que não houve dificuldades. O Prior de Vila do Conde, depois de conversar com o padre João, não via qualquer obstáculo e a missa seria celebrada às l0 horas da manhã. O prior, entretanto, fez consulta para o Paço arquiepiscopal sobre o assunto. O arcebispo, D. Francisco Maria da Silva, em resposta não permitia que se celebrasse a missa em casa do poeta; podia-se celebrar quantas missas se quisesse de corpo presente, mas não em casa, privilégio concedido a católicos exemplares que não era o caso de Régio.

Cortesia de editorialresistencia

Entre os assistentes, senhoras principalmente, gerou-se uma onda de protestos. Uma delas mesmo, depois do Dr. Cruz Pontes ter tentado com um telefonema seu demover o arcebispo da decisão tomada, tentou telefonar para o Cardeal Patriarca. D. Francisco Maria da Silva, em resposta ao telefonema do Dr. Cruz Pontes, continuava na negativa e justificava que, em consciência, não podia permitir tal privilégio a uma pessoa que, em vida, através dos seus escritos não se confessou católico e até tinha negado a divindade de Jesus Cristo. Não sei se a senhora, emocionada, chegou ou não a telefonar ao Cardeal-patriarca. O assunto ficou mais ou menos calmo, sem missa em câmara ardente, depois de um primo do poeta ter afirmado que se a José Régio agora fosse permitido optar ele estaria a dar razão ao arcebispo.
O P. João Marques, nesse dia, queria celebrar uma missa sufragando a alma de José Régio e, na presença do seu corpo ou longe dele, celebrá-la-ia. Em virtude da autorização desejada ter sido negada, resolveu-se que a missa seria rezada na Igreja de S. Francisco. Partiu-se para lá. O Dr. Luís Amaro dizia que era quem devia ajudar à missa. Seria uma maneira de tentar reconstituir uma outra missa celebrada, em Ponte de Lima, no dia 1 de Dezembro, suponho de 1967, pelo meio-dia, na Igreja Matriz. José Régio tinha assistido a essa missa celebrada em latim, pelo P. João Marques e acolitada por mim, com a devoção de cristão católico mais fervoroso. A várias pessoas confessou Régio que esta missa, lhe tinha tocado profundamente o interior. O Dr. Luís Amaro, numa homenagem a Régio, queria que esta fosse agora uma reconstituição daquela». In Paulo Ferro, A Dez Anos da Morte de José Régio, Editorial Resistência SARL, 1980.

Cortesia de Editorial Resistência/JDACT

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Dez Anos da Morte de José Régio: Na morte de José Régio. «Entre as duas janelas voltadas para a rua, está uma papeleira com uma cruz grande, coberta de madrepérola e com dois castiçais de lado dela. Junto da parede, do lado direito de quem entra, estão duas estantes seguras na parede, numa espécie de vitrinas com pequenas imagens, muito bem trabalhadas e finas»

Cortesia de editorialresistencia

«A partir desta descoberta triste para os familiares e amigos que o admiravam com devoção e sinceridade, começaram a preparar-se as coisas para a entrega do seu corpo à mãe-terra donde viemos e onde voltaremos a entregar-nos.
Eu tive conhecimento da sua morte, no Porto, um pouco acidentalmente... Um amigo, encontrado casualmente, informava-me que Régio tinha falecido. Custava-me a acreditar. De facto, via-se, numa tira de papel, escrita, na Avenida dos Aliados, no placard dum jornal, «faleceu, nesta madrugada, em Vila do Conde, o poeta José Régio». Alguma coisa se havia consumado. Uma tristeza daquelas que nos incomodam, nos fazem sofrer até fisicamente, invadiu-me o corpo e o espírito. Não tive palavras para me despedir do amigo, o Padre João Lucas, monge beneditino de Singeverga. Sentia-me nervoso, aflito, sem raciocínio e começava a saltar-me no espírito, na memória a última imagem de José Régio, ainda vivo e a falar comigo, sentado na sua cadeira, rodeado de almofadas, a compor de vez em quando uma manta acastanhada que lhe cobria os ombros. No dia anterior, saí da beira dele bastante animado até porque o achava mais gordo de cara e ele dera-me a entender que queria tentar dar uns passos no quarto para ver se ganhava mais forças. Saí da beira dele e acenou-me com a mão a emergir por entre os frosques da manta castanha, com um sorriso nos lábios. Despedi-me de Régio ou ele despediu-se de mim, sem o sabermos um e outro com um sorriso nos lábios e um brilhar de olhos numa cara chupada de carnes, de barba feita o cabelo bastante grande para o que ele costumava trazer, mas penteado com uma risca ao lado e um pedaço levantado atrás.

Cortesia de editorialresistencia

Interrompi aqui anteontem a minha narração. Já estava um pouco cansado, mas hoje vou tentar continuar. Lá fora, ouve-se a chuva a cair e compassadamente bater no terraço. O frio estala e enregela. Passei urna tarde de preguiça, abafado entre o calor de cobertores e, mais à noite, passei pela livraria e comprei dois livros. Já de manhã no Porto, também havia comprado outros dois. Um dos que comprei agora à tarde, de autoria de Óscar Lopes, traz um ensaio sobre a personalidade de José Régio. Aquele autor tem já, por diversas vezes, nos seus escritos, abordado o problema de Régio e, mesmo neste livro, conjunto de pequenos ensaios sobre outros autores, dá a entender que ainda continuará a aprofundar o seu estudo sobre a obra multifacetada de José Régio.

Este Régio que ainda não me convenci que fechou os olhos para a luz dos mortais, destas coisas que nos cansam umas vezes o espírito e, outras, o corpo. Vejo-o ainda na sua conversa connosco, a mandar-nos caminhar um pouco à frente dele porque, depois que veio do Sanatório, sentia-se com vertigens e pouco seguro; cambaleava um bocadinho no meio das outras pessoas; vejo-o, na minha casa, a dizer que eu precisava de remodelar os quadros da minha sala de jantar, etc. Vi-o partir no dia 23 deste mês, para a sua morada, junto dos seus antepassados, no jazigo de família.
No dia 22, vim do Porto; almocei e, à tarde, fui para casa dele. Entrei com a porta da entrada meio cerrada, sem qualquer movimento de pessoas em frente da casa, mesmo dentro da casa. Fui direito à câmara ardente onde repousavam os seus restos mortais. Esta tinha sido feita na sala que ele destinava ao seu gabinete de trabalho. Duas janelas em toda a largura da parede, voltadas para a rua que um dia poderá ter o seu nome, duas entradas de frente: uma a dar para o corredor e outra a dar para um quarto interior, o seu quarto de dormir, onde ele morreu. Este tem uma saída para o jardim.

Cortesia de editorialresistencia

Entre esta saída e a entrada que dá para o corredor há uma reentrância, a alcova das casas antigas com uma mesinha com álbuns com retratos de pessoas que eu nunca conheci; um retrato que suponho é o da madrinha Libânia e dum lado e doutro duas estantes, com muitos compartimentos, parece um favo de abelhas, com livros, e, entre estes, os de Camilo que ele leu até morrer. Quando o visitei, no dia anterior, e pela última que o vi vivo, Régio dormitava com um livro de Camilo na mão. No decorrer da doença, algumas vezes, a pedido dele, mudei-lhe os livros que ele ia relendo. Levava a essas estantes uns e, em sua substituição, trazia outros. Duas estantes maiores, quase a chegar ao tecto da sala, cobrem a parede do lado esquerdo de quem entra. Entre uma estante e outra, colocou, na parede branca, um crucifixo, pintado, grande com braços a segurá-lo na parede, mas sem dedos.

Entre as duas janelas voltadas para a rua, está uma papeleira com uma cruz grande, coberta de madrepérola e com dois castiçais de lado dela. Junto da parede, do lado direito de quem entra, estão duas estantes seguras na parede, numa espécie de vitrinas com pequenas imagens, muito bem trabalhadas e finas. Entre essas duas estantes, está uma cómoda grande com uma imagem de senhora, alta, com pintura ainda bem viva, vários objectos, mas principalmente livros antigos de orações». In Paulo Ferro, A Dez Anos da Morte de José Régio, Editorial Resistência SARL, 1980.

Cortesia de Editorial Resistência/JDACT

sábado, 13 de agosto de 2011

A Dez Anos da Morte de José Régio: Na morte do poeta José Régio. «Parece que as últimas palavras, que se lhe ouviram, foram para o companheiro que descansava numa cadeira ao lado, “agora, apague-se a luz e vamos dormir”. …hoje já temos a certeza de que ele não voltará ao nosso meio»

Cortesia de editorialresistencia

«No dia 22 de Dezembro, fez 10 anos que José Régio, na sua casa de Vila do Conde, faleceu. Dos meus apontamentos que formam um diário, muitas vezes interrompido, muitas vezes retomado, extraio, quase na íntegra.

«Era para escrever ontem à noite. Sentia vontade e até necessidade de o fazer. Estava, porém, um pouco indisposto e, por isso, só o faço hoje. Posso perguntar a mim mesmo:
  • por que senti necessidade de o fazei ontem à noite? Era o primeiro sábado, num dos que jantei em casa e que não o fazíamos com a presença de Régio.
Já há mais de dois meses, é verdade, que não íamos jantar com ele por estar retido no leito; mas, nos nossos corações, nuns mais noutros menos, havia a esperança de que ele ficaria bom, voltaria a preencher o mundo das nossas conversas de sábado. Esperávamos só o dia para ele voltar. Hoje já temos a certeza de que ele não voltará ao nosso meio, o seu lugar à nossa mesa ficará vago, durante meses e até anos decerto, a marcar um vazio que ninguém será capaz de encher.
No dia 22 deste mês, José Régio, na sua casa de Vila do Conde, rodeado dos seus livros, dos seus santos, Cristos, ex-votos piedosos, santuários, pratos e muitas outras coisas suas, expirou serenamente para o sono eterno. Morreu sem que ninguém lhe pressentisse a morte imediata.

No dia 1 de Dezembro de 1967, no Monte da Madalena, sobranceiro a Ponte de Lima que se vê ao fundo.
Cortesia de editorialresistencia

Ainda perto das duas horas da manhã, conversou com o rapaz companheiro de muitas das suas voltas neste período de doença, o senhor Viana. Parece que as últimas palavras, que se lhe ouviram, foram para o companheiro que descansava numa cadeira ao lado:
  • «agora, apague-se a luz e vamos dormir».
Apagaram-se as luzes e cada um adormeceu. As luzes voltaram-se depois, perto das oito horas, a acender mas de maneira diferente para ele e para os outros. Para este, a luz do dia a dia, no meio do frio, das atribulações de se ser homem sujeito às leis da natureza. Para ele não se abriram estas luzes; abriu-se a luz para a eternidade, para o conhecimento de milhentas questões que o preocupavam em vida, para o desfazer de incertezas certas ou já incertas, mais certa já abriu-se a luz imorredoura da glória e da imortalidade nas letras portuguesas. Desde as 8 horas da manhã do dia 22 de Dezembro de 1969, Portugal tinha menos uma inteligência viva a projectá-lo para a glória do pensamento e das letras no mundo, mas podia levantar dali em diante um altar a este herói sagrado das letras e do pensamento.
«Apaguem-se as luzes» foram estas as últimas palavras que se lhe ouviram e se talharam nos seus lábios. A noite de 21 para 22, no dizer do senhor Viana, foi bastante calma com as interrupções de sono que já eram habituais; somente pelas 5 horas da manhã pediu ao Viana que se fosse ao Porto naquela manhã ou no dia seguinte que lhe trouxesse de lá urnas coisas.

José Régio, em 1 de Dezembro de 1967, em Ponte de Lima, frente à antiga cadeia.
Cortesia de editorialresistencia

Pela 1 hora da madrugada, esteve indeciso entre tomar uma pastilha para poder dormir mais depressa ou não tomar. Iria fazer por dormir, mas seria por vontade dele e não por acção dum agente estranho a si.
Pelas 8 horas chegou o médico, o primo Dr. José de Sousa Pereira que o tratou, orientado por um cardiologista, para a visita do costume: nem luz no corredor nem dentro do quarto. O senhor Viana dormia. José Régio dormia também. O Dr. Sousa Pereira chamou. O Viana respondeu e informava que a noite tinha sido, dentro do habitual sem nada de anormal. O médico ia retirar-se para não perturbar o sono de Régio. Ele dormia bastante mal durante a noite mas, nas primeiras horas da manhã, costumava dormitar um pouco com mais tranquilidade. No decorrer de dois meses e alguns dias de doença assim aconteceu.
O Viana, porém, querendo saber se havia alguma instrução de tratamento a receber, acendeu a luz e ia dirigir-se para a porta semi-aberta para o corredor quando reparou que Régio tinha a boca um bocado aberta e os olhos não estavam no seu normal. Verificaram que a sua alma tinha deixado o corpo e já voava nos caminhos ou nas encruzilhadas que verdadeiramente levam a Deus.
Régio tinha morrido, serenamente, a dormir, sem qualquer espécie de sofrimento nem consciência dele. Costumava segurar na mão um botão de campainha eléctrica para chamar sempre que sentisse qualquer coisa. No decorrer destes dois meses, com a aflição a saltar-lhe do rosto, muitas vezes, premiu o botãozinho branco a brilhar no envólucro negro do interruptor da campainha». In Paulo Ferro, A Dez Anos da Morte de José Régio, Editorial Resistência SARL, 1980.

(Continua)
Cortesia de Editorial Resistência/JDACT