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segunda-feira, 1 de março de 2021

Poesia. António Ramos Rosa. «Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca. Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Todo aquele que abre um livro

«Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto».

Poema de António Ramos Rosa

 

A Casa

«A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui».

Poema de António Ramos Rosa, in O Não e o Sim (1990)

Cortesia de Textos de Poesia/Wikipedia/JDACT

JDACT, António Ramos Rosa, Poesia, Cultura, A Arte da Escrita,  

domingo, 15 de março de 2015

Ramos Rosa. Funcionário Incansável das Palavras. Daniel Gil. «… eu sou triste como um prático de farmácia,/ sou quase tão triste como um homem que usa costeletas./ Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher/ mas só ouço o tectec das máquinas de escrever…, sorrir nenhum acaso nenhuma porta impossível sair»

Cortesia de wikipedia

«(…) A materialização selecta de recursos contemporâneos é engendrada pelo poeta sempre de maneira pautada e fluida. Analisemos, pois, o seu poema Tal como antigamente:

«Tal como antigamente tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair».
(1974)

Apesar de serem frequentes em Ramos Rosa imagens que remetem à claridade, ao sol e, consecutivamente, à vontade de vida, temos um poema de flagrante desistência. Entretanto, mesmo a imagem desta desistência é constituída através da deformação do sorriso, não de uma lágrima. Tal inversão, e o consequente embate entre o resultado que o signo é capaz de produzir e o seu suposto conteúdo, quando retirado de uma situação poética, suscita à poesia de Rosa lugares inesperados. Tão importante é, também, a associação da palavra estrela com a palavra muro, que, num primeiro momento, caso descontextualizadas, parecem evocar ideias opostas. A primeira despontaria abstração, infinitude, liberdade; enquanto a segunda, as qualidades do concreto, do palpável, dos limites. Contudo, o muro deste quadro traduz a impossibilidade, o obstáculo insuperável, isto é, a distância inexequível da estrela à nossa presença, ao nosso entendimento. Estamos, portanto, encontrando a metáfora motivada por outra, conjunto e subconjunto de imagens perfazendo o resultado poético. O verso livre, muito afamado como recurso típico da transformação moderna, é aproveitado, então, por meio de uma técnica bem desenvolvida e marcante em nosso poeta: o corte. É este que proporciona boa parte do inusitado e da sobrevalorização das palavras em Ramos Rosa. Examinemos assim, como essa estrela e esse muro permanecem no mesmo verso, sem cortes, e o efeito se torna, ao mesmo tempo, a concepção imagética que analisamos e o impulso primeiro para a sequência de paralelos que estão por vir. Não obstante, logo esse impulso é dado e os cortes relevam adjetivos: lento, morto, antes de, fundamentalmente, apresentar a energia contraditória de sorrir.
É ainda a mesma técnica que propicia o elegante emparelhamento de acaso e porta, como de igual jeito entremete surpresa na solução do último verso. Outro poema pertinente à nossa análise é aquele que, muito contemporaneamente, faz arte literária com o enfado rotineiro de um funcionário desacertado à sua trivialidade:

«A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só».
(1974)

Muito possivelmente existe inspiração de semente brasileira neste poema. Carlos Drummond Andrade já se havia tornado, em tempos anteriores à data de estreia de Ramos Rosa com O Grito Claro (1958), um recorrente poeta do tema que deu origem ao Poema dum funcionário cansado. Porém, podemos arriscar, baseados numa admiração exposta em poesia, que estamos de frente à influência, principalmente, do autor dos memoráveis versos: eu sou triste como um prático de farmácia,/ sou quase tão triste como um homem que usa costeletas./ Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher/ mas só ouço o tectec das máquinas de escrever» In In Daniel Gil, Ramos Rosa. Funcionário Incansável das Palavras, Murilo Mendes, 1994, Vértices, Campos dos Goytacazes/RJ, volume 12, n.º 2, Brasil, 2010, Wikipedia.

Cortesia de Vértices/JDACT

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A Vida que Passa. António Ramos Rosa. «Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. Tudo o que se passa no onde vivemos é em nós que se passa»

jdact

Não Posso Adiar o Amor
«Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio.

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.

Não posso adiar o coração».
Poema de António Ramos Rosa, in ‘Viagem Através de uma Nebulosa’


É por Ti que Vivo
«Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.

Ofereço-te esta frágil flor, esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto».
Poema de António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’

Para a Filipa! A amizade dos dias no Porto.
Descansa em Paz!

JDACT

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Vaya con Dios. Ramos Rosa. Mistura. «Vitória propaganda pela sombra cabeleira compacta, firmes membros, uma respiração feliz ombro a ombro um caminhar sem solidão na noite»

jdact e wikipedia

Busca la liberdad de tu rosto de hoy. In Aguirre


«Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.

E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real».


JDACT

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Música. Poesia. Crato. «Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. É um arco íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol»

Cortesia de wikipedia e jdact


Sílabas
«Sílabas.
O álcool de Dezembro é frio e rouco.
O cigarro amarga. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um corpo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas».


JDACT

Poesia. Fado. Conversas. Gisela João. «Os meus estão longe e não têm casa. A natureza é longe. A uma mesa de café somos quatro quatro quê?»

jdact e wikipedia


«A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal.

Brusco passado liso no lago dum momento
Que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia».


JDACT

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Piano. Concerto. Poesia de Ramos Rosa. «… o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente e debitou-me na minha conta de empregado. (…) Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?»

jdact e wikipedia


«A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só.

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão.
Débito e crédito, débito e crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do
quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado.
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar.
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas.
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavas cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida.
Isso todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só».


JDACT

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Concerto; Piano. Poesia de Ramos Rosa. «De escadas insubmissas de fechaduras alerta de chaves submersas e roucos subterrâneos onde a esperança enlouqueceu de notas dissonantes dum grito de loucura de toda a matéria escura sufocada e contraída nasce o grito claro»

jdact e wikipedia


«Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas.

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio.

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.
Não posso adiar o coração».


JDACT

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Poesia. Ramos Rosa. «Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes. Não estou, nunca estarei longe desta água pura e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas. Que pura serenidade da memória, que horizontes em torno do poço silencioso!»

jdact

Árvores
O que tentam dizer as árvores.
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência,
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
Poemas de António Ramos Rosa, in Volante Verde’

JDACT

sábado, 16 de novembro de 2013

Jazz. Pela Noite. David Virelles and All. «Um corpo, digo, não um cristal. Que permanece, ainda que eu hesite ou falhe ou recomece. E longamente se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde. Só uma distância, ou o desejo, o quer. Mas onde e quando, enquanto existe?»

jdact


«A tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.
Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto».


«Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida.
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila.
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente.
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva».


JDACT

sábado, 28 de setembro de 2013

Ramos Rosa. Funcionário Incansável das Palavras. Daniel Gil. «Na justa monotonia do meio-dia oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida. O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente»

Cortesia de wikipedia

«O ensaio pretende apontar algumas características basilares da obra poética do autor português contemporâneo António Ramos Rosa. Entende que o poeta é um perspicaz intérprete da multiplicidade estética de seu tempo e que, portanto, compõe com recursos variados. Rosa manipularia, com desenvoltura técnica, a simplicidade, a fluidez, o corte, oposições e tensões; a deferência à palavra surgiria em seus versos como conciliadora de distintos panoramas da modernidade.

Em Poesia e Desordem, livro de nome bastante propício para tratar da poesia dos últimos tempos e suas ramificações formais, Antonio Carlos Secchin escreve que Muitas trilhas foram abertas em busca da poesia, e até contra ela, através de sucessivas decretações de morte, mas ela, sempre renascida em constantes metamorfoses, não parece incomodar-se com isso. Apesar de essas linhas se incumbirem basicamente da literatura brasileira, é possível afirmar que a arte poética do século passado atravessou inúmeros e inusitados laboratórios formais, mais ou menos animosos, em variados países que comparticipam de certa maneira da mesma cultura literária. De tal modo, a poesia portuguesa de António Ramos Rosa realiza-se sobre-eminente. Das trilhas abertas, há aqueles que optam por uma e logo pensam ter descoberto o improvável atalho ao fastígio. Muitos, ainda, se dedicam mais a defender o seu rumo do que a enfrentar seus obstáculos, ou mesmo procuram recuar, negando a existência de qualquer via possível. Entretanto, outros, conseguem usufruir a visão de paisagens diversas, porque seguem ascendidos, e mais exitosos se tornam a cada destino alcançado. Nessa selva oscura, ou seja, em nossa desordenada modernidade, os versos de Ramos Rosa se apresentam como aqueles que adquirem, como numa selecção rigorosa, um entremeado dos melhores resultados provenientes dos inúmeros caminhos opostos, de tantas colisões teóricas, tantas des- e re- construções da poesia. E podemos dizer que somente um escritor que conseguiu compreender com bastante argúcia a sua época seria agente desse efeito.

Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. In Ramos Rosa, 1970.

A falsa antítese planejada, entre a simplicidade e a densidade, sendo a última revestida astuciosamente da outra e, para além, a caracterização da forma, podem servir-nos como dica à principal peça do mosaico poético de Rosa: a deferência à palavra. Idealizada ao longo da modernidade como o elemento literário maior, cuja forma deva possivelmente confundir cenário e roteiro, meio e fim, signo e referente, ela não deixa de adquirir em nosso poeta o valor que os modernos pretenderam. Sem se adulterar como quem abre trilhas presumidamente prodigiosas, a palavra em António Ramos Rosa inventa com naturalidade; acrescenta, alheia a maneirismos, à poesia de seu tempo e serve preferencialmente ao leitor:

Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
(1991)

O silêncio morno das coisas do meio-dia, como já se referiu Vinicius de Moraes, é aqui susceptível, podemos dizer, a leituras com variadas categorias de absorção, em não sendo antagónico o diálogo simplicidade / densidade, mas complementar, os versos detém o atributo de suspender o leitor independente do nível de atenção que ele queira ou lhes possa prestar. A palavra se afigura, pois, capaz em última instância de se enunciar legitimamente mesmo quando reflexionada distante do significado que lhe foi próprio». In Daniel Gil, Ramos Rosa. Funcionário Incansável das Palavras, Vértices, Campos dos Goytacazes/RJ, volume 12, n.º 2, Brasil, 2010, Wikipedia.

Cortesia de Vértices/JDACT

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Poesia. António Ramos Rosa. «Deixem-me ter tempo para ter tempo de ir morrendo com o tempo sem ter de aprender a morrer. Tenho sede de continuar a ter sede de viver outra vida nesta vida»


Cortesia de wikipedia

Teu Corpo Principia
Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.
Amor, eu sei que vives
num breve país.
Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.
Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.
O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.
O vida perfumada
cantando devagar.
Enleio-me na clara
dança do teu andar.
Por uma água tão pura
vale a pena viver.
Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

Poema de um Funcionário Cansado
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo
Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra.

Momento
Nenhum sopro de ausência. Só a paixão
suave
de um sol íntimo
no seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
desejo no seu silêncio,
luxo indolente, frescura de vértebras solares.
intimidade perfeita
e que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
na delícia extrema de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
e em tranquila doçura de hábitos.

Poemas de Ramos Rosa

JDACT

Poesia. António Ramos Rosa. «Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979). Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea»

(1924-2013)
Faro
Cortesia de wikipedia

Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

Uma Voz na Pedra
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

Um Caminho de Palavras
Sem dizer fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim
E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe
Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.

Poemas de Ramos Rosa

JDACT