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sábado, 1 de abril de 2017

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Contei-lhes que tinha um cunhado e uma irmã na guerra e foi um sucesso. Não calculas como me senti orgulhosa! Todas a olharem para mim, cheias de inveja»

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«(…) Além de descrever os preparativos para a festa da Ritinha, contava que o Manuel a enchia de mimos, a si e à filha, […] sinto-me muito feliz, minha querida Filippa! Só me pesa a tua ausência e o medo de que vos aconteça alguma coisa má. Tenho-me esquecido de te contar que em meados de Julho entrei numa Comissão Feminina para dar apoio aos soldados. Fazemos imensos cachecóis, barretes, luvas e mantinhas para os proteger do frio horrível que aí faz, como tens mandado dizer. Contei-lhes que tinha um cunhado e uma irmã na guerra e foi um sucesso. Não calculas como me senti orgulhosa! Todas a olharem para mim, cheias de inveja [...].
Quase no fim, referia a queda do avô, tinha sido preciso colocar-lhe gesso no pé, mas não era grave, […] acho-o cada vez mais zangado, cada vez mais sozinho la na quinta, coitado. Ninguém pode falar de ti à sua frente. O Zezinho, que está muito ligado a ele, como tu sabes, no fim-de-semana passado disse-lhe que tinha saudades da maman mesmo que o avô não quisesse, e o avô abraçou-o. Acho que quando voltares ele te perdoará imediatamente porque lhe fazes muita falta.
Filippa deixou as lágrimas correr, a mágoa que causara ao avô, velho e sozinho, ela, a neta tão amada. Abriu a carta da mãe e sorriu por entre as lágrimas, o estilo e o conteúdo contrastavam em absoluto com os da irmã. Queixava-se das revoluções que a impediam de sair à rua, das greves insuportáveis, dos dias tumultuosos que traziam sempre alguma notícia desagradável, como era possível viver-se assim, com a Europa em guerra e tantos portugueses a combaterem?, como era possível andarem a atacar-se uns aos outros?, republicanos, claro, como não podia deixar de ser, gentinha sem classe, davam cabo da vida das pessoas. De repente, Filippa deixou de sorrir quando o assunto se desviou para o neto mais velho, o Sébastien (vulgo Tião) estava insuportável, já não tinha idade para as birras infernais, impertinente e mal-educado, valia a paciência inesgotável de Maria Joana, ainsi que ton beau-frère. Manuel est une trouvaille, tellement compréhensif et bon vivantl! (tal como o teu cunhado, Manuel é um achado, tão compreensível e bem-disposto!). A irmã omitira qualquer referência a esta questão, omitia quanto podia os aspectos negativos. Filippa pousou a carta e pensou no menino de oito anos, abandonado pelos pais, sem saber se voltaria a vê-los, o menino que não era mau, apenas infeliz. Como de costume, a mãe invertera os papéis, transformara a vítima em algoz.
Apesar de se encontrar próxima do Nordeste francês, onde se combatia ferozmente, Amiens fora o destino fixado para Filippa, porque ali viviam uns primos de Eugénie que lhe tinham assegurado um apoio incondicional, adoramos conhecer a nossa priminha, acalmando os medos de Miguel. Como combinado, o tio Louis François fora-a buscar à estação de Montparnasse. És muito bonita, minha sobrinha. Parece surpreendido, meu tio, murmurou ela no desábito de elogios. Foi um encontro carinhoso, ela ávida de saber coisas sobre a mãe, ele ávido de saber coisas sobre a irmã, e no caminho para Amiens, onde Miguel os esperava, Filippa descobriu Eugénie Françoise d’Oriol Bourbon Nevers, quarta filha dos senhores de Corbigny, família antiga de Beaune, na Borgonha». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Miguel abençoava a ideia de a ter ali, duas vezes por semana, a abraçá-la, a amá-la, a sua doce Filippa, limpa, macia e, embora vergonhoso, a permitir-lhe aliviar-se do desejo»

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«(…) O marido dormia enrolado num cobertor, depois de se ter lavado, a primeira coisa que fazia ao chegar da frente era esfregar-se todo a diluir o cheiro pestilento das trincheiras, não queria que Filippa o visse coberto daquele cheiro infecto, Filippa já o cheirara em tantos corpos, porque não no dele? Olhou-o com uma tristeza terna, o seu marido Miguel, o belo oficial venerador da honra e da disciplina que a levara ao altar, o pai dos seus filhos, aprisionado nesta teia destrutiva que nada tinha a ver com ele. Sentiu alívio por não ter que se sujeitar, como de costume, ao seu desejo tirânico, ali, de imediato, quase sem falarem. Mas logo sentiu culpa pelo alívio, pobre gladiador exaurido, mudámos os dois, no corpo e na alma. Ao longo de oito anos de casados, nunca Miguel dera sinais de volúpia, sempre comedido, executando os deveres conjugais com o cuidado respeitoso da castidade cristã, como era possível transformar-se de súbito num amante brutal e opressivo que a assustara no princípio e continuava a incomodá-la, embora o tolerasse como uma doença de guerra? Saciado, vinha-lhe a vergonha, pedia desculpa, sou um bruto, desculpa, regressando ao senhor cortês, de bigode à Kaiser.
Que estranho o bigode à Kaiser manter-se viçoso, disse em voz alta. De três em três dias, a não ser que houvesse algum contratempo, e havia-os com frequência, Miguel vinha passar a noite com ela, privilégio de oficial a combater na frente, tal como o posto de capitão lhe facultava um carro para transpor os quarenta quilómetros que separavam Arras de Neuve Chapelle, onde ele exercia a guerra. De início, o marido recusara a sugestão de Filippa ficar em Arras, demasiado próxima da frente de batalha, os alemães estão a 10 quilómetros, é uma loucura! Aí que te enganas, objectara o tio Louis François. Agora, quase três meses passados sobre a decisão, Miguel abençoava a ideia de a ter ali, duas vezes por semana, a abraçá-la, a amá-la, a sua doce Filippa, limpa, macia e, embora vergonhoso, a permitir-lhe aliviar-se do desejo, o quarto da casa de madame Seignier tornara-se um paraíso sonhado nas longas horas de espera nas trincheiras.
Pequenina e seca, madame Seignier usava o carrapito grisalho e o xaile preto dos lutos, o luto do marido na Bélgica, dia 30 de Agosto de 1914, logo no começo,
e a seguir, a 11 de Outubro, o luto da filha Ivette, do genro e do neto, mortos nos bombardeamentos de Lille, ocupada desde então pelos alemães, tantos lutos que nem dava para chorá-los. Os dois filhos homens combatiam na frente do Meuse e, num silêncio vazio, madame Seignier ia cumprindo as tarefas domésticas.
Só então reparou nas duas cartas colocadas na mesa do meio, notícias, ia ter notícias, o alvoroço afastou-lhe o cansaço. Uma era da mãe e a outra da irmã. Abriu primeiro esta, Maria Joana escrevia-lhe longas missivas carregadas de superlativos, como era de seu feitio, e narrava pequenas ocorrências que a enchiam de prazer, [...] o Tião já lê o jornal e sabe imenso da guerra, um dia destes escreve-te uma carta pela mão dele. O Zezinho tem uma paixão pelo pónei que o avô lhe deu pelos anos! Tem sido difícil convencê-lo que não pode trazê-lo para Lisboa. Dorme com a fotografia debaixo da almofada. Têm tantas saudades vossas, coitadinhos. É tão diferente educar rapazes e meninas! Mas cá me vou arranjando com a ajuda da Maman». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Beltrão. «Luís e Zulmira eram o casal ‘réussi’ da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher…»

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«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Albertina olhou para o outro lado da sala, lá estava o sobrinho, tão triste, como ele devia sofrer com tantos conflitos à sua volta, pobre criança! Se Júlio permitisse ela tomá-lo-ia à sua guarda como um pequeno pássaro sem ninho. Mas já iam receber Heitor. Não que ela se importasse, Júlio é que podia não querer. Pedro, de longe, captava as movimentações sobre a sua sorte, intuía-o da habitual cotação de menino abandonado, mas, nada deixando transparecer, conversava com o primo Alvarito, cuja desenvoltura invejava. Eram muito diferentes estes dois primos quase da mesma idade, com destinos de berço tão diversos e que no entanto se entendiam: o desvalido Pedro tinha figura de príncipe, alto e loiro; Alvarito, filho do primogénito Luís e de sua mulher Zulmira Maldonado, de nove anos mimados, pequeno e rechonchudo, crescia em feitio brincalhão, que a vida era uma brincadeira inconsequente dada a indulgência dos pais que o adoravam e lhe perdoavam as fantasias rocambolescas ditadas por fértil imaginação. Graves sensaborias tinham já sofrido, que ele não poupava ninguém.
De uma vez, num dos numerosos jantares elegantes que Zulmira costumava dar, houvera, entre outras sobremesas, uma mousse au chocolat, doce recentemente importado da admirável cozinha francesa. Alvarito, que recolhera cedo como convinha a uma criança, aparecera na casa de jantar no momento em que o criado servia a apreciada iguaria e, com ar compungido, bichanara em voz suficiente para ser ouvido por todos, boa noite, isso que vão comer tem fezes da mamã que a cozinheira pôs no chocolate. Ninguém comera a mousse au chocolat, apesar das invectivas indignadas de Zulmira, siderada, com a alusão às suas fezes. Comera-a ele mais tarde, regaladamente. O alvo preferido das suas partidas era o severo tio Francisco, filho do primeiro casamento do conde e marido da tia Antoninha. Até houvera uma questão entre Luís e Francisco, cujas relações tinham esfriado desde então.
Luís e Zulmira eram o casal réussi da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher, um trem de vida luxuoso, idas frequentes a Paris, festas magníficas frequentadas sobretudo por gente das artes e das letras. Zulmira, Maldonado de solteira, tinha uma sede inesgotável de sucesso, sobretudo em relação aos homens, o que provocava cenas de ciúmes no marido, inseguro perante a sua beleza insinuante e os seus dotes poéticos. Embora também dado a aventuras galantes, era Luís um homem responsável dos deveres familiares e cívicos, auxiliando os parentes com a disponibilidade própria do estatuto de primogénito. Fora ele o padrinho da neófita e dera-lhe de presente um rico broche de brilhantes.
Também lá se encontravam as duas outras filhas de Ana, as inseparáveis Elisa e Laura, esta sem o marido, ocupado na lavoura das terras, e aquela ainda solteira inconsolável, que continuavam trilhando o seu caminho de diferenças: Elisa fina e elegante, Laura infantil nas suas saídas intempestivas e pesadas. Por fim, Antoninha, enteada de Ana e seu marido Francisco de Riba Coutinho, ele pouco comunicativo, ela doce como sempre, cada vez mais apagada e silenciosa; tinham voltado definitivamente a viver em São Jerónimo desde a última crise do conde, a quem Francisco amava num silêncio discreto. Como Guilhermina dizia, maldosamente, era uma família grande que aparentemente se dava bem.
De regresso a Coimbra, Júlio voltou à vida académica e Albertina às lides domésticas, agravadas agora pela presença dos dois hóspedes. A casa era espaçosa para os albergar, mas traziam eles um ritmo diferente ao quotidiano. Heitor, obrigado a frequentar pela primeira vez o colégio, tentava escapulir-se aos seus deveres e fazia-o com êxito, iludindo a ingenuidade bondosa de Albertina. Conhecedor dos gostos de Júlio pela caça e pelos desportos em geral, desafiava-o, tentador, conseguindo a pouco e pouco os seus intentos. Terno e amável, oferecia-se para passear a pequena Maria Teresa que crescia adorável e precoce e trazia pequenos presentes; porém, os estudos continuavam para ele uma actividade absurda, não ligava às conversas, achando enfadonhas e escusadas as questões que discutiam. O irmão bem tentava puxar-lhe pelos dotes do espírito, contudo, sem êxito algum: o Júlio, vocês argumentam, argumentam e ficam sempre na  mesma. Eu acho que a vida está para a acção, não para as palavras e para os papéis». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível»

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Filippa na Grande Guerra
21 de Setembro de 1917
«Corria ofegante na aflição de chegar, sem saber aonde, perdida nos subterrâneos, nas encruzilhadas a abrirem-se à sua frente, vertiginosas, cada vez mais perdida, cada vez mais ofegante, tinha de chegar, tinha de chegar, um choque brusco abalou as paredes, outro bombardeamento, a chuva de caliça caía-lhe na cabeça, tenho de chegar, estão à minha espera... - Filippa! Fil! Filippa! Os abanões de Grace libertavam-na do pesadelo do costume nos túneis do Boves. Não tinhas de sair, Fil? São quase sete horas. Filippa levantou-se, ainda com a angústia colada à pele, lavou a cara na bacia de loiça, ao canto da sala, e só depois sorriu à amiga: Santo Deus, adormeci. Estava tão cansada que adormeci. O Miguel deve estar aflito com a demora. Vai, que eu assino a folha. Obediente, Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível, Setembro em Portugal era suave; aqui, a chuva e a humidade invadiam tudo, contaminavam tudo, esfacelavam tudo, como uma lula monstruosa, e aquele matraquear contínuo das armas ao longe que se calava às vezes dando lugar ao silêncio tumular, que saudades da paz. Respirou fundo e procurou um pensamento alegre para o marido, tal como fazia ao começar o trabalho junto dos doentes, o sorriso era um bálsamo, um bálsamo precioso naqueles lugares onde se sorria tão pouco. E o pensamento alegre surgiu-lhe na imagem da adorável sobrinha Maria Rita, de caracóis ruivos, 21 de Setembro, dia dos seus 3 anos, como devem estar contentes a festejar na quinta, será que fizeram a festa na quinta? Claro, o avô exigira. Que sorte estarem lá todos, mesmo que haja zanga, podem dar-se ao luxo de se zangarem, não correm o risco de morrer amanhã. Afluíram-lhe rugosas as saudades dos filhos, que má mãe lhes saíra na rifa, deixá-los por uma guerra que não era sua, uma guerra de morte, de podridão e lama, os filhos eram a vida, se conseguir voltar, volto estéril como os campos de batalha. Pedalava com perícia, adorava a sua biciclette, Brigitte ensinara-a e ela aprendera com facilidade surpreendente, abençoada farda que lhe permitia movimentar as pernas, a liberdade de movimentar as pernas era uma delícia, a liberdade do corpo era uma delícia, o que ela tinha mudado nestes meses, que sorte ter encontrado amigas tão sábias e já veteranas, que sorte teres chegado só agora, diria Grace. Apesar do negrume da noite, circulava segura pelo chão escorregadio das ruas, de tantas vezes fazer aquele caminho sabia-o de cor, conhecia as ruínas, as enormes crateras na calçada, habituara-se à mobilidade no escuro, a guerra obrigava a estar-se no mundo de um modo diferente, ou era o próprio mundo que se tornara outro?, o perigo vindo do céu, das entranhas da terra, do mar, o perigo vindo de todos os lados, ela aprendera a mover-se sem barulho por entre os perigos; ao contrário do pesadelo, não se perdia nos túneis e muito menos nas ruelas da vila». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso…»

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«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Também António a procurara depois do almoço farto que Ana mandara servir com os habituais requintes. Guilhermina viera de Lisboa, de caminho para a Figueira, continuava a recusar-se ir para Coimbra, apesar da bela casa que António alugara por noventa e nove anos e mobilara com um conforto notável. Passarei contigo os meses de Verão na Figueira, como é costume, mas para Coimbra não vou e podes levar o Pedro, fica melhor contigo, eu não me entendo com o feitio dele. António vinha pedir a Albertina que convencesse a mulher a mudar de ideias, já viste o horror que é ficarmos separados, e o pobre do meu filho rejeitado pela mãe? Albertina, impressionada, acedera a conversar com a cunhada, embora mal a conheça!, porém, rejeitar um filho de dez anos era um sacrilégio. Vencendo a timidez e levando o seu bebé para se dar coragem, aproximara-se de Guilhermina que se mantinha um pouco afastada, não era pessoa querida na família. Ainda não pegaste na Maria Teresa. Já viste como é bonita? Guilhermina olhou-a com indiferença, desprezava todos estes burguesinhos, esta família a fingir que tudo corria bem, não a enganavam a ela que vinha de cepa fidalga e que nunca ninguém reconhecera como tal:
Para mim os bebés são todos iguais. Encarnados e feios. Mas ainda bem que estás contente com o teu. Albertina continuou heroicamente: Acho o Pedro tão crescido! Parece ter muito mais do que dez anos. E é um rapaz com um ar tão fino, tão ajuizado! A expressão de Guilhermina suavizou-se e os belos olhos cinzentos tomaram uma tonalidade quase azul: Não percas tempo, Albertina. Vejo que o António te encarregou de me convencer a ir para Coimbra. Mas eu não vou porque estou farta dele e dos seus disparates. E já agora, para te mostrar que as coisas não são o que vós pensais, vou-te contar o que ele fez, e isto é só uma amostra. Tu sabes que nós frequentávamos muito os meus primos, os barões do Limoal. Eles não têm filhos e afeiçoaram-se ao Pedro. Gostavam dele como de um filho, de modo que fizeram um testamento a deixar-lhe a sua enorme fortuna. Acontece que o teu querido António, em paga da amizade, se meteu com a minha prima Mariana, já a tinha debaixo de olho há muito tempo. E se ela era uma mulher honesta!
O Bemardo descobriu a marosca, fez uma cena das grandes, expulsou o António de casa e rasgou o testamento que tinha feito a favor do Pedro. Albertina ficou chocada, que horror! Que horror, é imperdoável! Atraiçoar a confiança de um amigo! E para ti, coitadinha, que humilhação, que desgosto! Meter-se com a tua prima! Guilhermina avaliou a cunhada, que corara de indignação: Para te ser franca, é-me indiferente que ele se meta com a minha prima ou com outra qualquer. Aliás ele mete-se com todas. Os homens são assim, o teu não há-de fugir à regra, se é que ainda não deste por isso. O problema que me enfurece é o testamento. O Pedro tinha o seu futuro assegurado, tal como eu. E por causa da estupidez desmiolada do meu esposo, lá se vai tudo por água abaixo.
Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso, porém perdia-a ao abandonar o filho: O Pedro é que não tem culpa nenhuma! Porque te queres separar dele? Porque me quero separar do Pedro? Porque não tenho dinheiro! Julgas que sou uma desalmada, como todos querem fazer crer? O vosso querido António gastou tudo. Vivo modestamente e vou vendendo as jóias que ele me deu quando ainda tinha fortuna. Mas um dia as jóias acabam. E depois? Como é depois? O António tem que sustentar o filho. Além disso, ainda há outra coisa: o Pedro não fala, não ri, sempre com um ar de tristeza. Não tenho paciência para melancolias. É uma maçada educar crianças e andar sempre num sobressalto por causa delas. Não tenho feitio para isso. Para te falar com franqueza, estou farta desta família que sempre me tratou como uma intrusa. Olha, quanto menos estiver convosco, melhor. O António tem sorte que eu ainda aceite vê-lo, a ele e ao Pedro, nos meses de Verão, na Figueira. Albertina ficara impressionadíssima. Quando António, ansioso, lhe viera perguntar pelo resultado da conversa, ela descompô-lo: És impossível! Desonraste o teu lar e o lar dos teus primos. O que é que tu esperavas? Se fosse comigo, nunca mais te queria ver!
António fez um ar de menino arrependido: Não te zangues comigo, Albertina. Foi um azar. Mas a Mariana valia bem uma fortuna! Ela não achou graça nenhuma: Vou mesmo deixar de te falar! Não tens vergonha de teres prejudicado o futuro do teu filho? O cunhado abraçou-a, risonho: Ora, as fortunas vão e vêm, como o teu pai teve a amabilidade de dizer ao teu valoroso marido. Entretempos o Bernardo podia mudar o testamento por outra razão qualquer. E tornando-se sério de repente: Agora o Pedro separado da mãe, isso é que é mau! Ele tem uma sensibilidade de menina. Tu é que o compreendias! Não o queres receber na tua casa? Pelo menos nos primeiros tempos». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência»

jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Próximo do Natal na Quinta de São Jerónimo foi o baptizado da primeira neta da condessa, que já tinha dois netos varões, e Júlio ficara desiludido por não lhe ter calhado também um, como se fosse deficiência sua o sexo incompleto. Mas não deu mostras de nada, era o que faltava depois do que a pobre sofrera, outra vez seria. A Quinta de São Jerónimo mantinha o seu requinte aristocrático, sem mudanças, e a ela acorreram os membros da família, dispersos a pouco e pouco pelos condicionalismos da vida, os membros da família de Júlio, que a de Albertina não viera, a desobediência ao patriarca Diogo Silveira era ainda recente e o patriarca proibira-lhes que fossem, aquela filha estava morta para si e portanto para os outros. Na festa de baptizado ela sentira a orfandade com mais violência, como se fora filha das ervas, sem testemunhas de sangue a confirmarem-lhe a progenitura. A madrinha da neófita foi a avó paterna, Ana, condessa de Aguim, que gostava desta nora, mais do que das outras duas e por isso lhe manifestava ternura, admirando nela a força com que enfrentara o pai e a serenidade com que ainda sofria a falta da família. Ana via essas coisas mas nada dizia, não são coisas que se digam em meios civilizados, há que manter o pudor dos sentimentos. A sua figura imponente mantinha-se direita, quase a chegar aos cinquenta, parca nas manifestações, discreta no respeito pela vida dos seus, mas referência segura na autoridade fundadora. Seu marido, segundo de matrimónio, nunca fora chefe de família, cego havia duas décadas e agora preso pelas dores da gota, mantinha aquela disposição amável que sempre o caracterizara, afugentando de si e dos outros as torpezas da decrepitude. Também ele gostava de Albertina, infelizmente não a posso ver, mas sei que é linda e feminina, os cegos têm modos especiais de apreciar a beleza, que os outros não entendem. Albertina costumava acompanhá-lo, quando de visita a São Jerónimo, nos passeios de carruagem, e deleitava-se com esse patriarca de barbas brancas, cheio de sabedoria e de sedução que mantinha intacto o seu amor à Vida e à Mulher.
Apesar dos seus noventa e quatro anos, porfiava nos trabalhos literários, no interesse pelos destinos da pátria, à qual dedicara praticamente toda a vida. Possuía uma vitalidade tão grande que Ana confidenciara um dia a Albertina cumprir ainda ele gostosamente o seu dever conjugal, e muito bem!; a jovem corara envergonhada pela alusão ao tabu, porém a sogra era assim, livre e desassombrada, cada vez mais livre e desassombrada à medida que envelhecia, como se os anos lhe dessem o direito de se revelar enfim sem disfarces. Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência. O amor de sua vida fora este ancião e, por arrasto, o filho de ambos, o jovem e hercúleo Heitor, que aos vinte anos preguiçava no remanso do lar, sem outros interesses que não fossem a equitação e a caça. A mãe tinha o secreto temor de que ele não trilhasse as pisadas do pai, mas Heitor amavelmente continuava a olhar os livros como material de sucata e subvertia os ânimos dos vários preceptores, incumbidos de lhe abrir o espírito. A relação entre Ana e Albertina estabelecera-se como um amor à primeira vista, a atracção dos contrários que se completam, a jovem apresentava-se como produto genuíno e perfeito da mulher do seu tempo: doce, modesta, prazenteira; tinha mãos de fada nos bordados e rendas que confeccionava, cumpria gostosamente as actividades caseiras. Talvez por isso, aquando da entrada para a família, conquistara um lugar cimeiro, a sua disponibilidade levava os outros a abrirem-se com ela.
A festa do baptizado da pequena Maria Teresa era bem o exemplo disso, vários foram os que se lhe dirigiram a solicitar ajuda. Ana pedira-lhe que recebesse em casa o jovem Heitor a ver se o convencia a afeiçoar-se aos estudos: - Aqui na Bairrada só procura a companhia dos cocheiros, dos moços de estrebaria e outra gentinha do género! Talvez em Coimbra, no meio dos estudantes, ele entenda que a cultura é importante! Nunca se preocupara muito com o futuro dos cinco filhos que o primeiro marido lhe dera, talvez porque fosse nova, talvez porque eles fossem ricos, talvez porque muito mais amava este filho do que amara os outros. - Ó mamã, tenho o maior gosto em lhe ser prestável! Se o Júlio estiver de acordo, claro. Júlio esteve de acordo e Heitor sujeitou-se, se a mamã deseja, farei a sua vontade. Ficou combinado que depois das férias iria para Coimbra frequentar, como externo, o mesmo colégio de padres onde os irmãos tinham estado». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 14 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Doido de aflição, descontrolado, ‘ai se ela morre, porque não nasce a criança?’, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias…»

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Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) O trabalho ainda está muito atrasado. A Albertina tem que ficar calma, isto vai ser duro, mas lembre-se de que tudo o que sofre é pelo seu filho. Foram dois dias e duas noites de padecimento atroz, a violência das dores era tal que por vezes ela perdia a consciência e isso era um bálsamo. A parteira foi obrigada a amarrar-lhe os braços e mesmo assim os espasmos vinham-lhe tão fortes que a cabeça, ao embater na cabeceira da cama de mogno, a rachou de alto a baixo. Albertina nunca quis desfazer-se dela, foi um testemunho que ali ficou para mostrar à posteridade o seu martírio. Júlio fora proibido de entrar no quarto. Doido de aflição, descontrolado, ai se ela morre, porque não nasce a criança?, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias, impotente, sem poder acudir-lhe. Agarrava-se ao irmão, chorando como um menino, ela vai morrer, ela vai morrer!, e António consolava-o, como anos atrás, quando Júlio tivera a sífilis. Albertina já não sabia quem era, perdera a noção do tempo, se era noite ou se era dia, a única coisa viva era o seu ventre volumoso que se contorcia, rebentava, em estertores tremendos. O médico, preocupado pela demora, vinha várias vezes ao dia já não podemos operá-la, a cabeça está encaixada, ela é, muito estreita de ancas, assim o coração aguente. O coração aguentou. E na tarde do dia doze de Outubro de 1891, nascia uma menina de quatro quilos que imediatamente gritou bem alto a proclamar o seu lugar no mundo. A mãe estava tão fraca que, ao ouvir-lhe os berros, nem se regozijou, só depois, mais tarde, quando lhe voltaram as forças. Mas logo as dores desapareceram e adormeceu confortada com a missão cumprida, já nasceu e é saudável. Entretanto chegara um telegrama da irmã da parturiente, Matilde Reis Torguim, a perguntar se tudo corria bem, porque Elvirinha, a outra irmã, tivera uma das suas visões onde descortinava Albertina envolta em labaredas, gritando numa angústia de alma danada, que se lhe pegara, ai a minha irmã, ai a minha irmã! Isto passara-se na véspera do nascimento da criança e ela logo contara a Matilde, o papá não pode saber, mas por amor de Deus mana, fala com a Albertina para que eu possa rezar com acerto. E Matilde mandara o telegrama porque lhe conhecia os poderes divinatórios e todos na Bairrada vieram a saber que a estranha donzela os tinha.
Albertina encantou-se com a filha, num apego de fêmea, mas a natureza não ajudava, o peito que oferecia amorosamente não funcionava bem, o leite não saía, novas dores lancinantes vieram com os caroços, ó meu amor, porque não queres o meu leite?, a febre abateu-a ainda mais, lembrava-se da tortura de sua própria mãe que morrera de infecções da mama, se ela se lembrava!, fora o seu primeiro desgosto. Por fim já saía leite com sangue e pus, teve que se procurar uma ama para que desse à filha alimento mercenário, são destas injustiças que a lei humana não prevê, mãe tão extremosa e tantos embaraços lhe vinham. Não pense nunca mais em amamentar, só lhe trará complicações, dissera Daniel Mattos e ela aceitara, se tanto sofrimento lhe era imposto, algum mérito sobraria para o futuro. Rodeava a pequenina de cuidados, numa inveja triste da ama que se deixava sugar com tal despejo». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «… quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, ‘mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança’»

Retrato de José Malhoa
jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) As dores aumentavam de intensidade, o marido estava prestes a acordar e então iria confortá-la, ela aprendera a captar-lhe a ternura imensa que se escondia por detrás da reserva, sabia lidar com os seus rompantes violentos que se quebravam na serenidade branda dela, era uma questão de jeito. Aprendera a apreciar-lhe a força de carácter que o levara aos vinte e seis anos a recomeçar os estudos para a merecer, como os cavaleiros de antanho que sofriam provações pela dama eleita. Ele amava-a assim, embora ela soubesse que esta situação era como uma lua-de-mel prolongada que teria um fim quando o marido deixasse de ser estudante, porque a vida de estudante era preparatória da de adulto e nessa altura os homens apartavam-se do universo feminino, cada um com os seus próprios deveres. Por isso saboreava este tempo bendito em que partilhavam quase tudo. Vinha-lhe um frio arrepanhado, tremia por baixo dos cobertores, os intervalos entre as dores diminuíam, ai meu Deus, dai-me forças para aguentar! Júlio levantara-se devagarinho para não a acordar e, por entre as pálpebras, ela via a figura atlética envolta na camisa de dormir mover-se com cuidado na penumbra do quarto. Mesmo agora, apesar do sofrimento, sentia desejo do seu corpo musculoso, dos seus braços fortes, como amava esse homem a quem se entregara, cortando com tudo, desobedecendo ao pai, incorrendo na sua ira, separando-se das suas queridas irmãs, atiraada sozinha para um mundo novo. Uma dor mais forte fê-la soltar um gemido e Júlio aproximou-se: - o que foi, minha querida? Sentes-te mal? Oh, meu Deus! Estás encharcada em suor! Então ela abriu-se à piedade dele: - Começaram as dores, o nosso filho vai nascer. Júlio exaltou-se numa ansiedade atabalhoada perante a situação embaraçosa que se avizinhava: - Vou chamar o médico, a parteira, porque é que não me acordaste há mais tempo?
E vestia-se numa pressa aflita, chamava a criada para tratar da senhora, a casa animava-se e agora ela já não estava sozinha com as dores que cresciam dentro de si, as dores solitárias angustiam mais. O cunhado António pediu licença para entrar: - posso entrar, mana? Estava hospedado em casa deles, precisava de atenção, coitado do pobre António, e logo neste momento em que ninguém lha poderia dar. Era muito diferente do irmão Júlio, baixo e franzino, tinha um charme contagiante que a seduzia, aproximou-se da cama e o seu cheiro inconfundível a lavanda inglesa invadiu o quarto como aragem primaveril: - Ó minha querida mana, então agora é que é! Habemus Papam! Deixa-me arranjar-te as almofadas. Assim. Ficas mais bem instalada para venceres a grande batalha. Com movimentos hábeis encaixou-lhe o corpo dorido e depois sentou-se ao seu lado, pegando-lhe na mão; Albertina gostava muito de António e penalizava-a ver o infortúnio do seu casamento que ele jamais referia, fingindo que estava tudo bem; mas não estava. Casara por amor com uma mulher interesseira que o aceitara por dinheiro, parecia não haver um pingo de quentura dentro desse serzinho delgado e diáfano, essa Guilhermina que nada parecia comover. Não é que António fosse fácil|, mostrava-se gastador, disparatado, maluco com mulheres, mas adorava a sua, apesar de tudo. E era tão bom, tão tocantemente bom, tão insensatamente bom, como uma criança afável que tenta agradar a todos. A fortuna herdada do pai gastara-a até ao derradeiro vintém e a última aquisição fora um cofre. O que todos tinham rido, ele inclusive, quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança. Seu irmão Luís, o primogénito, que era o esperto da família para os negócios, arranjara-lhe emprego como director de uma fábrica de loiças em Coimbra; Guilhermina não quisera por nada acompanhá-lo e sair de Lisboa, Deus me livre, estou aqui muito bem, odeio mudanças! António não se zangara, ora, ela há-de acabar por vir, coitada, no fundo gosta de mim, tem lá o seu feitio, arranjo uma casa tão bonita que ela não vai resistir! Mas neste momento, António não pensava nos seus problemas, preocupava-se em mimar Albertina, era esse o seu maior encanto, nada havia de tão importante que o perturbasse a ponto de estragar o que fazia no presente. Júlio chegava, acompanhado do médico e da parteira, Daniel Mattos mandou sair os homens e observou-a com cuidado, vamos lá ver esse maroto que está a afligir toda a gente! Albertina enleada deixou-o mexer-lhe na intimidade do corpo, o seu pudor revoltava-se contra aquelas mãos estranhas que a penetravam, que vergonhaIn Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez…»

Retrato de Laura Sauvinet, José Malhoa
jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Mas voltando à vida de meus paes, estiveram quatro anos em Coimbra, até meu pae acabar o curso. Ali foram muito felizes. Minha mãe sempre falava com muita saudade dessa epoca e lá tiveram dois filhos, Maria Tereza e Joaquim, o primeiro filho não vingou, com grande desgosto de minha mãe, que nunca se esquecia dele. Sofria horrores com os partos, dificeis e dolorosos, excepto o meu, pois eu era muito pequenina, acho que foi assim toda a vida, nunca dei grandes trabalhos a ninguem. Meu pae, apezar de forte e voluntarioso, não tinha coragem para o sofrimento e chegava a sair de casa até ao nascimento. Não conseguia enfrentar as dores dos outros. E tanto que ele sofreu, coitado! Era generoso, ajudando os pobres, sobretudo os que queriam estudar, pois dava muito valor aos estudos. Minha irmã Maria Tereza foi desde pequenina linda e precoce, encantando toda a gente com a sua graça, fonte de inspiração de varios poetas. Ainda conservo alguns poemas sobre ela, quando tinha uns cinco ou seis anos. Nasceu em Coimbra, assim como meu irmão Joaquim, tambem perfeito e forte. Eu nasci em 1894, na Figueira, no mesmo ano em que meu pae acabou o curso, o conde de Aguim morreu e minha mãe fez as pazes com meu avô Antonio Diogo. Minha mãe sofria muito com os partos, lembro-me de a ouvir contar do seu martirio, ter filhos custa muito, não havemos nós de amar as nossas mães!

As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez, o terror de que a criança não vingasse, como a outra que morrera porque o seu corpo a expulsara no quinto mês, como excrescência indesejada. Lembrava-se do desgosto que a arrepanhara ao ver de relance aquela coisa sanguinolenta que mais tarde soube ser um rapaz. Chorara tanto por esse filho incompleto e pelos outros que viessem, no medo de que as suas entranhas, misteriosas como um feitiço, apenas fossem capazes de fabricar monstros... O médico, Daniel Mattos, grande amigo de Júlio, assegurara-lhe que não, minha querida Albertina, estas coisas acontecem, a Natureza é sábia, nós é que não sabemos lê-la, a criança não tinha hipóteses, foi melhor assim, o próximo há-de sair bem, sois um casal novo e saudável. O marido dormia na cama ao lado, alheio ao que se passava, ela gostaria de o acordar e procurar nele apoio, mas isto era assunto de mulher, tinha que aguentar sozinha, sofrer os espinhos que o castigo divino lhe destinara, a vida era assim mesmo, pagavam-se preços pela felicidade e ela era feliz desde que há ano e meio se casara. Jamais, nos seus devaneios de menina, sonhara com ventura tão plena, tão alegre, a casa cheia de amigos, de estudantes, de professores; a animação reinava à sua volta, festiva e jovial, tratavam-na como rainha, faziam-lhe confidências de solidões, contavam-lhe episódios burlescos da vida académica e pequenas lembranças encantadoras de que só os estudantes se lembram. Alguns faziam-lhe versos, chamando-lhe musa, mãe-terra e outros nomes surpreendentes e o marido, apesar de ciumento, não se importava porque eles a respeitavam como a uma coisa sagrada; ela adorava conviver, nascera com a vocação de amar e ser amada no meio da espontaneidade risonha que a tornava tão amável.
Conhecera de perto os problemas da política, esse mundo fascinante que lhe fora vedado em solteira - até casar, a existência decorrera-lhe pacata nas aprendizagens da domesticidade, nas leituras, nos bordados, nas obrigações religiosas, nas amigas de colégio cujas conversas giravam em volta de pequenas minúcias femininas, a política era assunto de homens e seu pai sempre velara para que se mantivessem as distâncias. Porém, agora ouvia-os discorrer sobre as novas ideias e os distúrbios ruidosos dos estudantes; os íntimos eram todos bem pensantes, miguelistas, regeneradores, progressistas, mas falavam muito dos republicanos. Acontecia ser condiscípulo de Júlio um dos mais assanhados, Afonso Costa de seu nome, que, de parceria com outros, organizava comícios e bolsava violentos discursos; Albertina soubera de um célebre estudante de Medicina, António José de Almeida, preso pelos insultos ao monarca Carlos I; ela reflectia muito nesses rapazes, que ódio haveria neles para se sujeitarem assim a humilhações públicas, para ofenderem a Deus e ao rei? Gostava muito de ouvir os homens falar, o espírito vivo abria-se-lhe às grandes questões nacionais, que ideia essa de considerar as mulheres umas tontas!... Não que ela quisesse ingerir-se como sempre fazia a sogra, a sogra era especial, nunca vira senhora tão desassombrada e tão firme. Albertina preferia compreender as coisas, como quando, meses atrás, se dera aquela revolução republicana no Porto, com mortes e degredos, se uma mulher não entendesse nada, os acontecimentos invulgares seriam considerados obra do demónio, como dizia sua irmã Elvirinha, uma mulher não devia ser uma ilha, apenas ligada ao continente por seu marido ou por seu pai». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremesas»

jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«Quando casaram, em 1890, meus paes foram viver para uma casa na Rua Alexandre Herculano, em Coimbra, onde meu pae frequentava o curso de Leis. Já expliquei atraz que meu pae, aos vinte e seis anos, voltou aos estudos, no lyceu, por exigencia de meu avô, Antonio Diogo Silveira, quando lhe foi pedir licença paro namorar a filha, Albertina: - só com um curso superior lha darei, foi a resposta. E apesar de meu pae cumprir o prometido, não lhes deu a autorisação, tendo eles casado contra a sua vontade. Meu avô era um homem muito teimoso e duro e nunca fez as pazes com o genro. Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de hoje, um pae tinha todos os direitos sobre as filhas, que lhe obedeciam cegamente. Uma desobediencia era um acto reprovavel e pouco vulgar. Assim, minha mãe, que era muito doce, teve uma coragem inaudita, ditada por grande amor, ao sair de casa dias depois de faser os vinte e um anos, contrariando as ordens dele.
Lembro-me de meu pae, muito alto, consta-me que bonito homem, saudavel, bem proporcionado, musculoso e forte, moreno de olhos pretos, expressivos e vivos, eguaes aos da filha Maria Tereza, minha irma. Digo consta-me, porque a ideia que me ficou dele, já estragado pela doença, não era essa. Era muito sociavel mas pouco comunicativo quanto aos seus sentimentos e até quanto aos dos outros, pois nunca lhe ouvi criticas nem palavras de censura contra o mau procedimento de ninguem. Mas quando embirrava com uma pessoa era manifestamente antipatico. Pouco meigo com os filhos, encobria os seus sentimentos, excepto com minha mãe a quem adorava a seu modo. Digo a seu modo porque, discretamente, era muito dado às damas, tal como seus irmãos, todos os Teixeiras sempre foram sensuais e loucos por mulheres. Mas nesse tempo não se achava mal nisso, desde que não prejudicasse a vida familiar; até se considerava prova de virilidade um homem ter aventuras fóra do casamento. Meu pae tinha uma rara força de vontade para conseguir os seus fins. Manifestou-a na sua rapida abstenção de fumar, ele que era um grande fumador, e sobretudo na realização dos seus estudos que abandonara em rapaz para se dedicar à estroinice. Por causa da estroinice gastou uma grande parte da fortuna que herdou, antes de conhecer minha mãe. Em novo teve saude, dinheiro e abandono da familia, o pae morrera quando ele era pequeno e a mãe voltara a casar um ano depois, metendo os filhos em colegios internos religiosos. Os padres desse tempo erem, na maior parte dos casos, pouco zelosos e imprimiam pouca religiao nos alunos.
Minha mãe era do genero mignone, muito branca, cabelos e olhos escuros, figura linda e cinturinha de vespa. Foi sempre muito apreciada por todos, nunca ouvi ninguem dizer senão bem dela, o que é dificil, pois a má lingua encontra sempre alguma coisa para criticar. Fazia rendas e bordados lindos, apesar de sua mãe, minha avó materna que não conheci, costumar dizer às filhas que elas não bordavam, alinhavavam. As senhoras dessa epoca tinham uma paciência extraordinária, bordando a cabelo ou finos fios de seda, tambem é verdade que tinham tempo. Minha avó Ana, mãe de meu pae, é que nunca bordou e gostava de minha mãe como filha, desconfio que gostava mais da nora que do proprio filho. Sendo autoritaria, agradava-se da meiguice dela. Minha mãe, muito sociavel, alegre e generosa, onde estava, fazia logo amigos. Até com os creados, que nessa altura eram tratados com muita rispidês, tambem é verdade que eram muito boçais, ela era simpatica. Nesse tempo as senhoras eram muito boas donas de casa, destinavam optimas refeiçoes, olhavam pelo serviço das creadas e pelas roupas da lavadeira, que vinha dos arredores de Lisboa em galeras puxadas a 4 cavalos. Fasiam as compras da mercearia ao mez, fechavam tudo à chave na dispensa, que era aberta todas as manhãs para a senhora dar à cosinheira o necessarío para aquele dia. Os róis da mercearia e das roupas eram um primor de bem feitos, com uma letrinha muito bonita. Havia muita abundancia mas nada era desperdiçado. As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremezas. Quando havia vizitas serviam-se muito mais pratos. Tudo mudou, até os gostos. Lembro-me de meu pae recomendar que não se desse pescada em dias de cerimonia porque era um peixe ordinario. Hoje, à pescada chega-lhe quem pode. Mas acima de tudo, o que espanta é como se podia comer tanto.
Quando eram convidadas para jantar fora, as senhoras não comiam quase nada e ficavam cheias de fome, porque era feio mostrar apetite. As veses sahiam, apenas de tarde e raramente sosinhas: visitavam as amigas ou iam à Baixa comprar um carrinho de linhas, ou agulhas, um pretexto para encontrarem conhecimentos. O chá das cinco em Lisboa era na Ferrari, na Bénard, no Rendez-vous des Gourmets, conforme a moda do momento. Cada senhora tinha o seu dia de receber, minha mãe recebia ao Domingo. Os senhores elegantes, depois do trabalho, ou aqueles que nada fasiam, e eram muitos, iam postar-se, de tarde, à porta da Brazileira ou da Havaneza, no Chiado, para verem passar as senhoras que cumprimentavam, tirando o chapéu de coco, ou o chapéu mole (isto passava-se em Lisboa, porque na provincea era diferente)». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT