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domingo, 22 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (V)
«(…) O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preoccupação exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso..., tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras, ideal.
Por todos estes motivos ella é sobremaneira odiavel; ella é desprezivel por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal.
Elle, com effeito, nada do que elle é ou do que vem d'elle, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideaes ou com idêas, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o applauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas lettras; para merecer os encomios dos grammaticões e o assombro dos burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrucção publica, um Christo, um Socrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fóra de casa a bofetões; de o bannir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal, mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm idêas, mas têm palavras quantas bastem para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos não são methaphysicos, não precisam d'uma excessiva attenção, de esforços de pensamento para se compreenderem, e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas ha uma falta tão completa d'essas incomprehensibilidades, que deve pôr muito á sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem idêas, boa, excellente receita para não cahir nas nebulosidades do ideal. Os seus escriptos são optimos escriptos, menos as idêas: e é v. ex.ª um grande homem, menos o ideal.
Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem cáe muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um máo poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakspeare, nem Hugo, mas é amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possivel viver sem idêas? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho superior, no gremio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fóra de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston, paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na Roma antiga, é que nunca poderam passar sem essas magnificas inutilidades. Ellas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como Socrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo systemas com ellas, e com os systemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilisações, e com as civilisações codigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma emfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o mais a que as idêas têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzil-as nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz d'essa má acção. Por isso Lisboa não cahe como cahiram Athenas e Roma, por causa das suas idêas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou d'ellas: uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um espectaculo raro, o espirito e a consciencia humana triumphando da matéria e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da destruição da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei sómente é que isto é sublime...
Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª.»
Coimbra, 2 de Novembro de 1865
Nem admirador nem respeitador
Anthero do Quental.

In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

sábado, 21 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos..., decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!»

Cortesia de wikipedia, bnp e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (IV)
«(…) Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma; requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos semsabores; não é com idyllios grotescos sem expressão nem originalidade, com allusões mythologicas que já faziam bocejar nossos avós; com phrases e sentimentos postiços de academico e rhetorico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias mysticas de frades estonteados; com banalidades; com ninharias; não é, sobre tudo, lisongeando o máo gosto e as pessimas idêas das maiorias, indo atrás d'ellas, tomando por guia a ignorancia e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as sciencias, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fóra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes, é o nevoeiro, é o methaphysico, é o inatingível, diz v. ex.ª.
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Sciencias, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das idêas. É o Instituto de França, é a Academia Scientifica de Berlim, são as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incomprehensiveis e ridiculas, são methaphysicas tambem. As tres grandes nações pensantes são risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes genios modernos são grotescos e despreziveis aos olhos baços do banal metrificador portuguez.
O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creação original, immensa da nossa edade, não passa de confusão e embroglio desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet, Proudhon, Littré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a philosophia allemã, a critica franceza, o positivismo, o naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creações da alma moderna, o espirito mesmo da nossa civilisação.... que se fustiga tudo isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma semcerimonia com que elle dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do Gremio, da Revista Contemporanea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova eschola historica; com a renovação philosophica; com os pensadores; com os sabios; com os genios; vai com a França; vai com a Allemanha, mas que importa?, não vai com o sr. Castilho!, não vai com o novo methodo repentista!, não vai com o moderno folhetim portuguez!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da natureza, tira-te do meu sol! O mythologo do diccionario da fabula diz ao profundo descubridor da Symbolica, és um ignorante! A rethorica portugueza diz á sciencia, ao espirito moderno, cala-te d'ahi, papelão!
É que tudo isto não passa de idêas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho tomou á sua conta, que não deixa em paz, que nos prometteu destruir..., é a methaphysica..., é o ideal...
O ideal! palavra mystica; de gothica configuração; quasi impalpavel; espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e que enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra pessima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de litteratos horacianos..., decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (III)
«(…) As grandes, as bellas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, bello e grande. Mas a condição da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira e indispensavel condição, não é o talento, nem a sciencia, nem a experiencia: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como illustres, nem á opinião, á critica sem sciencia nem consciencia das turbas, do maior numero, deve pedir conselhos e approvação, mas só ao seu entendimento, á sua meditação, ás suas crenças. Nesta eschola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sêde de verdade, de consolações, de ensinos para a intelligencia e confortos para o coração.
No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa de incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não pulpito aonde se suba com respeito e amor, no peito d'esses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e miseria. Esses lisongeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. Lisongeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum applauso de momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vicio humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em que dão que falar ás gazetas, aos botequins, aos gremios, a todos os vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo quanto não seja a satisfação do que ha no homem de mais pequeno, a vaidade e o interesse.
Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez, mas a estima dos melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse d'uma consciencia superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As idêas serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a augmentar o seu bem proprio. Vivem na região das bençãos, escutando as palavras da bôcca invisivel, e com os echos d'essa voz celeste compõem os hymnos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; não incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram honrados. Foram simples.
A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originaes e dizem sempre alguma cousa nova á nossa curiosidade de saber. Porque dão com a elevação das vidas confirmação á sublimidade dos escriptos. Porque são tão poeticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo á luz e ao amor novos horisontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do genio e o coração da innocencia. É por isso tudo que lhes chamo poetas.
Os outros adoram a palavra, que illude o vulgo, e desprezam a idêa, que custa muito e nada luz. São apostolos do diccionario, e têm por evangelho um tractado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção litteraria, porque se presta á declamação poetica, mas practicam o egoísmo por indole e por vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sophismas que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as apparencias são todas de nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dicto ha mil annos, e fazem-nos duvidar se o espirito humano será uma estéril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os idolos litterarios da multidão que mal sabe ler. São os philosophos queridos da turba que nunca pensou. São, emfim, genios no Brasil como v. ex.ª.
Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril para o espirito. Sôa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessarias outras e melhores obras.
Mas, se já alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrificio do eu ás tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da edade de transformação dolorosa, de scepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso seculo. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas idêas. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e ás abnegações da consciencia. Ha toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrahir uma humanidade viva, sã, crente e formosa.
Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sahirão esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras opulentas? dos corrilhos do  elogiomutuo? Sahirão as aguias das capoeiras? Saltarão as idêas salvadoras do choque das maledicencias e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horacio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam classicos? E os Socrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das prebendas, das explorações?
Fóra d'essa atmosphera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilisadora, é mais provavel encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens uteis e necessarios ás transformações do espirito humano». In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. « Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?»

Cortesia de wikipedia, bnp e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (II)
«(…) Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas tambem pequena e miseravelmente feita. Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peior de que um crime, commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as idêas: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas: e essas taes são imperdoaveis. Innovar é dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: ha alguma cousa que vós ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do circulo que se vê com os vossos oculos de theatro; ha mundo maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos. Isto, sim, que é intoleravel! Isto, sim, que é infame e revoltante e impio e subversivo! Contra isto, sim, ás armas, ergamonos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!...
V. ex.ª fez-se chefe d'esta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pezames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprézo e esqueço, como escriptor é que não posso calar-me; porque atacar a independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos, é não só offender o que ha de mais sancto nos individuos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade, o futuro. É seccar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e socego. E atrophiar as idêas e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.
O contrario d'isto tudo é que é a bella, a immensa missão do escriptor. É um sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel das idêas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independencia de espirito, toda a despreoccupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da náo por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o coração livre de vaidades, incorruptivel e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o logar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior d'uma alma que só vê e busca o bem, o bello, o verdadeiro.
Este é o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre, ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força propria, servo de alheias idêas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma. Como se havia elle pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua bocca cahissem sobre as cabeças como uma chuva benefica e fecundante? Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no gremio dos senhores, seria um aleijão e não gigante, um aborto em vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a todos com a fronte, andaria sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Elle, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia elle allumiar o dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria ás tyrannias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, ás ambições, ás tentações?» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

Bom-Senso e Bom-Gosto. Antero de Quental. «… é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam, nós só lhe queremos puchar as orelhas!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta a António Feliciano Castilho (I)
«Exmo Sr.
Acabo de ler um escripto de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes ilustres se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso. Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.
Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias, ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.
A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, accresce um outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque é um dever, uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ella que me manda fallar. Não que a justiça e a verdade se offendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.
Não é isso o que as offende. Mas as idéas que estão por de trás dos homens; o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma grande doença moral accusada por uma pequenez intellectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, d'esta terra, reveladas pelas miserias, tão merecedoras de despreso, dos que cuidam dominal-a; isso é que afflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para a elevar até á altura d'uma questão de principios, e que dá ás ridiculas chufas, que entre si trocam uns tristes litteratos, todo o valor d'uma discussão de philosophia e de historia.
Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos espertissimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes, a boa-fé. Á luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima acção, digna de toda a importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a deshonesta acção de v. ex.ª.
Porque é uma acção deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque ha malevolos innocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião litteraria menos provada, uma concepção poetica mais atrevida, um estylo ou uma idêa. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se á independencia irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da chancelharia dos grãos-mestres officiaes. A guerra faz-se á impiedade d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsavel por seus actos e palavras...
Agora quem move estes ridiculos combates de phrases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontifices; é o espirito de rotina violentamente incommodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir socegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam, nós só lhe queremos puchar as orelhas!» In Antero de Quental, Bom-Senso e Bom-Gosto, Carta ao Exmo Sr. António Feliciano Castilho, Inprenda da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1865, (livros de Lavado, Lisboa; Livraria da Viuva Moré), Pedro Saborano, the Project Gutenberg ebook, 2009, ISO 8859-15.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

segunda-feira, 16 de março de 2015

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «O ‘Monge de Cister’, festejado como a nossa primeira novela histórica aquando da sua publicação, constitui o segundo quadro de O Monasticon e conta a luta íntima entre uma violenta paixão de vingança e o preceito cristianíssimo do perdão»

jdact

O romance histórico no primeiro romantismo português
Herculano
«(…) Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o novelista pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que é vivo, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. Desde o aparecimento de Mestre Gil, da Abóbada e da Morte do Lidador, Herculano conquistara um público que lhe ficou fiel e discípulos que o não negaram. Testemunham-no não só as sucessivas reedições dos seus romances, como também o seu discípulo Rebelo Silva, que em 1848 escrevia no jornal A Época: … esse nome escrito no rosto da Harpa do Crente, da História de Portugal, do Presbítero, e ultimamente no Monge de Cister é tão conhecido na casa patriarcal das províncias como no faustoso aposento da cidade.
Em 1840, Herculano escreveu o seu primeiro romance histórico, o Monge de Cister, que só veio a ser publicado em volume em 1848, para entretanto dar a primazia de estampa ao Eurico (1844), elaborado durante o ano de 1843. O Monge de Cister está composto dentro dos princípios estéticos e dos objectivos que o seu autor adoptara para o género novelístico cujas primícias lhe ficaram a pertencer na literatura portuguesa. O Monge faz parte de uma série romanesca intitulada O Monasticon, concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, e que o autor, depois de escrito o Eurico, deixou apenas em díptico. O Eurico, porém, já não é só uma crónica-romance mas, principalmente, uma crónica-poema, lenda ou quer que seja dos presbítero godo. Esse hibridismo elevou, pela poesia do eu romântico, o Eurico à categoria de uma das obras representativas do Romantismo. A densa atmosfera de fatalidade nos amores de Eurico e Hermengarda, a solução pela morte de um e loucura da outra estavam na índole da concepção do amor mais generalizada entre portugueses: amor louco, morte por amor.
Outra virtude romântica que explica o lugar que o Eurico veio ocupar na produção literária do romantismo português, direi até peninsular, foi a época escolhida, que tanto satisfez ao gosto da época pelo exotismo no tempo, talvez a mais atraente sedução a que o romântico sucumbia. No Eurico, Herculano foge já ao cânone por ele próprio estabelecido, dominado pela feição do seu temperamento poético, elegíaco e soturno. De resto, só os medíocres são ortodoxos na escola literária; os grandes e os maiores não se sujeitam ao constrangimento da regra. Castilho, ao apreciar o Eurico na Revista Universal Lisbonense condena-lhe a originalidade dizendo: … o Eurico, em nossa particular e respeitosa opinião, é um livro mui notável para ser lido, muito impróprio para ser inculcado como vade mecum. Os seus desenhos são severos, grandiosos e todos a negro. Foi uma valente mão a que os perfez; só outra valente mão os poderia copiar, e faria mal se o fizesse. São como as poesias de Ossian: maravilham, e largam-se. O que hoje principalmente carecemos, o que pedimos, e o que esperamos virá aparecendo, são obras correntes, acessíveis a todos os entendimentos, adaptáveis a todos os gostos, espelhos do mundo, da alma e do coração, três coisas em que há sempre misturada toda a sorte de cores e de tons.
Assim, Castilho já então aparecia a propugnar por uma novelística divulgadora de conhecimentos, de moral acomodada às conveniências, acessível a todos os entendimentos, aquilo que viria a ser o romance histórico do segundo romantismo. O Monge de Cister, festejado como a nossa primeira novela histórica aquando da sua publicação, constitui o segundo quadro de O Monasticon e conta a luta íntima entre uma violenta paixão de vingança e o preceito cristianíssimo do perdão. Pretende ressuscitar a época do rei João I e está recheado de erudição arqueológica suficientemente adequada a um romance. Neste particular, o poder descritivo do autor é incomparavelmente maior do que o evocativo. Herculano não possuía em grande medida o poder de criação novelística e o Monge de Cister, no que respeita a acção e personagens, foi todo descrito em tons sombrios e, se na parte histórica, em vários lances, rivaliza com Scott, na elaboração da parte fictiva ficou aquém das obras do romancista escocês». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do ICamões/JDACT

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «… Parece-nos que nesta cousa chamada hoje romance-histórico há mais histórias do que nos graves e inteiriçados escritos dos historiadores. Nesta breve nota encontra-se estabelecido o cânone do romance histórico tal como o concebeu e praticou»

jdact e wikipedia

O romance histórico no primeiro romantismo português
Herculano
«(…) Respondendo a críticas que o increpavam por haver alterado a verdade histórica nas suas crónicas-romances publicadas no Panorama, Herculano respondia nas colunas da mesma revista: Nós procuramos desentranhar do esquecimento a poesia nacional e popular dos nossos maiores: trabalhamos por ser historiadores da vida íntima de uma grande e nobre, e generosa nação, que houve no mundo, chamada Nação Portuguesa. Termina a sua resposta: Alargámo-nos nesta nota, porque alguém nos increpou de havermos alterado a história em várias crónicas-romances que temos publicado, principalmente no Mestre Gil e na Abóbada; era-nos lícito fazê-lo; mas cremos que não o fizemos em cousa essencial; nisto demos crónica, no vestuário com que o enfeitámos demos romance. Não confundamos ideias; o extra-histórico não é contra-histórico. Vivem acaso naquelas duas… novelas, se quiserem, as épocas a que aludem? Não teremos tanto orgulho, que sem receio, o afirmemos. Mas se com efeito aparece, em uma o modo de existir português, do tempo de João II, noutro o crer e sentir robustíssimo do reinado de João I, diremos sem hesitar que saímos com o nosso intento. Preso por mil, preso por mil e quinhentos, diz o velho adágio. Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que nesta cousa chamada hoje romance-histórico há mais histórias do que nos graves e inteiriçados escritos dos historiadores. Nesta breve nota encontra-se estabelecido o cânone do romance histórico tal como o concebeu e praticou Herculano:
  • Revivescência da poesia nacional e popular; 
  • Representação, com base erudita, da vida íntima das épocas passadas; 
  • Ressurreição estética da vida social da época histórica em que decorre a acção novelística, expressando o modo de sentir e existir do povo.
Este cânone é, mutatis mutandis, aquele que se pode deduzir da leitura dos romances de Scott. Mas a lição que Herculano recebeu do grande novelista escocês não foi apenas a que assim se pode esquematizar. Também nas obras de Scott apreendeu Herculano o princípio da não apresentar as figuras com existência histórica como personagens centrais do enredo. O romance histórico não comporta heróis que tivessem tido existência histórica, com destaque singular, sob pena de impossibilitar a representação social múltipla e vária que necessariamente há-de compor o quadro histórico em que se insere a acção imaginada. Não é possível saber se o interesse de Herculano pelos estudos históricos e sua consagração a eles, proveio da leitura apaixonada que fez dos romances de Scott. Houve já quem conjecturasse, não me recordo quem, que a vocação de Herculano para os estudos de natureza histórica se revelara no tempo em que ele frequentara a aula de diplomática, antecedentemente ao exílio.
É muito verosímil; mas se não foi Scott quem nele despertou o interesse por tais estudos, foi ele certamente quem lhe revelou o que eles têm de sedutor. Estava-se então numa época em que o interesse pela História constituía não só o fundo da cultura mas também um dos mais vastos e ricos recursos ao divertimento dos espíritos. Em quase todas as épocas da história se verifica, em cada uma delas, a criação da sua utopia própria, geralmente prospectiva. A utopia romântica teve a particularidade de se projectar sobre o passado, de ser uma utopia retrospectiva. Toda a utopia se cria como uma compensação das realidades presentes; os românticos, porém, antes de a visionarem no futuro, fizeram-na transitar pelo passado, e esse foi o toque de genialidade de Scott e a verdadeira causa da quase universal aceitação da sua obra. Augustin Thierry, na sexta das suas Lettres sur l’Histoire de France escreve: A leitura dos romances de Scott fez voltar muitas imaginações para a Idade Média, a qual, anteriormente, por menosprezo, era desconhecida; e se presentemente se está realizando uma revolução na maneira de ler e escrever a história, isso se deve principalmente à leitura dessas composições aparentemente frívolas.
Herculano parece ter considerado a História e a novela histórica como dois elementos de actuação convergente. Mais: no entusiasmo pelo romance histórico, na admiração pela obra de Scott, modelo e desesperação de todos os romancistas, equiparava a História ao ficcionismo da história ao escrever no Panorama: Novela ou História qual destas duas causas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

domingo, 30 de março de 2014

História do Romantismo em Portugal. Ideia geral do Romantismo. Garrett, Herculano, Castilho. Teófilo Braga. «… o primeiro que formulou o principio, o homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Nuova achou uma lei racional da vida collectiva do homem sobre a terra, esse mesmo…»

jdact

NOTA: Conforme o original

Causas do Romantismo.
Erudição medieval dos historiadores modernos
«(…) Apesar da immensa elaboração económica e scientifica, o século XIX distingue-se principalmente pelo génio histórico: a renovação intellectual partiu da abstraçao metaphysica para a critica, das hypotheses gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico para a philologia, oppoz aos designios providenciaes o individualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para alardear erudição, um intuito serio indagando nos factos mais accidentaes os esforços do homem na sua aspiração para a liberdade; só em um periodo assim positivo é que se podia achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a Historia. Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada e profana, de historia antiga e moderna; todas as creações do homem, por mais fortuitas merecem hoje que sejam estudadas nos documentos que restam; as instituições sociaes, as industrias, os dogmas, o direito, as línguas, as invasões, as obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, superstições, são objecto de outras tantas sciencias, separadas por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas, em um único fim, a sciencia do homem. Em todas estas creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a falta do desenvolvimento da rasão, a auctoridade impõe-se á consciência e á responsabilidade moral, emfim a paixão não deixa ao homem a posse plena de si mesmo, o acto praticado revela quasi sempre ura paciente em vez de um órgão activo. A historia religiosa ou politica, a historia das invenções, a historia da linguagem, mostram-nos o homem n'este estado secundario, n'esta dependência de espirito; terror sagrado e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela necessidade de uma communicação immediata, são moveis violentos que arrastam o homem em vez de serem exercidos e dirigidos pela sua liberdade. Nas condições sentimentais em que entra já um elemento de rasão não acontece assim: as creações artisticas não são provocadas pelo interesse, não têm um fim calculado, não se impõem dogmaticamente, não se exigem, nem são fatalmente necessárias. Isto prova o seu grande valor, a sua proximidade dos resultados finaes d'esta grande e unitária sciencia do homem.
É por isso que no século que soube conceber a filosofia da historia, que soube deduzir da discordância das religiões e das linguas, das raças e dos climas uma harmonia superior, a tendência para a perfectibilidade indefinida do homem, só a esse século competia lançar as bases positivas da historia das litteraturas. Dá-se aqui uma coincidência que explica este facto; o primeiro que formulou o principio, o homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Nuova achou uma lei racional da vida collectiva do homem sobre a terra, esse mesmo, o inaugurador da philosophia da historia, Vico, propoz do modo mais racional as bases da critica homérica e a verdadeira theoria da evolução do teatro grego. N'estes dois processos estavam implicitos os modos como a moderna historia procede no exame das litteraturas.
Foi também Schlegel, o que primeiro fez sentir a unidade das linguas indo-europêas, o mesmo que determinou a lei orgânica que dirigiu a elaboração das Litteraturas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é uma creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um produto vivo, mas não procuravam a espontaneidade da naturesa, procuravam o canon rhetorico dentro do qual ella devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando Homero ou Virgilio, não iam mais longe do que a colligir as tradições da escola que bordaram a vida dos poetas, separados da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos de Struvio e Fabricio reduziram-se a vastas indagações bibliographicas dos monumentos que restavam da antiguidade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados com o espirito critico da Renascença, tiveram por isso mesmo um vislumbre mais verdadeiro do que viria a ser a historia das litteraturas; elles foram ás obras litterarias do teatro romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a colisão dos interesses sociaes para recompôrem o sentido dos fragmentos das leis que se haviam perdido n'esta renovação da Europa chamada os tempos modernos». In Teófilo Braga, História do Romantismo em Portugal, Ideia geral do Romantismo, Garrett, Herculano, Castilho, Nova Livraria Internacional, Imprensa Sousa Neves, Lisboa, 1880.

Cortesia NLInternacional/JDACT

História do Romantismo em Portugal. Ideia geral do Romantismo. Garrett, Herculano, Castilho. Teófilo Braga. «A verdade existe quando a theoria condiz com o facto; efectivamente a Allemanha recebeu da Inglaterra o primeiro impulso para a renovação litteraria que se propagou aos povos do meio dia»

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NOTA: Conforme o original

Ideia Geral do Romantismo
Como a Europa se Esqueceu da Edade Media
«(…) A Itália, tornada a sede da erudição, venceu muitas vezes a corrente deletéria, pelo encyclopedismo dos seus grandes  génios que presentiram e aspiraram a unidade nacional; a pintura, como não teve que imitar da antiguidade, attingiu logo no século XV a máxima perfeição; a musica, procurando os modos gregos, e querendo harmonisar-se com a tradição gregoriana da egreja, jazeu embryonaria até ao século XVIII. A Hespanha, perdeu a creação do seu Romanceiro, já extincta no século XV; os poetas traduziram e imitaram a antiguidade, como Santilhana ou Vilhena, mas o theatro foi original, não só porque sob a pressão catholica era o único órgão da opinião publica, mas porque se baseava sob o fundo tradicional e histórico da nacionalidade. Portugal nunca dera forma ás tradições, que possuia; a sua litteratura, como o notou Wolf, teve de imitar sempre, attingindo por isso uma prioridade de quem não elabora, e uma perfeição de quem só reproduz mechanicamente; em vista d'este caracter o Romantismo só podia apparecer n'este paiz, quando elle estivesse auctorisado, e se admittisse como imitação. Logicamente foi Portugal o ultimo paiz onde penetrou o Romantismo. Por uma connexão evolutiva profunda, em todos os paizes onde se estava operando uma nova ordem na forma politica, seguiu-se egualmente essa crise litteraria, que fazia com que se procurasse reflectir a expressão ou caracter nacional nas creações da litteratura. Por isso durante as luctas do Romantismo, muitas vezes os partidários dos novos princípios litterarios foram acusados de perturbadores da ordem publica, como em França, e até assassinados como demagogos pelo despotismo na Itália.

Marcha da Renascença Românica
Competia á Allemanha, que iniciara com a Reforma a liberdade de consciência, completar a obra proclamando a liberdade do sentimento. O movimento do Romantismo partiu da Allemanha, porque era a nação que pelos seus hábitos philosophicos mais depressa podia chegar á verdade de uma concepção racional, e porque os thesouros das suas tradições, apesar, dos séculos que se immolou ao catholicismo, eram por tal forma ainda ricos, que ao primeiro trabalho de Graaf, reconstituiu-se a velha lingua allemã, pelo trabalho de Jacob Grimm, a mythologia e o symbolismo germânico, pelo trabalho de Guilherme Grimm e Lachmann, as Epopêas da Allemanha, a ponto de um Stein levar o espirito nacional para a independência, e Bismarck aproveitar esta mesma corrente da renovação das tradições e fundir todas as confederações em uma absurda unificação imperial. Depois da Allemanha, era á Inglaterra, pelas condições de independência civil e politica provenientes das suas instituições, que se podia ir procurar o segredo da originalidade litteraria. Pela justa coexistência entre uma aristocracia territorial e as classes industriaes, a realesa não pôde usar as forças sociaes segundo o seu arbitrio; a crise religiosa provocada por Henrique XVIII, e a revolução politica de Cromwel, foram dois dos maiores impulsos para a dissolução do regimen catholico-feudal. Uma sociedade trabalhada pelas emoções de tão importantes movimentos, não podia deixar de se inspirar da sua actividade orgânica; os escriptos de um Shakespeare, de Ben-Jonhson, de Marlow, de De Foë, de Fielding, de Swift, de Richardson, têm todos os caracteres da litteratura moderna: a vida subjectiva da consciência individual aproximada da generalidade humana, os interesses e situações de uma vida social que se funda em deveres domésticos ou de familia. Os romances de Walter Scott serão sempre bellos e um grande documento para extremar as litteraturas modernas das antigas, em que a vida publica era o objecto da idealisação artística; por esta clara concepção de Gomte, é que entendemos que a palavra Romantismo exprime cabalmente o facto da renovação das litteraturas da Europa no principio d'este século. A verdade existe quando a theoria condiz com o facto; efectivamente a Allemanha recebeu da Inglaterra o primeiro impulso para a renovação litteraria que se propagou aos povos do meio dia.
Temos até aqui mostrado como a Europa perdeu o conhecimento das suas relações com a Edade media, e quaes os povos que estavam em condições mais favoráveis para as descobrir. Falta ainda seguir o trabalho d'essa renovação; é a esta parte que chamaremos causas do Romantismo. Desde o começo este século assignalou-se por um novo critério histórico; a erudição quebrou as estreitas faixas em que a envolveram os commentadores das obras da antiguidade, e exerceu-se sobre as instituições da Edade media. O christianismo, tido até ali como único mediador da civilisação, teve de ceder a maior parte de seus titulos ao fecundo elemento germânico modificado pela civilisação greco-romana. Diez cria a grammatica geral das linguas românicas, e assim se descobre a unidade dos povos românicos. Desde que Kant enceta a renovação philosophica, o problema da esthetica, ou philosophia da arte, nunca mais foi abandonado; por seu turno Fichte, Schelling e Hegel levam á altura de sciencia a critica das creações sentimentaes. A estas duas causas, accresce o dar-se em quasi todos os povos da Europa, em consequência da revolução franceza, uma aspiração nacional em virtude da qual a realesa despotica teve de acceitar as cartas constitucionaes: ou também, no periodo das insensatas invasões napoleónicas, os povos tiveram de resistir pela defensiva, reconhecendo assim pelo seu esforço o gráo de vida da nacionalidade. As litteraturas tiveram aqui um ensejo para se tornarem uma expressão viva do tempo. Sciencia complexa, como todas as que analysam e se fundam sobre factos passados dentro da sociedade e provocados por ella, a historia litteraria só podia ser creada em uma época em que o homem dotado de faculdades menos inventivas, está comtudo fortalecido com o poder de observar-se e de conhecer o gráo de consciência ou de fatalidade que teve nos seus actos». In Teófilo Braga, História do Romantismo em Portugal, Ideia geral do Romantismo, Garrett, Herculano, Castilho, Nova Livraria Internacional, Imprensa Sousa Neves, Lisboa, 1880.

Cortesia NLInternacional/JDACT