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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

As Ondas. Virgínia Woolf. «Olha, ali está a cómoda. É melhor sair destas águas. Mas elas amontoam-se à minha volta, arrastam-se por entre os seus grandes ombros»

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(…) A mrs. Constable, embrulhada numa toalha, pega na sua esponja cor de limão e mergulha-a na água; aquela ganha uma aparência achocolatada; pinga; e, segurando-a bem por cima de mim, espreme-a. A água corre pelo meio das minhas costas. Sinto picadas brilhantes por toda a parte. Estou coberto por carne quente. As minhas fendas secas estão agora molhadas; o meu corpo frio foi aquecido; está inundado e brilhante. A água desliza por mim e ensopa-me como a uma enguia. Vejo-me agora envolto em toalhas quentes, e a sua superfície rugosa faz com que o meu sangue ronrone quando me esfrego. No topo do meu cérebro formam-se sensações ricas e pesadas; o dia vai-se escoando, as matas; e Elvedon; a Susan e a pomba. Escorrendo pelas paredes da mente, o dia esvai-se, copioso, resplandecente. Aperto o pijama e deito-me por baixo deste fino lençol, flutuando numa luz pálida que lembra uma película de água que me chegou aos olhos trazida por uma vaga. Ouço muito para lá dela, um som distante e fraco, o começo de um cântico; rodas, cães; homens a gritar; sinos de igreja; o começo de um cântico. No momento em que dobro o vestido, disse Rhoda, ponho de parte o desejo impossível de ser a Susan, de ser a Jinny. Contudo, sei que vou esticar os pés para que possam tocar na barra da cama; quando a tocar, ficarei mais segura por sentir qualquer coisa de sólido. Agora, já não me posso afundar, agora, já não posso cair através do lençol. Agora, estendo o corpo neste frágil colchão e fico suspensa. Estou por cima da terra. Já não estou de pé, já não me podem derrubar nem estragar. E tudo é mole, maleável. As paredes e os armários tornam-se muito claros e dobram os cantos amarelados, no topo dos quais brilha um espelho pálido. Fora de mim, a minha mente pode divagar. Penso na armada que deixei a vogar nas ondas. Estou livre de contactos e colisões. Navego sozinha por baixo dos rochedos brancos. Oh, mas estou-me a afundar, a cair! Aquilo é o canto do armário; isto é o espelho do quarto das crianças. Porém, eles distendem-se, alongam-se. Afundo-me nas plumas negras do sono; são asas pesadas aquilo que tenho pregado aos olhos. Viajando através da escuridão, vejo os compridos canteiros, e, de repente, mrs. Constable aparece por detrás da erva alta para dizer que a minha tia me veio buscar de carruagem. Monto; escapo; elevo-me nos ares, saltando com as minhas botas de saltos de mola. Todavia, acabo por cair na carruagem que está à porta, onde ela se senta abanando as plumas amarelas, os olhos tão duros como berlindes gelados. Oh, desperto do meu sonho!
Olha, ali está a cómoda. É melhor sair destas águas. Mas elas amontoam-se à minha volta, arrastam-se por entre os seus grandes ombros; fazem-me virar; fazem-me tombar; fazem-me estender por entre estas luzes esguias, estas ondas enormes, estes caminhos sem fim, com gente a perseguir-me, a perseguir-me. O Sol elevou-se um pouco mais. Ondas azuis, ondas verdes, todas elas se abrem num rápido leque por sobre a praia, contornando o pontão coberto por azevinho-do-mar e deixando pequenas poças de luz aqui e ali, espalhadas na areia. Deixam atrás de si uma ténue linha desmaiada. As rochas que antes eram ténues e de contornos mal definidos, são agora marcadas por fendas vermelhas. A erva tinge-se de riscas sombrias, e o orvalho, dançando na ponta das flores e das árvores, transformou o jardim num mosaico composto por brilhos isolados que ainda não constituem um todo. As aves, com os peitos manchados de rosa e amarelo, ensaiam agora um ou outro acorde em conjunto, de forma selvagem, como grupos de patinadores, até acabarem por se calar subitamente, afastando-se. O Sol fez poisar lâminas ainda mais largas na casa. A luz toca em qualquer coisa verde poisada no canto da janela, transformando-a num pedaço de esmeralda, numa gruta de um verde puro semelhante a um fruto suave. Tornou mais nítidos os contornos das mesas e das cadeiras, traçando fios dourados nas toalhas brancas». In Virgínia Woolf, 1931, colecção Mil Folhas, Relógio d’ Água, 2002, 2015, ISBN 978-989-641-526-6.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

As Ondas. Virgínia Woolf. «Ele estava cego como um touro, e a angústia fê-la desfalecer. O rosto pálido cobriu-se-lhe de veias vermelhas»

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«(…) Dado que é suposto eu ser demasiado delicado para os acompanhar, disse Neville, dado cansar-me e adoecer com facilidade, servir-me-ei desta hora de solidão, desta fuga às conversas, para vaguear pelas matas junto à casa e recuperar, se conseguir (indo para isso colocar-me no mesmo ponto), aquilo que senti ontem à noite, quando a cozinheira andava atarefada em volta dos fogões, e, através da porta entreaberta, ouvi a história do homem morto. Encontraram-no com a garganta cortada. As folhas da macieira colaram-se ao céu; a lua brilhou; fui incapaz de levantar os pés e subir os degraus. Encontraram-no na valeta. O sangue gorgolejou pela valeta. O rosto era tão branco como um bacalhau morto. Chamarei para sempre a esta rigidez, a esta fixidez, a morte entre as macieiras. Viam-se nuvens de um cinzento-pálido a flutuar; e aquela árvore inexorável; aquela árvore implacável com a sua casca prateada. O ondular da minha vida não tinha qualquer validade. Fui incapaz de passar. Havia um obstáculo. Não sou capaz de ultrapassar este obstáculo impiedoso, disse. E os outros passaram. Porém, todos estamos condenados pelas macieiras, por aquela árvore impiedosa que não conseguimos passar. Agora, já não há imobilidade ou rigidez; e eu vou continuar o meu passeio pelas matas em torno da casa, ao entardecer, ao pôr do Sol, quando este faz aparecer alguns pontos oleaginosos no linóleo, e os raios de luz se reflectem na parede, fazendo com que as pernas das cadeiras pareçam estar partidas. Quando chegamos do passeio, disse Susan, vi a Florrie no jardim em frente à cozinha. Estivera a lavar, e apertava a roupa contra ela: os pijamas, as camisas de dormir, as ceroulas. E o Ernest beijou-a. Ele tinha vestido o avental de baeta verde, estava a limpar as pratas; a boca parecia uma bolsa amachucada, e ele puxou-a, ficando os pijamas comprimidos contra os corpos de ambos. Ele estava cego como um touro, e a angústia fê-la desfalecer. O rosto pálido cobriu-se-lhe de veias vermelhas. Agora, e muito embora fossem pratos de pão com manteiga e copos de leite à hora do chá, vejo uma fenda na terra, e nos ares elevam-se colunas de vapor quente; a chaleira ruge da mesma maneira que o Ernest rugiu, e, muito embora os meus dentes se enterrem no pão com manteiga e vá bebendo o leite adocicado, sinto-me tão apertada como aqueles pijamas. Não tenho medo do calor, nem mesmo do gelo do Inverno. A Rhoda sonha, chupando uma côdea de pão embebida em leite; com um olhar vítreo, o Louis fita a parede em frente; o Bernard esfarela o pão até o transformar em migalhas, às quais chama pessoas. O Neville, com aqueles modos arruinados e definitivos, já acabou. Enrolou o guardanapo e enfiou-o na argola de prata. A Jinny faz girar os dedos na toalha, tal como se estivessem a dançar ao pôr do Sol, a fazer piruetas. Mas eu não tenho medo nem do calor do Sol nem do gelo do Inverno.
Agora, disse Louis, todos nos levantamos; todos nos pomos de pé. A miss Curry abre o livro negro no harmónio. É difícil não chorar quando cantamos, quando pedimos a Deus que nos proteja durante o sono, chamando-nos criancinhas a nós mesmos. Quando estamos tristes e a tremer de apreensão, é bom cantarmos juntos e apoiarmo-nos uns aos outros, eu contra a Susan e a Susan contra o Bernard, de mãos dadas, com medo de muitas coisas, eu, da minha pronúncia, a Rhoda, das contas; contudo, cheios de vontade de vencer. Subimos as escadas como se fôssemos póneis, disse Bernard, a bater os pés, aos pulos, uns atrás dos outros, prontos a entrar na casa de banho. Lutamos, brigamos, saltamos para cima e para baixo nas camas duras e brancas. Chegou a minha vez. Entro». In Virgínia Woolf, 1931, colecção Mil Folhas, Relógio d’ Água, 2002, 2015, ISBN 978-989-641-526-6.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

As Ondas Virgínia Woolf. «Eu irei para uma escola na costa oriental, e terei uma professora que se sentará por baixo de um quadro da rainha Alexandra»

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«(…) Lá está a Rhoda a olhar para o quadro, disse Louis, na sala. Enquanto isso, eu estou cá fora, a apanhar pedacinhos de tomilho e a apertar folhas de abrótano. E o Bernard vai contando uma história. Tem as omoplatas unidas, e estas lembram as asas de uma pequena borboleta. À medida que olha para aqueles números feitos a giz, a sua mente fica presa por entre os círculos brancos, até que acaba por se soltar dos laços e cair no vazio. Nada daquilo tem sentido para ela. Nada daquilo tem sentido para ela. Nada tem para lhe responder. Ao contrário dos outros, ela não tem corpo. E eu, que falo com sotaque australiano e cujo pai é banqueiro em Brisbane, não a receio como receio os outros. Vamos agora rastejar, disse Bernard, por baixo de toda esta vastidão de folhas de groselheira, e contar histórias. Vamos para o mundo subterrâneo. Vamos tomar posse do território que nos pertence, o qual se encontra iluminado por cachos de groselhas semelhantes a candelabros, ora vermelhos ora negros. Aqui, Jinny, se nos baixarmos bastante, podemos ficar sentados por baixo das folhas a ver baloiçar os turíbulos. Este é o nosso universo. Os outros passam lá ao longe, no caminho das carruagens. As saias da miss Hudson e da miss Curry revolteiam como se fossem apagar a luz das velas. Aquelas são as meias brancas da Susan. Aqueles são os lindos sapatos do Louis, pisando o cascalho. O cheiro quente das folhas em decomposição, da vegetação que apodrece, espalha-se pelos ares. Estamos agora num pântano, numa floresta tropical. Está ali um elefante coberto de larvas brancas, morto por uma seta que o atingiu no olho. Vêem-se, claramente, os olhos brilhantes de algumas aves, águias e abutres. Tomam-nos por árvores caídas. Precipitam-se por sobre um réptil, é uma cobra de capelo, e deixam-no com uma grande cicatriz, pronto para ser maltratado pelos leões. Este é o nosso mundo, iluminado por crescentes e estrelas; e grandes pétalas semitransparentes que bloqueiam o caminho como se fossem janelas avermelhadas. É tudo muito estranho.
As coisas ou são enormes ou muito pequenas. Os caules das flores são tão grossos como carvalhos. As folhas são tão altas como cúpulas de enormes catedrais. Aqui, somos como gigantes, capazes de fazer estremecer as florestas. Isso é aqui e agora, disse Jinny. Contudo, em breve teremos de partir. Já falta pouco para que miss Curry faça soar o apito. Caminharemos. Ficaremos separados. Tu irás para a escola. Terás mestres que usarão cruzes e colarinhos brancos. Eu irei para uma escola na costa oriental, e terei uma professora que se sentará por baixo de um quadro da rainha Alexandra. É para lá que irei, junto com a Susan e a Rhoda. Isto é apenas aqui e agora. Agora, estamos deitados por baixo das groselheiras e, sempre que a brisa sopra, as folhas cobrem-se de manchas. A minha mão lembra a pele de uma cobra. Os meus joelhos são como ilhas cor-de-rosa. A tua cara é como uma macieira. É da Selva que vem todo o calor, disse Bernard. As folhas são asas negras flutuando sobre as nossas cabeças. Lá no terraço, a miss Curry já soprou o apito. Somos obrigados a sair debaixo das folhas das groselheiras e a pormo-nos em sentido. Tens um raminho no cabelo, Jinny. Tens uma lagarta no pescoço. Temos de nos formar filas de dois. A miss Curry vai levar-nos para uma marcha, ao passo que a miss Hudson vai ficar sentada à secretária, às voltas com as contas. É aborrecido, disse Jinny, andar pela estrada sem ter janelas para espreitar, sem olhos de vidro azul para olhar para o caminho. Temos de formar pares, disse Susan, e caminhar de forma ordeira, sem arrastar os pés, com o Louis à frente a conduzir-nos, pois ele está sempre atento e não se desvia para apanhar raminhos». In Virgínia Woolf, 1931, colecção Mil Folhas, Relógio d’ Água, 2002, 2015, ISBN 978-989-641-526-6.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Os Anos. Virgínia Woolf. «Era coisa de uma libra, não, de uma libra, oito xelins e seis pence, disse ela, resmungando alguma coisa sobre a lavandaria»

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1880
«(…) Então houve um estalido na escada. Alguém bateu de leve, como que para avisá-los da sua presença. Mira imediatamente prendeu o cabelo outra vez, levantou-se, saiu e fechou a porta. O coronel recomeçou, na sua maneira metódica, a examinar a orelha do cão. Seria um eczema? Ou não? Olhou a marca vermelha, depositou o cachorrinho de pé na sua cesta e esperou. Não gostava nada daquele prolongado cochicho no patamar da escada. Por fim Mira voltou. Tinha um ar preocupado. E quando ficava preocupada, parecia mais velha. Começou a dar uma busca debaixo das almofadas e cobertas. Precisava da bolsa, disse. Onde teria ido parar? Naquela confusão de objectos, pensou o coronel, poderia estar em qualquer lugar. Era uma pobre bolsa murcha quando, afinal, ela a descobriu sob umas almofadas no canto do sofá. Virou-a de cabeça para baixo, sacudiu. Lencinhos, pedaços de papel, moedinhas de prata e de cobre caíram em profusão. Deveria haver uma libra, disse.
Estou certa de que a tinha uma ainda ontem, murmurou. Quanto?, perguntou o coronel. Era coisa de uma libra, não, de uma libra, oito xelins e seis pence, disse ela, resmungando alguma coisa sobre a lavandaria. O coronel tirou duas libras da sua bolsinha de ouro e deu-as a ela. Mira as levou e houve novos cochichos do lado de fora da porta. Lavandaria?, pensou o coronel, correndo os olhos pelo aposento. Uma pocilga. Mas sendo tão mais velho do que a mulher, não era o caso de lhe fazer perguntas sobre roupa suja. Ali estava ela outra vez. Veio ligeira pela sala, sentou-se no chão e descansou a cabeça contra os joelhos dele. O fogo recalcitrante, que de havia muito bruxuleava, extinguira-se àquela altura. Deixe estar, disse ele com impaciência, quando viu que ela pegara o atiçador. Deixe ficar assim, apagado. Mira largou o ferro. O cão ressonava. O realejo tocava na rua. A mão dele começou a sua viagem, para cima, para baixo, do pescoço dela para dentro, para fora da cabeleira farta. Naquela casa pequena, tão próxima das outras casas, anoitecia depressa. E as cortinas estavam cerradas a meio. Ele a puxou para perto, beijou-a na nuca. E a mão, a que perdera dois dedos, pôs-se de novo a remexer desajeitadamente onde o pescoço encontrava a espádua.
Uma rajada de chuva bateu na calçada, e as crianças, que tinham ficado a saltar num pé só para dentro e para fora dos seus cercados de giz, correram para casa. O velho menestrel de rua, que cambaleava ao longo do meio-fio com um boné de pescador airosamente posto bem para trás da cabeça, cantando: count your blessings/ Count your blessings, levantou a gola do casaco curto e refugiou-se sob o pórtico de um botequim, onde completou a sua injunção.
Então o sol voltou a brilhar. E secou o calçamento. Não está fervendo ainda, disse Milly Pargiter, examinando a chaleira. Estava sentada à mesa, a mesa redonda da sala de estar da frente, na casa de Abercorn Terrace. Nem de longe!, repetiu. A chaleira era antiquada, de cobre, com um desenho de rosas já quase apagado. Uma pequenina chama muito frágil subia e descia debaixo dela. A irmã de Milly Pargiter, delia, reclinada numa cadeira ao lado dela, também olhou o fogareiro e perguntou por perguntar, sem nenhum siso. Chaleira tem de ferver? Não que esperasse resposta, e Milly não lhe deu nenhuma. Ficaram a observar silenciosamente a pequena chama no seu pavio amarelo. Havia muitas xícaras e pires na mesa, como se outras pessoas fossem esperadas. Mas naquele momento estavam as duas sozinhas. A sala tinha excesso de mobília. Em frente delas havia um armário holandês de coleccionador, com porcelana azul nas prateleiras. O sol da tarde de Abril punha brilhantes aqui e ali no vidro. Sobre a lareira, o retrato de uma moça ruiva vestida de musselina branca, com uma cesta de flores no regaço, sorria para elas. Milly tirou um grampo do cabelo e começou a separar os fios do pavio grosso para aumentar a chama». In Virgínia Woolf, Os Anos, 1937, Relógio D'Água, 1992, ISBN-978-972-708-154-7.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

Os Anos. Virgínia Woolf. «Naquele misterioso mundo de clubes e vida de família, do qual ele não lhe falava nunca, alguma coisa estava errada»

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1880
«(…) Um dia qualquer, era o seu eufemismo para o tempo em que sua mulher fosse morta, diria adeus a Londres e passaria a viver no campo. É verdade que havia a casa; e havia as crianças; e havia também... A sua expressão mudou. Ficou menos infeliz, mas também um pouco furtivo e nada à vontade. Tinha para onde ir, afinal. Enquanto conversavam, guardara esse pensamento no fundo da cabeça. Quando se voltou e viu que os outros tinham ido embora, este foi o bálsamo que botou na ferida: iria ver Mira. Mira, pelo menos, ficaria contente de vê-lo. Assim, ao deixar o clube, não foi para o East, para onde se dirigiam os homens atarefados; nem para o West, onde a sua própria casa ficava em Abercorn Terrace. Mas seguiu na direcção de Westminster pelos caminhos calçados que atravessavam o Green Park. A relva estava muito verde. As folhas começavam a apontar. Eram como pequenas ganas, pés de passarinhos brotando dos galhos. Havia como que uma centelha, uma animação por toda parte. O ar era estimulante e recendia a limpeza. O coronel Pargiter, porém, não via nem a relva nem as árvores. Atravessou o parque, no seu sobretudo abotoado, olhando sempre para a frente.
Mas, quando atingiu Westminster, parou. De modo algum gostava dessa parte da história. Cada vez que se acercava da ruazinha escondida pela massa gigantesca da Abadia, a rua de pequenas casas humildes, de cortinas amarelas e cartazes nas janelas, a rua em que o homem dos pãezinhos parecia tocar incessantemente a sua sineta, em que as crianças berravam e pulavam para dentro e para fora das riscas de giz na calçada, ele estacava. Olhava para a direita, para a esquerda. E então caminhava direito até à porta e esperava de cabeça baixa. Não gostaria de ser visto à espera naquele limiar de porta. Não gostava de esperar até ser admitido. Não gostava quando a sra. Sims o deixava entrar. Havia sempre um cheiro na casa. Havia sempre roupa suja pendurada no varal no jardim dos fundos. Subiu a escada, pesado, macambúzio, e entrou na sala. Não havia ninguém, chegara muito cedo. Olhou em volta do aposento com repugnância. Havia excesso de objectos. Sentia-se deslocado, como se ocupasse lugar excessivo, de pé, diante da lareira fechada por uma grade em que se via pintado um martim-pescador no acto de pousar sobre um feixe de juncos. No soalho de cima alguém dava carreirinhas para um lado e para o outro. Estaria alguém com ela?, perguntou-se, apurando o ouvido. Crianças gritavam na rua. Era sórdido, vulgar, furtivo. Um desses dias..., disse consigo mesmo. Mas a porta abriu-se e Mira, sua amante, entrou.
Oh, Bogy, querido!, exclamou. Tinha o cabelo em grande desalinho. E um ar um tanto balofo. Mas era muito mais moça do que ele e parecia sinceramente contente de vê-lo, pensou. O cachorrinho saltou para ela. Lulu! Lulu!, gritou, apanhando o animal numa das mãos e levando a outra ao cabelo. Vem e deixa que o tio Bogy te veja. O coronel instalou-se na cadeira de vime, cheia de estalos. Ela depôs o cão nos joelhos dele. Havia um sinal vermelho atrás de uma das orelhas do bicho. Talvez um eczema. O coronel pôs os óculos para examinar aquilo de perto. Mira beijou-o no ponto onde o colarinho encontrava o pescoço. Os óculos dele caíram. Ela apanhou-os e pôs no cachorro. O velho estava deprimido, sentiu. Naquele misterioso mundo de clubes e vida de família, do qual ele não lhe falava nunca, alguma coisa estava errada. Ele chegara antes que ela tivesse tido tempo de arranjar o cabelo, o que era um aborrecimento. Mas o seu dever era diverti-lo.
E pôs-se a divagar pela sala, o seu corpo, embora avolumado como agora, ainda lhe permitia esgueirar-se entre mesa e cadeira, para cá, para lá. Removeu a grade da lareira e fez um fogo antes que ele pudesse impedi-la. Depois, sentou-se no braço da cadeira do coronel. Oh, Mira!, disse ela mesma, vendo-se ao espelho e mexendo com os grampos do cabelo. Que menina desleixada és! Soltou uma longa trança e deixou-a cair sobre os ombros. Era um cabelo ainda lustroso, belo e cor de ouro, embora ela já beirasse os quarenta e tivesse, para dizer a verdade, uma filha de oito, que amigos criavam em Bedford. O cabelo agora se desmanchava por conta própria, e Bogy, vendo-o cair macio, curvou-se e beijou uma das madeixas. Um realejo pusera-se a tocar lá fora e todas as crianças correram na direcção do som, deixando atrás um súbito silêncio. O coronel começou a afagar o pescoço dela. E a remexer com a mão, que perdera dois dedos, bem mais em baixo, onde o pescoço encontra a espádua. Mira escorregou para o chão e apoiou as costas nos joelhos de coronel». In Virgínia Woolf, Os Anos, 1937, Relógio D'Água, 1992, ISBN-978-972-708-154-7.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Rumo ao Farol. Virgínia Woolf. «Cercava-a de alegria. O carrinho de mão, o cortador de relva, o som dos álamos, folhas branqueando antes da chuva, gralhas grasnando, o raspar de vassouras…»


jdact e wikipedia

A Janela
«É claro que amanhã fará um dia bonito, disse a sra.Ramsay. Mas vocês terão que madrugar, acrescentou. Essas palavras trouxeram uma extraordinária alegria a seu filho, como se a excursão já estivesse definitivamente marcada. Após a escuridão de uma noite e a travessia de um dia, o desejo, por tantos anos aspirado, era agora tangível. James Ramsay, sentado no chão, enquanto a mãe falava, recortava gravuras do catálogo das Lojas do Exército e da Marinha. Mesmo aos seis anos de idade, pertencia ao número daqueles que não conseguem separar um sentimento do outro mas, ao contrário, deixam que as expectativas futuras, com as suas alegrias e tristezas, toldem o que no momento está ao alcance da mão. Para tais pessoas, ainda na mais tenra idade, qualquer oscilação de sensações tem o poder de cristalizar e fixar o momento em que repousam, misturadas, alegria e tristeza: assim é que James Ramsay emprestava à fotografia de um frigorífico uma felicidade beatífica. Cercava-a de alegria. O carrinho de mão, o cortador de relva, o som dos álamos, folhas branqueando antes da chuva, gralhas grasnando, o raspar de vassouras, vestidos roçando, tudo isso era tão colorido e distinto na sua mente que ele já tinha o seu código particular, a sua linguagem secreta, embora fosse a imagem da mais pura e inflexível severidade: testa alta, arrogantes olhos azuis, impecavelmente cândido, recriminativo ao deparar com alguma fraqueza humana. Observando-o assim a guiar a tesoura com precisão em torno do frigorífico, a sua mãe imaginou-o num tribunal com uma rútila toga de arminho, ou talvez dirigindo uma empresa durante uma crise financeira.
Mas o dia não ficará bom, disse o pai, parando em frente à janela da sala de visitas. Se houvesse um machado, um atiçador, ou qualquer outra arma à mão que abrisse uma fenda no peito do pai e por onde a vida se escoasse, James a teria empunhado naquele instante. Tais eram os extremos de emoção que o sr. Ramsay despertava no íntimo dos filhos, apenas com a sua presença. Ali estava: de pé, o perfil agudo como uma faca e estreito como a sua lâmina, sorrindo sarcasticamente, não apenas pelo prazer de desiludir o filho e lançar a sua mulher (que era mil vezes melhor do que ele, pensou James) no ridículo, mas sobretudo por causa da certeza íntima que tinha da exactidão de seus julgamentos. O que ele dizia era verdade. Era incapaz de mentir: nunca interferia em alguma coisa ou se pronunciava de modo a dar um pouco de prazer a qualquer mortal, e muito menos a seus filhos, que, desde a infância, ficavam sabendo que a vida é árdua, os factos inflexíveis, e que a passagem para essa terra fabulosa onde as nossas esperanças mais brilhantes se extinguem e as nossas frágeis críticas caem na escuridão exige, acima de tudo,  concluiria o sr. Ramsay, empertigando-se e franzindo os olhos azuis na direcção do horizonte, coragem, lealdade e perseverança.
Mas talvez fique bom, pelo menos espero, disse a sra. Ramsay impacientemente, ao dar um ponto na meia castanha que tricotava. Se a terminasse nessa mesma noite, e afinal fossem mesmo ao Farol, seria dada ao filho do faroleiro, que estava ameaçado de tuberculose, além de uma pilha de revistas velhas e um pouco de fumo. Tudo que encontrassem atirado pelo chão, desarrumando a sala, e que realmente ninguém quisesse para si, seria dado àquela pobre gente que devia morrer de tédio, sentada o dia inteiro, sem nada para fazer, a não ser limpar a lâmpada, acender o lume e revolver um pequeno jardim. Faria qualquer coisa para alegrá-los, pois como poderia alguém gostar de ficar trancado um mês inteiro, num rochedo perdido no meio do ma, e ainda mais, se o tempo estivesse ruim?, perguntou ela. Não receber cartas ou jornais, não ver ninguém; sendo casado, não ver a mulher, não saber como estão os filhos: se adoeceram, se caíram e quebraram a perna ou o braço. Ver sempre as mesmas ondas quebrando tristemente semana após semana, interrompidas no seu ritmo monótono apenas pela tempestade que se aproxima, cobrindo as janelas de espuma, atirando os pássaros de encontro ao Farol, estremecendo tudo, impedindo as pessoas de saírem, com medo de serem varridas para o mar. Como se poderia gostar disso?, perguntou, dirigindo-se principalmente às filhas. Acrescentou, então, num tom bastante diferente, que as pessoas precisavam de levar-lhes todo o conforto possível. É justamente o oeste, disse Tansley. o ateu, que compartilhava do passeio nocturno do sr. Ramsay pelo terraço, mantendo os dedos ossudos afastados para que o vento soprasse por entre eles. Isso significava que o vento soprava da pior direcção possível para se atracar no Farol. Era detestável da sua parte trazer isso à baila e desapontar James ainda mais, admitiu a sra. Ramsay. Realmente ele dizia coisas desagradáveis, mas ela não permitiria que rissem dele». In Virgínia Wollf, Rumo ao Farol, 1920, Publicações Europa-América, 1992, ISBN: 978-972-103-456-3.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

As Ondas Virgínia Woolf. «O Louis escreve; a Susan escreve; o Neville escreve; a Jinny escreve; até mesmo o Bernard começou agora a escrever»

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«(…) Onde é que está o Bernard?, disse Neville. É ele quem tem a minha faca. Estávamos na arrecadação a fazer barcos, e foi então que a Susan passou. O Bernard deixou cair o barco e foi atrás dela com a minha faca, aquela que é muito afiada e serve para talhar as quilhas. Ele é como um fio muito esticado, sempre a estremecer. É como as algas que estão penduradas do lado de fora da janela, ora húmidas ora secas. Deixa-me sozinho, vai atrás da Susan; e, se ela gritar, ele pega na minha faca e conta-lhe histórias. A lâmina grande é um imperador; a lâmina quebrada um negro. Odeio coisas que estremecem; odeio coisas escorregadias. Odeio delírios e misturas. A campainha está a tocar e vamos chegar atrasados. Temos de poisar os brinquedos. Temos de entrar ao mesmo tempo. Os livros estão arrumados lado a lado, em cima da mesa forrada a baeta verde. Só conjugarei o verbo depois de o Bernard o ter dito, disse Louis. O meu pai é banqueiro em Brisbane e eu falo com sotaque australiano. Vou esperar e imitar o Bernard. Ele é inglês. Eles são todos ingleses. O pai da Susan é vigário. A Rhoda não tem pai. O Bernard e o Neville são filhos de cavalheiros. A Jinny vive em Londres com a avó. Estão todos a morder as canetas. Agora, estão a virar os livros, e, olhando de esguelha para miss Hudson, contam-lhe os botões vermelhos do corpete. O Bernard tem um raminho no cabelo. Os olhos da Susan estão vermelhos. Ambos estão corados. Mas eu estou pálido; estou limpo; e as minhas calças de golfe estão bem apertadas com um cinto com uma cobra de bronze. Sei a lição de cor. Sei mais do que aquilo que eles alguma vez saberão. Sei os casos e os gêneros; podia aprender tudo e mais alguma coisa se quisesse. Mas eu não quero emergir e dizer a lição. Tal como fibras num vaso de flores, as minhas raízes enrolam-se em torno do mundo. Não quero emergir e viver à luz deste enorme relógio amarelo que não pára de fazer tiquetaque-tiquetaque. A Jinny e a Susan, o Bernard e o Neville, juntam-se e transformam-se numa correia pronta para me chicotear. Riem-se por eu ser tão arrumado, por falar com sotaque australiano. Vou tentar imitar o Bernard com os seus ceceios em latim.
Tratam-se de palavras brancas, disse Susan, iguais às pedras que apanhamos à beira-mar. À medida que as pronuncio, batem como caudas, ora à esquerda ora à direita, disse Bernard. Abanam as caudas; fazem-nas estalar; movem-se em bandos pelo ar, agora nesta direcção, agora naquela, agora em conjunto, agora separando-se, agora voltando a juntar-se. São palavras que queimam, são palavras amarelas, disse Jinny. Gostava de ter um vestido quente, um vestido amarelo, para usar à noite. Cada forma verbal, disse Neville, tem um significado diferente. O mundo tem uma ordem; existem distinções; existem diferenças neste mundo em cuja margem tropeço. Trata-se apenas do começo. A Miss Hudson acabou de fechar o livro, disse Rhoda. Está a começar o terror. Agora, pega no giz e começa a desenhar números, seis, sete, oito, e depois uma cruz e só então uma linha. Está tudo no quadro. Qual é a resposta? Os outros olham, olham com ar de quem compreende. O Louis escreve; a Susan escreve; o Neville escreve; a Jinny escreve; até mesmo o Bernard começou agora a escrever. Todavia, eu não consigo. Apenas vejo números. Um a um, os outros vão entregando as respostas. Chegou a minha vez. Só que não tenho respostas. Os outros tiveram autorização para sair. Deixaram-me sozinha para que encontrasse resposta. Os números não têm qualquer sentido. O sentido desapareceu. O relógio faz tiquetaque. Os dois ponteiros são como caravanas a atravessar o deserto. As barras negras no mostrador são como oásis verdes. O ponteiro maior antecipou-se para ir buscar água. O outro, dolorosamente, vai tropeçando por entre as pedras quentes. Acabará por morrer no deserto. A porta da cozinha bate. Os cães vadios ladram lá longe. Reparem, a forma redonda do número começa a encher-se com o tempo; o mundo está todo lá contido. Comecei a traçar um número, o mundo está lá dentro e eu estou fora do laço. Acabo por o fechar, assim, selando-o, tornando-o inteiro. O mundo está completo e eu estou de fora, a gritar: oh, salvem-me, salvem-me de ser afastada para sempre do laço do tempo!». In Virgínia Woolf, 1931, colecção Mil Folhas, Relógio d’ Água, 2002, 2015, ISBN 978-989-641-526-6.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

Os Anos. Virgínia Woolf. «As pessoas regressavam a Londres. Instalavam-se para a estação. Para ele, contudo, não haveria estação. Só ele não tinha nada que fazer»

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1880
«Era uma primavera instável. O tempo, perpetuamente em mudança, mandava nuvens azuis e púrpura por sobre a terra. No campo, os fazendeiros, olhando para a plantação, ficavam apreensivos. Em Londres, as pessoas olhavam para o céu, abrindo e logo fechando os guarda-chuvas. Em Abril, porém, um tempo assim era de esperar. Milhares de caixeiros de lojas diziam isso mesmo, ao entregarem embrulhos bem feitos a senhoras de vestido estampado do outro lado do balcão, no Whiteley’s ou nas Army and Navy Stores. Intermináveis procissões de fregueses no West End, de homens de negócios no East, marchavam pela rua, como caravanas sempre em movimento, ou era o que parecia aos que tinham algum motivo para se deter, digamos, afim de pôr uma carta no correio ou olhar uma vitrine em Piccadilly. A procissão de landaus, vitórias e fiacres era incessante, pois a estação acabava de começar. Nas ruas mais tranquilas, músicos ofereciam parcimoniosamente um fio de som dos seus frágeis e quase sempre melancólicos instrumentos, reproduzidos, ou parodiados, aqui e ali, no Hyde Parkcomo em St. James, pelo pipilar dos pardais e as súbitas explosões do amoroso, mas intermitente tordo. Os pombos nas praças agitavam-se nos ramos das árvores, deixando tombar um galhinho ou outro, entoando repetidamente o mesmo acalanto sempre interrompido. Os portões, em Marble Arch e Apsley House, ficavam bloqueados à tardinha por senhoras em vestidos multicores com anquinhas e por cavalheiros de fraque e bengala, com cravos na lapela. A princesa surgia e, à sua passagem, os chapéus saudavam. Nos porões das longas avenidas dos bairros residenciais, empregadas de touca e avental preparavam chá.
Ascendendo por tortuosos caminhos, o bule de prata era finalmente colocado em cima da mesa, e donzelas e solteironas com mãos que haviam pensado as feridas de Bermondsey e Hoxton mediam cuidadosamente uma, duas, três, quatro colheres de chá. Quando o sol se punha, um milhão de pequenas luzes de gás, com a forma dos olhos as penas do pavão, abriam-se nas suas gaiolas de vidro. Mesmo assim, restavam largas áreas de sombra nas calçadas. A claridade mista dos bicos de gás e do crepúsculo reflectia-se igualmente nas plácidas águas do Round Pond e da Serpentine. Gente que saíra para jantar fora trotando pela ponte em cabriolés, demorava os olhos por um momento na encantadora vista. Por fim, a lua aparecia, e a sua moeda polida, embora escondida de espaço em espaço por fiapos de nuvens, brilhava serenamente, com severidade ou talvez completa indiferença. Girando devagar, como os raios de um holofote, os dias, as semanas e os anos passavam um após outro, projectados contra o céu.
O coronel Abel Pargiter estava sentado à mesa no seu clube, conversando depois do almoço. E como os seus companheiros, nas suas poltronas de couro, eram homens da sua mesma espécie, que haviam sido soldados, funcionários públicos, homens já àquela altura aposentados, reviviam, com velhas pilhérias e casos, o seu passado na Índia, na África, no Egipto. Numa transição natural, voltavam-se depois para o presente. Tratava-se de uma nomeação, de alguma possível nomeação. De repente o mais jovem e mais lépido dos três curvou-se para a frente. Na véspera tinha almoçado com... Aí a voz do orador baixou. Os outros se curvaram para ele.Com um breve gesto da mão, o coronel Abel dispensou o garçom que retirava as xícaras do café. As três cabeças grisalhas em que a calvície avançava permaneceram juntas por alguns minutos. Então o coronel Abel recostou-se na sua cadeira. O curioso brilho que luzira nos olhos deles, todos, quando o major Elkin começara sua história, já se apagara completamente do rosto do coronel Pargiter. Olhava em frente, espremendo os olhos azuis muito brilhantes, como se o fulgor do Oriente ainda estivesse neles, e franzidos nos cantos, como se o pó do Oriente também tivesse ficado ali. Um pensamento qualquer lhe ocorrera, tornando sem interesse o que os outros estavam dizendo; era-lhe, aliás, desagradável. Ergueu-se e ficou a contemplar Piccadilly pela janela. Com o charuto parado no ar, olhava em baixo as cobertas de autocarros, fiacres, vitórias, carroções fechados, landaus. Estava longe daquilo tudo, era o que sua atitude sugeria. Já não tinha a mão naquela massa. E, à medida que contemplava, a tristeza tomava conta de seu rosto vermelho e simpático. De repente, veio-lhe uma ideia. Tinha algo a perguntar. Voltou-se para formulá-lo. Mas os seus amigos já não estavam ali. O pequeno grupo se desfizera. Elkins já se afastava às pressas, rumo à porta; Brand falava com outro homem. O coronel Pargiter fechou a boca que tinha aberto e engoliu o que estivera a ponto de dizer. Depois, virou-se outra vez para a janela que abria sobre Piccadilly. Todo mundo, na rua cheia de gente, parecia ter destino certo. Todos se apressavam para algum encontro marcado. Até as damas nas suas vitórias e berlindas trotavam celeremente Piccadilly abaixo, com algum propósito em mente. As pessoas regressavam a Londres. Instalavam-se para a estação. Para ele, contudo, não haveria estação. Só ele não tinha nada que fazer. A sua mulher estava à morte. Mas não morria. Hoje mesmo mostrara-se melhor. Pioraria amanhã. Uma nova enfermeira chegaria. E as coisas continuariam nesse ramerrão. Apanhou um jornal, folheou-o a esmo. Deu com uma foto do frontão oeste da catedral de Colónia. Pôs o jornal de volta no lugar, entre os demais jornais». ». In Virgínia Woolf, Os Anos, 1937, Relógio D'Água, 1992, ISBN-978-972-708-154-7.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

As Ondas. Leituras. Virgínia Woolf. «Bom, o certo é que ele vem despertar o meu sentido do ridículo. É esguio em demasia. Para mais, é demasiado escuro e brilhante. Parece as estátuas dos jardins…»

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«(…) Depois de todo este reboliço, disse Neville, depois de toda esta correria e reboliço, acabamos por chegar. Trata-se de um grande momento, de facto, trata-se de um momento solene. Sinto-me como um Lord a entrar nos aposentos que lhe foram destinados. Aquele é o nosso fundador; o nosso ilustre fundador; e está colocado no átrio com um dos pés levantados. Um ar austero e imperial paira por sobre estes pátios. As salas da frente têm as luzes acesas. Ali, devem ser os laboratórios; ali a biblioteca. Será lá que explorarei as certezas do latim, que me sentirei à vontade nas frases bem construídas que lhe são características, e pronunciarei na perfeição os hexâmetros sonoros de Virgílio e Lucrécio; e cantarei com grande paixão os amores de Catulo, tendo nas mãos um grande livro, um in-quarto com margens. Para mais, deitar-me-ei nos campos, por entre as ervas. Deitar-me-ei com os meus amigos por baixo dos ulmeiros imponentes. Reparem, lá está o director. Bom, o certo é que ele vem despertar o meu sentido do ridículo. É esguio em demasia. Para mais, é demasiado escuro e brilhante. Parece as estátuas dos jardins. E, no lado esquerdo do colete, daquele colete esticado, sem uma ruga, pende um crucifixo. - O velho Crane, diz Bernard, levanta-se para nos cumprimentar. O velho Crane, o director, tem um nariz que lembra uma montanha ao pôr do Sol, e a fenda azul que lhe enfeita o queixo é como uma ravina coberta de árvores a quem tivessem lançado o fogo. Baloiça-se ligeiramente, pronunciando palavras imponentes e sonoras. Adoro palavras imponentes e sonoras. Contudo, aquilo que ele diz é demasiado sincero para ser verdadeiro. Mesmo assim, está convencido de que fala verdade. E, quando abandona a sala cambaleando pesadamente de um lado para o outro, depois do que passa por uma porta de vaivém, todos os professores lhe seguem o exemplo, cambaleando pesadamente de um lado para o outro, passando a porta de vaivém. Trata-se da nossa primeira noite na escola, longe das nossas irmãs.
 - Este é o meu primeiro dia na escola, disse Susan, longe do meu pai, longe de casa. Tenho os olhos inchados; as lágrimas fazem-me arder os olhos. Odeio o cheiro a pinheiro e a linóleo. Odeio os arbustos batidos pelo vento e os azulejos da casa de banho. Odeio os ditos divertidos e o olhar espantado de todos. Deixei o meu esquilo e as minhas pombas a um rapaz, para que cuidasse dos animais. A porta da cozinha bate com força, e entre as folhas elevam-se disparos. É Percy, disparando contra as gralhas. Tudo aqui é falso; tudo é prostituído. Vestidas de sarja castanha, Rhoda e Jinny estão sentadas do outro lado, a olhar para Miss Lambert, sentada por baixo de um quadro onde se vê a rainha Alexandra a ler. Vê-se ainda um rolo azul. Trata-se do bordado de alguma das raparigas mais velhas. Se não aperto os dentes, se não cravo os dedos no lenço, por certo que começo a chorar. - A luz vermelha, disse Rhoda, no anel de Miss Lambert move-se de um lado para o outro na mancha negra existente na página branca do livro de Orações. É uma luz avinhada, amorosa. Agora que as nossas malas já foram desfeitas e tudo está nos dormitórios, sentamo-nos muito quietas por baixo de mapas de todo o mundo. Há secretárias com poços cheios de tinta. Aqui, vamos ter de passar afazer exercícios a tinta. Porém, aqui ninguém sou. Não tenho rosto. Esta gente, vestida de sarja castanha, rouba-me a identidade. Somos todas frias, indiferentes. Terei de procurar um rosto, um rosto monumental e composto, dotá-lo com o dom da omnisciência e usá-lo por baixo do vestido como se de um amuleto se tratasse. Só depois (prometo) encontrarei uma fresta na madeira onde esconderei a minha colecção de tesouros curiosos. Prometo-o a mim mesma. É por isso que não vou chorar». In Virgínia Woolf, As Ondas, Colecção Mil Folhas, Público, Porto, 2002, ISBN 84-8130-531-6.

Cortesia de Público/JDACT

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

As Ondas. Virgínia Woolf. «A erva tinge-se de riscas sombrias, e o orvalho, dançando na ponta das flores e das árvores, transformou o jardim num mosaico composto por brilhos isolados que ainda não constituem um todo. As aves, com os peitos manchados de rosa e amarelo…»

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«(…) O Sol elevou-se um pouco mais. Ondas azuis, ondas verdes, todas elas se abrem num rápido leque por sobre a praia, contornando o pontão coberto por azevinho-do-mar e deixando pequenas poças de luz aqui e ali, espalhadas na areia. Deixam atrás de si uma ténue linha desmaiada. As rochas que antes eram ténues e de contornos mal definidos, são agora marcadas por fendas vermelhas. A erva tinge-se de riscas sombrias, e o orvalho, dançando na ponta das flores e das árvores, transformou o jardim num mosaico composto por brilhos isolados que ainda não constituem um todo. As aves, com os peitos manchados de rosa e amarelo, ensaiam agora um ou outro acorde em conjunto, de forma selvagem, como grupos de patinadores, até acabarem por se calar subitamente, afastando-se. O Sol fez poisar lâminas ainda mais largas na casa. A luz toca em qualquer coisa verde poisada no canto da janela, transformando-a num pedaço de esmeralda, numa gruta de um verde-puro semelhante a um fruto suave. Tornou mais nítidos os contornos das mesas e das cadeiras, traçando fios dourados nas toalhas brancas. À medida que a luz aumentava, aqui e ali, os botões iam despertando, transformando-se em flores cobertas de veios verdes, trémulas, como se o esforço que fizeram para se abrir as obrigasse a abanar. Tudo se transformou numa massa amorfa, corno se a loiça dos pratos flutuasse e o aço das facas se tivesse tornado líquido. Enquanto isso, o bater das ondas provocava um ruído abafado, semelhante ao dos toros quando caem, e que se espalhava pela praia.
Agora, disse Bernard, chegou a hora. Estamos no dia aprazado. O táxi está à porta. O meu enorme malão torna ainda mais arquejadas as pernas do George. A horrível cerimónia chegou ao fim, os conselhos e as despedidas junto à porta. Agora, é a cerimónia das lágrimas, levada a cabo pela minha mãe, agora, é a cerimónia do aperto de mão, levada a cabo pelo meu pai; agora, vou ter de continuar a acenar, pelo menos até dobrarmos a esquina. Mas até mesmo essa cerimónia chegou ao fim. Deus seja louvado, todas as cerimónias chegaram ao fim. Estou só. Vou à escola pela primeira vez. Toda a gente perece estar a agir de acordo com o momento presente; nunca mais. Nunca mais. A urgência de tudo isto é assustadora. Todos sabem que vou à escola pela primeira vez. Aquele rapaz vai à escola pela primeira vez, diz a criada, limpando os degraus. Não devo chorar, devo encará-los com indiferença. Agora, os horríveis portões da estação abrem-se de par em par; o relógio com cara de lua olha-me. Vejo-me obriga do a fazer frases e frases, colocando assim qualquer coisa de concreto entre mim e o olhar das criadas, dos relógios, de todos aqueles rostos indiferentes. Se não o fizer, ver-me-ei obrigado a chorar. Lá está, o Louis. Lá está o Neville. Estão ambos junto às bilheteiras, envergando casacos compridos e transportando as suas malas. Têm um ar composto. Apesar disso, estão diferentes.
Aqui, está o Bernard, disse Louis. - Tem um ar composto; está à vontade. Abana a mala à medida que caminha. Dado que não tem medo de nada, o melhor que tenho a fazer é segui-lo. Somos arrastados até à plataforma como se mais não fossemos que galhos e palhinhas que a corrente faz girar em torno dos pilares de uma ponte. Lá está aquela enorme máquina, poderosa, verde-garrafa, a soprar vapor. O guarda faz soar o apito; a bandeira é descida; sem qualquer esforço, no momento exacto, como uma avalanche provocada por um pequeno empurrão, começamos a avançar. O Bernard estende uma manta e começa a estalar os dedos. O Neville lê. Londres estremece. Londres eleva-se e ondula. Ali, vê-se um amontoado de torres e chaminés. Ali, uma igreja branca; ali, um mastro por entre as espirais. Ali, um canal. Agora, surgem espaços abertos com caminhos de asfalto onde é estranho as pessoas andarem. Daquele lado, há uma colina manchada de casas vermelhas. Um homem atravessa a ponte com um cão colado aos calcanhares. Agora, um rapaz vestido de vermelho dispare contra um faisão. Um outro, vestido de azul, dá-lhe um empurrão. O meu tio é o melhor caçador de Inglaterra. O meu primo é o mestre da Liga dos Caçadores de Raposas. Começam as gabarolices. Só eu não me posso gabar, pois o meu pai é banqueiro em Brisbane e falo com sotaque australiano». In Virgínia Woolf, As Ondas, Colecção Mil Folhas, Público, Porto, 2002, ISBN 84-8130-531-6.

Cortesia de Público/JDACT

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Leituras. Parte II: Cartas a Jovens Poetas. «É provável que as suas diferentes abordagens da criação poética tenham a ver com a diversidade da poesia alemã e inglesa. Rilke é um poeta e Woolf uma romancista. ... Aconselha vivamente um olhar para o exterior sob o perigo de a escrita demasiado íntima se tornar desinteressante ...»

Cortesia de wook

A Letter to a Young Poet, Cartas a Jovens Poetas
Autor: Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf
Tradutor: Lino Marques e Ana Mateus
Editora: Relógio d'Água Editores
Ano de Publicação: 2003
Páginas: 121
ISBN: 972-708-747-7

Com a devida vénia a O Citador.

Opinião:
«Publicação conjunta de textos de dois escritores da mesma época (séculos XIX/XX), mas que, pelo que se sabe, nunca se conheceram, tinham temperamentos diferentes e divergiam nas suas visões sobre a poesia.
Rainer Maria Rilke, sobretudo um poeta, escreve a Franz Kappus, jovem estudante de uma academia militar com dúvidas sobre a sua vocação para a poesia. Virginia Woolf, romancista, escreve a John, personagem fictícia, que serve à autora para tecer uma série de comentários e reflexões sobre a poesia em geral e a inglesa sua contemporânea, em particular.
Em comum, apenas um aspecto: os dois poetas aconselham os seus interlocutores a questionarem as suas reais necessidades de escrever, a não terem pressa na produção e publicação de poesia, arte que deve ser amadurecida.

Cortesia de artenaicone 
Rilke começa por aconselhar a renúncia de temas e olhares sobre o exterior. Para ele, a poesia deve surgir como uma expressão do interior, onde tudo pode e deve ser posto ao serviço da criação poética: as recordações de infância, as emoções das vivências presentes, o sofrimento, o amor, a tristeza, a dúvida, o futuro, o destino, a essência de si mesmo. E, para isso, seria fundamental atingir um estado de solidão como condição do ser-se poeta; a autenticidade da poesia surgiria dum olhar profundo para dentro, de um trabalho de auto-conhecimento com vista a uma fidelidade de si mesmo, que só poderia ser alcançado em solidão. Mas, escrevendo a Kappus, Rilke também reflecte sobre si numa altura de crise pessoal e acaba por usar as cartas para tecer uma série de considerações sobre modos de estar na vida, no amor, na solidão.

Cortesia de julielomoe
Em oposição a Rilke, Virginia Woolf defende que a genuidade só pode alcançar-se no contacto com os outros, pelo que o olhar sobre si próprio seria apenas um degrau na caminhada do poeta. Aconselha vivamente um olhar para o exterior sob o perigo de a escrita demasiado íntima se tornar desinteressante por ser só sobre e para uma pessoa; acredita ser fundamental tornar a poesia vida, pela atenção aos lugares, aos homens, ao que circunda o poeta (ao contrário da poesia inglesa vitoriana, que critica exemplarmente)». In O Citador. 

Cortesia de rodrigoslmercadante
Extracto:

R. M. Rilke: «Nessa vida o tempo não é uma medida, um ano nada é, e dez anos não são nada; ser artista significa: não fazer cálculos nem contas, amadurecer como uma árvore que não força a sua própria seiva e resiste, confiante, nas tempestades da Primavera, sem recear que o Verão possa não vir depois. Ele vem. Mas apenas para os que são pacientes, que estão lá como se tivessem a eternidade diante deles, despreocupadamente tranquila e distante».
Virgina Woolf: «O que precisa agora é de ficar à janela e deixar que o seu sentido rítmico pulse, pulse, audaciosa e livremente, até que uma coisa se funda com outra, até que os táxis dancem com os narcisos, até que um todo se forme a partir destes fragmentos separados. Estou a dizer disparates, eu sei. O que quero dizer é, reúna toda a sua coragem, apure a sua atenção, invoque todas as dádivas que a natureza lhe quis conceder. Depois, deixe que o seu sentido rítmico circule livremente entre homens e mulheres, autocarros, espargos (tudo o que andar na rua) até conseguir reuni-los num todo harmonioso. Essa é, talvez, a sua tarefa – encontrar a relação entre as coisas que parecem incompatíveis, mas que, no entanto, têm uma afinidade misteriosa; absorver, sem medo, cada experiência que lhe apareça à frente e enriquecê-la completamente para que o seu poema seja um todo, não um fragmento; pensar a vida humana na poesia e oferecer-nos assim, de novo, a tragédia e a comédia(...)». In O Citador.

Cortesia de peregrinaculturalwordpress
Cortesia de O Citador/JDACT

sábado, 18 de setembro de 2010

O Pensamento e as Interpretações: Parte IX. «O tempo não tem sobre a alma do humano efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora pode ser representada por um segundo no mostrador do espírito»

Virgínia Woolf
(1882-1941)
Londres
Cortesia de istoepiaui

Com a devida vénia ao CITADOR (http://www.citador.pt) apresento algumas interpretações do pensamento.

A Riqueza de Espírito no Estado de Doença
«Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura expõe, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela acção da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos à superfície na cadeira do dentista e confundimos o seu «bocheche... bocheche» com saudação da divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas - quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura». In Virginia Woolf, «Acerca de Estar Doente».

Cortesia de zenleaf
O Tempo e o Espírito
O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo. In Virginia Woolf, «Orlando»

Cortesia de armontewordpress

Cortesia do Citador/JDACT