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sábado, 29 de junho de 2024

Madeline Hunter. Deslumbrante. «Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)  Então deixarei a indicação para ela vir para aqui assim que retornar. Olhou para o lado. Lizzie, pode... Ora essa, onde é que ela se enfiou? Estava aqui mesmo antes de a Celia trazê-lo e até leu o seu cartão... Estalou a língua em sinal de exasperação. Por favor, aguarde aqui, lord Sebastian, enquanto vou pessoalmente dizer para nos enviarem miss Kelmsleigh.

Deixou-o no meio da vegetação. O ar tinha um aroma luxuriante cuja densidade húmida continha um pouco de tudo. Citrinos e rosas e até o laivo fresco da erva. Uma pessoa podia se inebriar com um perfume daqueles. Enfiou o dedo na terra de um dos vasos em que mrs. Joyes estivera trabalhando. Tocou no volume de um bulbo. Desceu tranquilamente o corredor, passando por vários limoeiros em vasos e por mesas de botões floridos. No fundo do edifício uma videira crescia dentro do vidro. A raiz encontrava-se do lado de fora, mas o pé espesso entrava por um buraco aberto na parede de tijolo. As várias gavinhas trepavam por apoios robustos, estirando-se depois por barras de ferro, colocadas meio metro acima da sua cabeça. Debaixo deste frondoso caramanchão interior, estavam uma mesa de pedra e quatro cadeiras, compondo uma vinheta toscana.

Foi uma experiência, esclareceu mrs. Joyes, regressando. A videira, não pensei que resultasse. Deve ser agradável ficar sentado a esta mesa nos dias ensolarados de Inverno. Tem um belo conservatório de plantas.

É uma estufa. A maior parte daquilo que as pessoas chamam conservatórios na realidade são estufas, ou estufas de forçagem. Imagino que a palavra não seja suficientemente requintada e por isso a designação incorrecta se tenha tornado comum. Um verdadeiro conservatório de plantas faz isso mesmo, limita-se a conservar as plantas durante o Inverno, período em que estão em dormência. Temos um desses, também, no fundo do jardim. O rosto dela voltou a prender sua atenção.

Queira me desculpar, acho que fui inadvertidamente grosseiro. Já nos cruzamos, tenho certeza, mas não consigo me lembrar onde. Já nos cruzamos, realmente, anos atrás. Eu trabalhava como governanta para a família do duque de Becksbridge. Fomos apresentados um ao outro numa recepção no jardim, à qual fui autorizada a ir com a mais velha das minhas pupilas. Tem uma memória excelente para as pessoas insignificantes com as quais se cruza na vida, lord Sebastian. Se ela fosse de facto insignificante, ele poderia merecer o elogio, mas duvidava de que algum homem esquecesse que a conhecera.

Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa. O seu marido está ao serviço da marinha?

Esteve no exército. Morreu na Guerra Peninsular. A pergunta não alterou a graciosidade da sua postura, mas os olhos, escurecendo um pouco, revelaram que o assunto ainda lhe causava dor. Se me der licença novamente, vou ver porque demora Audrianna. Já devia ter voltado». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber,

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era o tipo de casa boa e sólida que se encontrava por toda a Inglaterra. Bonita, na sua alvenaria de pedra cinzenta, era grande demais para uma simples casa rústica e pequena demais para ser um solar. No topo, um sótão com telhado duplo erguia-se em dois pisos de altura tendo apenas janelas bem proporcionadas decorando a fachada simples.

Não apareceu ninguém para ficar com seu cavalo, por isso Sebastian atou as rédeas a um poste. O tempo que esperou depois de bater à porta deixava a entender que poucos criados trabalhavam lá, apesar da propriedade deixar transparecer alguma riqueza. A porta finalmente abriu. Uma governanta muito magra de meia-idade espreitou-o por entre os folhos da touca. Leu o cartão dele e voltou a espreitar. O olhar dela se demorou na caixa de madeira comprida que ele trazia debaixo do braço.

Disseram-me que miss Kelmsleigh vive aqui, explicou ele. Vim devolver uma coisa que ela perdeu.  Uma moça loira, bonita, surgiu. Também leu o cartão. Eu trato disto, mrs. Hill.  A mulher mais velha se retirou. A loira indicou que entrasse. Devia falar com mrs. Jones, prosseguiu. É a proprietária da casa. Está na estufa. Vou levá-lo até lá. Num passo tranquilo, levou-o até aos fundos da casa. Passaram por uma biblioteca com bonitas estantes e muitas cadeiras estofadas. Uma segunda sala de estar ocupava a parte de trás da casa. Através de uma das janelas, viu uma estufa.

Situada a vinte metros da casa, a estufa era muito maior do que as encontradas em casas rurais, a não ser que fossem propriedades muito grandes. A metade de cima das paredes era de vidro, num mosaico de painéis rectangulares suportados por ferro. A entrada para a estufa ficava no fundo de um corredor que saía da sala de estar. A mulher que o guiava abriu uma porta e ele foi envolvido por um calor húmido. Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso. Momentos depois reapareceu e gesticulou para que se aproximasse. Apontou mrs. Joyes e se despediu.

Mrs. Joyes trabalhava sentada a uma mesa coberta de vasos cheios de terra. A mesma terra sujava o avental, as mãos e a touca. Enquanto ele se aproximava, ela pegou um trapo para limpar a pior parte.

Tinha um rosto muito bonito. Muito pálido. Muito perfeito. Olhos cinza-escuro. Possuía uma elegância natural que afectava até sua postura de pé. Se ele nunca a tivesse visto, poderia ter ficado embasbacado. Só que ele já a vira antes. Tinha certeza.

Lord Sebastian Summerhays, que honra. Não é frequente termos visitas tão ilustres. Procura uma flor para dar de presente a uma pessoa da sua estima? Temos pelargónios raros de nossa própria hibridação que são sempre apreciados. Procuro uma mulher que, segundo me disseram, vive aqui. miss Kelmsleigh. Indicou com a cabeça a caixa que trazia. – Devo devolver-lhe algo que lhe pertence. Miss Kelmsleigh não está em casa. Deve voltar muito em breve, se quiser aguardar. Ou pode deixar a caixa comigo.

Bom, era aquilo. Podia largar a caixa e ir embora. Não havia razão para não confiar que mrs. Joyes a entregasse a miss Kelmsleigh quando voltasse. Se avisasse para não abri-la, era bastante provável que controlasse a curiosidade.  Se estiver voltando em breve, eu mesmo lhe darei». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

 JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

Madeline Hunter. Deslumbrante. «A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Demais então. Avise a Fenwood para não recebê-la na próxima vez. Não permita que ela se assenhore do seu apartamento e entre nele a seu bel-prazer. Existira sempre o perigo de a mãe deles transformar Morgan numa criança assim que tivesse a oportunidade. Intrometia-se, o mimando e dominando, até ele perder o direito de ser um homem distinto. Esse havia sido o motivo de Sebastian se mudar para aquela casa quando o irmão voltou da guerra. Sua presença assegurava que a mãe não expandiria demais o seu domínio, especialmente no que dizia respeito ao filho mais velho. Sempre foi melhor em lidar com ela do que eu. Como em tantas outras coisas, declarou Morgan. Não havia nada que dizer adiante daquilo, por isso ambos voltaram-se aos jornais. Disse que esteve perto de Brighton, ontem? Ouviu alguma coisa acerca do espectáculo no Duas Espadas? Espectáculo? Morgan estreitou os olhos para ler as letras impressas. Deixou sair um sorriso. Um homem levou um tiro de uma amante. Aquilo é que deve ter sido um bom teatro. Ele não morreu, parece. Mesmo assim, não se deve ter falado de outra coisa lá em baixo. O que está lendo aí? Morgan corou. Um dos jornais cor-de-rosa da nossa mãe. De Brighton? Londres.

Maldição! Sir Edwin estava certo. A história provavelmente chegara à cidade antes de qualquer uma das suas vítimas. Evidentemente, não havia nomes no jornalzinho, porém. Ainda. O ritual terminou às onze horas. Sebastian se despediu e voltou ao próprio quarto. O criado pessoal o saudou com uma carta selada na mão. O endereço não estava correcto, meu senhor. Sebastian pegou a carta. Escrevera-a para miss Kelmsleigh e enviara-a por um mensageiro para a casa do pai. Não vivem mais lá? Mrs. Kelmsleigh sim, e miss Sarah Kelmsleigh. Audrianna Kelmsleigh, porém, não. O lacaio perguntou e lhe disseram que ela fora morar no Middlesex, perto da aldeia de Cumberworth. Sebastian levou a carta para o quarto. Abriu uma gaveta e olhou para a pistola que trouxera do Duas Espadas. Suas tentativas de devolvê-la de forma discreta não tinham dado certo. Podia mandar o despachante a Cumberworth. Se miss Kelmsley havia se mudado para o campo, bastariam algumas perguntas para localizá-la. Podia igualmente embrulhar a pistola e dá-la ao criado, e dar o assunto por encerrado. Viu a pistola numa mão suave, feminina. Viu olhos verdes de mulher cintilando de vida, depois acendendo de fascínio e paixão, e, por fim, esmaecendo de melancolia. Imaginou ela atravessando a hospedaria até à carruagem, fingindo não reparar que os outros clientes olhavam e sussurravam. Disse ao criado para mandar buscar o cavalo.

Cumberworth continuava uma aldeia rural, mas Londres se aproximava a cada ano que passava. Já fora absorvida pelos subúrbios da cidade, um dos muitos vilarejos do Middlesex que viam recém-chegados se misturar com velhos residentes e agentes imobiliários decompor quintas em pequenas propriedades para as famílias prósperas da sua vizinha maior. A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna.

O Baron’s Board não estava muito cheio às duas da tarde e a cerveja de Sebastian chegou rápido. Bebeu em pé, submetendo-se à inspecção curiosa do proprietário. Também está assim húmido na cidade?, perguntou o homem, secando canecas de cerveja. Pior, respondeu Sebastian. Está a caminho de um lugar mais seco? Não, vim à procura de uma pessoa para tratar de negócios. Talvez a conheça. Miss Kelmsleigh. O proprietário estalou a língua… Eu conheço ela e as amigas. Todas as pessoas de Cumberworth conhecem as hóspedes de mrs. Jones. Ah, conhecem? Acho que miss Kelmsleigh é prima dela, não sua hóspede. É difícil saber do que chamar aquelas mulheres, não acha? O resto não são parentes, não me parece. Só um grupo de mulheres que vieram de visita e nunca mais foram embora. Mrs. Joyes vive na aldeia? Tem propriedade a pouca distância. Uma casa boa e um bom pedaço de terra. Cultiva flores numa estufa grande. Vende-as em Londres a floristas chiques. A casa dela fica um tanto afastada da rua, por isso há uma placa pintada no local onde é preciso virar. Flores Preciosas, é assim que o negócio dela se chama. Estalou novamente a língua. Até parecem boa gente. São reservadas. Não há razão para pensar que haja alguma coisa imprópria, mas as pessoas falam, não é mesmo? Sem dúvida. Sebastian acabou de beber a cerveja e pediu indicações para chegar ao letreiro do Flores Preciosas. Quinze minutos depois, seguia pelo caminho privado que conduzia à casa de mrs. Joyes». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ignorou o olhar desconfiado que Thomas lançou ao seu vestido rasgado e ao cabelo solto. Um pequeno grupo entrou pelo túnel. Tomarão a porta de armas e levantarão a grade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«John praguejou e desembainhou a espada. Os outros homens começaram a avançar às apalpadelas pela escuridão. Reyna estava encostada à parede de pedra, de frente para John, o escudeiro. À medida que os minutos passavam e ela não se rebelava, uma sensação vaga de relaxamento apoderou-se dele. Por fim, a ponta da lâmina caiu do peito dela e ele mudou de posição e também se encostou à pedra. Ela esforçava-se por ouvir sons da torre, mas a noite continuava silenciosa. Imaginou Ian e os outros a deslizarem do túnel para a passagem na muralha norte, a esgueirarem-se pelas sombras até à porta de armas, e a abaterem os guardas um por um.

O vosso amo parece ser um grande guerreiro. Lá isso é, concordou John, orgulhoso. Poucos conseguem estar à altura da sua espada, e ele é campeão de muitas justas e torneios. Lançou-se numa descrição de uma justa em particular, na Bretanha, e Reyna alimentava o seu discurso com perguntas, incitando-o a sentir-se à vontade com ela. Ainda não se ouvia som algum da torre. Ele deve ser muito famoso em Inglaterra. John deu uma risada. É, com toda a certeza, mas não da maneira que pensais. O grosso dos seus combates teve lugar em França, com esta companhia livre que ele trouxe para aqui quando sir Morvan os tomou ao serviço. Ele fez-se líder deles há muitos anos.

Reyna sabia alguma coisa sobre companhias livres, os bandos de soldados independentes e cavaleiros sem terra que se ofereciam a barões e reis em troca de soldo. Quando não tinham compromissos profissionais continuavam as suas conquistas de forma independente, montando cercos que levantariam se fosse pago um resgate. Haviam-se tornado um problema sério em França, assediando povoações e quintas. Se Morvan Fitzwaryn contratara desordeiros deste calibre para este cerco, isto não abonava nada pelo futuro da sua gente. Ele lutou em Poitiers no ano passado com o Príncipe Negro, acrescentou John, defensivo, como se pressentisse a desaprovação dela. Salvou a vida a sir Morvan lá. Morvan tem uma velha contenda com a família Beaumanoir da Bretanha, e foram atrás dele no campo. Ian nem sequer sabia quem ajudava, apenas viu os cavaleiros a tentar derrubar Morvan e entrou na luta por desporto.

Tal heroísmo torná-lo-ia decerto famoso. Não, não é isso. Não em Inglaterra. Aqui penso que ele é mais conhecido pelo jeito que tem com as mulheres. Sir Ian é um homem atraente, não posso negá-lo. Isso é dizer que o mar é uma poça de água. O meu amo tem de enxotar as mulheres com a espada. Sejam grandes senhoras ou criadas de cozinha, atiram-se todas a ele. Ele soltou um suspiro de admiração e depois inclinou-se, conspirador, na direcção dela. Quando cá regressámos, disseram-me que, em Windsor, a corte lhe tinha atribuído um nome especial, como um título. Um nome especial? Um título honorífico? Sim. Ela quase conseguia ouvir o sorriso afectado do jovem. Em Windsor e Londres é conhecido como O Senhor das Mil Noites.

Reyna desatou às gargalhadas e John, desrespeitosamente, acompanhou-a. Isto era muito bom. Havia homens que recebiam designações baseadas nos seus feitos audazes. O Herói disto e daquilo. Ian de Guilford fora imortalizado pelo número de vezes que havia fornicado. Enquanto conversava com John, Reyna não parou de tatear o chão com o pé. Quando o riso desvaneceu, ela encontrou o que procurara. Isto foi um erro, disse ela. Não, minha senhora. sir Ian também acha isto divertido.

Não me referia a isso. Eu estive enfiada naquela tenda durante muito tempo, e a rir… o que quero dizer é que preciso de… Precisais de?… Ah! Talvez pudésseis aguardar um pouco à entrada, sugeriu ela. Assim, certamente que eu não conseguiria sair. Ele ponderou, depois avançou alguns passos e posicionou-se, de costas voltadas, à entrada. Reyna aninhou-se e deparou com o pequeno pedregulho que o seu pé tinha tocado. Erguendo-o com ambas as mãos, avançou cuidadosamente na direcção de um John incauto. Erguendo-a por cima da cabeça, deixou-a cair. O jovem estatelou-se redondo no chão. Enchendo a mente de temor pela sua gente, para afastar os terrores da infância, avançou apressada pelo túnel de pedra. Sentia-se dominada por emoções contraditórias. Determinação letal. Resignação apática. Preocupação dilacerante.

E, permeando-as a todas, sem cessar, os tentáculos do terror que se esticavam na escuridão implacável para a enredar. A quinze metros do fim, a mão dela encontrou a abertura que procurava. Outro túnel desviava-se a partir daqui, a um ângulo estranho do túnel principal, quase invisível mesmo com um archote. Este continuava por baixo do pátio até à própria torre. Ela entrou, abaixada, correndo mais veloz, pois de certeza que, a esta altura, Ian já teria chegado à porta de armas. Alcançou finalmente as escadas e, detendo-se apenas um segundo para recuperar o fôlego, deu início à longa subida pelas paredes da torre. Degraus de pedra, um monte deles, erguiam-se na escuridão. Mal conseguia respirar quando, por fim, conseguiu chegar lá acima. Exausta e com as pernas bambas, empurrou a parede de pedra. A parte de baixo cedeu e ela caiu no quarto principal.

Ficou deitada no chão, debatendo-se para respirar, deleitando-se com a luz que a banhava. Num primeiro momento, assumiu que o aposento estava vazio, de tão absoluto que era o silêncio. Depois, uns braços fortes agarraram nela e ergueram-na. Ela olhou para o rosto bondoso e preocupado de sir Reginald. A porta de armas, disse, arquejante. Eles estão cá dentro e vão abri-la para os outros entrarem. O quê?, disse uma voz estrondosa atrás dela. Ela virou-se e deparou com sir Thomas Armstrong e cinco outros cavaleiros. Ela viera aterrar no meio de um conselho. Eles transpuseram a muralha e estão cá dentro. Ignorou o olhar desconfiado que Thomas lançou ao seu vestido rasgado e ao cabelo solto. Um pequeno grupo entrou pelo túnel. Tomarão a porta de armas e levantarão a grade». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

 Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Literatura, Idade Média, 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Não me façais ter de vos magoar, Melissa. disse ele, arrastando-a de volta à entrada. Segurando nela, enfiou a cabeça na abertura e assobiou. Seu canalha. Seu filho duma égua, sibilou ela. Como sabíeis?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ian contava com isso. Contava aumentar ainda mais a dívida que Morvan Fitzwaryn tinha para consigo. Apesar de certas tensões antigas entre eles, Ian respeitava Morvan e estava disposto a lutar esta guerra segundo os termos peculiares deste, sabendo que Morvan o recompensaria generosamente. Pagamento avultado, no mínimo, mas Ian almejava mais. Uma vez recuperada Harclow, uma vez resgatadas as terras ancestrais arrancadas das suas mãos enquanto rapaz, Morvan regressaria às propriedades da Bretanha e à sua família, que se encontrava lá. Assim, Harclow necessitaria de um senescal para a gerir e proteger.

Ian planeava ser esse homem. Não era o mesmo que tratar das suas próprias terras, claro. Mas era de longe melhor do que a vida de flibusteiro, de ratazana de acampamento, que o destino lhe reservara durante os últimos quatro anos. Uma sombra moveu-se perto de um dos acampamentos. A luz das fogueiras captou os reflexos prateados do cabelo de Melissa enquanto ela corria, célere, de tenda em tenda. Deteve-se na que ficava mais perto do caminho que conduzia à estrada a norte. Anda, pequenina. Incitou Ian silenciosamente. Não percas a coragem agora. Mostra de que és feita. Ela deu mais alguns passos rápidos, afastando-se da colina, e ele praguejou entredentes. Mas ela deteve-se abruptamente, ficou parada por um segundo, e depois, resoluta, deu meia-volta e encaminhou-se para a torre. Ian lançou-se no seu encalço.

Reyna abriu caminho através dos arbustos e encontrou a entrada da poterna. Ficou de olhos fixos na fenda escura. Alice não estava ali para a ajudar desta vez. Cento e quarenta metros de sepulcro subterrâneo aguardavam-na. Quinhentos passos de escuridão absoluta e pedra asfixiante. O velho pânico de infância tentou apoderar-se dela, e ela combateu-o desesperadamente. Regressar nunca estivera nos seus planos. A esta hora, contava ter já roubado um cavalo e encontrar-se na estrada noroeste. De manhã, deveria estar nos braços de sua mãe, a planear a viagem para Edimburgo.

A entrada chamava-a como uma boca aberta à espera de a engolir. Era só escuridão. Não havia nada a temer. Chamando a si cada pedacinho de coragem, deu um passo em frente. O seu coração não tardou a retumbar com uma batida lenta e horrível. Correr faria tudo passar mais depressa, mas ela não conseguia incitar as pernas a mais do que um avanço trôpego e hesitante. Tateando a parede, combateu as velhas memórias que a incitavam à histeria. Terror. Frio. Solidão desoladora. Garras invisíveis que se aproximavam para a agarrar. Mas, depois, graças a Deus, outra memória. Uma luz acolhedora e um rosto bondoso e uma mão que se oferecia a ela através da escuridão. Anda comigo, criança. Ficarás em segurança e nunca mais sentirás um medo assim. Ela focou-se na imagem daquela mão, e na atenção e segurança e amor que lhe oferecia. Caminhou um bocadinho mais rápido, imersa nela.

De repente, as mãos espectrais agarraram nela. Ela gritou e o som ressoou nas paredes de pedra, encerrando-a no seu eco. Desatou aos socos e pontapés até uns braços fortes a prenderam contra um corpo alto e uma respiração cálida se espalhar pelo seu rosto. Atordoada, emergiu do pesadelo e deu por si rodeada pela força e pelo cheiro de Ian de Guilford.  – Calma, quieta. Sossegou-a como se sossega um cavalo. Num momento de desorientação, ela quase se deixou cair contra ele, grata e aliviada. Depois as memórias desvaneceram-se completamente e ela compreendeu o significado da sua presença. Voltou a debater-se. Não me façais ter de vos magoar, Melissa. disse ele, arrastando-a de volta à entrada. Segurando nela, enfiou a cabeça na abertura e assobiou. Seu canalha. Seu filho duma égua, sibilou ela. Como sabíeis?

A povoação chegou a acordo comigo há muito tempo. E vós passais por mulher de um artesão tão bem quanto passais por cortesã. Os braços dele ainda a envolviam por trás. Não vos sintais mal nem vos culpeis. É melhor assim para os que estão lá dentro. Ela duvidava seriamente disso. Invadiu-a uma culpa horrível. Em vez de os salvar, tinha apressado o seu sofrimento. Desejou ter ali o punhal. Desta vez não haveria hesitação. Um punhado de sombras impedia que a luz débil atravessasse a entrada. Raios me partam. Tínheis razão, disse uma voz mais velha.

Ian encostou-a à parede de pedra, mantendo uma mão firme nos seus ombros. Acabou. Não façais nenhuma estupidez, avisou. Ela lançou um olhar furioso à sombra indefinida da sua cabeça. Raios partam o homem. Raios o partam. Cuidadosamente, deliberadamente, esticou-se até não poder mais, inclinou a cabeça para trás, e cuspiu. Os outros devem ter ouvido, pois abateu-se sobre o pequeno grupo uma imobilidade silenciosa. Ian agarrou-lhe a cara com força. Tende juízo, Melissa, ou tratar-vos-ei como a rameira que fingistes ser. Afastou-se. Montai-lhe guarda com a vossa espada, John. Não a deixeis sair daqui até eu voltar para a buscar. Estais a dizer que eu tenho de ficar aqui?, queixou-se uma voz jovem de escudeiro. Fazei o que vos digo. E, John, lembrai-vos do que vos disse há pouco. Ela é minha. Não andaríeis no meu cavalo sem a minha autorização, por isso também não vos ponhais com liberdades com ela». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

 JDACT, Madeline Hunter, Literatura, Idade Média, 

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ele não sentia impaciência nenhuma. Mesmo depois de ela reparar que a corda que lhe prendia uma das mãos não estava completamente segura, ainda precisaria de algum tempo para se libertar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não ao exército inteiro. Só aos cavaleiros. É asqueroso. O enforcamento também. A expressão dela endureceu de fúria. Ele esperara lágrimas. Ela tinha sangue na guelra. Tinha de admitir isso. Não acredito que o vosso amo, sir Morvan, aprovasse o que planeais. Ele tem reputação de ser um homem honrado. Ele não se importará nem um pouco. Em breve, terei colocado esta torre nas mãos dele e metade do seu exército poderá juntar-se a ele em Harclow. E só isso terá importância. Além disso, salvei-lhe a vida uma vez, portanto está em dívida para comigo. Ela cerrou os dentes com um controlo vacilante, os seus olhos faiscaram, e depois baixou as pálpebras. Prefiro ser enforcada. Estão ali pelo menos vinte cavaleiros. De qualquer maneira, é provável que me matem.

Não se estiverem satisfeitos. De certa forma, estareis a cumprir a vossa missão. Amanhã de manhã rebentaremos com um dos túneis. Até ao meio-dia, eu espero que a torre sucumba ou se renda. Os vossos favores serão recompensa para os meus cavaleiros, e talvez mitiguem a irritação que sentirão por não poderem pilhar aquilo que conquistaram. O olhar dela fixou-se nele. Explodireis o túnel de madrugada? Conto com isso. Estamos a escavar dois. O que fica a sul já chegou à muralha.

O olhar dele vagueou até à pele orvalhada do rosto, dos ombros dela e do peito exposto. Ela já não era nenhuma rapariga, mas ele também nunca se interessara muito por raparigas. A ânsia de lamber a sua palidez resplandecente, e a noção de que ela não conseguiria impedi-lo de o fazer, enrijeceram-lhe o corpo. Melissa, a cortesã, estivera certa numa coisa. Ele estava cansado da vida do acampamento e desejava de facto as ilusões do amor cortesão. Estivera muito tentado a jogar o jogo dela até ao fim, mas depois poderia ter perdido o alento para a usar da forma que agora pensava fazer. Não conseguiu conter-se. Esticou o braço e acariciou-lhe a face. Delicada. Cálida. Inclinou-se e roçou os seus lábios nela. Para uma cortesã, é um castigo leve. Do meu ponto de vista, só há um problema. Ele baixou a cabeça para ela num sorriso. Vós, Melissa, não sois cortesã nenhuma.

Sou, pois. Certamente não sois. Já conheci virgens que beijam com mais perícia do que vós. Quem sois vós? Sois da aldeia? Ela assentiu com a cabeça. Então uma jovem matrona decide ser heroína em prol do seu povo. Muito corajoso e notável. O vosso marido sabe que embarcastes neste plano descabido? Sou viúva.

Ah! Ainda assim, o vosso homem não vos ensinou grande coisa, pois não? E é esse o problema. O meu escudeiro espalhou a notícia de que tenho aqui uma cortesã. Alguns destes cavaleiros poderiam pensar que estais a insultá-los, ou a guardar o que tendes de melhor para outros. Podem virar-se contra vós. Eu podia explicar o erro, mas então eles podem pensar que eu estou a mentir e que é para mim que vos preservais. Ele virou-se e percorreu com os olhos o seu corpo seminu. Ela lançou-lhe um olhar fulminante e apreensivo. Bom, se o objectivo é preservar-vos a vida, não há nada a fazer senão tomar-vos primeiro, disse ele. Ensinar-vos-ei e talvez sejais capaz de os enganar. Não há necessidade. Arriscarei.

Não me parece. Passou a mão pelo corpo dela. Ela contraiu-se com aquele toque. Não era imune, mas ele já o sabia desde que a beijara. Ela tinha necessidades que não conseguia controlar, e desconcertava-a que ele lograsse alcançá-las. Se ela era o tipo de mulher que ele pensava que ela era, esta era a coisa mais assustadora que ele lhe podia fazer. Mais assustadora ainda do que os vinte cavaleiros com os quais ele a ameaçava. Um tremor atravessou-a e passou para ele, e ele esforçou-se para o travar. A tentação de ficar com ela e esperar que o verão terminasse, com ela naquela enxerga e naquelas peles, quase venceu.

Ele afastou-se. Agora tenho de me retirar. O trabalho no túnel requer a minha presença. Acabaremos muito antes da madrugada, contudo. Uma vez que sou eu quem manda, permito-me uma celebração precoce. Levantou-se e ficou a olhar para ela. Que pena dividir-vos com os outros, Melissa, mas eles sabem que vós estais aqui e seria desavisado não o fazer. Além disso, seja como for, sois minha antes e depois.

Depois! Certamente tereis de me deixar ir embora depois. Chegará a hora. Quando já não tiver uso a fazer de vós. Quando ele se virava para sair, o corpo dela deixou-se afundar num movimento de desalento, como se este último pormenor a tivesse finalmente prostrado.

Ian esperava com John e cinco homens perto do sopé da pequena colina sobre a qual se erguia a casa-torre. Os acampamentos estavam silenciosos e todos os seus ocupantes cuidadosamente posicionados perto da porta de armas. Acima dele, o castelo de Black Lyne erguia-se qual mastro de pedra impenetrável rodeado por uma franja de espessas ameias. As fogueiras do acampamento estavam baixas e não davam muita luz. A sua cativa não devia ficar surpreendida por o espaço estar silencioso e vazio. Presumiria que todos estavam a trabalhar no túnel naquela noite.

Havia sido fácil fazê-la morder o isco usando de subtilezas. De certa forma, a mulher inteligente era a mais simples de enganar. A não ser, claro, que ela nos enganasse primeiro. Acontecera-lhe uma vez na vida, com resultados catastróficos, e ele jurara que jamais voltaria a acontecer. Tendes a certeza?, sussurrou Gregory, o arqueiro. Ele era o homem de Morvan, limitado e enfadonho, destacado para passar o verão com a companhia de Ian para ver como tudo se desenrolava. Tenho a certeza, assegurou Ian. Ela sabia demasiado. Tinha contado os cavaleiros. Não sabia que Morvan está em Harclow, nem que há um mês que tínhamos acertado contas com a povoação. Além do mais, é uma senhora e não uma cortesã, nem viúva de um mercador, e só pode ter vindo de um lugar. E se ela saiu, conseguia voltar a entrar.

Ele não sentia impaciência nenhuma. Mesmo depois de ela reparar que a corda que lhe prendia uma das mãos não estava completamente segura, ainda precisaria de algum tempo para se libertar. A única questão era se ela escolheria a opção sensata, tentando escapar completamente, ou se se colocaria em risco ao regressar para avisar os outros. Ele contava que a senhora que se fizera passar por cortesã com o intuito de o matar escolhesse a última opção, a imprudente.  Se estiverdes certo, será rápido e limpo. Morvan ficará agradado, disse Gregory». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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terça-feira, 7 de novembro de 2023

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Contrariada, dobrou o pescoço e encostou os lábios à concavidade acima da clavícula dele. Pele. Calor. Aquele cheiro masculino inebriante. Uma mão doce, mas dominadora na sua cabeça…»

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« Foi encantador, disse ele suavemente, volvendo a beijar-lhe o pescoço. – As pequenas pausas conferiram à melodia um toque comovente. Voltou-se, alinhando o tronco com o dela. Vós sois encantadora, sussurrou, aproximando a cabeça dela da sua. Ele deu-lhe um beijo quase lânguido. Mais um beijo amoroso do que um arroubo, que lentamente se tornava mais profundo, despertando algo dentro dela que ela não controlava, algo que se fizera expectante após longa abstinência. Uma expectativa deliciosa acordou e percorreu-lhe todo o corpo de uma forma escandalosa. Reyna devia afastá-lo, mas Melissa, a cortesã, certamente não o faria, e como tal aguentou, com a consciência dolorosa de que o seu sofrimento não era, nem de perto nem de longe, tanto como deveria ser. Tentou travar a sua reacção escandalosa e a sua mente desnorteada começou a entoar repetidamente uma ordem silenciosa, que ele dormisse, raios, que dormisse.

Ele afastou-se dela. A expressão do seu rosto era indescritível. Calor. Desejo. A promessa do prazer revelado. Estava apoiado num braço e o seu tronco nu quase tocava no ombro dela. Aquela chama proibida dentro dela regozijou contra a sua vontade. Ela não conseguia tirar os olhos daquele rosto incrível. Não conseguia mexer-se. Não vos sintais constrangida, disse ele. Decerto é permitido que desfruteis uma vez ou outra. Ele baixou o olhar e passou os dedos pela orla do vestido dela, no alto dos seios. Curvou-se e beijou a pele exposta pelo decote generoso. Ela sentiu o corpo inteiro ser percorrido pelo mais estranho dos arrepios.

Observou, hipnotizada, aquela mão libertar o seu ombro do tecido. É importante que ele beba o vinho todo antes de tentar despir-vos. Recompôs-se. Inclinou-se para trás e soltou um risinho forçado. Tentou comportar-se como a cortesã experimentada determinada a conduzir o jogo de uma certa maneira. Já acabastes o vosso vinho, disse, fazendo menção de pegar na garrafa de vidro e na taça. Deixai que vos sirva mais um pouco. Carradas dele. Ele lançou-lhe um olhar que dizia que seria à maneira dela, mas não durante muito mais tempo. Regressou para o almofadão e deitou-se. Ela virou-se a tempo de ver a taça nos lábios dele.

Tentou impor controlo ao sangue desassossegado das suas veias. Agora falamos, disse ela com firmeza. Acabai o vosso vinho e dizei-me como viestes aqui parar. Sou eu que falo? Sois vós a treinada na arte da conversação. Sou treinada para ouvir. Os homens gostam de falar deles próprios, e nós ouvimos. Eu não tenho prazer em falar de mim. Falai vós.  Eu? Sobre o quê?  Podeis falar sobre mim. Podeis dizer-me como sou belo e admirar o meu rosto e o meu corpo. As mulheres fazem sempre isso. Fazem-no, deveras? Que conveniente ele vir recordar-lhe a sua presunção precisamente quando precisava de ajuda para não gostar dele. Se este garanhão enfatuado esperava vê-la a suspirar pela beleza dele, ele que pensasse outra vez… Ela suspirou, de facto, mas pela inutilidade do rancor que sentia. O vinho devia fazer efeito muito em breve. Deus sabia que ele tinha bebido que chegasse. Com um esgar, virou-se para ele. Os olhos dele aparentavam estar fechados. Ele pegou na mão dela e pousou-a no peito dele, o que fez com que ela se aproximasse um pouco, e ela reparou que as pálpebras dele estavam um tudo-nada abertas e que ele a observava. Não, ela talvez não se importasse minimamente de o matar depois desta humilhação.

Ela pôs um sorriso no rosto e começou a traçar com os dedos as linhas dos ombros e dos músculos do peito dele. Dava voltas à cabeça à procura de frases apropriadas. Sem dúvida que sois um homem muito bem-parecido. Olhos muito belos e um sorriso encantador. E o vosso corpo é forte e atlético. Santo Deus, as cortesãs e meretrizes mereciam decididamente cada centavo. Adormece, seu idiota presunçoso. Não é entroncado e peludo como alguns guerreiros. Do que gostais mais? A voz dele parecia sonolenta e arrastada. Hã… bem, estas concavidades ao longo da vossa clavícula são muito atractivas. A mão dele ergueu-se, lânguida, e envolveu-se no cabelo dela. Puxou-a delicadamente, encaminhado-lhe a cabeça para baixo. Então beijai-as, senhora. E depois, tudo o resto. Não está o maior talento de uma cortesã na sua boca?  

Ela apercebeu-se de que o seu rosto estava a centímetros do dele e daqueles olhos ardentes que a olhavam por entre as pálpebras semicerradas. Os seios dela pairavam mesmo acima dele, roçando-o ao de leve, e sentia um formigueiro no seu corpo ridículo, traiçoeiro. Contrariada, dobrou o pescoço e encostou os lábios à concavidade acima da clavícula dele. Pele. Calor. Aquele cheiro masculino inebriante. Uma mão doce, mas dominadora na sua cabeça encaminhava-a mais para baixo, para o peito. Adormece, maldito sejas. Ela beijou-lhe o peito e tentou não prestar atenção à espantosa e assustadora intimidade que tal acção evocava. Ele era o inimigo, um estranho, e ela odiava-o, mas algo dentr dela ignorava isto.

Ele conduziu-a mais para baixo, para o tronco, e barriga… De repente, a mão que tinha na cabeça ficou mole. Ela susteve a respiração e aguardou pela imobilidade absoluta que indicava que ele dormia.  Cuidadosa, esgueirou-se para longe do corpo dele. O braço dele caiu, lasso, ao lado do corpo. Puxou para si o cesto e despejou o resto das empadas. Afastou o pano mal cosido que compunha um fundo falso e cravou os olhos no punhal de aço escondido por baixo dele. Por Alice e as outras mulheres. Sim, até por Margery. Por Reginald, e até mesmo por Thomas». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela ajoelhou-se ao seu lado e levantou o pano que cobria o cesto. Preparou as empadas de carne e a taça e, em seguida, serviu o bom vinho de Bordéus. Ofereceu-lhe a taça»

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«Ele aproximou-se ainda mais, impondo o seu tamanho e masculinidade. Ela começou a arranjar desculpas para se ir embora. Estes homens parecem mercenários. Será que vos obedecem? Sem dúvida que o seu pagamento serão os despojos. São mercenários, mas são os meus mercenários, e obedecer-me-ão. Morvan Fitzwaryn paga em prata, não com a promessa de pilhagem. Provavelmente esperam que haja alguma, mas não faz parte do acordo. E se vos acontecer alguma coisa? Não tinha percebido que as pessoas do povoado me tinham enviado uma advogada juntamente com a cortesã. Os vossos favores requerem primeiro um contrato em que se cubram todas as eventualidades?

As palavras e o olhar dele lembraram-lhe quem ela pretendia ser e a razão pela qual se encontrava ali. Pensou no perigo que corriam os inocentes da casa-torre se a fortaleza sucumbisse, e na morte horrível que a aguardava se tal não acontecesse. O seu plano era a única forma de solucionar ambos os problemas. Vamos despir-nos, Melissa, para que possais mostrar-me essa grande arte que é a vossa. Olhou, tranquilo, para a enxerga. –

Não se adequa muito a uma cortesã. Preferis que estenda algumas peles no chão? Assim há mais espaço. Com passos largos, foi até ao outro lado da tenda e espalhou algumas peles grandes pelo chão. Sim, assim é melhor. Começou a desapertar o nó das calças. De quatro da primeira vez, parece-me. Ela testemunhou horrorizada este desenrolar demasiado rápido dos acontecimentos. Sir Ian, não estais a compreender. Tal como vos disse, não sou meretriz. Sou cortesã. Fazemos as coisas de forma diferente. A sério? E eu determinado a fazê-lo de todas as maneiras que houver. Estou desejoso de aprender algo de novo. Sim, matá-lo não seria de todo difícil. Não foi isso que eu quis dizer. As cortesãs não se limitam a copular como animais. Nós criamos todo um ambiente, toda uma experiência. Há bastante preparação e relaxamento antes. As mãos dele largaram as calças. Tereis de me ensinar, senhora. Não passo de um simples cavaleiro. Estou habituado a meretrizes que se sujeitam à vontade de um homem. Estou a ver que convosco, cortesãs, se passa tudo ao contrário.

Tereis tudo aquilo que desejais, e mais ainda. Mas fui treinada em várias artes além dessa. Música, conversação… Certamente que, depois de viver pouco melhor do que um animal nestas tendas, vos agradará um serão cortês. Deixai que vos mostre. Com passos firmes, foi até às peles, pegou em algumas bolsas que estavam por perto e compôs com elas um encosto numa das beiras. E agora, descansai. Pronto. Não é melhor assim? Ele deitou-se em cima das peles, com a cabeça e os ombros reclinados nas bolsas. Ela ajoelhou-se ao seu lado e levantou o pano que cobria o cesto. Preparou as empadas de carne e a taça e, em seguida, serviu o bom vinho de Bordéus. Ofereceu-lhe a taça.

Ele bebeu com calma e deteve os olhos nela. Não bebeis? Não. Fico menos capaz. Não queremos que tal aconteça, pois não? Ele provou uma empada e ergueu as sobrancelhas em sinal de aprovação. Se suplantais as rameiras do acampamento, ainda estamos para ver, mas a vossa comida suplanta decididamente a cozinha daqui. Um sorriso tonto iluminou-lhe o rosto e, antes de se recompor, Reyna quase se lançou numa explicação das plantas aromáticas que utilizara. Desejais que toque flauta enquanto comeis?

Sem sombra de dúvida. Trata-se de uma experiência rara para um pobre cavaleiro como eu. Não quero perder nada. Apoiou-se num cotovelo. Ela tentou não olhar para a taça que se movia em dire ção aos lábios dele. Mais. Uma boa golada. Ela começou a tocar uma melodia lenta no instrumento. Enquanto tocava, pensava nos minutos seguintes e naquilo que teria de fazer. Rezou para ter coragem para levar a cabo a sua missão.

Tal faria com que o cerco fosse levantado pelo menos por alguns dias, até Morvan Fitzwaryn descobrir o que tinha acontecido e enviar mais homens para lá. Entretanto, os outros poderiam ir para norte, até Clivedale. Pelo canto do olho, viu Ian pousar a taça de vinho. Estava vazia. Ela suspirou de alívio e tocou uma nota em falso. Falhou outra quando dois dedos tocaram no seu braço e lhe subiram, vagarosos, até ao ombro.

Movimento atrás dela. Mãos que lhe afastavam o cabelo para cima de um ombro. Um rosto que passava ao de leve pelo seu pescoço e uma respiração cálida na sua pele. Um beijo no seu ombro e dentes que lhe roçavam a orelha.  Ela olhava fixamente para a lona branca, perplexa por as atenções deste estranho estarem a perturbá-la e a deixá-la sem fôlego. A melodia perdeu-se num desastre de sobressaltos.  Ela baixou a flauta e dirigiu-lhe um olhar céptico. O rosto dele estava a centímetros do dela, e só lhe via os olhos abrasadores e a boca sensual. Não parava de olhar para a taça vazia. Adormece. Infelizmente, sir Ian não parecia nem um pouco sonolento». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Disseram-me que este exército pertence a Morvan Fitzwaryn. É um facto, mas aqui sou eu quem manda. Morvan está ocupado noutras bandas. O exército principal está em Harclow»

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«Mas ela viu outra coisa enquanto ele a observava. Viu-a na postura descontraída do seu corpo e no brilho do seu olhar e no próprio sorriso. Presunção. Arrogância. Orgulho. Inabalável autoconfiança. Viu o quanto ele tinha consciência do efeito que o seu rosto e o seu corpo tinham sobre ela. Sobre todas as mulheres.

Ela já havia encontrado homens assim antes. A casa de seu pai tinha-os aos montes. Talvez ela não se importasse tanto de o matar, afinal. O que fazeis aqui?, repetiu ele. Ela recompôs-se. Fui chamada pela povoação de Bewton. Enviaram alguém a Glasgow para me contratar. As pessoas de lá queriam ter a certeza de que a sua oferta vos agradaria, sir Morvan. Oferta? Estais a dizer que a cidade comprou uma meretriz… Sou Melissa, cortesã, disse ela num tom pouco pacífico.

Asseguro-lhe que não sou meretriz nenhuma. É por essa razão que aqui estou. A cidade não confiava um dever destes às suas alcoviteiras. E qual é o propósito desta oferta? Esperam que, se esta vos comprouver, poupeis a povoação e refreeis o vosso exército. E viestes para me persuadir? Ele deu uma volta ao seu redor, examinando-a como a um animal para venda. Ela quase contava que ele abrisse a boca num bocejo, anunciando que ela não serviria de todo. O cavaleiro que desse uma tal ordem aos seus homens teria de se encontrar deveras satisfeito. De que serve conquistar sem proveitos a haver?

A povoação pagará tributo. Haverá espólio o bastante. São as pilhagens e as violações bárbaras que pretendem evitar. Ele estendeu um braço e acariciou-lhe o cabelo, pegando em parte dele, deixando que o seu olhar e os seus dedos percorressem o seu considerável comprimento. Dissestes que vos chamáveis? Melissa. Podeis não ter ouvido falar de mim, mas fui treinada pela famosa Dionisia. Não me pareceis uma cortesã, Melissa. Sempre presumi que eram mulheres voluptuosas. Vós sois fracota e escanzelada de mais para tal. Um cabelo adorável, porém. Uma cor invulgar. Muito ténue, como tecido de luar. Ele ainda segurava a ponta da comprida madeixa de cabelo, que pendia entre os dois como uma tira de seda.

O que vós chamais de fracote e escanzelado, grandes senhores consideram mimoso e delicado, sir Morvan. Além do mais, os dotes de uma cortesã tornam esses pormenores insignificantes. Contudo, é evidente que sois grosseiro nas vossas preferências. Vou regressar e dizer aos anciãos da aldeia que eles se enganaram. Não. Foi uma estratégia brilhante. Tem apenas um senão, e não é o vosso tamanho. Ele ainda tinha os dedos no cabelo dela. Eu não sou sir Morvan. Mas esta é a tenda maior e está no centro do acampamento. Disseram-me que este exército pertence a Morvan Fitzwaryn. É um facto, mas aqui sou eu quem manda. Morvan está ocupado noutras bandas. O exército principal está em Harclow.

Não admira que não tivesse chegado ajuda. Todos na torre haviam presumido que Morvan Fitzwaryn montara cerco primeiro a este feudo, que era periférico, para ter uma posição avançada antes de tentar conquistar Harclow, mais impressionante, mas o homem atacara ambas as fortalezas de uma vez só. E Clivedale também? Qual seria o tamanho deste exército? Ela refez rapidamente os seus planos. Se aqui era este o homem que estava no comando, à partida o plano era tão bom para ele como para o seu amo. Se não sois Morvan Fitzwaryn, quem sois, então? Ian de Guilford.

E sois mesmo quem comanda aqui? Sim. O destino desta torre e da povoação vizinha estão nas minhas mãos. Se eles vos mandaram para negociar, tendes o nome errado, mas o homem certo. A oferta deles destinava-se a mim.

A franqueza com que ele a olhou deixou-a em absoluto desassossego. O olhar dele continha as consequências do fracasso nas quais ela evitara cuidadosamente pensar. A sua coragem desapareceu num piscar de olhos. – É lamentável, então, que eu não seja do vosso agrado. Vou retirar-me imediatamente. Insisto que fiqueis. Se assim não for não tereis o vosso pagamento, e percorrestes uma longa distância. Foi indelicado da minha parte criticar tal oferta. Além disso, se fostes treinada pela famosa Dionisia, duvido que haja lugar a desilusões». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Tinha visto este homem do cimo da casa-torre. Ele era mais alto do que a maioria, mas quando todos não passam de um pontinho ao longe isso não quer dizer grande coisa. Contudo, ela era mais baixa…»

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«Sendo assim, que o Senhor vos acompanhe. Reyna atravessou a entrada e ficou em pé entre os arbustos. Cinquenta metros mais à frente estavam os acampamentos que circundavam a torre. Não era um exército numeroso, mas era suficientemente grande para assegurar que ninguém saía nem provisões entravam. Não tinha havido tentativas de assalto, ninguém a escalar muralhas, nem máquinas de guerra a arremessar fogo e pedras. Tampouco houvera negociações. Apenas dois meses de um inabalável cerco.

Homens circulavam pelo acampamento, os seus movimentos indolentes com o calor do verão. Não envergavam muita roupa e o sol bronzeara os seus corpos. Um punhado havia adotado os kilts, mais frescos, dos escoceses. Mas estes homens não eram escoceses.

Ingleses, pensou ela com repulsa, e a simples ideia deu-lhe renovada determinação. Os ingleses haviam sido os monstros da sua infância e os inimigos da sua juventude. O seu rei escocês podia ter aceitado a derrota pelo rei Eduardo de Inglaterra há dez anos, mas não havia escocês algum, especialmente das fronteiras de Cúmbria e Northumberland, que se submetesse prontamente à autoridade que os ingleses reclamavam.

Ela sabia tudo sobre os soldados ingleses e sobre o que aconteceria se os sapadores deles conseguissem atravessar as muralhas. Há gerações que se repetiam descrições das atrocidades dos ingleses. Ela obrigou-se a imaginar pessoas que conhecia a serem esquartejadas e torturadas, granjeando força dessas imagens horríveis. Não estava na sua natureza fazer o que planeara fazer agora, mas não via outra alternativa. Esperava que Deus acorresse em seu auxílio, e que depois a perdoasse.

Saiu disparada do meio dos arbustos e caminhou na diagonal até aparentar ter vindo de um dos caminhos a norte. Os homens examinaram-na, avaliando o significado do seu cabelo solto e do vestido de seda. Ela avançou a passos firmes, dirigindo-se ao acampamento ocidental e à tenda grande que se encontrava no seu centro. Quando a avistou, abrandou. Uma vez lá dentro, não haveria retorno.

Um assobio lascivo captou a sua atenção. Dois cavaleiros trocaram um sorrisinho irónico e começaram a caminhar em direcção a ela, fazendo sons obscenos com a boca, zombando dela. Reyna sentiu um arrepio na pele e fez a correr os últimos metros até à tenda grande com galhardetes verdes e brancos.

Um escudeiro estava à entrada, a limpar armas. Ergueu os olhos, perplexo, quando ela avançou decidida na sua direcção, passou a correr por ele, e se enfiou na tenda. Ela rezou para que o homem que procurava estivesse lá dentro e que os outros não a seguissem.

De qualquer forma, isso não queria dizer nada, pois ele podia simplesmente encolher os ombros e deixá-los levá-la. A lona branca criava uma luz difusa, suave, e ela precisou de algum tempo para ajustar a visão. Passou os olhos pela pouca mobília da tenda; um catre, uma mesa e um baú. Uma armadura polida brilhava no chão a alguns passos dela. Não se ouvia um único som naquele espaço. Foi então que uma sombra se moveu. Um homem ergueu-se do banco onde estivera sentado com as costas apoiadas no mastro central da tenda. O que fazeis aqui?, perguntou ele num tom ríspido. Ela ficou parada a olhar.

Tinha visto este homem do cimo da casa-torre. Ele era mais alto do que a maioria, mas quando todos não passam de um pontinho ao longe isso não quer dizer grande coisa. Contudo, ela era mais baixa do que a maioria, e a diferença marcada entre a altura deles fez com que, de súbito, ela ficasse profundamente consciente da sua vulnerabilidade. O que ela não vira da torre era o quão belo ele era. Pestanas espessas suavizavam e emolduravam olhos escuros, sérios, que, à luz da tenda, eram como duas manchas. Ossos pronunciados moldavam-lhe a face e o queixo. Uma boca larga, direita, de lábios algo carnudos, exigia a sua atenção. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros e estava preso na testa por uma faixa de tecido enrolado.

Envergava apenas umas calças largas à camponês, cortadas acima do joelho. As pernas eram bem torneadas, de músculos esguios e linhas definidas. A mesma elegância atlética que lhe moldava os ombros largos e lhe esculpia o peito. Com aquela roupagem primitiva, fazia-lhe lembrar os guerreiros antigos acerca dos quais lera nos livros de Robert. Ele era o inimigo, mas isso não a impediu de ficar sem fôlego.

Magnífico. Assombroso. Pena ela ter de o matar. Ele caminhou até ela. Avaliou sobranceiramente o seu vestido, cabelo e faces rosadas enquanto retirava a faixa da testa e passava mão forte pelo cabelo. Ela esperava que ele não conseguisse vê-la corar, pois a mulher que era hoje nunca se deixaria desconcertar pelo escrutínio de um homem, por muito belo que ele fosse.

A expressão dele aligeirou-se e ergueu uma sobrancelha inquiridora. Havia compreendido a única parte que precisava de saber. Sorriu. Santo Deus, que sorriso. Lábios juntos, direitos, que mal se erguiam nos cantos da boca. Absolutamente encantador, subtilmente sugestivo, vagamente escarninho. Covinhas sedutoras surgiram de um lado e do outro da boca. Aquele rosto belo e aqueles olhos insondáveis de distantes e pensativos a sensuais e afáveis». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Mas não lhes chegara auxílio nenhum e agora seria uma questão de dias até os sapadores alcançarem a muralha exterior. Ainda mais preocupante era uma segunda escavação, que avançava no lado sul da fortaleza»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eles não têm absolutamente nada em comum. Lady Reyna é uma mulher virtuosa e erudita, que preferia morrer a quebrar uma promessa ou voto. Ian de Guilford é um sensual mercenário, um cavaleiro errante cujo temperamento fogoso lhe valeu a alcunha de Senhor das Mil Noites. Ela não conhecia a sua fama quando, fazendo-se passar por cortesã, transpôs as linhas inimigas com um plano desesperado para salvar o seu povo. Agora que está frente a frente com o guerreiro a cujos encantos, diz-se, é impossível resistir, Reyna apercebe-se de que subestimou o seu inimigo. Ele está decidido a tudo para subjugar a sua virtude. A bem do seu povo, ela não pode ceder... e a sua audácia leva-a a fazer algo com que nunca sonhou: pôr em jogo o seu coração».

Fronteira Escocesa, 1357

É importante que ele beba o vinho todo antes de tentar despir-vos.  A instrução era somente a última de uma litania de avisos que Reyna ouvira enquanto avançava às apalpadelas pelo túnel cavernoso. Apertou a mão grossa da mulher maternal que a acompanhava.  Farei tudo como planeado. Parecem um bando de rufias e este cerco deve ser entediante. Ele deve ficar satisfeito por poder distrair-se. À maior parte dos homens, só lhes interessa uma distração, minha filha. É esse o perigo, não é?  Não vos preocupeis com isso.

A escuridão total do túnel aterrorizava Reyna, que por isso se apressava, com uma mão segura na de Alice e a outra na parede. Sons ressoavam através da pedra que ela tocava. Sapadores escavavam o seu próprio túnel não muito longe deste. Ao longo dos meses, ela viera até esta saída secreta, de archote na mão, e pusera-se à escuta, a averiguar os progressos deles. A princípio não se preocupara, porque chegaria seguramente ajuda antes de eles completarem o seu trabalho. Não era um exército grande, o que cercava a casa-torre, e uma pequena hoste, tanto de Harclow como de Clivedale, conseguiria facilmente levantar o cerco. Mas não lhes chegara auxílio nenhum e agora seria uma questão de dias até os sapadores alcançarem a muralha exterior. Ainda mais preocupante era uma segunda escavação, que avançava no lado sul da fortaleza.

As mulheres depararam com um cotovelo apertado, à direita. Um fiapo de luz infiltrava-se pela abertura estreita, escavada por trás de uma formação rochosa que a ocultava. Arbustos espessos providenciavam uma camuflagem adicional, e só alguém que examinasse cuidadosamente todo o terreno tinha alguma hipótese de a encontrar. Este exército não o fizera até então, e Reyna sorria com a ironia daquelas escavações todas quando a poterna se encontrava a escassos passos de distância. De manhã já sabereis se fui bem-sucedida, Alice. Ficai de vigia na torre e alertai sir Thomas e Reginald. Reyna pegou no cesto que Alice transportava e tentou aparentar coragem e calma. Vou primeiro à minha mãe, e de lá para Edimburgo. Mando avisar-vos quando já estiver em segurança e podereis vir ter comigo». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

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terça-feira, 22 de março de 2022

Deslumbrante. Madeline Hunter. «A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna»

 

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 «(…) Demais então. Avise a Fenwood para não recebê-la na próxima vez. Não permita que ela se assenhore do seu apartamento e entre nele a seu bel-prazer. Existira sempre o perigo de a mãe deles transformar Morgan numa criança assim que tivesse a oportunidade. Intrometia-se, o mimando e dominando, até ele perder o direito de ser um homem distinto. Esse havia sido o motivo de Sebastian se mudar para aquela casa quando o irmão voltou da guerra. Sua presença assegurava que a mãe não expandiria demais o seu domínio, especialmente no que dizia respeito ao filho mais velho. Sempre foi melhor em lidar com ela do que eu. Como em tantas outras coisas, declarou Morgan. Não havia nada que dizer adiante daquilo, por isso ambos voltaram-se aos jornais. Disse que esteve perto de Brighton, ontem? Ouviu alguma coisa acerca do espectáculo no Duas Espadas? Espectáculo? Morgan estreitou os olhos para ler as letras impressas. Deixou sair um sorriso. Um homem levou um tiro de uma amante. Aquilo é que deve ter sido um bom teatro. Ele não morreu, parece. Mesmo assim, não se deve ter falado de outra coisa lá em baixo. O que está lendo aí? Morgan corou. Um dos jornais cor-de-rosa da nossa mãe. De Brighton? Londres.

Maldição! Sir Edwin estava certo. A história provavelmente chegara à cidade antes de qualquer uma das suas vítimas. Evidentemente, não havia nomes no jornalzinho, porém. Ainda. O ritual terminou às onze horas. Sebastian se despediu e voltou ao próprio quarto. O criado pessoal o saudou com uma carta selada na mão. O endereço não estava correcto, meu senhor. Sebastian pegou a carta. Escrevera-a para miss Kelmsleigh e enviara-a por um mensageiro para a casa do pai. Não vivem mais lá? Mrs. Kelmsleigh sim, e miss Sarah Kelmsleigh. Audrianna Kelmsleigh, porém, não. O lacaio perguntou e lhe disseram que ela fora morar no Middlesex, perto da aldeia de Cumberworth. Sebastian levou a carta para o quarto. Abriu uma gaveta e olhou para a pistola que trouxera do Duas Espadas. Suas tentativas de devolvê-la de forma discreta não tinham dado certo. Podia mandar o despachante a Cumberworth. Se miss Kelmsley havia se mudado para o campo, bastariam algumas perguntas para localizá-la. Podia igualmente embrulhar a pistola e dá-la ao criado, e dar o assunto por encerrado. Viu a pistola numa mão suave, feminina. Viu olhos verdes de mulher cintilando de vida, depois acendendo de fascínio e paixão, e, por fim, esmaecendo de melancolia. Imaginou ela atravessando a hospedaria até à carruagem, fingindo não reparar que os outros clientes olhavam e sussurravam. Disse ao criado para mandar buscar o cavalo.

Cumberworth continuava uma aldeia rural, mas Londres se aproximava a cada ano que passava. Já fora absorvida pelos subúrbios da cidade, um dos muitos vilarejos do Middlesex que viam recém-chegados se misturar com velhos residentes e agentes imobiliários decompor quintas em pequenas propriedades para as famílias prósperas da sua vizinha maior. A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna.

O Baron’s Board não estava muito cheio às duas da tarde e a cerveja de Sebastian chegou rápido. Bebeu em pé, submetendo-se à inspecção curiosa do proprietário. Também está assim húmido na cidade?, perguntou o homem, secando canecas de cerveja. Pior, respondeu Sebastian. Está a caminho de um lugar mais seco? Não, vim à procura de uma pessoa para tratar de negócios. Talvez a conheça. Miss Kelmsleigh. O proprietário estalou a língua… Eu conheço ela e as amigas. Todas as pessoas de Cumberworth conhecem as hóspedes de mrs. Jones. Ah, conhecem? Acho que miss Kelmsleigh é prima dela, não sua hóspede. É difícil saber do que chamar aquelas mulheres, não acha? O resto não são parentes, não me parece. Só um grupo de mulheres que vieram de visita e nunca mais foram embora. Mrs. Joyes vive na aldeia? Tem propriedade a pouca distância. Uma casa boa e um bom pedaço de terra. Cultiva flores numa estufa grande. Vende-as em Londres a floristas chiques. A casa dela fica um tanto afastada da rua, por isso há uma placa pintada no local onde é preciso virar. Flores Preciosas, é assim que o negócio dela se chama. Estalou novamente a língua. Até parecem boa gente. São reservadas. Não há razão para pensar que haja alguma coisa imprópria, mas as pessoas falam, não é mesmo? Sem dúvida. Sebastian acabou de beber a cerveja e pediu indicações para chegar ao letreiro do Flores Preciosas. Quinze minutos depois, seguia pelo caminho privado que conduzia à casa de mrs. Joyes». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

domingo, 18 de julho de 2021

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Estive perto de Brighton, explicou Sebastian. Fui verificar uma coisa relacionada com aquela questão das munições. Pode ter-se tratado apenas de negligência…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Agora todos o tratavam por dr. Fenwood, para Morgan manter a pequena pretensão de que a pessoa que o ajudava com uma intimidade por vezes escandalosa era um profissional da medicina. Existiam muitas ilusões semelhantes naquela casa, com todos se esforçando para preservar a dignidade de um homem bom. A saúde do marquês hoje de manhã está óptima, informou Fenwood. O título lhe subira ligeiramente à cabeça e ele avançava sua opinião como se soubesse a diferença entre a saúde estar ou não boa. A disposição do marquês também está boa. Era essa a informação que Sebastian realmente queria. O irmão com frequência sofria de surtos de depressão. Os médicos verdadeiros haviam avisado desde o início que se tratava de uma coisa comum em inválidos. Entrou no aposento que servia de pequena sala de estar ao amplo domicílio do marquês. O irmão não ouviu a porta se abrir e continuou a ler a correspondência. Havia um tanto dela. A alta sociedade ainda enviava convites, sabendo que nunca seriam aceitos. E Morgan, terceiro marquês de Wittonbury, lia cada um deles, como se pudesse escolher ir a alguns jantares festivos.

A cadeira de Morgan era recostada à janela, pela qual podia olhar a cidade. Tanto a mesa como um cobertor negro obscureciam qualquer vislumbre das pernas imóveis que o haviam feito prisioneiro daquele aposento desde que fora transportado para casa vindo de uma guerra à qual se juntara nobre e idealisticamente, tardia e impulsivamente. O facto de Morgan ter comprado a patente com a guerra em estado tão avançado sempre pareceu a Sebastian uma ironia impossível. Dava vontade de perguntar se a retirada francesa na campanha peninsular tinha sido programada para o destino arruinar a vida de Morgan. Sebastian ocupou seu lugar na cadeira que ficava diante do irmão e se serviu de café da cafeteira que o aguardava. Nenhum criado ficava por perto, para não importuná-los naquela rotina que os dois partilhavam. Morgan levantou os olhos da carta que lia. Que bom que está de volta. Não contava que a chuva me atrasasse ontem. Normalmente, se faltasse às visitas matinais, Sebastian avisava Morgan. No dia anterior não fora possível, claro. Sebastian não se importava com esta imposição à sua rotina. Ele próprio a criara, ao iniciar o hábito e permitir que o irmão dependesse dele. Actualmente Morgan tinha tão poucos visitantes que só lhe restava a companhia da família para quebrar o tédio do dia. Não obstante, enquanto Sebastian justificava a ausência do dia anterior, percebeu que sua vida mudara em comparação com a do irmão. A paralisia que encerrava Morgan naquele aposento, vivendo uma vida tragicamente alterada, também mudara radicalmente o destino de Sebastian.

Estive perto de Brighton, explicou Sebastian. Fui verificar uma coisa relacionada com aquela questão das munições. Pode ter-se tratado apenas de negligência, como todos pensam. Não acredita realmente nisso. Não. Morgan olhou pela janela, mas na verdade sua visão voltava-se para dentro. Para as memórias da guerra, suspeitou Sebastian. Morgan seguira o escândalo de perto, incrédulo com os relatos jornalísticos de uma companhia que ficara indefesa por causa de má pólvora. O marquês de Wittonbury quis que fosse feita justiça aos soldados mortos e Sebastian quis que o irmão conhecesse a satisfação de ver os camaradas de armas finalmente vingados. Ficou sabendo de alguma coisa? Posso ter descoberto um homem que sabe alguma coisa. Ele pode ter uma informação que acabe revelando a verdade. Finalmente. Morgan assentiu distraidamente. Pegou num dos jornais impecavelmente passados a ferro que aguardavam a sua atenção. Sebastian fez o mesmo. Aquelas visitas haviam-se tornado rotina. Ritualizadas.

Nossa mãe esteve aqui de visita ontem à tarde, comentou Morgan enquanto perscrutava o periódico. Queria falar sobre você. Bom, aquilo não era rotina. Mesmo? A-hã... Quer que eu lhe diga que deve casar-se. Escolheu várias moças que se adequam. Tenho certeza de que ela pensa que sim. Eu disse a ela que não devia iludir-se e pensar que tenha mudado tanto assim. Sugeri que aquilo que ela vê como uma nova página é apenas uma película que obscurece as folhas antigas. Discrição não é o mesmo que arrependimento ou mudança. Obrigado. Ficou muito decidida e imperiosa... Bom, sabe como ela é. Tem visitado muito estes dias? Morgan encolheu os ombros. Mais do que antes». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

 Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber,