Mostrar mensagens com a etiqueta Nun'Alvares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nun'Alvares. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Infante Henrique. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Pois o pae mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão…»

jdact

A Tomada de Ceuta
«(…) Nun’Alvares desceu a estreitar nos braços o antigo companheiro de armas, e divagando os dous em passeio, João I narrou ao amigo tudo o que havia acerca do designio da empreza de Ceuta. Ouvio-o o condestavel serenamente a principio, mas depois as lagrimas soltaram-se-lhe de entre as palpebras cansadas, e proferiu, tremente a voz: pois eu vos digo que esse feito foi inspirado por Deus! João I exultou com o parecer de Nun’Alvares e comoveu-se tambem. E os dous entreolhando-se, sentiram a um tempo nos corações amigos a mesma saudade pelos dias idos de gloria e ardor. Porém era necessario cuidar dos novos que tambem almejavam glorioso futuro. E o condestavel, sempre bom, sempre leal, recommendava ao rei: reuni conselho que eu serei comvosco. Separaram-se. O rei e o infante Pedro volveram a Santarem e os dous outros infantes foram para Evora, de onde haviam partido. Os infantes socegaram e razão tinham. Pois o pae mandara trigosamente cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arraes, pintitaes, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Alfonso Azambuja dava ordem a Ruy Peres Alandroal, thesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, á uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os Anadeis para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forças nos alcaizes, ou livros de revistas. A azafama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Magdalena e de Villa Nova, os arcabouços das galés e naus e galeotas em construcção arqueavam-se como costellas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos dobadoyras aprestavam-se a lançar á agua as embarcações já promptas; estrinqueiros torciam e retorciam a cordoalha; enxerqueiras preparavam carne e pescado para as armadas; accorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alemtejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo commandal’as e fazel’as embarcar na frota que organisava; e as do Minho e Traz os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcellos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João Basto levantavam um grande numero de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o rei a reunir. Tivera elle lugar em Torres Vedras.
Viera o rei João I, de Cintra, e os infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Approximava-se o infante Henrique da villa e encontrando o pae, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E accrescentara: quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que va primeiro por ella, que outro algu. E o pae, rindo, retorquiu-lhe: em tempo proprio te darei resposta. E foram todos ao conselho: rei, infantes, Nun’Alvares e os maioraes da corte. O condestavel dissera a João I que apresentasse o negocio como feito já determinado, e socegava-o: fallai assim que eu serei comvosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reuniao, missa do Espirito Santo. Depois o rei fallou, fallou, allegando não querer guerrear christãos e só almejar combater os infieis, em gracas a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos. O rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a fallar; desistiu comtudo em favor do condestavel, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarchal, grave, sereno, como uma visão do passado, alii mostrou na sua phrase suasoria toda a importancia e justica da empreza. E terminando ajoelhara-se aos pes do rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavalleiro. Todos se electrisaram ao ouvirem o condestavel; alii haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavalleiro-modelo, attentos, mas aquellas phrases suggestionadoras de impetos bellicosos, João Gomes Silva, um dos antigos, enthusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos elles já as cans se destacavam, e gritou-lhes: russos, além! Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabellos brancos, os russos tinham de ir levar os rapazes á conquista da gloria, pois não! Além! Além!, clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Galant de bien ferre, Memória Histórica, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de TCommercioPorto/1894/JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Henrique. O Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Fr. João Xira, eloquentemente, em sermão, revelou ao exercito o fim da empreza e em mais de um coracão houve um descoroçoamento. Combater em Africa?! Era a primeira vez…»

jdact

A Tomada de Ceuta
«(…) Anoitecia; a penumbra do crepusculo assemelhava-se a um phantasma estendendo-se no quarto da moribunda; para o poente uma lividez sinistra era a coloração do horisonte; as empenas das portas rangiam com a ventania forte. - De que lado sopra o vento? - perguntou a Rainha.
D. Duarte, carinhoso, a seu lado, respondeu: - Do Aguião, senhora. - É bom vento para a vossa partida. - Senhora, sim. - Pois ireis em dia de San Tiago. E cerrou os olhos, como que a adormecer, sorrindo.
No dia seguinte o momento fatal approximava-se. O monarca João entrava no quarto a estalar de soluços; os filhos levavam no para fora, consolando o; D. Filippa dirigia ao esposo um olhar de indizivel dôr, não podendo morrer. Os Infantes disseram ao pae que se retirasse; que se poupasse a tao grande dor. Reuniu-se conselho e deliberou se que o reo João fosse para Alhos Vedros. Amparado pelos filhos veio o heroe de Aljubarrota receber o ultimo abraço da esposa. Como louco, montando a cavallo, fugiu depois desorientado. E D. Filippa, de costas, no leito, mãos erguidas sobre o seio, tinha visões mysticas; apparecia-lhe Nossa Senhora a chamal'a, la do céo. E a tremer de goso a sua voz dizia , a custo: - Grandes louvores sejam dados a vós, minha Senhora, porque vos prouve de me virdes visitar do alto. Mudaram-a de cama, para morrer; commungou; foi ungida; ouviu rezarem-lhe em torno ao leito o officio dos mortos e finou-se. E os Infantes, frontes curvadas, lacrimosos, sahiram um a um do aposento. Na corte tudo foi tristeza; e até deu-se a coincidencia de n'esse dia da morte de D. Filippa haver um eclipse de sol, o sol ser cris, como então se dizia.
Depois dos funeraes, comecou a correr voz que a morte da Rainha era agouro do mau successo da empreza. Para que servia tao grande armada? murmurava o povo. No emtanto as galés e naus, fundeadas no Tejo, velas colhidas, sem flammulas nem galhardetes, a marinhagem n'um silencio triste, esperavam. Mas, de repente, dias depois do fallecimento de D. Filippa, içaram se nos mastros balsões e divisas, começou a azafama na multidão de galeotes e pitintaes, tangeram garridamente as trombetas, em ar de festa. O povo de Lisboa correu a beira do rio, espantadissimo. E no mesmo instante appareceu rio abaixo a galé do infante Henrique e n'ella o mesmo Infante, todo vestido de gala, e da mesma forma seus escudeiros e remadores. - O nosso Rei perdeu o siso! - diziam uns aos outros com espantos. - Sao artimanhas do Prior! - observava um, desconfiado. - Peste para elle! - rugiam alguns que ouviam o dito. E todos desapprovavam o proceder do Rei e dos Infantes. João I appareceu depois tambem a desembarcar no Restello; viera na galé do conde de Barcellos. Multidão enorme accorreu á praia, anciosa, de noute, com tochas. Sempre era certa a partida. Para que? inquiriam uns. E para onde ? interrogavam outros. E as almas retrahiam-se com o vago terror de perigos imminentes. E como a peste e fome flagellavam, e a Rainha havia morrido, e o sol estivera cris, todos diziam que o rei João ia buscar a perdição sua e do reino. Effectivamente ia ter lugar a partida da expedição.
Duvidara se algum tempo d'ella, após a morte de D. Filippa; reunira-se conselho, dividiram se as opiniões; sete diziam que se fosse á empreza, outros tantos que ella se adiasse. Pertencia a estes o Condestavel; João I e o Infante ficaram admirados da prudencia do heroe. Mas o infante Henrique todo se empenhou pela ida; lembrou as ultimas vontades da Rainha - ella dissera que partissem em dia de San Tiago; suggeriu a ideia de se vestirem de gala para levantar os animos: observou que seria um desaire deixar de executar immediatamente o que de tanto tempo já vinha preparado… João I escutou e assentiu no que Henrique lembrava; era o filho que mais se parecia com elle, bem o sabia. Todos depois apoiaram o decidido pelo Rei. O infante Duarte, esse, mais sentimental, guardou silencio, e sempre triste pensava na morte.

Com toques de trombetas e clamores, parecendo alegres, abalou a armada Tejo a fora, a 24 deJulho; e como um bando de gaivotas voando baixas, rente á superfície azulina do mar, os navios foram traçando uma curva alvejante até perderem-se de vista ao longe, encobertos pelos fraguedos de Cezimbra. Foram seguindo ao sul até á abra de Lagos. Fundearam ahi e o Rei desembarcou. Fr. João Xira, eloquentemente, em sermão, revelou ao exercito o fim da empreza e em mais de um coracão houve um descoroçoamento. Combater em Africa?! Era a primeira vez; havia um certo receio; eram inimigos desconhecidos da geração do Mestre de Aviz os infieis.
E de noute, ao scintillar das estrellas, pensava-se com saudade nos lares distantes. Era preciso, comtudo, partir; e assim todos fizeram. Foram a Faro e ahi, de noute, deu-se o seguinte caso na galé do infante Henrique; deitara-se o infante Duarte na coberta, a dormir, pois era grande o calor; mas acordando casualmente notou que a lanterna do barco se incendiara; ergueu-se o Infante e dirigiu-se a chamar o irmão Henrique, que immediatamente acudiu e lançou a lanterna ao mar, queimando-se nas mãos quando isto fez. No sabbado foram lançar ancora em Algeziras; timidos, os mouros d'ahi enviaram a João I seus presentes. E no emtanto a armada aproou ao Estreito, em comprida fila, como uma serpente. Passou ella, em meio de nevoas, por defronte de Tarifa; aqui imaginou-se que pelo mar deslisava uma ronda de phantasmas.
 - Que e aquillo? - inquiriam, das muralhas, olhando o mar, os de Tarifa. - Uma armada; decerto a do Rei de Portugal. – Impossivel - affirmava o fronteiro Martim Fernandes de Porto Carrero - nem todas as florestas de Portugal podiam dar madeira para uma frota tão numerosa. Mas um portuguez, que alli se achava, insistiu: que sim, que era a frota. E effectivamente, desprendendo-se os sendaes do nevoeiro, surgiu toda a armada, passando em frente, como um traço branco a regrar o horisonte. E assim foram indo até Malaga.
Em Ceuta, Zala-ben-Zala, o scheik; mandara convocar os kabilas, receioso da armada dos portuguezes; e entre a multidão dos mouros os terrores agoureiros perpassavam frios a gelar as almas; no Ramadan a lua estivera tres partes cris, e na outra tivera perto de si uma estrella enorme; havia alguem que sonhara vêr a cidade toda recoberta de abelhas; outro imaginara tambem em sonhos ver chegar pelo Estreito um leao coroado, com muitos pardaes a seguil'o. Outros mais fallavam em signaes precursores de desditas espantosas. E o scheik; mandara convocar os astrologos, sabedores das cousas do céo e dos futuros. Veiu a conselho o venerando Asmed-ben-Sille, almocadem de Tunis; durante duas horas o velho sabio nao pronunciara palavra, e a final, instado, só dissera que haveria sangue… porque a estrella Orion se mostrava em forma de espada. E tudo tremeu de inquietação».
In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Memória Histórica, Primeiro Pémio de Concurso no 5º Centenário, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

Henrique. O Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Todos eram em choro. D. Filippa cahiu sobre os travesseiros, de extenuada. A seu lado a Infanta D. Isabel, desgrenhados os seus cabellos cor de ouro, toda em lagrimas, gemia. Entreabrira os olhos a Rainha e disse, dirigindo-os para a Infanta: - Duarte, filho, olha por tua irmã e pelos nossos João e Fernando»

jdact

A Tomada de Ceuta
«(…) Sob o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a sair. Como o hortator vemigium das naves romanas o comitre das galés dera o grito da Eia, como o Age antigo. E os remos cahiram á uma nas aguas, que ferveram em espumas; e com um ranger de vigamentos começaram as naus deslizando rio abaixo. Á proa e á popa accumulavam-se os mais grados dos combatentes; nos bancos dos remadores, enfileiravam-se sentados, os galeotes a pintitaes. Eram sete as galés, commandadas respectivamente pelo Infante Henrique, conde de Barcellos; Fernando, senhor de Bragança, filho do Infante João e portanto primo de Henrique, Gonçalo Vasques Coutinho, marechal, filho de Brites Gonçalves de Moura, o heroe de Chaves e Almeida, rival de Martim Vasques Cunha, de Linhares, um dos verdadeiros preux da corte de João I, João Gomes Silva, alferes-mor, que em Torres Vedras dissera Russos além!; Vasco Fernandes Athayde, governador da casa do Infante; e finalmente Gomes Martins Lemos, que fora aio do conde da Barcellos.
As naus, em numero da vinte, mais ligeiras do que as galés birémes e triremes, levavam como capitães: o versatil Pedro Castro, filho de Alvaro Pires Castro; Gil Vasques Cunha; Pedro Lourenco Tavora; Diogo Gomes Silva; João Rodrigues Sá, o famoso Sá das galés do cerco de Lisboa, que as livrou da embuscada do conde de Mayorga, o furioso assaltante da villa de Guimarães e de Melgaço; João Alvares Pereira; Gonçalo Annas Souza; Martim Lopes Azevedo; Martim Affonso Souza; Fernando Alvares Cabral; Estevam Soares Mello, o primeiro qua chegaria as praias da Ceuta; Mem Rodrigues Refoyos; Garcia Moniz; Paio Araujo; Vasco Martins Albergaria, que ia ser o primeiro a entrar as portas de Ceuta; Alvaro Cunha; Alvaro Fernandas Mascarenhas e Ayres Goncalves Figueiredo, o ancião quasi centenario.
Depois galeotas, rotundas e pesadas, de carga; e uma innumeravel fustalha, embarcações ligeiras, pequenas, a remos ou a véla, avançando, cruzando-se umas com as outras, seguindo as margens, derivando no rasto das gales, galgando as ondinas como cabritos a pular pelos pastos. E todas as embarcações com suas bandeiras bordadas a ouro, seus galhardetes e flammulas de seda, seus toldes de damasco e brocatel; o balsão e a divisa do Infante Henrique sobrepujando todas as bandeiras dos fidalgos, onde se destacavam sens brazões e motes; e as trombetas soltando á cidade uns toques de despedida enthusiastas: - Á guerra! Á guerra!

NOTA: A divisa do Infante Henriqne consistia em huas capellas de carrasco bem acompanhadas de chaparia, E por meo hus motes, que dezião vontade de bem fazer; Talent de bien faire. E as suas cores erão brãco e preto e vis. In Azurara, Chronica de D. Joao I. Parte 3.

Sahiram a barra do Douro e aproaram ao sul. O Porto fez os maiores sacrificios para a sahida da armada da expedição de Ceuta. Os moradores da cidade deram para ella, a credito: arnezes, béstas, ferro, madeiras, cordoalha, vinho, carnes; pagaram a carpinteiros, calafates, marinheiros, etc. Repetidas vezes impetraram de João I que lhes pagasse o devido, e o Rei nada lhes deu, mas deixou recommendado ao herdeiro que lhes satisfizesse a divida; o rei Duarte I tambem nada pagou e egualmente deixou em recommendacao que não se esquecessem dos moradores do Porto, no tocante ás dividas da expedição africana. Passaram-se annos e o senado portuense mandou pedir ao Rei que, para descarrego das almas do pae e do avô, se dignasse satisfazer aquellas dividas, pois os credores até passavam necessidades; muitos já tinham morrido e viuvas e orphãos eram na miseria. Affonso V respondeu que era sua intenção pagar e logo que houvesse meios o pagaria (Capitulos especiaes do Porto, nas Cortes de Evora, 1442. Nunca.

De Lisboa vinha ao caminho Pedro esperar o irmão; assim lhe ordenara João I, de Sacavem, onde se achava com a Rainha, evitando a peste. Afinal ella havia-se resignado á partida do Rei; declarara-lhe elle terminantemente que tinha de ir na expedição, um dia que a procurara na sua camara. D. Filippa tinha então perto de si a Camareira-mor e a filha D. Maria Vasques, no estrado. Ouviram ellas as palavras do Rei e choraram. Olhou-as a Rainha com suavidade triste e disse-lhes: - Não choreis, antes encommendai a Deus o feito de Sua Alta Senhoria. E para o Rei teve ella coragem de dizer, suffocando soluços de afflicção: - Já que vos e mister ide, e que a vossa jornada seja muito do serviço de Deus e da vossa honra e de nossos filhos e reinos. E accrescentou que desejava bem que o rei João armasse cavalleiros os Infantes; ella cingir-lhes-hia as espadas. O rei accedeu e D. Filippa mandou dizer a João Vaz Almada que de Lisboa lhe trouxesse tres espadas bem adornadas e bem temperadas. E continuava vivendo com suas devoções.
Um dia, com o rebate da peste approximando-se, tiveram de abalar para Odivellas. O monarca João sahiu primeiro; a Rainha quiz ficar para assistir a um officio religioso em uma egreja da villa. Quando se achava lá foi atacada da peste. Participação immediata ao Rei, que voltou n'um prompto; e Affonso Annes correu á praia do Restello, á armada, a chamar Pedro e Henrique. Deixaram tudo e vieram acudir á mãe, que já ia começando a agonisar. Na sua camara, soerguida no leito, a pobre senhora chamou os filhos: - Ora vinde para perto de mim, vinde! Ajoelharam alli os tres; Duarte chorando como uma creanca; Pedro pallido como cera; Henrique n'um phrenesi de desespero. Com modo suave disse-lhes ella: - Já não assistirei á vossa empreza, não. - Haveis de vel'a, sim: Deus o hade querer - volveram os Infantes. - Sim, vel'a-hei… la do ceo… - e continuou: - Ora tomai, filhos, o lenho da Santa Cruz do Redemptor; que elle vos defenda na vida e vos ampare na morte.
E dividiu o fragmento da reliquia pelos tres. Henrique, sombrio, tomou a parte que a mae lhe dava, e abrindo o jaleco guardou-a sobre o peito, para não mais separar-se d'ella. E disse-lhes depois a rainha: - Ora, esperai. No quarto só se apercebiam soluços. O rei João, que não comia nem dormia, de magua, tinha rugidos cavos de desespero e entrava e sahia, como um doudo, no aposento. - Ora esperai - dissera a Rainha, com uma voz flebil, quasi como um cicio de aragem, triste, triste… - João Vaz dai-me as espadas que vos pedi, para meus filhos. O fidalgo trouxe-lh'as e ella estendeu-as sobre o leito, alinhadas, mirando-as e remirando-as; eram de boas laminas de aço, de punhos de ouro, cravejados de aljofares. E os Infantes, de joelhos, alli aguardando. – Duarte - disse ella ao mais velho - toma a tua espada. Deus te faça um rei justo. - Pedro, foste sempre dado a cavallarias, defende com a tua a honra das donas e donzellas. - E com a tua, Henrique, protege a fidalguia, já que és forte.
Todos eram em choro. D. Filippa cahiu sobre os travesseiros, de extenuada. A seu lado a Infanta D. Isabel, desgrenhados os seus cabellos cor de ouro, toda em lagrimas, gemia. Entreabrira os olhos a Rainha e disse, dirigindo-os para a Infanta: - Duarte, filho, olha por tua irmã e pelos nossos João e Fernando, e por minhas donas e donzellas. - Senhora, sim. – A custo volveu o pobre Infante. - Deixai vossas terras a Isabel - lembrou Pedro, desinteressadamente».
In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Memória Histórica, Primeiro Pémio de Concurso no 5º Centenário, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XII. «Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos… - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso. … a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I mas, embarcou…»


jdact

A Tomada de Ceuta
«E havia sempre quem explicasse: - Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à descoberta da verdade. Judá Negro, um jogral-astrólogo, da casa da Rainha, em uma trova dirigida a Martim Affonso de Atouguia, revelava que El-Rei ia filhar Ceuta e que tal soubera pela Astrolomia. Isto foi espalhado e todos se riram do néscio…
Fora de Portugal soubera-se já o afanoso preparativo de guerra, extraordinário, que se estendia em todo o reino; e houve receios. O Bispo de Ávila, em Palência, mostrou-se desassossegado e, apesar das razões tranquilizadoras do Adeantado de Cacorla, induzira D. Catarina e o Infante Fernando a que mandassem à presença de João I, como embaixadores, o bispo de Mondonêdo e Diaz Sanches de Benevides, a fim de se confirmarem as pazes com Castela. João I despediu-os com as maiores honras, tranquilizando-os. Nada era com Castella.
Os genoveses que viviam em Sevilha recebiam cartas dos de Lisboa revelando-lhes que a armada ia sobre aquela cidade. O rei de Aragão em disputa com o Conde de Urgel, pedira também carta de segurança. Deu-lha o rei João com o melhor agrado. O Mouro de Granada tremeu também e induziu a favorita Riccaforra a que mandasse mensagem a rainha de Portugal, pedindo paz e oferecendo-lhe um enxoval precioso para o casamento da filha, D. Isabel. Respondeu-lhe, serenamente, a rainha que não se intrometia nos negócios de Estado.
Acorriam também os auxiliares; lá da Alemanha um certo duque e um barão vieram para ir a empresa. O duque pretendeu saber o destino da expedição; não lhe disse o rei e por isso ele retirou-se para o seu ducado. Vieram mais às aventuras três nobres franceses: Mosen Arredenton, Pierre Sonure e Gilles Botaller.
No Porto, o Infante Henrique recebia, todos os dias, apesar da peste, auxiliares em grande número. Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos, branco como a neve, quase um espectro, cercado de escudeiros e peões, apresentar a Henrique a sua espada. O Infante assim que o viu, pasmou; pareceu-lhe ter diante de si a personificação de todo o passado aguerrido de Portugal, luzente de armas, erecto e audaz, apesar de quase um seculo de existência.
 - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso.
Ayres Goncalves a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I, que não sabia se o corpo lhe enfraquecera, mas que o ânimo era tanto como os trabalhos que passara com el-rei seu pae. Embarcou, portanto. Dois baioneses que haviam visto Aljubarrota, já velhos, trementes, apresentaram-se também no Amazem ao infante Henrique. Dissera-lhes este: - Já não tenho armas para vós. - Ainda conservamos as nossas, senhor! - responderam-lhe os dois. Embarcaram também.
Era quase prestes a partir a armada, do Porto. Com a primavera pareceu diminuir um tanto a peste e por isso era mister não perder tempo para a expedição, demorando-a. No começo de Julho, Affonso Annes, por mandado do Infante Henrique, partiu do Porto, em uma fusta, e foi participar ao rei João I que a armada ia velejar para Lisboa. Tudo se achava a postos para a partida. Sob o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a sair». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XI. «No Porto tudo se preparava rapidamente, ao seu mando; nada faltaria para o aparelhamento da frota, e por isso com o máximo cuidado vigiava o Infante. Os principais cidadãos, à porfia, eram prontos a oferecerem-lhe pessoas e bens para o serviço»


jdact

A Tomada de Ceuta
«Assim tudo combinado, haviam portanto adquirido grande actividade os preparativos da expedição. Era em 1415, o infante Henrique estava no Porto, o infante Pedro em Lisboa tinha idêntica tarefa à do irmão na cidade do norte, e o infante Duarte sempre junto ao pai, embrenhado era despachos e estudos, trabalhando sem descanso, dando audiências, escrevendo a miudo, sentia, mau grado seu, derivar o espírito para os delírios íntimos e desesperadores de um nerropatha. Bondoso e triste, resignava-se, em silêncio. Mas aquele ‘rijo pensamento com receio da morte’ tolhia-lhe toda a boa vontade de mostrar se contente com a expedição; consultava os physicos, consolava-se com os ditames da filosofia, nada o distraía porém. E então somente todo se multiplicava na tarefa da governação do Estado, mostrando bem as suas tendências de príncipe burocrata.
Henrique era muito outro; a sua mente não tinha devaneios nem alucinações; era um forte, musculoso, de bom sangue, um equilibrado, enfim; se no seu espírito alguma inquietação haveria era a do fito da tendência, da teimosia do desígnio. Para ele toda a demora seria tormento.

No Porto tudo se preparava rapidamente, ao seu mando; nada faltaria para o aparelhamento da frota, e por isso com o máximo cuidado vigiava o Infante. Os principais cidadãos, à porfia, eram prontos a oferecerem-lhe pessoas e bens para o serviço. O povo, ainda que desconfiado do destino da expedição, não regateava contudo o seu trabalho, e tudo se aparelhava, numa faina, para a partida da armada.
E não se pense que a época era de abastança e sossego, não.
Havia fome e havia peste. No Porto faltava o pão; proibia-se o embarque dele a qualquer que de fora viesse; se algum era descoberto em navio com destino a sair, era apreendido e ao senado tinha de ser paga a coima de cinco mil coroas.
A peste, outro flagelo. Morriam aos centos; os besteiros das mesnadas do Minho e Trás-os-Montes, aqueles fortes serranos do Suajo e do Marão, desciam à cidade e aqui tombavam fulminados pela peste, como que varados por um virotão dos mouros.
E os que morriam deixavam o mundo com pena de não terem vida até chegarem a saber o destino da expedição. Era segredo, que não transpirara do conselho de Torres Vedras. Nas ruas de Lisboa e Porto, em todas as outras cidades, nos castelos, nas aldeias, em toda a parte, comentava-se o caso e lançavam-se as mentes em conjecturas.
- Para onde iriam as armadas? Ao resgate do Santo Sepulcro diziam.
E havia sempre quem explicasse:
 -Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à descoberta da verdade». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

domingo, 24 de junho de 2012

Alfredo Alves. D. Henrique o Infante. Memória Histórica: Parte X. «Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Madalena e de Vila Nova, os arcabouços das gales e naus e galeotas em construção arqueavam-se como costelas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos ‘dobadoiras’ aprestavam-se a lançar à agua as embarcações já prontas»



jdact

A Tomada de Ceuta
«Os Infantes sossegaram e razãoo tinham. Pois o pai mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Affonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arrais, pintitais, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Affonso de Azambuja dava ordem a Ruy Peres do Alandroal, tesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, à uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os ‘Anadeis’ para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forcas nos ‘alcaides’, ou livros de revistas. A azáfama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Madalena e de Vila Nova, os arcabouços das gales e naus e galeotas em construção arqueavam-se como costelas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos ‘dobadoiras’ aprestavam-se a lançar à agua as embarcações já prontas; ‘estrinqueiros’ torciam e retorciam a cordoalha; ‘enxerqueiras’ preparavam carne e pescado para as armadas; acorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alentejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo comandar as e faze-las embarcar na frota que organizava; e as do Minho e Trás os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcelos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João de Basto levantavam um grande número de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o Rei a reunir. Tivera ele lugar em Torres Vedras.
Viera João I, de Sintra, e os Infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Aproximava-se Henrique da vila e encontrando o pai, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: - Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E acrescentara:
 - «Quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquele que vá primeiro por ela, que outro algu»
E o pai, rindo, retorquiu-lhe:
 - Em tempo próprio te darei resposta.
E foram todos ao conselho: Rei, Infantes, Nun'Alvares e os maiorais da corte. O Condestável dissera ao rei João I que apresentasse o negócio como feito já determinado, e sossegava-o:
 - Falai assim que eu serei convosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reunião, missa do Espirito Santo. Depois o Rei falou, falou, alegando não querer guerrear cristãos e sóp almejar combater os infiéis, em graças a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos.
O Rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a falar; desistiu contudo em favor do Condestável, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarcal, grave, sereno, como uma visão do passado, ali mostrou na sua frase suasória toda a importância e justiça da empresa. E terminando ajoelhara-se aos pés do Rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavaleiro.
Todos se electrizaram ao ouvirem o Condestável; ali haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavaleiro-modelo, atentos, mas aquelas frases sugestionadoras de ímpetos belicosos, João Gomes da Silva, um dos antigos, entusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos eles já as cãs se destacavam, - e gritou-lhes:
 - Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabelos brancos, os “russos” tinham de ir levar os rapazes à conquista da glória, pois não!
Além! Além! - clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Já o Hospital era entre nós uma milícia particularmente portuguesa, sujeita á coroa, como as ordens monásticas não militares, embora no espiritual ligada ao grão-mestrado, quando o prior fr. Álvaro Gonçalves foi a Rhodes…»



jdact

Conforme o original

O prior do Hospital
«Outra Palestina foi a Hespanha, avassallada também pelo Islam ; e por isso os exércitos cruzados paravam aqui, nas derrotas das suas viagens do mar do Norte para o Mediterrâneo; por isso as ordens hyerosalemitanas, que tamanho papel tiveram na fundação de Portugal, se enraizaram, engrandecendo-se. Expulsos da Palestina os hospitalários com a conquista da Terra-Santa pelos egypcios (1201), levaram para Chypre o seu tabernáculo; mas também d'ahi foram repellidos, indo estabelecer-se em Rhodes (1310).

NOTA: Os hospitalários ficaram em Rhodes até á conquista da ilha pelos turcos de Solimão, em 1530. Carlos V deu-lhes então a ilha de Malta, d'onde os cavalleiros se ficaram chamando posteriormente,como antes se tinham dito de Rhodes.

N'esta época, porém, a ‘lingoa’ de Portugal soffrera uma revolução profunda, desde que el-rei Diniz I nacionalizara as ordens hyerosalemitanas, colocando-as sob a sua autoridade real, e transferindo para a cavallaria de Christo os bens do Templo, abolido por Clemente V. Já o Hospital era entre nós uma milícia particularmente portugueza, sujeita á coroa, como as ordens monásticas não militares, embora no espiritual ligada ao grão-mestrado, quando o prior fr. Álvaro Gonsalves foi a Rhodes, «muy grandemente e bem acompanhado», tributar o seu preito de vassallagem.
Mas por isso mesmo que a ordem se tornara portugueza, era no concurso das forças politicas da nação um dos elementos preponderantes, não havendo talvez na corte cargo mais invejado, nem de maior valia, do que o priorado do Hospital. Entrando em Portugal em 1119, no tempo de el-rei Affonso Henriques, a ordem recebera d'este rei e dos seus successores a doação de vinte e uma villas e logares.
Os seus domínios concentravam-se no centro do reino, sobre o curso do Tejo e do Zêzere, alongando para o sul um braço, e para o norte outro:
  • o primeiro era Montoito, a igual distancia de Évora e do Guadiana;
  • o segundo eram Lobelhe-do-Matto e Ranhados, entre Vizeu e o Mondego.
Dominando o valle do Zêzere, no curso médio da sua margem direita, possuíam os hospitalários Alvares e a Pampilhosa, fronteiros aos quaes ficavam na margem esquerda os castellos de Oleiros e do Pedrogão-pequeno. A Certan e o Bomjardim, com Proença-a-nova mais para leste, aninhada no alto dos montes que dividem as aguas do Zêzere das do Tejo, continuavam em direcção d'este rio as parelhas de castellos da ordem. Depois vinha o Carvoeiro, numa dobra do pendor austral do terreno; depois Belver, a cavaleiro sobre a margem direita do Tejo, em frente do Gavião ; depois, acima do Gavião e do lado de Villa-Flor, o castello da Amieira, construído pelo prior fr. Álvaro Gonsalves;
depois Tolosa; depois o Crato, com Flôr-da-Rosa, e Elvira e a commenda de Cores, e o logar de Aguilheiro, e o concelho da Margem, e o couto da Coutada, e o casal do Monte, e a villa de Ferrajos, com vinte e quatro comendas. Tal era, pois, a familia em que nasceu Nun'alvares.

A mãe, quando em dezembro de 1372 viu a luz em Coimbra a infanta D. Beatriz, fora feita sua cuvilheira.

NOTA: Na casa da infanta eram aias D. Theresa de Meira, mulher do alcaide-mór de Portel, e Violante Affonso, viuva de Diogo Gomes de Abreu. Camareira-mór, era Maria Affonso, mulher de Vasco Martins de Melo. Cuvilheira, era a amante do prior do Hospital, cujas relações continuaram.
Outros querem que Iria Gonsalves fosse filha de Álvaro Gil do Carvalhal, dos senhores de Evora-monte.

Andava, pois, na corte d'el-rei Fernando, onde o exemplo dado pelo soberano, que tirara Leonor Telles a seu marido, sanccionava a licença dos costumes do tempo. Andava na corte, e lá continuou a ficar: nem o prior hospedava nos mosteiros da ordem as successivas mães dos seus trinta e dois bastardos. Filha do alcaide-mór de Almada, Pedro Gonsalves do Carvalhal, que tinha também na corte um filho, Martim Gonsalves, não era nenhuma creatura humilde, sem ser, porém, dama de alta gerarchia.
Em 1373, na época a que nos estamos referindo, contava Nun'alvares treze annos, com a virilidade precoce. Os homens formavam-se muito mais breve n'esses tempos agrestes, de uma barbárie alliada, porém, aos requintes e contradicções inherentes ao periodo de civilisação confusa a que se chama Edade-média. Chocavam-se os elementos de creação espontânea, de violência pristina e barbara, próprios de povos que emergiam do captiveiro musulmano ao som da guerra, por entre os escombros da civilisação antiga, derruida por completo na Hespanha á mão dos árabes: chocavam-se com as tradições, com as ruinas, com os restos dispersos e pervertidos d'essa Antiguidade, que parecia ás imaginações ter acabado afogada no sangue de Christo. A egreja era o vehiculo da tradição clássica, e também por isso mesmo, a auctoridade suprema, como representante, na terra, do poder de um Deus temido. Os ministros da religião dominavam as almas por um processo de auto-intimidação, semelhante ao dos feiticeiros primitivos; e se a barbarisação do pensamento e do saber frequentemente rebaixava os dogmas theologicos e os cânones rituaes até ao nivel da feiticeria simples: a violência dos costumes levava os sacerdotes a envergar também a armadura e a empunhar a espada, apparecendo soldados n'uma sociedade essencialmente guerreira». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893.

     
Cortesia de Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961/JDACT 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Vida de Nun'Alvares. Oliveira Martins. «Não faltavam, portanto, sementes de força bravia na ascendência de Nun'Alvares, que vinha ao mundo temperado por três gerações de tal gente. O pai nascera quando o bispo Gonçalo ainda não era deão, nem até clérigo: foi nos estudos, em Salamanca, que o futuro arcebispo de Braga “filhou”»



jdact

«Andava então o mundo transtornado. Com a morte do imperador Henrique VII (1308-14) viera o crisma dos eleitores, e dois imperadores a disputarem a terra : o duque de Áustria, Frederico III, e o da Baviera, Ludovico Pio. A Itália ardia em guerra. Em França morrera Filipe “o belo” (1285-1314), ao que se dizia vítima da sua guerra aos Templários. No céu tinham-se visto três luas, e um grande cometa durante três meses. Em 1315 choveu o ano inteiro, sem cessar. A Áustria e a Bohemia andavam assoladas por heresias; a Alemanha, o Brabante, a Polónia e a Inglaterra, por fomes e pestes. Clemente V (1305-16) mudara o papado de Roma para Avinhão (1309) e extinguira a ordem dos Templários (1312), ré de tantos crimes. Mas quando o deão do Porto chegou a Avinhão, já o papa tinha morrido, ficando mais dum ano vago o sólio pontifício. O bispo do Porto teve de sair; conseguindo, porém, ser transferido pelo papa João XXII (1317-34) para Lisboa, onde continuou a administrar os bens do Templo em Portugal, até que, em 1320, o rei Diniz fundou com eles a ordem de Cristo. O deão estava vingado, mas o ódio do bispo Gonçalo não estava satisfeito.
Embora o papa lhe tivesse dado a mitra de Leão, antes de lhe dar o arcebispado de Braga, Gonçalo, que durante dois anos ficou em Avinhão, perseguiu o bispo fr. Estevam, até que o expulsou de Lisboa para Cuenca. Foi sempre assim o ódio eclesiástico. E Gonçalo, o prelado quase omnipotente, era também um politico audaz e hábil.
Esteve na batalha de Loures, entre el-rei Dinis e o infante Afonso; interveio para a reconciliação do pai com o filho; e foi quem, sendo este já rei, celebrou as pazes com Afonso “o bom” de Castela (1312-50), o que tomou Algezira aos mouros, em 1344.
Tal era o sangue que girava nas veias do pai de Nun'alvares.
E esse sangue ardente vinha em ebulição desde Rodrigo Gonçalves, de Pereira, por via do avô do arcebispo, Pêro Rodrigues, o que casou com Estevaninha Ermigia da Teixeira, e matou na lide seu primo Pêro Poiares. Rodrigo Gonçalves e seus irmãos, Gonçalo, fundador de Nandim, e Elvira, da Palmeira, descendiam da casa de Cella-nova, transmontanos cruzados de sangue leonez. A história deste avô contava-se na família, como exemplar do génio cruelmente justiceiro. Casara com Ignez Sanchez e, deixando-a no castelo de Lanhoso, soube como ela aí fazia maldade com um frade de Bouro. Rodrigo Gonçalves foi lá em armas, cercou o castelo, e pondo-lhe fogo, fez arder na mesma fogueira a mulher e o frade, e a mais gente, com as bestas, os cães, e tudo quanto havia dentro, para que a chama consumisse por completo os sacrílegos e a desonra.
Não faltavam, portanto, sementes de força bravia na ascendência de Nun'Alvares, que vinha ao mundo temperado por três gerações de tal gente. O pai nascera quando o bispo
Gonçalo ainda não era deão, nem até clérigo: foi nos estudos, em Salamanca, que o futuro arcebispo de Braga “filhou”. Tareja Pires Villarinho, e o fez nela. O pai meteu-o quase criança no Hospital, cujo mestre era seu tio avô Estevam Vasques Pimentel, irmão da mãe do arcebispo, Urraca Vasques, da casa dos Pimenteis, casada com o conde de Trastamara Gonçalo Pereira, de quem o filho tirou o nome. Cresceu fr. Álvaro sob o patrocínio do tio, e quando este morreu, tinha o rapaz dezoito anos, sucedeu-lhe no priorado da ordem, cuja sede era o Crato.
Governando, pois, a ordem do Hospital desde largos anos, tornara-a como que apanágio da sua família, tanto lhe aumentara o poder e a riqueza. As cruzes floreteadas do seu brazão viam-se esculpidas num sem número de castelos.
Tinha construído o da Amieira, forte e mui formoso; os paços do Bomjardim, junto à sua vila da Sertã; a igreja de Santa Maria, em que Deus fazia muitos milagres; e além de outras numerosas obras, rematava o castelo da Flôr-da-Rosa, o seu mosteiro e igreja, povoando o lugar com colonos adscritos. Da ordem fundada em 1110 por Gérard de Martigue para a Cruzada, havia em cada nação, ou “lingoa”, um prior, balios e comendadores. Havia as “lingoas” da Provença, do Arverno, de França ou de Paris, da Itália, do Aragão, da Alemanha, e de Castela e Portugal.
O grão-mestre, a quem se chamava eminência, governava a ordem superiormente a todas as “lingoas” enquanto ela manteve o seu carácter cosmopolita, ou internacional. O comendador-mor era o “pilar da lingoa” da Provença; o marechal, o “pilar do Arverno”, o hospitalário, o da França; o almirante, o da Itália;, o conservador-mor, o do Aragão; o balio-mor, o da Inglaterra; e finalmente o de Castela, ao qual primitivamente andava sujeita a “lingoa portuguesa”, era o chanceler-mor da ordem. Por todo o mundo, os monges cavaleiros do Hospital, regrantes de Santo Agostinho, levavam em tempo de paz, o seu manto negro com a cruz de ouro de oito pontas, sobre o lado, e outra cruz sobre o peito. Em todas as batalhas aparecia nas armaduras a grande cruz branca da ordem, e o pendão com as armas: guelas escarlates e cruzes de prata. Eram a milícia de Cristo: um dos vários exércitos monásticos, em que o cosmopolitismo europeu se definiu primeiro, sob o influxo da religião, para o resgate da Terra-Santa, onde padecera Cristo». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, LIvraria de António Maria Pereira, Editor, 1893.


Cortesia de Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961/JDACT