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sábado, 31 de dezembro de 2016

Olga no 31. Fernando Morais. «No momento em que o juiz Vogt recebia os repórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro de um comboio, na fronteira da Polónia com a Rússia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não tínhamos a intenção de ferir ninguém... Se houvesse alguma reacção por parte dos fascistas de Moabit, certamente a esta hora estaríamos pensando em libertar, além do professor Braun, nossos companheiros que invadiram a prisão. A verdade é que um bando de garotos com armas descarregadas colocou de joelhos os fascistas que mantêm na prisão milhares de trabalhadores alemães... Às onze horas da noite, uma tropa de choque invadiu a cervejaria Muller e evacuou o salão a golpes de cassetete. Do seu quarto, Olga podia ver o alvoroço que a escaramuça provocou na rua Zieten. Ao seu lado, Otto dormia, indiferente à excitação que tomava conta da companheira. O noticiário do rádio ligado em volume quase inaudível aumentou a insónia da moça: todos os programas da madrugada comentavam o facto do dia, a invasão da prisão de Moabit. Mas tanto os jornais como o rádio transmitiam uma certeza tranquilizadora: de todos os participantes da acção, só ela fora identificada pela polícia. Sobre os outros havia, no máximo, vagas descrições físicas. Assim, Rudi Kõnig era apresentado como um moreno forte, de cabelo escovinha, que agarrou o escrivão pela garganta; Margot Ring era uma ruiva gordinha, de 15 anos no máximo; aquele que as testemunhas identificavam como o grandalhão de cabelos longos que deu a coronhada na cabeça do secretário da Justiça era o doce Erich Jazosch; um funcionário do tribunal que se encontrava à porta da prisão na hora da fuga descrevera Erik Bombach como uma criança de um metro e meio de altura, carregando uma pistola em cada mão ; a magrela Klara Seleheim, por causa do cabelo aparado rente, era tratada como alguém que não sabemos se é uma mocinha ou um rapaz, como dizia um locutor. Se a polícia desconhecia a identidade daqueles jovens, sobre Olga e Otto sabia tudo. Por isso, as semanas seguintes foram de grande tensão para os dois. O cerco policial apertava e, por maior que fosse a solidariedade das famílias operárias de Neuktilln, aumentavam também os riscos de prisão. Pacatas casas de metalúrgicos e padeiros eram transformadas em aparelhos para que os jovens pudessem esconder-se por quatro, cinco dias. A segurança deles ficou a cargo do Departamento de Ordem, uma secção geheim, secreta, e semimilitarizada da Juventude Comunista. Experimentados em proteger a organização contra ataques terroristas de direita ou da polícia, o Departamento de Ordem funcionava como uma célula clandestina dentro da Juventude Comunista legal.
Eram os seus membros que se encarregavam de arranjar sempre novos aparelhos e de transferir Olga e Otto de uma casa para outra, quando pressentiam a aproximação da polícia. As sessões de cinema em Berlim passaram a ser precedidas, assim que as luzes se apagavam, da exibição de um slide reproduzindo o cartaz com as fotos de Olga e Otto e a oferta de mil marcos a quem informasse sobre o paradeiro deles. O público, invariavelmente, explodia em aplausos para os dois jovens, e, invariavelmente, acendiam-se as luzes e o cinema era ocupado por grupos de policiais armados. Quando a escuridão retornava, começavam as vaias, os assobios e as bolas de papel voando. O que mais intrigava a polícia é que ninguém apareceu para candidatar-se a uma recompensa equivalente a dois anos de salário de um trabalhador.
Nos primeiros dias de Julho, o juiz Franz Vogt, do Supremo Tribunal Federal, convocou a imprensa no seu gabinete, ao lado do salão de audiências que havia sido invadido três meses antes, para apresentar um novo cartaz comunicado, assinado pelo promotor superior de Justiça da Alemanha. Nele, o Poder Judiciário retirava a recompensa de 5 mil marcos, pois, segundo informações fornecidas pela polícia, as citada pessoas conseguiram fugir, dirigindo-se para o exterior. Desta vez a polícia acertara: dias antes, Olga e Otto haviam viajado de carro, acompanhados por membros do Departamento de Ordem da Juventude, até a cidade de Stettin, na fronteira com a Polónia. De lá embarcaram num comboio rumo a Moscovo. No momento em que o juiz Vogt recebia os repórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro de um comboio, na fronteira da Polónia com a Rússia, exibindo passaportes falsos a um jovem soldado russo de traços orientais, que ostentava um capacete branco com a estrela vermelha. Emocionada por estar a entrar em território proletário, Olga não resistiu à tentação de um aceno carinhoso para aquele soldado do povo. Para sua tristeza, o soldado fingiu que não viu. O trem arrancou lentamente em direção a Moscovo». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Olga. Fernando Morais. «Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme: solte o preso! No auditório, os jovens dividiram-se em dois grupos e se atiraram sobre o secretário Schmidt…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) E, ainda assim, a recriação se deu a partir de depoimentos de testemunhas. Antes de entregar os originais à gráfica, submeti meu trabalho aos olhos de três dos mais brilhantes e impiedosos jornalistas deste país, Luís Weis, Raimundo Rodrigues Pereira e Ricardo Setti, e à mão vigilante de Vladimir Sacchetta, indiscutivelmente uma das maiores autoridades no estudo da memória do movimento operário brasileiro. E, por fim, recebi a ajuda do talentoso Claudio Marcondes, a quem a Editora AlfaOmega atribuíra o trabalho de homogeneizar a grafia de palavras e de fazer a preparação do texto que iria para a composição. Claudio acabou por propor alterações essenciais para a clareza deste livro. Roubei deles preciosas horas de trabalho e lazer, e não me arrependi: a partir de suas críticas, observações e objecções, sentei de novo à máquina para corrigir os erros. Embora a responsabilidade por tudo o que você vai ler agora seja exclusivamente minha, eu devo este livro à colaboração generosa dos entrevistados (cujos nomes vão relacionados ao final). In Fernando Morais, Agosto de 1985

Berlim. Alemanha. Abril de 1928
Tudo aconteceu em menos de um minuto. Pontualmente às nove horas da manhã de 11 de Abril de 1928, o guarda Gunnar Blemke atravessou o salão de audiências revestido de mogno da prisão de Moabit, no centro de Berlim, levando pelo braço, algemado, o professor comunista Otto Braun, de 28 anos. Não que Otto fosse considerado um preso perigoso; as algemas se justificavam por ser um acusado de alta traição à pátria, encarcerado havia um ano e meio, aguardando julgamento. O guarda caminhou com ele em direcção à mesa onde se encontrava o secretário superior de Justiça, Ernst Schmidt, que deveria interrogar Otto Braun. A seu lado, o escrivão Rudolph Nekien lutava para não cochilar sobre a máquina de escrever. Na outra ponta do salão, bem em frente à mesa de Schmidt, um pequeno auditório destinado ao público e aos advogados e isolado por um balaústre de madeira, estava ocupado por meia dúzia de adolescentes, moças e rapazes. Pensei que fossem estudantes de Direito, diria o guarda mais tarde. Blemke estufou o peito diante da autoridade e anunciou: apresentando o preso Otto Braun. Nesse instante ele sentiu algo duro encostado em sua nuca.
Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme: solte o preso! No auditório, os jovens dividiram-se em dois grupos e se atiraram sobre o secretário Schmidt e o escrivão Nekien, que foi derrubado com violência. Schmidt deu um salto, conseguiu bater a ponta do sapato sobre o botão de alarme instalado no chão, e recebeu uma coronhada no rosto, dada por um garoto enorme, de barba ruiva e cabelo escorrido até quase os ombros. A jovem de olhos azuis que comandava o grupo mantinha a pistola apontada para a cabeça do guarda. Depois de desarmá-lo, caminhou de costas em direcção à porta, cobrindo o preso com seu corpo e gritando para seus companheiros: para a rua! Para a rua! Quem se mexer leva chumbo! O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala: o primeiro a se mover leva chumbo! E sumiu pelo corredor. Ao saltar os degraus da escada na porta da prisão, o grupo se dispersou, cada um fugindo por uma rua diferente. A jovem guardou a pistola na sacola de lã a tiracolo e atravessou correndo o parque Fritz-Schloss para, no outro extremo ao lado de um ginásio de desporto, atirar-se num pequeno furgão verde que a esperava de portas abertas. Ao volante estava um jovem narigudo e atrás, sentado no fundo da carroceria e com as mãos ainda algemadas, estava Otto Braun, encolhido e assustado.
O calhambeque ameaçava desmontar pelas ruas de Berlim. Agora precisavam sair das imediações da prisão, cujas sirenes de alarme podiam ser ouvidas a quarteirões. O carro tomou o rumo sul da cidade. Evitando as ruas mais movimentadas, margeou o pequeno cemitério Blucher e cruzou o canal Schiffarts. Quando entrou no bairro de Neuktilln, a moça, Otto e o narigudo puderam afinal respirar aliviados. Em Neuktilln estavam em casa. Na hora do almoço, uma edição extra do diário Bertiner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de ousada cena de faroeste ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o assalto comunista : Olga Benario. Ousada cena...
A noite, no pequeno apartamento que a Juventude Comunista conseguira na rua Zieten para escondê-los, ao lado de seu namorado Otto Braun, Olga lia e relia o noticiário dos jornais e parava sempre na mesma expressão. De facto, ousadia era o único substantivo capaz de traduzir não apenas o que havia feito naquela manhã, mas o sentimento que movia a maioria dos adolescentes comunistas do bairro operário de Neukulln. Olhando para a rua através das cortinas do quarto à meia-luz, ela contemplava mais uma manifestação desse estado de espírito. Meia hora antes as tropas da polícia haviam percorrido a região, colando nos postes e muros o enorme cartaz que o promotor superior de Justiça da Alemanha mandara imprimir às pressas, oferecendo a recompensa de 5 mil marcos a quem desse informações sobre o paradeiro do escritor Otto Bran e da dactilógrafa Olga Benario. Agora ela podia ver lá em baixo, na rua, o nanico Gabor Lewin e a agitada Emmy Handke, seus companheiros, arrancando todos os cartazes.
Que outro nome dar, senão ousadia, para o que acontecia a poucas quadras dali, no salão dos fundos da cervejaria Muller? Indiferentes ao cerco que a polícia montara em Neukólln para apanhar os dois, os militantes do Rot Front, a Frente Vermelha da Juventude Comunista, decidiram fazer um acto político para comemorar a libertação de Braun. A primeira a falar foi uma garota de trancinhas. As centenas de pessoas que se aglomeravam no salão, moças, rapazes, velhos operários com suas mulheres e crianças de colo, ela comunicou que todos os envolvidos na libertação de Braun estavam em segurança, e arrancou aplausos demorados quando revelou que a acção fora realizada com armas descarregadas». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Olga. Fernando Morais. «… tenho em minhas mãos o depoimento de uma sobrevivente de Ravensbruck que jura ter visto Olga ser fuzilada naquele campo de concentração. A segurança das declarações leva-me a crer que ela de facto viu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No Rio de Janeiro, o fotógrafo e pesquisador Paulo César Azevedo, que já vinha colaborando com o meu trabalho através de pesquisas em arquivos públicos decidiu requerer oficialmente ao Ministério das Relações Exteriores autorização para consulta a documentos reservados referentes à deportação de Olga. Um ano de espera e de reiteradas reclamações, entretanto, não foram suficientes para que as portas da burocracia do Itamaraty se abrissem. Eu já havia recebido do professor Ricardo Maranhão cópias de documentos que comprovavam o comprometimento de diplomatas brasileiros com a Gestapo, mas senti-me no direito de obter, oficialmente, toda a correspondência sobre o assunto. Foi preciso que interviesse pessoalmente na demanda o próprio chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro para que eu pudesse receber, ainda que previamente censurado, o material solicitado, ao contrário do que ocorrera no Itamaraty até a intervenção de Saraiva Guerreiro, obtive do Superior Tribunal Militar todas as facilidades para pesquisar nos seus arquivos. A partir da intermediação de seu sobrinho e meu velho amigo Flávio Bierrenbach, o almirante de esquadra Júlio Sá Bierrenbach, presidente do STM, determinou que se liberasse rigorosamente tudo o que havia nos arquivos do Tribunal sobre a revolta de 1935, incluindo aí documentação inédita, que se encontrava lacrada desde o encerramento do processo n.° 1 do Tribunal de Segurança Nacional. Vladimir Sacchetta, meu grande colaborador na parte brasileira deste livro, passou uma semana em Brasília vasculhando 70 volumes para selecionar centenas de documentos e ilustrações que, dias depois, seriam fotografados e reproduzidos por Paulo César Azevedo. Sacchetta, além disso, já me franqueara o arquivo de seu pai, Hermínio Sacchetta, e toda a documentação sobre o tema que havia recolhido em Londres, no Public Record Office.
A leitura de toda essa papelada me obrigaria a uma nova viagem, desta vez a Buenos Aires, onde a boa vontade do correspondente da revista Veja, Tosé Meirelles Passos, aproximou-me de Rodolfo Ghioldi, o velho dirigente do PC argentino e do Comintern. Apesar de devastado por um enfisema pulmonar que quase o impedia de falar (e que o mataria meses depois), Ghioldi recebeu-me em companhia de sua mulher, Carmen, para cinco horas de entrevista gravada, ao fim das quais presenteou-me com uma verdadeira relíquia que guardava no fundo de um cofre: um envelope contendo fotografias inéditas, feitas no Brasil em 1935. A falta de dinheiro e de tempo para empreender novas viagens obrigou-me a utilizar o correio e o telefone internacional para conferir dados ou buscar novas informações, foi assim que recorri ao professor Boris Koval, do Instituto do Movimento Operário, em Moscou, ao Memorial Yad Vashem, em Israel, e, por mais duas vezes, a Richard Gould, do National Archives. Simultaneamente, minha conta de telefone engordava com interurbanos dados a vários pontos do país para reconfirmar datas e dados ou mesmo para buscar a exacta precisão das palavras usadas num determinado diálogo. A tudo isto acrescentei documentos que chegavam às minhas mãos, remetidos por anónimos militantes comunistas de vários pontos do país, que, alertados por notas de jornais ou notícias de televisão sobre meu trabalho, generosamente tomavam a iniciativa de procurar-me, interessados não só em ajudar-me, mas em enriquecer a verdadeira arqueologia em que me meti para reconstituir com a maior fidelidade possível esta história de amor e de intolerância.
Este livro não é a minha versão sobre a vida de Olga Benario ou sobre a revolta comunista de 1935, mas aquela que acredito ser a versão real desses episódios. Não vai impressa aqui uma só informação que não tenha sido submetida ao crivo possível da confirmação. Qualquer incorrecção que for localizada ao longo desta história, entretanto, deve ser debitada exclusivamente à minha impossibilidade de confrontá-la com versões diferentes. E certamente haverá incorrecções, até porque eu próprio cheguei a avançar investigações a partir de versões aparentemente verdadeiras, mas que depois seriam desmentidas por novas pesquisas ou entrevistas. Um exemplo: tenho em minhas mãos o depoimento de uma sobrevivente de Ravensbruck que jura ter visto Olga ser fuzilada naquele campo de concentração. A segurança das declarações leva-me a crer que ela de facto viu alguma mulher sendo fuzilada lá e supôs tratar-se de Olga. A verdade, no entanto, é que Olga não foi fuzilada em Ravensbruck. Outro exemplo: um eminente historiador brasileiro assegurou-me que Paul Gruber não passou de um personagem de ficção inventado pelo Comintern para confundir os serviços de inteligência capitalistas. De novo, factos, documentos e testemunhos comprovaram que Gruber não só existiu em carne e osso como jogou um papel importante no desfecho da revolta de 1935. E houve, ainda, situações em que, colocado diante de versões contraditórias sobre determinado episódio, fui levado por investigações e evidências a optar por uma delas. Não apenas como referencial, nesses casos, mas para introduzir-me por inteiro na época em que esta história se passa, recorri à extensa bibliografia que vai ao final deste volume, de importância capital para quem pretenda conhecer melhor essa época. As raras passagens deste livro em que foi necessária a recriação referem-se sempre a cenários de determinados factos, nunca a factos em si». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Olga. Fernando Morais. «Para meu espanto, pude ver depositados em Washington documentos internos do PC brasileiro desconhecidos aqui e que tinham sido misteriosamente transferidos para os Estados Unidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No modesto apartamento de Ruth Werner, a tenente coronel honorária do Exército Vermelho Soviético e uma das maiores escritoras alemãs, obtive cópias de depoimentos que ela tomara no fim dos anos 50 de sobreviventes de Neukõlln, Barnimstrasse, Lichtenburg e Rávensbruck (muitos dos quais já faleceram) e não utilizara integralmente no seu livro Olga Benario. O meu trabalho em Berlim Oriental teria sido infinitamente mais difícil sem a ajuda do jovem ítalo-germano-brasileiro Dario Canale (que eu havia entrevistado em 1967 no Brasil, quando ele esteve preso nas prisões da Polícia Federal sob a acusação de subversão). Dario ajudou-me na busca e selecção de material sobre Olga e Otto Braun, levou-me a conhecer a prisão de Moabit em Berlim Ocidental, e acabou por obrigar a sua sogra Elfriede Bruning, a convidar as suas amigas, militantes comunistas desde o começo do século, para jantares em sua casa, onde eu as esperava de gravador na mão. Além dos documentos obtidos, as entrevistas feitas por mim na República Democrática Alemã com pessoas que conviveram com Olga sob o nazismo foram valiosíssimas para a reconstituição da sua passagem pelo Brasil.
Durante os anos que passou em Barnimstrasse, Lichtenburg e Ravensbruck, ela contou com pormenores às companheiras de prisão a sua experiência brasileira: a paixão por Prestes, o deslumbramento com o Brasil, a expectativa seguida da frustração com a revolta fracassada, a emoção que lhe provocara a solidariedade dos companheiros no presídio da rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. Como a sua passagem pelo Brasil se tornara, para mim, a parte mais obscura da investigação, pressionei os amigos de Olga em Berlim até à irritação com perguntas sobre cada momento dos seus 17 meses no Rio de Janeiro, e em alguns casos obtive depoimentos torrenciais. De Berlim parti para Milão, onde investiguei, em tempo integral, no Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano (mantido pela Fundação Giangiacomo Feltrinelli e guardado pelas unhas e os dentes de José Luís del Roio), onde está depositada boa parte da memória operária e comunista brasileira. As entrevistas e investigações feitas na Europa e no Brasil remetiam-me a outros endereços: o Nationat Archives e os arquivos do Departamento de Estado, em Washington, e o primeiro recesso parlamentar disponível foi dedicado às pesquisas nos Estados Unidos. Com a ajuda de Ralph Waddey, funcionário anglo-baiano do Departamento de Estado, e abusando da infindável paciência de Richard Gould director do Departamento Legislativo e Diplomático do National Archives, fiz um fascinante mergulho na papelada que me custou a modesta quantia de 50 centavos de dólar cada cópia xerográfica: além de incontáveis documentos secretos referentes à vida das minhas personagens, havia material abundante sobre a repressão à revolta comunista de 1935 no Brasil. Ironicamente eu iria encontrar, no coração de Washington, relatos copiosos sobre as torturas infligidas pela polícia brasileira ao dirigente comunista alemão Arthur Ewert, pistas indiscutíveis sobre a acção de espiões na direcção comunista e detalhes sobre o desmantelamento da revolta de 1935, tudo isto escrito por um agente do governo norte-americano. Para meu espanto, pude ver depositados em Washington (e disponíveis a 50 cents) documentos internos do PC brasileiro desconhecidos aqui e que tinham sido misteriosamente transferidos para os Estados Unidos.
De volta ao Brasil, retomei as entrevistas, revi datas e dados com Luís Carlos Prestes e com outros entrevistados e continuei à procura de sobreviventes de 1935 que pudessem dar depoimentos ou, pelo menos ajudar-me a conferir as informações de que dispunha. Foi nessa época que me lembrei de uma frase de um antigo chefe de reportagem, que costumava dizer que ao repórter, como ao avançado, não basta trabalhar direito, é preciso ter sorte. Eu tive, e muita. Foram meros golpes de sorte, por exemplo, que me levaram a duas personagens desta história, Tuba Schor e Celestino Paraventi. Ela eu descobri casualmente: o seu filho Nelson foi o médico que realizou o parto de minha ex-mulher, quando nasceu Rita, minha filha, e ao saber que eu escrevia sobre a vida de Olga, colocou-me em contacto com a mãe. Quanto a Paraventi, foi ele quem me descobriu: ao assistir a uma entrevista que eu dera ao repórter Ney Gonçalves Dias, na TV Manchete, sobre o livro em curso, ele procurou o seu sobrinho José Gregori, meu colega de bancada na Assembleia Legislativa, para me oferecer o seu delicioso depoimento sobre a passagem de Olga por São Paulo». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Olga. Fernando Morais. «A esta circunstância somava-se outro obstáculo: se estivesse viva, Olga teria hoje 77 anos, e como sua militância política deu-se muito precocemente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A reportagem que vai ler relata factos que aconteceram exactamente como estão descritos neste livro; a vida de Olga Benario Prestes, uma história que me fascina e atormenta desde a adolescência, quando ouvia o meu pai referir-se a Fílinto Muller como o homem que tinha dado a Hitler, de presente, a mulher de Luís Carlos Prestes, uma judia comunista que estava grávida de sete meses. Perseguido por essa imagem, decidi que algum dia escreveria sobre Olga, projecto que guardei com avareza durante os anos negros do terrorismo de estado no Brasil, quando seria inimaginável que uma história como esta passasse incólume pela censura. Logo que iniciei a investigação para escrever este livro, há quase três anos, percebi que as dificuldades para recompor o retrato de Olga seriam muito maiores do que supunha. No Brasil não havia praticamente nada sobre a personagem, e surpreendi-me a descobrir que até mesmo a historiografia oficial do movimento operário brasileiro, produzida por partidos ou investigadores marxistas, relegara invariavelmente a ela o papel subalterno de mulher de Prestes, e nada mais do que isto. Em tudo o que pude ler não encontrei mais do que alguns parágrafos vagos e superficiais. A esta circunstância somava-se outro obstáculo: se estivesse viva, Olga teria hoje 77 anos, e como sua militância política deu-se muito precocemente, a maioria das personagens que conviveram com ela estavam mortos. Os poucos sobreviventes que testemunharam a sua saga, na Alemanha ou no Brasil, eram, no mínimo, octogenários, nem todos com memória ou condições de saúde para desenterrar detalhes de episódios acontecidos há pelo menos meio século.
A minha primeira e óbvia investida foi sobre Luís Carlos Prestes. As tardes de sábado que lhe roubei no Rio de Janeiro produziram páginas e páginas de preciosas informações, muitas delas inéditas. E ao lutar para romper a barreira que ele se impunha para evitar falar de questões pessoais, muitas vezes me comovi ao perceber que o rígido comunista que transmitia a imagem de um homem de aço não escondia a sua emoção ao revelar minúcias da personalidade da sua falecida mulher ou rememorar passagens da curta e emocionante vida em comum que tiveram. Dono de memória prodigiosa, Prestes foi capaz de reviver com precisão a hora de um embarque ou as exactas palavras de um diálogo ocorrido há cinquenta anos. Foram poucos os casos de informações dadas por ele que, compulsadas com processos e documentos oficiais da época, resultaram incorrectas. Dos testemunhos gravados dos seus depoimentos surgiram novos factos e personagens da revolta comunista de 1935, em cuja busca parti em seguida.
Simultaneamente o jovem advogado e bibliófilo António Sérgio Ribeiro (um dos maiores estudiosos de Carmem Miranda no nosso país) vasculhava colecções de jornais e revistas da época. O passo seguinte envolveu uma viagem à República Democrática Alemã, onde, ao contrário do que ocorrera no Brasil, localizei um verdadeiro tesouro. Heroína nacional cujo nome baptiza dezenas de escolas e fábricas, Olga teve a sua memória carinhosamente preservada pelos comunistas da sua terra. Nos arquivos do Instituto de Marxismo-Leninismo, no Comité de Resistentes Antifascistas ou nos pequenos museus montados no campo de concentração de Ravensbruck e no campo de extermínio de Bernburg (ambos preservados tais como foram encontrados pelas tropas aliadas), obtive cópias de todos os documentos e fotografias referentes a Olga Benario. Com a preciosa ajuda de Alexandre Fischer e Katharina Schneider, intérpretes destacados pelo governo da RDA para auxiliar-me na pesquisa, não só seleccionei e reproduzi todo o material disponível, como entrevistei creio que todos os velhos militantes que tinham convivido com Olga na Juventude Comunista, nos anos 20 e, uma década depois, nas prisões e campos de concentração nazistas. Não me esquecerei jamais das lágrimas que a entrevista arrancou nos olhos de Gabor Lewin, já velhinho, em cuja casa esvaziamos juntos, a dez graus abaixo de zero, uma garrafa de conhaque francês. Quando perguntei se se confirmava a lenda de que Olga despertava paixões fulminantes nos seus companheiros da Juventude Comunista, Lewin pôs-se a chorar. Foi Herta, sua mulher velhinha como ele, quem desfez o meu desconforto ao dizer, sorridente: Olga foi a grande paixão da vida do Gabor». In Fernando Morais, Olga, 1985, Editora Ómega, 1993/1994, Companhia das Letras, 1985/1999, epub, 2014, ISBN 978-857-164-250-8.

Cortesia de CdasLetras/JDACT