Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Haag. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Michael Haag. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Michael Haag no 31. Maria Madalena. «Amarrar Maria Madalena a um ponto é como encontrar algum osso, algumas costelas ou crânio e dizer que são dela; lugares se tornam relíquias para as pessoas que precisam desse tipo de coisa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Devassidão, peixe salgado e estudiosos da Bíblia

«(…) Escritos rabínicos datando do quarto para o quinto século d.C. mencionam um lugar chamado Migdal Tsebaya, o que significa Torre dos Tintureiros, e outro chamado Migdal Nunya, significando Torre dos Peixes. Por quanto tempo elas existiram não é sabido; certamente não aparecem em nenhum lugar do Velho e do Novo Testamentos. Da mesma forma o local de ambas é incerto; mas se pensa que a última estaria a menos de um quilómetro ao norte de Tiberíades, não suficientemente ao norte para estar em qualquer lugar perto do lugar hoje chamado de Magdala. O local pode corresponder a Tel Rakat (ou Tel Raqqat). Um tel é um monte antigo de detritos que cresce sobre aldeias abandonadas ou outras estruturas, e apesar de Tel Rakat ficar afastada do lago, isso pode não ter sido sempre assim; talvez houvesse um farol ali, ou talvez este fosse um lugar para o processamento de peixe. Sem escavar o local não poderemos saber mais.

Como Migdal Tsebaya significa Torre dos Tintureiros e como o tingimento é feito geralmente perto da água, possivelmente essa torre ficava às margens do mar da Galileia, mas a literatura rabínica não o diz. Em vez disso, faz um comentário, o de que Migdal Tsebaya foi destruída por sua prostituição, mas não explica quando ou como ou por quem, nenhum contexto é fornecido. Isso não impediu que Migdal Tsebaya fosse identificada com Tariqueia (Taricheia é uma ortografia variante), o seu nome, que é grego, significando lugar de peixe salgado. A identificação foi feita em 1920 pelo arqueólogo bíblico norte-americano William F. Albright, praticamente porque ele pensava assim. Albright também identificou Tariqueia com o lugar agora chamado Magdala, apesar das evidências em contrário.

As evidências apontam que Tariqueia ficava a seis quilómetros ao sul de Tiberíades, na margem oeste do rio Jordão, onde emerge a partir da extremidade sul do mar da Galileia, e não seis quilómetros ao norte, o local da actual Magdala. O historiador romano do século I, Plínio, por exemplo, descreveu o mar da Galileia na sua História natural como rodeado pelas cidades agradáveis de Julias e Hipopótamos no leste, Tariqueia no sul … e Tiberíades a oeste, o que coloca Tariqueia ao sul de Tiberíades, enquanto Magadan, conhecida desde os tempos bizantinos como Magdala, está ao norte de Tiberíades. Além disso, Tariqueia foi o local de uma batalha famosa em 67 d.C., durante a Revolta Judaica; o historiador Flávio Josefo, um comandante das forças judaicas durante o início da revolta na Galileia, descreveu o cerco romano, a ocupação da cidade e a batalha naval feroz que se seguiu, que deixou 6,7 mil combatentes judeus mortos e tornou vermelha a água do lago.

No entanto, escavações na actual Magdala não revelaram sinais de qualquer conflito ou de danos datados do período da revolta, enquanto a narrativa de Josefo sobre os deslocamentos romanos deixa claro que Tariqueia ficava ao sul de Tiberíades. Muito simplesmente, Magdala e Tariqueia eram dois lugares diferentes. No entanto, a conexão feita por Albright entre Migdal Tsebaya, Tariqueia e Magdala criou uma impressão duradoura, de modo que se encontram os nomes desses lugares usados alternadamente ou em combinação, com Migdal Nunya apresentado como precaução; e muitas vezes ler-se-á sobre a destruição romana da suposta cidade natal de Maria Madalena por causa de sua reputação de devassidão, que se encaixa perfeitamente na imagem mais tarde criada pela Igreja para Maria Madalena. A religião causou estragos ao identificar o local e o significado de Magdala e sua associação, se houve alguma, com Maria Madalena. O problema começou nos primeiros séculos cristãos e tem sido perpetuado e confundido ainda mais por arqueólogos bíblicos e estudiosos do Novo Testamento em dias modernos. Amarrar Maria Madalena a um ponto é como encontrar algum osso, algumas costelas ou crânio e dizer que são dela; lugares se tornam relíquias para as pessoas que precisam desse tipo de coisa» In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

 JDACT, Conhecimento, Literatura, Maria Madalena, Michael Haag, Religião,

No 31. Maria Madalena. Michael Haag. «Jesus gostava de dar apelidos a seus discípulos, como nos é dito em Marcos: E a Simão ele denominou Pedro; … Maria Madalena teria recebido seu nome da mesma forma, Maria, a Migdal, a torre de vigia, o farol…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um lugar chamado Magdala

«(…) A alteração do Evangelho de Mateus por um copista bizantino do século V estava tornando o nome de Maria Madalena num lugar no mapa. Ela era agora Maria de Magdala. Qualquer ideia de que seu nome poderia ter algum outro e profundo significado foi perdida.

A torre de vigia

Magdala deriva de magdal, que significa torre em aramaico, a língua falada por Jesus e seus discípulos e outros na Palestina e na Síria naquela época. A palavra hebraica para torre no Velho Testamento é migdal. Mas, como um nome, Migdal nunca aparece por si só em qualquer lugar na Palestina; ocorre sempre como Migdal-Algo, de maneira que, por exemplo, há Migdal Eder, Miqueias, Migdal Gad e Migdal El. Tivesse sido nomeada Maria Madalena por causa de um lugar, ela teria tido um sobrenome duplo. Em vez disso, o nome de Maria Madalena diz o que ele significa: Maria, a Torre, ou Maria, que é como uma torre. Mas em que sentido ela era uma torre? Migdal Gad e Migdal El constituíam lugares fortificados, mas Migdal Eder era algo completamente diferente. Eder (ou edar) é o termo hebraico para rebanho; em grandes pastagens pastores erguiam uma alta torre de madeira, a fim de supervisionar o seu rebanho.

De acordo com Gênesis, Migdal Eder, ou a Torre do Rebanho, era perto de Belém, oito quilómetros a sueste de Jerusalém. O profético livro de Miqueias do Antigo Testamento é parte de uma tradição judaica que esperava que o messias viesse de Belém, da linhagem de David, que foi pastor antes de ser rei. Miqueias diz: Mas de ti, Belém em Efrata, pequena que és entre os clãs de Judá, de ti sairá um rei para mim sobre Israel, um cujas origens estão longe de volta no passado, no tempo antigo. Um pouco antes Miqueias fala dos Últimos Dias que são marcados pelo aparecimento do Senhor, que, como um pastor, reúne os perdidos, os dispersos e os aflitos do seu rebanho:

Naquele dia, diz o Senhor, vou congregar a que coxeava, e recolherei a que tinha sido expulsa, e a que eu tinha maltratado. E farei da que coxeava uma sobrevivente, e da que tinha sido lançada para longe, uma nação poderosa; e o Senhor reinará sobre eles no monte Sião, desde agora e para sempre. A comparação de Miqueias do Senhor e o pastor conclui com este versículo sobre a torre do rebanho. E tu, ó torre do rebanho, a fortaleza da filha de Sião, sobre ti virá até mesmo o primeiro domínio; o reino virá para a filha de Jerusalém. Como o pastor que cuida de seu rebanho, assim David estabeleceu Jerusalém como a capital do seu reino, e vigiava seu povo da sua cidadela no monte Ofel, um afloramento rochoso em frente ao monte do Templo de Jerusalém, e da mesma forma esta torre, esta migdal, esta magdala, tornar-se-á uma torre de vigia para cuidar do rebanho do Senhor, aquelas pessoas que o messias veio para salvar. Assim, o nome de Maria Madalena faz alusão a esta profecia bíblica de vigiar o rebanho e carrega um sentido de salvação por vir.

Mas esta imagem da torre de vigia e o rebanho aplicava-se também ao mar da Galileia, onde a pesca era o esteio de cidades e aldeias ao redor de suas margens. Por exemplo, Magadan, o lugar posteriormente conhecido como Magdala graças ao escriba bizantino, foi um grande porto para pesca, processamento e exportação de peixe, e escavações hoje revelam ali as fundações de uma torre enorme que uma vez se ergueu acima do porto. O objectivo da torre era provavelmente abrigar um farol, um guia para os pescadores no lago, e como nos é dito por João eles pescavam à noite. Outros portos também teriam tido faróis. E assim, a torre era muito parecida com a Torre do Rebanho, perto de Belém, um meio para cuidar do rebanho, que, nesse caso, eram pescadores. Vários dos próprios discípulos de Jesus eram pescadores antes de se tornarem, nas suas palavras, pescadores de homens.

Jesus gostava de dar apelidos a seus discípulos, como nos é dito em Marcos: E a Simão ele denominou Pedro; em Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago; e ele os nomeou Boanerges, o que significa os filhos do trovão. Pedro vem do grego Petros, que por sua vez vem do uso de Jesus do aramaico original que era Cefas, sendo que tanto Cefas quanto Petros significam rocha. Maria Madalena teria recebido seu nome da mesma forma, Maria, a Migdal, a torre de vigia, o farol; um nome poderoso, a mulher que ajudou o Bom Pastor a proteger seu rebanho; e também um farol à noite, um iluminador, um visionário, em contraste com a rocha de Pedro; rocha versus luz». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

JDACT, Conhecimento, Literatura, Maria Madalena, Michael Haag, Religião, 

terça-feira, 31 de maio de 2022

No 31. Maria Madalena. Michael Haag. «… angariando convertidos na Palestina desde o século I, mas a sua associação com a casa de Maria Madalena foi uma invenção religiosa em consonância com a substituição de Magadan por Magdala»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um lugar chamado Magdala

«(…) Apesar das escavações modernas em Magdala e das alegações de que ela está associada a Maria Madalena, e apesar da bênção do papa Francisco em 2014, não há lugar chamado Magdala na Bíblia, excepto numa frase corrompida no Evangelho de Mateus, onde, depois de alimentar a multidão com pães e peixes, Jesus entrou no barco e foi para as costas de Magdala, que é o texto da versão do rei Jaime. A fonte grega que foi seguida neste caso, no entanto, data apenas do século V, mas fontes gregas mais antigas e mais confiáveis, tais como os manuscritos do início do século IV, conhecidos como o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, não mencionam Magdala de forma alguma. O Códice Vaticano, por exemplo, diz que Jesus entrou no barco e foi para as costas de Magadan, exactamente o que aparece em edições escolares modernas, como Bíblia Inglesa Revista, bem como em bíblias católicas e ortodoxas. Isto é apoiado pela evidência dos Pais da Igreja, Eusébio e Jerónimo, o primeiro escrevendo no início do século IV, o segundo no final do século IV, que não fazem nenhuma menção a qualquer lugar chamado Migdal ou Magdala; eles falam apenas de Magadan.

No que foi, aparentemente, um acto de edição criativa, um copista bizantino transformou Magadan em Magdala. Embora semelhantes, os nomes Magadan e Magdala significam duas coisas diferentes. Magadan deriva da palavra aramaica magad, que significa mercadoria preciosa, enquanto Magdala deriva do aramaico magdal e do hebraico migdal, significando torre. Mas a identificação de Magdala com Magadan começou a produzir seu efeito. Antes da alteração bizantina do texto no Evangelho de Mateus, os peregrinos que viajavam pela Terra Santa nada diziam sobre qualquer lugar chamado Magdala. No início do século VI, no entanto, um peregrino chamado Teodósio deparou-se com Magadan, na margem ocidental do mar da Galileia, e, influenciado pelo texto inventado, declarou que ele tinha vindo para Magdala; Magdale, ubi domna Maria nata est, ele escreveu em latim: Magdala, onde a senhora Maria nasceu. Peregrinos viajando para a Terra Santa vicejaram em associações com os evangelhos, e aqueles que seguiam na esteira de Teodósio tinham o prazer de concordar que Magadan era o local de nascimento de Maria Madalena. Por volta do século IX peregrinos mencionavam uma igreja em Magdala, que supostamente compreendia a própria casa de Maria Madalena, de onde os sete demónios tinham sido expulsos e na qual podiam entrar. A igreja, eles foram informados, tinha sido construída pela temível imperatriz Helena, mãe de Constantino, o Grande, que em 326-328, com idade aproximada de oitenta anos, visitou a Terra Santa e fez construir igrejas no local do nascimento de Jesus em Belém e de sua ascensão no topo do monte das Oliveiras. Seu filho, o imperador Constantino, construiu a igreja do Santo Sepulcro, no ponto em Jerusalém onde Helena disse ter descoberto a tumba de Jesus. Mas, embora as visitas de Helena a Belém e Jerusalém tenham sido registadas quando ela as fez, não há nenhum registo contemporâneo de uma visita sua à Galileia; e caso ela tivesse construído uma igreja que declarava compreender à casa de Maria Madalena, certamente teria sido uma característica famosa na rota de peregrinação já no século IV, em vez disso, nem um único peregrino é conhecido por ter mencionado o nome de Magdala. A igreja vista pelos peregrinos do século IX pode ter sido velha, o cristianismo vinha angariando convertidos na Palestina desde o século I, mas a sua associação com a casa de Maria Madalena foi uma invenção religiosa em consonância com a substituição de Magadan por Magdala». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

JDACT, Conhecimento, Literatura, Maria Madalena, Michael Haag, Religião,

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Maria Madalena. Michael Haag. «A cidade foi ainda mais embelezada e ampliada após os hasmoneus terem sido derrubados em 37 a.C. pelos romanos, que estabeleceram um Estado cliente sob o governo de Herodes, o Grande…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Um lugar chamado Magdala

«(…) Magdala, o local de nascimento de Maria Madalena, era uma aldeia miserável, de acordo com a edição de 1912 do Guia para a Palestina e a Síria, de Baedeker. A Galileia sofrera séculos de abandono e desolação sob o Império Otomano, e antes disso sob os mamelucos. Mejdal, como Magdala era chamada em árabe, foi frequentemente descrita por viajantes como empobrecida e pouco habitada; ela poderia ter sido totalmente abandonada se não tivesse recebido reassentamento de camponeses egípcios no século XIX. E mesmo assim, como Mark Twain escreveu em A viagem dos inocentes, seu livro sobre suas viagens na Terra Santa, publicado em 1867, Magdala era completamente feia e apertada, esquálida, desconfortável e suja, e as margens do mar da Galileia, cujo nome antigo, Genesaré, significava um jardim de riquezas, haviam se tornado um deserto silencioso. Nada mudou muito em Mejdal ao longo do século XX, a não ser pelo cenário se ter tornado mais desolado e deprimente; tudo o que havia para ver em Magdala eram galinhas ciscando o que restara de mosaicos antigos.

No entanto, entre aqueles mosaicos os arqueólogos hoje estão descobrindo uma vasta cidade que floresceu na época de Jesus nesta margem noroeste do mar da Galileia, um grande lago de água doce alimentado pelo rio Jordão. Escavações mostram que Magdala foi uma cidade helenística fundada no século II a.C. pelos hasmoneus, uma dinastia judaica independente que devia suas origens à revolta dos macabeus contra o domínio grego dos selêucidas nos anos 160 a.C., embora fosse uma dinastia, de qualquer forma, profundamente imbuída de cultura grega. Comparável em plano e tamanho a algumas das cidades mais importantes da Grécia e da Ásia Menor, Magdala serviu para trazer o mundo mediterrâneo ao coração da Galileia. Grandes porções de seu principal arruamento, o decúmano máximo, correndo de leste a oeste, e o cardo máximo, de norte a sul, foram descobertas, e abaixo delas canais de água que alimentavam os poços da cidade, fontes e um grande complexo de banhos públicos. Ainda mais impressionantes eram as instalações portuárias, incluindo um cais e pedras de atracação, uma bacia interior em forma de L protegida por um quebra-mar e as fundações maciças de uma torre.

Construção nessa escala só poderia ter sido realizada com o apoio dos governantes hasmoneus e com a intenção de tornar Magdala o maior porto na costa ocidental do mar da Galileia e um importante centro para a indústria de pesca e conservação dos peixes para ampla distribuição e exportação. A cidade foi ainda mais embelezada e ampliada após os hasmoneus terem sido derrubados em 37 a.C. pelos romanos, que estabeleceram um Estado cliente sob o governo de Herodes, o Grande, e seus sucessores. Escavações revelaram uma sinagoga decorada com um piso de mosaico e paredes pintadas; uma moeda encontrada dentro da sinagoga a situa no ano 29 d.C., aproximadamente o ano em que Jesus estava anunciando o reino iminente de Deus em todas as cidades e aldeias da Galileia. Perto das ruínas da antiga sinagoga foi construído um moderno centro de peregrinação, revivendo uma antiga tradição, acolhendo aqueles que chegam na esperança de encontrar Maria Madalena. Talvez nesta sinagoga Maria Madalena tenha ido orar e Jesus, pregar. Certamente, em 26 de Maio de 2014, durante sua visita a Jerusalém, o papa Francisco deu a sua bênção ao tabernáculo que ficará na nova igreja que está sendo construída em Magdala». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

JDACT, Conhecimento, Literatura, Maria Madalena, Michael Haag, Religião, 

Maria Madalena. Michael Haag. «Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios, e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Susana, e muitas outras, que o serviam com os seus bens»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Maria Madalena e Maria, a mãe de Jesus

«(…) Os leitores estarão familiarizados com as noções de Maria, mãe de Jesus, como uma virgem perpétua, a mãe perfeita e a Theotokos, a Mãe de Deus; de ter sido concebida imaculadamente, de subir ao céu, de ser um intercessor entre Deus e os homens, aquela que conhece o mais profundo sofrimento humano, a mulher sempre gentil e obediente à vontade de Deus. Mas nada desse modelo da mulher perfeita é encontrado na Bíblia, onde ela é uma mulher um tanto irritante, que não tem compreensão do que seu filho está prestes a fazer; em vez disso, ela é uma invenção que pertence inteiramente aos séculos posteriores, uma figura bíblica relativamente menor que foi transformada num grande culto, enquanto Maria Madalena, a mulher que conhecia Jesus, foi transformada numa prostituta.

A Mulher chamada Madalena

Maria Madalena aparece pela primeira vez na cronologia da vida de Jesus na Galileia, onde ela está viajando com Jesus enquanto ele proclama o reino de Deus. E os Doze estavam com ele, escreve Lucas no seu evangelho, e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. Entre essas mulheres, três são mencionadas pelo nome, e o primeiro nome é Maria Madalena, fora de quem saíram sete demónios. E mais nos é dito, pois Jesus e os Doze discípulos devem ser alimentados e cuidados à medida que viajam pela Galileia, e é Maria Madalena quem fornece os meios, juntamente com Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes Antipas, governante da Galileia e da Pereia, e uma mulher chamada Susana, e muitas outras mulheres que não têm seus nomes mencionados. É assim que o Evangelho de Lucas descreve Maria Madalena enquanto ela viaja com Jesus pela Galileia: E sucedeu que, depois disto, andava Jesus por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus; e os Doze o acompanhavam, assim como certas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios, e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Susana, e muitas outras, que o serviam com os seus bens. Esta narrativa de Lucas é tudo o que temos de Maria Madalena em todos os evangelhos, até voltarmos a encontrá-la na crucificação em Jerusalém.

Mas, embora Lucas seja muito breve, o que ele nos diz de Maria Madalena com Jesus na Galileia está cheio de pistas e revelações sobre sua vida, seu carácter, sua riqueza, suas conexões sociais e políticas, seu estado mental, emocional e espiritual, suas origens e a natureza do seu relacionamento com Jesus e seu círculo, e está também cheio de mistérios.

Um lugar chamado Magdala

Na busca por Maria Madalena deveríamos começar com o seu nome. No grego original dos evangelhos ela nunca é Maria Madalena. Quando ela viaja com Jesus pela Galileia, Lucas descreve-a como Maria, chamada Madalena. Mais tarde, na ressurreição, o original grego de Lucas descreve-a como Maria, a Madalena. Em Mateus, Marcos e João, o grego é Maria, a Madalena. Ela usa o nome de Madalena como se tivesse sido a ela conferido um título. Embora o Novo Testamento não descreva Maria Madalena como sendo de ou vindo de algum lugar, a suposição comum é a de que Maria Madalena significa Maria de Magdala». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

 Cortesia de Zahar/JDACT

JDACT, Conhecimento, Literatura, Maria Madalena, Michael Haag, Religião,

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Maria Madalena. Michael Haag. «Três das referências à mãe sem nome de Jesus dizem respeito a um acontecimento descrito em Marcos, Mateus e Lucas. Jesus estava curando, pregando e expulsando demónios…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Maria Madalena está na crucificação, está no enterro e está na ressurreição, e antes disso está com Jesus durante o seu ministério na Galileia. Como mulher e companheira de Jesus, ela é a única pessoa perto dele nos momentos críticos que definem seu propósito, que descrevem seu destino e que darão origem a uma nova religião; ela ajuda a apoiar Jesus em suas obras, é totalmente destemida e é uma mulher de visão. Sua personagem detém o segredo do seu nome. No início há Jesus e Maria, chamada Madalena.

Maria Madalena e Maria, a mãe de Jesus
Maria, mãe de Jesus, aparece principalmente nos capítulos 1 e 2 dos evangelhos de Mateus e Lucas, que contam a história da natividade e da infância de Jesus, o nascimento virgem numa manjedoura de Belém, os pastores no campo, a estrela no leste, os magos adorando, uma história totalmente ignorada pelos evangelhos de Marcos e João, que começam com o baptismo de Jesus, o homem, por João Baptista. Vários estudiosos, entre eles Geza Vermes, uma das principais autoridades acerca de Jesus, consideram as narrativas do nascimento lendárias e dizem que elas foram acrescentadas a Lucas e Mateus posteriormente. Essas histórias da natividade, que de qualquer forma se contradizem (por exemplo, Mateus tem a Sagrada Família, temendo pela vida de Jesus, fugindo de Belém para o Egipto, enquanto Lucas a tem retornando a Nazaré depois de passar quarenta dias pacificamente em Belém e Jerusalém), não são confirmadas pelos outros dois evangelhos. Marcos e João dizem que Jesus veio da Galileia; Marcos não faz qualquer menção a Belém, enquanto João não contradiz a afirmação dos fariseus de que Jesus nasceu na Galileia, não em Belém. Para além desses capítulos do nascimento e da infância em Mateus e Lucas, Maria aparece nos evangelhos apenas sete vezes, em cinco dessas descrita como a mãe de Jesus, mas sem receber um nome, e uma vez em Actos.
Três das referências à mãe sem nome de Jesus dizem respeito a um acontecimento descrito em Marcos, Mateus e Lucas. Jesus estava curando, pregando e expulsando demónios, e atraía multidões de pessoas por toda a Galileia, porém seus amigos e sua família temiam que ele estivesse perturbado e possuído por Belzebu, e vão buscá-lo. Mas ele, com desdém, manda embora sua mãe e seus irmãos, dizendo que a sua verdadeira mãe e seus verdadeiros irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus. A quarta vez, quando a mãe de Jesus é mencionada, mas não nomeada, dá-se no casamento de Canaâ, onde de novo é apresentada como um estorvo, e Jesus volta-se para ela dizendo-lhe: Mulher, que queres de mim? Por outras razões, o casamento em Canaâ (casamento de quem?) é um evento importante e será mencionado mais tarde. Quando ela aparece na crucificação, em João, também não é nomeada, sendo identificada apenas como a mãe de Jesus. João é o único evangelho que coloca Maria na crucificação de Jesus; ela não está no enterro nem na ressurreição.

Maria, mãe de Jesus, é no entanto nomeada nos evangelhos de Marcos e Mateus, quando os moradores da Galileia estão enfurecidos por Jesus estar pregando na sua sinagoga. Eles acreditam que ele seja um carpinteiro, ou o filho de um carpinteiro de Nazaré, e não percebem que ele é um rabino: não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? Mateus também menciona Maria e seus filhos pelo nome, mas não faz qualquer menção às suas filhas. E, finalmente, Maria, mãe de Jesus, é mencionada pelo nome em Actos no dia de Pentecostes, quando, após a ressurreição, o Espírito Santo desce sobre aqueles que estão no Cenáculo. Maria distingue-se por ser a mãe de Jesus, mas não há nada no seu relacionamento que sugira ter ela alguma compreensão do que ele planeava e fazia. No final houve uma espécie de reconciliação quando, de acordo com o Evangelho de João, embora em nenhum dos outros, Maria foi ver Jesus pendurado na cruz e ele a reconheceu com o seu último suspiro, dizendo: Mulher, eis aí o teu filho!
Em contraste, Maria Madalena foi companheira constante de Jesus em todo o seu ministério na Galileia e o ajudou a organizar e financiar as dezenas de pessoas envolvidas na sua missão de curar e trazer a salvação para os doentes e os pobres. Ela veio com Jesus a Jerusalém, testemunhou sua crucificação, supervisionou para ver onde seu corpo foi colocado, voltou para ungi-lo no terceiro dia e testemunhou sua ressurreição dos mortos, catorze menções de Maria Madalena pelo nome, bem como outras menções, como quando ela está incluída entre as mulheres da Galileia». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

domingo, 19 de julho de 2020

Maria Madalena. Michael Haag. «Eu não entendo por que ele me emociona. Ele é um homem. Ele é apenas um homem. E eu tive tantos homens antes, de muitas tantas maneiras, ele é apenas mais um»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na Idade Média os cátaros, na França, viam Maria Madalena como esposa de Jesus no mundo divino e como sua concubina no mundo da ilusão, o mundo em que eles acreditavam que vivemos nas nossas vidas diárias. Enquanto que nos primeiros séculos da era cristã os evangelhos gnósticos retratam Maria Madalena como a companheira, consorte e até mesmo esposa de Jesus; como a mulher que ele amava mais do que a todos os outros discípulos, sua relação sendo muitas vezes descrita em termos eróticos. Para essa questão há incidentes, mesmo nos evangelhos canónicos do Novo Testamento, que sugerem a estudiosos que Maria Madalena era de facto a esposa de Jesus. Para alguns, o ponto central não é se isso era verdade ou não, mas a razão pela qual a verdade foi deixada de lado. Isso toca no problema mais amplo da visão de Maria Madalena, a visão que ela compartilhava com Jesus, e como muito daquilo foi suprimido ou perdido nas controvérsias que moldaram a nova religião que alguns têm descrito não como cristianismo, mas como igrejismo, uma instituição totalmente estranha à visão de Jesus e Maria Madalena. Maria Madalena é uma figura maior do que qualquer texto, maior que a Bíblia ou a Igreja; ela assumiu uma vida própria. Nos tempos medievais foi chamada de a portadora da luz, recordando o seu epíteto gnóstico de herdeira de luz na sua busca pela verdade. Ela é a mediadora do mistério divino e permaneceu uma figura poderosa e misteriosa desde então. Na forma de uma busca, este livro segue Maria Madalena através dos séculos, explora a forma como ela foi reinterpretada em cada época e examina o que ela própria revela sobre a mulher, o homem e o divino».

«Maria Madalena estava com Jesus na Galileia, onde ele anunciava o reino de Deus para milhares de pessoas e curava os enfermos e aleijados. Ela também acompanhou Jesus quando ele viajou para Jerusalém e entrou na cidade santa de acordo com a profecia, humilde e montado num jumento, o que era um desafio de todo modo, e multidões o saudavam, acenando com ramos de palma, lançando as vestes no seu caminho, para que ele passasse sobre elas, e clamando hosanas. Hosana ao filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor: Hosana nas alturas! Quando ele entrou em Jerusalém, e toda a cidade se comoveu, Maria Madalena estava lá.
Quando os romanos pregaram Jesus na cruz, abandonado pelos seus discípulos, e ele gritou Meu Deus, meu Deus, por que tu me abandonaste?, Maria Madalena estava lá. E quando tudo terminou, Maria Madalena o seguiu enquanto carregavam seu corpo para a tumba e ela viu como a pedra foi rolada para fechá-la.
No terceiro dia, Maria Madalena foi à tumba e descobriu que estava vazia. Maria, disse uma voz, e ela virou-se e viu que era Jesus. Raboni, disse ela, usando a palavra familiar aramaica para mestre, e estendeu a mão para tocá-lo. Não me toques, Jesus disse a Maria Madalena, ela que o tocara muitas vezes antes. Não me toques, porque eu ainda não subi para meu Pai; mas vai até meus irmãos e diz-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus.
Com paixão e espiritualmente, Maria Madalena compreendeu e, seguindo a ordem de Jesus, fielmente levou sua mensagem aos discípulos, seu apóstolo aos apóstolos; Maria Madalena, testemunha da ressurreição. No entanto, Maria Madalena é mencionada pelo nome apenas catorze vezes na Bíblia, e só nos quatro evangelhos, nunca em Actos ou em qualquer outro lugar no Novo Testamento. Mas, embora pareçam tão poucas, tais menções são mais favoráveis que as feitas a Maria, mãe de Jesus. Além das narrativas da natividade e algumas histórias da infância de Jesus, Maria, mãe de Jesus, dificilmente aparece, apenas sete vezes, e isso inclui ocasiões em que ela não recebe um nome. O leitor dos evangelhos, diz a Enciclopédia católica, referindo-se à mãe de Jesus, no início se surpreende ao descobrir tão pouco sobre Maria.
À medida que Jesus cresce, o papel de sua mãe diminui drasticamente. Ela é mencionada de passagem quando ele viaja pela Galileia, onde ele não lhe demonstra consideração, e novamente na crucificação (embora apenas no Evangelho de João), e mais uma vez em Actos na história do Pentecostes. E isso é tudo em relação a Maria, mãe de Jesus. Sua fama e o culto que a rodeia, sua perpétua virgindade, os relatórios da sua assunpção, seu título de Mãe de Deus, estes e muitos mais surgiram séculos depois e não são encontrados na Bíblia. Maria Madalena, por outro lado, embora seja mencionada apenas catorze vezes, e como os evangelhos se repetem, contando e recontando suas histórias, ela aparece de facto em apenas quatro ocasiões distintas, cada ocasião em que ela aparece é crucial». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT