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terça-feira, 29 de agosto de 2017

A Guerra da Duquesa. Courtney Milan. «Não o viu nem sequer então. Fez-se uma bola, envolvendo o vestido ao redor do seu corpo por trás da barreira do sofá. A sua respiração era ofegante»

jdact

Leicester, Novembro de 1863
«(…) A mulher adiantou um passo e depois outro. A seguir colocou a mão na bolsinha de seda que trazia pendurada no punho e tirou uns óculos. As lentes deveriam ter acentuado o seu ar severo, mas produziram o efeito contrário, suavizaram o seu olhar. Robert a tinha julgado mal. A mulher não apertava os olhos com desdém, entreabria-os para ver melhor. Não era severidade o que via em seu olhar a não ser algo muito diferente, algo que não conseguia identificar de tudo. Ela tomou um cavalo negro do tabuleiro e o virou na mão uma e outra vez. Robert não via nada na peça que merecesse tanta atenção. Era de madeira sólida, sem nada especial. Entretanto, ela a estudava com olhos grandes e luminosos. Logo, inexplicavelmente, levou-a aos lábios e a beijou. Robert olhou-a petrificado. Quase tinha a sensação de interromper um encontro amoroso entre uma mulher e seu amante. Aquela mulher tinha segredos e não queria compartilhá-los. A porta da sala voltou a ranger de novo.
A mulher abriu muito os olhos como se estivesse com medo. Olhou frenética ao seu redor e lançou-se para o sofá; na pressa por esconder-se, aterrou no chão a dois pés de distância de Robert. Não o viu nem sequer então. Fez-se uma bola, envolvendo o vestido ao redor do seu corpo por trás da barreira do sofá. A sua respiração era ofegante e superficial. Menos mal que Robert tinha movido um pouco o sofá ou a mulher jamais teria conseguido esconder atrás dele a ela e ao vestido! Seguia apertando o cavalo na mão; empurrou-o com violência debaixo do sofá. Nessa ocasião ouviram-se passos pesados na estadia. Minnie?, chamou uma voz de homem. Senhorita Pursling? Está aqui? Ela enrugou o nariz e apertou-se contra a parede. Não respondeu. Uau!,disse outra voz que Robert não reconheceu. Uma voz jovem e meio pastosa pela bebida. Não invejo a essa mulher. Não fale mal da minha quase prometida, respondeu a primeira voz. Sabe que é perfeita para mim. Essa ratinha tímida? Cuidará bem de casa. Se ocupará do meu conforto. Encarregar-se-á dos meninos e não se queixará das minhas amantes, se ouviu um ranger de dobradiças, o som inconfundível de alguém que abria uma das portas de cristal que protegiam as estantes de livros.
O que faz, Gardley?, perguntou o homem bêbado. A procura entre os volumes em alemão? Não acredito que caiba aí, terminou com uma gargalhada. Gardley. Podia ser o ancião senhor Gardley, dono de uma destilaria, mas a voz soava jovem, assim devia ser o senhor Gardley filho. Robert tinha-o visto à distância: um indivíduo apagado de estatura média, cabelo castanho e traços que lhe recordavam vagamente os de cinco pessoas mais. Ao contrário, dizia o Gardley jovem. Acredito que caberia muito bem. No que se refere a esposas, a senhorita Pursling será igual a esses livros. Quando queira lê-la, ela estará aí. Quando não, esperará pacientemente, no mesmo lugar onde a deixei. Será uma esposa cómoda para mim, Ames. Além disso, a minha mãe aprova. Robert não acreditava conhecer Ames. Encolheu os ombros e olhou a que supunha ser a senhorita Pursling para ver como reagia a essa revelação. Ela não se mostrava nem surpreendida nem escandalizada pelos comentários pouco românticos do seu quase prometido. Parecia mais era resignada.
Terá que se deitar com ela, sabe?, perguntou Ame. Certo. Mas, graças a Deus, não muito frequentemente. É como um camundongo. E como todos os ratos, é claro que chiará quando nela se enterrar. Houve um ruído surdo. O que?, protestou Ames. Está falando de minha futura esposa. Robert pensou que possivelmente Gardley não fosse tão mau depois de tudo. Até que o ouviu continuar: eu sou o único que pode pensar em se enterrar nesse camundongo. A senhorita Pursling apertou os lábios e ergueu a vista como se implorasse ao céu. Mas dentro da biblioteca não havia céu ao que implorar. E quando ergueu a vista e olhou através da separação das cortinas… Seu olhar encontrou-se com o de Robert. A mulher abriu muito os olhos. Não gritou nem lançou um coice. Nem mesmo se moveu. Simplesmente lançou-lhe um olhar terrivelmente acusador e lhe tremeram as ventas do nariz». In Courtney Milan, A Guerra da Duquesa, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989-233-743-2.

Cortesia de EASA/JDACT

A Guerra da Duquesa. Courtney Milan. «A luz da rua lançava sombras imóveis sobre o pavimento. Alguém tinha empilhado um montão de folhetos contra a porta, mas a brisa outonal os tinha espalhado pela rua»

jdact

Leicester, Novembro de 1863
«Robert Blaisdell, nono duque de Clermont, não se escondia. Era certo que tinha subido à biblioteca da Casa do Conselho, que se tinha afastado bastante da multidão em baixo, de modo que o ruído tinha-se convertido num retumbar distante. E era certo que não havia mais ninguém por ali. E que estava de pé atrás de grossas cortinas de veludo azul cinzento que o ocultavam da vista. Como também era certo que, para chegar ali, tinha tido que mover o velho sofá de couro marrom.  Mas não tinha feito tudo isso para se esconder, mas sim porque, e isso era um ponto chave na sua linha de pensamento lógico, naquela sala centenária de madeira e gesso apenas uma das folhas da janela se abria e, casualmente, era a que ficava escondida atrás do sofá. Ali estava, cigarro em mãos, com a fumaça elevando-se no frio ar outonal. Não se escondia, só tentava preservar da fumaça os livros antigos.
Uma desculpa na qual possivelmente ele mesmo teria acreditado... Se fosse fumante. Através do cristal velho podia distinguir a pedra escurecida da igreja situada justo em frente. A luz da rua lançava sombras imóveis sobre o pavimento. Alguém tinha empilhado um montão de folhetos contra a porta, mas a brisa outonal os tinha espalhado pela rua e jogados nas poças d'água. Aquilo era um desastre. Um condenado desastre. Robert sorriu e golpeou a ponta do cigarro contra a janela, lançando cinzas nas pedras em baixo. O fraco rangido de uma porta, abrindo-se, sobressaltou-o. Voltou-se ao ouvir o ruído das tábuas de madeira do chão. Alguém tinha subido as escadas e tinha entrado na biblioteca. Os passos eram leves…, de mulher, possivelmente, ou de um menino. Também eram estranhamente hesitantes. A maioria das pessoas que subia à biblioteca no meio de um sarau musical tinha um motivo para fazê-lo. Um encontro clandestino, talvez, ou a busca por um parente perdido.
De seu lugar privilegiado atrás das cortinas, Robert podia ver apenas uma parte da sala. A pessoa em questão se aproximou mais, com passos ainda hesitantes. Não podia vê-la, mas a ouvia deter-se frequentemente para examinar o que a rodeava. Não chamava a ninguém nem fazia uma busca decidida. Não parecia estar à procura de um amante oculto. Mas os seus passos davam a volta em torno da sala. Robert demorou meio minuto em dar-se conta de que tinha esperado muito para anunciar a sua presença. Oh!, podia dizer. Estava admirando o gesso. Está muito bem posto neste lado, não lhe parece? A mulher, pois Robert estava seguro de que era uma mulher, o tomaria por louco. E até ao momento, ninguém tinha chegado ainda a essa conclusão. Assim, em vez de falar, jogou o cigarro pela janela e este caiu com a ponta laranja brilhante para o chão até que aterrou numa poça e se apagou.
Quão único via do cómodo era meia estante de livros, a parte traseira do sofá e, ao lado, uma mesa com um jogo de xadrez em cima. O jogo estava iniciado. Pelo pouco que recordava Robert das regras, estavam a ganhar as negras. A visitante se aproximou e Robert encostou-se mais à janela. Ela entrou no seu campo de visão. Não era uma das jovens às quais tinha visto antes no salão. Essas eram todas belezas que esperavam que prestassem atenção nelas. E a visitante, quem quer que fosse, não era uma beleza. Levava o cabelo moreno recolhido num rolo na nuca. Os seus lábios eram finos; e o seu nariz, afilado e um pouco grande. Usava um vestido azul-escuro com cós de cor de marfim, sem rendas nem laços, só de tecido singelo. Até o corte do vestido parecia severo: uma cintura tão apertada que Robert não sabia como podia respirar e umas mangas que caíam dos ombros até aos pulsos sem nenhuma sobra de tecido de enfeite que suavizasse a imagem. Não viu Robert atrás da cortina. Tinha inclinado a cabeça de lado e contemplava o jogo de xadrez com a mesma expressão com a qual um membro da Liga da Moderação olharia uma garrafa de brandy, como se fosse um diabo ao qual teria que espantar com orações e hinos. Ou, na sua falta, com a lei marcial». In Courtney Milan, A Guerra da Duquesa, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989-233-743-2.

Cortesia de EASA/JDACT