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sábado, 19 de fevereiro de 2022

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Além do mais, ela completa com uma cotovelada descontraída, parece que nada que você fizer vai estar errado. Irmã, isso não é brincadeira. Há um preço para esse tipo de vantagem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ela rola o pequeno cavalo branco sobre o lábio inferior. É macio como manteiga. Em algum momento, talvez eu possa casar-me novamente. Eu poderia torná-la rainha, ele declara. Katherine sente gotículas de saliva perto da orelha. Está brincando, majestade, diz, forçando uma pequena gargalhada. Talvez, ele grunhe. Talvez não. Ele quer filhos. Todos sabem que ele quer filhos. Anne Bassett lhe daria muitos bebés, ou uma garota dos Talbot, dos Percy ou dos Howard. Não, não uma Howard, ele teve duas rainhas Howard e mandou ambas para o patíbulo. Ele quer filhos e Katherine não teve nada em dois casamentos a não ser um bebé morto secreto. A ideia cai sobre ela como uma bala de canhão: a ideia de fazer um filho com Seymour, o belo Seymour, um homem no auge da vida. Seria um pecado que tal homem não procriasse. Katherine se repreende silenciosamente por alimentar um pensamento tão ridículo. Mas ele se recusa a ser reprimido e fica germinando ali no fundo. Ela precisa de toda a sua força de vontade para manter os olhos afastados de Seymour, para se concentrar no jogo e agradar ao rei. Katherine vence.

O pequeno grupo de espectadores recua um pouco, como uma multidão prevendo uma grande explosão, quando ela exclama: Xeque-mate. É disso que gostamos em você, Katherine Parr, diz o rei, rindo. Os observadores relaxam. Você não nos diverte perdendo, como todos os outros que pensam que nos agrada sempre vencer. Ele segura sua mão. Você é honesta, completa, puxando-a para perto, acariciando seu rosto com dedos encerados. A sala observa e Katherine está ciente do sorriso irreverente do irmão quando o rei faz uma concha com as mãos, aperta sua boca húmida na orelha dela e murmura: Venha ver-nos em particular mais tarde. Katherine se debate em busca de resposta. Majestade, fico honrada, diz. Profundamente honrada que queira passar tempo sozinho comigo. Mas com meu marido falecido tão recentemente, eu… Ele põe um dedo sobre os lábios dela para silenciá-la, dizendo: Não precisa explicar. Sua lealdade brilha. Admiramos isso. Você precisa de tempo. E terá para ficar de luto pelo seu marido. Nisso faz sinal para que um dos seus arautos o ajude a se levantar da cadeira e, apoiando todo o peso nele, manca em direcção à porta, seguido pela sua comitiva. Katherine vê o arauto tropeçar no pé do rei. O braço do rei voa, dando-lhe uma forte bofetada no rosto, como a língua de um sapo apanha uma mosca. O barulho da conversa para.

Saia da minha frente, idiota. Quer que lhe cortem o pé por ser desastrado?, diz o rei num rugido, fazendo o pobre arauto fugir às pressas assustado. Outro toma o seu lugar e tudo continua como antes. É como se nada tivesse acontecido, ninguém comenta. Enquanto procura a irmã, Katherine pode sentir que a atmosfera da sala mudou, voltou-se para ela. As pessoas abrem espaço para ela passar, lançando elogios como flores, mas Anne Bassett e sua mãe olham de soslaio do outro lado da sala. Sua irmã é como uma ilha nesse mar dissimulado. Preciso sair deste lugar, Anne, ela diz. Lady Mary se retirou, ninguém vai se importar se você for, a irmã responde. Além do mais, ela completa com uma cotovelada descontraída, parece que nada que você fizer vai estar errado. Irmã, isso não é brincadeira. Há um preço para esse tipo de vantagem. Você está certa, diz Anne, de repente séria. Estão ambas pensando em todas aquelas rainhas infelizes. Ele só estava seduzindo. Ele é o rei…, tem o direito de fazer isso, imagino…, não é nada sério…, Katherine diz atropelando as palavras. Mas é melhor eu ficar longe da corte por algum tempo. Anne assenta com a cabeça. Vou acompanhá-la até a porta. Está quase escuro no pátio e finos flocos de neve brilham na luz das tochas debaixo das arcadas. Boa parte da neve suja está novamente congelada e os criados pisam com cuidado sobre as pedras. Um grande grupo chega, desce dos cavalos fazendo barulho, e a quantidade de pajens e arautos que aparecem para recebê-los sugere que devem ter certa importância. Katherine nota os olhos arregalados e o sorriso de desprezo de Anne Stanhope, que ela conhece desde a infância, uma menina vingativa e arrogante com quem partilhou por vezes a sala de aula real, tantos anos atrás. Stanhope desliza diante delas, de nariz empinado, empurrando o vestido de Anne com o ombro ao passar, como se não a tivesse visto, sem cumprimentar nenhuma das irmãs Parr». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Elizabeth Fremantle, JDACT, Literatura, O Saber, 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Se ele quer filhos vai escolher Anne Bassett ou uma menina como ela. E ele quer filhos, todos sabem. Katherine faz a sua jogada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uma lufada de hálito fétido a engolfa e ela se esforça ao extremo para não apanhar o saché de ervas aromáticas que leva pendurado no cinto. Não estou escondendo-me, majestade, só impressionada. Ela mantém o olhar no peito dele. O seu gibão branco e preto intricadamente bordado, que de perto se nota ser incrustado de pérolas, parece mantê-lo unido, as dobras nas beiradas dando a impressão de que se ele o despisse perderia completamente a forma. Oferecemos nossas condolências pelo falecimento de seu marido, ele diz, estendendo a mão para ela beijar o anel, que está encravado na carne de seu dedo do meio. É muita bondade, majestade. Katherine ousa olhar de relance para o rosto do rei, redondo e massudo, os olhos de passas afundados no meio, e pergunta-se o que aconteceu com o homem magnífico que foi um dia. Disseram-me que cuidou bem dele. Todos conhecem a sua habilidade para cuidar de enfermos. Um homem velho precisa de cuidados. Em seguida, antes que tivesse chance de responder, ele se inclina para perto da sua orelha, próximo o suficiente para ela ouvir o chiado de sua respiração e sentir uma lufada de colônia. É bom vê-la de volta à corte. Parece apetitosa mesmo vestida de luto. Katherine sente o rubor subindo e procura uma resposta, mas só consegue murmurar algumas palavras de gratidão. E quem é esta?, ele diz com estrondo, felizmente pondo fim ao momento de intimidade. Está acenando na direção de Meg, que se abaixa fazendo uma profunda cortesia. É minha enteada, Margaret Neville, anuncia Katherine. Levante-se, garota, diz o rei. Queremos vê-la direito. Meg obedece. Katherine percebe o tremor nas suas mãos. E dê uma volta, ordena ele. Depois de Meg girar para ele como uma égua em leilão, o rei grita BU!, fazendo-a saltar para trás, aterrorizada. Coisinha nervosa, não é?, ele ri. Ela não está acostumada com a corte, majestade, Katherine responde.

Precisa de um companheiro que quebre sua resistência, ele afirma, depois pergunta a Meg: Alguém aqui a atrai? Sey-mour está por perto e Meg olha brevemente na sua direcção. Ah! Vemos que está de olho em Sey mour, exclama o rei. Um belo tipo, não acha? N-n-não, gagueja Meg. Katherine lhe dá um chute na canela. Acho que o que ela está querendo dizer é que Sey mour não é nada quando comparado a vossa majestade, intervém, a voz lisa como óleo, mal acreditando que tais coisas possam sair tão facilmente da sua boca. Mas falam dele como o homem mais bonito da corte, responde o rei. Hummm, diz Katherine, a cabeça pendendo para um lado, pensando na melhor maneira de responder. É uma questão de opinião. Alguns preferem a maturidade. O rei emite uma gargalhada ruidosa e diz: acho que vamos arranjar um casamento entre sua Margaret Neville e Thomas Sey mour. Meu cunhado com sua enteada…, soa bem. Segurando ambas pelo cotovelo, ele as dirige para uma mesa de jogos na outra ponta da sala. Katherine não consegue pensar numa maneira de desencorajar o casamento educadamente, então permanece calada. Duas cadeiras são trazidas às pressas pelos criados e o rei se senta com esforço em uma delas, fazendo sinal para Katherine se sentar na outra. Um tabuleiro de xadrez aparece magicamente do nada e o rei pede a Sey mour que disponha as peças. Katherine não ousa sequer olhar de relance na direcção dele, por medo de que a confusão de sentimentos que se contorce dentro dela chegue à superfície. Está ciente do olhar afiado de lady Lisle, ao lado da filha; quase pode ouvir os pensamentos da mulher maquinando como promover sua garota, educa-la, treiná-la, para apanhar os maiores peixes no mar. Deve estar feliz com o facto de Katherine, duas vezes viúva e com mais de trinta anos, não ter como competir com Anne no completo vigor da juventude. Se ele quer filhos vai escolher Anne Bassett ou uma menina como ela. E ele quer filhos, todos sabem. Katherine faz a sua jogada. Gambito de dama aceito, diz o rei, apanhando o peão branco e rolando-o entre os dedos gordos. Quer me atrair para o meio do tabuleiro. Ele olha para ela, os olhos encovados dardejando, a respiração chiando como se não houvesse espaço para ar dentro dele. Movimentam-se para a frente e para trás, rapidamente e em silêncio. O rei pega uma guloseima de um prato, coloca-a na boca, estala os lábios, depois apanha uma torre, movimenta-a, bloqueando a jogada de Katherine com um A-ha!. Então inclina-se e diz: vai precisar de um marido tanto quanto a sua enteada». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Elizabeth Fremantle, JDACT, Literatura, O Saber

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Katherine sente o rubor subindo e procura uma resposta, mas só consegue murmurar algumas palavras de gratidão. E quem é esta?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uma lufada de hálito fétido a engolfa e ela se esforça ao extremo para não apanhar o saché de ervas aromáticas que leva pendurado no cinto. Não estou me escondendo, majestade, só impressionada. Ela mantém o olhar no peito dele. O seu gibão branco e preto intricadamente bordado, que de perto se nota ser incrustado de pérolas, parece mantê-lo unido, as dobras nas beiradas dando a impressão de que se ele o despisse perderia completamente a forma. Oferecemos nossas condolências pelo falecimento de seu marido, ele diz, estendendo a mão para ela beijar o anel, que está encravado na carne de seu dedo do meio. É muita bondade, majestade. Katherine ousa olhar de relance para o rosto do rei, redondo e massudo, os olhos de passas afundados no meio, e pergunta-se o que aconteceu com o homem magnífico que foi um dia. Disseram-me que cuidou bem dele. Todos conhecem sua habilidade para cuidar de enfermos. Um homem velho precisa de cuidados. Em seguida, antes que tivesse chance de responder, ele se inclina para perto da sua orelha, próximo o suficiente para ela ouvir o chiado da sua respiração e sentir uma lufada de colónia. É bom vê-la de volta à corte. Parece apetitosa mesmo vestida de luto.
Katherine sente o rubor subindo e procura uma resposta, mas só consegue murmurar algumas palavras de gratidão. E quem é esta?, ele diz com estrondo, felizmente pondo fim ao momento de intimidade. Está acenando na direcção de Meg, que se abaixa fazendo uma profunda cortesia. É minha enteada, Margaret Neville, anuncia Katherine. Levante-se, garota, diz o rei. Queremos vê-la direito. Meg obedece. Katherine percebe o tremor nas suas mãos. E dê uma volta, ordena ele. Depois de Meg girar para ele como uma égua em leilão, o rei grita BU!, fazendo-a saltar para trás, aterrorizada. Coisinha nervosa, não é?, ele ri. Ela não está acostumada com a corte, majestade, Katherine responde.
Precisa de um companheiro que quebre a sua resistência, ele afirma, depois pergunta a Meg: alguém aqui a atrai? Seymour está por perto e Meg olha brevemente na sua direcção. Ah! Vemos que está de olho em Seymour, exclama o rei. Um belo
tipo, não acha? N-n-não, gagueja Meg. Katherine lhe dá um chute na canela. Acho que o que ela está querendo dizer é que Seymour não é nada quando comparado a vossa majestade, intervém, a voz lisa como óleo, mal acreditando que tais coisas possam sair tão facilmente de sua boca. Mas falam dele como o homem mais bonito da corte, responde o rei. Hummm, diz Katherine, a cabeça pendendo para um lado, pensando na melhor maneira de responder. É uma questão de opinião. Alguns preferem a maturidade. O rei emite uma gargalhada ruidosa e diz: acho que vamos arranjar um casamento entre a sua Margaret Neville e Thomas Seymour. Meu cunhado com a sua enteada… soa bem.
Segurando ambas pelo cotovelo, ele as dirige para uma mesa de jogos na outra ponta da sala. Katherine não consegue pensar numa maneira de desencorajar o casamento educadamente, então permanece calada. Duas cadeiras são trazidas às pressas pelos criados e o rei se senta com esforço em uma delas, fazendo sinal para Katherine se sentar na outra. Um tabuleiro de xadrez aparece magicamente do nada e o rei pede a Seymour que disponha as peças. Katherine não ousa sequer olhar de relance na direcção dele, por medo de que a confusão de sentimentos que se contorce dentro dela chegue à superfície. Está ciente do olhar afiado de Lady Lisle, ao lado da filha; quase pode ouvir os pensamentos da mulher maquinando como promover a sua garota, educá-la, treiná-la, para apanhar os maiores peixes no mar. Deve estar feliz com o facto de Katherine, duas vezes viúva e com mais de trinta anos, não ter como competir com Anne no completo vigor da juventude. Se ele quer filhos vai escolher Anne Bassett ou uma menina como ela. E ele quer filhos, todo mundo sabe. Katherine faz a sua jogada. Gambito de dama aceito, diz o rei, apanhando o peão branco e rolando-o entre os dedos gordos. V. quer me atrair para o meio do tabuleiro. Ele olha para ela, os olhos encovados dardejando, a respiração chiando como se não houvesse espaço para ar dentro dele. Movimentam-se para a frente e para trás, rapidamente e em silêncio». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.
               
Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «É o rei, sussurra Katherine. Quando ele tirar a máscara, deve fingir estar surpresa. Mas por quê? O seu rosto é a imagem do desconcerto»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uma vez de volta à calma relativa dos aposentos de lady Mary, Susan Clarencieux empurra-as todas para as salas externas e ajuda Mary, que parece à beira do colapso, a entrar no quarto. As garotas mais jovens, agora que estão em particular, começam a tirar as suas toucas elaboradas e a soltar os vestidos, conversando e rindo. As mulheres circulam em pequenos grupos, entregando-se enfim à leitura ou à costura, e distribui-se vinho com especiarias. Katherine está prestes a partir quando um tumulto começa do lado de fora, tambores e canto acompanhados por um alaúde e um forte ruído de passos. As garotas todas pegam nas suas toucas, vestem-nas apressadamente outra vez, ajudando umas às outras a amarrá-las, enfiando mechas soltas para dentro, enquanto beliscam a bochecha e mordem os lábios. As portas abrem-se e um bando de menestréis mascarados entra dançando na sala em meio a uma cacofonia de aplausos e assobios. Eles saltitam numa dança complicada, girando em grupos de oito, empurrando as damas para os cantos. Katherine sobe num banco, levando Meg junto, a fim de enxergar por cima das pessoas. Pode sentir a atmosfera no cómodo elevar-se para um frenesim contido, como estática antes da tempestade.
A sua irmã Anne segura uma das garotas e diz: chame Susan. Diga-lhe que há uma visita e lady Mary precisa de se apresentar. Katherine agora vê o motivo de toda a agitação e mal contém o espanto, ali no meio dos menestréis rodopiantes, mancando e equilibrando a sua enorme forma, está o rei, vestido absurdamente, com uma perna preta e a outra branca. Ela se lembra dele fazendo isso anos atrás, acreditando-se completamente disfarçado, e a corte toda cúmplice na pantomima, tão desesperado estava por descobrir se as pessoas estavam tão encantadas com o homem quanto com o rei. Irrompia no salão como agora, cercado de seus cortesãos mais elevados, e ele, uma cabeça mais alto que todos os outros, ágil, forte, vigoroso, era de facto uma figura impressionante; o efeito era completamente desarmador, especialmente para Katherine, que naquela época era só uma menina. Mas pandegar daquele jeito, mal sendo capaz de ficar de pé sem o apoio de um homem de cada lado, o gibão de menestrel esticado sobre a cintura cilíndrica, com os fechos esturricados, tem ar de desespero. E estar cercado de tão bem formados espécimes, os seus belos arautos e camareiros, jovens e cheios de vida, musculosos pela caça, torna a brincadeira toda pior ainda. Meg está de pé, boquiaberta.
É o rei, sussurra Katherine. Quando ele tirar a máscara, deve fingir estar surpresa. Mas por quê? O seu rosto é a imagem do desconcerto. Katherine dá de ombros. O que poderia dizer? A corte toda deve ser conivente com uma ilusão que faz o rei se sentir jovem e amado por si mesmo, quando na realidade tudo que ele inspira actualmente é medo. É a corte, Meg, ela diz. As coisas aqui com frequência são difíceis de explicar. Os homens agora estão saltitando num círculo e no centro está a pequena Anne Basset, posando timidamente. A sua mãe, lady Lisle, observa, praticamente salivando, enquanto a filha madura de dezasseis anos gira entre os homens sob o olhar ganancioso do rei. Temo que a história esteja a se repetir, murmura Anne. Ela não precisa dizer de que modo, a sala toda está pensando em Catherine Howard, excepto talvez lady Lisle, cuja razão está sem dúvida encoberta pela ambição. Mas o círculo se desfaz e Anne Basset é levada em rodopios para um canto; a música pára e o rei remove a máscara diante de grandes exclamações de falsa surpresa. A sala toda se ajoelha, os vestidos das damas amarfalham-se no chão num mar de seda. Quem teria adivinhado? O rei!, grita alguém.
Katherine mantém os olhos no chão, inspecciona os detalhes das tábuas de madeira, resistindo à tentação de cutucar a irmã por medo de cair na risada.
Aquilo tudo é mais caricato que uma comédia italiana. Vamos, diz o rei. É uma visita informal. Levantem-se, levantem-se. Agora deixem-nos ver quem está entre vocês. Onde está a nossa filha? A multidão se move, abrindo espaço para lady Mary. Um raro sorriso se espalha no seu rosto e os anos parecem desaparecer como se uma migalha da atenção de seu pai tivesse parado o tempo. Outros homens chegaram e estão andando pela sala. Will está aqui, diz Anne. Com a sua turma. Katherine avista aquela pena subindo e descendo pela sala. O seu estômago revira e ela puxa Meg para o outro lado, mas então se vê diante do rei. Ah, é lady Latymer que vemos se escondendo? Por que se esconde, senhora?» In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.
               
Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Ao final, todos formam uma fila atrás de lady Mary, que segura firme no braço de Susan Clarencieux, como se fosse desabar. As suas damas a seguem pela longa galeria..»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ela odeia a própria ambiguidade, não se sente nem um pouco melhor do que todos os pérfidos membros da corte, mas não encontra coragem para dizer a que ponto abraçou a nova fé. Não poderia encarar o desapontamento de Mary. Esta é uma mulher cuja vida foi uma série de grandes desapontamentos, e Katherine não suportaria provocar mais um, mesmo que pequeno, dizendo a verdade. Hummm, Mary murmura. Quem dera fossem. Quem dera fossem. Ela manuseia distraidamente um rosário, suas contas tilintando conforme desliza os dedos pelo cordão de seda. E esta é a sua enteada? Sim, senhora. Deixe-me apresentar-lhe Margaret Neville. Meg dá um passo hesitante à frente e abaixa-se fazendo uma reverência profunda, como lhe ensinaram. Chegue mais perto, Margaret, Mary ordena, e sente-se, sente-se. Ela aponta para uma banqueta a seu lado. Agora, diga-me sua idade. Tenho dezassete anos, senhora. Dezassete. E está prometida para alguém, imagino. Sim, senhora, mas ele faleceu. Katherine a instruíra a dizer isso. Não seria adequado tornar público que o seu noivo era um dos enforcados por traição após a Peregrinação da Graça. Bem, teremos que encontrar um substituto, não é?
Só Katherine parece notar a cor esvair-se do rosto de Meg. Pode ajudar a sua madrasta a vestir-me. A missa não tem fim. Meg está impaciente e a mente de Katherine vagueia lembrando Seymour e seu olhar desconcertante, aqueles olhos azuis. Só de pensar nele já fica perturbada, contrai-se por dentro. Ela se força a lembrar a pena ridícula balançando e a ostentação, tudo exagerado, e concentra-se de novo na cerimónia. Lady Mary parece tão frágil que é espantoso que consiga carregar o bebé, redondo e robusto. O bispo Gardiner, que tem o rosto polpudo, como se fosse feito de cera derretida, preside à cerimónia. Ele demora, e a sua voz, lenta e interminável, deixa o latim feio. Katherine só consegue pensar nele interrogando sua irmã, aterrorizando-a, nisso e no dedo do pobre rapaz do coral. Dizem que Gardiner tramou nos últimos anos para ficar mais e mais perto do rei, que procura os seus conselhos tanto quanto os do arcebispo. A criança berra, com o rosto vermelho, sem descanso, até a água benta ser derramada sobre a sua cabeça. Então fica completamente quieta, como se Satã tivesse sido expulso, e Gardiner adopta uma expressão presunçosa, como se fosse feito seu, e não de Deus.
O rei não está presente. E Wriothesley, o pai da criança, parece perturbado. É um homem com cara de doninha, um ar permanente de desculpas e uma tendência a fungar; é lorde do selo privado e alguns dizem que tem as rédeas da Inglaterra nas mãos junto com Gardiner, mas não se imaginaria aquilo olhando para ele. Katherine repara em seus olhos cor de barro que vão com frequência até à porta, ansiosos, enquanto estala os dedos distraidamente, de modo que um leve claque cartilaginoso pontua a fala monótona de Gardiner. Uma desfeita como aquela poderia significar qualquer coisa em um rei cujos desejos mudam de uma hora para outra; o lorde do selo privado pode ter as rédeas da Inglaterra nas mãos, mas isso não significa nada sem a protecção dele. Wriothesley deveria saber tudo sobre os caprichos do rei: afinal de contas, foi um dos homens de Cromwell, outro em quem não se pode confiar, mas conseguiu escapar e se desvencilhar de sua companhia assim que a maré virou.
Ao final, todos formam uma fila atrás de lady Mary, que segura firme no braço de Susan Clarencieux, como se fosse desabar. As suas damas a seguem pela longa galeria, passando diante de uma multidão de cortesãos que se abre conforme ela se aproxima. Seymour está entre eles, e duas das garotas mais jovens dão risadinhas tolas quando ele sorri e levanta o chapéu com aquela pena ridícula na direcção delas. Katherine desvia os olhos, fingindo estar fascinada com o comentário da velha lady Butte sobre o modo de se vestir dos jovens, a interpretação livre da lei suntuária e o que foi que aconteceu com a cortesia. No seu tempo as coisas eram diferentes, a mulher continua, e ninguém mais sabe mostrar respeito pelos mais velhos? Katherine ouve de leve Seymour dizer seu nome com algum galanteio sobre as suas jóias, sem dúvida insincero. Ela olha brevemente na sua direcção fazendo um aceno rígido com a cabeça antes de se voltar para o desfile de comentários tediosos de lady Butte». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.
               
Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

sábado, 11 de agosto de 2018

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Ainda é da verdadeira fé, Katherine?, Mary pergunta, baixando a voz para um sussurro embora não haja ninguém mais no quarto além de Meg, sem jeito atrás da madrasta»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Bem, então Meg não seria apropriada. Ela está cheia de sangue Plantageneta, diz Anne. Pode até ser, mas eu a consideraria uma boa esposa, não uma esposa ilustre. Verdade, diz Anne. Meg afasta-se das tapeçarias e vai sentar ao lado delas. O grupo de damas observa-a de cima a baixo quando passa, sussurrando. Viu seu pai, Meg?, pergunta Anne. Vi. Tenho a certeza de que era ele, no campo de batalha ao lado do rei. Susan Clarencieux causa um alvoroço ao sair do quarto de Mary, anunciando no seu tom particular, mandão mas ainda assim calmo: ela vai-se vestir agora. Virando-se para Katherine, diz: pediu que você escolha os trajes dela. Katherine, percebendo o tom contrariado, responde: o que recomenda, Susan? Algo sóbrio? Ela parece mais calma. Ah, não, acho que algo para alegrá-la. Tem razão, é claro. Alguma coisa colorida então. O rosto de Susan se contorce num sorriso desconfortável. Katherine sabe como lidar com damas da corte arredias e suas inseguranças. Aprendeu com a mãe.
E outra coisa, continua Susan, enquanto Katherine alisa o vestido e ajeita a touca, ela quer que lhe apresentem a menina. Katherine assente. Venha, Meg. Não podemos deixá-la esperando. Eu preciso ir?, sussurra Meg. Precisa, sim. Katherine apanha o braço de Meg de forma bem mais brusca do que pretendia, desejando que a garota fosse menos gauche, em seguida se repreende internamente pela sua falta de amabilidade e acrescenta: ela pode ser a filha do rei, mas não deve temê-la. Verá. Passando a mão pelas costas de Meg, nota quão magra ela ficou, os ossos dos ombros protuberantes como pontas de asas. Lady Mary está no quarto afundada em um vestido de seda. Tem uma aparência frágil e inchada no rosto; a juventude parece tê-la desertado completamente. Katherine faz as contas mentalmente, tentando lembrar quão mais nova Mary é do que ela. São só uns quatro anos, pensa, mas Mary parece murcha e tem um brilho febril nos olhos, o legado do tratamento que recebeu do pai, sem dúvida. Agora pelo menos ela vive na corte, onde pertence, e não está mais presa num palácio distante, húmido e frio, escondida do mundo. A sua situação permanece delicada, entretanto, e, desde que o seu pai despedaçou o país para provar que nunca tinha realmente sido casado com a sua mãe, a pobre Mary tem a mancha da ilegitimidade pairando sobre si. Não surpreende que se atenha à antiga fé, a sua única esperança de legitimidade e de um bom casamento.
Sua boca fina se transforma num sorriso de saudação. Katherine Parr, ela diz. Como estou alegre em tê-la de volta. É de facto um privilégio estar aqui, senhora, Katherine responde. Mas só vim para o baptismo de hoje. Disseram-me que será madrinha do novo bebé Wriothesley. Só hoje? Que decepção. Devo respeitar um período de luto por meu marido falecido. Sim, Mary diz em voz baixa, então levanta a mão, fecha os olhos e aperta o espaço entre as sobrancelhas por um instante. Está sentindo dor? Posso preparar alguma coisa, diz Katherine, inclinando-se para passar a mão na testa de Mary. Não, não, tenho tonturas mais que suficiente, responde ela, sentando-se erecta e respirando fundo. Se eu massajar as suas têmporas, pode aliviar a dor. Mary faz que sim, então Katherine fica de pé atrás dela e pressiona as polpas dos dedos nas laterais da sua cabeça, movendo-as em círculos. A pele ali é fina como pergaminho, revelando um istmo de veias azuis. Mary fecha os olhos e apoia a cabeça na barriga de Katherine.
Senti muito ao saber de lorde Latymer, Mary diz. Muito mesmo. É bondoso da sua parte, senhora. Mas, Katherine, vai voltar logo para servir nos meus aposentos…, preciso de amigos. Há somente a sua irmã e Susan em quem posso realmente confiar. Quero estar cercada de mulheres que conheço. Há tantas damas aqui que nem sei quem são. E partilhámos um tutor quando crianças, Katherine, sua mãe serviu minha mãe. Sinto como se fôssemos quase parentes. Fico honrada que a senhora pense em mim dessa maneira, Katherine responde, somente então percebendo quão solitária a vida deve ser para uma mulher como Mary. Ela deveria ter-se casado muito tempo atrás com algum magnífico príncipe estrangeiro, dado a ele um bando de principezinhos e aliado a Inglaterra a alguma terra grandiosa, mas foi empurrada de um lado para o outro, ora nas graças do rei, ora não, legítima, ilegítima. Ninguém sabe o que fazer com ela, menos ainda seu pai.
Ainda é da verdadeira fé, Katherine?, Mary pergunta, baixando a voz para um sussurro embora não haja ninguém mais no quarto além de Meg, sem jeito atrás da madrasta. Sei que seu irmão está comprometido com a Reforma, a sua irmã e o marido também. Mas a Katherine, foi casada muito tempo com um lorde do norte e a antiga fé ainda se mantém forte por lá. Sigo a fé do rei, Katherine responde, esperando que nada seja depreendido de sua inexactidão. Sabe muito bem como as coisas são no norte no que diz respeito à fé. Não consegue pensar nisso sem sentir as mãos ásperas de Murgatroyd sobre si, o seu mau cheiro. Tenta afastar esse pensamento, mas ele persiste. A fé do meu pai, Mary diz. Ele ainda é católico de coração, embora tenha rompido com Roma. Não é mesmo, Katherine? Katherine mal a escuta, não consegue evitar a lembrança do seu bebé morto, os olhos pretos abertos, o olhar inquietante lembrando-a de onde viera. Mas se recompõe, respondendo: é verdade, senhora. Questões de fé não são mais directas como costumavam ser». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Pensei que os Howard e os Seymour fossem… Pouco amigáveis… sim, é provavelmente por isso que nunca deu em nada. Pessoalmente, acho que ele está em busca de uma esposa ainda mais ilustre»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Anne põe um dedo sobre os lábios fazendo shhh e as irmãs partilham um sorriso secreto. Ela estende a mão para a cruz pendurada no pescoço de Katherine. O crucifixo de diamantes de mãe, diz, segurando-o sob a luz. Na minha lembrança, era maior. Que era menor. Faz muito tempo que a mãe se foi. Sim, Katherine diz, mas só consegue pensar por quanto tempo a mãe foi viúva. E essas pérolas, diz Anne, ainda manuseando o crucifixo, são quase cor-de-rosa. Tinha esquecido. Um dos elos está solto. Ela chega mais perto. Deixe-me ver se consigo consertar. A ponta da língua escapa para fora enquanto ela se concentra apertando o elo aberto entre o polegar e o indicador. Katherine gosta que a irmã esteja perto. Consegue sentir o seu perfume, doce e reconfortante, como maçãs maduras. Ela vira um pouco para que Anne alcance melhor o seu pescoço. Na madeira da parede, pode ver claramente onde rasparam as iniciais CH. Pobre Catherine Howard, a última rainha. Deviam ser os aposentos dela. É claro, são os melhores do palácio, depois dos aposentos do rei.
Pronto, diz Anne, soltando o crucifixo, que caiu de volta sobre o vestido de Katherine. Não ia querer perder uma das pérolas da mãe. Como foi com a última rainha, Anne? Não falou muito sobre o assunto. A voz de Katherine reduz-se a um sussurro e os seus dedos acariciam distraidamente o lugar arranhado no painel. Catherine Howard?, ela gesticula. Katherine faz que sim. Kit, ela era tão jovem; mais jovem que Meg até. Ambas olham para Meg, que parece mal ter saído da infância. Não tinha sido criada para ter uma posição alta. Norfolk arrancou-a dos Howard para servir as suas próprias necessidades. Seus modos, Kit, não pode imaginar como era grosseira e fútil. Mas era uma coisinha bonitinha, e o rei ficou completamente descontrolado diante dos seus… Ela pára, procurando a palavra certa. … Atractivos. O apetite dela foi a sua ruína.
Por homens?, pergunta Katherine, baixando ainda mais o sussurro. As irmãs estão bem perto agora e com o rosto meio virado em direcção à janela, de modo a não serem ouvidas. Quase uma compulsão. Gostava dela, Anne? Não…, acho que não. Era insuportavelmente frívola. Mas não teria desejado aquele destino a ninguém. Ser decapitada daquela forma e tão jovem. Kit, foi aterrorizador. As suas damas foram questionadas uma a uma. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Algumas deviam saber o que ela andava fazendo, encontrando-se daquele jeito com Culpepper, debaixo do nariz do rei. Ela era só uma menina. Nunca deveria ter sido posta na cama de um homem velho, rei ou não. As duas ficam em silêncio por um tempo. Pela janela, Katherine observa um bando de gansos voando sobre o lago à distância. Quem interrogou você?, pergunta finalmente. Foi o bispo Gardiner. Teve medo? Fiquei petrificada, Kit. Ele é um sujeito maldoso. Não é um homem para ser contrariado. Uma vez vi-o deslocar o dedo de um garoto do coral por errar uma nota. Eu não sabia de nada, então não havia muito que pudesse fazer comigo. Mas todas nos lembrávamos da história da garota Boleyn. É claro, Anne Boleyn. Foi a mesma coisa. Exactamente a mesma coisa. O rei afastou-se, recusou-se a ver Catherine, como fez com Anne. A pobre garota ficou louca de medo. Correu gritando pela galeria só de camisola. Ainda me lembro dos gritos. A galeria estava cheia de gente, mas ninguém sequer olhou para ela, nem mesmo o seu tio Norfolk. Consegue imaginar? Ela olha para o vestido, puxando um fio solto. Graças aos céus não fui escolhida para servi-la na Torre. Não acho que teria aguentado, Kit. Estar ali, vê-la subir no patíbulo. Soltar a touca. Tirar os adereços do pescoço. Ela estremece. Pobre criança, murmura Katherine. E dizem por aí que o rei está em busca de uma sexta esposa. De quem estão falando? Os rumores variam, como sempre. Toda a mulher não casada teve o nome cogitado, até a Kit.
Absurdo, balbucia Katherine. É em Anne Bassett que as pessoas estão apostando, continua Anne. Mas ela é só uma menina, mais jovem ainda que a última. Não consigo imaginá-lo casando com outra jovem assim. Catherine Howard abalou-o profundamente. Mas a família da pequena Anne está promovendo a garota mesmo assim. Ela tem um guarda-roupa novo completo para exibir. Este lugar, diz Katherine com um suspiro. Sabia que Will sugeriu um casamento entre Meg e aquele Seymour? Não me surpreende nem um pouco. Anne revira os olhos. São unha e carne, aqueles dois. Não vai acontecer, dispara Katherine. Então não cedeu aos encantos do galanteador do palácio? Nem um pouco. Achei-o… Ela não consegue encontrar as palavras, está distraída pelo facto de Seymour ter rondado a sua mente na última hora. Ah, sabe.
Estas aqui não concordariam, diz Anne, acenando em direcção ao grupo de damas mais jovens espalhadas diante da lareira, conversando e fingindo costurar. Precisa ver como elas flutuam quando ele passa, como borboletas numa rede. Katherine dá de ombros, dizendo a si mesma que não é uma daquelas borboletas. Ele nunca se casou? Deve ter quantos anos, vinte e nove? Trinta e quatro! Não aparenta a idade que tem, ela diz, surpresa. Mas a ideia que domina a sua mente é que Thomas Seymour é mais velho que ela. Não aparenta, de facto… Anne faz uma pausa, depois completa: acho que me lembro de boatos sobre ele e a duquesa de Richmond uma vez. Quem, Mary Howard?, pergunta Katherine. Pensei que os Howard e os Seymour fossem… Pouco amigáveis… sim, é provavelmente por isso que nunca deu em nada. Pessoalmente, acho que ele está em busca de uma esposa ainda mais ilustre». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «… encerrando o assunto com firmeza, embora complete num sussurro, mas estou feliz por você. Sei que este não será um pequeno católico com lady Mary como madrinha»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Vou visitá-la em Charterhouse quando a prin… Ela põe as duas mãos sobre a boca e suspira. Quando lady Mary permitir. Ela chega perto da orelha de Katherine e sussurra: lady Hussey foi mandada para a Torre por chamá-la de princesa. Eu lembro-me, diz Katherine. Mas faz anos, e ela estava fazendo birra. Era diferente. Um deslize assim não seria punido. Ah, Kit, passou tempo demais longe deste lugar. Esqueceu-se de como é? Um ninho de cobras, murmura Katherine. Ouvi dizer que o rei mandou Huicke cuidar de seu marido, diz Anne. Mandou. Não sei por quê. Latymer certamente foi perdoado então. Suponho que sim.
Katherine nunca tinha entendido completamente o papel de Latymer no levante que foi chamado de Peregrinação da Graça, quando todo o norte, quarenta mil homens católicos, diziam, ergueu-se contra as reformas de Cromwell. Alguns dos líderes foram a Snape armados até ao pescoço. Houve discussões acaloradas no salão e bastante gritaria, mas ela não conseguiu captar os pontos principais do que estava sendo dito. Quando viu, Latymer estava preparando-se para partir, relutante, mas disse a ela que precisavam de homens como ele para liderá-los. Katherine perguntava-se que tipo de ameaças haviam feito, pois Latymer não era facilmente coagido, embora achasse a causa deles justificada, pois os mosteiros estavam sendo arrasados, os monges eram enforcados em árvores e um modo de vida era destruído, sem esquecer a amada rainha, jogada de lado, e a garota Boleyn que manipulava o grande rei como um brinquedo. Foi assim que Latymer descreveu a revolta. Mas pegar em armas contra o rei, aquele não era o marido que ela conhecia.
Você nunca falou a respeito, diz Anne. Do levante, quero dizer. Do que aconteceu em Snape. É algo que preferiria esquecer, diz Katherine, encerrando a conversa. Uma versão dos acontecimentos tinha se espalhado pela corte na época. Era de conhecimento geral que, quando o exército real pôs os rebeldes na defensiva, Latymer partiu para Westminster para pedir perdão ao rei e os rebeldes acharam que ele tinha mudado de lado, então mandaram Murgatroy de seus homens fazerem Katherine e Meg de reféns e saquearem Snape, o que foi uma boa fonte de boatos. Mas nem mesmo sua irmã sabia sobre o bebé morto, o filho bastardo de Murgatroyd. Nem que ela se entregara àquele bruto em desespero, o segredo mais sombrio de todos. Salvara as garotas, mas nunca deixou de imaginar o que Deus pensaria daquilo, pois adultério não tem perdão de acordo com a Igreja. Katherine perguntou-se muitas vezes por que é que todos os líderes haviam ido para a forca, incluindo Murgatroyd, duzentos e cinquenta condenados à morte em nome do rei quando o levante falhou, e Latymer não.
Talvez ele os tivesse traído de facto. Murgatroyd certamente presumiu que sim. Ela prefere acreditar que Latymer fora leal, como ele sustentava, do contrário para que tinha servido tudo aquilo? Mas Katherine nunca saberia a verdade. Você ouviu alguma coisa, Anne, sobre Latymer e por que foi perdoado? Houve rumores na corte? Não chegou nada aos meus ouvidos, irmã, diz Anne, tocando a manga de Katherine, pousando a mão ali por um instante. Não fique pensando nisso. O passado é passado. Sim. Mas ela não consegue evitar pensar em como o passado era o presente, como a podridão numa maçã. Katherine olha para Meg no outro lado da sala, procurando atentamente a figura do pai na tapeçaria. Ao menos a imagem dele não foi apagada como a dos outros. Olha de novo para Anne, a doce, leal, descomplicada Anne. Há algo nela, um frescor, como se tivesse mais vida em si do que pudesse abrigar.
Katherine percebe de repente o porquê. Seu coração se entristece e, inclinando-se para a frente, põe a mão no corpete de Anne e pergunta: está escondendo algo de mim?. Imagina-se seu sorriso esconde o rompante de ciúme que surge diante da fertilidade da irmã. Está estampado nela, o rubor e a resplandecência da gravidez que Katherine quis tanto para si mesma. Anne fica vermelha. Como é que sabe tudo, Kit? Que notícia maravilhosa. As palavras ficam presas na sua garganta; a sua viuvez é um facto duro irrefutável, a possibilidade de um bebé não passa de uma fantasia distante na sua idade; ela não tem nenhum filho, somente o bebé morto de que nunca se fala. Os seus pensamentos devem ter-se infiltrado até à superfície, pois Anne põe uma mão reconfortante sobre a sua e diz: ainda há uma chance irmã. Certamente se casará outra vez. Acho que dois maridos são o suficiente, responde Katherine, encerrando o assunto com firmeza, embora complete num sussurro, mas estou feliz por você. Sei que este não será um pequeno católico com lady Mary como madrinha». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Ah, Anne, como é bom vê-la. A minha casa é sombria demais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Essa é a última rainha?, pergunta Meg, apontando para a mulher sóbria com uma touca triangular ao lado do rei. Não, Meg, Katherine sussurra, colocando um dedo sobre os seus lábios, é melhor não mencionar a última rainha. Essa é a rainha Jane, a irmã de Thomas Seymour, que você acabou de conhecer. Mas porque a rainha Jane é retratada, se já houve duas rainhas depois dela? A rainha Jane é a que deu ao rei o herdeiro. Katherine omite o comentário de que Jane Seymour morreu antes que o rei se cansasse dela. Então este é o príncipe Edward. Meg aponta para o garoto, uma versão em miniatura do pai, imitando a sua pose. Sim, e estas são lady Mary e lady Elizabeth, Katherine diz, apontando para as duas garotas pairando na borda da tela como borboletas sem lugar para pousar. Vejo que está admirando o  meu retrato, diz uma voz atrás delas. Katherine e Meg viram-se. Will Sommers!, exprime-se Katherine. Seu retrato? Não me vê? Ela olha novamente, encontra-o no fundo da imagem. Ali está você. Não tinha notado. Ela vira-se para a enteada. Meg, este é Will Sommers, o bobo e fanfarrão do rei, o homem mais honesto da corte. Ele estica a mão e tira uma moeda de cobre de detrás da orelha de Meg, provocando nela uma rara risada descontraída.
Como fez isso?, pergunta ela com uma voz aguda. Mágica, responde ele. Não acredito em mágica, diz Katherine. Mas reconheço um bom truque quando vejo. Ainda estão rindo quando chegam aos aposentos de lady Mary, onde a favorita de Mary, Susan Clarencieux, surge imponente diante da porta, vestida de amarelo-gema, silenciando-os como uma víbora. Ela está com uma daquelas dores de cabeça, diz Susan com um sorriso forçado. Então não façam barulho. Olhando Katherine de cima a baixo, como se calculando o valor do vestido e achando-o barato demais, ela diz: tão sério e escuro, lady Mary não vai gostar. Em seguida, cobre a boca com a mão. Perdoe-me, esqueci que estava de luto. Está esquecido, responde Katherine.
A sua irmã está na câmara privada. Com licença, preciso cuidar de… Ela não termina a frase e desliza de volta para dentro do quarto, fechando a porta silenciosamente. Elas andam pela câmara onde algumas damas cuidam dos seus trabalhos manuais. Katherine cumprimenta-as acenando com a cabeça até encontrar a sua irmã Anne no nicho de uma janela. Kit, diz Anne. Que prazer vê-la finalmente. Ela levanta-se e dá um abraço na irmã. E Meg. Anne dá um beijo em cada bochecha dela. A garota relaxou visivelmente agora que estão num aposento de mulheres. Meg, por que não vai olhar as tapeçarias? Acho que o seu pai está retratado numa delas. Veja se consegue encontrá-lo.
Ela vai até à outra ponta da sala e as duas irmãs sentam-se num banco ao lado da janela. Então, o que está acontecendo? Por que acha que fui chamada? Katherine não consegue afastar os olhos da irmã, o seu sorriso tranquilo, o brilho translúcido da sua pele, as mechas pálidas que escapam da touca, o seu rosto perfeitamente oval. Lady Mary vai ser madrinha. Muitas pessoas foram chamadas para ver. Não fui só eu, então…, fico contente de saber. Quem vai ser baptizado? Um bebé Wriothesley. Uma menina chamada… Mary, elas dizem ao mesmo tempo, rindo. Ah, Anne, como é bom vê-la. A minha casa é sombria demais». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Bem, ela não viveu para dar errado. Talvez isso tenha sido bom. Era o seu maior desejo ver os Parr novamente em ascensão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Caminham em silêncio pela longa galeria em direcção aos aposentos de lady Mary. Will parece cismado e Katherine suspeita que esteja pensando que gostaria que fosse ele de luto pela esposa. Os dois se odeiam desde que se conheceram. Anne Bourchier, a única herdeira do idoso conde de Essex, era o prémio que sua mãe havia conquistado quase implorando para o seu único filho. Com Anne Bourchier vieram grandes expectativas, entre elas o título de Essex para levar os Parr um ou dois degraus acima. Mas o casamento não trouxera nada ao pobre Will, nenhum filho, nenhum título, nenhuma felicidade; nada além de desgraça, pois o rei deu o condado a Cromwell e Anne fugiu com um clérigo do interior. Will não conseguia livrar-se do escândalo, era sempre assediado com piadas sobre enganos clericais, esconderijos de padre e mitra. Não via graça nenhuma e, não importa quanto tentasse, não conseguia fazer o rei sancionar o seu divórcio. Está pensando na sua esposa?, pergunta ela. Como sabe? Conheço-o mais do que imagina, Will Parr. Ela teve outro fedelho com aquele maldito padre. Ah, Will, o rei vai acabar mudando de ideia e você poderá fazer de Lizzie Brooke uma mulher honesta.
Lizzie está perdendo a paciência, Will resmunga. Quando penso nas esperanças que a mãe tinha nesse casamento, em tudo que fez para arranjá-lo… Bem, ela não viveu para dar errado. Talvez isso tenha sido bom. Era o seu maior desejo ver os Parr novamente em ascensão. O nosso sangue é bom o bastante, Will. O nosso pai serviu o velho rei e o seu pai serviu Edward IV, nossa mãe serviu a rainha Catherine. Ela conta os familiares nos dedos. Quer mais? Isso é história, Will diz num grunhido. Nem me lembro do meu pai. Só tenho vagas lembranças dele, diz ela, embora se lembre claramente do dia em que foi enterrado; quão indigna ela se sentira por ser considerada jovem demais, aos seis anos, para ir ao funeral. Além do mais, a nossa irmã Anne serviu todas as cinco rainhas e agora serve a filha do rei. E é provável que eu a sirva também. Ela fica irritada com a ambição do irmão, tem vontade de dizer que, se ele se importa tanto com a ascensão dos Parr, deveria buscar favores junto às pessoas certas em vez daquele sujeito. Seymour pode ser tio do príncipe Edward, mas é seu irmão Hertford que tem voz com o rei.
Will começa a sua ladainha novamente, mas parece pensar melhor. Os dois continuam a caminhar em silêncio, serpenteando entre a multidão que circula em frente aos aposentos do rei. Então ele aperta o seu braço, dizendo: o que acha de Seymour?. Seymour? Sim, Seymour…Nada de mais. A sua voz sai entrecortada. Não o acha esplêndido? Não especialmente. Achei que poderíamos tentar arranjar um casamento com Meg. Com Meg?, ela diz bruscamente. Perdeu a cabeça? A cor sumiu do rosto da garota. Ele comeria a pobrezinha viva, pensa Katherine. Meg não vai casar com ninguém por enquanto. Não quando o corpo de seu pai ainda mal arrefeceu. Foi só… Uma ideia ridícula, ela vocifera.
Ele não é o que você pensa, Kit. É um de nós. Com isso ela imagina que Will quer dizer que Seymour é a favor da nova religião. Ela não gosta de ser agrupada com os reformadores da corte, prefere guardar os seus pensamentos sobre o assunto. Aprendeu ao longo dos anos que é mais seguro cultivar certa opacidade ali. Surrey não gosta dele, diz ela. Ah, é só uma coisa de família, nem é sobre religião. Os Howard acham os Seymour arrogantes. Não afecta Thomas. Katherine bufa. Will as deixa admirar a nova pintura do rei que está exposta na galeria. É tão nova que ela consegue sentir o cheiro de tinta; as cores são vívidas, com os detalhes em dourado». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Surrey, o que acha? Seymour mordeu a língua. Surrey e William começam a rir, e ela perde a cabeça à procura de uma resposta, então anuncia: e pode ser sua ruína»

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Palácio de Whitehall. Londres. Março de 1543
«(…) Margaret, diz Surrey, tomando a mão de Meg. Conheci seu pai. Era um homem notável. Era, sim, ela murmura com um sorriso vago. Não me vai apresentar a sua irmã? Um homem se levanta, alto, quase tanto quanto Surrey. Tira a boina de veludo adornada por uma pena de avestruz enorme que balança e dança com o floreio desnecessário da mesura. Katherine suprime uma risada que surge do nada. Ele está vestido de forma espectacular, um gibão de veludo preto com seda vermelha saindo pelas fendas e uma gola de zibelina. Parece se dar conta de que ela reparou na zibelina, pois levanta a mão para acariciá-la, como para enfatizar sua posição. Katherine se esforça para lembrar a lei sunptuária e quem tem direito de usar zibelina, tentando identificar onde ele se encaixa. As mãos dele estão carregadas de anéis, além do bom gosto, mas seus dedos são belos e finos e passeiam entre a zibelina e a boca. Ele põe o dedo do meio sobre o lábio inferior deliberadamente devagar, sem sorrir. Mas seus olhos, azuis, obscenamente azuis, e seu olhar directo, desarmador, fazem Katherine corar. Ela o olha nos olhos só por um instante e nota uma ligeira agitação, mas em seguida encara o chão. Ele piscou para ela? Que insolência. Piscou para ela. Não, deve ter sido a sua imaginação. Mas então porque está imaginando esse tolo empertigado piscando? Thomas Seymour, esta é minha irmã, lady Latymer, anuncia Will, que parece estar se divertindo com o que quer que tenha acabado de acontecer. Ela deveria ter percebido. Thomas Seymour é publicamente conhecido pelo dúbio título de homem mais perfeito da corte, objecto incessante de bisbilhotice, paixões juvenis, corações partidos, discórdia entre casais. Admite para si mesma os seus atractivos; é uma beldade, isso é inegável, mas ela não será enfeitiçada pelos seus encantos, já viveu demais para isso. É uma honra, senhora, diz ele com uma voz macia como manteiga batida, finalmente conhecê-la afinal. Surrey revira os olhos. Então não estou perdendo nada, pensa ela. Finalmente e afinal! Escapa da sua boca antes que consiga impedir; não consegue suprimir a vontade de pôr aquele homem no seu lugar. Meu Deus! Põe a mão sobre o peito fingindo estar exageradamente surpresa. De facto, senhora, ouvi falar de sua beleza, ele continua calmamente, e ver-me diante dela me deixa sem fala. Ela se pergunta se, por beleza, ele se refere à sua recém-adquirida fortuna. Notícias de sua herança devem ter circulado. Will, por exemplo, não consegue manter a boca fechada. Sente um repente de raiva pelo irmão e seu falatório. Sem fala? Este é um galanteador, pensa, procurando uma resposta mordaz. Mantém o olhar firme na sua boca, sem ousar olhá-lo nos olhos novamente, mas sua língua rosada e húmida aparece, perturbadora. Surrey, o que acha? Seymour mordeu a língua. Surrey e William começam a rir, e ela perde a cabeça à procura de uma resposta, então anuncia: e pode ser sua ruína.
Os três homem olham-se e depois começam na gargalhada. Katherine sente-se triunfante; a sua inteligência não a abandonou, nem mesmo frente a essa criatura perturbadora. Meg olha espantada para a madrasta. Não teve muitas oportunidades de ver essa Katherine, a dama da corte perspicaz. Katherine sorri para Meg, tranquilizando-a, enquanto Will a apresenta a Seymour, que olha para ela como se fosse comestível. Katherine pega na sua mão, dizendo: venha, Meg, vamos-nos atrasar para ver lady Mary. Tão breve e ainda assim tão doce. Seymour sorri, afectado. Katherine o ignora, dá um beijo no rosto de Surrey e, ao se afastar, dá meia-volta e abaixa a cabeça na direcção de Seymour, por polidez. Vou acompanhá-las, diz Will, deslizando entre as duas e dando um braço a cada uma. Eu gostaria que você não discutisse minha herança com seus amigos, Katherine diz sibilante, quando estão nas escadarias, fora do alcance dos outros. Acusa rápido demais, irmã. Eu não disse nada. A notícia acabou por se espalhando, era inevitável, mas… Ela o interrompe. Então o que era tudo aquilo sobre a minha famosa beleza? Kit, ele ri, realmente acho que ele estava referindo-se à sua beleza. Ela tosse. Precisa ser sempre a irmã mais velha mal-humorada? Desculpe, Will. Tem razão, não é culpa sua que as pessoas estejam comentando. Não, sou eu quem tem que pedir desculpas. As coisas têm sido difíceis para você. Ele segura a seda preta do vestido dela entre os dedos. Está de luto. Eu deveria ter tomado mais cuidado». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Reconheceria seu cheiro em qualquer lugar, irmão, diz com sarcasmo, tampando o nariz como se estivesse com nojo e virando-se de frente para ele, que está no meio de um grupo de homens…»

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Palácio de Whitehall. Londres. Março de 1543
«(…) Quando pensa em Latymer e no que fez para ajudá-lo a partir, um turbilhão se ergue dentro dela como uma panela de leite fervendo. Precisa se lembrar do horror de tudo aquilo para se reconciliar com suas acções: os gritos angustiados, a forma como seu próprio corpo tinha se voltado contra ele, seu pedido desesperado. Procurou na Bíblia desde então um precedente, mas não há histórias de morte por misericórdia ali, nada para dar esperança à sua alma desonrada, e não há como escapar. Ela matou o marido.
Katherine e Meg entram no grande salão, ainda de mãos dadas. Cheira a lã molhada e madeira queimada e está fervilhando de gente, movimentado como uma praça de mercado. As pessoas circulam pelas alcovas e pavoneiam-se nas galerias, exibindo suas roupas finas. Nos cantos, algumas jogam jogos de tabuleiro, cartas ou dados, apostando. Ocasionalmente fazem uma algazarra quando alguém ganha ou perde. Katherine observa Meg, espantada diante de tudo aquilo. A menina nunca esteve na corte, mal esteve fora de casa, e depois da tranquilidade mortal de Charterhouse, toda coberta de preto, aquilo deve ser um rude despertar. Formam um par sóbrio com seus trajes de luto entre os bandos de damas com roupas vistosas que passam por elas, conversando animadamente, os vestidos elegantes balançando conforme se movem, como se estivessem dançando, sempre olhando em volta procurando quem notou quão bem-vestidas estão, ou para reparar, com inveja, nas que estão trajadas melhor. Gostam de pequenos cachorros, que ficam aninhados em seus braços como regalos ou trotam a seus pés. Até Meg consegue rir ao ver um que pegou ‘boleia’ na cauda da dona. Pajens e arautos vão de um lado para o outro e pares de serviçais passam entre as pessoas, carregando cestos de lenha destinados a alimentar as lareiras nas salas públicas. Mesas compridas estão sendo dispostas para o jantar no grande salão por um exército de rapazes da cozinha, que tagarelam e fazem barulho, cada um equilibrando uma braçada de pratos. Um grupo de músicos afina os instrumentos, as cordas dissonantes finalmente transformam-se em algo como uma melodia. Música enfim, pensa Katherine, imaginando-se carregada pelo som, rodopiando e girando até mal poder respirar de alegria. Ela interrompe o pensamento. Não pode dançar ainda. Param diante de um bando de guardas que passa marchando e ela se pergunta se vão prender alguém, lembrando-se de quão pouco quer estar naquele lugar. Mas uma ordem é uma ordem. Leva um susto quando duas mãos chegam do nada e cobrem seus olhos, fazendo seu coração subir para a garganta. Will Parr, exclama, rindo. Como você sabia?, pergunta Will, baixando as mãos. Reconheceria seu cheiro em qualquer lugar, irmão, diz com sarcasmo, tampando o nariz como se estivesse com nojo e virando-se de frente para ele, que está no meio de um grupo de homens e sorri como um menininho, o cabelo acobreado espetado onde antes estava o chapéu, os olhos de cores diferentes, um cor de água, outro caramelo, brilhando à sua maneira irreverente.
Lady Latymer. Mal posso me lembrar da última vez que a vi. Um homem dá um passo adiante. Tudo nele é comprido: nariz comprido, rosto comprido, pernas compridas e olhos que têm algo de cão de caça. Mas de algum modo a natureza conspirou para deixá-lo bastante atraente apesar da estranheza. Talvez tenha algo a ver com a confiança inabalável que vem de ser o mais velho dos irmãos Howard e o próximo duque de Norfolk. Surrey! Um sorriso invade seu rosto. Talvez não seja tão ruim na corte, com todos esses rostos conhecidos por perto. Ainda faz versos? Sim. Vai gostar de saber que melhorei muito. Uma vez ele escrevera um soneto para ela, quando eram pouco mais que criancinhas, e riam daquilo com frequência desde então, virtude rimava com amiúde. A lembrança lhe dá vontade de rir. Uma de suas vergonhas juvenis, como ele dizia. Sinto muito por vê-la de luto, continua ele, agora sério. Mas ouvi dizer quanto seu marido sofreu. Talvez seja uma bênção que tenha falecido afinal. Ela assente com a cabeça, o sorriso se desfaz, é incapaz de encontrar palavras para responder; pergunta-se se ele suspeita dela, esquadrinha seu rosto em busca de sinais de acusação. As circunstâncias da morte de Latymer foram descobertas? Estão falando disso nos corredores do palácio? Talvez os embalsamadores tenham visto alguma coisa, seu pecado escrito nas entranhas do marido. Ela desconsidera essa ideia. O que deu a ele não deixa rastro e não há acusação no tom de Surrey, é certo. Caso apareça no rosto dela, vão pensar que está perturbada de tristeza, mas mesmo assim seu coração está batendo forte. Deixe-me apresentar minha enteada, Margaret Neville, diz, recompondo-se. Meg está logo atrás com um olhar mal disfarçado de horror frente à ideia de ter que ser apresentada a esses homens, mesmo que um deles seja Will, que é praticamente seu tio. O desconforto está estampado nela. Desde aqueles acontecimentos malditos em Snape, Katherine a tem mantido afastada da companhia de homens tanto quanto pode, mas agora não há escolha. Além do mais, ela terá que se casar em algum momento. Katherine deverá cuidar disso mas, Deus sabe, a garota ainda não está pronta». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

sábado, 20 de agosto de 2016

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Aqui estamos, diz alegremente, estendendo a mão para Meg, embora alegria seja a última coisa que sinta. O rosto de sua enteada está vermelho. A cor realça seus olhos castanhos…»

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1543. Londres
«(…) Huicke entra no quarto. Tem vindo todos os dias esta semana. Latymer se pergunta por que o rei manda um de seus próprios médicos cuidar de um lorde desgraçado do norte como ele. Katherine acha que é um sinal de que foi mesmo perdoado. Mas não faz sentido, e ele conhece o rei o suficiente para suspeitar que haja segundas intenções no gesto, embora não tenha certeza de quais sejam. O médico é uma sombra preta esguia aproximando-se da cama. Meg se retira com outro beijo. Huicke afasta as cobertas, fazendo escapar um fedor rançoso, e começa a apalpar o caroço com dedos de borboleta. Latymer detesta aquelas mãos infantis. Nunca viu Huicke tirar as luvas, que são macias e aveludadas como pele humana. Usa por cima delas um anel incrustado com uma granada do tamanho de um olho. Latymer odeia o homem por causa das luvas, a fraude delas passando-se por mãos, e o modo como o fazem se sentir impuro. Repentes de dor aguda o consomem, tornando sua respiração rápida e superficial. Huicke fareja um frasco de alguma coisa, sua urina, supõe, erguendo-o contra a luz enquanto conversa em voz baixa com Katherine. Ela se anima com a companhia do jovem médico. Pelo menos ele é tolo e efeminado demais para ser uma ameaça, mas Latymer odeia-o com força por sua juventude e sua esperança, não só por suas mãos enluvadas. Deve ser brilhante para estar a serviço do rei ainda tão jovem. O futuro de Huicke está diante dele como um banquete, enquanto o seu está esgotado. Latymer devaneia, vozes sussurradas o preenchem.
Dei-lhe uma coisa nova para a dor, ela diz. Casca de salgueiro-branco e agripalma. A senhora tem o toque de um médico, Huicke responde. Eu não teria pensado em usá-las juntas. Eu me interesso por ervas. Tenho minha própria horta medicinal… Ela pára. Gosto de ver coisas crescerem. E tenho o livro de Bankes. Herbário de Bankes, é o melhor de todos. Bem, eu acho, mas é bastante desprezado pelos académicos. Imagino que considerem um livro para mulheres. É verdade, diz ele. E é precisamente isso que o torna interessante para mim. Em minha opinião, as mulheres sabem mais sobre cura que todos os acadêmicos em Oxford e Cambridge juntos, mas geralmente guardo isso para mim. Latymer sente uma dor súbita atravessá-lo, mais aguda desta vez, dobrando-o ao meio. Ouve um grito e mal reconhece como seu. Está morrendo de culpa. O espasmo torna-se afinal uma dor persistente. Huicke se foi e ele supõe que estivera dormindo. É acometido então de um repentino senso de urgência. Precisa pedir a ela antes que a voz o abandone, mas como dizê-lo? Segura o punho de Katherine, surpreso com sua própria força, e ordena: dê-me mais tintura. Não posso, John, ela responde. Já lhe dei o máximo possível. Mais poderia… As palavras ficam suspensas. Ele a agarra com mais força, grunhindo. É o que quero, Kit. Ela olha para ele, directamente, sem dizer nada.
Ele pensa poder ver seus pensamentos como as engrenagens de um relógio, perguntando-se, ele imagina, onde na Bíblia encontrar justificativa para aquilo; como reconciliar sua alma com tal acto; aquilo poderia levá-la à prisão; fosse ele um faisão atacado por um cão, não haveria problema em torcer seu pescoço por piedade. O que você está me pedindo condenará nós dois, ela sussurra. Eu sei, ele responde.

Palácio de Whitehall. Londres. Março de 1543
Uma neve tardia caiu e as torres cobertas de branco do Palácio de Whitehall desaparecem contra o céu. O pátio está forrado de neve suja semiderretida até a altura dos calcanhares e, apesar da serragem que foi espalhada, formando um caminho improvisado sobre as pedras, Katherine sente o frio húmido encharcar os sapatos, a barra molhada de suas saias batendo gelada nos tornozelos. Ela está tiritando; joga a capa espessa em volta do corpo enquanto o ajudante da cavalariça ajuda Meg a descer. Aqui estamos, diz alegremente, estendendo a mão para Meg, embora alegria seja a última coisa que sinta. O rosto de sua enteada está vermelho. A cor realça seus olhos castanhos, dando-lhes uma aparência fresca e límpida. Ela tem o olhar doce e ligeiramente assustado de um animal silvestre, mas Katherine consegue perceber o esforço que faz para segurar mais lágrimas. Reagiu mal à morte do pai. Venha, diz Katherine, vamos para dentro. Dois ajudantes tiram as selas dos cavalos e escovam-nos energicamente com punhados de palha, trocando gracejos. O cavalo cinza de Katherine, Pewter, mexe a cabeça, fazendo tilintar o arreio, e relincha, lançando nuvens de vapor no ar como um dragão. Calma, garoto, diz Katherine, que segura a rédea e acaricia o focinho aveludado, deixando-o fungar em seu pescoço. Ele precisa beber alguma coisa, diz ao ajudante, entregando-lhe as rédeas. Seu nome é Rafe, não é? Sim, senhora, ele responde. Lembro-me de Pewter. Fiz uma compressa nele uma vez. Seu rosto fica vermelho de vergonha. Sim, ele estava mancando. Você fez um óptimo trabalho. O rosto do rapaz se abre em um sorriso. Obrigado, senhora. Sou eu quem deveria agradecer, diz ela, enquanto Rafe leva Pewter para o estábulo. Ela segura a mão da enteada e dirige-se à porta principal. Está entorpecida de tristeza há semanas e preferiria não ter que ir à corte tão pouco tempo depois da morte do marido, mas foi convocada, Meg também, e uma ordem vinda da filha do rei não é algo que se possa recusar. Além disso, Katherine gosta de Lady Mary, conheceram-se quando crianças, até tiveram o mesmo tutor quando a mãe de Katherine servia a mãe de Mary, a rainha Catherine de Aragón, antes de o rei mandá-la embora. As coisas eram mais simples naquela época, antes do cisma, quando tudo ficou de ponta-cabeça, o país fendido em dois. Mas não vão ordenar que fique na corte ainda. Mary respeitará seu período de luto». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Aqui estamos, diz alegremente, estendendo a mão para Meg, embora alegria seja a última coisa que sinta. O rosto de sua enteada está vermelho. A cor realça seus olhos castanhos…»

jdact

1543. Londres
«(…) Huicke entra no quarto. Tem vindo todos os dias esta semana. Latymer se pergunta por que o rei manda um de seus próprios médicos cuidar de um lorde desgraçado do norte como ele. Katherine acha que é um sinal de que foi mesmo perdoado. Mas não faz sentido, e ele conhece o rei o suficiente para suspeitar que haja segundas intenções no gesto, embora não tenha certeza de quais sejam. O médico é uma sombra preta esguia aproximando-se da cama. Meg se retira com outro beijo. Huicke afasta as cobertas, fazendo escapar um fedor rançoso, e começa a apalpar o caroço com dedos de borboleta. Latymer detesta aquelas mãos infantis. Nunca viu Huicke tirar as luvas, que são macias e aveludadas como pele humana. Usa por cima delas um anel incrustado com uma granada do tamanho de um olho. Latymer odeia o homem por causa das luvas, a fraude delas passando-se por mãos, e o modo como o fazem se sentir impuro. Repentes de dor aguda o consomem, tornando sua respiração rápida e superficial. Huicke fareja um frasco de alguma coisa, sua urina, supõe, erguendo-o contra a luz enquanto conversa em voz baixa com Katherine. Ela se anima com a companhia do jovem médico. Pelo menos ele é tolo e efeminado demais para ser uma ameaça, mas Latymer odeia-o com força por sua juventude e sua esperança, não só por suas mãos enluvadas. Deve ser brilhante para estar a serviço do rei ainda tão jovem. O futuro de Huicke está diante dele como um banquete, enquanto o seu está esgotado. Latymer devaneia, vozes sussurradas o preenchem.
Dei-lhe uma coisa nova para a dor, ela diz. Casca de salgueiro-branco e agripalma. A senhora tem o toque de um médico, Huicke responde. Eu não teria pensado em usá-las juntas. Eu me interesso por ervas. Tenho minha própria horta medicinal… Ela pára. Gosto de ver coisas crescerem. E tenho o livro de Bankes. Herbário de Bankes, é o melhor de todos. Bem, eu acho, mas é bastante desprezado pelos académicos. Imagino que considerem um livro para mulheres. É verdade, diz ele. E é precisamente isso que o torna interessante para mim. Em minha opinião, as mulheres sabem mais sobre cura que todos os acadêmicos em Oxford e Cambridge juntos, mas geralmente guardo isso para mim. Latymer sente uma dor súbita atravessá-lo, mais aguda desta vez, dobrando-o ao meio. Ouve um grito e mal reconhece como seu. Está morrendo de culpa. O espasmo torna-se afinal uma dor persistente. Huicke se foi e ele supõe que estivera dormindo. É acometido então de um repentino senso de urgência. Precisa pedir a ela antes que a voz o abandone, mas como dizê-lo? Segura o punho de Katherine, surpreso com sua própria força, e ordena: dê-me mais tintura. Não posso, John, ela responde. Já lhe dei o máximo possível. Mais poderia… As palavras ficam suspensas. Ele a agarra com mais força, grunhindo. É o que quero, Kit. Ela olha para ele, directamente, sem dizer nada.
Ele pensa poder ver seus pensamentos como as engrenagens de um relógio, perguntando-se, ele imagina, onde na Bíblia encontrar justificativa para aquilo; como reconciliar sua alma com tal acto; aquilo poderia levá-la à prisão; fosse ele um faisão atacado por um cão, não haveria problema em torcer seu pescoço por piedade. O que você está me pedindo condenará nós dois, ela sussurra. Eu sei, ele responde.

Palácio de Whitehall. Londres. Março de 1543
Uma neve tardia caiu e as torres cobertas de branco do Palácio de Whitehall desaparecem contra o céu. O pátio está forrado de neve suja semiderretida até a altura dos calcanhares e, apesar da serragem que foi espalhada, formando um caminho improvisado sobre as pedras, Katherine sente o frio húmido encharcar os sapatos, a barra molhada de suas saias batendo gelada nos tornozelos. Ela está tiritando; joga a capa espessa em volta do corpo enquanto o ajudante da cavalariça ajuda Meg a descer. Aqui estamos, diz alegremente, estendendo a mão para Meg, embora alegria seja a última coisa que sinta. O rosto de sua enteada está vermelho. A cor realça seus olhos castanhos, dando-lhes uma aparência fresca e límpida. Ela tem o olhar doce e ligeiramente assustado de um animal silvestre, mas Katherine consegue perceber o esforço que faz para segurar mais lágrimas. Reagiu mal à morte do pai. Venha, diz Katherine, vamos para dentro. Dois ajudantes tiram as selas dos cavalos e escovam-nos energicamente com punhados de palha, trocando gracejos. O cavalo cinza de Katherine, Pewter, mexe a cabeça, fazendo tilintar o arreio, e relincha, lançando nuvens de vapor no ar como um dragão. Calma, garoto, diz Katherine, que segura a rédea e acaricia o focinho aveludado, deixando-o fungar em seu pescoço. Ele precisa beber alguma coisa, diz ao ajudante, entregando-lhe as rédeas. Seu nome é Rafe, não é? Sim, senhora, ele responde. Lembro-me de Pewter. Fiz uma compressa nele uma vez. Seu rosto fica vermelho de vergonha. Sim, ele estava mancando. Você fez um óptimo trabalho. O rosto do rapaz se abre em um sorriso. Obrigado, senhora. Sou eu quem deveria agradecer, diz ela, enquanto Rafe leva Pewter para o estábulo. Ela segura a mão da enteada e dirige-se à porta principal. Está entorpecida de tristeza há semanas e preferiria não ter que ir à corte tão pouco tempo depois da morte do marido, mas foi convocada, Meg também, e uma ordem vinda da filha do rei não é algo que se possa recusar. Além disso, Katherine gosta de Lady Mary, conheceram-se quando crianças, até tiveram o mesmo tutor quando a mãe de Katherine servia a mãe de Mary, a rainha Catherine de Aragón, antes de o rei mandá-la embora. As coisas eram mais simples naquela época, antes do cisma, quando tudo ficou de ponta-cabeça, o país fendido em dois. Mas não vão ordenar que fique na corte ainda. Mary respeitará seu período de luto». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT