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domingo, 26 de março de 2017

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou»

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«(…) Ele apontou para uma minúscula moldura de madeira lisa, talvez com dez centímetros por sete e meio, que enquadrava um retrato de Eppie aparentemente nos seus tempos áureos, antes da penúria. Anéis de cabelo brilhante enfeitavam-lhe o rosto miúdo e do colo nu emergia o pescoço alongado. Envergava um vestido com a cintura subida que se lhe colava ao peito, apesar do amplo decote em V que terminava nos ombros. Posava quase de perfil, de tal modo que olhava algures para a direita do artista e ostentava um sorriso tímido, como se preferisse não ser o alvo das atenções. As outras relíquias da tia Eppie eram um par de luvas brancas de pelica com botões de pérola, um pouco encardidas na ponta dos dedos. Cheirei-as porque sabia que o perfume permanecia nas luvas, e lembrei-me imediatamente do aroma a água de rosas e do odor a transpiração que sempre a tinham caracterizado. Havia um pequeno guarda-jóias com flores bordadas na parte de cima, forro de seda e um espelho no interior da tampa. O anel de noivado de Eppie com uma fiada de três pequenos diamantes, que eu conhecia tão bem dos tempos da costura, estava embrulhado num pedaço de tecido amarrotado, junto de uma folha de papel dobrada de modo a caber exactamente na caixa. Nela, Eppie escrevera com uma mão pouco firme: para o Harry. O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou. Era muito meiga, a tua mãe, disse eu em surdina. Deixou-me a sua caixa de costura. Sabias?
Henry não respondeu. Agarrei-me ao seu pescoço e tentei abraçá-lo, mas ele não reagiu; continuava esquivo como no dia em que chegara. Pouco depois, desisti e afastei-me, mas, ao chegar à porta, ouvi um som roufenho e terrível que lhe saía da garganta e, quase sem dar por isso, encontrei-me sentada na cama, com a cabeça dele enterrada no meu regaço. Os meus dedos acariciaram-lhe o cabelo e a saia do meu vestido de algodão ficou quente e húmida com as suas lágrimas. Os seus soluços vinham das profundezas do corpo, e ele agarrou-se ao meu braço e às minhas costas. Por fim, recompôs-se e fitou-me, com o rosto molhado. Agora, terás de ser tudo para mim, Mariella.
A tia de Derbyshire não conseguiu operar um milagre no pai de Henry (o infeliz e incapaz Richard Thewell), que foi a enterrar passados dois verões. Entretanto, Henry desapareceu no longo túnel que era a aprendizagem da medicina, absorvido por uma série interminável de palestras e exames de disciplinas tão inatingíveis como a Química e a Fisiologia. Ambicionava ser cirurgião, e desconfio de que o meu pai lhe pagou muitas contas. De vez em quando, ao domingo à tarde, aparecia para beber uma chávena de chá à pressa, despejar informações fragmentadas sobre gessos, assistentes de cirurgia e turnos de trinta e seis horas sem sono, e partia uma hora depois, carregado de carnes frias e bolos preparados com esmero pela nossa cozinheira.
Os negócios do Pai prosperaram e, passado pouco tempo, já ele administrava vários projectos ao mesmo tempo e fora convidado a integrar diversos conselhos de administração e comissões ligados ao planeamento e às obras públicas. A Mãe andava mais atarefada do que nunca a dar aulas de catequese, a angariar dinheiro para a Female Aid Society e a visitar doentes em hospitais. Eu frequentava uma escola diurna, onde aprendi a tocar pianoforte, Francês, Aritmética e regras de conduta. Graças à tia Eppie, destacava-me na arte da costura». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «Estava sentado em cima da cama, com o conteúdo do embrulho espalhado à sua volta. Peguei no tabuleiro e pu-lo lá fora, no corredor. Em seguida, fechei a porta e aproximei-me da cama»

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«(…) Não sei nada disso. Acha que eles se apaixonaram? Não posso falar por ele. Só sei que aquela rapariga não faria nada para magoá-la. O que hei-de fazer? O que lhe hei-de dizer? E se ele continuar a confundir-me com ela? Diga-lhe a verdade. Diga-lhe que não é a Rosa. Diga-lhe que estamos todos muito preocupados porque sabe-se lá onde a pobre rapariga se encontra agora.

Londres. 1840
Durante os quatro meses que Henry ficou em nossa casa, vi-o chorar pela mãe uma vez. Um dia, depois de ele ir para a escola, chegou um embrulho, com o endereço escrito numa letra incerta, que, como viemos a verificar, era da tia que acolhera o pai. Numa carta anexa, comunicava que viera ao Sul com o objectivo de separar os pertences da defunta para que, dentro de pouco tempo, pai e filho pudessem regressar a casa e começar de novo. Encontrara os objectos que enviava e que a mãe de Henry deixara ao filho como recordação. Os meus pais falaram do assunto ao pequeno-almoço. Não podemos interferir, disse a mãe. O Henry já tem idade para aguentar este embate. É quase um homem. Precisamente quando o rapaz estava a progredir tão bem, chegou isto, disse o pai. Na minha opinião, era preferível guardarmos estas coisas. Mas ele tem de ficar com alguma coisa da pobre Eppie. Tem a recordação dela. Isso deve ser suficiente.
Durante todo o dia, mantive-me à distância do embrulho, sempre que passava pelo corredor, e não falei dele a Henry quando fui ao seu encontro no portão do jardim, porque queria prolongar o mais possível a sua boa disposição. Nessa época, em geral levávamos uma hora ou mais a chegar a casa. Se o tempo estava quente, deitávamo-nos debaixo do cedro e deixávamo-nos ficar ali, com as agulhas caídas a picarem-nos as costas, a observar os ramos complicados, ou então ele encostava-se ao tronco e lia um livro de anatomia que um professor lhe emprestara. Eu não estava autorizada a espreitá-lo, porque Henry dizia que o conteúdo não era adequado a uma menina e eu optava por me encostar às suas costelas ossudas e ouvir o bater do seu coração. Uma vez, quando me disseram que fosse apanhar framboesas para o jantar, enchemos ambos as nossas taças até eu ficar tonta com o cheiro a feno e a açúcar e ter de me sentar à sombra, enquanto ele prosseguia a sua tarefa e de vez em quando me enfiava, com os dedos manchados, frutos na boca. Quando se aproximou a hora do jantar, fomos para casa, ofuscados pelo ambiente exterior, despejámos as taças em cima da mesa da cozinha e subimos as escadas das traseiras que iam dar ao patamar de acesso aos nossos quartos. Ele puxou-me a trança Vai lavar a cara, Mariella. Desgraças o nome da família.
Na tarde em que chegou o embrulho, dei-lhe a mão e acompanhei-o até ao corredor. Assim que Henry pegou nele, aconteceu precisamente o que eu receava; ele refugiou-se em si mesmo, foi para cima e fechou-se no quarto. Não desceu para jantar. Mais tarde, a mãe subiu com um tabuleiro e meia hora depois mandou-me buscá-lo. A porta do quarto dele ficara aberta e o aposento cheirava a carne cozida porque Henry não tocara na comida. Estava sentado em cima da cama, com o conteúdo do embrulho espalhado à sua volta. Peguei no tabuleiro e pu-lo lá fora, no corredor. Em seguida, fechei a porta e aproximei-me da cama, onde fiquei com as mãos atrás das costas, à espera de que ele desse pela minha presença. Henry não era ainda um rapaz muito bem-parecido; demasiado magro, a sua pele, embora mais bronzeada do que quando chegara, continuava vulnerável a manchas, e o cabelo era escorrido. Mas eu considerava-o belo devido ao seu olhar grave e perspicaz, e lamentava a luz que em geral lhe iluminava o rosto sempre que me via. Pouco depois, aproximei-me da cama, pousei-lhe a mão no ombro e inclinei o pescoço de tal maneira que fiquei com a cara quase virada ao contrário por baixo da cabeça dele. Fitei-o. Não houve reacção alguma. Posso ver o que estava no embrulho?, perguntei. Nada. O sofrimento dele era tão palpável que percebi que se impunham medidas drásticas. Sentei-me no seu colo desconfortável e passei-lhe as mãos à volta do pescoço. Mostra-me, disse eu». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 26 de julho de 2016

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «Não. Não. Não podia ser... Como era possível que houvesse recebido tanto de mim e depois me traísse? Como era possível que se sentisse tão inebriado por Rosa que nem sequer reparara que a mulher…»

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«(…) Abriguei-me junto do muro, a tremer. Talvez ele não viesse por ali nesse dia, ou não ficasse satisfeito quando me visse. Talvez nos tivéssemos desencontrado. Uma erva aos meus pés vergou-se sob o peso de um pingo de chuva. Finalmente, ouvi os passos de alguém a chapinhar, e lá vinha Henry com a gola levantada, as botas enlameadas e uma sacola molhada agarrada ao peito. Henry. Ele parou, olhou à volta e viu-me debaixo do arco do portão. Trouxe-te um chapéu-de-chuva, disse eu. E é mais rápido atravessarmos o jardim. Henry não disse uma palavra e, horrorizada, percebi que ele se esforçava por não chorar. Mas fez uma vénia, pegou no chapéu-de-chuva e atravessou o jardim atrás de mim, protegendo-nos a ambos. Assim que chegámos a casa, ele entregou-me a sacola enquanto sacudia o chapéu-de-chuva e o enrolava. Intimidada pela responsabilidade de ter o seu monte de livros húmidos nas minhas mãos, cheirei discretamente o couro ensopado. Quando lhos devolvi e ele me entregou o chapéu, encarou-me e sorriu, e eu fiquei no meio da lavandaria, entre filas de lençóis molhados, sem saber como conseguiria sobreviver até ao jantar, quando talvez ele me sorrisse outra vez daquela maneira.

Itália, 1855
Fugi de Narni pela estrada sinuosa que ia dar ao fundo do vale, onde não soprava sequer uma brisa e a atmosfera estava impregnada de calor, e um carreiro que atravessava zonas de mato e hortas desembocava no rio. Ao passar por uma fonte onde havia um recipiente de metal preso a uma corrente, bebi água antes de continuar a andar. A roupa apertava-me, eu usava cinco camadas de saiotes e, como deixara a touca no quarto de Henry, o cabelo caía-me em cascata sobre os ombros. Só de pensar naquela touca, escolhida com tanto cuidado para esta viagem, fiquei nauseada. Se conseguisse respirar, teria gritado de dor. A dada altura, as palavras, não, não irromperam de mim, mas dissiparam-se nas paredes rochosas daquilo que se transformara numa ravina. Pouco depois, deixei-me cair debaixo de uma árvore, mas mesmo assim não consegui ficar quieta. Bati no chão com os punhos cerrados e com os calcanhares. Gritei outra vez não, não e continuei a bater com as mãos até fazer nódoas negras. Ardiam-me os olhos com as lágrimas que não vertia. Se pudesse sair do meu próprio corpo, tê-lo-ia feito e deixado a minha pele na margem do rio, como se fosse um farrapo. Revivi a cena no quarto de Henry: o seu rosto ansioso, o contacto com a sua pele, os seus beijos, as suas palavras de amor. Não. Não. Não podia ser... Como era possível que houvesse recebido tanto de mim e depois me traísse? Como era possível que se sentisse tão inebriado por Rosa que nem sequer reparara que a mulher que tinha nos braços era eu? Eu. O que não vira eu durante todo este tempo?
Arranquei punhados de erva da terra, atirei-os para a água, e lá estava ela do outro lado do rio com o seu cabelo louro a sua pele clara e as mãos afiladas estendidas para mim, chamando-me em voz baixa. O seu corpo era flexível e esbelto, o corpete estreito assentava-lhe bem na cintura e o vestido azul fluía em linhas bem definidas até aos tornozelos. Mas eu gosto muito de ti, disse eu, dirigindo-me à sombra de Rosa. Estendi-lhe os braços, suplicando-lhe que viesse e pusesse ordem na situação. Afinal, talvez Rosa conseguisse andar sobre a água. Apercebi-me de que estava cheia de terra e de que a bainha da minha saia se arrastava na água, de que me sentia esfomeada e de que devia recuperar a compostura e regressar a Narni. Mas afastara-me mais do que julgava e já perdera o fôlego quando me aproximei da fonte. Uma mulher vestida de escuro encontrava-se sentada junto dela e, mesmo de longe, percebi, pelo tamanho da touca, que não era outra senão Nora, que me entregou primeiro o recipiente cheio de água e depois o meu chapéu abandonado. Eu podia tê-la avisado de que isto não seria fácil, disse ela quando regressámos ao hotel.
O meu quarto, às três da tarde, estava às escuras e fresco. Nora ordenara às criadas que me preparassem um banho e observou-me enquanto eu comia. Tinha o cabelo acachapado pelo calor e pelo peso da touca, mas parecia mais alegre do que nunca desde que eu a conhecia, havia um ano. Consegui engolir umas garfadas e pus o prato de lado. O que hei-de fazer?, perguntei. Ele julgou que eu era a Rosa. Ela fitou-me com uns olhos cor de lama. - Porque havia ele de julgar que eu era a Rosa? Quando o vi, depois de a menina sair, não me pareceu que ele soubesse o que dizia. Então foi lá acima? Fomos ambas, quando a menina apareceu a correr daquela maneira. Encontrámo-lo quase a cair da cama e a delirar. Demos-lhe uma dose e acalmámo-lo. Ele está terrivelmente doente, pobre homem. Julgou que eu era a Rosa. Isso faz parte do delírio. Mas porque quereria ele que eu fosse a Rosa? Não se trata de querer. Trata-se do que ele julgava que estava a ver. Ele queria que eu fosse a Rosa, mas não compreendo porquê. Não havia nada entre o Henry e a minha prima. Eles nem sequer gostavam um do outro. Estou noiva do Henry. Ele sempre me pertenceu. Deve ter acontecido alguma coisa na guerra». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «O rapaz ficará connosco só até acabar os estudos ou o pai voltar a aguentar-se nas pernas, disse a mãe. Dormirá no quarto ao lado do teu e sairá todos os dias»

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Londres. 1840
«(…) Enquanto o rapaz, Henry, estava na escola, a tia Eppie passava as manhãs connosco em Fosse House, a tratar da roupa da casa e a ensinar-me a coser. Nunca conheci o marido dela, cujo vício da bebida o votou ao ostracismo, embora uma vez eu tivesse ouvido a mãe descrevê-lo a uma amiga, a senhora Hardcastle, chamando-lhe incapaz. Eppie era uma criatura baixa e de cara larga, que não tinha nada em comum com a mãe, excepto o facto de ambas serem naturais de Derbyshire e umas trabalhadoras incansáveis. A mãe não suportava coser e Eppie não se sentia feliz sem uma agulha na mão; a mãe era filha de um proprietário rural e Eppie de um alfaiate; a mãe não se dispunha a dedicar mais de uma ou duas horas por dia aos meus estudos, enquanto a tia Eppie me ensinava a fazer imitação de renda de guipure em croché e uma cercadura de ponto de cruz numa toalha de linho, e a franzir uma blusa de musselina. Trabalhávamos lado a lado na sala da manhã e lembro-me do cheiro da sua transpiração, do folho juvenil de renda feita à mão que lhe emoldurava o cabelo, com um risco ao meio bem visível, do seu rosto pálido e da tensão das suas mãos enquanto cosia. Tresandava a doença e tinha mau hálito. Quando eu tinha oito anos, já ela se encontrava demasiado fraca para vir a nossa casa, embora a mãe me levasse a visitá-la uma vez na vivenda de Wandsworth. Estava deitada sobre um monte de almofadas, com a face perdida no meio das abas da touca e um pedaço de folho com a agulha enfiada caído entre as pregas da colcha. Sorria como se pedisse desculpa e não conseguia falar por causa da tosse. Depois disso, desapareceu completamente da minha vida, embora eu tivesse herdado a sua habilidade, a sua pequena colecção de livros sobre bordados e uma caixa de costura de couro, com agulhas, tesouras, colchetes e um canivete, com cabo de madrepérola. De repente, a mãe ficou mais ocupada do que nunca, pois teve de administrar a casa dos Thewell e a nossa, tratar de um funeral e mandar o viúvo para casa de uma tia que o ajudasse a recuperar do golpe sofrido com a morte da mulher. Entretanto, tínhamos de receber o rapaz. Quando Henry começou a morar na nossa casa tranquila, era um jovem de rosto esguio, com uma tez doentia e um olhar vazio que denotava sofrimento. O rapaz ficará connosco só até acabar os estudos ou o pai voltar a aguentar-se nas pernas, disse a mãe. Dormirá no quarto ao lado do teu e sairá todos os dias. Mal daremos pela presença dele. Mas eu dei pela presença dele, reparei em tudo o que lhe dizia respeito: os sons cautelosos quando se levantava de manhã, o pequeno-almoço frugal, constituído por chá e uma torrada, a maneira como se esgueirava de casa, como se receasse agitar o ar ao fechar a porta, o seu regresso às seis horas e o modo como desaparecia no seu quarto assim que o jantar terminava. Reparei que tinha os dedos compridos como a mãe e que andava sempre acompanhado de um livro. Até à hora das refeições havia um a sair-lhe do bolso e, quando ele ia para a escola, de manhã, eu corria para uma janela do primeiro andar e via-o abri-lo e começar a ler. Só por milagre não tropeçava, mas era hábil a evitar obstáculos, mesmo sem tirar os olhos do papel. Eu e ele não tínhamos nada a dizer um ao outro. Afinal, Henry era um rapaz e oito anos mais velho do que eu. E a sua defunta mãe, a pobre tia Eppie, tremeluzia no meio de nós. Parti do princípio de que Henry ficara ainda mais triste do que eu com a morte dela, mas ignorava até que ponto. Todavia, numa tarde de chuva, reparei que, apesar dos avisos da minha mãe durante o pequeno-almoço, ele se esquecera de levar um chapéu-de-chuva do bengaleiro da entrada e fiquei muito perturbada porque este era o tipo de pormenor a que costumávamos estar atentos precisamente antes de ele chegar. Passei uma hora debruçada sobre o meu bordado, a pensar como havia de remediar a situação. Por fim, pedi autorização à mãe para atravessar o jardim com um chapéu-de-chuva e ir abrir-lhe o portão. Deste modo, ele poderia cortar caminho e abrigar-se durante os últimos minutos, pelo menos. Isso seria simpático, Mariella. Então, desatei a correr pelo caminho de tijolos que bordejava o relvado e atravessei aquilo que esperávamos que um dia fosse um descampado, na direcção dos canteiros cheios de ervas. Havia pedras para pormos os pés até chegarmos ao portão, que estava semicoberto de clematite e tinha uma fechadura bem oleada». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.
Cortesia de CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «Como o meu cabelo ficara preso debaixo da cabeça dele, eu via apenas uma parte do tecto rachado, um friso interrompido e a cortina azul-acinzentada a ondular. Beijei-o vezes sem conta…»

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Itália. 1855
«(…) Henry estava deitado na cama, mas apoiou-se num cotovelo e, mesmo na escuridão, vi que havia um brilho ansioso no seu olhar e que o seu cabelo crescera tanto que lhe cobria a testa. Ficámos a olhar um para o outro. Depois, atravessei o quarto como pude, ajoelhei-me ao lado da cama e abracei-o. A minha touca escorregou para o lado quando ele me cobriu a face de beijos ardentes. Chorei e pareceu-me que voava ao sentir a boca dele no meu cabelo, na orelha e no pescoço. Apesar de me aperceber vagamente de que a porta atrás de nós se fechou de repente e de que tínhamos sido observados, não me importei. Agarrei-me aos seus braços escanzelados, enquanto as mãos dele me acariciavam as costas, e ajudei-o a desapertar as fitas da minha touca, pensando como podia eu ter duvidado sequer de que tomara a decisão certa ao apresentar-me ali. Compreendi que havia esperado durante a maior parte da minha vida que Henry me beijasse o pescoço, e até que eu o deixasse desabotoar-me atabalhoadamente o vestido e soltar-me o peitilho da camisa. A minha pele contraiu-se quando a boca dele se fechou sobre o meu seio. A sua respiração, ofegante e rouca, alternava com beijos. Deixei-me cair na almofada, acariciei-lhe o cabelo e senti-o cada vez mais pesado nos meus braços. Surpreendida, vi que tinha adormecido. Talvez durante meia hora, não me mexi, embora só metade do meu corpo estivesse apoiada na cama, a touca me caísse do pescoço e uma brisa agitasse a cortina, ao som dos cascos de uma mula que passava na rua. Como o meu cabelo ficara preso debaixo da cabeça dele, eu via apenas uma parte do tecto rachado, um friso interrompido e a cortina azul-acinzentada a ondular. Beijei-o vezes sem conta, dei-lhe beijos pequenos e suaves no cabelo, que era muito mais macio do que eu tinha imaginado, como o pêlo de um gato, e pensei: … ele tem passado todas estas semanas sozinho, a olhar para aquela cortina e à minha espera. Senti-me a flutuar no milagre do seu contacto, senti a novidade de um corpo masculino que quase cobria o meu, o facto de este ser o Henry cuja ausência me custara tanto nos últimos meses que até o sangue nas minhas veias suspirava por ele.
Depois, estreitei o meu abraço porque, mesmo nos meus devaneios mais extravagantes, nunca esperara uma recepção tão apaixonada e carente como esta, nem pensara que iria encontrá-lo tão fraco ao ponto de estar confinado ao leito. Sempre apreciara a sua energia e a firmeza do seu braço debaixo da minha mão, mas agora ele estava frágil como um pássaro. E exalava um cheiro completamente diferente do Henry que me deliciava sempre com o perfume de um bom sabonete, de um bálsamo ou da cânfora. Mas o odor da carne aprisionada fez-me lembrar o lar das preceptoras. Assim que ele acordou, senti a sua respiração irregular no meu pescoço. Quando mexeu a cabeça, a minha pele estava húmida e quente no sítio em que ele encostara a face. Fechei os olhos no momento em que o meu seio endureceu devido ao movimento circular da ponta do seu dedo. Isto é Itália, ninguém virá a saber. E, afinal, o que me importa?, pensei.
Meu querido amor, sussurrou ele. Julguei que nunca virias. O seu dedo descrevia uma espiral cada vez mais estreita no meu mamilo, e as palavras saíram-me, desconexas: eu não sabia ao certo se me querias aqui. E, no entanto, nada me impediria, nem mesmo tu, por isso pensei que seria preferível vir sem te avisar. És o meu amor, o meu amor. Nas tuas cartas, parecias tão só que achei que tinha de vir ao teu encontro. Henry aninhou-se no meu peito e encostou a face ao meu pescoço, puxando-me cada vez mais para debaixo dele. Não me importei de sentir o odor da febre no seu hálito; quase não tinha consciência de nada, excepto do seu desejo, quando ele murmurou: julguei que nunca mais voltaria a ver-te. Julguei que havias partido. É claro que voltarias a ver-me. Mas nunca me respondeste. Nunca disseste uma palavra. Isso estava a matar-me. Henry pousou a cabeça ao lado da minha, na almofada, e virou a minha cara para a sua. Tive ocasião de reparar como estava pálido e que, como havia rapado o bigode, os seus lábios eram cheios e pueris como da primeira vez em que o vira. Depois, ele disse: deixa-me olhar para ti, finalmente. Minha Rosa. Meu querido amor. Minha querida Rosa.

Londres. 1840
Euphemia, a mãe de Henry, a quem chamavam pobre Tia Eppie, era prima do meu pai. Depois de se casar com Richard Thewell, um estalajadeiro de Derbyshire, o casal mudou-se para o Sul e durante alguns anos administrou uma hospedaria próspera nos arredores de Radlett, em HertÍordshire. A sua história trágica posterior só era comentada à porta fechada e por isso fui obrigada a reconstituí-la aos bocadinhos. Thewell, que não teve a astúcia suficiente para prever que a nova linha do caminho-de-ferro que atravessava a cidade lhe arruinaria o negócio, entregou-se à bebida. Entretanto, pouco depois do nascimento do filho único de ambos, a Tia Eppie começou a sofrer de uma doença que a consumia. O negócio fracassou e o meu pai salvou a família transferindo-a para uma das pequenas vivendas que acabara de construir em Wandsworth, a cerca de dois quilómetros da nossa casa, em Clapham». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «Dei um passo em frente, e mais outro. O quarto estava mergulhado numa semiobscuridade porque, embora com uma portada entreaberta, havia uma cortina azul pardacenta a tapar a janela»

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Itália. 1855
«Chegámos a Narni num domingo à noite, já tarde. Embora a porta do Hotel Fina estivesse fechada, o cocheiro conseguiu arranjar um criado que saiu aos tropeções, com a fralda da camisa amarrotada, levou a nossa bagagem para dentro e nos mostrou um quarto que cheirava a pés sujos. Nora tirou-me a capa e a touca e em seguida apaguei as velas e deitei-me. Um homem gritava ao longe, talvez por causa da bebida. Em vez de adormecer, viajei através da noite como se me encontrasse ainda numa carruagem que avançava aos solavancos pelas planícies de Itália. Pouco depois, ouvi um relógio bater as cinco horas e o ruído de uma carroça lá fora, na praça, e adormeci ao som de vozes femininas alteradas e de um balde a embater no empedrado. Acordei com uma nesga de sol que entrava pelas frestas das portadas, já a manhã ia a meio. Nora estava de pé junto de mim, com o tabuleiro do pequeno-almoço e uma carta da minha mãe, que não li. Como nenhum dos vestidos que vinham na mala se encontrava pronto a usar, por estarem muito enrodilhados, optei outra vez pela minha indumentária de viagem e participei que sairíamos imediatamente. No átrio, tentei fazer-me entender pela proprietária, que vestia de preto e cuja boca era descaída nas extremidades, talvez por desespero, mas quando lhe mostrei o endereço de Henry ela desenhou-nos um mapa tosco.
Narni era uma cidade antiga que se erguia no cimo de uma colina, e o Hotel Fina ficava no centro, numa praceta. Com um grupo de mulheres à volta de uma fonte e a confusão das ruas e das fachadas dos estabelecimentos, era impossível saber qual a direcção certa e partimos ao acaso. Subimos uma escadaria e passámos por baixo de um arco. O sol estava muito quente, a rua era opressivamente estreita e os nossos fatos viagem demasiado pesados. Parámos à sombra de um alpendre, enquanto eu consultava o mapa. Formou-se um grupo de crianças à nossa volta e, quando perguntei a um rapazinho onde era a Via del Monte, Signora Critelli, ele seguiu por onde tínhamos vindo. Fomos atrás dele, voltámos a atravessar a praceta e desta vez mergulhámos numa rua íngreme onde as casas se erguiam tão perto umas das outras que eu quase conseguia tocar-lhes. peças de roupa íntimas estavam penduradas nas varandas ou entre dois muros, como bandeiras de Carnaval encardidas. Fiquei admirada por Henry estar alojado num bairro tão pobre.
Pouco depois, o rapazinho parou em frente de uma porta aberta onde cheirava a pedra molhada e a flores, porque alguém acabara de regar um vaso de narcisos. Fiquei ali, indecisa, e desejei nunca ter saído de Inglaterra, ou pelo menos avisado Henry, para que ele soubesse que eu ia a caminho. Agora que me encontrava ali, perguntava a mim própria se ele aprovaria a minha decisão. Além disso, receava vê-lo doente. E se não me reconhecesse, ou eu a ele? Ao contrário de Rosa, eu nunca sabia o que fazer perante a doença. Olhei de relance para Nora, mas ela ergueu uma sobrancelha, como se dissesse: foste tu que nos envolveste nisto; não esperes que eu te encoraje. Por fim, entrei e desemboquei numa cozinha, onde estava uma mulher com os braços submersos numa selha. Fitou-me através das gotículas de água que lhe escorriam para os olhos. O doutor Henry Thewell?, perguntei. Ela ficou embasbacada, enxugou a cara primeiro com uma toalha e depois com a saia, encostou a mão à soleira da porta e despejou uma torrente de italiano, que terminou com uma pergunta. Abanei a cabeça. Non capisco. Inglese. Mi chiamo Mariella Lingwood. Ma-ri-ella. Sou a noiva do doutor Thewell. Dov'e Henry Thewell?
Aprendera, observando o meu pai, que, em momentos críticos, era preferível falar baixo do que gritar. A verdade é que a Signora Critelli se acalmou, continuou a falar, mas mais devagar, enxugou as mãos outra vez, fez um gesto para eu me afastar do caminho e subiu à minha frente um lanço de escadas estreito que dava acesso ao primeiro andar. Bateu com força a uma porta, abriu-a completamente e anunciou-me, dizendo: signorina inglese. Dei um passo em frente, e mais outro. O quarto estava mergulhado numa semiobscuridade porque, embora com uma portada entreaberta, havia uma cortina azul pardacenta a tapar a janela. Através da sombra, vi que o quarto era pequeno e que tinha uma cama estreita, um lavatório, uma mesa cheia de livros e uma cadeira baixa com assento de palhinha, sobre o qual alguém deixara um tabuleiro com um pãozinho, um jarro e uma chávena ainda intactos. Cheirava a café frio e a lençóis húmidos». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT