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domingo, 26 de março de 2017

Gravidade. Tess Gerritsen. «Seis mil metros. Temperatura da água a 82 graus. No meio da chaminé, a temperatura devia passar de 260 graus»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mar. Fenda de Galápagos. 0,30º S, 90,30º W
«(…) Meu Deus! Situação?, perguntou Helen. Steve, qual é a sua situação? Ele estava hiperventilando, coração disparado, em pânico. O casco. Terei danificado o casco? Junto ao ruído áspero de sua própria respiração, esperou pelo som do metal cedendo, pela explosão fatal. Ele estava a mais de mil metros abaixo da superfície, e mais de cem atmosferas de pressão o comprimiam como um punho fechado. Uma fenda no casco, uma explosão de água, e ele seria esmagado. Steve, fale comigo! Suando frio, ele finalmente conseguiu responder. Eu assustei-me..., colidi com a parede do desfiladeiro... Algum dano? Ele olhou para fora da cúpula. Não dá para ver. Acho que bati com o sonar de proa. Ainda consegue manobrar? Ele experimentou os controles, virando o aparelho para bombordo. Sim. Sim. Ele suspirou aliviado. Acho que estou bem. Algo passou bem perto da cúpula. Fiquei assustado. Algo? Passou com muita rapidez, como uma cobra. Um animal com cabeça de peixe e corpo de enguia? Sim. Sim, foi isso o que vi.
Então é um zoarcídeo. Thermarces cerberus. Cérbero, pensou Ahearn. E sentiu um calafrio. O cão de três cabeças que guarda os portões do Inferno. Ele é atraído pelo calor e pelo enxofre, disse Helen. Vai ver mais deles ao se aproximar da chaminé. Se está dizendo… Ahearn não sabia quase nada de biologia marinha. As criaturas que agora passavam diante da cúpula de acrílico eram meras curiosidades para ele, placas vivas indicando o caminho. Usando ambas as mãos, ele manobrou o Deep Flight IV para descer mais profundamente no abismo. Dois mil metros. Três mil. E se ele tivesse danificado o casco? Quatro mil metros. A pressão sufocante da água aumentava linearmente à medida que ele descia. A água tornava-se ainda mais escura, colorida pela fumaça sulfurosa que emanava da chaminé mais abaixo. As luzes das asas mal penetravam aquela densa suspensão de partículas minerais. Cego pelos sedimentos, saiu daquelas águas tintas de enxofre, o que melhorou um pouco a visibilidade. Descia um dos lados da chaminé hidrotermal, afastando-se das águas aquecidas pelo magma, embora a temperatura externa continuasse a subir. Quarenta e nove graus centígrados. Outro vulto passou diante de seu campo de visão. Desta vez, conseguiu manter o controle. Viu mais zoarcídeos que pareciam cobras gordas penduradas de cabeça para baixo, como se suspensas no espaço. A água que saía da chaminé lá em baixo era rica em sulfato de hidrogénio aquecido, uma substância tóxica e insalubre. Mas, mesmo naquelas águas escuras e venenosas, a vida conseguia florescer em belas e fantásticas formas. Grudados às paredes do desfiladeiro, estavam vermes cilíndricos gigantes com quase 2 metros de comprimento, oscilando os seus adornos de plumas escarlate. Viu aglomerados de mexilhões gigantes com cascas brancas e línguas vermelhas e aveludadas esticadas para fora. Também viu caranguejos, assustadoramente pálidos e fantasmagóricos, vagando entre as fendas. Mesmo com o ar-condicionado a funcionar, ele começava a sentir o calor.
Seis mil metros. Temperatura da água a 82 graus. No meio da chaminé, a temperatura devia passar de 260 graus. O facto de haver vida em plena escuridão e em águas venenosas e superaquecidas como aquelas parecia um milagre. Estou a 6.060, disse ele. Não vejo o que procuramos. No auscultador de ouvido, a voz de Helen soava fraca, repleta de interferências. Há uma saliência na parede. Vê-la-á por volta dos 6.080 metros. Estou procurando». In Tess Gerritsen, Gravidade, 1999, tradução de Alexandre Raposo, Editora Record, 2009 / 2012, ISBN 978-850-108-343-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 25 de março de 2017

Gravidade. Tess Gerritsen. « Também viu sinais de humanidade: um pedaço de corrente enrolado ao redor de uma âncora perdida e uma garrafa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mar. Fenda de Galápagos. 0,30º S, 90,30º W
«Ele pairava à beira do abismo. Logo abaixo, estendia-se a escuridão aquosa de um mundo gelado onde o sol jamais penetrava, onde a única luz eram as centelhas passageiras de criaturas bioluminescentes. Deitado de barriga para baixo no fundo da apertada cabine do Deep Flight IV, cabeça aninhada no cone frontal de acrílico transparente, o dr. Stephen Ahearn tinha a inebriante sensação de flutuar, livre, na vastidão do espaço. Iluminada pelas luzes das asas do submarino, viu a suave e contínua precipitação de partículas de matéria orgânica provenientes das águas repletas de luz bem mais acima. Eram corpos de protozoários, afundados em milhares de metros de água até o seu túmulo final no fundo do mar. Atravessando a chuva fina de partículas, ele guiou o Deep Flight ao longo da borda do desfiladeiro submarino, mantendo o abismo a bombordo, o solo do planalto logo abaixo do aparelho. Embora os sedimentos fossem aparentemente estéreis, havia provas de vida em toda a parte. Marcadas no fundo do mar, viu trilhos e sulcos provocados por diferentes criaturas, agora ocultas e em segurança sob um manto de sedimentos. Também viu sinais de humanidade: um pedaço de corrente enrolado ao redor de uma âncora perdida e uma garrafa de refrigerante semi-submersa no lodo.
Vestígios fantasmagóricos do mundo alienígena lá em cima. De súbito, divisou uma imagem surpreendente. Era como atravessar um bosque submarino de troncos de árvores carbonizadas. Os objectos eram chaminés hidrotermais, tubos de 6 metros de altura formados por minerais dissolvidos que saíam de fendas na crosta terrestre. Usando os controles, manobrou o Deep Flight lentamente para estibordo de modo a evitá-las. Cheguei às chaminés hidrotermais, disse ele. Estou me movendo a 2 nós, chaminés de águas termais a bombordo. Como está o aparelho?, disse a voz de Helen no seu telefone de ouvido. Muito bem. Quero uma dessas belezinhas para mim. Ela riu. Pois então se prepare. Terá de pagar caro, Steve. Já viu o campo de manganésio? Deve estar bem à sua frente. Ahearn ficou em silêncio um instante enquanto perscrutava as redondezas. Pouco depois, falou: estou vendo agora.
Os nódulos de manganésio (Mn) pareciam pedaços de carvão espalhados pelo fundo do mar. Com a sua estranha, quase bizarra lisura, formados por minerais que se solidificaram ao redor de pedras ou grãos de areia, eram uma fonte muito valiosa de titânio e de outros metais preciosos. Mas ele ignorou os nódulos. Estava em busca de algo ainda mais valioso. Vou entrar no desfiladeiro, disse ele. Ele aproximou o Deep Flight da borda do planalto. Quando a sua velocidade aumentou para 2,5 nós, as asas, projectadas para produzir o efeito inverso das de um avião, arrastaram o submarino para baixo, e ele começou a sua descida no abismo. Mil e cem metros, contou. Mil cento e cinquenta... Cuidado com as paredes. É uma fenda estreita. Está monitorando a temperatura da água? Começa a aumentar. Está perto de 13 graus agora. Ainda está longe da chaminé. Mais 2 mil metros, e estará cercado de água quente. Subitamente, uma sombra passou bem diante de Ahearn. Ele se assustou e sem querer esbarrou nos controles, fazendo o submarino rolar para estibordo. O choque contra a parede do desfiladeiro fez resplandecer todo o casco». In Tess Gerritsen, Gravidade, 1999, tradução de Alexandre Raposo, Editora Record, 2009 / 2012, ISBN 978-850-108-343-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Literatura no 31. O Clube Mefisto. Tess Gerritsen. «A tia calou-se, momentaneamente estupefacta. Depois o seu rosto abriu-se num sorriso e ela subiu os degraus a correr para o abraçar. Cheirava a sabonete Dove…»


jdact e wikipedia
PECCAVI
«(…) Não sabemos que será assim. Nem sequer chegámos a conhecer essa mulher! O Monty limitou-se a escrever-nos um dia do Cairo para nos comunicar que tinha um filho acabado de nascer. Tanto quanto sabemos, ele apanhou-o no meio dos juncos, como o Moisés em criança. O rapaz ouviu o chão estalar por cima dele e olhou de relance para o alto das escadas. Ficou espantado por ver a prima, Lily, a olhar para ele por cima do corrimão. Estava a observá-lo, a estudá-lo, como se ele fosse alguma criatura exótica que nunca tivesse visto antes e tentava perceber se era perigosa.  Ah!, disse a tia Amy.  Estás acordado! Os tios tinham acabado de sair do escritório e estavam no fundo das escadas, a olhar para ele. Parecendo também um pouco consternados com a eventualidade de ter ouvido por acaso toda a conversa deles. Sentes-te bem, querido?, perguntou Amy. Sinto, tia. É tão tarde. Talvez devesses voltar agora para a cama? Mas ele não se mexeu. Ficou parado na escada por alguns instantes, perguntando-se como seria viver com esta gente. O que poderia aprender com eles. Isso poderia tornar interessante o Verão, até a mãe vir ter com ele. Tia Amy, já tomei uma decisão, disse ele. Sobre quê? A respeito do meu Verão e onde gostaria de o passar. Ela calculou logo o pior. Por favor, não tomes decisões apressadas! Nós temos uma casa realmente muito boa, mesmo junto ao lago, e tu terás um quarto só para ti. Pelo menos vem fazer-nos uma visita antes de decidires o que vais fazer. Mas eu já decidi que vou ficar convosco.
A tia calou-se, momentaneamente estupefacta. Depois o seu rosto abriu-se num sorriso e ela subiu os degraus a correr para o abraçar. Cheirava a sabonete Dove e a shampô Breck. Tão comum, tão vulgar. Depois um risonho tio Peter deu-lhe uma palmada afectuosa no ombro, a sua maneira de dar as boas-vindas a um novo filho. A felicidade deles era como um rolo de algodão-doce, arrastando-o para o seu universo, onde tudo era amor, luz e riso. Os pequenos vão ficar tão contentes por vires connosco!, disse Amy. Ele olhou de lado para o alto das escadas, mas Lily já não estava lá. Tinha-se escapulido, sem que ninguém visse. Vou ter de ficar de olho nela, pensou. Porque ela já está de olho em mim. Agora fazes parte da nossa família, disse Amy. Enquanto subiam as escadas juntos, ela estava já a contar-lhe os seus planos para o Verão. Todos os lugares onde o iriam levar, todos os pratos especiais que iriam cozinhar para ele quando chegassem a casa. Ela parecia feliz, mesmo estonteada, como uma mãe com o seu filho recém-nascido. Amy Saul não fazia ideia do que estavam prestes a levar para casa com eles.
Talvez isto fosse um erro. A dra Maura Isles parou antes dos portais da Nossa Senhora da Divina Luz, sem saber se devia entrar. Os paroquianos tinham já entrado e ela ficou sozinha na noite enquanto a neve caía suavemente sobre a sua cabeça descoberta. Através das portas fechadas da igreja ouviu a organista começar a tocar o Adeste Fidelis e compreendeu que nesta altura já estariam todos sentados. Se ia mesmo juntar-se a eles, era esse o momento para entrar. Hesitou, porque verdadeiramente o seu lugar não era entre os fiéis que estavam dentro dessa igreja. Mas a música chamou-a, tal como a promessa de calor e o consolo de rituais conhecidos. Aqui fora, na rua escura, encontrava-se sozinha. Sozinha na véspera de Natal. Subiu as escadas, entrando no edifício. Mesmo a esta hora tardia, os bancos da igreja estavam cheios com as famílias e crianças sonolentas que tinham sido tiradas das camas para a missa do Galo. A chegada atrasada de Maura atraiu diversos olhares e, enquanto os acordes do Adeste Fidelis se desvaneciam, ela deslizou rapidamente para o primeiro lugar vazio que encontrou, perto da entrada. Quase imediatamente a seguir teve de se levantar para acompanhar o resto da assistência quando se iniciou o cântico de entrada. O padre Daniel Brophy aproximou-se do altar e fez o sinal da cruz. A graça e a paz de Deus nosso Pai e de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam convosco, disse ele. E contigo também, murmurou Maura, juntamente com a assistência. Mesmo depois de todos estes anos longe da Igreja, as respostas fluíam naturalmente dos seus lábios, aí arraigadas por todos os domingos da sua infância. Senhor, tem misericórdia de nós. Cristo, tem misericórdia de nós. Senhor, tem misericórdia de nós. Embora Daniel não se desse conta da presença dela, os olhos de Maura estavam fixados nele. No seu cabelo escuro, nos seus gestos graciosos, na sua boa voz de barítono. Esta noite, podia observá-lo sem vergonha, sem constrangimento. Esta noite podia olhar para ele à vontade». In Tess Gerritsen, O Clube Mefisto, 2006, Ulisseia, colecção Vício da Leitura, 2008, ISBN 978-972-568-602-7. 
Cortesia de Ulisseia/JDACT

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Clube Mefisto. Tess Gerritsen. «Família? Sim, suponho que estas pessoas são a minha família, pensou o rapaz, enquanto o pequeno Teddy se aproximava timidamente, empurrado pela mãe. Agora vais ser o meu irmão, disse Teddy. Vou?»

jdact e wikipedia

PECCAVI
«A palavra latina foi inscrita com sangue na cena de um crime particularmente macabro: pequei. A expressão, mais sinistra ainda nessa solitária noite de Natal, parece uma forma de saudação perversa à médica-legista de Boston, Maura Isles, e à detective Jane Rizzoli. Ambas estabelecem rapidamente uma ligação entre o assassínio da jovem que ali jaz e a psiquiatra Joyce O'Donnell, uma celebridade muito controversa que é também uma adversária de Maura e que faz parte de uma sociedade secreta denominada o Clube Mefisto. Os membros desse clube dedicam-se à análise do mal. Será ele explicável pela ciência? E terá uma presença física? Andarão os demónios pelos caminhos da Terra? Baseando-se numa imensidão de factos históricos e numa misteriosa simbologia religiosa, os investigadores do Clube Mefisto procuram demonstrar uma teoria inquietante: satanás e os seus demónios estão, de facto, entre nós. Mas então o aparecimento de mais um cadáver, desta vez junto à casa onde se reúne o Clube Mefisto, vem evidenciar que alguém ou alguma coisa anda realmente pela cidade em busca de novas vítimas. Os membros do clube começam a recear o próprio tema das suas investigações. Terão eles inadvertidamente invocado uma qualquer entidade das sombras? Maura e Jane são assim arrastadas para uma terrível viagem ao âmago do mal. Onde irão enfrentar um inimigo bem mais perigoso do que todos aqueles que já alguma vez perseguiram. Um inimigo cuja tarefa apenas se iniciou.
Somente um pequeno grupo se reunira nesse dia de Junho quente e infestado de insectos para assistir ao enterro de Montague Saul, não mais do que uma dúzia de pessoas, muitas das quais o rapaz nunca vira antes. Nos últimos seis meses estivera longe, no colégio interno, e agora estava a ver algumas dessas pessoas pela primeira vez. A maior parte delas não lhe interessava minimamente. Mas a família do seu tio, essa sim, interessava-lhe muito. Valia a pena examiná-la. O médico Peter Saul parecia-se muito com o seu falecido irmão, Montague, magro e cerebral nos seus óculos de lentes grossas que lhe davam um ar de mocho, cabelo castanho a rarear para uma inevitável calvíce. A sua mulher, Amy, tinha um rosto redondo e terno, e continuava a lançar olhares preocupados ao seu sobrinho de quinze anos, como se ansiasse por envolvê-lo nos seus braços e abafá-lo com um abraço. O filho deles, Teddy, tinha dez anos, e era todo ele magricelas. Um pequeno clone de Peter Saul, até mesmo nos óculos de lentes grossas. Finalmente havia a filha, Lily. De dezasseis anos. Madeixas do seu cabelo tinham-se soltado do rabo-de-cavalo e agora pegavam-se-lhe à cara com o calor. Parecia desconfortável no seu vestido preto, e continuava a mexer-se impetuosamente para trás e para a frente, como se se preparasse para fugir dali. Como se preferisse estar em qualquer lugar menos neste cemitério, afastando o zumbido dos insectos. Parecem tão normais, tão vulgares, pensou o rapaz. Tão diferentes de mim. Então, de repente, o olhar de Lily cruzou-se com o seu, e ele sentiu um frémito de surpresa. De mútuo reconhecimento. Nesse instante, quase conseguia sentir o olhar dela a penetrar nas mais obscuras fissuras do seu cérebro, examinando todos os lugares secretos que nunca ninguém vira. Que ele nunca deixara que vissem.
Inquieto, desviou o seu olhar. Focando-o, em vez dela, nas outras pessoas que se encontravam à volta da sepultura: a governanta do seu pai, o advogado, os dois vizinhos do lado. Meros conhecimentos que estavam ali somente por uma questão de conveniência social, e não por estima. Conheciam Montague Saul apenas como o tranquilo erudito que regressara recentemente de Chipre, que passara a vida preocupado só com livros, mapas e pequenas peças de cerâmica. Não conheciam realmente o ser humano. Tal como não conheciam realmente o filho dele. Por fim, o serviço fúnebre terminou e o grupo avançou para o rapaz. Como uma amiba preparando-se para o ingerir com a sua compaixão, para lhe dizer como lamentavam que ele tivesse perdido o pai. E tão pouco tempo depois de ter regressado aos Estados Unidos. Pelo menos tens aqui família para te ajudar, disse-lhe o pastor.
Família? Sim, suponho que estas pessoas são a minha família, pensou o rapaz, enquanto o pequeno Teddy se aproximava timidamente, empurrado pela mãe. Agora vais ser o meu irmão, disse Teddy. Vou? A mãe preparou o teu quarto. É mesmo ao lado do meu. Mas eu estou a morar aqui. Na casa do meu pai. Perplexo, Teddy olhou para a mãe. Ele não vem connosco para a nossa casa? Amy Saul atalhou. Não podes viver sozinho, querido. Só tens quinze anos. Talvez gostasses igualmente de Purity, vais gostar de ficar connosco. A minha escola é no Connecticut. Sim, mas o ano escolar acabou. Em Setembro, se quiseres regressar ao teu colégio, claro que podes fazê-lo. Mas durante o Verão virás para nossa casa. - Eu não ficarei sozinho aqui. A minha mãe virá ter comigo. Fez-se um longo silêncio. Amy e Peter olharam um para o outro, e o rapaz conseguiu perceber o que eles estavam a pensar. A mãe dele abandonou-o há muito tempo. Ela vem ter comigo, insistiu. O tio Peter disse suavemente. Falamos disso depois, filho.
À noite, o rapaz ficou acordado na cama, na casa do seu pai na cidade, ouvindo as vozes dos seus tios murmurando lá em baixo, no escritório. O mesmo escritório em que Montague Saul tinha trabalhado nestes últimos meses na tradução dos seus frágeis fragmentos de papiro. O mesmo escritório onde, há cinco anos, sofrera uma apoplexia, desabando sobre a sua secretária. Estas pessoas não deviam estar ali, entre as preciosidades do seu pai. Eram invasores da sua casa. Ele não passa de um rapazinho, Peter. Precisa de uma família. Não podemos propriamente arrastá-lo para Purity se não quiser ir connosco. Quando se tem apenas quinze anos não temos voto na matéria. São os adultos que têm de tomar decisões. O rapaz saiu da cama e deslizou para fora do quarto. Rastejou até metade da escada para ouvir a conversa. E, na verdade, quantos adultos é que ele conheceu? O teu irmão não era exactamente um bom exemplo disso. Estava tão embrulhado nas ligaduras das suas velhas múmias que provavelmente nunca reparou que tinha uma criança debaixo dos pés. Isso é injusto, Amy. O meu irmão era um bom homem. Bom, mas tolo. Nem consigo imaginar que tipo de mulher poderia sonhar ter um filho com ele. E depois deixa o filho para o Monty educar? Não consigo compreender que uma mulher fizesse tal coisa. O Monty não se saiu assim tão mal na educação dele. O rapaz tem tido notas altas na escola. É essa a tua bitola para o que faz um bom pai? O facto de o rapaz ter notas altas? Ele é também um homenzinho aprumado. Vê como se portou durante o serviço fúnebre. Está entorpecido, Peter. Viste uma única emoção na cara dele, hoje? O Monty também era assim. Insensível, é isso que queres dizer? Não, um intelectual. Um espírito lógico. Mas, por baixo de tudo isso, tu sabes bem que este rapaz devia estar a sofrer. Deu-me vontade de chorar, ver quanto ele precisa da mãe neste momento. Ver como ele insiste que ela voltará para estar com ele, quando sabemos que não o fará». In Tess Gerritsen, O Clube Mefisto, 2006, Ulisseia, colecção Vício da Leitura, 2008, ISBN 978-972-568-602-7.

Cortesia de Ulisseia/JDACT