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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Roteiro Republicano de Portalegre: António Ventura. Uma cronologia política específica. Indicação de toponímia republicana e património artístico, incluindo a arquitectura, as artes plásticas e o património industrial, sendo sempre dado um destaque particular ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra

Cortesia da CMPortalegre

«Lançamento do livro «Roteiro Republicano de Portalegre».
A Comissão para as Comemorações do Centenário da República promove, em colaboração com a Editora QuidNovi, a publicação da colecção Roteiros Republicanos, um por distrito, que se destinam a pôr à disposição dos sectores mais amplos dos públicos, instrumentos acessíveis para o CONHECIMENTO da História da Primeira República, à escala da história regional.

O Roteiro Republicano de Portalegre foi elaborado pelo Prof. Doutor António Ventura e será apresentado pelo próprio e pela QN Edição e Conteúdos, SA. 

O evento terá lugar no pf dia 19 de Novembro na Biblioteca Municipal de Portalegre, pelas 18h00». In Agenda Cultural de Novembro de 2010 da CMPortalegre.  

Cortesia da AgendaNov2010, Portalegre
«Roteiros Republicanos. Um passeio por Portugal da I República.
Os Roteiros Republicanos destinam-se a pôr à disposição, dos sectores mais amplos dos públicos, instrumentos acessíveis para o conhecimento da História da Primeira República, à escala da história regional, essencialmente na sua dimensão urbana.


Cortesia do JN
Cada Roteiro contemplará uma cronologia política específica, indicação de toponímia republicana e património artístico (incluindo a arquitectura, as artes plásticas e o património industrial, sendo sempre dado um destaque particular, quando existam, aos Monumentos aos Mortos da Grande Guerra que, indiscutivelmente, constituem um conjunto mais popular de realização monumental em Portugal), biografias das principais personalidades republicanas e referência ao desporto e factos turísticos, quando relevantes.
De 16 de Julho a 26 de Novembro de 2010 serão publicados 20 volumes, um por cada um dos 18 distritos e mais dois para as regiões autónomas, para além daqueles que poderão integrar-se a nível dos municípios». In Jornal de Notícias.

Cortesia da CMPortalegre
A amizade de RR e de AV.
Cortesia da CMPortalegre/JDACT

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Margarida Ribeiro: Um Filho de Camões? Comunicação apresentada à Secção Luis de Camões em 19 de Maio de 1995.

(1911-2001)
Portalegre
Cortesia da cm-Coruche 

Com a devida vénia a Margarida Ribeiro, Américo da Costa Ramalho e Justino Mendes de Almeida.
Um artigo interessantíssimo de Margarida Ribeiro referente ao livro «Vida Ignorada de Camões» do Prof. Hermano Saraiva.

Um filho de Camões ?
«A obra «Vida Ignorada de Camões», da autoria de José Hermano Saraiva, apareceu, depois de variadas intervenções publicitárias, alcançando êxito comercial. Contudo, graves erros cometidos por aquele Autor chamaram a atenção do Prof. Américo da Costa Ramalho que, na sua «Recensão Crítica», tratou de repor a verdade histórica e científica de importantes temas da Obra, que apelidou de biografia romanceada.

Cortesia de wook
Seria estulta arrogância de minha parte retomar a crítica daquele sapiente e autorizado Professor. Modestamente e ao meu nível, desejo apenas abordar alguns temas não tratados por aquele douto Professor, pelo muito que ferem a sensibilidade de quem respeita os valores da Pátria e o Homem-Poeta que nos legou uma herança imortal, sempre viva em todos os tempos. Erguer a voz onde disserta superiormente o nosso maior camonista, Prof. Justino Mendes de Almeida, é já ousadia. Porém, é precisamente aqui que devo apresentar os comentários sugeridos por aqueles temas, os quais me fizeram reflectir sobre aspectos da vida de Camões, da sociedade quinhentista e sobre a grande e profunda sabedoria do nosso Épico. Rogo me perdoem a redundância. Impôs-se à minha consciência repassar assuntos já muito discutidos com rigor científico e notabilíssima autoridade. Exige-o a narrativa do Dr. Hermano Saraiva, a fim de atingir a inopinada questão com a qual intitulo estes apontamentos. E pena que o faça tão tarde. Motivos imperiosos a tal obrigaram».

Cortesia de pauloborges
O Autor de «Vida Ignorada de Camões» afirmou que o nosso maior Poeta não frequentou a Universidade de Coimbra, sem admitir a hipótese de perda ou falta de registo de matrícula'.Aditou que o nosso Épico não teve a noção do modelo clássico da Poesia Épica com a intromissão da sua vida pessoal numa epopeia impessoal. Como exemplo desta última afirmação citou o corte das estâncias que se seguiriam à estrofe 40 do Canto VI, na qual se refere a intervenção de Lionardo, que propôs aos companheiros de viagem falar de amores pera passar o tempo (...), o que não era senão a oportunidade de Camões falar dos seus próprios amores. O ínclito Autor justifica, ainda, que teria sido um cristão-novo quem aconselhou o Poeta a suprimir aquela sua confissão amorosa ou talvez a censura o houvesse exigido uma coisa ou outra sem qualquer prova. Considerou, ainda, a cópia manuscrita de «Os Lusíadas», com letra do século XVI, uma versão judaizante.
( ... )
A estas hipóteses junta-se a força da tradição que chegou aos nossos dias de que Camões tenha permanecido ou até nascido em Coimbra, não estando provado este último facto. Há, ainda, na inspirada e emotiva estrofe 97, Canto III, na qual o Poeta compara Coimbra com Atenas, um intelegível orgulho e subjacente saudade:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E da Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil herva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo apoio aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

Uma realidade abonatória sobre a provável estada de Camões na Universidade resulta da impossibilidade de se adquirir uma excepcional cultura sem uma base de instrução que haja desenvolvido a capacidade intelectiva, tornando-a apta para os grandes võos de espírito.
( ... )
Cortesia de commons
No Canto VII, Estâncias 78-87, o Poeta relata, ele próprio admirado, como a experiência o advertiu do que não soubera antes e a determinação que impôs a si próprio. Invoca então as Ninfas do Tejo e do Mondego, a quem roga a força insana e poderosa que o não deixe vacilar. Diz:

Um ramo na mão tinha … Mas ó cego.
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
(… )
E mais adiante:
Dai-me só vós, que eu tenho jurado
Que não mo empregue em quem o não mereça:
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos cantarei.

Contudo, Hermano Saraiva afirmou na sua citada Obra que o episódio do Adamastor, que exorna «Os Lusíadas», e é uma das mais belas e impressionantes criações do Poeta, não é mais do que a explosão do ciúme e desespero de Camões, provocados pelo abandono a que o votou uma dama, de nome Violante de Andrade, casada com D. Francisco de Noronha, ali confundida com Dóris. Tal confusão, afirma aquele Autor, obrigou a censura a omitir a estrofe 55 do Canto V na edição de 1584. Não é este o derradeiro equívoco (?) do sr. Dr. Hermano Saraiva, nem a última ignomínia. Depois do adultério de Violante, sua filha Joana, que nunca existiu, torna-se, por incesto praticado por Camões, uma rival. Aquele explícito Autor vê esta jovem no anagrama Aónia e nos criptónimos Ana, Diana e Iana.

Cortesia de anossaescola
Em 1549, respondendo à mobilização militar ordenada por D. João III, Camões partiu para Ceuta, regressando dois anos depois,  em 1551; em 1553 foi servir na Índia. Diogo de Couto dá-nos um testemunho claro desta infeliz mudança. O «Soldado Prático» lá consigna que a fidalguia estava representada por bastardos sem educação, que íam à Índia monarquiar em poucos dias. Outrora, era costume (...) buscar homens para os cargos e não cargos para os homens. Mas Camões partiu em busca da experiência. Foi conhecer o perigo do mar, os lugares onde tantos heróis tombaram e os homens desleais à Pátria, que regressavam fantasiando combates e requerendo mercês que não haviam conquistado com a espada.
Dezassete anos depois, chegou a Lisboa, em Abril de 1570.
A fama do seu grande poema havia-o precedido. Por intercessão de D. Manuel de Portugal, Camões obteve o alvará do Rei D. Sebastião para a publicação do seu Poema Máximo, que viria a ser exaltado em toda a Europa culta. Bem depressa o poeta começou a subir a Costa do Castelo para entrar na oficina de António Gonçalves, a fim de rever as provas, pois a isso o obrigava o seu pundonor e a honra como cavaleiro - fidalgo da Casa Real com a tença anual de quinze mil reais brancos. Não entendeu assim o Dr. José Hermano Saraiva.

Trata-se de pôr em causa a pudidícia de outra Joana Noronha de Andrade, esta verdadeira e filha dos segundos condes de Linhares, que viveu no convento da Anunciada, sem tomar hábito, mas onde tinha irmãs mais velhas como freiras.
(...)
Diogo Barbosa Machado
Cortesia de wikipédia

O Dr. José Hermano Saraiva pôs em dúvida a dignidade desta Joana, cujos anos seriam poucos, segundo os dados que nos dá de outros filhos e filhas de Violante. Camões só viria a conhece-la, se é que a conheceu, quando regressou do Oriente. Todavia, aquele citado Autor escreveu que ela seria a provável mãe de um filho do Poeta, de nome Pedro Noronha de Andrade, conforme os apelidos maternos. Acrescenta que este Pedro foi um poeta do inicio do século XVII, como registou o Abade Diogo Barbosa Machado, na sua «Biblioteca Lusitana», omitindo o tomo em que leu o registo.
( ... )

Cortesia de tertuliabibliofila
Pergunto: Porquê, indigitar Camões como possível pai daquele filho de provável mãe ?...
Pela minha parte, sondei todos os Cantos de «Os Lusíadas» à procura de um filho bem guarnido de mimos poéticos, que me pudesse abonar aquela imprevista suspeita. O nome comum filho ocorre 104 vezes em «Os Lusíadas». Porém, o excerto que penso ser apropriado é aquele em que um filho se lamenta por ver-se desfavorecido da sorte - rogo me perdoem transformar o apelo do invejoso Baco numa imaginária reflexão do nosso Poeta:

E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei-de sofrer que o Fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça ?
Canto I, estância 74.

A argúcia do Dr. José Hermano Saraiva entenderá a alteração simbólica das figuras e o expressivo significado daquela reflexão. Camões admirou algumas damas. Como esteta, exigiu que fossem belas e, como grande Poeta e Humanista, também quis que fossem cultas, conhecessem a Arte e a estimassem. Por isso as amou.
( ... )

Cortesia de cpas
Feita a justa reposição dos Linhares na linha do brio e honra da Pátria, resta-me agradecer ao Senhor Doutor Arnaldo de Mariz Rozeira o obséquio de facultar-me a cópia de todos os Cantos de «Os Lusíadas», em cujas estrofes figuram os nomes comuns que previu serem-me necessários, facilitando-me enormemente este modestíssimo trabalho.
Muito obrigada. In Margarida Ribeiro, Um Filho de Camões?; Comunicação apresentada à Secção Luis de Camões em 19 de Maio de 1995.

Notas.
  • Américo da Costa Ramalho, Recensão Crítica, Vida Ignorada de Camões, Separata de Humanitas, XXIX-XXX, Coimbra, 1977-1978;
  • José Hermano Saraiva, Vida Ignorada de Camões, Lisboa, 1983.
Cortesia da Secção Luis de Camões da SGde Lisboa/U. de C./BMP 908(469.51)Rib-fil/JDACT

domingo, 15 de agosto de 2010

Portalegre: Igreja e Convento de Santa Clara. Da construção original, erguida nos primeiros anos da dinastia de Avis, podemos observar «doze arcos quebrados assentes em duplas colunas com capitéis geminados, de feitura muito simples e sem ornamentos; estão dispostos em séries de quatro, ritmados por panos lisos de parede»

Cortesia do Arquivo do Norte Alentejano
Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao Arquivo do Norte Alentejano publico a notícia.

Segundo rezam as crónicas dos franciscanos portugueses, o mosteiro de Santa Clara de Portalegre foi fundado na segunda metade do século XIV por Maria Fernandes e Elvira Anes, senhoras que em casa particular «se occupavam em devotos e espirituaes exercicios, pelos quaes conseguirão de Deos a santa inspiração, que as moveo a tão boa obra».

Cortesia de lifecooler
Socorrendo-se do auxílio do rei D. Fernando, conseguiram para assento da casa conventual a doação em 1370 dos paços reais e de uns banhos anexos. Foi-lhes dada ainda autorização para «tomarem todas as casas contiguas ao mesmo Palacio, e que se pudesse tapar as serventias das ruas, que lhes fossem precisas para a fundação». Alvo de contestação na então vila, o alvará que isto determinava foi confirmado pelo rei «Formoso» em 21 de Março de 1377, pela rainha regente D. Leonor Teles de Meneses em 1383 e por D. João I em 12 de Fevereiro de 1433.

Construída a habitação monástica, a igreja foi dedicada em 1389 por Francisco, Bispo da ordem franciscana, o qual consagrou o altar mor do templo a Santa Clara e a Santa Bárbara. Eram padroeiros da igreja os reis de Portugal.

Cortesia de alexandreribeirophotography1
O convento de Portalegre pertenceu até 1534 aos Padres Claustrais, data em que passou para os Observantes. Em 1537 voltou à primeira obediência, assim se conservando cinco anos - até 1542, ano em que D. João III conseguiu do papa Paulo III a reforma dos Claustrais, passando definitivamente para a jurisdição dos religiosos observantes da Província dos Algarves da Ordem de São Francisco.

Visitado por Filipe II de Espanha quando se deslocou ao nosso país, um breve de Paulo V datado de 1615 e aplicado em 1620 fixou em sessenta o número de freiras do mosteiro.

Cortesia de cm-portalegre
O edifício recebeu várias alterações e acrescentos nos séculos que seguiram a construção, embora as de maior vulto se devam ao século XVI e a finais de setecentos (1797), altura em que a abadessa Rosa Joana de São Francisco de Assis deu ao interior da igreja a feição rococó que ainda hoje apresenta.
Extintas as ordens religiosas a partir de 1834, por morte da última abadessa foi transformado em recolhimento de senhoras pobres. Nos primeiros quartéis do século XX foi ocupado por instituições de assistência social.
Depois de 1974 serviu de abrigo a várias instituições culturais de Portalegre. Restaurado, o convento de Santa Clara abriu em 1999 como Biblioteca Municipal do concelho.

Recuperado para as funções culturais que desempenha neste momento, o espaço conventual reflecte as múltiplas vicissitudes a que esteve sujeito na sua arquitectura ao longo dos vários séculos da sua história. Da construção original, erguida nos primeiros anos da dinastia de Avis, podemos ainda observar dois tramos térreos do claustro: «doze arcos quebrados assentes em duplas colunas com capitéis geminados, de feitura muito simples e sem ornamentos; estão dispostos em séries de quatro, ritmados por panos lisos de parede» (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24).

Cortesia de flickr
Ao século XVI pertencem as restantes partes do claustro. No piso térreo vemos dois tramos «um tanto incaracterísticos, num estilo chão de arcaria ampla de volta inteira», atribuídos aos anos 60 ou 70 de quinhentos (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24). Da mesma época são as arcadas do primeiro piso, com colunas de mármore com capitéis muito simples e arcos de volta perfeita em alvenaria. A este século pertencem ainda a portaria do mosteiro voltada à Rua de Santa Clara (com decoração renascentista), a cabeceira da igreja (com cachorrada, janelas de quarto de círculo e esgrafitos) e a fonte de mergulho virada à Rua de Elvas (com arcos geminados separados por um mainel, obra do início da centúria). Desta época é ainda a torre sineira, que funcionava também como mirante, possuindo janelões com adufas, num tom arabizante, e lanternim fenestrado.

Ao século XVIII correspondem várias construções e acrescentos. São de destacar uma fonte em mármore (de secção triangular, situada no centro do claustro), uma capela mandada construir em 1749 por Soror Inês de Santa Clara (no piso térreo do mesmo, ainda com vestígios de decoração mural) e a igreja.
O templo conventual apresenta a aparência que lhe foi dada em 1797. Abandonado e coberto pela fuligem que ficou de um incêndio ocorrido em 1995, foi restaurado recentemente pelo Estado – para ser de novo ocultado pelas actividades de um grupo de teatro portalegrense, ao qual o templo foi cedido pela Câmara Municipal.

Cortesia de lifecooler
Possui duas entradas laterais: uma virada à habitação monástica; outra virada ao exterior, embora recolhida dentro de um pátio com entrada pela Rua de Santa Clara. Artisticamente cuidada, esta apresenta um portal em mármore no estilo comum do século XVIII, sobrepujado por um janelão com moldura em alvenaria. Decoração em massa reveste também o interior da igreja. Nela merecem relevo o retábulo do altar mor, em talha rococó polícroma - com trono ladeado por dois pares de colunas e frontão interrompido -, e dois púlpitos em alvenaria num estilo semelhante, com elegantes dosséis em madeira entalhada. Ao fundo deste espaço destacam-se as aberturas gradeadas correspondentes ao coro de cima e ao coro de baixo. Em dependências anexas podemos observar alguns azulejos de tapete, do século XVII, e fragmentos de uma pintura mural representando dois santos franciscanos.

O estado de conservação do convento é muito bom. Falta apenas uma utilização digna da arte e do espírito da igreja. O que sobrou do rico recheio do Convento de Santa Clara de Portalegre pode ser visitado no Museu Municipal da cidade, embora a identificação das peças seja nula. In cortesia de Ruy Ventura.

Cortesia de Arquivo do Norte Alentejano/JDACT