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domingo, 26 de novembro de 2023

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Cruzando as duas coordenadas, longitude e latitude, somos forçados a concluir que o território chamado Cipango é, nada mais nada menos, do que... a Florida»

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«Já longe iam os anos em que ainda vigorava a concepção de Ptolomeu sobre o oceano Índico como um mar fechado, um lago gigante cercado de terra, com a ponta sul de Africa falsamente ligada a uma hipotética terra alongada desde o sul da Ásia. olhando para o canto superior direito do mapa de Henricus Martellus de 1490-1491, pode ver-se representada uma ilha de dimensões enormes, baptizada pelo autor como Cipango (Japão). Há, no entanto, um problema em relação a esta ilha de Cipango, se for considerada como uma representação do Japão: está situada muito longe das costas da então Catai, a China, em pleno oceano, a mais de meia distância da Ásia para a Europa.

O mapa mostra um grande oceano a leste da Ásia, o Pacífico, como se este estivesse fundido com o Atlântico e, no meio dos dois, uma estranha ilha cujo formato e localização não pode ser o verdadeiro Japão. Se o fosse, teria de estar muito mais próximo da Ásia. Na verdade, a ilha de Cipango do mapa de Henricus Martellus está a apenas um terço de distância da Europa e a mais de dois terços da Ásia.

Em resumo, por mais que se tente forçar a comparação, as coordenadas geográficas deste território não podem ser as mesmas do verdadeiro Japão. Se seguirmos a escala de longitude desenhada no friso inferior do mapa de Henricus Martellus, transpondo os valores para a escala moderna que tem o meridiano de Greenwich como o ponto de partida e de chegada, 0/360 graus, verificamos que a Cipango está situada entre os 75 e os 80 graus de longitude oeste, em relação à Europa Ocidental.

Considerando a escala das latitudes à direita, bem como as linhas do Trópico de Câncer e do Equador, vemos que a grande ilha de Cipango está posicionada na direção noroeste-sueste, sensivelmente entre os 15 e os 30 graus de latitude norte.

Cruzando as duas coordenadas, longitude e latitude, somos forçados a concluir que o território chamado Cipango é, nada mais nada menos, do que... a Florida.

Olhando agora para um planisfério moderno, podemos imediatamente verificar que as coordenadas da península americana da Florida são as seguintes:

- Entre 25 e 30 graus de latitude norte;

- Entre 78 e 80 graus de longitude oeste;

Tamanha semelhança entre o posicionamento da Cipango de Henricus Martellus e da Florida dos mapas modernos não pode ser pura coincidência. Mas há mais características comparáveis entre os dois territórios. Desde logo, o formato e o contorno das costas são surpreendentemente idênticos.

Para uma detalhada visualização destas semelhanças, pedimos agora ao leitor para ampliar a imagem de Cipango do mapa de 1490. A melhor ferramenta informática para o fazer está disponível num artigo publicado no sítio da National Geographic Magazine, intitulado A 500 year old map used by Columbus reveals its secrets, acessível através do seguinte link: https://www.nationalgeographic.com/culture/article/columbus-map-discovery-secrets-newwold

Uma vez no artigo, peço ao leitor que, quando chegar à frase: …you can play around with an interactive map created by one of Van Duzer's colleagues, clique na palavra here. O leitor acede imediatamente ao mapa interactivo de Henricus Martellus de 1490-1491., que é fruto de uma investigação aprofundada de Chet Van Duzer, professor universitário e investigador da Biblioteca do Congresso dos EUA, e da sua equipa. Graças a esse trabalho, é possível ampliar ou reduzir as partes do mapa que se desejar.

Ora, quando se amplia o território de Cipango, a imagem que se obtém é a que se pode observar na página 24 deste livro. Como facilmente se verifica, são surpreendentes as semelhanças entre o mapa desenhado há mais de meio milénio por Henricus Martellus e a actual imagem da Florida no Google Maps. Estas semelhanças entre os dois mapas existiriam contra todas as probabilidades se ambos não fossem duas representações do mesmo território e das mesmas costas situadas no mesmo mar das Caraíbas». In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura,

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo»

jdact e cortesia de wikipedia

As Fontes Secas. Hauridas. Queimadas

«O narrador prossegue descrevendo a formação do seu estilo, a história da resolução de inúmeras equações de terceiro grau, obtendo sempre uma solução inegável, só pelo próprio esforço intelectual, como se resolvesse a si mesmo perfeitamente, equacionado no papel; o método completa-se com a audição do Concerto Brandeburguês nº 5 de Bach, um único concerto, ouvido uma e outra vez, afinando o estilo do indivíduo na repetição, expurgando o caos sonoro que alterna loucamente ruídos e silêncios, depois de expurgado o caos epistemológico usando a matemática. Então, de repente, o argumento vira-se para a poesia, autocitando-se um excerto da parte VI do poema Elegia múltipla: As crianças enlouquecem em coisas de poesia. / Escutai um instante como ficam presas / no alto desse grito, como a eternidade as acolhe / enquanto gritam e gritam. / (...) / E nada mais somos do que o Poema onde as crianças / se distanciam loucamente. (Helder, 2015b: 9), opondo as crianças, a loucura e a poesia, dum lado, ao estilo, do outro; empubescer seria assim, simplesmente, o começo da procura dum estilo, duma memória, a renúncia à imaginação violenta das crianças, que desejam absolutamente algo a todos os instantes, sem o compararem com qualquer dos desejos anteriores, esquecendo-os.

A sua loucura, a sua relação ilógica com o mundo, permite-lhes transformá-lo incessantemente, aceitá-lo sempre como completamente novo, verdadeira surpresa. E é nesta loucura que a infância é infeliz, rompendo por todos os lados, fazendo a criança duvidar da sua própria existência, do próprio mundo, demente, demasiado forte, torturando-a até ceder, até ter de criar um estilo para se poder travar, apaziguada; por isso, a infância é tão vertiginosa, recriando-se a todos instantes, excedendo-se sempre com uma nova loucura totalmente diferente da anterior: bruxaria, astronáutica, pirataria, policiamento, ladroagem, medicina, infantaria. E, por sua vez, o poeta reproduz a infância, ou é inventado nesta, porque não pode ser adulto, simples, idiomático, tem de explodir sempre como uma criança: loucamente.

Como as crianças inventam o Poema que contém os adultos, estilos abandonados que duram meio-vivos, o poema deve capturar apenas um instante, um grito, um estilo momentâneo, logo afastado, exilado para sempre: eterno porque singular, irrepetível; permitindo ao poeta reformar-se de seguida, dolorosamente, para criar algo novo outra vez. Uma verdade que parece resistir no mais estilizado dos homens, finalizando o conto esperançosamente: Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade? [...] Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu, ou finalizando-se cruelmente, pois o conflito mantém-se (Talvez), entre a loucura e o estilo, entre o caos e o contínuo, mantendo o Segredo longe e perto, duplamente doloroso: ora como uma paixão apartada, ora como uma faca espetada.

Nota: A escolha de Bach não deixa de ser significativa: pela sua evocação do Barroco, fundamentalmente antitético (no contraponto, neste caso), excessivo, e pela obsessão deste compositor, em particular, por fugas: variações sobre uma frase musical inicial, ritmo esse diversas vezes utilizado pelo poeta, como, por exemplo, no poema (escrita pouco inocente).

Esta tensão com a origem, este perpétuo movimento pendular, será explorado numa imagem recorrente: a mãe, a fonte: Ela é a fonte. Eu posso saber que é / a grande fonte / em que todos pensaram. (Helder, 2014: 45); estranho uso do pronome, sem antecedente gramatical (iniciando o poema Fonte, como este fosse universal: pois o sujeito poético sabe que a mãe é a fonte, mas não a nomeia nesta parte I do poema (com seis partes), mesmo descrevendo as irmãs e o pai, evita essa palavra, sublinhando-a na ausência, recusando a possibilidade de conseguir nomeá-la, de conseguir descrevê-la: Ninguém falava dela, porque / era imensa, deixando a mãe como um silêncio debaixo do discurso, como um lençol de água subterrâneo fertilizando o terreno visível, fertilizando todos em cima, como mãe geral:

Mãe, como uma cadela alimentando uma ninhada, com o número apropriado de mamilos, sem necessidade de disputas fraternais: Era um manar / secreto e pacífico, uma mãe muda, calando os seus filhos por amamentação, ocupando suas bocas, apaziguadas; na imagem oposta à ruidosa violência infantil. Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo». In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Soror Isabel (1673-1752). Jorge Duque Fernandes. «As mulheres, afinal, estão também noutros textos, manuscritos e impressos, que jazem nas bibliotecas e arquivos, sem que, ao longo de séculos, a investigação sistemática lhes revelasse os nomes e as obras…»

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Com a devida vénia ao Doutor Jorge Duque Fernandes

«Na revalorização crescente da contribuição das mulheres para o saber e para a sociedade; e no questionar das razões que levaram à sua quase exclusão do discurso historiográfico, continuava, porém, a impor-se a omissão dos historiadores sobre as escritoras portuguesas. Os números assim o confirmam: nos manuais de história da literatura portuguesa publicados até hoje a percentagem das autoras referidas, anteriores ao século XX, varia entre os 3% e os 5%. Assim se explicará que os investigadores que trabalham sobre a autoria feminina portuguesa não se debrucem sobre aquelas escritoras, mas antes sobre as da contemporaneidade, cronologicamente situadas depois de 1900.

Considera-se mesmo que as autoras omissas na história da literatura portuguesa e, em consequência, a presença de autores do sexo masculino fez com que esta última fosse considerada a autoria literária por excelência. Isto explicará o desinteresse geral das instituições e academias em dedicar-se a projectos que visem as escritoras anteriores ao século XX. Vanda Anastácio aponta que: Tende-se a pensar que o que não se vê não existe. Que o que não foi dito se apagou, afogado em silêncio. Mas as mulheres estão muito presentes no discurso dos autores do passado, nomeadamente sobre o cultivo das virtudes e sobre os perigos que o saber induziria no seu sexo, suposto como propenso à fragilização daquelas.

As mulheres, afinal, estão também noutros textos, manuscritos e impressos, que jazem nas bibliotecas e arquivos, sem que, ao longo de séculos, a investigação sistemática lhes revelasse os nomes e as obras, por géneros, nomeadamente as que escreveram paratextos e reinvindicações de autoria, como a Senhora dona Filipa (1435-1497), filha do Infante Pedro, Duque de Coimbra, e da Infanta dona. Isabel, condessa de Urgel, autora do século XV, dona Leonor Noronha (1488-1563), Luísa Sigeia (1522-1560), Públia Hortênsia Castro (1548-1595), Soror Maria do Baptista (1570-1595), Soror Maria  Mesquita Pimentel (†1639), dona Joana Josefa Meneses, condessa da Ericeira (1651-1709), Teresa Margarida Silva Orta (1711-1792), Soror Benta do Céu (viva em 1766), Rita Clara Freire Andrade (1758-d. 1791), Francisca Possolo Costa (1783-1838) e dona Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, marquesa de Alorna (1750-1839). E as que escreveram sobre mística, como Soror Mariana da Purificação (1623-1695), Soror Isabel do Menino Jesus (1673-1752), a autora que estudamos; e Soror Mariana Josefa Joaquina de Jesus (†1783). E as que foram autoras de regras de vida, de ditos, sentenças e máximas8, como a Senhora dona Maria (1538-1577), filha do Infante Duarte e da Infanta dona Isabel, duques de Guimarães, mulher de Alexandre Farnésio, duque de Parma e Piacenza; dona Joana Gama (†1586) e Soror Maria do Céu (1658-1753). E as que escreveram ficção narrativa, como Soror Madalena da Glória (n. 1672), Soror Maria do Céu (1658-1753), Soror Joana Josefa dos Serafins (1722), Maria Clara Júnior (1816) e, novamente, Francisca Possolo Costa. E as que escreveram memórias biografias e autobiografias, como a referida Soror Mariana da Purificação, Soror Antónia Margarida de Castelo Branco (1652-1717); de novo, Soror Benta do Céu, e dona Mariana Bernarda Távora, condessa de Atouguia (1722-d.1788). E as que escreveram prosa histórica, académica e de circunstância, como dona Maria Micaela Prazeres (1761) e dona Mariana Vitória Atalaia Colaço Castelo Branco (1783). E as que produziram no género epistolográfico, como a rainha dona Catarina (1507-1578), mulher de João III; a Infanta dona Maria (1521-1577), filha do rei Manuel I e da rainha dona Leonor; de novo, Luísa Sigeia, a Senhora dona Maria, duquesa de Parma; e dona Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre, marquesa de Alorna; Soror Violante do Céu (1658-1753), dona Joana Vasconcelos Meneses (c. 1625-1653), dona Isabel Castro, condessa de Assumar (1665-1724), dona Leonor Tomásia Távora, marquesa de Távora (1700-1759), Soror Maria Joana (1712-1724), Soror Feliciana Maria Milão (1632 ou 1639-1705), dona Filipa Noronha (séc. XVIII), rainha dona Mariana Vitória (1718-1781), mulher de José I; dona Teresa Josefa Melo Breyner, condessa do Vimieiro (1739-d.1793); e dona Joana Isabel Lencastre Forjaz (n. 1745)». In Jorge Duque Fernandes, Soror Isabel do Menino Jesus, Vida e Obra de uma Escritora Mística 1673-1752, Tese para obtenção do grau de Doutor em História, 2016, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Fundação para a Ciência e Tecnologia, SFEH/BD/79496/2011.

Cortesia de FCT/CMM/BMP/JDACT

JDACT, Jorge Duque Fernandes, História, Religião, Literatura, Caso de Estudo, 

sábado, 22 de julho de 2023

Soror Isabel (1673-1752). Jorge Duque Fernandes. «… não só por Soror Isabel do Menino Jesus, como pelas restantes autoras portuguesas, ainda pouco conhecidas. O mesmo poderemos dizer em relação aos místicos portugueses, de ambos os sexos…»

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Com a devida vénia ao Doutor Jorge Duque Fernandes

«Frequentes vezes, é este religioso apontado como autor da obra, o que convém rectificar, porque, de facto, ainda que possa ter orientado Soror Isabel do Menino Jesus na organização do volume, a autoria pertence a esta mulher, oriunda de uma família do chamado estado do meio, cuja alfabetização foi rápida e polémica, numa vila acandorada na Serra do Sapoio onde as mulheres, como por todo o reino, não sabiam sequer assinar. O volume contém, entre os seus diferentes textos, a sua Vida, que, tanto quando sabemos, é a primeira autobiografia espiritual de autoria feminina que se imprimiu em Portugal. O impresso saiu com uma bela estampa retrato de Soror Isabel, posando com o livro nas mãos, obra do refinado gravador francês Jean Baptiste Michel Le Bouteaux (1682-1764), activo no reinado de João V. Como supomos na nossa tese, tratar-se-á de um retrato autêntico, o primeiro de um autor do sexo feminino que terá saído com a sua obra impressa no nosso país.

A tese decorreu em estreita ligação com vários projectos sobre escritoras e redes culturais femininas na Europa, sediados no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, coordenados por Vanda Anastácio, professora na mesma Faculdade, que nos orientou em todos os trabalhos; e contou com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), através da celebração de um contrato para a concessão de uma bolsa de doutoramento, a 13 de Março de 2013, com início da bolsa a 1 de Abril desse ano e fim a 31 de Março de 2016. Quase até à conclusão, foi co-orientada por Isabel Drumond Braga, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Desenvolvida numa necessária interdisciplinaridade, sendo várias as áreas científicas que concorrem para a sua finalidade, a tese situa-se, sobretudo, no âmbito da História Moderna, debruçando-se sobre assuntos relacionados com a cultura portuguesa do período moderno, uma vez que o seu objecto é uma escritora dos séculos XVII e XVIII. Uma outra área é frequentemente visitada ao longo do texto, a da Teologia Espiritual, não porque a abordagem seja tão teológica quanto histórica, mas porque é necessário recorrer a vários conceitos daquela área, trata-se de abordar uma escritora mística, para alumiar minimamente a obra de Soror Isabel do Menino Jesus, que descreve numerosos fenómenos místicos e ensina um método de ascese, definido a partir da direcção espiritual que recebeu ao longo dos anos, das suas leituras de livros espirituais e, sobretudo, na sua própria prática; método clássico, numa escada de três vias espirituais: a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva, esta com três noites escuras, o ilapso e a união, ou morte mística. Os apontamentos teológicos que fazemos ao longo da tese, para além de tentarem uma simples aproximação ao contexto da espiritualidade da época moderna, e à própria autora, não aprofundado nenhum dos conceitos, convidarão, porém, a um estudo da obra desta mística portuguesa no âmbito teológico, o que não é da nossa competência. A nossa tese, é, aliás, uma abordagem estritamente limitada à sua finalidade e objectivos, atrás enunciados, e ainda pela ponderação do número de páginas. Tratar-se-á, ainda assim, da mais extensa abordagem que até hoje foi realizada à autora, o que não será de admirar, uma vez que o seu caso era semelhante aos de muitas outras autoras portuguesas que, entre o final do século XV e o início do século XIX, estão ainda esquecidas ou são praticamente desconhecidas.

No manuscrito autógrafo de Soror Isabel do Menino Jesus estão, na verdade, várias obras, e não apenas uma; ou, para dizer de um outro modo, estão trinta e nove textos distintos, correspondentes aos quatro géneros literários que praticou, não sabemos se exclusivamente: autobiografia espiritual (uma Vida); tratado (um Tratado Místico); súplica (uma Súplica ao Ministro Provincial); e epistolografia (vinte Cartas a um Religioso, quinze Cartas a uma Religiosa e uma Carta à Abadessa e Religiosas). Estes textos foram passados a limpo e acrescentados pela autora num só volume, com intenção de o legar ao seu prelado, o referido provincial, prevendo-se a sua impressão, que, entretanto, já a autora não viu, por morrer antes de se concluírem os trâmites necessários, a 5 de Outubro de 1752. O volume sairia cinco anos depois, em 1757, bastante atrasado em relação àquela intenção, o que supomos ser devido, não a desconfianças acerca da idoneidade da sua autora ou aos seus escritos, como se pensa, mas ao facto de o manuscrito estar em Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755, tendo sobrevivido ao terramoto e suas réplicas. O mau estado em que ficou o Convento de São Francisco de Xabregas, cabeça da Província dos Algarves da Ordem seráfica, terá imposto ou demoras à impressão, porque a prioridade seria reconstruir a casa.

Não nos é possível conhecer muito acerca da recepção que teve o livro, mas é certo que os poucos exemplares que se conservam ou deixaram notícias passaram pelas mãos de religiosos e religiosas, e de pessoas seculares. O advento das Luzes em Portugal poderá ter influindo sobre o interesse por estas obras de espiritualidade, mas não conseguiu cortar o curso dos exemplares, cujo número saído da oficina desconhecemos, porque esses poucos que nos chegaram continuaram a ser lidos. Também a extinção das Ordens religiosas, iniciada em 1834, não logrou apagar a presença da autora e dos seus textos, pelo menos no seu convento, onde a última religiosa sobreviveu quase até ao século XX e onde a comunidade de mulheres e meninas que ali estava recolhida continuou a recordá-la.

A sua campa, situada no coro baixo do extinto convento, terá continuado a ser venerada até aos anos 30, porque a sua fama sanctitatis atravessou os séculos, embora cada vez mais ténue.

Reconhecer a importância desta autora, através de estudos, foi um desafio abraçado por outros, ainda antes de a termos escolhido como objecto da nossa tese. É nossa esperança que este contributo permita agora consideráveis avanços e, assim, estimule o interesse dos mesmos e de outros investigadores, não só por Soror Isabel do Menino Jesus, como pelas restantes autoras portuguesas, ainda pouco conhecidas. O mesmo poderemos dizer em relação aos místicos portugueses, de ambos os sexos, dos quais até agora pouco se sabe.

O Estudo da Arte

Ao abrir Uma Antologia Improvável. A Escrita das Mulheres (Séculos XVI a XVIII), na qual colaborámos, a sua organizadora, Vanda Anastácio, lança uma questão pertinente: Será possível escrever uma História da Literatura Portuguesa anterior a 1900 que inclua as mulheres? Ou, dito de outro modo: será possível falar de escritoras antes da contemporaneidade?.

Esta questão parece ter despertado o interesse de vários investigadores desde o início da década de 90 do século passado, em Portugal e no Brasil, que se viram, no entanto, confrontados com a escassez de dados acerca da leitura e da escrita das mulheres nesse período». In Jorge Duque Fernandes, Soror Isabel do Menino Jesus, Vida e Obra de uma Escritora Mística 1673-1752, Tese para obtenção do grau de Doutor em História, 2016, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Fundação para a Ciência e Tecnologia, SFEH/BD/79496/2011.

Cortesia de FCT/CMM/BMP/JDACT

JDACT, Jorge Duque Fernandes, História, Religião, Literatura, Caso de Estudo,

Soror Isabel (1673-1752). Jorge Duque Fernandes. «A segunda fonte é o livro impresso em 1757, cinco anos depois da morte da autora, a partir do manuscrito autógrafo, cujo título abreviado, na tese, é Vida da Serva de Deos….»

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Com a devida vénia ao Doutor Jorge Duque Fernandes

«A presente tese, elaborada para a obtenção do grau de Doutor em História, especialidade de História Moderna, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem por finalidade contribuir para o conhecimento das escritoras portuguesas anteriores ao ano de 1900, designadamente das que professaram em Ordens religiosas e escreveram sobre matérias espirituais. O seu primeiro objectivo é gizar a trajectória de vida de Soror Isabel do Menino Jesus (1673-1752), no século Isabel Fernandes, natural de Marvão, no Alto Alentejo, religiosa professa da Ordem de Santa Clara, no Convento de Santa Clara de Portalegre, falecida com fama de santidade e prestígio de mestra do espírito, depois de ali ter vivido quase cinquenta anos, tendo sido mestra da Ordem e abadessa. O seu segundo objectivo é analisar os textos da autora, os quais versam exclusivamente sobre ascética e mística: trinta e seis cartas, uma autobiografia, uma súplica e um tratado. A sua obra propõe um caminho espiritual segundo as escolas místicas franciscana e carmelita, pelas três vias do espírito (purgativa, iluminativa e unitiva) e por três noites escuras; e insiste na castidade, à qual chama ciência das virtudes. Realiza-se, pois, um estudo de caso, com enquadramento na ortodoxia católica, por ter sido neste campo que a autora escreveu, recebendo pareceres positivos da sua Ordem e da censura. A obra foi impressa em 1757, cinco anos depois da sua morte, organizada por frei Martinho de São José, seu confessor, com uma estampa-retrato da autora, aberta por Jean Baptiste Michel Le Bouteaux. O manuscrito autógrafo que lhe deu origem julgava-se perdido, após extravio pela época da extinção do convento, em 1834, mas foi encontrado à venda numa livraria alfarrabista, em Lisboa, em 2013, sendo então adquirido pela Câmara Municipal de Marvão. Este documento, do qual se apresenta transcrição, foi a primeira fonte da tese, à qual se juntaram muitas outras, manuscritas e impressas, concorrendo para recolocar a autora no conhecimento geral das escritoras portuguesas e também dos místicos de Portugal, dos quais pouco se sabe». In RESUMO

 

Introdução

A presente tese, elaborada especialmente para a obtenção do grau de Doutor em História, especialidade em História Moderna, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem por finalidade contribuir para o conhecimento das escritoras portuguesas anteriores ao ano de 1900, designadamente das que professaram em Ordens religiosas e escreveram sobre matérias espirituais. O seu primeiro objectivo é gizar a trajectória de Soror Isabel do Menino Jesus (1673-1752), no século chamada Isabel Fernandes, uma religiosa professa da Ordem de Santa Clara, no Convento de Santa Clara de Portalegre, que morreu com fama de santa e prestígio de mestra do espírito, depois de ali ter vivido quase cinquenta anos, sendo eleita para o ofício de mestra da Ordem e para o de abadessa.

Esta autora, hoje pouco conhecida, à data da sua morte deixou um manuscrito em vias de impressão, o que se deu já postumamente. O nosso segundo objectivo é analisar os textos de Soror Isabel, os quais versam exclusivamente sobre ascética e mística. Esta análise é qualitativa, tendo em conta um enquadramento na ortodoxia católica pós-tridentina, por ter sido dentro deste campo que a autora escreveu, recebendo pareceres positivos da sua Ordem religiosa e da censura. Trata-se de um estudo de caso numa dupla dimensão: quanto à sua vida, na sua Parte II (primeiro objectivo geral) e quanto à sua obra, na Parte I e na Parte III (segundo objectivo geral).

Centramo-nos em duas fontes principais: por um lado, no que Soror Isabel do Menino Jesus escreveu sobre si mesma e, em especial, sobre o seu domínio empírico da ciência ascética e mística, ou seja, os seus textos, a sua obra; e, por outro, no que sobre ela escreveram os seus contemporâneos, em especial aqueles que a conheceram ou observaram o seu comportamento, ou que consultaram testemunhas oculares. A nossa primeira fonte é, assim, o manuscrito autógrafo de Soror Isabel, intitulado postumamente Vida da Venerauel Madre Izabel do Menino Jezus. Falecida em 5 de Outubro de 1752, hoje conservado nos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Marvão. Este manuscrito foi extraviado do cartório do convento antes do fim de 1858, vindo a ser por nós encontrado à venda já em 2013, numa livraria alfarrabista de Lisboa.

Trata-se efectivamente de um autógrafo, que, para além de outras características que o indiciam, apresenta a assinatura da autora por trinta e seis vezes, em diferentes páginas, sendo identificável com a assinatura de Soror Isabel do Menino Jesus em numerosos documentos daquele cartório. Pela sua relevância, transcrevemos integralmente o manuscrito e apresentamo-lo em anexo (Anexo I). Dele colhemos abundantes citações, ao longo da tese.

A segunda fonte é o livro impresso em 1757, cinco anos depois da morte da autora, a partir do manuscrito autógrafo, cujo título abreviado, na tese, é Vida da Serva de Deos…. Dissertamos sobre este impresso, mas, dele, nunca citamos os textos da autora, que, verificámos, correspondem aos do manuscrito, salvo na actualização da ortografia e na atribuição de pontuação, decisões do seu editor, o padre João Evangelista da Cruz Costa. Citamos, sim, os textos que os acompanham, nomeadamente a Advertencia, os pareceres da Ordem e dos censores; e, em especial, um Prologo, Progressos, Fim, e Prostestaçaõ, da autoria de frei Martinho de São José, que foi confessor da autora e era então o ministro provincial da Província do Algarves da Ordem de São Francisco, o qual interveio directamente na organização do livro, em vida da autora». In Jorge Duque Fernandes, Soror Isabel do Menino Jesus, Vida e Obra de uma Escritora Mística 1673-1752, Tese para obtenção do grau de Doutor em História, 2016, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Fundação para a Ciência e Tecnologia, SFEH/BD/79496/2011.

Cortesia de FCT/CMM/BMP/JDACT

JDACT, Jorge Duque Fernandes, História, Religião, Literatura, Caso de Estudo, 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Um lento desprazer, uma solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima, como um silêncio, o antigo de minha voz…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«(…)

Transforma-se o amador na coisa amada com seu

feroz sorriso, os dentes,

as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído

e silêncio [...].

O amador transforma-se de instante para instante,

e sente-se o espírito imortal do amor

criando a carne em extremas atmosferas, acima

de todas as coisas mortas. (HELDER, 2004)

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem

canta empobrece nas frementes cidades

revividas. Empobrece com a alegria

por onde se conduz, e então é doce

e mortal. (Ibid.)

Um lento desprazer, uma

solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,

como um silêncio, o antigo

de minha voz. (Ibid.)

Sei de um poeta que passou os anos mais próximos do seu

suicídio

a bater com os nós dos dedos pelas paredes [...]

e foi-se vendo pelo seu rosto que não era fácil tomar a cargo

a coruscante caligrafia do mundo

mas ele tomou-a até onde pôde e o corpo era já

o outro lado da agonia um texto monstruoso que se decifrava

apenas a si próprio (Ibid.)

Eu poderia contar  gemeamente duas histórias: uma  afro-carnívora,  simbólica, a outra silenciosa, subtil, japonesa. De cada uma delas acabariam por decorrer um tom e um tema. A história carnívora foi colhida algures, de leitura, e respeita uma tribo que sepultava os seus mortos no côncavo de grandes árvores. As árvores, a que tinham dado o nome do povo: baobab,  devoravam os cadáveres,  deles iam urdindo a sua própria carne natural. Pelo nome tirado de si e posto na alquimia, a tribo investia-se  nas  transmutações  gerais: a  morte  levava  o  nome, e  o  nome, activo e tangível, crescia na terra. Emocionam-me a fome botânica e o triunfo das copas, o empenho tribalmente mágico, regrado pelo insondável entendimento das metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria. (HELDER, 1985)». In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «… assumindo o poeta o preço altíssimo desta alteração: o assassínio do Outro (e do Eu (suicida), tornado Outro), o crime inerente à poesia (como a lei é inerente à polícia), o seu posicionamento anticultural, antissocial, irónico…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«(…) Além desta tensão, desta intensíssima incoerência dentro do texto, a reescrita apresenta uma outra grande vantagem para o crítico (além, ainda, da concentração de bibliografia activa): como todos os poemas estiveram vulneráveis a potenciais alterações ao longo da vida do autor, eles acabaram por ser publicados na mesma data, na data da morte deste. Assim, rejeita-se a leitura cronológica, sequencial, abrindo-se um único poema (e talvez, também, um segundo poema-sombra, a tal raio de luz, apócrifo, incluindo os textos excluídos), o poema contínuo (um poema equivalente ao próprio nome autoral: o poema Herberto Helder), para ser lido livremente, como um mosaico, podendo ser visto (e percorrido com o corpo, como braille) a partir de qualquer um dos seus ladrilhos. Apesar da expressão poema contínuo ser abandonada no título das antologias seguintes (Ofício Cantante e Poemas Completos), a noção dum poema único, duma tensão única, permanecerá: por exemplo, na contínua insistência em vocábulos como língua, idioma e sintaxe, pressentindo uma única linha secreta que una todos os poemas num, uma fricção violenta (entre estes) criando uma única corrente eléctrica, harmonizada por uma lei absurda, incompreensível para nós, finitos leitores.

Fora dos Poemas Completos, aparecem ainda os livros de poemas estrangeiros mudados para português (não-traduzidos): O Bebedor Nocturno e Doze Nós numa Corda; poemas que definitivamente pertencem à autoria de Herberto Helder (não-tradutor), que os lê em francês, inglês, castelhano, italiano ou até português, e os transforma pela razão secreta do seu poema (compreendendo-os no poema contínuo), tal como faz à sua própria biografia: rouba a sua singularidade, o seu segredo, e torna-os singularmente seus: tensos, Diferentes. Quanto à estrutura deste ensaio, ele começará por pensar o papel da memória no poema, a sua transformação (o fingimento, no idioma pessoano) em imemorialidade; assumindo o poeta o preço altíssimo desta alteração: o assassínio do Outro (e do Eu (suicida), tornado Outro), o crime inerente à poesia (como a lei é inerente à polícia), o seu posicionamento anticultural, antissocial, irónico, subvertendo as leis morais. A ironia, por sua vez, invocará a questão do humor (onde um excerto do romance 2666 de Roberto Bolaño é chamado, pela sua terrível fusão de humor negro com a mais explícita violência), duplicando o significado de tudo (a expectativa e a sua quebra, como lei fundamental da comicidade), ironicamente: dizendo uma coisa e significando o seu contrário, partindo o mundo ao meio, espelhando-o, tenso, lutando contra si mesmo, imagem-contra-imagem. Esta leitura violentamente polar obscurecerá o poema, tornando a sua leitura impossível, paradoxal, quebrando a nossa razão (por força da sua), fechando-se sobre si mesmo, isolado, independente, um ponto concreto no espaço, liberto do Homem. E este encerramento, por sua vez, trará o silêncio (sendo a linguagem uma marca humana), como possível fundo do poema, o indizível, marcado na concretude, no tacto (o mais concreto dos sentidos), no poeta tornado puro corpo.

Por último, uma ressalva em relação à lacónica bibliografia passiva neste ensaio: por influência excessiva (não havendo outro tipo possível) do poeta estudado, tentou-se libertar a leitura, afastando-a da cultura, não academizando o autor mais do que já terá de ser feito, criminosamente (transgredindo a lei do poema, traindo-o, estudando-o num ambiente universitário); tentando criar-se uma leitura pessoalíssima, o mais perto possível do poema, para poder, depois, expandir-se o máximo possível. A bibliografia partirá, assim, da obra helbertiana, maioritariamente (ao ler os dois livros de crítica literária escolhidos (Tatuagem & Palimpsesto de Manuel Gusmão e Arte de Sublinhar de Gustavo Rubim), infelizmente, o movimento, por vezes, inverte-se: lendo-se da prosa ensaística para o poema), quer directamente (no caso de Borges, Camões, Cesariny, Kierkegaard, Michaux, Nietzsche, Rimbaud; todos nomeados em Herberto Helder), quer indirectamente (especialmente no caso de Emmanuel Levinas, cujo pensamento foi fundamental para a leitura éptica da obra, para a reflexão sobre a natureza do seu crime)». .In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante. Se toco (e é apaixonante) a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra»

 
jdact e Cortesia de wikipedia

«(…)

Mulher, casa e gato.

Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça

da casa, uma luz violenta.

Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.

A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia

pensa-a, enquanto

o gato imagina a elevada casa.

Eternamente a mulher da mão passa a mão

pelo gato abstracto,

e a casa e o homem que eu vou ser

são minuto a minuto mais concretos.

[...]

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.

Se toco (e é apaixonante)

a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.

Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.

Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher

com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.

A mulher da palavra. A Palavra.

[...] (HELDER, 2004)»

 

«Pois meus olhos não cansam de chorar

tristezas, que não cansam de cansar-me;

pois não abranda o fogo, em que abrasar-me

pôde quem eu jamais pude abrandar;

não canse o cego Amor de me guiar

a parte donde não saiba tornar-me;

nem deixe o mundo todo de escutar-me,

enquanto me a voz fraca não deixar.

E se em montes, rios, ou em vales,

piedade mora, ou dentro mora Amor

em feras, aves, prantas, pedras, águas,

ouçam a longa história de meus males

e curem sua dor com minha dor;

que grandes mágoas podem curar mágoas.

(CAMÕES, 1980)

.In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder, 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Também pode ser uma ironia, explicitando a perpétua posição irónica do poema em relação à prosa, invertendo-a, atacando-a, ainda que não podendo prescindir dela, para poder marcar a sua própria superioridade…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«Análise da obra literária de Herberto Helder, contrapondo a autossuficiência de cada poema à possível existência de um único poema contínuo, uma linha semântica percorrendo todos os poemas da obra. Partindo da arte poética Photomaton & Vox, como possível chave de leitura, é pensada a sua concepção de poema: a criminalidade, como acto antissocial, apocalíptico, atacando e destruindo o mundo, isolando-se no processo. Esta destruição começa na própria memória do poeta, partindo depois para o Outro, alterado, assassinado, e ironizado, como tudo, alvos do negro riso poético. Este tom irónico duplica o significado de todo o símbolo, dualizando o sentido do poema, tornando impossível a sua leitura plena, encerrando-o, dentro de si mesmo, obscuro, ponto inalcançável para o leitor, que simplesmente sofrerá o mesmo destino do poeta e das suas fontes: a morte, a transformação. Este fracasso na leitura do poema aponta-o para o silêncio, como paz final: ausência da palavra criminosa, estado pré-linguístico onde o mal (do poema e do leitor) seria evitado, onde o poeta, demonizado, seria salvo. Assim sendo, esta dissertação falha». In Resumo

Herberto Helder morreu a 23 de Março de 2015, finalizando a sua obra; exceptuando os livros póstumos entretanto publicados (Letra Aberta e Poemas Canhotos, e, possivelmente, outros que ainda se irão publicar), que, de qualquer maneira, apenas se somaram, ou somarão, à obra, sem a rasurar. Este fim biológico torna-se especialmente significativo para o estudo literário dum poeta em constante reescrita, constantemente ameaçando (alterando e eliminando) os seus poemas anteriores (agora salvos), num exercício exclusivista que acabou por culminar nos Poemas Completos. Este exercício vitalício tem um instante peculiar na antologia (de 2001) Ou o poema contínuo, onde o poeta, explicitamente: no título, une os poemas escolhidos numa única tensão, um único poema, um poema contínuo, purificado dos textos menores, reconstruindo a obra. Sendo Herberto Helder essencialmente um poeta, este livro tem, inevitavelmente, uma tendência totalizante, excluindo tudo o resto; no entanto, aqui emerge o caso particular dos livros Os Passos em Volta (um conjunto de contos) e Photomaton & Vox (em parte, uma arte poética, completada por seis poemas, incluídos nos Poemas Completos, criando a secção Dedicatória), dois livros de prosa (ficcional e ensaística, respectivamente), genologicamente à margem do poema contínuo, como fronteiras que marcam o centro: como linhas da circunferência necessárias para marcar o centro do círculo (quer como arte poética, pressupondo um poema, quer como prosa ficcional, recuperando temas e até excertos, no conto O estilo, deste). O próprio Photomaton & Vox expõe ostensivamente esta tensão interna na obra, entre centro e fronteira: Não nos acercamos da prosa, a prosa não existe, a prosa é uma instância degradada do poema, a prosa não presume uma qualidade particular de visão e execução, especula um modo extensivo e extrapolado de desgaste do tempo, do espaço. Apesar do tom hiperbólico, não existem dúvidas sobre a existência dum paradoxo: a prosa é declarada inexistente enquanto se escreve (impossivelmente, autodestruindo-se, ironicamente). Uma segunda divergência surge no autorretrato presente no mesmo livro: Isto pode ser uma arte poética; onde este texto se coloca contra a natureza absurda da poesia, adversa às simplificações da cultura, às explicações, que mortificam o poema, que lhe tiram a sua ambiguidade, o seu potencial, explicar a obra (como uma arte poética, em parte, faz), por muito singular que seja a explicação, equivaleria a excluir todos os seus poemas, já não-poéticos: explicados. Esta contradição exige que o próprio livro de prosa duvide da sua natureza: Também pode ser uma ironia, explicitando a perpétua posição irónica do poema em relação à prosa, invertendo-a, atacando-a, ainda que não podendo prescindir dela, para poder marcar a sua própria superioridade (necessariamente comparativa, necessitando de um segundo termo)» .In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

domingo, 8 de janeiro de 2023

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «O Padrão Real representava o mais perfeito estado da arte dos mapas do mundo na época e era zelosamente mantido longe dos olhares de estranhos…»

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«(…) O Padrão Real tinha sido concebido como a matriz mais actual do mapa-mundi então conhecido e era permanentemente actualizado com novas informações trazidas pelos navegadores, pilotos e cosmógrafos portugueses, ou estrangeiros ao serviço do rei de Portugal (bem como informações ou mapas completos obtidos de outros povos com quem os portugueses contactavam por via diplomática, comercial ou militar).

As mais recentes peças com informação sobre novas terras, rios, baías, ilhas, ilhéus, cabos, promontórios, recifes, bancos de coral e outros perigos submersos quase à superfície (abrolhos ou, em bom português, abre bem os olhos para o perigo), costumavam chegar a Lisboa sob a forma de portulanos, cartas de marear ou navegar desenhadas em pergaminhos. Esses desenhos eram rigorosamente analisados e verificados e, depois de considerados correctos, eram imediatamente copiados para o Padrão Real para o actualizar.

O Padrão Real representava o mais perfeito estado da arte dos mapas do mundo na época e era zelosamente mantido longe dos olhares de estranhos e sobretudo dos mais directos competidores dos portugueses nos mares do Atlântico, os castelhanos. Os dois primeiros documentos referidos, o mapa de Henricus Martellus, de 1490-1491, e o globo de Martim Behaim, de 1490, são provas directas da descoberta da América antes daquela data, com a chegada dos portugueses à península da Florida. Esta descoberta é poucos anos depois claramente confirmada no mapa de Cantino de 1501-1502, baseado no referido Padrão Real.

Os três documentos, considerados ainda em conjunto com o chamado mapa de Colombo, de l490,constituem um grupo de provas irrefutáveis de que os navegadores portugueses descobriram de facto a América Central e do Norte no século XV antes de 1490 e antes de qualquer outro povo europeu no início da época moderna. Todos sabemos que os povos vikings já tinham chegado à terra firme da América do Norte nos séculos X e XI. Para melhor compreendermos esta tese, começamos por convidar os nossos leirores a olhar em pormenor para o primeiro mapa-múndi moderno, de Henricus Martellus, de 1490-1491. Como dissemos, este mapa segue-se a outro do mesmo autor, feito em 1489, mas com uma actualização referente às últimas descobertas dos portugueses no Atlântico Ocidental, nomeadamente várias ilhas, e no Atlântico Sul, ao longo da costa de África, incluindo a recente descoberta do cabo da Boa Esperança». In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura, 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Todos exigem provas definitivas, escritas, para poderem considerar a hipótese da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses, sendo esta uma condição sine qua non…»

jdact

«(…) Durante muitas décadas, ou melhor, desde há dois séculos, vários autores portugueses e estrangeiros, incluindo sul e norte--americanos, afirmaram que a primazia na descoberta das ilhas e dos territórios da América era portuguesa: desde Alexander von Humboldt a Hemy Yule Oldham no século XIX, Edgar Prestage e Jaime Cortesão em meados do século XX, Peter W. Dickson em 2002, até aos anos mais recentes, com a publicação em 2015 do livro de John D. Irany Before 1492 – The Portuguese Discovery of America (Amazon, Kindle Edition).

Sabemos claramente que todos os autores que ousaram defender esta controversa tese foram sempre obrigados a enfrentar a resistência feroz do establishment intelectual, académico, cultural, político e mesmo diplomático. Dos historiadores oficiais aos professores do ensino público e até do ensino privado, políticos, diplomatas e homens de negócios, a oposição a esta tese foi sempre severa. Todos exigiram provas directas, nomeadamente provas escritas, e sempre recusaram provas indirectas, circunstanciais, rejeitando  explicações e enquadramentos baseados no ambiente social, no estado da arte, no espírito do tempo (zeitgeist), no paradigma tecnológico da época, perspectivas que, como sabemos, são sempre importantes complementos para consolidar qualquer nova tese sobre História. Todos exigem provas definitivas, escritas, para poderem considerar a hipótese da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses, sendo esta uma condição sine qua non para se iniciar uma eventual discussão sobre o assunto. Com tantas requisitos prévios, a aceitação da própria tese em si torna-se assim virtualmente impossível, porque haverá sempre mais uma e outra exigência de provas definitivas, como se as existentes nunca bastassem...

Mas, de facto, tal conjunto de provas existe e é cada vez mais volumoso. Como costumamos dizer em bom português, essas provas sempre estiveram e continuam a estar debaixo dos nossos olhos. O problema é que, colectivamente, nós continuamos a não as querer ver. Aliás, há um ditado popular que se aplica na perfeição a esta realidade: o verdadeiro cego é aquele que não quer ver. É esse o caso dos historiadores oficiais, para quem, uma versão diferente da oficial sobre a descoberta da América, uma interpretação alternativa ao feito de Cristóvão Colombo em 1492 nem sequer merecem a pena ser analisadas, não importa em que argumentos se baseiam, nem sequer com que provas são fundamentadas.

Em relação à tese da pré-descoberta das Américas pelos portugueses, poderemos dizer, como disse Galileo Galilei, no tribunal da Inquisição (maldita) em relação ao planeta Terra e à posição que este ocupava no sistema solar: Eppur si muove (e, no entanto, move-se). Há, de facto, uma versão diferente da história da descoberta das Américas pelos europeus que continua a ser pacientemente tecida por muitos investigadores independentes e à espera da oportunidade de ser amplamente conhecida e divulgada. Este ensaio, ou melhor, esta modesta investigação e interpretação jornalística, é sobre as evidências e as provas concretas da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses.

A Pré-Descoberta Portuguesa da Península da Florida

Pela primeira vez na História, a península da Florida aparece claramente desenhada, correctamente posicionada e com os seus contornos minuciosamente detalhados no primeiro rnapa-múndi digno desta classificação, o mapa de Henricus -Martellus, de 1490-1491, que, como se sabe, foi amplamente baseado nas novas descobertas portuguesas no oceano Atlântico. O mesmo território aparece claramente desenhado no primeiro globo terrestre feito por Martim Behaim, em Nuremberga, em 1490.

A península da Florida é mostrada novamente em pormenor no mapa de Cantino de 1501-1502, que reproduziu o chamado Padrão Real português, o secreto mapa oficial do mundo, rigorosamente guardado no Terreiro do Paço, em Lisboa, nas caves do palácio do rei Manuel I». In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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