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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «… tinham trabalhado nas patrulhas de fronteira …, quando houve vagas, e nós tínhamos a certeza de que, desde que os profissionais vigiassem as fronteiras de Kocho…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No dia a seguir ao rapto de Dishan, Kocho estava um caos. Os aldeões juntavam-se à porta de casa e, juntamente com os homens que se revezavam no novo posto de controlo à entrada das muralhas da nossa aldeia, vigiavam todos os carros desconhecidos que passassem por Kocho. Hezni, um dos meus irmãos, regressou a casa do trabalho, era polícia em Sinjar, e juntou-se aos outros homens da aldeia que discutiam ruidosamente o que fazer. O tio de Dishan queria vingança e decidiu liderar uma missão a uma aldeia a leste que Kocho, liderada por uma conservadora tribo sunita. Vamos capturar dois dos pastores deles, declarou, enraivecido. Assim vão ter de nos devolver Dishan! Era um plano arriscado e nem toda a gente apoiava o tio de Dishan. Até os meus irmãos, que tinham herdado do nosso pai a coragem e a prontidão para a luta, estavam divididos quanto ao que fazer. Saeed, que era apenas um par de anos mais velho do que eu, passava muito do seu tempo a fantasiar com o dia em que provaria finalmente o seu heroísmo. Era a favor da vingança, enquanto Hezni, mais de uma década mais velho e o mais empático de todos nós, achava que era demasiado perigoso. Mesmo assim, o tio de Dishan levou todos os aliados que conseguiu reunir, raptou dois pastores árabes sunitas, levou-os para Kocho, fechou-os em casa e esperou.

A maior parte das disputas entre aldeias era resolvida por Ahmed Jasso, o prático e diplomático mukhtar, que alinhava com a opinião de Hezni. A nossa relação com os vizinhos sunitas já é complicada, disse ele. Quem sabe o que irão fazer se tentarmos lutar com eles. Além disso, avisava, a situação fora de Kocho era muito pior e muito mais complicada do que imaginávamos. Um grupo que se autodenominava Estado Islâmico, ou ISIS, que nascera sobretudo ali, no Iraque, e crescera ao longo dos últimos anos na Síria, ocupara outras aldeias tão perto de nós que conseguíamos ver as suas figuras vestidas de negro quando passavam nas carrinhas. Eram os responsáveis pelo rapto dos nossos pastores, disse-nos o mukhtar. Só vão piorar as coisas, disse Ahmed Jasso ao tio de Dishan. E ainda mal tinha passado meio dia desde que os pastores sunitas tinham sido raptados quando os libertaram. Dishan, porém, continuou preso.

Ahmed Jasso era um homem inteligente, a família Jasso tinha décadas de experiência na negociação com as tribos árabes sunitas. Era a eles que toda a gente na aldeia recorria com os seus problemas e, mesmo fora de Kocho, eram conhecidos como diplomatas hábeis. Mesmo assim, alguns de nós perguntávamo-nos se, desta vez, Ahmed Jasso não estaria a ser demasiado cooperante, se não estaria a enviar aos terroristas a mensagem de que os yazidis não se protegiam. Nessa altura, a única coisa que se interpunha entre nós e o ISIS eram os combatentes curdos iraquianos, os chamados peshmergas, que tinham sido enviados da região autónoma curda para proteger Kocho quando Mossul caiu, quase dois meses antes. Tratámos os peshmergas como honoráveis visitantes. Dormiam sobre paletes na nossa escola e, todas as semanas, uma família diferente matava um cordeiro para os alimentar, um enorme sacrifício para os pobres aldeões. Eu também os admirava. Ouvira falar de mulheres curdas da Síria e da Turquia que lutavam contra os terroristas e andavam armadas, e a ideia fazia-me sentir corajosa. Algumas pessoas, incluindo alguns dos meus irmãos, pensavam que deveríamos poder proteger-nos.

Queriam criar postos de controlo e o irmão de Ahmed Jasso tentou convencer as autoridades curdas a deixá-lo formar uma unidade peshmerga yazidi, mas foi ignorado. Ninguém se ofereceu para treinar os homens yazidis nem os encorajou a juntarem-se à luta contra os terroristas. Os peshmergas garantiram-nos que, enquanto ali estivessem, não tínhamos que nos preocupar, e que estavam tão decididos a proteger os yazidis como a proteger a capital do Curdistão iraquiano. Mais depressa deixamos cair Erbil do que Sinjar, diziam. Disseram-nos para confiar neles, e foi o que fizemos. Mesmo assim, a maior parte das famílias em Kocho mantinha armas em casa, as débeis Kalashnikov, um ou dois facalhões usados normalmente para matar os animais nas festividades. A maior parte dos homens yazidis, incluindo os meus irmãos com idade suficiente para isso, tinham trabalhado nas patrulhas de fronteira ou na polícia após 2003, quando houve vagas, e nós tínhamos a certeza de que, desde que os profissionais vigiassem as fronteiras de Kocho, os nossos homens conseguiriam proteger as suas famílias». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

JDACT, Nadia Murad, Literatura, Iraque, Religião, Conhecimento,

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «Não percebo, disse. Aqueles aldeões não são ricos. Porque deixaram as ovelhas para trás? Ele pensava que isso tinha que ter algum significado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O Yazidismo é uma antiga religião monoteísta, transmitida oralmente por homens santos a quem foram confiadas as nossas histórias. Embora tenha elementos comuns com as muitas religiões do Médio Oriente, desde o Mitraísmo e o Zoroastrianismo até ao Islamismo e o Judaísmo, é, na verdade, uma religião única, que até os homens santos que memorizam as nossas histórias têm dificuldade em explicar. Penso na minha religião como se fosse uma árvore antiga com milhares de anéis, cada um a contar uma história no longo percurso dos yazidis. Muitas dessas histórias, infelizmente, são tragédias.

Hoje em dia, há apenas um milhão de yazidis no mundo. Desde que me conheço, e sei que também muito antes de eu nascer, a nossa religião tem sido o que nos define e o que nos mantém unidos como comunidade. Mas também nos tem tornado alvo de perseguição por parte de grupos maiores, desde os otomanos aos baathistas de Saddam, que nos atacavam ou nos obrigavam a jurar-lhes lealdade. Denegriram a nossa religião, chamaram-nos adoradores do Diabo, sujos, e exigiram que renunciássemos à nossa fé. Os yazidis têm sobrevivido a gerações de ataques com o objectivo de nos dizimar; matavam-nos, obrigavam-nos a converter ou simplesmente expulsavam-nos da nossa terra e ficavam com tudo o que possuíamos. Antes de 2014, já tínhamos sofrido setenta e três tentativas de destruição por parte de poderes externos. Costumávamos chamar firman, uma palavra otomana, aos ataques contra yazidis, antes de aprendermos a palavra genocídio.

Quando ouvimos falar do pedido de resgate pelos dois agricultores, toda a aldeia entrou em pânico. Quarenta mil dólares, disseram os sequestradores às mulheres dos agricultores, por telefone. Ou venham para cá com os vossos filhos para se converterem ao Islão como família. Caso contrário, disseram, os homens seriam mortos. Não foi o dinheiro que levou as esposas a romperem em lágrimas na frente do nosso mukhtar, ou líder da aldeia, Ahmed Jasso; quarenta mil dólares era uma soma do outro mundo, mas era apenas dinheiro. Todos sabíamos que os agricultores preferiam morrer a converter-se, por isso os aldeões choraram de alívio quando, uma noite, os homens escaparam por uma janela partida, fugiram pelos campos de cevada e apareceram em casa, vivos, com terra até aos joelhos e ofegantes de medo. Mas os raptos não pararam.

Pouco tempo depois, Dishan, um homem que trabalhava para a minha família, os Tahas, foi raptado de um campo perto do Monte Sinjar, onde estava a guardar as nossas ovelhas. A minha mãe e os meus irmãos levaram anos a comprar e a cruzar os nossos animais, cada um deles era uma vitória. Orgulhávamo-nos das nossas ovelhas, guardávamo-las no pátio da nossa casa quando não andavam a vaguear pela aldeia, tratávamo-las quase como animais de estimação. A tosquia anual era uma celebração. Eu adorava o ritual, a maneira como a lã macia caía no chão, como pilhas de nuvens, o cheiro almiscarado que tomava conta da casa, os balidos baixos e passivos das ovelhas. Adorava dormir debaixo dos grossos edredons que a minha mãe, Shami, fazia com a lã, enfiando-a entre peças de tecido colorido. Por vezes apegava-me de tal maneira a uma ovelha que tinha de sair de casa quando chegava a altura de abatê-la. Quando Dishan foi raptado, tínhamos mais de uma centena de ovelhas, para nós, uma pequena fortuna.

Lembrando-se da galinha e dos pintos roubados por altura do rapto dos agricultores, o meu irmão Saeed precipitou-se para a carrinha da família e dirigiu-se ao sopé do Monte Sinjar, a uns vinte minutos de distância, agora que a estrada estava pavimentada, para ver o que tinha acontecido às ovelhas. Levaram-nas, de certeza, lamentámo-nos. Aquelas ovelhas eram tudo o que tínhamos. Mais tarde, quando Saeed ligou à minha mãe, soava confuso. Só levaram duas, relatou, um velho carneiro lento e uma pequena borrega. As restantes estavam a pastar alegremente na erva verde-acastanhada e seguiram o meu irmão de volta a casa. Rimo-nos todos e ficámos muito aliviados. Mas Elias, o meu irmão mais velho, estava preocupado. Não percebo, disse. Aqueles aldeões não são ricos. Porque deixaram as ovelhas para trás? Ele pensava que isso tinha que ter algum significado». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

JDACT, Nadia Murad, Literatura, Iraque, Religião, Conhecimento, 

terça-feira, 7 de junho de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «As viagens para a montanha eram momentos de alegria. Em Sinjar havia doces e uma sanduíche especial de cordeiro que não temos em Kocho, e o meu pai quase sempre parava para comprarmos o que quiséssemos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«No início do Verão de 2014, estava atarefada a preparar-me para o meu último ano no ensino secundário, quando desapareceram dois agricultores das suas terras mesmo às portas de Kocho, a pequena aldeia yazidi no Norte do Iraque onde nasci e onde, até recentemente, pensava que iria viver o resto da vida. De um momento para o outro, os homens, que descansavam pacificamente à sombra de uns velhos oleados improvisados, viram-se presos num pequeno quarto de uma aldeia vizinha, habitada maioritariamente por árabes sunitas. Além de levarem os agricultores, os sequestradores roubaram também uma galinha e vários pintos, o que nos confundiu. Talvez estivessem apenas com fome, comentámos, embora isso não bastasse para nos acalmar. Kocho é, desde que me conheço, uma aldeia yazidi, fundada por agricultores nómadas e pastores que chegaram ao meio do nada e decidiram construir casas para proteger as suas esposas do calor desértico enquanto andavam com as ovelhas em busca de melhores pastos. Escolheram uma terra que seria boa para a agricultura, mas com uma localização arriscada, no extremo sul da região iraquiana de Sinjar, onde vive a maior parte dos yazidis do país e muito perto do Iraque não yazidi. Quando chegaram as primeiras famílias yazidi, em meados da década de 1950, Kocho era habitada por agricultores árabes sunitas que trabalhavam para proprietários de Mossul. Mas essas famílias yazidi tinham contratado um advogado para comprar as terras, o advogado, ele próprio muçulmano, ainda é considerado um herói e, por altura do meu nascimento, já Kocho tinha cerca de duzentas famílias, todas yazidi, tão próximas como se fôssemos uma única grande família, e éramos quase.

A terra que nos tornava especiais também nos tornava vulneráveis. Há séculos que nós, yazidis, somos perseguidos por causa das nossas crenças religiosas, e, comparada com a maior parte das nossas cidades e aldeias, Kocho fica distante do Monte Sinjar, a montanha alta e estreita que nos tem abrigado ao longo de várias gerações. Há muito tempo que somos empurrados entre as forças rivais dos sunitas árabes e dos sunitas curdos; exigem-nos que reneguemos a nossa herança yazidi e nos conformemos à identidade curda ou árabe. Até 2013, ano em que a estrada entre Kocho e a montanha foi finalmente pavimentada, a nossa carrinha Datsun branca levava quase uma hora a percorrer as estradas poeirentas até à cidade de Sinjar, no sopé da montanha. Cresci mais perto da Síria do que dos nossos templos sagrados, mais perto de estranhos do que da segurança.

As viagens para a montanha eram momentos de alegria. Em Sinjar havia doces e uma sanduíche especial de cordeiro que não temos em Kocho, e o meu pai quase sempre parava para comprarmos o que quiséssemos. A nossa carrinha erguia nuvens de pó pelo caminho, mas sempre preferi viajar ao ar livre. Deitava-me no fundo da caixa aberta até sairmos da aldeia e ficarmos a salvo dos olhares dos vizinhos, altura em que me levantava para sentir o vento a vergastar-me o cabelo e ver os rebanhos que pastavam à beira da estrada. Entusiasmava-me facilmente, ficava cada vez mais tempo de pé na caixa da carrinha até o meu pai ou o meu irmão mais velho, Elias, me gritarem que, se não tivesse cuidado, sairia a voar por um dos lados. Na direcção oposta, longe daquelas sanduíches de cordeiro e do conforto da montanha, estava o resto do Iraque. Em tempo de paz, e se não tinha pressa, um mercador yazidi demorava quinze minutos de carro para ir de Kocho à aldeia sunita mais próxima vender cereais ou leite. Tínhamos amigos nessas aldeias: raparigas que conhecera em casamentos, professores que dormiam na escola de Kocho durante o período lectivo, homens que eram convidados a segurar no colo os nosso bebés durante o ritual da circuncisão e que ficavam, a partir daí, ligados a essa família yazidi como kiriv, qualquer coisa como um padrinho. Médicos muçulmanos vinham até Kocho ou à cidade de Sinjar para nos tratar quando estávamos doentes, e havia mercadores muçulmanos pela cidade a vender vestidos e doces, coisas que não conseguíamos encontrar nas poucas lojas de Kocho, que ofereciam apenas os artigos mais básicos. Quando eu era pequena, os meus irmãos costumavam viajar até aldeias não yazidi para ganharem algum dinheiro com trabalhos esporádicos. As relações evidenciavam o peso de séculos de desconfiança, era difícil não nos sentirmos mal quando um convidado muçulmano num casamento se recusava a comer a nossa comida, por mais delicadamente que o fizesse, mas, ainda assim, havia amizade genuína. Eram ligações criadas ao longo de muitas gerações, passando pelo controlo otomano, a colonização britânica, Saddam Hussein e a ocupação americana. Em Kocho, éramos conhecidos pela nossa relação próxima com as aldeias sunitas.

Mas quando havia guerra no Iraque, e parecia haver sempre guerra no Iraque, aquelas aldeias pareciam agigantar-se sobre nós, o pequeno vizinho yazidi, e o velho preconceito endurecia facilmente ao ponto de se transformar em ódio. Muitas vezes, com esse ódio vinha a violência. Ao longo dos últimos dez anos, pelo menos, desde que os iraquianos foram empurrados para a guerra com os americanos, que começou em 2003 e que depois resvalou para conflitos locais ainda mais perversos até acabar em pleno terrorismo, a distância entre os nossos lares tornou-se enorme. Aldeias vizinhas começaram a dar abrigo a terroristas que denunciavam cristãos e muçulmanos não sunitas e, ainda pior, que consideravam os yazidis kuffar, infiéis merecedores da morte (kafir, no singular). Em 2007, alguns desses extremistas levaram um camião-cisterna e três carros para os centros apinhados de duas cidades yazidi, uns quinze quilómetros a noroeste de Kocho, e fizeram explodir os veículos, matando centenas de pessoas que tinham corrido na sua direcção, muitos a pensar que traziam produtos para vender no mercado». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

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