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domingo, 5 de dezembro de 2021

Philippa Gregory. O Substituto. «A abadia é perto do castelo, creio que podemos pedir abrigo no mosteiro ou no convento. Iremos ao convento, decidiu Luca. A carta diz que esperam por nós»

Cortesia de wikipedia e jdact

Abadia de Lucretili. Outubro de 1453

«(…) E está me espionando? Não..., nada faço e nada sei. Está espionando quem, então? Deve ser o jovem senhor, meu pardalzinho. Pois não há ninguém além dos cavalos, e eles não são hereges ou pagãos: são os únicos animais honestos aqui. Ele está aqui como meu copista, respondeu Luca, irritado. E terá de ficar, precise eu de um copista ou não. Então modere sua língua. Eu preciso de um copista?, perguntou Freize, falando sozinho enquanto puxava as rédeas do cavalo. Não. Pois nada faço e nada sei e, se eu fizesse, não escreveria a respeito... Não confiaria as palavras a uma página. Além disso, provavelmente não saber ler nem escrever fosse um impedimento. Tolo..., disse o copista Peter, ao passar no seu cavalo. Tolo, diz ele, murmurou Freize, dirigindo-se ao cavalo e à estrada que se inclinava suavemente diante deles. É fácil falar: difícil é provar. De qualquer modo, já me chamaram de coisa pior.

Cavalgaram o dia todo num trilho, não muito maior que um caminho estreito para cabras, que subia sinuosa para além do vale fértil, junto aos platôs suaves onde cresciam oliveiras e vinhedos, e ia ainda mais alto, adentrando o bosque onde as imensas faias se coloriam de ouro e bronze. Quando veio o poente e o firmamento arqueado sobre eles ficou rosado, o copista retirou um papel do bolso interno do casaco. Ordenaram-me que lhe entregasse isto ao pôr-do-sol, falou. Perdoe-me se forem más notícias, não sei o que diz. Quem lhe deu?, perguntou Luca. O selo no verso da carta dobrada era brilhante e liso, sem timbre algum. O mestre que me contratou, o mesmo que o comanda, respondeu Peter. É assim que suas ordens chegarão: ele me diz o dia e a hora ou, às vezes, um destino, e lhe entrego as ordens quando chegar. Ficarão escondidas no seu bolso o tempo todo?, perguntou Freize. O copista assentiu, imponente. Podemos sempre virá-lo de pernas para o ar e sacudi-lo, comentou Freize, em voz baixa, com seu senhor. Faremos como nos foi ordenado, respondeu Luca, jogando as rédeas do cavalo pelo ombro para deixar as mãos livres e romper o lacre, abrindo o papel dobrado. É uma instrução para ir à abadia de Lucretili, disse. A abadia fica entre duas casas, um convento e um mosteiro. Devo investigar o convento. Estão nos esperando. Ele dobrou a carta e a devolveu a Peter. Aí diz como chegar lá?, perguntou Freize, rabugento. Caso contrário, passaremos os dias em camas sob as árvores e sem nada além de pão frio para a ceia. Castanhas de faia, suponho. Todas as castanhas que conseguirmos comer. Podemos comê-las até enlouquecer. Talvez eu tenha a sorte de encontrar um cogumelo para nós. A estrada fica bem à frente, interrompeu Peter. A abadia é perto do castelo, creio que podemos pedir abrigo no mosteiro ou no convento. Iremos ao convento, decidiu Luca. A carta diz que esperam por nós.

Não parecia que o convento estivesse esperando por alguém. Estava escurecendo, mas não havia luzes calorosas e acolhedoras, e nenhuma porta aberta. As cortinas estavam fechadas em todas as janelas da parede externa, e apenas feixes estreitos da luz de velas bruxuleavam pelas frestas. No escuro, não era possível avaliar o tamanho do prédio, tinham apenas uma ideia dos grandes muros de cada lado do largo e arqueado vão de entrada. Uma fraca lanterna de chifre estava pendurada na portinhola do enorme portão de madeira, lançando uma luz amarela e fraca para baixo. Quando Freize desmontou e bateu no portão de madeira com o punho da adaga, eles puderam ouvir alguém lá dentro reclamando do barulho e abrindo uma pequena vigia na porta para espiar o grupo. Meu nome é Luca Vero, trago dois criados, gritou Luca. Esperam por mim. Deixe-nos entrar. A vigia se fechou com um estrondo, e eles ouviram o portão ser destrancado lentamente, e as travas de madeira, erguidas. Por fim, um lado do portão se abriu numa fresta, um pouco relutante. Freize levou seu cavalo e o burro. Luca e Peter cavalgaram pelo pátio calçado de pedras enquanto uma serviçal robusta fechava o portão. Os homens desmontaram e olharam em volta enquanto uma velha ressequida, usando hábito de lã cinza e trazendo um tabardo da mesma cor amarrado na cintura por uma corda, ergueu o archote que carregava para examinar os três. Você é o homem que enviaram para a inquisição? Pois se não for e quiser apenas nossa hospitalidade, é melhor ir ao mosteiro, nossa casa irmã, disse a Peter, olhando para ele e para seu belo cavalo. Esta casa vive tempos difíceis, não queremos hóspedes». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

 Cortesia de EGRecord/JDACT

Itália, Século XV, JDACT, Literatura, Philippa Gregory, 

sábado, 4 de dezembro de 2021

O Substituto. Philippa Gregory. «Alguns meses depois, Luca estava na estrada de Roma cavalgando para leste. Vestia um manto simples e uma capa marrom-avermelhada, e cavalgava a sua mais nova aquisição»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Castelo de Lucretili. Junho de 1453

«(…) Claro que não fiz isso. Lamento, fiquei bêbado como um idiota e disse a ele que poderia ir defender a própria causa. Porque abriu a porta? Porque acreditei que seu amigo era um homem honrado, assim como você. Agiu muito mal ao destrancar a porta, repreendeu o irmão. Abrir a porta de seus aposentos a um homem, a um bêbado! Você não sabe se cuidar. Meu pai tinha razão, temos de colocá-la num lugar seguro. Eu estava segura! Estava no meu próprio quarto, no meu próprio castelo, conversando com o amigo de meu irmão. Não deveria haver riscos, respondeu, zangada. Você não devia ter trazido um homem desses à nossa mesa de jantar. Meu pai nunca deveria ter acreditado que ele seria um bom marido para mim. Ela levantou-se e foi à nave central, seguida pelo irmão. Mas, afinal, o que disse que o aborreceu tanto? Isolde conteve um sorriso ao pensar na caçarola chocando contra a cabeça gorda do príncipe. Deixei meus sentimentos bem claros. E nunca mais me encontrarei com ele. Ora, isso vai ser fácil, disse Giorgio asperamente, já que nunca será capaz de se encontrar com homem algum. Se não se casar com o príncipe Roberto, terá de ir para a abadia. O testamento de nosso pai não lhe deixa alternativa. Isolde parou para absorver as palavras dele e, hesitante, pôs a mão no seu braço, perguntando como poderia convencê-lo a deixá-la livre.

Não adianta ficar assim, disse ele, de forma rude. Os termos do testamento são claros, eu lhe disse ontem à noite. Era o príncipe ou o convento. Agora é só o convento. Partirei em peregrinação, propôs. Vou para longe daqui. Não partirá. Como sobreviveria, para começar? Não consegue manter-se segura nem dentro da própria casa! Ficarei com alguns amigos de pai, qualquer um. Posso procurar o filho do meu padrinho, o conde da Valáquia, ou posso ir atrás do duque de Bradour... Ele estava sério. Não pode. Sabe que não pode. Deve fazer o que o pai ordenou. Não tenho escolha, Isolde. Deus sabe que eu faria qualquer coisa por você, mas o testamento é claro e tenho de obedecer a meu pai, assim como você. Irmão..., não me obrigue a isso. Ele virou-se para a parede em arco da capela e encostou a testa na pedra fria, como se estivesse com dor de cabeça. Irmã, nada posso fazer. O príncipe Roberto era a sua única chance de escapar da abadia. É o testamento de nosso pai. Jurei sobre sua espada, sobre sua própria espada, que cuidaria para que fosse cumprido. Minha irmã..., não há nada que eu possa fazer, nem você. Ele prometeu que deixaria sua espada para mim. É minha agora, como todo o resto. Ela pôs a mão no ombro do irmão, gentilmente. Se eu fizer um juramento de celibato, não posso ficar aqui com você? Não me casarei com ninguém. O castelo é seu, bem vejo. No fim, ele fez como todos os homens e favoreceu o filho em detrimento da filha. No fim, fez como todos os grandes homens e excluiu a mulher da riqueza e do poder. Mas, se eu morar aqui, pobre e sem poder, sem jamais ver um homem, obediente a você..., não posso ficar? Ele negou com a cabeça. Não é minha vontade, mas a dele. E é assim, como você mesma admite, que o mundo funciona. Ele a criou quase como se você tivesse nascido menino, com riqueza e liberdade demais. Mas, agora, você deve viver como uma nobre. Deveria ficar feliz, pelo menos, com a proximidade da abadia, assim não precisará se afastar muito das terras que sei que ama. Não foi mandada para o exílio, ele podia tê-la enviado a qualquer lugar. Em vez disso, ficará na nossa propriedade: na abadia. Vou vê-la de vez em quando. Levarei as novidades. Talvez depois você possa cavalgar comigo. Ishraq poderá ir comigo? Pode levar Ishraq, pode levar todas as suas damas, se desejar e se elas estiverem dispostas a ir. Mas esperam por você na abadia amanhã. Terá de ir, Isolde. Terá de fazer seus votos de freira e tornar-se abadessa. Não tem alternativa. Ele a encarou novamente e viu que tremia como uma jovem égua forçada aos arreios pela primeira vez. É como ser aprisionada, sussurrou. E não fiz nada de errado. Ele também tinha lágrimas nos olhos. É como perder uma irmã. Estou sepultando um pai e perdendo uma irmã. Não sei como será sem você por aqui.

 

Abadia de Lucretili. Outubro de 1453

Alguns meses depois, Luca estava na estrada de Roma cavalgando para leste. Vestia um manto simples e uma capa marrom-avermelhada, e cavalgava a sua mais nova aquisição. Estava acompanhado pelo criado, Freize, um jovem de ombros largos e cara quadrada, que recobrara a coragem quando Luca saiu do mosteiro e se voluntariara para trabalhar para o jovem, seguindo-o aonde a missão o levasse. O abade teve suas dúvidas, mas Freize o convenceu de que era um péssimo cozinheiro e de que seu amor pela aventura era tão forte que serviria melhor a Deus se acompanhasse um senhor extraordinário numa busca secreta ordenada pelo próprio papa, em vez de queimar o bacon dos monges resignados. O abade, secretamente feliz em se desfazer do noviço trocado pelas fadas, considerou que a perda de um criado propenso a acidentes era um preço pequeno a pagar.

Freize montava um cavalo forte de pernas curtas e guiava um burro carregado com os pertences. Na rectaguarda da procissão, ia um anexo surpresa à parceria: um clérigo, o irmão Peter, que, em cima da hora, recebeu ordem de viajar com eles e manter um registo do trabalho. Um espião, murmurou Freize pelo canto da boca. Um espião, se é que já vi um. Pálido, de mãos macias, com olhos castanhos e crédulos. Tem a cabeça rapada de um monge, mas os trajes de um cavalheiro. Um espião, sem dúvida». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

Itália, Século XV, JDACT, Literatura, Philippa Gregory,

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

O Substituto. Philippa Gregory. «Ele vai viver, afirmou, com convicção. Mas a sua falta não seria sentida se cortássemos sua garganta na surdina. É claro que não podemos fazer isso, respondeu Isolde, trémula»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Castelo de Lucretili. Junho de 1453

«(…) Nas suas costas, os dedos de Isolde apertaram o cabo da caçarola. Quando Roberto parou para desamarrar a frente dos calções, ela teve um vislumbre nauseante da sua roupa de baixo cinza. Ele tentou agarrar-lhe o braço. Não preciso machucá-la, disse. Talvez você até goste... Girando o braço que segurava a caçarola, ela acertou um golpe na lateral da cabeça do homem. Brasas e cinzas caíram no seu rosto e no chão. Ele soltou um uivo de dor enquanto ela se desvencilhava e o golpeava outra vez com força; ele caiu como um boi gordo no matadouro. Isolde pegou num jarro, despejou água no carvão em brasa no tapete debaixo do homem e, com cautela, cutucou-o com o pé calçado com chinelo. Ele não se mexeu: estava inconsciente. Ela entrou numa saleta e destrancou a porta, chamando em voz baixa: Ishraq! Quando a menina apareceu, esfregando os olhos para se livrar do sono, Isolde lhe mostrou o homem caído no chão. Está morto?, perguntou a garota, com calma. Não, acho que não. Me ajude a tirá-lo daqui. As duas puxaram o tapete com o corpo flácido do príncipe Roberto pelo chão, deixando para trás uma trilha viscosa de água e cinzas. Levaram-no para a galeria na frente do quarto e pararam. Imagino que seu irmão tenha permitido que ele a procurasse? Isolde assentiu, e Ishraq virou a cabeça e cuspiu na cara branca do príncipe com desdém. Porque abriu a porta? Pensei que ele me ajudaria. Ele disse que tinha uma ideia para minha situação e depois entrou à força. Ele a machucou? Os olhos negros da menina percorreram o rosto da amiga. O que houve com sua testa? A porta bateu em mim quando ele a empurrou. Ele ia violá-la? Isolde assentiu. Então, ele que fique aqui, decidiu Ishraq. Pode recobrar a consciência no chão, como o cão que é, e se arrastar até ao quarto. Se ainda estiver aqui pela manhã, os criados o encontrarão e ele será motivo de chacota. Ela se abaixou e tentou sentir a pulsação dele no pescoço, nos pulsos e sob o cós volumoso dos calções. Ele vai viver, afirmou, com convicção. Mas a sua falta não seria sentida se cortássemos sua garganta na surdina. É claro que não podemos fazer isso, respondeu Isolde, trémula.

Elas o deixaram ali, deitado de costas como uma baleia encalhada e com os calções ainda desamarrados. Espere aqui. Ishraq foi ao próprio quarto e voltou depressa com uma caixinha na mão. Com delicadeza, usando apenas as pontas dos dedos e fazendo uma careta de nojo, mexeu nos calções do príncipe, deixando-os abertos. Então ergueu a camisa de linho, para que sua nudez flácida ficasse bem visível, tirou a tampa da caixa e jogou a especiaria na pele nua. O que está fazendo?, sussurrou Isolde. É pimenta seca, muito forte. Ele vai se coçar como se tivesse varíola e ficará com bolhas de assadura. Vai se arrepender muito desta noite. Vai ficar se coçando, arranhando e sangrando por um mês, e não incomodará mulher nenhuma por um bom tempo.

Isolde riu, estendeu a mão para a amiga, como o pai teria feito, e as duas mulheres juntaram os braços com as mãos nos cotovelos, como fazem os cavalheiros. Ishraq sorriu, e elas se viraram e voltaram ao quarto, fechando e trancando a porta diante do príncipe humilhado. Pela manhã, quando Isolde foi à capela, o caixão do pai estava fechado e pronto para ser sepultado na cripta da família, e o príncipe fora embora. Ele retirou a proposta pela sua mão, disse o irmão, com frieza, ao assumir seu posto, ajoelhando-se ao lado dela nos degraus da capela-mor. Imagino que tenha acontecido alguma coisa entre os dois? Ele é um patife, respondeu Isolde. E se você o mandou à minha porta, como ele alegou, então você me traiu. Ele baixou a cabeça». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

Itália, Século XV, JDACT, Literatura, Philippa Gregory,

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A Espia da Rainha. Philippa Gregory. «Temos de refazer a nossa vida. E, logo que nos instalemos, poderás deixar de usar roupas de rapaz, voltar a vestir-te como uma rapariga e casar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Inverno de 1552-1553

«(…) Lembro-me disto!, disse toda excitada ao meu pai, virando-me da amurada da barcaça enquanto subíamos o Tamisa aos bordos. Lembro-me disto, pai! Lembro-me destes jardins que desciam até ao rio, das grandes casas e do dia em que me mandaste entregar uns livros a um lorde inglês e eu o encontrei no jardim com a princesa. Embora o seu rosto estivesse fatigado da nossa longa jornada, ele encontrou forças para me dirigir um sorriso. Lembras-te, filha?, disse calmamente. Fomos muito felizes nesse Verão. Ela dizia... Calou-se. Nunca mencionávamos o nome da minha mãe, mesmo quando estávamos sozinhos. Ao princípio, tinha sido uma precaução para nos proteger daqueles que a tinham matado e impedir que viessem atrás de nós, mas, agora, procurávamos refúgio tanto do pesar quanto da Inquisição (maldita); e o pesar era um perseguidor implacável.

Vamos viver aqui?, perguntei-lhe cheia de esperança, contemplando os belos palácios e os relvados à beira rio. Após anos de viagem, ansiava por um novo lar. Em nenhum sítio tão imponente quanto este, respondeu-me docemente. Temos de começar de forma modesta, Hannah. Numa pequena loja. Temos de refazer a nossa vida. E, logo que nos instalemos, poderás deixar de usar roupas de rapaz, voltar a vestir-te como uma rapariga e casar com o jovem Daniel Carpenter. E poderemos então parar de fugir?, perguntei baixinho. O meu pai hesitou. Fugíamos há tanto tempo da Inquisição (maldita) que era quase impossível esperar que tivéssemos chegado a um porto seguro. Fugimos na mesma noite em que a minha mãe foi acusada de ser judia, uma falsa cristã, uma marrana, pelo tribunal eclesiástico e há muito que tínhamos partido quando ela foi entregue ao tribunal civil a fim de ser queimada viva na fogueira. Fugimos dela como dois Judas Iscariotes desesperados por salvar a pele, embora o meu pai me contasse mais tarde, com lágrimas nos olhos e repetidas vezes, que nunca a poderíamos ter salvo.

Se tivéssemos permanecido em Aragão, também viriam buscar-nos e, então, teríamos morrido os três. Quando lhe jurei que teria preferido morrer a viver sem ela, ele explicou-me paciente e tristemente que eu viria a aprender que a vida era o bem mais precioso de todos e que, um dia, compreenderia que a minha mãe teria de bom grado sacrificado a sua vida para salvar a minha. Atravessámos clandestinamente a fronteira portuguesa, ajudados por bandidos que levaram todo o dinheiro do meu pai e lhe deixaram apenas os seus livros e manuscritos porque, para eles, não possuíam nenhum valor. Apanhámos a seguir um barco para Bordéus debaixo de uma tempestade, fazendo a travessia no convés, expostos à chuva torrencial e às vagas, e apertando os livros mais preciosos contra o corpo como se fossem crianças que tínhamos de manter quentes e secas.

Depois, fomos por terra até Paris fingindo ser quem não éramos: um mercador e o seu jovem aprendiz, peregrinos a caminho de Chartres, comerciantes itinerantes, um senhor rural e o seu pajem a viajar por prazer, um professor e o seu pupilo que se dirigiam para a universidade de Paris; tudo menos admitir que éramos cristãos-novos, um casal suspeito com o cheiro a fumo dos autos-de-fé ainda impregnado na roupa e os terrores da noite ainda agarrados ao nosso sono. Fomos ter com os primos da minha mãe em Paris e eles enviaram-nos para Amesterdão ao cuidado de parentes que, por sua vez, nos dirigiram para Londres. Devíamos esconder a nossa raça sob o céu inglês e tornarmo-nos londrinos, cristãos protestantes. Acabaríamos por gostar. Eu tinha de aprender a gostar. Os parentes, o Povo cujo nome não pode ser pronunciado, cuja fé é oculta, o Povo condenado a vaguear banido de todos os países da Cristandade, prosperavam em segredo tanto em Londres como em Paris ou Amesterdão. Todos nós vivíamos como cristãos e observávamos as leis da Igreja, os dias santos e de jejum, e os rituais. Como a minha mãe, muitos de nós acreditávamos piamente em ambas as fés, cumpríamos o sabat às escondidas, acendíamos uma vela, preparávamos a comida e não cumpríamos a lida da casa, de modo a respeitar o dia santo através de fragmentos de orações judias meio esquecidas e, depois, no dia seguinte, íamos à missa com a consciência tranquila. A minha mãe ensinou-me a Bíblia e toda a Tora de que se lembrava como uma única lição sagrada. Preveniu-me que as relações da nossa família e a nossa religião eram secretas, um segredo profundo e perigoso. Tivemos de ser discretos e confiar em Deus, nas igrejas a que tínhamos feito generosas doações e nos nossos amigos: freiras, padres e professores que conhecíamos tão bem». In Philippa Gregory, A Espia da Rainha, 2003, 2005, Livraria Civilização Editora, 2005, ISBN 978-972-262-360-5.

Cortesia de LCivilizaçãoE/JDACT

JDACT, Philippa Gregory, Literatura, Século XVI,

A Espia da Rainha. Philippa Gregory. «Vi um cadafalso atrás de vós, respondeu a criança surpreendida e, depois, afastou-se como se tivesse acabado de dar um recado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Uns passos ligeiros fizeram-no virar-se rapidamente; largou a saia de Elizabeth e colocou-se diante dela para a encobrir. A expressão extasiada de desejo no rosto da rapariga era evidente. Receou que fosse a rainha, a sua mulher, cujo amor por ele era insultado sempre que seduzia a sua pupila mesmo debaixo do seu nariz: a rainha a quem fora confiada a guarda da enteada, a princesa; a rainha Katherine que tinha estado à cabeceira do leito de morte de Henry VIII, mas que sonhava com este homem. Mas não foi a rainha que surgiu diante dele no caminho. Era apenas uma criança com cerca de nove anos, grandes e solenes olhos escuros e uma touca branca espanhola atada debaixo do queixo. Trazia dois livros na mão e mirou-o com frio interesse objectivo, como se tivesse visto e compreendido tudo. Então, minha querida!, exclamou com jovialidade fingida. Pregaste-me um susto. Apareceste assim tão de repente que cheguei a pensar que eras uma fada. Ela franziu o sobrolho ao tom rápido e excessivamente alto das suas palavras e, a seguir, respondeu de forma pausada e com forte sotaque espanhol: perdoai-me, senhor. O meu pai mandou-me entregar estes livros a sir Thomas Seymour e disseram-me que ele se encontrava no jardim. Estendeu os livros e Tom Seymour viu-se obrigado a avançar para os tirar das mãos dela. És a filha do livreiro, disse jovialmente. O livreiro de Espanha. Ela assentiu curvando a cabeça sem perder a expressão de escrutínio grave estampada no rosto. Para onde estás a olhar, minha querida?, perguntou-lhe, consciente da presença de Elizabeth a compor apressadamente a roupa atrás dele. Estou a olhar para vós, senhor, mas vi uma coisa horrível. O quê?, perguntou ele. Temeu, por uns instantes, que ela dissesse que o tinha visto com a princesa de Inglaterra encostada a uma árvore como uma vulgar rameira de saias arregaçadas. Vi um cadafalso atrás de vós, respondeu a criança surpreendida e, depois, afastou-se como se tivesse acabado de dar um recado e não houvesse mais nada para ela fazer naquele jardim banhado pelo sol. Tom Seymour virou-se para Elizabeth que tentava pentear o cabelo desgrenhado com dedos ainda trémulos de desejo. Estendeu imediatamente os braços para ele, querendo mais. Ouviste aquilo? Os olhos de Elizabeth eram fendas escuras. Não, disse em tom dengoso. Ela disse alguma coisa?

Disse apenas que viu um cadafalso atrás de mim! Estava mais assustado do que queria revelar. Tentou soltar uma gargalhada forçada, mas esta soou como um tremor de medo. A menção de cadafalso alertou subitamente Elizabeth. Porquê?, retorquiu. Porque razão haveria de dizer uma coisa dessas? Só Deus sabe, disse ele. Bruxinha estúpida. Como é estrangeira, provavelmente confundiu a palavra. Provavelmente queria dizer trono! Provavelmente viu um trono atrás de mim! Mas o gracejo não foi mais bem sucedido do que a sua raiva pois, na imaginação de Elizabeth, o trono e o cadafalso andavam sempre a par. A cor esvaiu-se do seu rosto, deixando-a pálida de medo. Quem é ela? O nervosismo tomava-lhe a voz ríspida. Para quem é que trabalha?

Ele virou-se para procurar a criança, mas a ala estava deserta. Avistou, ao fundo, a esposa avançando lentamente em direcção a eles, as costas curvadas pelo peso do ventre grávido. Nem mais uma palavra, disse rapidamente à rapariga ao seu lado. Calai-vos quanto a isto, minha querida. Não quereis certamente inquietar a vossa madrasta. Não havia necessidade de a avisar. Ao primeiro sinal de perigo, a rapariga mostrou-se prudente, alisando o vestido, consciente de ter sempre de representar um papel para sobreviver. Tom Seymour podia contar com a cumplicidade de Elizabeth. Ela podia ter apenas catorze anos, mas, desde a morte da mãe, fora treinada para ludibriar, há doze longos anos que era aprendiz na arte do logro. E era filha de um mentiroso, dois mentirosos, pensou ele desdenhosamente. Podia sentir desejo, mas o perigo ou a ambição alertavam-na mais do que a luxúria. Tom Seymour pegou-lhe na mão fria e conduziu-a ao longo da ala ao encontro de Katherine. Tentou fazer um sorriso despreocupado. Por fim lá a apanhei!, gritou. Olhou à volta, mas não viu a criança. Corremos que nos fartámos Eu era essa criança e foi essa a primeira vez que vi a princesa Elizabeth: húmida de desejo, a arfar de lubricidade e a esfregar-se como uma gata contra o marido de outra mulher. Mas foi a primeira e a última vez que vi Tom Seymour. Um ano mais tarde, morreu no cadafalso acusado de traição e Elizabeth negou por três vezes ele ter significado mais do que um simples conhecimento». In Philippa Gregory, A Espia da Rainha, 2003, 2005, Livraria Civilização Editora, 2005, ISBN 978-972-262-360-5.

Cortesia de LCivilizaçãoE/JDACT

JDACT, Philippa Gregory, Literatura, Século XVI,

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A Espia da Rainha. Philippa Gregory. «De repente, aquilo excedeu-a e recuou, mas ele conhecia o ritmo desta dança que ela tão levianamente conjurara e que, agora, latejava nas suas próprias veias»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«No Inverno de 1553, a jovem Hannah, uma judia de 14 anos, e o pai fogem para Londres perseguidos pela Inquisição (maldita) Espanhola. Fixam-se nesta cidade e abrem uma livraria onde Hannah conhece o lord Robert Dudley, um aristocrata influente. Dudley apercebe-se de que Hannah tem o dom de ver o futuro e leva-a para a corte para ser o bobo e espiar as irmãs, rivais e pretendentes ao trono, Mary Tudor e Elizabeth. Contratada como bobo, mas a trabalhar como espia, prometida em casamento a um judeu, mas apaixonada por lord Robert Dudley, ameaçada pelas leis contra a heresia, traição e feitiçaria, Hannah tem que escolher entre a vida segura e tranquila de uma pessoa comum, ou a vida no centro das perigosas intrigas da família real». In Sinopse

Verão de 1548

Aos risos e muito excitada, a rapariga corria no jardim banhado de sol, fugindo do padrasto, mas não com rapidez suficiente para que ele não pudesse apanhá-la. A madrasta, sentada debaixo de uma latada com rosas em botão à volta, avistou a rapariga de catorze anos e o belo homem que corria atrás dela por entre os largos troncos no relvado plano e sorriu, decidida a ver apenas o que havia de melhor neles: a rapariga que educava e o homem que há anos adorava. Ele agarrou a rapariga pela bainha do vestido esvoaçante e apertou-a por um momento contra o peito. Mereço uma prenda!, disse ele, o rosto moreno perto das faces afogueadas dela. Ambos sabiam qual seria a prenda. Como mercúrio, ela esgueirou-se do seu abraço e afastou-se para o outro lado de uma fonte ornamental com um largo tanque circular. Carpas anafadas nadavam lentamente na água. Ao debruçar-se para zombar dele, o rosto corado de Elizabeth reflectiu-se na superfície. Não conseguireis apanhar-me! Claro que consigo. Ela inclinou-se de modo que ele pudesse ver os seus pequenos seios pelo decote quadrado do vestido verde. Sentiu os olhos dele pousados nela e o rubor das suas faces aumentou. Ele observou-a, divertido e excitado, enquanto o pescoço dela avermelhava.

Apanhar-vos-ei sempre que quiser, disse, pensando na caça ao sexo que termina na cama. Então tentai!, disse ela, sem saber ao certo para o que o estava a convidar, mas sabendo que queria ouvir os pés dele correr atrás dela sobre a relva, as mãos esticadas para a agarrar; e, mais do que tudo, a sensação dos seus braços à volta dela, puxando-a contra os fascinantes contornos do seu corpo, o arranhar do gibão bordado contra a sua face, a pressão da coxa contra as suas pernas. Soltou um gritinho e voltou a fugir por uma ala de teixos, onde o jardim de Chelsea se estendia até ao rio. A rainha, sorrindo, ergueu os olhos do trabalho de costura e viu a sua querida enteada correr por entre as árvores e o seu belo marido a poucos passos atrás. Voltou a baixar os olhos e não o viu apanhar Elizabeth, rodopiá-la no ar, voltar a pousá-la junto do tronco vermelho do teixo e tapar-lhe a boca meio aberta com a mão.

Os olhos de Elizabeth faiscaram negros de excitação, mas não se debateu. Quando ele se certificou de que ela não gritaria, afastou a mão e aproximou a cabeça de cabelo preto. Elizabeth sentiu os bigodes afagarem-lhe docemente os lábios e o perfume estonteante do seu cabelo e da sua pele. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás para oferecer os lábios, o pescoço e os seios à sua boca. Ao sentir os dentes afiados do homem aflorarem a sua pele, deixou de ser a menina brincalhona e tornou-se uma jovem no cio do seu primeiro desejo. Ele afrouxou aos poucos a pressão na sua cintura e a mão subiu com firmeza pelo corpete acima até ao decote do vestido por onde enfiou os dedos para lhe tocar nos seios. Os mamilos endureceram, excitados, e ela soltou um miado de prazer que o fez rir, um riso rouco saído do fundo da garganta perante a previsibilidade do desejo feminino. Elizabeth encostou-se toda contra o seu corpo, sentindo, em resposta, a coxa dele introduzir-se entre as suas pernas. Foi invadida por uma curiosidade irresistível e ansiou saber o que aconteceria a seguir. Quando ele se afastou, como para a largar, ela enlaçou-o e puxou-o novamente contra ela. Sentiu, mais do que viu, o sorriso prazenteiro de Tom Seymour diante da culpabilidade dela quando os seus lábios voltaram a encontrar-se e a língua dele lhe lambeu, com a delicadeza de um gato, o interior da boca. Dividida entre o nojo e o desejo daquela sensação extraordinária, esticou a língua ao encontro da dele e sentiu a terrível intimidade do beijo indiscreto de um homem adulto.

De repente, aquilo excedeu-a e recuou, mas ele conhecia o ritmo desta dança que ela tão levianamente conjurara e que, agora, latejava nas suas próprias veias. Apanhou-lhe a bainha da saia de brocado e arregaçou-a até poder deslizar a mão hábil, por debaixo da roupa interior, pelas suas coxas acima. Instintivamente, ela fechou as pernas e ele roçou, com calculada gentileza, as costas da mão pelo seu sexo escondido. Ao excitante contacto dos nós dos dedos, Elizabeth desfaleceu e ele sentiu-a quase dissolver-se entre os seus braços. Teria caído se ele não a tivesse firmemente enlaçada pela cintura e, naquele momento, Tom Seymour deu-se conta de que podia ter possuído a filha do rei, a princesa Elizabeth, contra uma árvore no jardim da rainha. A rapariga era virgem apenas de nome. Na verdade, pouco mais era do que uma pu…» In Philippa Gregory, A Espia da Rainha, 2003, 2005, Livraria Civilização Editora, 2005, ISBN 978-972-262-360-5.

Cortesia de LCivilizaçãoE/JDACT

JDACT, Philippa Gregory, Literatura, Século XVI,

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O Substituto. Philippa Gregory. « Não demore demais!, disse o príncipe Roberto, exibindo um sorriso íntimo. Não esperarei muito tempo. Vou dar-lhe uma resposta amanhã. Ela parou na soleira da porta e encarou o irmão»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Castelo de Lucretili. Junho de 1453
«(…) Isolde levantou-se de repente. Não acredito que o pai tenha planeado isso para mim. Ele nunca sugeriu nada parecido e foi muito claro quando disse que dividiria as terras entre nós. Ele sabia o quanto amo este lugar, como amo estas terras e conheço essas pessoas. Disse que legaria este castelo e as terras a mim, e daria a você as terras na França. Giorgio balançou a cabeça, como se lamentasse um pouco. Não, ele mudou de ideia. Como o filho mais velho e único filho homem, o único herdeiro verdadeiro, ficarei com tudo: tanto na França como aqui. E você, como mulher, deverá partir. Giorgio, meu irmão, não me pode expulsar de casa! Ele levantou as mãos espalmadas voltadas para cima, como quem diz que não pode fazer nada para ajudar. Não há nada que eu possa fazer. É o último desejo de nosso pai e o tenho por escrito, assinado por ele. Ou você se casará, e sei que ninguém vai querê-la além do príncipe Roberto, ou irá para a abadia. Foi bondade dele dar-lhe o direito de escolha, muitos pais apenas deixariam ordens. Com licença, disse Isolde, com a voz trémula, lutando para controlar a raiva. Deixarei os dois e irei para os meus aposentos meditar sobre o assunto.
Não demore demais!, disse o príncipe Roberto, exibindo um sorriso íntimo. Não esperarei muito tempo. Vou dar-lhe uma resposta amanhã. Ela parou na soleira da porta e encarou o irmão. Posso ver a carta de meu pai? Giorgio assentiu e a tirou de dentro do colete. Pode ficar com ela. É uma cópia, a original está no cofre. Não há dúvidas quanto aos seus desejos. Você não precisa pensar se obedecerá a ele, mas sim em como obedecerá. E ele sabia que obedeceria. Eu sei. Sou a filha dele. É claro que vou obedecê-lo. Ela saiu da sala sem olhar para o príncipe, embora ele se tenha levantado e feito uma mesura exagerada, depois piscado para Giorgio como se pensasse que o problema estava resolvido.
Isolde acordou durante a noite ao ouvir uma leve batida na porta. O travesseiro estava molhado sob o rosto. Ela havia chorado enquanto dormia. Por um momento, se perguntou por que sentia tanta dor, como se estivesse de coração partido, então se lembrou do caixão na capela e dos cavaleiros silenciosos na vigília. Fez o sinal da cruz. Deus o abençoe e salve sua alma, sussurrou. Deus me reconforte na tristeza. Não sei se posso suportar. A batida leve voltou, e ela levantou as cobertas com bordados opulentos e foi até a porta com a chave na mão. Quem é? É o príncipe Roberto. Preciso falar com você. Não posso abrir a porta, falarei com você amanhã. Preciso falar com você esta noite. É sobre o testamento, sobre os desejos de seu pai. Ela hesitou. Amanhã... Creio que há uma saída para você. Compreendo como se sente e acho que posso ajudar. Que saída? Não posso gritar pela porta. Abra uma fresta para que eu possa sussurrar. Só uma fresta, respondeu, e girou a chave, mantendo o pé contra a base da porta para garantir que ela se abriria apenas um pouco. Assim que ouviu a chave girar, o príncipe empurrou a porta com tamanha força que ela bateu na cabeça de Isolde e a fez cambalear pelo quarto. Ele bateu a porta ao entrar e girou a chave, trancando os dois ali. Pensou que poderia me rejeitar?, perguntou, furioso, enquanto ela tentava se levantar. Você, quase sem um tostão, pensou que poderia me rejeitar? Pensou que eu iria implorar para falar com você por uma porta fechada? Como se atreve a forçar a entrada? Isolde exigiu saber, lívida e furiosa. Meu irmão vai matá-lo... Seu irmão consentiu. O príncipe riu. Seu irmão aprova o nosso casamento, ele mesmo sugeriu que eu a procurasse. Agora vá para a cama. Meu irmão? Ela sentiu o choque se transformar em horror ao perceber que fora traída pelo próprio irmão. E agora esse estranho avançava para ela, o rosto gordo exibindo um sorriso confiante. Ele disse que tanto faz eu tê-la agora ou depois. Pode lutar se quiser. Não fará diferença para mim, gosto de uma briga. Gosto de mulheres de espírito, ficam mais obedientes depois. Você é louco, afirmou, categórica.
Como quiser. Mas eu a considero minha prometida, e consumaremos o nosso noivado agora mesmo, para que não cometa erros amanhã. Você está bêbado, exclamou ela, sentindo o cheiro acre de vinho no hálito do homem. Sim, graças a Deus. E pode se acostumar com isso também. Ele investiu contra Isolde, arrancando o casaco dos ombros gordos. Ela se retraiu até sentir a coluna alta de madeira da cama de dossel às costas, bloqueando a sua fuga. Pôs as mãos nas costas, para que ele não as agarrasse, e sentiu o veludo da coberta. Por baixo dele, estava o cabo da caçarola de bronze cheia de brasas quentes que fora colocada ali para aquecer os lençóis frios. Por favor, disse. Isso é ridículo. É uma ofensa à nossa hospitalidade. Você é nosso convidado, e o corpo de meu pai jaz na capela. Estou indefesa, e você está embriagado de nosso vinho. Por favor, vá para seu quarto e trocaremos cortesias pela manhã. Não. Ele a olhou de soslaio. Acho que não. Acho que passaremos a noite aqui, em sua cama, e tenho certeza absoluta de que conversaremos com cortesia pela manhã». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O Substituto. Philippa Gregory. «Enquanto ela se sentava, os dois homens entraram juntos. Quero lhe falar sobre o testamento de nosso pai, disse Giorgio, depois que todos estavam acomodados»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Castelo de Lucretili. Junho de 1453
«(…) Lágrimas a surpreenderam, borrando a visão dos servos que entravam, traziam mais comida para as mesas, serviam jarros de cerveja e levavam os melhores pratos e o melhor vinho tinto para a mesa principal, enquanto Giorgio e seu convidado, o príncipe, escolhiam primeiro e mandavam o resto para os homens que os serviram tão bem durante o dia. O príncipe e seu irmão comeram bem e pediram mais vinho. Isolde beliscava a comida e encarava a mesa das mulheres, onde o olhar de Ishraq encontrava o seu em muda solidariedade. Quando terminaram, e as frutas cristalizadas e o marzipã já haviam sido servidos na mesa principal e levados embora, Giorgio tocou na sua mão. Não vá para seus aposentos ainda. Quero falar convosco. Isolde acenou com a cabeça para dispensar Ishraq e as damas do jantar e mandá-las de volta aos aposentos das mulheres. Então entrou pela pequena porta atrás do tablado, para a sala privativa onde a família Lucretili ficava depois do jantar. Um fogo ardia contra a parede, e havia três poltronas voltadas para perto dele. Um jarro de vinho fora preparado para os homens, e um copo de cerveja, para Isolde.
Enquanto ela se sentava, os dois homens entraram juntos. Quero lhe falar sobre o testamento de nosso pai, disse Giorgio, depois que todos estavam acomodados. Isolde olhou o príncipe Roberto. Roberto tem relação com isto, explicou Giorgio. Quando o pai estava moribundo, disse que a sua maior esperança era saber que você estaria segura e feliz. Ele a amava muito. Isolde apertou os lábios frios com os dedos e piscou para conter as lágrimas. Eu sei, disse o irmão, com gentileza. Sei que está de luto. Mas precisa entender que o pai fez planos para e me deu o dever sagrado de colocá-los em prática. Porque ele mesmo não me disse?, perguntou ela. Porque não falou comigo? Sempre conversámos sobre tudo. Sei o que planeava para mim: ele disse que se decidisse não me casar, moraria aqui, herdaria este castelo e você teria o castelo e as terras na França. Nós concordámos com isto. Todos os três concordámos.
Concordámos quando ele estava bem, respondeu Giorgio, paciente. Mas quando ficou doente e temeroso, mudou de ideia. E não suportava que o visse tão enfermo e com tanta dor. Quando pensou em você naquela hora, com a boca da morte escancarando-se diante dele, reflectiu melhor sobre o plano inicial. Queria ter certeza de que ficaria em segurança. E planeou bem, sugeriu que se casasse com o príncipe Roberto. Concordámos que deveríamos retirar mil coroas do tesouro como dote.
Era um pagamento ínfimo para uma mulher que fora criada para se considerar herdeira daquele castelo, dos pastos férteis, dos bosques densos e das altas montanhas. Isolde ficou boquiaberta. Porque tão pouco? Porque o príncipe nos honrou ao insinuar que a aceitaria exactamente como é, sem nada além de mil coroas na bolsa. E poderá guardar tudo, garantiu-lhe o homem, apertando a mão que Isolde pousara no braço da cadeira. Terá o dinheiro para gastar no que quiser. Coisas lindas para uma linda princesa. Isolde fitou o irmão, apertando os olhos azul-escuros enquanto compreendia o significado daquilo tudo. Com um dote pequeno assim, ninguém mais fará propostas pela minha mão, concluiu. Você sabe disso e, mesmo assim, não pediu mais? Não avisou o pai que isto me deixaria sem nenhuma perspectiva? E o pai? Ele queria-me obrigar a casar com o príncipe? O príncipe pôs a mão no peito carnudo e baixou os olhos humildemente. A maioria das damas não precisaria ser obrigada, observou. Não sei que marido poderia ser melhor para você, respondeu Giorgio, com calma. O outro homem sorriu e assentiu para ela. E o pai também pensava desta forma. Combinamos este dote com o príncipe Roberto, e ele ficou tão satisfeito por se casar contigo que não pediu que levasse uma fortuna maior que esta. Não precisa acusar ninguém de não defender os seus interesses. O que poderia ser melhor para você que um casamento com um amigo da família, um príncipe e um homem rico? Foi preciso apenas um segundo para se decidir. Não consigo pensar em casamento, disse Isolde, categoricamente.
Perdoe-me, príncipe Roberto. Mas a morte de meu pai é muito recente. Não consigo nem mesmo pensar nisso, quanto mais falar no assunto. Precisamos falar no assunto, insistiu Giorgio. Segundo os termos do testamento de nosso pai, devemos ajeitar sua vida. Ele não permitiria nenhuma demora. Ou casa-se imediatamente com o meu amigo aqui ou... Ele hesitou. Ou o quê?, perguntou Isolde, subitamente temerosa. A abadia, respondeu ele, com simplicidade. O pai disse que, caso não se casasse, eu deveria nomeá-la abadessa e você viveria lá. Nunca!, exclamou Isolde. Meu pai jamais faria isso comigo! Giorgio assentiu. Também fiquei surpreso, mas ele disse que era o futuro que planeara para você o tempo todo. Que foi por isso que não preencheu o posto quando a última abadessa faleceu. Na época, já pensava, um ano atrás, que você precisaria ficar em segurança. Não pode ser exposta aos perigos do mundo, deixada sozinha aqui em Lucretili. Se não quiser casar-se, deverá ficar na segurança da abadia. O príncipe Roberto sorriu para ela, com malícia. Uma freira ou uma princesa, sugeriu. Imagino que seja uma decisão fácil de tomar». In Philippe Gregory, O Substituto, 2012, Editora Galera Record, Colecção Ordem da Escuridão, 2015, ISBN 978-850-140-319-3.

Cortesia de EGRecord/JDACT

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Rainha Branca. Philippa Gregory. «Então não creio que vá querer se demorar, diz ele de maneira desagradável, e segue seu caminho. O solo estremece quando passam…»

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Primavera 1464
«(…) Levante-se, diz ele. Seu tom é baixo, para que só eu o escute. Veio até aqui para me ver? Preciso de sua ajuda, replico. Mal consigo articular as palavras. É como se a poção do amor com que minha mãe embebeu o lenço que ondulava de meu toucado estivesse entorpecendo a mim, não a ele. Não consigo reaver as terras de meu dote agora que enviuvei. Atrapalho-me diante de seu sorriso interessado. Sou uma viúva agora. Não tenho do que viver. Viúva? Meu marido era sir John Grey. Ele morreu em St. Albans, digo. É o mesmo que confessar sua traição e a danação de meus filhos. O rei reconhecerá o nome do comandante da cavalaria do seu inimigo. Mordo o lábio. O pai deles cumpriu o seu dever como o concebia, Vossa Graça. Foi leal ao homem que achava ser rei. Meus filhos são inocentes de tudo. Ele lhe deixou estes dois filhos? O rei sorri para os meus meninos. A melhor parte da minha fortuna, replico. Este é Richard, e este é Thomas Grey.
Ele acena com a cabeça para os meninos, que o olham fixamente, como se ele fosse uma espécie de cavalo de raça: grande demais para afagarem, mas digno de admiração e reverência. Então ele se volta para mim. Estou com sede, diz ele. Sua casa é perto daqui? Nós nos sentiríamos honrados... Olho de relance para a guarda que o acompanha. Devem ser mais de cem homens. Ele dá um risinho. Eles podem prosseguir, decide. Hastings! O homem mais velho vira-se e espera. Siga para Grafton. Eu os alcanço. Smollet pode ficar comigo, e Forbes também. Chegarei em mais ou menos uma hora. Sir William Hastings me olha de cima a baixo, como se eu fosse um bonito pedaço de fita à venda. Dou-lhe, em resposta, um olhar duro, e ele tira o chapéu e faz uma mesura para mim, saúda o rei e ordena que a guarda siga adiante. Aonde está indo, senhor?, pergunta ele ao rei. O rei-menino olha para mim. Estamos indo para a casa do meu pai, o senhor de Rivers, sir Richard Woodville, respondo com orgulho, embora eu saiba que o rei reconhecerá o nome de um homem que gozava de grande prestígio na corte Lancaster, que combateu por eles e ao qual certa vez dirigiu palavras duras quando as famílias York e Lancaster já estavam com as armas em punho. Sabemos o suficiente um do outro, mas é uma cortesia comum esquecer que fomos leais a Henrique VI, até esses o tornarem traidor. Sir William ergue o sobrolho ao ouvir o lugar que o rei escolheu para parar. Então não creio que vá querer se demorar, diz ele de maneira desagradável, e segue seu caminho. O solo estremece quando passam, e permanecemos num silêncio confortável enquanto a poeira se assenta.
Meu pai foi perdoado e teve o seu título restaurado, explico, defensivamente. Vossa Graça mesmo o perdoou, depois de Towton. Lembro-me de seu pai e de sua mãe, replica o rei, equânime. Eu os conheço desde que era menino, estive com eles em bons e maus tempos. Só estou surpreso por nunca me terem apresentado à senhora. Tenho de reprimir o riso. Esse é um rei famoso pela sedução. Ninguém com algum juízo deixaria sua filha conhecê-lo. Gostaria de me acompanhar?, pergunto. É uma curta caminhada até à casa de meu pai. Querem uma boleia, meninos?, indaga ele. Os dois levantam a cabeça como patinhos, implorando. Podem montar, os dois, diz. Ele ergue Richard e o coloca sobre o cavalo, depois faz o mesmo com Thomas, na sela. Agora segurem firme. Você no seu irmão, e você... Thomas, não é? Você segura na maçaneta. Enrola as rédeas num braço e me oferece o outro, e assim caminhamos em direcção à minha casa, pela floresta, à sombra das árvores. Sinto o calor de seu braço através do tecido da manga da sua camisa. Tenho de me controlar para não me inclinar sobre ele. Olho para frente, para a casa, para a janela de minha mãe, e percebo, pelo ligeiro movimento por trás da vidraça, que ela esteve observando e torcendo para que isso acontecesse.
Ela está na porta da frente quando nos aproximamos, o cavalariço da casa ao seu lado.
Faz uma reverência profunda. Vossa Graça, diz ela cortesmente, como se o rei a visitasse todos os dias. É muito bem-vindo a Grafton Manor. O cavalariço vem correndo e pega nas rédeas do cavalo para conduzi-lo ao estábulo. Meus filhos seguram firme na sela ao longo dos últimos metros restantes, enquanto minha mãe recua e faz uma reverência ao rei no hall. Aceita um copo de cerveja?, pergunta ela. Ou temos um vinho muito bom produzido por meus primos na Borgonha. Vou aceitar a cerveja, obrigado, replica ele gentilmente. Cavalgar me dá sede. Está quente para Primavera. Bom dia para a senhora, lady Rivers. A mesa alta no salão está posta com os melhores copos e uma jarra de cerveja, assim como vinho». In Philippa Gregory, Rainha Branca, 2009, Civilização Editora, Porto, 2010, ISBN 978-972-263-012-2.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

sábado, 27 de junho de 2020

Rainha Branca. Philippa Gregory. «Thomas vê a cabeça loura descoberta no meio de toda a fúria e barulho, e grita: hurra!, como o menino que ele é. Ao ouvir sua voz aguda…»

jdact

Primavera 1464
«(…) Meus filhos Thomas, de 9 anos, e Richard, de 8, estão usando as suas melhores roupas; seus cabelos foram humedecidos e assentados, os rostos reluzentes após serem lavados com sabão. Com cada um de um lado, seguro firme as suas mãos, pois são meninos de verdade, e por isso atraem sujeira para si como que por magia. Se eu os soltasse por um segundo, um arranhará os sapatos e o outro rasgará a meia, os dois ficarão com folhas no cabelo e lama no rosto, e Thomas certamente cairá no riacho. Assim como estão, seguros pelo meu punho, pulam de uma perna para a outra num tédio agonizante, e ficam erectos só quando digo: silêncio, ouço cavalos.
Primeiro, soa como chuva e, então, num instante ressoa como um trovão. O tinido dos arreios e o tremular dos estandartes, o tilintar da cota de malha e o bufar dos cavalos, o som, o cheiro e o estrondo de uma centena de cavalos conduzidos com firmeza são esmagadores e, embora eu esteja determinada a avançar e detê-los, acabo recuando. Como deve ser enfrentar esses homens cavalgando para combater, com suas lanças estendidas, como um muro de estacas galopantes? Como alguém pode enfrentar isso? Thomas vê a cabeça loura descoberta no meio de toda a fúria e barulho, e grita: hurra!, como o menino que ele é. Ao ouvir sua voz aguda, vejo a cabeça do homem virar, ver a mim e os meninos, sua mão puxar as rédeas e ele gritar: parem! Seu cavalo empina, forçado a se deter, e todos os outros cavaleiros giram, param e praguejam com a parada súbita. E então, abruptamente, tudo silencia e uma nuvem de poeira eleva-se ao nosso redor.
Seu cavalo bufa, balança a cabeça, mas o cavaleiro no seu dorso é como uma estátua num pedestal. Ele está olhando para mim e eu para ele, e o silêncio é tal que é possível ouvir um tordo nos galhos do carvalho que se estendem acima de mim. Como canta! Meu Deus canta como um murmúrio glorioso, como alegria transformada em som. Nunca ouvi um pássaro cantar dessa maneira, como se fosse um hino à felicidade.

Dou um passo à frente, sem largar as mãos dos meus filhos, e abro a boca para expor a minha causa, mas nesse momento, nesse instante crucial, não sei o que dizer. Pratiquei intensamente. Tinha um pequeno discurso preparado, mas agora não me lembro de nada. É quase como se eu não precisasse de palavras. Simplesmente olho para ele e, não sei como, espero que ele compreenda tudo, o meu medo do futuro, minhas esperanças por meus meninos, minha falta de dinheiro, a piedade irritante de meu pai, que a vida sob o mesmo tecto que ele é algo insuportável para mim, a frieza da minha cama à noite, meu anseio por outro filho, a sensação de que a minha vida acabou. Meu Deus, só tenho 27 anos, minha causa foi derrotada, meu marido está morto. Serei uma das muitas viúvas pobres que passarão o resto de suas vidas ao pé da lareira de outra pessoa, esforçando-se para ser uma hóspede agradável? Nunca mais serei beijada? Nunca sentirei alegria? Nunca mais? O pássaro continua a cantar, como se quisesse dizer que o deleite é fácil para aqueles que o desejam.
Ele faz um gesto com a mão para o homem mais velho ao seu lado, o qual grita uma ordem; os soldados tiram os cavalos da estrada e vão para a sombra das árvores. Mas o rei salta do seu grande cavalo, solta as rédeas e caminha na minha direcção. Sou uma mulher alta, mas minha cabeça bate no ombro dele, deve ter mais de l,80m. Meus filhos esticam o pescoço para olhá-lo, ele lhes parece um gigante. Tem o cabelo louro, os olhos cinza, um rosto bronzeado, franco e sorridente, encantador, com uma graça natural. Esse é um rei como nunca vimos na Inglaterra: é um homem que o povo amará só de olhar para ele. Ele me fita como se eu soubesse de um segredo que precisasse ser guardado, como se nos conhecêssemos desde sempre, e sinto minha face queimar, mas não consigo desviar os olhos do seu rosto.
Uma mulher modesta baixaria os olhos, os manteria fixos nos sapatos; uma suplicante faria uma reverência profunda e estenderia uma de suas mãos suplicantes. Mas eu permaneço erecta, espantada comigo mesma, analisando-o como uma camponesa ignorante, e percebo que não consigo tirar meus olhos dos dele, da sua boca sorridente, do seu olhar que queima o meu rosto. Quem é essa?, pergunta ele, ainda me observando. Vossa Graça, esta é minha mãe, lady Elizabeth Grey, responde meu filho Thomas de forma cortês, tirando o chapéu e apoiando um dos joelhos no chão. Richard, do outro lado, também se ajoelha e murmura, como se não pudesse ser ouvido: este é o rei? De verdade? É o homem mais alto que já vi na minha vida! Faço uma reverência profunda, mas ainda não consigo desviar o olhar. Pelo contrário, encaro-o, como uma mulher que dirige um olhar excitado ao homem que ela adora». In Philippa Gregory, Rainha Branca, 2009, Civilização Editora, Porto, 2010, ISBN 978-972-263-012-2.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Duas Irmãs. Um Rei. Philippa Gregory. «Nem sequer ela me pode tirar a minha posição. Ana e o meu pai foram atrasados pelas tempestades de Primavera e eu dei por mim, infantilmente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Duas Irmãs. Um Rei
Primavera de 1521
(…) Os homens que se encontravam na margem do rio retiraram os chapéus e ajoelharam-se, à medida que a barcaça real passava velozmente, com uma agitação de galhardetes e um vislumbre de ricos tecidos. Eu ia na segunda barcaça, com as damas da corte, a da rainha. A minha mãe estava sentada ao meu lado. Num raro momento de interesse, lançou-me uma olhadela e observou: estais muito pálida, Maria, sentis-vos mal? Não pensei que ele fosse ser executado, respondi. Pensei que o rei iria perdoar-lhe. A minha mãe inclinou-se para a frente, para que a sua boca ficasse encostada à minha orelha e ninguém pudesse ouvir-nos, entre o chiar do barco e o rufar do tambor dos remadores. Então, sois uma tonta, disse brevemente. E uma tonta por tecerdes esse comentário. Observai e aprendei, Maria. Na corte, não há espaço para erros.

Primavera de 1522
Amanhã vou para França e trarei a vossa irmã, Ana, para casa, comigo, disse-me o meu pai nas escadas do Palácio de Westminster.Ela vai ter um lugar na corte, ao lado da Rainha Maria Tudor, quando voltar a Inglaterra. Pensei que ela iria ficar em França, disse. Pensei que iria casar com um conde francês ou alguém semelhante. Ele abanou a cabeça. Temos outros planos para ela. Sabia que era inútil perguntar quais eram os outros planos. Teria de esperar para ver. O meu maior receio era que tivessem um casamento melhor para ela do que o que eu fizera, que eu tivesse de andar atrás dela, enquanto caminhava majestosamente à minha frente, pelo resto da minha vida. Retirai esse ar carrancudo do vosso rosto, disse o meu pai asperamente. De imediato, esbocei o meu sorriso de cortesã. Claro, pai, respondi obedientemente. Ele assentiu e eu baixei-me numa vénia, quando me deixou. Levantei-me e dirigi-me devagar ao quarto de dormir do meu marido. Tinha um pequeno espelho na parede, coloquei-me diante dele e observei o meu reflexo. Vai correr tudo bem, murmurei para mim mesma. Sou uma Bolena, não é algo insignificante, e a minha mãe é uma Howard de nascença, que será uma das famílias mais importantes do país. Sou uma Howard, uma Bolena, mordo o lábio. Mas ela também. Esboço o meu sorriso vazio de cortesã e o belo rosto reflectido devolve-mo. Sou a Bolena mais jovem, mas não a menos importante. Sou casada com William Carey, um homem que ocupa uma posição elevada no favor do rei. Sou a favorita da rainha e a dama de companhia mais nova.
Ninguém pode alterar esta condição. Nem sequer ela me pode tirar a minha posição. Ana e o meu pai foram atrasados pelas tempestades de Primavera e eu dei por mim, infantilmente, a desejar que o barco dela se afundasse e que ela se afogasse. Perante a ideia da morte dela, fui acometida por uma confusa pontada de aflição genuína misturada com júbilo. Quase não poderia haver um mundo para mim sem a Ana, mas o mundo mal chegava para as duas. De qualquer modo, ela chegou em segurança. Vi o meu pai entrar com ela, vindo do cais de desembarque real, pelos caminhos cobertos de gravilha acima, até ao palácio. Mesmo da janela do primeiro andar, olhando para baixo, conseguia ver o balançar do vestido dela, o corte com estilo da sua capa, e fui assolada por um momento de pura inveja quando vi o modo como esta se enrolava em volta dela. Esperei até que estivesse fora do meu campo de visão e depois corri para a minha cadeira, na antecâmara da rainha. Planeei que a primeira vez que ela me visse fosse, muito à-vontade, nas salas repletas de ricas tapeçarias da rainha, e que deveria erguer-me e cumprimentá-la, de uma forma muito adulta e graciosa. Mas quando as portas se abriram e ela entrou, fui dominada por uma onda de alegria súbita, ouvi-me gritar: Ana!, e corri para ela, com a saia a silvar. E a Ana, que entrara de cabeça bem erguida, e o seu arrogante olhar escuro disparando em todas as direcções, deixou, de repente, de ser uma grande dama de quinze anos e abriu os braços para mim. Estais mais alta, disse sem fôlego, com os braços apertados em volta de mim, a bochecha encostada à minha. Trago uns saltos tão altos, senti o odor familiar do seu aroma. Sabonete e essência de água de rosas na sua pele morna, lavanda das suas roupas. Estais bem? Sim. E vós?
Bien sûr! Como é? O casamento? Não é mau. Podemos ter roupas bonitas. E ele? É muito importante. Está sempre com o rei, tem o favor dele. Já fizestes? Sim, há séculos. Doeu? Muito. Ela recuou para analisar a minha expressão. Não muito, disse eu, qualificando. Ele esforça-se por ser gentil. Dá-me sempre vinho. Para dizer a verdade, é tudo bastante desagradável. O seu semblante carregado desvaneceu-se e ela soltou uma gargalhada. Os seus olhos dançavam. Em que é que é desagradável? Ele urina no penico, mesmo à minha frente. Ela desmanchou-se num gemido de risos. Não! Vá lá, meninas, disse o meu pai, surgindo atrás de Ana. Maria, levai Ana e apresentai-a à rainha.
De imediato, voltei-me e conduzia por entre as damas de companhia até onde a rainha estava sentada, erecta na sua cadeira, ao pé da lareira. Ela é exigente, avisei Ana. Não é como em França. Catarina de Aragão analisou Ana com os seus olhos azul-claros e eu senti uma pontada de receio de que ela preferisse a minha irmã a mim». In Philippa Gregory, Duas Irmãs, Um Rei, 2007-2008, Civilização Editora, 2012, ISBN 978-972-262546-3.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

quarta-feira, 17 de junho de 2020

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «A vossa mãe teria tanto orgulho em vós, afirmou dona Elvira, quando conduziam a Infanta para o quarto de vestir e começavam a vesti-la»

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Londres, 14 de Novembro de 1501
«(…) Na manhã do dia do seu casamento, Catarina foi chamada cedo; mas estava acordada há horas, revolvendo-se na cama, mal o sol frio e invernal começara a iluminar o céu pálido. Tinham-lhe preparado uma banheira enorme, as suas aias tinham-lhe contado que os ingleses estavam admirados por ela tomar banho antes do dia do casamento e que a maior parte deles pensava que ela estava a colocar a vida em risco. Catarina, educada no Alhambra, onde os banhos eram o mais bonito conjunto de salas do palácio, centro de coscuvilhice; risos e águas perfumadas, também ficou espantada por saber que os ingleses consideravam perfeitamente adequado só tomar banho ocasionalmente, e por os pobres só tomarem banho uma vez por ano. Já se apercebera de que o cheiro a almíscar e a âmbar-cinzento que acompanhara o rei e o príncipe Artur possuía traços de suor e de cheiro a cavalo, e de que viveria o resto da vida entre pessoas que não trocavam de roupa interior durante um ano. Encarara-o como mais um aspecto que teria de suportar, como um anjo do céu suporta as privações terrenas. Ela viera de al-Yanna, o jardim, o paraíso, para o mundo normal. Viera do Palácio de Alhambra para a Inglaterra, previra algumas mudanças desagradáveis.
Presumo que esteja sempre tanto frio que não faça diferença, comentou pensativamente para dona Elvira. Faz-nos diferença a nós, respondeu a ama. E vós deveis banhar-vos como uma infanta da Espanha, apesar de todos os cozinheiros do palácio terem tido de interromper o que estavam a fazer para aquecer água. Dona Elvira pedira que trouxessem da cozinha, onde se preparava a carne um enorme pote que era normalmente utilizado para escaldar as carcaças dos animais, mandou três criados da cozinha esfregá-lo, revestiu-o com lençóis de linho e encheu-o até cima de água quente, com pétalas de rosa, e perfumou-a com óleo de rosas que trouxera da Espanha. Supervisionou com carinho a lavagem dos membros longos e pálidos de Catarina, a pedicura dos pés, a manicura das mãos, a escovagem dos dentes e por fim a lavagem, com três passagens por água, dos cabelos. Uma e outra vez, as incrédulas criadas inglesas corriam para a porta, para receberem mais um jarro de água quente das mãos de pajens exaustos, e deitavam-no na banheira, para manter a água do banho quente.
Se pelo menos tivéssemos uma casa de banho como deve ser, lamentou-se dona Elvira. Com vapor, um tepidário e um chão de mármore limpo! Água quente na torneira e um lugar para vos sentardes e serdes devidamente esfregada. Não vos preocupeis, disse Catarina com ar sonhador enquanto a ajudavam a sair do banho e lhe limpavam todo o corpo com toalhas perfumadas. Uma criada pegou-lhe no cabelo, espremeu a água e esfregou-o cuidadosamente com seda vermelha ensopada em óleo para lhe dar brilho e cor.
A vossa mãe teria tanto orgulho em vós, afirmou dona Elvira, quando conduziam a Infanta para o quarto de vestir e começavam a vesti-la, com camadas e camadas de combinações e vestidos, aperta mais aquela renda, rapariga, para que a saia fique direita. É o dia dela, assim como o vosso, Catarina. Ela disse que casaríeis com ele, custasse o que lhe custasse.

Sim mas não pagou o maior preço. Eu sei que me pagaram este casamento com um resgate ao rei por meu dote e sei que suportaram longas e difíceis negociações, e eu sobrevivi à pior viagem que alguém alguma vez empreendeu, mas houve outro preço pago que nunca mencionamos, não houve? E a ideia desse preço está hoje na minha mente, como esteve desde durante a viagem, como esteve desde que ouvi falar nele. Havia um homem de vinte e quatro anos, Eduardo Plantageneta, duque de Warwick e filho dos reis da Inglaterra, com, verdade seja dita, mais direitos ao trono da Inglaterra do que o meu sogro. Era príncipe, sobrinho do rei, e de sangue real. Não cometeu nenhum crime, não fez nada de errado, mas foi preso por minha causa, foi levado para a Torre para meu benefício, e finalmente morto, decapitado no cepo, em meu proveito, para que os meus pais pudessem ter a certeza de que não existiam pretendentes ao trono que haviam comprado para mim». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.

Cortesia CivilizaçãoE/JDACT

domingo, 19 de abril de 2020

A Irmã de Ana Bolena. Philippa Gregory. «Aquele homem, de pé, no cadafalso, sob a luz do Sol do início da manhã, fora o parceiro do rei em partidas de ténis, seu rival em justas, seu amigo em centenas de sessões de bebida e jogos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Duas Irmãs, um Rei
Primavera de 1521
«Conseguia ouvir o rufar abafado de tambores. Mas não via mais nada, para além dos atilhos do corpete da dama que tinha diante de mim, que tapava a minha visão do cadafalso. Estava nesta corte há mais de um ano e presenciara centenas de festividades, mas nunca uma como esta. Dando um passo ligeiramente para o lado e inclinando o pescoço, consegui ver o condenado, acompanhado pelo padre, caminhando devagar, da Torre para a zona relvada onde a plataforma de madeira o aguardava, o bloco de madeira posicionado ao centro, o executor vestido e preparado para a tarefa, em mangas de camisa e com um capuz a cobrir-lhe a cabeça. Parecia mais uma mascarada do que um acontecimento real, e eu assisti como se fosse um entretenimento da corte. O rei, sentado no trono, parecia distraído, como se estivesse a rever mentalmente o seu discurso de indulto. Atrás dele, estava aquele que é meu marido há um ano, William Carey, o meu irmão, Jorge, e o meu pai, sir Tomás Bolena, todos com ar grave. Eu encolhi os dedos dos pés no interior dos meus chinelos de seda e desejei que o rei se apressasse a conceder a clemência, para que pudéssemos ir todos tomar o pequeno-almoço. Tinha apenas treze anos, estava sempre com fome.
O duque de Buckinghamshire, ao longe, no cadafalso, despiu o seu casaco grosso. Era um parente suficientemente próximo para que eu pudesse chamar-lhe tio. Estivera presente no meu casamento e oferecera-me um bracelete dourado. O meu pai dissera-me que ele tinha ofendido o rei de inúmeras formas: corria-lhe sangue real nas veias e mantinha uma comitiva de homens armados em número demasiado elevado para tranquilidade de um rei que ainda não se sentia totalmente seguro no seu trono; e o pior era que se supunha que teria afirmado que, neste momento, o rei não tinha nenhum filho e herdeiro, não conseguia gerar nenhum filho e herdeiro, e que o mais provável seria que morresse sem um filho que lhe sucedesse no trono. Um pensamento destes não deve ser proferido em voz alta. O rei, a corte, o país inteiro sabiam que a rainha devia gerar um rapaz, e que esse rapaz devia nascer dentro de pouco tempo. Sugerir o contrário era dar o primeiro passo no caminho que conduzia aos degraus de madeira do cadafalso que o duque, meu tio, agora subia, firmemente e sem medo. Um bom cortesão nunca profere verdades incómodas. A vida de uma corte deve ser sempre alegre.
O tio Stafford aproximou-se da frente do palco para pronunciar as suas últimas palavras. Eu estava demasiado longe dele para ouvir, e, de qualquer forma, estava a observar o rei, que aguardava a sua deixa para dar um passo em frente e conceder o indulto real. Aquele homem, de pé, no cadafalso, sob a luz do Sol do início da manhã, fora o parceiro do rei em partidas de ténis, seu rival em justas, seu amigo em centenas de sessões de bebida e jogos, tinham sido companheiros desde a infância do rei. O rei estava a dar-lhe uma lição, uma lição vigorosa e pública, e depois iria perdoar-lhe e todos poderíamos ir tomar o pequeno-almoço. A figura distante voltou-se para o confessor. Inclinou a cabeça para receber a bênção e beijou o rosário. Ajoelhou-se diante do cepo e agarrou-o com as duas mãos. Perguntei-me como seria, encostar a face à madeira suave e encerada, sentir o odor do vento morno vindo do rio, ouvir, lá no alto, o grito das gaivotas. Mesmo sabendo, como ele sabia, que se tratava de uma mascarada e não de um acontecimento real, deveria ser estranho para o Tio pousar a cabeça e saber que o executor estava de pé atrás dele.
O carrasco ergueu o machado. Olhei para o rei. Estava a tardar muito na sua intervenção. Voltei a olhar para o palco. O meu tio, com a cabeça vergada, sacudiu os braços abertos, em sinal de consentimento, o sinal de que o machado podia ser descido. Olhei de novo para o rei, ele deveria levantar-se nesse momento. Mas permanecia sentado, com o seu belo rosto implacável. E enquanto ainda estava a olhar para ele, ouviu-se outro rufar dos tambores, subitamente silenciado, e depois o baque do machado, primeiro uma vez, depois outra, e uma terceira vez: um som tão doméstico como o de partir lenha. Incrédula, vi a cabeça do meu tio ressaltar na palha e um jorro escarlate de sangue emanar do pescoço estranhamente decepado. O homem do machado, que tinha um capuz negro, colocou de parte o enorme machado com manchas de sangue e pegou na cabeça pelo cabelo espesso e encaracolado, para que todos pudéssemos ver aquela estranha coisa, semelhante a uma máscara: negra, com a venda, que ia da testa ao nariz, e os dentes expostos num derradeiro sorriso desafiador.
O rei ergueu-se devagar da sua cadeira e eu pensei, como uma criança: meu Deus, como isto vai ser terrivelmente embaraçoso. Deixou para demasiado tarde. Correu tudo mal. Esqueceu-se de falar a tempo. Mas eu estava errada. Ele não deixara para demasiado tarde, não se esquecera. Queria que o meu tio morresse diante de toda a corte, para que todos pudessem saber que só havia um rei, e que era Henrique. Só podia existir um rei, e esse rei era Henrique. E iria nascer um filho a este rei, a mera sugestão do contrário implicaria uma morte vergonhosa. A corte regressou em silêncio ao Palácio de Westminster em três barcaças, levadas a remos pelo rio acima». In Philippa Gregory, A Irmã de Ana Bolena, Duas Irmãs, um Rei, 2001, Civilização Editora, 2007/2008-2012, ISBN 978-972-262-546-3.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT