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segunda-feira, 12 de julho de 2021

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Onde tu foste muito tonta, Yvette, repreendeu-a Lucille, a pobre Lucille, que estava muito perturbada, foi em teres-te deixado comprometer ante todos eles. Devias saber que descobririam. Podia ter-te arranjado o dinheiro e poupar-te a todo este aborrecimento. É perfeitamente horrível! Mas tu nunca pensas com antecedência qual virá a ser o resultado das tuas acções! Imagina, a tia Cissie a dizer-te todas aquelas coisas! Que horror! Que diria a mãe, se tivesse ouvido? Quando as coisas corriam muito mal, pensavam na mãe e desprezavam o pai e toda a má raça dos Saywells. A mãe delas, claro, pertencera a um mundo mais elevado, apesar de talvez mais perigoso e mais imoral. Decididamente, mais egoísta, mas com gestos de maior ostentação. Mais sem escrúpulos e mais facilmente levado à desonra, mas menos humilhante. Yvette sempre considerara que recebera a sua fina e delicada carnação da mãe. Os Saywells eram todos um pouco coriáceos e imundos, algures dentro deles. Mas, por outro lado, os Saywells nunca deixavam ninguém ficar mal, enquanto A-que-fora-Cynthia abandonara o pároco com um grande estoiro e deixara as suas criancinhas com ele. As suas criancinhas! Isso era uma coisa que não lhe perdoavam!

De uma maneira indistinta, depois da discussão, Yvette começou a compreender qual era a sua outra santidade, a santidade da sua carne e do seu sangue limpos, que os Saywells, com a sua denominada moralidade, haviam conseguido corromper. Tinham sempre querido corromper, pois não possuíam crença, eram os descrentes da vida. Enquanto, talvez, A-que-fora-Cynthia não passara de uma descrente moral. Yvette andou por ali entorpecida, adoentada, confusa. O pároco pagou o dinheiro à tia Cissie, com grande raiva dessa senhora. O descontrolado tumor da sua raiva ainda estava agitado. O que ela teria gostado de fazer era anunciar a delinquência da sobrinha no boletim da paróquia. Era uma angústia, para aquela mulher destruída, o facto de não poder publicar essa notícia, para conhecimento de todo o mundo. O egoísmo! O egoísmo! O egoísmo!

A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade. Porém, lançou a crédito dela um guinéu, que era a taxa que ele tinha de pagar por cumplicidade. Como pai da culpada, disse ele, com humor, sou multado num guinéu. Com isso, considero-me ilibado de responsabilidades. No que respeitava a dinheiro, era sempre generoso. Parecia que, de algum modo, ele pensava que, sendo liberal com o dinheiro, poderia chamar-se a si próprio um homem generoso. Mas era o contrário, ele usava o dinheiro e até a generosidade como um domínio sobre ela. Mas o pai deixou esquecer aquele assunto. Nesta altura já estava mais divertido do que qualquer outra pessoa, a julgar pelas aparências. Pensava, ainda, que agora estava a salvo.

A tia Cissie, contudo, não conseguia libertar-se da sua agitação. Uma noite, quando Yvette se sentira miserável e fora muito cedo para a cama, quando Lucille estava fora, numa festa, e quando ela jazia, sem forças nas pernas, que lhe doíam com uma espécie de insensibilidade e aviltamento, a porta abriu-se suavemente e apareceu a tia Cissie, a sua face esverdeada e acinzentada a espreitar pela abertura. Yvette deu um salto, aterrorizada. Mentirosa! Ladra! Patife! Egoísta!, silvou a maníaca face da tia Cissie. Pequena hipócrita! Mentirosa! Egoísta! Estupor ambicioso! Havia um ódio tão extraordinário e tão impessoal naquela máscara cinzento-esverdeada e naquelas palavras frenéticas, que Yvette abriu a boca para gritar de histeria. Mas a tia Cissie fechou a porta tão subitamente como a abrira e desapareceu». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

 JDACT, DH Lawrence, Literatura, Conto, 

domingo, 22 de dezembro de 2019

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Pobre Yvette! Os seus ares e maneiras senhoris estavam agora a eclipsar-se. O pároco estava zangado: o seu rosto tinha um ar canino, de quem rosna, uma contracção de desprezo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Houve uma terrível discussão na casa paroquial, por causa de Yvette e do Fundo do Vitral. Depois da guerra, a tia Cissie tinha dedicado todas as suas forças para conseguir um vitral para a igreja, em memória dos homens da paróquia que tinham caído no conflito. Porém, a maior parte deles não era conformista, pelo que a celebração tomou a forma de um pequeno e feio monumento, em frente da capela metodista. Porém, este facto não dobrou a vontade da tia Cissie. Angariou dinheiro, organizou quermesses, forçou as raparigas a organizarem espectáculos de teatro para conseguir fundos para o seu precioso vitral. Yvette, que até gostava da actividade e das facetas exibicionistas dessas iniciativas, encarregou-se da farsa denominada Mary in the Mirror e guardou os lucros, que deveriam ser entregues ao Fundo do Vitral, quando se fizessem as contas. Em princípio, cada uma das raparigas devia ter uma caixa de dinheiro para o Fundo. A tia Cissie, pensando que as somas, todas juntas, talvez fossem já quase suficientes, perguntou de repente pela caixa de Yvette. Esta continha apenas quinze xelins. Houve um momento de puro horror. Onde é que está o resto? Oh!, exclamou Yvette, com um ar casual. Emprestei-o a mim mesma. Também não era assim tanto. Mas, então, as três libras e treze xelins de Mary in the Mirror? perguntou a tia Cissie, num tom que parecia que as profundas do Inferno se estavam a abrir.
Oh, essas! Emprestei-as a mim mesma. Posso pagá-las. Pobre tia Cissie! O tumor do ódio rebentou dentro dela e houve uma cena terrível e pouco vulgar, que deixou Yvette a tremer de medo e de nervosa repugnância. Até o pároco foi muito severo. Se precisavas de dinheiro, por que é que não me disseste?, perguntou ele friamente. Já te recusámos alguma coisa razoável? Eu pensei que não tinha importância, gaguejou Yvette. E o que é que fizeste com o dinheiro? Creio que o gastei, disse Yvette, os olhos muito abertos e perturbados e o rosto macilento. Gastaste-o em quê? Não me lembro de nada: meias e coisas, e dei algum.
Pobre Yvette! Os seus ares e maneiras senhoris estavam agora a eclipsar-se. O pároco estava zangado: o seu rosto tinha um ar canino, de quem rosna, uma contracção de desprezo. Estava com receio que a sua filha estivesse a desenvolver algumas das grosseiras e corruptas qualidades de A-que-fora-Cynthia. Eras capaz de viver à larga, com o dinheiro dos outros, não eras?, perguntou, com um desprezo frio, quase animalesco, que mostrava a sua total falta de crença no seu coração. A inferioridade de um espírito sem qualquer réstia de calorosa crença, sem orgulho na vida. Não acreditava nela, total e inteiramente. Yvette ficou pálida e tomou um ar distante. O seu orgulho, esse frágil e precioso lume que toda a gente procura satisfazer, recuou como uma chama assoprada por um vento frio, como se tivesse sido apagada e o rosto dela, agora branco e ainda parecido com uma branca flor, a branca flor que era a sua vaidade, parecia não ter vida, ser apenas uma pura e estranha abstracção.
Ele não crê em mim!, pensou ela, no interior da sua alma. Para ele, eu sou..., nada! Sou um zero, sou apenas uma coisa de que é preciso ter vergonha. É tudo uma vergonha, tudo uma vergonha! Uma chama de paixão ou de raiva, apesar de a terem podido dominar ou enfurecer, não a teriam degradado tanto como o fizera a falta de crença por parte do seu pai, a sua última atitude de desprezo para com ela. O pai ficou um pouco assustado, naquele silêncio de pensamentos estéreis. No fim de contas ele necessitava de uma aparência de amor e crença e de uma vida luminosa, sem manchas, pois nunca ousaria encarar o gordo verme da sua própria descrença, o verme que se agitava no seu coração.
Que desculpa é que tens para dar?, perguntou. Ela limitou-se a mirá-lo com aquele rosto de branca flor, insensível, que o enchia de medo e lhe dava uma desamparada sensação de culpa. A outra, A-que-fora-Cynthia, olhara para ele com o mesmo medo branco, o mesmo rosto estarrecido, o medo da sua degradante descrença, o verme que se encontrava bem no interior do seu coração. O seu maior receio era que alguém mais o viesse a saber. A angústia do seu ódio era contra todos os que sabiam e se retraíam. Viu Yvette humilhada e imediatamente as suas maneiras se modificaram, passando de novo a ser o mundano e bem-humorado cínico que fingia ser. Ah, bom!, exclamou. Terás de o pagar, minha menina, é tudo. Vou avançar-te o dinheiro da tua mesada. Mas vou descontar-te quatro por cento ao mês, de juros. Até o próprio diabo tem de pagar uma percentagem sobre os seus débitos. Para a próxima, se não podes confiar em ti mesma, não mexas em dinheiro que não seja teu. A desonestidade não é bonita. Yvette continuou esmagada, descoberta e humilhada.
Arrastou-se de um lado para o outro, em busca dos vestígios do seu orgulho. Sentia repulsa até por si mesma. Oh, por que é que ela tocara naquele dinheiro leproso! Toda a sua carne se contraía, como se estivesse corrompida. Mas porquê? Porquê, porquê tal coisa? Admitia ter feito mal ao gastar o dinheiro. Claro que não o devia ter feito. Têm toda a razão para estarem zangados, disse para si própria. Mas de onde lhe vinham aqueles horríveis estremecimentos da sua carne? Por que é que ela se sentia como se tivesse apanhado um qualquer contágio físico?» In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

terça-feira, 26 de março de 2019

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «Lá isso é verdade, concordava eu, inquieto. Vinha-me à ideia Antoninha das Dores e, muito embora preferisse calar-me, era certo acrescentar. É isso mesmo... Já não há incêndios...»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«(…) Veio um dia, e vimo-nos obrigados a mudar de rumo. Quisemos acertar o passo, segundo as regras, e começaram as topadas, escorregadelas, desvios. No dia-a-dia enviusado e traiçoeiro da vila, onde muitos dos choramingas da escola ganhavam dinheiro grosso e honestas reputações, nós caímos de desilusão em desilusão. Não sei como isto foi. Mas, anos depois, vencido, eu emagrecera; secara, nodoso e cheio de rugas, como o tronco carcomido de um sobreiro. Pelo contrário, derrotado na luta inglória com o forreta do pai, André Juliano engordou, engordou muito. Apesar disso, quando às vezes o olhava, com aquele olhar distraído mas que, de súbito, parece atingir a verdade que há nos homens e nas coisas, eu julgava estar a ver-me diante de um espelho côncavo. Sim, senhor, tal qual como eu : todas as raivas, todos os ciúmes, as invejas, os fracassos, mas inchado e balofo. Nestes momentos, o ódio contraía-me as feições, e largava um palavrão. Fitava-o com o olhar endurecido: estamos tramados, André, estamos tramados! Nunca consegui saber se ele adivinhava os meus pensamentos; o certo, é que me respondia de beiço caído, como num eco: tramados, amigo, tramados...
Olho o relógio. Quatro horas. Doidas, as moscas tecem um emaranhado de círculos em volta dos cemitérios. Ponho-me a observá-las, e faço cálculos sobre qual dos papéis cobertos de melaço peganhento atrairá a primeira. Por fim, cansado, caio numa modorra. Um murmúrio distante vem devagar, engrossa, até soar nitidamente dentro de mim. É a voz autoritária de mestre Poupa bombeiro. Vejo-o e oiço-o como se realmente ele estivesse sentado à minha mesa. Fogo?!, exclama a voz. E, logo, desiludida, já não há incêndios... Era o seu assunto preferido. Mestre Poupa tinha artes de ir desviando qualquer conversa até aparecer com naturalidade o caso de um fogo. Hoje em dia, já não há incêndios, comentava ele. Vejam vocês: toca o sino da igreja; a auto-bomba desce do quartel, puxa-se a mangueira e, pronto!, está o fogo apagado. Fogo?... Qual fogo, se nem deixamos atear nada! Lá isso é verdade, concordava eu, inquieto. Vinha-me à ideia Antoninha das Dores e, muito embora preferisse calar-me, era certo acrescentar. É isso mesmo... Já não há incêndios...
Como que saindo da névoa do fumo do tabaco que enche o Café, André Juliano surge do outro lado da mesa. Enrola um cigarro entre os dedos enormes, e os olhos, caídos, desaparecem-lhe sob a gordura das pálpebras. Abana a cabeça, suspirando: já não há nada... Até dá doença uma vida destas!... Ora lá disse você uma verdade. Isto, hoje, até dá doença. Porque seria que eu me fiz amigo de mestre Poupa? Sempre que me interrogo a este respeito, ocorrem-me várias razões capazes de justificar o facto. Mas, a todas abandono e acabo por concluir que foi obra do acaso. Por esse tempo, a vila andava acesa em discussões originadas pela acção dos bombeiros voluntários. As coisas não podem continuar assim!, dizia-se alto e em bom som. As coisas, era isto: fogo que houvesse, os prejuízos maiores não os faziam as chamas ruas os bombeiros improvisados, na ânsia de tudo molharem e de tudo salvarem. Abriam caminho à machadada, arrombavam tabiques, partiam mobílias e loiças, sem dó nem piedade. Estragos do lume apenas uma que outra chaminé, ou um carunchoso soalho.
Enfim, chegaram a tais termos que um dia, ao declarar-se incêndio na chaminé do Elias Tarro, como alguém corresse a puxar o badalo da igreja velha, o homem postou-se entre os umbrais da porta de espingarda em riste: quem entrar, morre! E impediu que os bombeiros lhe assaltassem a casa, enquanto, com baldes de água, pelo quintal, a família apagava as labaredas. Choveram ameaças e insultos, de parte a parte. À má cara, os bombeiros abandonaram a presa. E, não era passada uma semana, quando o Elias Tarro apareceu com a cabeça cheia de pensos e ataduras. Fora o Chico Biló que o esmurrara, após breve discussão. Ao pagar a conta na farmácia do Durães onde andara a tratar-se, Elias Tarro deu graças pelo preço em que lhe ficara o incêndio.
Vá lá... Antes isto que os malandros me terem invadido a casa. Mas a vila, aterrada, mudou a direcção dos bombeiros voluntários. E, por cartas, ajustou com um técnico de Lisboa a chefia da mal afamada corporação. Foi mestre Poupa quem apareceu. Dias depois, já eu passava horas a ouvi-lo. Havia sido um incêndio que me arruinara a vida, e para ele os incêndios, que o tinham enchido de glória, eram agora a causa da sua amargura. O material moderno, as muitas bocas de água espalhadas pelas ruas e a técnica moderna tornavam, conforme nos dizia, a extinção fácil e rápida, o que era impossível antigamente. Só queria que vocês assistissem ao incêndio da rua de Madelena, lá em Lisboa. Isso é que foi um fogo bom!, recordava ele, animado e feliz. Morreram dezenas de pessoas». In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos... Sim, senhor, como mudámos. Na escola éramos temidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«(…) E, de tronco direito, sopro para longe as primeiras fumaças. Mas ninguém se importa com estes ares de desafio. Aos poucos, a cabeça vai-me tombando entre os ombros vergados pela vida. Os meus olhos, nevoentos, voltam-se para o passado. O passado. Do fundo do tempo, aparecem pedaços de recordações. Demoram-se um instante, doem-me suavemente e somem-se, num tropel, da memória cansada. Caio numa complicada malha de coisas vagas e sem nexo. Para ali fico dobrado num sonolento quebranto. De súbito, estremeço: lá vem Antoninha das Dores semi-nua! Lá vem ela nos braços do Chico Biló fardado de bombeiro! Apavorado, ergo a cabeça e olho em roda. Não, ninguém pode descobrir o que estou pensando. E, impune, revejo gulosamente a imagem da minha noiva em fralda de camisa. As fontes vão-se-me perlando de um suor gelado; amarfanha-me a raiva de não poder voltar atrás, mudar o tempo, e recomeçar a vida. Se fosse possível! Que me importava a mim o que aconteceu!... Poltrão! Porque não casei eu com Antoninha das Dores?
Enrolo novo cigarro. Mas, agora, com a pressa, caem-me pedaços de tabaco dos dedos trémulos. Fumo lume e sorvo uma ansiada fumaça. O espelho, em frente, mostra-me o meu carão esverdinhado de velho. Vejo-me, de queixo caído, a apertar as mãos uma na outra até os ossos dos dedos estalarem. Poltrão. É isso: um cobarde. Sempre o fui, e só a presença dos meus amigos me ajudava a suportar melhor a imagem tão odiada e tão querida de Antoninha das Dores. Eu chegava sempre primeiro ao Café. Depois, mestre Poupa. Mal encetávamos a conversa, víamos através do vidro da montra, o corpo enorme de André Juliana sair de casa e iniciar lentamente a custosa subida. Com alvoroço, eu dizia: lá vem o André! Nunca passou uma tarde sem que o dissesse. Às vezes, pensava: amanhã, não digo aquilo. Pois se mestre Poupa o vê ao mesmo tempo que eu... Ora bem; ao outro dia, a porta abria-se, o corpo pachorrento saía para a rua, e era fatal a minha inquieta alegria: lá vem o André!...
Agora mesmo ia jurar que o estou a ver despegar-se com moleza dos umbrais. Mas, na realidade, apenas vejo para lá do vidro, ao fundo da rua, a casa destruída pelo fogo. Tudo tal qual como no fim do incêndio: a parede negra, sem portas nem janelas... Foi aí que mestre Poupa bombeiro morreu, lutando contra as chamas. André Juliano, esse ainda está vivo; mas, em Lisboa, atrás das grades da Penitenciária. Dou voltas na cadeira, torço-me, enterro o chapéu pela cabeça abaixo. Tudo em vão. Antoninha das Dores continua na minha frente, deitada nos braços do Chico Biló. Saem-lhe da camisa as pernas, o ventre e um pedaço do seio; de volta, o povo arregala os olhos. Vejo-os a todos, rosto a rosto, com a facilidade de quem está olhando vagarosamente uma fotografia. Como os odeio! Depressa, Maneta, outro café! Espero, esfregando as mãos. E, ao esvaziá-lo, de queixo erguido, vejo no espelho o meu carão de tal forma espantado que me parece ter acabado de beber veneno. Coberto de suor, lá vou aos poucos serenando.
André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos... Sim, senhor, como mudámos. Na escola éramos temidos. Passávamos as tardes de castigo e, um dia, armámos uma desordem medonha. Partimos carteiras, o quadro grande, e saímos cheios de troféus: pedaços de bibes rasgados, os peitos das camisolas salpicados de medalhas de tinta. Fomos expulsos. Acabámos por aprender as letras, os números e uma fantástica História de Portugal com o bebedola do Jaime Ursulino, que nos ia matando à varada e a quem, por fim, esmurrámos de sociedade. Nossos pais consideraram maduramente no caso, e concluíram que estávamos quites com a cultura. Foi um alívio. O largo, e mais tarde os bailes desordeiros do campo e a noite sem lei das ruas da vila passaram a ser o nosso mundo. Um mundo cheio de sustos, mas mais leal que as aritméticas do Ursulino e as falinhas choronas dos moços da escola». In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

O Fogo e as Cinzas. Manuel da Fonseca. «Que querem? Estou aqui, paguei o meu café, faço o que me apetece!»

Cortesia de wikipedia

«Que o meu canto seja no meio do temporal uma chicotada de vento que estremeça as estrelas desfaça mitos e rasgue nevoeiros, escancarando sóis!» In Manuel da Fonseca

«Mestre Poupa bombeiro, André Juliano e eu formávamos uma trindade falhada. Positivamente, três velhos falhados e tontos. Há momentos em que vejo isto com uma grande clareza. Mas de nada me vale. Os factos miúdos que me estragaram a vida pegam de novo em mim e arrastam-me. Desviam-me cada vez mais de toda a gente e isolam-me numa apatia da qual não tenho forças para escapar-me. Serei acaso um cobarde? Talvez. Ao certo, apenas sei que, volta não volta, Antoninha das Dores me vem à memória com uma nitidez atroz. Aparece-me, não recatada e séria como ela sempre foi, mas em fralda de camisa. Sim, senhor; no meio da rua, em fralda de camisa. E deitada nos braços do grandalhão do Chico Biló! Foi isto que me estragou trinta anos de vida. Já a mágoa que consumia mestre Poupa não era de ordem amorosa. Lamentava a toda a hora que tivessem acabado os incêndios grandes e devastadores, como havia antigamente. Vamos lá a perceber tal coisa! Poderá acaso ser este o drama de um chefe de bombeiros? Pois era. Quanto a André Juliano as razões do seu desgosto toda a vila as sabe. Com cinquenta anos, e o pai, homem rico, ainda lhe não consentia mandasse no tio que viria a ser seu, e apenas lhe dava vinte e cinco tostões por dia. Vinte e cinco tostões! Enfim, éramos os três inseparáveis, cada um roendo o seu osso.
Hoje, praticamente, só resto eu. Mestre Poupa morreu num incêndio; um fogo dos bons, como ele gostava. E André Juliano jaz, à espera da morte, no fundo de uma cadeia. No entanto, estão tão presentes na minha memória que a todo o momento me parece natural ir encontrá-los, ao voltar duma esquina. E posso, sem o mínimo esforço, engendrar uma conversa. Sei e oiço as suas respostas às minhas palavras, vejo as maneiras peculiares de mexerem os lábios, de sorrirem com tristeza, ou de ficarem taciturnos por largos espaços. De tal modo ainda fazem parte da minha vida que, todos os dias, mal acabo de almoçar, saio de casa direitinho ao Café onde costumávamos encontrar-nos. Hoje aconteceu atardar-me, interessado na leitura do jornal. Quando dei por mim e olhei para o relógio, ergui-me num salto, e lá vim eu cheio de pressa pelas ruas fora. Cheio de pressa, como se eles estivessem à minha espera...
Mas, como sempre sucede, ao entrar, o entusiasmo arrefeceu e fui sentar-me, desconfiado, na mesa do canto. Como sempre, pus-me a pensar por que seriam aquelas pressas. Para que faço eu isto todos os dias? Vai o cafezinho do costume, senhor Portela? Surpreendido, encaro o criado. E grito-lhe, sem querer, com a voz transtornada: han?!..., mas, logo, as palavras me ocorrem, submissas. Pois..., o cafezinho do costume... Passava aqui todas as tardes com André Juliano e mestre Poupa bombeiro. Agora, sozinho, mal o Maneta põe sobre o mármore sujo a chávena fumegante e se afasta, eu começo com as manigâncias habituais para matar o tempo. Demoro o café, adoçando-o com pitadas, colher a colher; bebo-o a pequenos goles. Isto dá-me à volta de quinze minutos. De soslaio, lanço uma mirada pelos grupos que falam de mesa para mesa. Passeio o olhar pelo grande espelho suspenso da parede, pelas moscas que volteiam em redor dos nojentos cemitérios caídos do tecto, em espiral. Belo, digo eu de mim para mim, já lá se foi um quarto de hora...
Segue-se o cigarro, muito embora o médico me aconselhe a não fumar. Quero lá saber! Aí uns dois minutos lucro eu enquanto meto as mãos pelos bolsos à procura das mortalhas, da onça e do isqueiro.
Coloco tudo isto em cima da mesa segundo uma ordem: o livro das mortalhas, à esquerda; ao meio, a onça; e o isqueiro, à direita. Despego a mortalha, dobro-lhe uma estreita tira no sentido longitudinal e rasgo-a, pois gosto do cigarro delgado. Abro a onça com uns vagares ronceiros e calculo sobre a palma da mão a quantidade de tabaco precisa; cato entre os fios as impurezas, e só então o começo a enrolar. Guardo as mortalhas e a onça, pego no isqueiro e raspo lume. Outros quinze minutos! Estas e outras coisas acarretam-me a fama de ter o miolo avariado. Eu sei. Até há quem se ponha a seguir as minhas manobras e sorria. Que querem? Estou aqui, paguei o meu café, faço o que me apetece!» In Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, Wikipedia, 1951, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-431-7.

Cortesia de Wikipedia/ECaminho/JDACT

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «O cigano observou-a a entrar na sua casa rolante. O que a cigana lhe disse, nunca ninguém o soube. Para os outros, a espera foi muito longa. O crepúsculo foi-se aprofundando…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Olhou para Yvette quando passou por ela, fixando-a directamente nos olhos, com a sua ousada, mas impudica mirada de pária. Dentro dela, houve qualquer coisa forte que a fez resistir ao olhar, mas a superfície do eu corpo pareceu transformar-se em água. No entanto, a parte dela que tinha resistido registou as linhas peculiarmente puras do rosto dele, o seu nariz direito e delicado, o traçado das faces e das fontes, a curiosa e suave pureza de todo o seu corpo moreno, recortado na fazenda verde: uma pureza que era uma troça viva. Enquanto ele passou lentamente por ela, nos seus flexíveis quadris, ainda lhe parecia que ele era mais forte do que ela. De todos os homens que ela vira, este era o único que era mais forte do que ela, dentro da sua própria espécie de força, da sua própria espécie de compreensão. Assim, cheia de curiosidade, subiu os degraus da carroça atrás da mulher, com as abas do bem talhado casaco castanho a balançarem e quase expondo-lhe os joelhos, por debaixo do vestido verde-claro. Tinha umas pernas bonitas, compridas, que davam grandes passadas, umas pernas mais para o delgado do que para o gordo, e usava boas meias de algodão com um curioso desenho em dois tons de castanho, um claro e um escuro, que sugeriam as pernas de um qualquer animal exótico.
No alto dos degraus, Yvette deteve-se por um instante e virou-se para os outros, com um ar jovial, dizendo naquele seu tom simultaneamente inocente e senhoril, e sem cerimónias: farei por não demorar. A sua gola de pele cinzenta estava aberta, mostrando a garganta macia e o vestido de um verde muito claro, o chapéu pequenino e castanho puxado quase até às orelhas, rodeando-lhe o rosto fresco e gentil. Havia nela um ar simultaneamente suave e, no entanto, dominador, inconsciente. Sabia que o cigano se virara para olhar para ela. Tinha consciência da sua nuca trigueira, o cabelo negro bem penteado. O cigano observou-a a entrar na sua casa rolante. O que a cigana lhe disse, nunca ninguém o soube. Para os outros, a espera foi muito longa. O crepúsculo foi-se aprofundando e transformando em escuridão e começou a ficar húmido e frio. Da chaminé da segunda carroça saía fumo e um cheiro a boa comida. O cavalo foi alimentado e enrolaram à sua volta um cobertor amarelo; os dois ciganos falavam um com o outro à distância, em voz baixa. Havia uma peculiar sensação de silêncio e de intimidade, naquela pedreira escondida e solitária.
Finalmente, a porta da carroça abriu-se e Yvette apareceu, inclinada para a frente e descendo os degraus com as suas longas e esbeltas pernas de feiticeira. Quando ela surgiu à luz do crepúsculo, havia à sua volta uma espécie de silêncio enfeitiçado, condescendente. Demorei muito tempo?, perguntou, com o seu ar ausente, sem olhar para ninguém e escondendo os seus sentimentos por detrás daquelas suas maneiras indecisas e suaves. Espero que não se tenham aborrecido!, continuou. Que bom que seria tomar um chá, agora! Vamos? Entra para o carro, disse Bob. Eu pago! As compridas saias de alpaca da cigana, de um verde-metálico, baloiçaram nas escadas. Ergueu-se com todo o seu esplendor: era uma mulher alta e com um ar triunfante e o rosto animalesco. O lenço de casimira cor-de-rosa, com rosas vermelhas estampadas, estava a escorregar-lhe para um lado, por cima do seu cabelo negro e encrespado. Olhou para os jovens, à luz do crepúsculo, com ousada arrogância. Bob colocou-lhe duas meias coroas na mão. Dê-me um pouco mais, para lhe dar sorte, para dar sorte à sua jovem senhora, pediu-lhe, numa voz aduladora, como um lobo a atrair uma presa. Mais uma moeda de prata, para lhe dar sorte. Já tens uns xelins, para dar sorte, isso basta, disse Bob calmamente, enquanto avançavam para o carro. Uma moedinha de prata! Só uma moedinha, para lhe dar sorte no amor!
Yvette, com um súbito, longo e surpreendente movimento das suas pernas compridas, virou-se quando já estava a entrar no carro e com o longo braço estendido deu uma passada e pôs qualquer coisa na mão da cigana, depois, virou-se e dobrou-se para entrar no carro. Felicidades, para a bela e jovem senhora, com as bênçãos da cigana, ouviu-se a sugestiva e semitrocista voz da mulher. O motor roncou, tornou a roncar com mais força e arrancou. Leo acendeu os faróis e a pedreira com os ciganos desapareceu imediatamente na escuridão da noite. Boa noite!, gritou a voz de Yvette, quando o carro começou a andar. A sua voz foi a única que se ouviu, esganiçada, alegre e impudente no seu tom de desinteresse. Os faróis iluminaram o caminho de pedra. Yvette, tens de nos dizer o que é que ela te contou, gritou Lucille, perante o silêncio de Yvette. Oh, não foi nada de especial, disse Yvette, com uma falsa cordialidade. As coisas do costume: um homem moreno que me dará boa sorte, um loiro que me dará má sorte; uma morte na família, que se for a da avó não será assim uma coisa tão terrível; que casarei quanto tiver vinte e três anos, que terei montes de dinheiro e montes de amor e dois filhos. Tudo muito bonito, mas são demasiadas coisas boas, sabem, para poderem ser verdadeiras. Oh, mas, então, por que é que lhe deste mais dinheiro? Oh, bem, porque quis! Com gente daquela, temos de nos mostrar um pouco liberais...» In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

terça-feira, 7 de agosto de 2018

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Não, não é isso..., respondeu Yvette, impaciente. Tem algum segredo? Tem medo que eu o diga. Venha, prefere ir para a carroça, onde ninguém nos ouve?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Fixou então o preço: cada uma dá-me um xelim e mais qualquer coisa para dar sorte? Só um bocadinho mais! Sorriu-se de um modo que tinha muito mais de bajulador que cruel, fazendo sentir a força da sua vontade, pesada como ferro, sob o veludo das palavras. Está bem, disse Leo. Um xelim por cabeça. Mas não demore muito tempo com isso. Oh, tu!, gritou-lhe Lucille. Queremos saber tudo! A mulher tirou dois bancos de madeira de debaixo da carroça e colocou-os perto da roda. Depois, agarrou a mão da alta e morena Lottie Framley e fê-la sentar-se. Não se importa que todos ouçam?, perguntou, olhando curiosamente para a face de Lottie.
Lottie corou, nervosa, enquanto a cigana lhe segurava a mão e lhe batia na palma com dedos duros, com um aspecto cruel. Oh, não me importo, respondeu ela. A cigana espreitou-lhe a palma da mão acompanhando as linhas com um dedo rijo e escuro, mas que parecia limpo. Lentamente, leu-lhe a sina, enquanto os outros, que se encontravam à escuta, gritavam: oh, esse é o Jim Baggaley! Oh, não acredito! Oh, isso não é verdade! Uma mulher loura que vive debaixo de uma árvore! Quem é que já ouviu uma coisa dessas?! Até que Leo as calou, com um aviso. Ora, calem-se, raparigas! Vocês assim estragam tudo!
Lottie retirou-se corada e confusa, e foi a vez de Ella. Esta era muito mais calma e perspicaz e tentou interpretar as palavras proféticas. Lucille interrompeu-as permanentemente com exclamações, enquanto o cigano, no alto dos degraus, se mantinha imperturbável, sem qualquer espécie de expressão. Porém, os seus atrevidos olhos continuavam pousados em Yvette, que os sentia nas faces, no pescoço e que não ousava olhar para cima. Mas Framley olhava de vez em quando para ele e recebia de volta, do agradável rosto do cigano, dos seus olhos escuros, vaidosos e orgulhosos, uma mirada superficial. Era um olhar peculiar, naqueles olhos que pertenciam à tribo dos humildes: um olhar que mostrava o orgulho do pária, o desafio, meio trocista, do proscrito, que troçava dos cumpridores das leis e seguia o seu caminho. O cigano manteve-se ali durante todo o tempo, segurando a criança nos braços, olhando, sem se preocupar com o que se passava à sua volta.
Agora, era Lucille quem dera a sua mão a ler: esteve do outro lado do mar e aí encontrou um homem..., um homem de cabelos castanhos..., mas ele era demasiado velho... Oh!, exclamou Lucille, virando os olhos para Yvette. Mas Yvette estava abstracta, agitada, sem prestar qualquer atenção, pois encontrava-se num dos seus estados hipnóticos. Casará dentro de poucos anos, não agora, dentro de alguns anos, talvez quatro, não será rica, mas terá o suficiente e irá para longe, numa grande viagem. Com o meu marido ou sem ele?, perguntou LucilIe. Com ele... Quando chegou a vez de Yvette e a mulher olhou para ela, com um olhar arguto e cruel, procurando no seu rosto qualquer coisa, durante muito tempo, Yvette disse, nervosa: não, creio que não quero que leia a minha sina. Não, não quero! De verdade, não quero! Tem medo de alguma coisa?, perguntou a mulher cigana, de um modo cruel.
Não, não é isso..., respondeu Yvette, impaciente. Tem algum segredo? Tem medo que eu o diga. Venha, prefere ir para a carroça, onde ninguém nos ouve? A mulher era curiosamente insinuante, enquanto Yvette era sempre caprichosa, instável, perversa. Agora, no seu frágil e jovem rosto via-se esse ar de perversidade, que lhe dava um estranho aspecto de dureza. Sim!, disse ela subitamente. Sim! Poderei fazer isso mesmo! Oh!, gritaram os outros. Não é justo! É melhor que não o faças!, gritou Lucille. Sim!, disse Yvette, com aquele seu jeito duro, que de vez em quando aparentava. Vou fazer isso mesmo, vou para a carroça. A cigana disse qualquer coisa ao homem que se encontrava no alto dos degraus. Este entrou na carroça, onde permaneceu alguns instantes, e depois reapareceu, desceu os degraus, pousou a criança no chão, sobre os seus pés ainda incertos e segurou-a pela mão. Muito elegante nas suas botas pretas bem engraxadas, calças pretas justas e jaqueta verde-escura, também justa ao corpo, caminhou lentamente, com a criança titubeante, em direcção ao cigano mais velho, que dava ao cavalo ruão uma ração de aveia, no abrigo de ramagens entre paredes de rocha cinzenta, com fetos secos a cobrir o chão de lajes». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Os seus olhos passavam de rosto para rosto, muito activos, numa busca impiedosa daquilo que ela desejava. Entretanto, o homem, aparentemente seu marido…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eh? Mas, então, e as horas?, gritou Leo. Oh, deixa lá as horas! Há sempre alguém preocupado com as horas!, exclamou Lucille. Bom, se não se importam com as horas a que vão chegar, pois eu também não!, disse Leo, heroicamente. O cigano mantivera-se sentado na parte lateral da carroça, descontraído, observando os rostos. Depois, saltou para o chão, os joelhos um pouco entorpecidos. Era, aparentemente, um homem com mais de trinta anos e, à sua maneira, um janota. Usava uma espécie de jaqueta de caça, de peitorais duplos, que lhe chegava à cintura, feita de um tecido de lã grosseiro, num tom verde-escuro, umas calças pretas bastante justas, botas pretas e um boné verde-escuro e ao pescoço um grande lenço de seda amarelo e vermelho. Tinha uma aparência curiosamente elegante e bastante dispendiosa, dentro do seu estilo cigano. Era bonito, também, de queixo erguido, com a tradicional vaidade cigana e, agora, aparentemente, sem já se importar com os estranhos, conduzia o seu cavalo para fora da estrada, preparando-se para fazer recuar a carroça.
As raparigas viram, então, pela primeira vez, uma profunda reentrância num dos lados da estrada e duas grandes carroças a deitarem fumo. Yvette desceu rapidamente. Tinham de súbito chegado a uma pedreira abandonada, cortada na falésia ao lado da estrada, e neste covil, quase como uma espécie de gruta, encontravam-se três outras grandes carroças, desarmadas, até passar o Inverno. Havia também, lá mais para o fundo, um abrigo construído com ramagens, um estábulo para o cavalo. A rocha cinzenta e nua erguia-se muito acima das carroças e curvava para fora, para o lado da estrada. O pavimento era constituído por lajes, entre as quais cresciam ervas. Era um acampamento de Inverno, confortável e quente. A mulher idosa, que carregava o fardo, entrara numa das carroças e deixara a porta aberta. Duas crianças espreitavam, exibindo as suas cabeças escuras. O cigano chamou alguém, enquanto fazia a carroça recuar para dentro da pedreira, e surgiu um homem já velho, para o ajudar a desatrelar o cavalo.
O cigano subiu os degraus da carroça mais nova, a que tinha a porta fechada. Por debaixo da carroça estava amarrado um cão, que correu para a frente até ao limite da corda. Era um cão branco, malhado, de um tom castanho-amarelado. Rosnou surdamente, quando Leo e Bob se aproximaram. Nesse mesmo instante, uma cigana de cara muito morena, com um grande lenço cor-de-rosa em volta da cabeça e enormes brincos de ouro nas orelhas, desceu os degraus da carroça mais nova, balançando a sua volumosa saia verde, cheia de folhos. Era de certo modo bonita, com uma cara comprida, atrevida, um pouco animalesca. Parecia-se com uma daquelas ciganas espanholas, atrevidas e ondeantes. Bom dia, senhoras e cavalheiros, disse, mirando as raparigas com os seus olhos ousados de ave de rapina. Falava com um certo sotaque estrangeiro. Boa tarde!, responderam as raparigas. Qual das lindas meninas quer ouvir a sua sina? Qual é que me dá a sua mãozinha?
Era uma mulher alta, com uma assustadora maneira de esticar o pescoço para a frente, como uma ameaça. Os seus olhos passavam de rosto para rosto, muito activos, numa busca impiedosa daquilo que ela desejava. Entretanto, o homem, aparentemente seu marido, surgiu no alto dos degraus da carroça, fumando um cachimbo e com uma criança pequena, de cabelos pretos, nos braços. Ficou de pé, apoiado nas suas pernas flexíveis, olhando distraidamente para baixo, para o grupo, como se estivesse a vê-los à distância, as longas pestanas negras bem erguidas por cima dos olhos negros, presunçosos e impudentes. Um olhar peculiar, que transmitia qualquer coisa. Yvette sentiu-o, sentiu-o nos seus joelhos. Fingiu estar interessada no cão branco e castanho. Quanto é que quer para nos ler a sina a todos?, perguntou Lottie Framley, enquanto os seis jovens cristãos de frescas faces recuavam, um pouco relutantemente, ante esta mulher paga e nómada. A todos? As senhoras e os cavalheiros, todos?, perguntou a mulher, astutamente. Não quero que leiam a minha! Façam-no vocês!, gritou Leo. Eu também não, disse Bob. As quatro raparigas. As quatro senhoras?, perguntou a cigana, olhando-as perspicazmente, depois de ter observado os rapazes». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 19 de novembro de 2017

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão»

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«(…) Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o, mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a ideia dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza. Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus óculos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almoço, abruptamente, sem transições emolientes: peço-lhe licença para casar, o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente: não. Perdão, tio Francisco! Não. Mas ouça, tio Francisco... Não. Macário sentiu uma grande cólera. Nesse caso, faço-o sem licença. Despedido de casa. Sairei. Não haja dúvida. Hoje. Hoje. E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se : olá!, disse ela a Macário, que estava exasperado, apopléctico, raspando nos vidros da janela. Macário voltou-se com uma esperança. Dê-me daí a caixa do rapé, disse o tio Francisco. Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado. Tio Francisco..., começou Macário. Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá. As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa. De muito boa vontade, meu amigo, disse-me ele. Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas... E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos. E todos sentiam, mas...» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo!»

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«(…) Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritava na confusão, e o capelão da Casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária ficara atarracada de pavor: sentia os urros dos bois, os gritos agudos das mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão…, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bradando cheio de raiva! É o pai do conde. Ela então desmaia nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda real está à porta com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores com pampilhos: el-rei já estava dentro, escondido no fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiadas à alta bengala, forte, espadaúdo, com o aspecto carregado o marquês de Pombal falando devagar e intimativamente, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos postilhões retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: viva el-rei, nosso senhor!, e o sino da porta da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à Casa dos Arcos.
Quando dona Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que ele tinha ficado ao lado da menina Vilaça, que se chamava Luísa, que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se também de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos. Ora como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça, e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas de um ás, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sobre o pano verde a sua peça de ouro, com um bilro ou um pião. Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando e fazia à vista como uma bola de névoa dourada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da peça de ouro nova. Mas, de repente, a peça, correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo cortesmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.
É célebre, disse o amigo de chapéu de palha. Eu não ouvi tinir no chão. Nem eu, nem eu, disseram. O beneficiado, curvado como um F, buscava tenazmente, e Hilária mais nova rosnava o responso de Santo António. Pois a casa não tem buracos, dizia a mãe Vilaça. No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas: pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então menina Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada. Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção, e atribui-a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada: ora o sumiço da peça, hem? Que brincadeira! Acha, senhor beneficiado?, disse Macário parando, absorto de impudência.
Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! Eu dava em doudo! Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou: amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. Que bolada, hem! E Macário tinha vontade de lhe bater. Foi neste ponto que Macário me disse, com a voz singularmente sentida: enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela. Mas a peça? Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!» In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

domingo, 29 de outubro de 2017

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Como que em resposta, o homem puxou as rédeas delicadamente, fazendo o cavalo parar quando ele já se desviava para o lado da estrada. Era um bom cavalo ruão e uma boa carroça, verde-escura e elegante»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O grupo mantinha-se silencioso havia já algum tempo. De cada um dos lados da estrada só se via erva, depois uma baixa vedação de pedra e a seguir a ondulada curva do alto da colina, traçada com os muros de pedra. E, por cima de tudo isto, o céu pesado e nebuloso. O carro avançou, sob o céu baixo e cinzento e os picos desguarnecidos. Paramos por momentos?, perguntou Leo. Oh, sim!, exclamaram as raparigas. Saíram de novo do carro, agitadas, para olharem em volta. Conheciam aquele lugar perfeitamente bem, mas, de qualquer modo, se se vai ao alto do Head, então é preciso sair e olhar. As colinas pareciam os nós dos dedos de uma mão, os vales estavam lá em baixo, entre os dedos, estreitos, íngremes e escuros. Lá no fundo, um comboio soltava vapor, avançando lentamente para norte: uma coisa pequenina, daquele mundo distante. Os ruídos da locomotiva ecoavam curiosamente para cima. A seguir, ouviram o som abafado e familiar de uma explosão numa pedreira. Leo, incapaz de estar parado muito tempo, moveu-se rapidamente. Vamos andando?, perguntou. Queremos ou não chegar a Amberdale a tempo do chá? Ou experimentamos noutro sítio mais próximo?
Todos votaram por Amberdale, pelo marquês de Grantham. Bom, por que caminho vamos regressar? Vamos por Codnor e Crosshill, ou por Ashbourne? Este era o dilema do costume, mas, por fim, decidiram ir por Codnor, pela estrada de cima. E lá partiu o carro, corajosamente. Estavam agora no topo do mundo, nas costas da tal mão. E era um topo do mundo também nu, como as costas da mão, desolado, monótono e verde-escuro, cortado por uma rede de velhos muros de pedra, dividindo os campos, interrompido aqui e acolá por ruínas de antigas minas de chumbo e de fábricas. Os edifícios de pedra de uma quinta isolada mostravam seis árvores espetadas e nuas. À distância, via-se uma mancha de pedra cinzenta, uma aldeia. Nalguns campos, carneiros cinzento-escuros alimentavam-se silenciosa e tristemente. Não havia um som nem um movimento. Era o telhado da Inglaterra, pedregoso e árido como qualquer telhado. Para lá dele, lá em baixo, estavam os condados.
E vejam agora as províncias coloridas, disse Yvette para si própria. De qualquer modo, aqui, as províncias não tinham nada de colorido. Um bando de gralhas surgiu, vindo de qualquer lado. Tinham andado a vaguear, debicando num campo nu que fora estrumado. O carro continuou a avançar por entre a erva e os muros de pedra daquela estrada do planalto e os jovens seguiam silenciosos, olhando por cima daquela rede de divisórias de pedra, por debaixo do céu, vendo as curvas inclinadas para baixo que indicavam um declive íngreme, em direcção a um dos vales, escondidos lá ao fundo. À frente seguia uma carroça conduzida por um homem e, caminhando penosamente ao lado, ia uma mulher, robusta e de idade avançada, com um fardo às costas. O homem da carroça tinha-a apanhado e agora acertava o passo pelo dela. O caminho era estreito. Leo tocou a buzina, violentamente. O homem da carroça olhou em volta, mas a mulher, que ia a pé, limitou-se a continuar a seguir em frente com maior firmeza e mais rapidamente, sem virar a cabeça.
O coração de Yvette deu um salto. O homem que se encontrava na carroça era um cigano, um daqueles ciganos escuros, de corpo elegante e descontraído. Mantinha-se sentado na carroça, de cabeça virada, olhando os ocupantes do automóvel, por debaixo da pala do boné. Mantinha uma pose descuidada e uma mirada insolente e cheia de indiferença. Tinha um fino bigode negro por debaixo do nariz estreito e direito e um grande lenço de seda, vermelho e amarelo, enrolado em volta do pescoço. Disse qualquer coisa à mulher. Esta parou por um segundo, virou-se e olhou para os ocupantes do carro, que estava agora já muito perto. Leo accionou de novo a buzina, imperiosamente. A mulher, que usava um lenço cinzento e branco amarrado em volta da cabeça, virou-se para a frente rapidamente, para acompanhar o andamento da carroça, cujo condutor também voltara à sua posição inicial e levantava as rédeas, movendo os ombros leves e elegantes. Mas continuava sem se desviar.
Leo carregou na buzina, enquanto travava e o carro abrandava, já muito junto da traseira da carroça. Ao ouvir toda aquela barulheira, o cigano voltou-se para trás, o riso estampado na sua cara morena, por debaixo do boné verde-escuro, e disse qualquer coisa que eles não ouviram, mostrando os dentes muito brancos por debaixo da linha do bigode negro e fazendo um gesto com a mão magra e morena. Saiam do meio do caminho!, gritou Leo. Como que em resposta, o homem puxou as rédeas delicadamente, fazendo o cavalo parar quando ele já se desviava para o lado da estrada. Era um bom cavalo ruão e uma boa carroça, verde-escura e elegante. Leo, irado, foi forçado a travar e a parar também. Não quererão as meninas, tão bonitas, ouvir ler as suas sinas?, perguntou o cigano da carroça, de rosto risonho, excepto os olhos, escuros e vigilantes, que saltavam de rosto para rosto, demorando-se na face jovem e delicada de Yvette. Ela encontrou os olhos dele durante um segundo, aquela mirada superficial, a sua insolência, a sua completa indiferença para com pessoas como Bob e Leo, e houve qualquer coisa que se incendiou no seu peito. Pensou: é mais forte do que eu! Não se rala! Oh, sim! Queremos!, gritou imediatamente Lucille. Oh, sim!, entoaram as restantes, em coro». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Singularidades de uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «… e as manas Hilárias, a mais velha das quais, tendo assistido, como aia de uma senhora da Casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos…»

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«(…) E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida que achasse um meio de o encaixar lá. Não era difícil. As Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na Rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora dona Maria I, e às nove horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava-se diante da esposa do tabelião, sr.ª Maria da Graça, pessoa seca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz adunco uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um frufru de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com um desembargador de figura apopléctica. O tabelião era homem letrado, latinista, e amigo da musas; escrevia num jornal de então, a Alcofa das Damas: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, moço escudeiro de Vénus. Assim, as suas reuniões eram ocupadas pelas belas-artes, e, numa noite, um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado Elmira ou a Vingança do Venesiano!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas... As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da mitologia para os países maravilhosos do oriente. Por toda a parte se falava no paxá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de âmbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde paxás decrépitos acariciam leões. De sorte que a curiosidade era grande, e quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão, o Macário é que não teve sensação alguma, porque lá estava todo absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente: então, noutro dia, gostou das casimiras? Muito, disse ela baixo.
E, desde esse momento, envolveu-os um destino nupcial. No entanto, na larga sala, a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a Lídia: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta, e em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas, terminadas num fofo de rendas, mitenes de retrós cheias da cintilação dos anéis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo, e via-se-lhe um dente podre.
Depois, a preciosa sra Jerónima Piedade Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:

Oh Ricardo, oh meu rei,
o mundo te abandona.

O que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário: reis-víboras!... Depois o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor João VI: lindas moças, lindas moças. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta erudita, requintada e toda cheia de musas. Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe convidara-o dizendo-lhe: espero que o vizinho honre esta choupana. E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou: choupana! Diga alcáçar! Formosa dama! Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um velho cavaleiro de Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz tiple, e as manas Hilárias, a mais velha das quais, tendo assistido, como aia de uma senhora da Casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixara de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da Casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata; o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu na trincheira alta, e a hilariedade da corte, que até a senhora condessa de Povolide apertava as mãos nas ilhargas; depois el-rei, o senhor José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, fazendo girar entre os dedos a sua caixa de rapé cravejada, e atrás, imóveis, o físico Lourenço e o frade seu confessor; depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve quando José I entrou: viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo atrás dele». In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

Singularidades de Uma Rapariga Loura. Eça de Queirós. «Mas quando ele ia a dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco de pinhão, de botões amarelos»

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«(…) Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos de plebeias de uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tão meridional, Macário, com intuição interpretativa dos namorados, disse à sua curiosidade: será filha de um inglês. O inglês vai à China, à Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem Macário sabia por que é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: mas segundo ele me disse, aquilo deu-lhe no goto. Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela aquela magnífica pessoa, magnificamente pálida e vestida de luto. Macário veio à janela e viu-as atravessar a rua e a entrarem no armazém! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Ele mesmo mo disse. Porque enfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si, casimiras pretas.
E não: elas não usavam amazonas, não queriam decerto estofar cadeiras com casimiras pretas, não havia homens em casa delas; portanto aquela vinda ao armazém era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo assim, ele deveria de estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Ele confessou-se que nem pensava em tal. O que fez foi chegar ao balcão e dizer estupidamente: sim, senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem. E a loura ergueu para ele o seu olhar azul e foi como se Macário se sentisse envolvido na doçura de um céu.
Mas quando ele ia a dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco de pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o senhor guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco, com a sua crítica estreita e celibatária, escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada de caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente: agora queria ver lenços da Índia. E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e apertados numa tira de papel dourado. Macário, tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quase uma declaração, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da paixão. Andava distraído abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas e não entendeu bem a recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sobre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.
É o costume de deixar entrar pobres no armazém, tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. São doze mil réis de lenços. Lance à minha conta. Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um amigo de Macário, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, como uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta: quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazém? É a Vilaça. Bela mulher. É a filha? A filha? Sim, uma loura, clara, com um leque chinês. Ah!, sim. É filha. É o que eu dizia... Sim e então? É bonita. É bonita. É gente de bem, hem? Sim gente de bem. Está bom! Tu conhece-las muito? Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de sra Cláudia. Bem, ouve lá». In Eça de Queirós, Singularidades de uma rapariga loura, 1873-1874, Contos, 1901, Sopa de Letras, 2013, ISBN 978-972-870-878-8.

Cortesia de SopadeLetras/JDACT

domingo, 8 de outubro de 2017

Nocturnos. Kazuo Ishiguro. «Toquem e fiquem de boca fechada, só isso, é o que sempre dizem os gerentes dos cafés. Assim os turistas não percebem que não são italianos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na manhã em que vi Tony Gardner sentado entre os turistas, a Primavera havia acabado de chegar aqui em Veneza. Tínhamos completado a nossa primeira semana inteira do lado de fora, na piazza, um alívio, deixem-me dizer, depois de todas aquelas horas abafadas tocando nos fundos do café, atrapalhando os clientes que queriam usar a escada. A brisa soprava com força nessa manhã, e nosso toldo novinho em folha agitava-se em volta de nós, mas estávamos todos nos sentindo um pouco mais animados e dispostos, e acho que isso transparecia na nossa música. Mas olhem eu aqui falando como se fosse um membro da banda. Na verdade, sou um dos ciganos, como os outros músicos nos chamam, um desses jovens que estão sempre andando pela piazza, ajudando qualquer uma das três orquestras dos cafés que esteja precisando de nós. Eu toco principalmente aqui, no Caffè Lavena, mas quando a tarde está agitada posso muito bem fazer um set com os jovens do Quadri, ir até ao Florian, e depois tornar a cruzar a praça para o Lavena. Dou-me bem com todos eles, e com os garçons também, e em qualquer outra cidade a esta altura eu já teria um posto fixo. Mas aqui, neste lugar tão obcecado por tradição e passado, tudo está de cabeça para baixo. Em qualquer outro lugar, tocar violão contaria a favor. Mas aqui? Um violão! Os gerentes dos cafés ficam nervosos. Parece moderno demais, os turistas não vão gostar. No Outono passado, arrumei um modelo vintage usado por músicos de jazz, com a boca oval, o tipo de violão que Django Reinhardt poderia ter tocado, para não correr o risco de ninguém me confundir com um músico de rock and roll. Isso facilitou um pouco as coisas, mas os gerentes dos cafés continuam não gostando. A verdade é que, se é violonista, poderia até ser Joe Pass que nem assim eles lhe dariam um emprego fixo na praça.
Há também, é claro, o pequeno problema de eu não ser italiano, quanto mais veneziano. Acontece a mesma coisa com aquele tcheco grandão que toca sax-alto. As pessoas gostam de nós, os outros músicos precisam de nós, mas não nos encaixamos exactamente no modelo oficial. Toquem e fiquem de boca fechada, só isso, é o que sempre dizem os gerentes dos cafés. Assim os turistas não percebem que não são italianos. Vistam o seu vestuário, ponham os seus óculos escuros, penteiem o cabelo para trás, e ninguém vai saber a diferença; só não comecem a falar. Mas não me saio assim tão mal. As três orquestras dos cafés, sobretudo quando têm que tocar ao mesmo tempo sob os seus toldos rivais, todas precisam de um violão: algo suave, sólido, porém amplificado, marcando os acordes lá do fundo. Imagino que estejam pensando que três bandas tocando ao mesmo tempo na mesma praça devem produzir uma confusão danada. Mas a Piazza San Marco é grande o suficiente para comportar as três. Um turista que esteja passeando pela praça ouvirá uma das músicas diminuir enquanto a outra vai aumentando, como se estivesse trocando de emissora de rádio. O que os turistas não conseguem aguentar muito é essa coisa de música clássica, todas essas versões instrumentais de árias famosas. Tudo bem, isto aqui é San Marco, eles não querem os últimos sucessos do pop. De tantos em tantos minutos, porém, querem algo que possam reconhecer, quem sabe uma antiga canção de Julie Andrews ou o tema de algum filme famoso. Lembro-me de uma vez, no Verão passado, em que fui passando de banda em banda e toquei O poderoso nove vezes numa só tarde.
Enfim, ali estávamos nós naquela manhã de Primavera, tocando diante de uma plateia razoável de turistas, quando vi Tony Gardner sentado sozinho com o seu café, quase exactamente na nossa frente, talvez a uns seis metros do nosso toldo. Gente famosa aparece na praça o tempo todo, e nós nunca fazemos espalhafato. Às vezes, quem sabe, no final de algum número, os músicos cochicham entre si. Olhem, aquele ali é o Warren Beatty. Olhem, é o Kissinger. Aquela mulher trabalhou no filme sobre os homens que trocam de rosto um com o outro. Estamos acostumados com isso. Afinal de contas, aqui é a Piazza San Marco. No entanto, quando percebi que aquele ali sentado era Tony Gardner, foi diferente. Eu fiquei, mesmo, animado. Tony Gardner era o preferido da minha mãe. No meu país, na época dos comunistas, era muito difícil conseguir discos assim, mas a minha mãe tinha praticamente a colecção completa dele. Quando eu era menino, certa vez arranhei um desses preciosos discos. O nosso apartamento era muito abarrotado, e um menino da minha idade simplesmente precisava de se mexer de vez em quando, sobretudo durante os meses frios em que não se podia sair de casa. Então eu estava brincando, a pular no nosso pequeno sofá para uma poltrona, e num dos pulos calculei mal a distância e acertei no gira-discos. A agulha arranhou o disco inteiro com um chiado, isso foi muito antes dos CDs, e minha mãe saiu da cozinha e começou a gritar comigo. Eu senti-me muito mal, não apenas porque ela estava a gritar comigo, mas porque eu sabia que aquele era um dos discos de Tony Gardner, e sabia quanto isso significava para ela. Anos depois, quando eu estava a trabalhar em Varsóvia e fiquei sabendo da existência dos mercados negros de discos, substituí todos os velhos álbuns de Tony Gardner da minha mãe, incluindo aquele que arranhei. Levei mais de três anos para fazer isso, mas continuei comprando os discos, um de cada vez, e sempre que ia visitá-la levava-lhe mais um». In Kazuo Ishiguro, Nocturnos, Gradiva Publicações, 2009, ISBN 978-989-616-322-8.

Cortesia de GradivaP/JDACT