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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Poesia. Joaquim Carvalho. Música. «A única maneira de teres sensações é construíres-te uma alma nova. Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer, eu sou eu?»

Cortesia de wikipedia

Dor em que te enclausuraste
A Florbela Espanca

«O nosso sorriso vivo
por ser claro e certo
foi como um campo de linho puro
que vestiu de branco o luar.
Os instantes alados de eternidade
nascidos em nós,
cedo se desfizeram…
Desses instantes restaram fragmentos
de histórias que os povoaram
como quando se acorda de um sonho…
Onde estão agora as pedras
emersas do rio
nas quais poisaste os pés
sempre que me abraçaste?
A altura dessas pedras era grande!…
Era a altura da linha de água
acrescida do nosso amor…
Hoje, no rio, só se adivinham
pedras imersas,
junto da tua respiração afogada.
A fundura dessas pedras é grande!...
É linha de água
acrescida da fundura da nossa dor…
O rio onde o amor nasceu e correu
foi o mesmo rio onde o amor esmoreceu
e morreu...
Sem mais além para ir
a vivermos
o futuro foi morrendo
despindo pouco a pouco de alma
a gente…


Sempre que cri ver-te,
tua aura esmorecida senti-a tão distante
quanto o meu coração de mim…
Por o teres levado contigo…
Hoje, mais do que nunca,
sinto a dor
em que te enclausuraste…
Essa dor
que te levou a partir imersa em água
sem me perguntares se queria ir contigo…
Sem nos darmos conta perdemo-nos
entre a foz e a nascente…
Tornaremos a achar-nos
no poente
das coisas invisíveis?…
Neste instante solitário,
cheio de lembranças tuas,
sou já, no rio,
corrente vertical descendente…
Porque sei
que, ao pôr-do-sol, me esperas…
Poema de Joaquim Carvalho, in ‘Nova Águia

JDACT

terça-feira, 3 de julho de 2012

Numismática Ammaiense. Notas preliminares. Sofia Borges, Joaquim Carvalho, Sérgio Pereira. «A importância e a singularidade das construções postas a descoberto, umas de carácter público […] a presença de um elevado número de moedas ou numismas exumadas, originárias das mais diversas oficinas de cunhagem do império romano»


jdact

Introdução
«O testemunho mais representativo e extraordinário da romanização do Norte Alentejano é, certamente, a cidade romana de Ammaia. Localizada junto de importantes recursos hídricos, a antiga urbe cresceu e expandiu-se por uma área aproximada de 22 hectares, cuja área central é actualmente formada pela Quinta do Deão e Tapada de Aramenha, na freguesia de S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre.
Ignorada pelas autoridades competentes, a cidade permaneceu adormecida até 1994, ano em que ganhou vida um dos maiores projectos arqueológicos, a nível nacional, graças à determinação de Carlos Melancia, Jorge de Qliveira, não excluindo a colaboração de algumas instituições públicas, nomeadamente, a Câmara Municipal de Marvão e a Universidade de Évora. A constituição da “Fundação Cidade de Ammaia” foi o passo seguinte rumo à prossecução deste empreendimento turístico-arqueológico.
Concluído o levantamento topográfico e a imprescindível marcação das quadrículas, a partir de Outubro de 1994, iniciaram-se os primeiros trabalhos arqueológicos. Uma equipa qualificada, conjuntamente com alguns operários de arqueologia locais e muitos jovens nacionais e estrangeiros puseram mãos à obra e desde então têm escavado em diferentes áreas, criteriosamente seleccionadas.
A importância e a singularidade das construções postas a descoberto, umas de carácter público, outras simplesmente domésticas, é complementada pela recolha de vestígios móveis, resultantes da ocupação da cidade, na época romana. A quantidade e diversidade das cerâmicas recolhidas transmite-nos a importância funcional que teriam no quotidiano familiar. Porém, merece especial destaque a presença de um elevado número de moedas ou numismas exumadas, originárias das mais diversas oficinas de cunhagem do império romano.

Assim, com este contributo, pretendemos apresentar e divulgar o potencial numismático da actual colecção da “Fundação Cidade de Ammaia”, de ora em diante FCA, na sua vertente quantitativa, qualitativa e importância documental. Tentaremos, ainda, analisar a sua forte concentração, ou quase inexistência, em certas áreas específicas já escavadas. Assim, não tencionamos atribuir a este estudo um carácter exclusivamente científico. Em primeiro lugar consideramos pertinente elaborar uma breve síntese do trabalho efectuado, até ao momento, resultante do esforço e da boa vontade de muitos anónimos, aqui recordados, dignos amigos da “Ammaia”.


 
Áreas de intervenção
Privilegiando os sectores A, B e D, foram seleccionadas cinco áreas de intervenção:
  • a Porta Sul,
  • o Peristilo,
  • o Forum,
  • o Balneário do Forum,
  • o Edificio da Quinta do Deão.
A existência de vestígios à superfície, bem como questões de ordem técnica determinaram a preferência daquelas áreas. A intervenção na área, a que mais tarde denominámos Porta Sul, permitiu pôr a descoberto uma das portas da cidade, provavelmente, a mais importante, de onde seguiria uma via em direcção à capital da província, “Emerita Augusta (Mérida)”. Esta entrada terá sido, num dado momento, monumentalizada com a construção de duas torres circulares, um arco, conhecido por Arco da Aramenha, e uma imponente praça pública. As torres ladeavam uma das portas da cidade e eram, ao mesmo tempo, o ponto de partida da muralha, limite do perímetro urbano. Do arco que fora construído entre as duas torres, apenas se conservaram vestígios do arranque do mesmo e a soleira da porta. Daqui partia um dos eixos principais da cidade, o “cordus maximus”, que dividia em duas partes, simétricas, uma praça pública, pavimentada com lajes, de granito quadrangulares. Para nosso gáudio, o lado direito da praça, para quem entra na cidade, permaneceu praticamente intacto, do lado oposto apenas restaram algumas lajes “in situ”». In Sofia Borges, Joaquim Carvalho, Sérgio Pereira, Numismática Ammaiense, Notas preliminares, Ibn Maruán, Revista Cultural, nº 9/10, Marvão, 1999-2000, Edições Colibri, CM de Marvão.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Castelo de Vide: Memórias Paroquiais. Os seus arredores em 1758. Parte V. Freguesia de São João Baptista

Cortesia de portugalbook 

Com a devida vénia a Ruy Ventura, Arquivo do Norte Alentejano.

Memórias Paroquiais de Castelo de Vide (Memória nº 222, volume 10, folhas 1461 a 1489).
Castelo de Vide em 1758, (folhas 1461 a 1476). Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.

«Tem esta vila feira dia de Santo Amaro e dia de São Lourenço, francas de um só dia cada uma, e mercados todas as quintas-feiras do ano, francos até ao meio-dia.
Tem correio. Sai quarta de manhã e chega sábado à noite. Manda correio a carta do povo, dar e receber as cartas ao correio de Portalegre.
Dista esta vila da cidade de Portalegre, cabeça do bispado, duas léguas. E dista da cidade de Lisboa 34 léguas.

Cortesia de cafeportugal
Tem o privilégio de não sair da Coroa e com tanta restrição que, em foro de consciência, a não pode el-rei dar, porque sendo esta vila das filhas do infante Dom Afonso, quando a venderam a seu tio Dom Dinis, se estipulou no contrato que a vendiam a ele e a seus sucessores, com condição que nunca sairia da Coroa. E el-rei no contrato assim o prometeu. Consta da Monarquia Lusitana.
Tem mais o privilégio dos seus moradores não irem à guerra, salvo acompanhando el-rei em pessoa. E se tem observado na ocasião dos maiores apertos, como se vê no livro do tombo da Câmara.
Tem o privilégio de não pagar portagem e a todos os moradores da vila o privilégio que a Elvas se concedeu, só os que morassem na Corujeira.
Tem também isenção de ter éguas de coudelaria e este é o único que se tem quebrado.

Cortesia de olhares
Há nesta vila a fonte da Mealhada, cuja água é excelente remédio contra as dores nefríticas, a do Manguinhos, para as diarréias». In Ruy Ventura, Memórias Paroquiais de Castelo de Vide .

A amizade de JC e SB
Cortesia de Ruy Ventura/JDACT

sexta-feira, 13 de maio de 2011

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte VI: Alter Pedroso e Amieiro do Tejo. «Segundo a memória popular de Alter Pedroso, a forca situar-se-ia no Cabeço da Murtosa, actualmente ocupado pelo Campo de Tiro... Situava-se a Sul da povoação, no alto de um cabeço, entre a ermida de S. João da Charneca e a de S. Salvador do Mundo. Quando se questionava pelo local exacto, a memória popular não conseguia informar com precisão»

Cortesia de edicoescolibri

Alter Pedroso
Segundo a memória popular de Alter Pedroso , a forca situar-se-ia no Cabeço da Murtosa, actualmente ocupado pelo Campo de Tiro. Contudo, já não foi possível avaliar se se trataria de uma forca em alvenaria, ou em madeira. Este outeiro destaca-se bem na paisagem e encontra-se sobranceiro à estrada que liga Alter Pedroso a Alter do Chão. O local foi profundamente alterado por terraplenagens para a construção do Campo de Tiro já nada restando da forca.
Coordenadas UTM, obtidas por GPS, do local onde se situava a forca de Alter Pedroso:
  • X - 0618303;
  • Y - 4338477.

Localização da forca de Alter Pedroso

Cortesia de edicoescolibri

Amieira do Tejo
As informações orais em Amieira do Tejo são concordantes quanto à localização genérica da forca. Situava-se a sul da povoação, no alto de um cabeço, entre a ermida de S. João da Charneca e a de S. Salvador do Mundo. Quando se questionava pelo local exacto, a memória popular não conseguia informar com precisão. Prospectámos os cabeços que ofereciam maior grau de probabilidades, mas não identificámos qualquer testemunho material da forca de Amieira do Tejo. O local que assinalámos na carta parece ser aquele que melhor condiz com a memória popular e aquele que, pela sue orografia, coincide com a normal escolha de lugar para levantar a forca. Deste cerro avista-se a vila e encontra-se sobranceiro à velha estrada que ligava Amieira ao Sul, características comuns aos outeiros da forca, noutras localidades.
Este cerro possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS:
  • X - 0602284;
  • Y - 4373164.


Localização da forca de Amieira do Tejo 
Cortesia de edicoescolibri

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Castelo de Vide: Memórias Paroquiais. Os seus arredores em 1758, Parte IV. Freguesia de São João Baptista

Cortesia deficcino

Com a devida vénia a Ruy Ventura, Arquivo do Norte Alentejano. Memórias Paroquiais de Castelo de Vide (Memória nº 222, volume 10, folhas 1461 a 1489).

Castelo de Vide em 1758, (folhas 1461 a 1476)
Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.

CASTELO DE VIDE EM 1758
«João Furtado de Mendonça, baptizado em São João, em 23 de Julho de 1639, e por sua mãe dos Vidais e Torres, foi na Guerra da Aclamação mestre de campo do terço do Algarve e com ele e com os de Castelo de Vide e de Campo Maior ganharam na Batalha do Ameixial um monte, desalojando dele aos castelhanos. E depois ganharam o monte em que estava Dom João de Áustria e o desalojaram e ganharam a artelharia. E conseguindo avanço, obrigaram a fugir para Arronches. Achou-se na batalha de Montes Claros com o seu terço, que, junto com os mesmos dois que o acompanharam na do Ameixial, ficaram no lado direito aonde sofreram a força da batalha e obraram maravilhas. A cavalaria castelhana os confundiu e, tornando-se a refazer, pelejaram tão destemidamente que foi princípio da vitória na Guerra da Grande Liga. Foi mestre de campo, general conselheiro de guerra e governou esta província.
Belchior do Crato, sargento-mor do Regimento desta praça, morreu na batalha do Montijo.

Cortesia de aquemealemtejo
João do Crato da Fonseca, natural desta vila, comissário de cavalaria com seis companhias, tomou um comboio que vinha para Arronches, pondo em fugida a cavalaria que o guardava. Consta de Portugal Restaurado, tomo 2º, livro 6º, fl. 424. Achou-se na batalha do Ameixial. Morreu na batalha, general da Artilharia do Algarve.
Francisco Mendes Homem, seu irmão, foi mestre de campo do Regimento desta praça e tenente do mestre de campo, general governador de Valência de Alcântara e de Castelo de Vide.
Mateus Caldeira, irmão dos sobreditos, foi capitão de cavalos muito valoroso. Morreu comissário da Cavalaria da Corte.
João Rodrigues Mouzinho, natural desta vila, capitão voluntário de cem moços solteiros voluntários. Achou-se nas Linhas de Elvas e foi o primeiro que as rompeu.Na Guerra da Quádrupla Aliança, Luís de Barros Castelo Branco, capitão de cavalos valoroso, morreu governador de Portalegre.
Diogo de Barros Castelo Branco, capitão de cavalos, é ao presente governador desta praça com patente de coronel. E outros muitos».

Cortesia de naturlin
A amizade de JC e SB.
Cortesia de Ruy Ventura. JDACT

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Cidade Romana de Ammaia: «Reconstrução preliminar em 3D da porta sul de Ammaia: «uma entrada ladeada por duas torres ligadas pelo Arco de Aramenha, que no século XVIII foi levado para Castelo de Vide e mais tarde foi destruído»


 Cortesia de fundacaocidadedeammaia

«Ammaia, a das ruínas» chamava-lhe já no século IX o muladi Ibn Maruan. Ao longo dos séculos, a cidade romana junto à actual Marvão foi ficando cada vez mais em ruínas. A Fundação Cidade de Ammaia acaba de receber um prémio pelo trabalho de redescoberta que ali tem realizado - só a porta sul, o fórum e as termas foram escavados, mas novas tecnologias permitem radiografar o solo e «ver» toda a cidade sobre a qual passeamos. In Alexandra Prado Coelho.


Cortesia  da fundacaocidadedeammaia

Reconstrução preliminar em 3D da porta sul de Ammaia: uma entrada ladeada por duas torres ligadas pelo Arco de Aramenha, que no século XVIII foi levado para Castelo de Vide e mais tarde foi destruído. M. KLEIN 7 REASONS.

http://www.cm-marvao.pt/cultura/historia/cidade.htm
http://128934ed.110mb.com/

Cortesia de nortealentejano


Cortesia da Fundação Cidade de Ammaia/Jornal Público/JDACT

sábado, 16 de abril de 2011

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte V. A Igreja do convento de S. Francisco de Portalegre. História de um edifício. «...quando os edificios resistem ao passar dos anos sem serem demolidos e substituídos por outros novos ou desaparecerem, têm de ser adaptados a novas circunstâncias, novas necessidades ou ambições...»

Vista geral da igreja
Cortesia de fundacaorobinson 

Com a devida vénia a Nuno Senos.

«As intervenções, agora quase concluídas, por que tem vindo a passar a igreja do convento de São Francisco de Portalegre com vista à sua adaptação a espaço museológico da Fundação Robinson proporcionaram ao historiador da arquitectura as condições ideais de trabalhol. Antes de mais, porque obrigaram ao levantamento de uma planta rigorosa do edifício sem a qual toda a análise se torna problemática e incompleta quando não impossível. Por outro lado, porque deram lugar a intervenções de restauro e arqueológicas que revelaram dados de outra maneira desconhecidos. E finalmente porque a remoção de revestimentos das paredes, o sonho maior de qualquer historiador da arquitectura pré-contemporânea, tornou visíveis as várias fases de construção, as alterações e mudanças, assim como as hesitações e os erros de programa, enfim todas as costuras com as quais a história deste edifício se foi cosendo ao longo dos séculos.

Planta da igreja
Cortesia de fundacaorobinson 
Todos os edifícios de alguma complexidade, como sempre o são as igrejas conventuais, resultam de um processo de construção lento em que a ideia inicial quase sempre sofre alterações antes dos trabalhos serem concluídos. Além disso, quando os edificios resistem ao passar dos anos sem serem demolidos e substituídos por outros novos ou desaparecerem, invariavelmente têm de ser adaptados a novas circunstâncias, novas necessidades ou ambições de quem os encomenda ou usa quotidianamente. Uma igreja do século XIII não respondia às mesmas necessidades, nem simbólicas nem pragmáticas, de uma sua congénere de trezentos anos mais tarde. As comunidades crescem ou diminuem, os indivíduos ou as famílias que facultam os financiamentos e as suas vontades representativas sucedem-se e alteram-se, a própria liturgia sofre modificações, e as igrejas vão sendo fisicamente transformadas para responder às suas novas circunstâncias. Assim foi, naturalmente, com a igreja de São Francisco de Portalegre de que aqui me ocupo.
Para reconstituir a história de um edifício como este, o investigador socorre-se tipicamente de três tipos de fontes:
  • as escitas,
  • as iconográficas,
  • o próprio edifício.
No presente caso, não foram localizadas quaisquer representações visuais da igreja que acrescentassem algo àquilo que o próprio edifício, tal como o vemos hoje, jâ nos diz.

Restos do arco cruzeiro gótico
Cortesia de fundacaorobinson
A informação escrita também não é especialmente rica e suscita quase tantas perguntas quanto respostas. Resta, portanto, o edifício mesmo, esse sirn pleno de informação que a remoção dos rebocos, o cuidadoso restauro dos frescos agora dotados de renovado brilho, a nálise dos materiais de construção, as escavações
arqueológicas e, finalmente, o levantamento rigoroso da planta, acrescentaram exponencialmente, revelando todas as cicatrizes inevitavelmente criadas por cada nova campanha construtiva. É, portanto, essa informação patente nas próprias pedras do edifício e nas argamassas que as cobrem, brancas ou polícromas, lisas ou esculpidas, que procurarei sistematizar nos parágrafos que se seguem.

Uma última nota introdutória para advertir que, se é certo que a matéria mesma do construído responde a muitas perguntas, não é menos certo que também levanta questões que ficarão por responder. Umas e outras serão adiante explanadas, ficando as hipóteses de trabalho apontadas como tal e as dúvidas neste momento insolúveis, naturalmente, por resolver.

Arco gótico de acesso ao claustro
Cortesia de fundacaorobinson 
A igreja gótica
As fontes escritas são pouco seguras quanto à data de fundação do convento Franciscano de Portalegre, oscilando as várias sugestões que se podem colher na bibliografia entre o reinado de D. Sancho II e o de D. Dinis. Para o que aqui nos interessa, importa reter que o documento mais antigo que se conhece relativo ao convento data de 1266 e mostra que já então, isto é, no reinado de D. Afonso III, havia frades a viver na zona e, poucos anos depois, em 1271,este monarca deixou dinheiro aos frades de Portalegre no seu testamento. Estas notícias permitem estabelecer uma cronologia aproximada para o arranque das obras, e mostram ainda que o convento foi, desde o início, obra de protecção régia.

Aquilo que se pode ver no edifício aponta na mesma direcção. Na verdade, a igreja que hoje se visita resulta sobretudo de três momentos construtivos, mais do que propriamente campanhas, já que não é certo que em cada um daqueles tenha decorrido apenas uma destas, um medieval, outro no século XVI, e finalmente outro já do século XVIII. Entre outras consequências a que adiante farei referência mais detalhada, esta última campanha substituiu a capela-mor e alterou profundamente a nave da igreja. Esta reconfiguração fez-se em
parte por demolição de estruturas anteriores, mas também através da construção de novas paredes em torno das mais antigas, preservando estas últimas no seu interior. Foi isto que aconteceu no arco cruzeiro, por exemplo, como ficou patente agora, com as obras de recuperação. O arco cruzeiro é hoje de volta perfeita mas a remoção do reboco das paredes que lhe correspondem, do lado do transepto, tornou visíveis as mísulas e os segmentos de coluna com os respectivos capitéis, sobre os quais assentam os arranques do arco quebrado, também preservados, que correspondiam ao arco cruzeiro do edifício original». In Nuno Senos, A Igreja do convento de S. Francisco de Portalegre: história de um edifício, Fundação Robinson, Publicação 1o, 2009, ISSN 1646-7116.

Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2011

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte VI: Alegrete e Alpalhão. «Existem referências de que ainda não haverá muitos anos se encontraria de pé e, no topo do pilar, estaria um ferro recurvado, onde seriam suspensos os condenados»

Cortesia de edicoescolibri

Alegrete.
«Em Alegrete, a forca situava-se no Outeiro da Forca, cabeço sobranceiro à vila e à estrada que liga esta povoação a Elvas e Portaregre. Para ser bem visível por quem passasse na estrada, não ocupava o ponto mais alto do cerro, mas sim uma suave quebrada virada a sul. No local, é visível uma base quadrangular, em alvenaria, com cerca de um metro de lado. Parece tratar-se do arranque do pilar da forca. Provavermente, seria uma forca de um só pilar, idêntica à que existia em Figueira e Barros, no concelho de Avis, e à de Monte da Pedra. Embora bem presente na memória popular de Alegrete, dela hoje já nada subsiste, para além do seu embasamento.


Cortesia de edicoescolibri
Existem referências de que ainda não haverá muitos anos se encontraria de pé e, no topo do pilar, estaria um ferro recurvado, onde seriam suspensos os condenados.
A forca de Alegrete possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X-0645078; Y-4344442.

Cortesia de edicoescolibri

Alpalhão
Embora a forca de Alpalhão apareça representada por Duarte d'Armas, dela não conseguimos obter qualquer informação entre os mais idosos da povoação. Contudo, pela posição que nos é possível observar nas imagens dos inícios do século XVI, ela situar-se-ia no outeiro, hoje urbanizado,sobranceiro às escolas primárias de Alpalhão, no local anteriormente designado por Cemitério dos Burros. Este outeiro é bem visível do núcleo urbano antigo e encontra-se nas imediações da estrada que liga Alpalhão ao Crato.



Cortesia de edicoescolibri
Contudo, observando o terreno e sobretudo a cartografia, poder-se-á levantar a hipótese de se situar no topo do cerro denominado Outeiro da Vila, junto à estrada que liga Alpalhão a Portalegre. Pelo que se pode observar nos desenhos de Duarte d'Armas, a forca de Alpalhão seria de madeira. Dois postes paralelepipédicos suportariam no topo outro transversal de onde seriam suspensos os condenados.
Coordenadas UTM do provável local onde se situaria a forca de Alpalhão,obtidas por GPS: X-0619962; Y-4364320». In Jorge de Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do distrito de Portalegre, edições Colibri, Novembreo de 2007, ISBN 978-972-772-767-4 (obra ofertada por JC e SB em Agosto de 2008).



Cortesia de edicoescolibri
A amizade de JC, SB e CM.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 20 de março de 2011

Castelo de Vide: Memórias Paroquiais. Os seus arredores em 1758, Parte III. Freguesia de São João Baptista

Cortesia de portugalnotavel 

Com a devida vénia a Ruy Ventura, Arquivo do Norte Alentejano.

Memórias Paroquiais de Castelo de Vide (Memória nº 222, volume 10).
Castelo de Vide em 1758, (folhas 1461 a 1476).

18ª
Sendo vizinha desta vila uma légua distante Norba Cesária, cujos moradores na sua ruína vieram habitar Castelo de Vide. E ainda durante Norba Cesária era Castelo de Vide um arrabalde dela.
Se podem contar por naturais:
  • Santa Quitéria e suas oito irmãs;
  • o padre Gonçalo de Sequeira, da Companhia de Jesus, baptizado na matriz a 25 de Dezembro de 1642, foi varão ilustre como consta do ano glorioso da Companhia de Jesus, fl. 191;
  • o padre Manuel de Matos, da mesma Companhia, também ilustre. Consta do mesmo livro, fl. 736.
Em Letras:
  • D. João de Casal, morreu bispo em Macau; frei Gonçalo do Crato, religioso de São Domingos, inquisidor da Mesa Grande, baptizado em São João em 23 de Fevereiro de 1641; Sebastião de Matos, a quem el-rei D. Manuel mandou estudar no Colégio de São Bartolomeu de Salamanca, foi desembargador do Paço, foi pai de D. António de Noronha, bispo de Elvas, inquisidor-geral do reino, avô de D. Sebastião de Matos de Noronha, arcebispo-primaz de Braga e bisavô do Conde de Armamar; Manuel Delgado de Matos, baptizado na freguesia de São João no ano de 1647, foi colegial de São Paulo de Coimbra, lente de Leis, desembargador dos agravos; o desembargador Gaspar Mouzinho Barba, baptizado na matriz, ano de 1584; seu filho, Mateus Mouzinho Barba, baptizado na mesma freguesia, ano de 1620, foi desembargador do Paço e foi pai de Gaspar Mouzinho de Albuquerque, procurador da Coroa; Mateus Gonçalves Mouzinho, baptizado na mesma igreja, ano de 1617; Manuel Mouzinho, seu irmão, desembargador dos agravos.

Cortesia de portugalnotavel
Em armas:
Gonçalo Anes de Castelo de Vide, serviu bem el-rei D. Fernando, como se vê de sua crónica escrita por Duarte Nunes de Leão. Continuou a servir a D. João o 1º e foi neste tempo um dos mais ilustres militares do reino, por ser guerra de religião e liberdade. Fernão Lopes diz na 1ª parte, capítulo 159, que Gonçalo Anes de Castelo de Vide fora discípulo do Condestável na pregação do evangelho português ao verdadeiro Para [?] e liberdade do reino. Assistiu,como grande e rico homem do reino, às Cortes de Coimbra. Consta do capítulo 175. Fez voto na batalha de Aljubarrota de ser o primeiro que havia de fazer sangue em castelhanos. Consta da segunda parte, capítulo 38. Achou-se nela e cumpriu o voto. Consta do capítulo 42. Antes da batalha o tinha el-rei armado cavaleiro, com muito poucos dos muitos grandes do reino [sic], pelo capítulo 9. E pelo capítulo 57 consta se achou na batalha de Valverde e disse muitas grautas [?] a D. Diogo Fernandes de Córdova, alcaide dos donzéis de Castela, de que se infere que antes desta batalha se tinha[m] já visto em três com ele que seriam a de Aljubarrota, Atoleiros e outra, com este Gonçalo Anes de Castelo de Vide.
Foram tantos os filhos de Castelo de Vide à guerra e deu este povo tão grande socorro para ela, que o dito cronista do capítulo 162 da primeira parte, faz pergunta à cidade de Lisboa quais foram os povos fiéis que ajudaram na sua aflição a um tão grande negócio e a fizeram clara entre as gentes, confessando verdadeiro papa e defendendo o reino e respondendo por Lisboa e, nomeando os povos, aponta só quarenta e seis que lhe assistiram e um deles é Castelo de Vide. E todos os mais povos do reino eram anti-papistas e seguiam o anti-papa Clemente. E por esta razão ficou Castelo de Vide com o título de «mui sempre leal». Vê-se de uma representação que fez a Marvão, em vinte e um de Fevereiro de 1473 e principia assim: «Dizemos que assim é verdade que nos [sic] dito concelho da muito sempre leal vila de Castelo de Vide».

O título de «sempre nobre e grande vila» lhe deu el-rei D. Afonso V nas Cortes de Tomar.


Cortesia de ruimoraisdesousa

Cortesia de fontedavila 
António de Matos desta vila. Passou no de 1500 à Índia, na companhia do grande Afonso de Albuquerque e ia tão recomendado por el-rei Dom Manuel e era de tanto merecimento que, quando aquele governador tirou a Manuel de Lacerda e a outros fidalgos as capitanias de suas naus por lhe falarem arrogantes em favor de Rui Dias de Alenquer, que ele mandara degolar, deu uma capitania a António de Matos, com que ficou servido em todos os grandes sucessos. Foi em companhia de Nuno Vaz de Castelo Branco buscar mantimentos da Angediva para Goa, que estava cercada, sofrendo grandes tormentas. No coração do Inverno achou-se com sua nau com o mesmo governador na segunda tomada de Goa e foi desfazer a fortaleza de Socotorá. Vejam as Décadas de Barros e Castanheda, livro 3º, capítulo 29, 33 e 42.
Gaspar Rodrigues Mouzinho foi servir a África com cavalos e criados à sua custa. E foi armado cavaleiro em Arzila por acções e sua nobreza, que obrou contra os infiéis. Consta de justificação que fez seu filho frei Jerónimo Mouzinho em 1566.
Pedro Fernandes Barba passou à Índia na armada de Dom Antão de Noronha. Achou-se na tomada de Catifa e desembarcou pelejando, dando-lhe água pelos peitos. E por suas acções e nobreza foi armado cavaleiro em 9 de Setembro de 1552. Consta do alvará.

Cortesia de goncalolourenco 
João Rodrigues Mouzinho, natural desta vila, passou a África com cavalos e criados à sua custa. E por acções que obrou contra os infiéis foi armado cavaleiro por Dom Francisco de Almeida, governador de Tanger, por alvará de 24 de Maio de 1584.
Lourenço Mouzinho Barba, baptizado na matriz em 18 de Agosto de 1590, foi capitão de mar e guerra. Achou-se no naufrágio da armada do ano de 1626. Consta da Epanáfora Trágica, de Dom Francisco Manuel. Pelejou no caminho da Índia com três naus da Holanda e, depois de meio queimado, ficou prisioneiro. Consta do 3º tomo das Ásias, parte 4ª, no último § capítulo 2º.

Com a amizade de RV, JC e SB
Cortesia de Ruy Ventura/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte IV. A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização. «...âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural...»

Detalhe do altar-mor da igreja do convento
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson 

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel.

«... Porém, reduzir  a uma dimensão local um projecto que tem, inquestionavelmente, na igreja de São Francisco a sua pedra fundacional, seria comprometer as potencialidades que detém do ponto de vista do aludido imperativo de conservação integrada dos bens culturais e da sua indeclinável relevância para as noções (que lhe subjazem) de cidadania aberta e de património comum. De facto, o intrincado (e fascinante) processo de reelaboração perpétua da sua estrutura morfológica, que a presente reabilitação patenteia com notável nitidez, impõe que se colham todas as possibilidades que fornece, porquanto deixa agora o caminho aberto aos historiadores da arte, a quem devolve um elo de particular significado na reconstituição de cadeias formais (não apenas no plano arquitectónico, mas no das artes aplicadas: da retabulária à azulejaria e à pintura a fresco) que podem e devem promover uma mais eficaz compreensão de caminhos que são vias de comunicação em rede, do ponto de vista do património comum: desde logo da arquitectura religiosa e particularmente franciscana (ela mesma uma imensa rede, não só no espaço metropolitano, como no nacional e ultramarino e com elos que se afirmam em claras inter-relações transfronteiriças), mas igualmente das artes em sentido lato (v.g. no trabalho do estuque, que afirma claramente a singularidade de Portalegre e que muito importa, de igual modo, não encarar apenas de uma perspectiva local, mas claramente numa  relação supranacional, único modo de compreender o fenómeno em toda a sua extensão e riqueza: estética, desde logo, mas igualmente social e económica).

Aspecto de uma das capelas colaterais
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A igreja de São Francisco de Portalegre contém, assim, em escala não comum, a um tempo pela sua dimensão original  de sede de um paradigmático cenóbio menorita, pelo destino (que comunga com outros) de reafectação ao uso fabril que lhe seria outorgado pelas circunstâncias históricas que lhe coube viver e, finalmente, pelo presente programa de reabilitação (ao convertê-la em núcleo museológico, no quadro do alojamento da Colecção Sequeira e no âmbito, mais vasto, do Espaço Robinson que em seu redor se desenvolve e articula), uma capacidade de trabalhar em rede que seria grave erro negligenciar, ou subvalorizar ao firmar as linhas do seu programa de musealização.
Programa que, naturalmente, deverá desde logo assentar a sua base mobilizadora entre os equipamentos culturais e museológicos sedimentados no próprio município: o Museu Municipal, onde se recolhe um importante acervo, a um tempo de valor histórico, artístico e antropológico, que associa o legado
do Estado Novo, nas suas dimensões eclesiástica e senhorial, ao da sociedade nova sete e oitocentista e mesmo à criação contemporânea; o Museu das Tapeçarias, em associação à respectiva fábrica, onde, pela reconversão operada por Guy Fino, em meados do século XX, se recolhe uma tradição artesanal e fabril que se inscreve entre a velha Fábrica Real, instalada no antigo Colégio de São Sebastião (cuja libertação, por força da expulsão dos Jesuítas, em 1759, constitui vanguarda do processo de extinção geral dos institutos regulares consumado com a legislação de 1834) e a Fábrica Robinson, que haveria de brotar, no século XIX, na cerca do convento Franciscano; a Casa-Museu José Régio, enfim, cuja personalidade e obra literária constituem, elas mesmas, âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural dá força jurídica e que, de forma pioneira, ilustraria, no coleccionismo cristocêntrico a que se dedicou, a força central e antropológica dessas imagens a cuja recolecção, por sua vez, Rui Sequeira iria dedicar vida, recursos e energia.

Colunas de retábulo, finais século XVIII
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson

Nesse sentido, o desafio que ora se coloca é o de entender a reabilitação da igreja de São Francisco de Portalegre e a própria musealização da Colecção Sequeira, não como um museu, estável e finito, mas como um pólo dinâmico de confluência entre memória, herança e criação, promovendo, por meio do património (e do seu estudo, preservação e divulgação) e do direito dos cidadãos de participarem na vida cultural, o desenvolvimento económico e social da comunidade em que se inscreve. E divulgando, por esse modo, as noções de cidadania aberta e de cultura da paz que só ele pode gerar:
  • por isso mesmo que o património,
  • por natureza,
  • constitui lição, a um tempo material e imaterial,
  • de compreensão, integração e diálogo.

In António Filipe Pimentel, A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização, Fundação Robinson, Publicação 10, 2009, ISSN 1646-7116.

Continua.
Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT