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quinta-feira, 5 de maio de 2016

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «… redobraram os soluços, os seus belos cabelos louros; pediu roupas de estamenha e garante que quer refugiar-se no convento de clarissas de Tordesilhas. Diz que a sua vida terminou e que quer professar...»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Leonor suspirou enquanto tentava dominar o tremor que os anos e o trabalho davam às suas mãos. Tendes razão, Elvira. Mas precisamente por isso temos de lhe agradar. Ah, se não fossem estas mãos inúteis eu mesma lhe prepararia a cama e disporia os baús, que bem conheço os seus gostos e talvez assim pudesse aliviá-la de tanto sofrimento! Confiai em mim, dona Leonor, que sou jovem e tenho boas forças. Não há-de faltar nada à infanta nossa senhora, pois vou cumprir a minha obrigação de camareira com redobrado vigor...
Receio, Elvira, que nada nem ninguém poderá devolver o riso à sua boca. Meu Deus!, interveio Ana Lerma, outra das camareiras, apenas vinte e um anos e já viúva… Nunca foi feliz, não vos enganeis, interveio Joana Guzmán, a primeira camareira do quarto da infanta, enquanto retirava um brial de seda crua de um dos baús chegados de Portugal. Nisso tenho de vos dar razão, sentenciou Leonor. É verdade que como primogénita gozou mais do que qualquer das irmãs dos mimos e carícias dos pais mas não lhe faltaram angústias e dissabores. Como não deve ter sofrido a minha pobre menina afastada dos pais para cumprir o Tratado das Terçarias de Moura! Não esqueceis, Leonor, Joana dispensava o tratamento mais formal por lhe ser mais próxima em idade e categoria doméstica, que desse primeiro pacto entre Portugal e Espanha nasceu o que mais tarde foi um matrimónio feliz…
É verdade, mas acreditais que isso é o suficiente para compensar a solidão de uma menina de dez anos que passou três em terra estranha e sem a companhia dos seus? Se fosse só isso!, exclamou a camareira, o pior foi que pouco antes, o nascimento do príncipe João a tinha afastado rapidamente da sua condição de princesa das Astúrias... Isso não tem nada a ver! Dona Isabel nunca foi uma mulher ambiciosa. O curioso é que, como ela própria me relatou, quando teve de regressar a Castela sem saber se o casamento se realizaria, chorou amargamente. Mas..., interrompeu-se a aia. Onde ides, Joana, com o brial de seda que a infanta Isabel vestiu no seu casamento? Sigo instruções, Leonor... A princesa ordenou que levemos todas as suas roupas ao mourisco da Costanilla Nueva que sabe muito de tingimentos. Garante que nunca mais se vestirá de cor, que a sua alma está negra de dor e como tal quer ataviar-se... Além disso, entregou jóias e outros objectos ao seu confessor pedindo-lhe que os distribua entre aqueles que mais necessitam. Leonor baixou a cabeça e suspirou. Foi a jovem Elvira quem, enquanto afofava as almofadas de penas do leito, tomou a palavra: passa a vida a chorar e triste. Bem precisa de levantar o ânimo e esquecer pois ainda tem muitos anos de vida pela frente para os passar entre lutos e tristezas. A infanta é muito sensível, sentenciou Joana Guzmán.
Um grito vindo do corredor interrompeu a conversa. Precipitaram-se para a porta mas, antes de chegarem a sair a sala, Brites Meneses, a única camareira portuguesa do séquito da infanta entrou sufocada e chorosa: acudi depressa, dona Leonor... A mim não me ouve! Mas o que aconteceu? Quem é que tem de vos ouvir? A infanta, a infanta..., balbuciou Brites enquanto enxugava as lágrimas e se assoava ruidosamente com um pequeno lenço de seda. A infanta? O que aconteceu à infanta?, alarmou-se a aia. Cortou os cabelos, dona Leonor..., redobraram os soluços, os seus belos cabelos louros; pediu roupas de estamenha e garante que quer refugiar-se no convento de clarissas de Tordesilhas. Diz que a sua vida terminou e que quer professar...» In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «… que quem vai dormir nesta cama é uma mulher feita e adulta, embora, isso sim, com a alma partida. Não creio que nas suas circunstâncias a infanta dona Isabel se importe muito com as dores do corpo...»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Por isso, mãe e senhora minha, regresso a Castela. Quero esquecer Sevilha e os seus aromas; quero afastar-me da fragrância das frondosas várzeas portuguesas; das paredes que albergaram a minha felicidade; dos meus sonhos desfeitos... Preciso que a Castela onde nasci fortaleça a minha alma, que o seu ar limpo e fino a purifique, e que o seu céu sem nuvens me livre das brumas que nublam os meus sentidos. Por isso, passados os primeiros lutos, deixei Santarém para ir em busca do vosso consolo, da protecção do meu pai e da companhia das minhas irmãs, Joana, Maria e Catarina. Faço-o com a certeza de que não me abandonareis nesta hora amarga da minha vida. Beijo as mãos e os pés de V. A. e peço a Deus Nosso Senhor que vos guarde e proteja em tão alta missão como a que vos foi encomendada. Peço-vos, minha mãe, que tenhais presente nas vossas orações a vossa filha mais devota. Isabel» In Escrita em Abrantes a VIII de Setembro de MCDXCI, Anno Domini.

Algures em Castela. Setembro de 1491
Elvira afadigava-se a estender o lençol do melhor linho da Flandres sobre a cama que, pouco depois, iria conceder a Isabel o cobiçado descanso. A viagem desde Santarém até terras castelhanas, tinha sido extremamente cansativa. Os acontecimentos das últimas semanas não tinham apenas afectado o ânimo da infanta, tinham também diminuído consideravelmente as suas forças. Assim, aias e camareiras seguindo ordens estritas de sua mãe, a rainha, aprestavam-se a preparar-lhe uma boa cama e um bom jantar na esperança de a fazer recuperar a saúde perdida antes de iniciar a viagem até Santa Fé, nas imediações de Granada, onde estava instalada a corte e de onde os monarcas dirigiam as operações do longo cerco a que estava a ser submetida a capital do reino nazerí. A luz entrava a jorros pelas amplas janelas do quarto. Roupas, utensílios pessoais, livros e trabalhos de costura espalhavam-se desordenadamente pela sala esperando que as mãos hábeis de donzelas e camareiras conseguissem encontrar um lugar adequado sob o olhar atento de Leonor Maldonado, a velha aia que tinha criado a infanta e as suas irmãs e que, enquanto Beatriz Galindo e outras sábias mulheres lhes transmitiam conhecimentos e a língua e a cultura latinas, tinha tido a seu cargo as suas necessidades quotidianas. Alheia a tudo o que não fosse a sua dor, a infanta descansava numa sala contígua sem que parecesse incomodada pela conversa insignificante das jovens camareiras. Inesperadamente, entre o murmúrio monótono das vozes, impôs-se a de Leonor: estica mais daí, menina; daí, desse canto... que a minha senhora é muito delicada e qualquer ruga a incomoda. A camareira, desafiadora, respondeu-lhe: esquecei a menina que criastes, dona Leonor, que quem vai dormir nesta cama é uma mulher feita e adulta, embora, isso sim, com a alma partida. Não creio que nas suas circunstâncias a infanta dona Isabel se importe muito com as dores do corpo...» In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I Maria Pilar del Hierro. «Quando mo entregou, aquele corpo que devia ter sido o pai dos meus filhos não era mais do que um belo e frio pedaço de mármore. Pergunto-me, minha mãe, se a morte de Afonso foi um castigo merecido»

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A noiva de luto. Isabel. 1470-1479
«(…) Tudo era felicidade, mãe, naqueles dias. Mas lá passou e agora confundem-se na minha memória as tochas brilhantes que nos acompanhavam até aos Alcáceres sevilhanos, com as outras envoltas em crepes de luto; e o cheiro a incenso da comitiva fúnebre mistura-se com o aroma das madressilvas que bordejavam o Guadalquivir ou com o cheiro a erva fresca das terras de Estremoz onde Portugal quis confirmar o meu casamento. Até os sinos a tocar a finados parecem evocar os outros que volteavam alegres para celebrar a união de dois corpos e duas almas. Tão feliz me senti que, justo é dizê-lo, quase não senti tristeza por me separar de vós e da terra em que tinha crescido. Só tinha olhos para o meu marido Afonso e para o seu porte sereno. A maturidade que apesar da sua juventude acompanhava os seus gestos e a sua voz, essa voz que ainda me persegue!, grave e envolvente parecia-me um talismã que haveria de me proteger de todos os males que me espreitassem.
Não foi assim. Nem se conseguiu proteger a si próprio. E pouco duraram os meus prazeres. Bastou que um cavalo se encabritasse para que a felicidade se desfizesse entre os meus dedos como a neve que apanhava quando era criança e gostava de derreter com o calor das minhas mãos. Foi tudo tão inesperado! Na manhã de 25 de Julho, Afonso partiu a caminho da sua habitual partida de caça. Como de costume, do ouvir o som do corno de caça, assomei à janela. O meu marido montou, acenou-me com a mão e partiu a galope. Não voltei a vê-lo com vida. Tinha decorrido pouco tempo quando um dos cães se atravessou diante das patas do seu cavalo, um alazão jovem e imprudente, que se encabritou e o deitou ao chão. O seu tio Manuel, duque de Viseu, quis reanimá-lo mas nada pôde fazer para lhe salvar a vida.
Quando mo entregou, aquele corpo que devia ter sido o pai dos meus filhos não era mais do que um belo e frio pedaço de mármore. Pergunto-me, minha mãe, se a morte de Afonso foi um castigo merecido. Era tal a minha felicidade que esqueci que esta terra é um vale de lágrimas onde expiamos os nossos pecados e possivelmente Deus castigou-
me por isso. Assumo a minha culpa. Não agradou a Deus tanta entrega a um homem; não é próprio de uma alma cristã pôr os prazeres da carne à frente dos do espírito e eu, minha mãe, desfazia-me em desejo entre os seus braços. Em público, distraía a minha mente evocando as formas daquele corpo que me abraçava ao amanhecer debaixo dos ricos panos que o cobriam e depois, na solidão da nossa alcova, procurava-o como o vento procura as copas das árvores para se perder nelas. Pequei, mãe. Pequei por amor e tenho o justo castigo. Agora peco por desesperação e, só ao vosso lado, tendo-vos a vós e aos vossos confessores como guia, poderei redimir-me». In As Mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «… ficara à espera dela no castelo de S. Jorge, residência lisboeta dos reis portugueses, ansioso por conhecer a futura esposa. Os viajantes alteraram os planos e continuaram a viagem até Lisboa»

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Um amor que confunde palácios e governos
«(…) Constança sorriu: - Certamente. E assim o espero. Estais perto de fazer vinte anos e é justo que também encontreis marido. Porém, a ser como dizeis, por que razão vos empenhais em acicatar-me e não procurais melhor aparato para vós? Antes que Inês reagisse, Constança já conhecia a resposta. A amiga não precisava de adornos. Alta, esbelta e ágil de movimentos, Inês possuía uma frescura especial que não necessitava de artifícios. Conservava os caracóis doirados dos seus tempos de criança e evitava os toucados que os pudessem esconder. Perspicaz, costumava vestir-se de tons de azul, sabendo que essa cor fazia ressaltar a profundidade dos olhos esverdeados. Em comparação com ela, Constança não era apoucada. Tinha feições correctas, os seus grandes olhos escuros eram prova sobeja da sua grandeza de alma e a esmerada educação recebida proporcionara-lhe maneiras de se tornar sedutora. Mas, sabia-o bem, carecia da beleza admirável de Inês e, ao ver-se já vestida e engalanada, confirmou o que pensava. O vestido de damasco granate, a capa de veludo, o toucado borgonhês enfeitado e os escarpins de seda conferiam-lhe a dignidade própria da rainha que um dia viria a ser, mas não lhe davam a elegância de Inês que, vestida de veludo azul-escuro e com o cabelo preso numa redinha de prata, estava deslumbrante.
Perdida em tais reflexões, Constança foi surpreendida pelo bater dos cascos de vários cavalos. Trocou um olhar expectante com Inês e, sem dizerem nada, ambas saíram para o exterior. Minutos depois de pedir passagem , apareceu um pajem a avisar da chegada da embaixada real. Qual não seria a decepção de Constança por ver que o príncipe Pedro não se encontrava entre os recém-chegados. Em seu lugar, tomou a palavra o capitão comandante do pequeno destacamento militar que, pedindo desculpa, alegou que um negócio importante não permitira que o príncipe viesse ao seu encontro. Acrescentou que o infante Pedro lhe apresentava as suas desculpas e ficara à espera dela no castelo de S. Jorge, residência lisboeta dos reis portugueses, ansioso por conhecer a futura esposa. Portanto, os viajantes não tiveram outro remédio: alteraram os planos e continuaram a viagem até Lisboa.
Empoleirada no alto de um monte, a residência real parecia inatingível. A comitiva atravessou um labirinto de fachadas brancas, telhados vermelhos e redes estendidas ao sol, que assinalavam inequivocamente o carácter marítimo da cidade. Do mar só sabiam o que tinham aprendido nos livros e as recém-chegadas julgavam-se num reino de fantasia. No entanto, o odor a iodo e a sal incomodava-as e estranhavam o ar que, húmido e salobro, se adensava, ameaçador, sobre as pessoas. Porém, o ranger dos sinos da Sé, os cantares populares e o júbilo com que nobres e vilãos saudavam a chegada da que, um dia, seria sua rainha, fizeram-nas esquecer daqueles inconvenientes que, a princípio, as apoquentaram.
Tudo aquilo fez recordar a Inês a sua chegada a Peñafiel. Voltaram-lhe à memória a colina, o mar de nuvens em que navegava o castelo e o silêncio. E reviveu também a sensação de ser invisível para aqueles que deviam acolhê-la, a ignorância do povo em relação à sua chegada e a desorientação perante um meio que lhe era desconhecido. O mesmo meio que a obrigara a conduzir-se com prudência, de que lhe ficara uma certa reserva que nem sequer agora, dez anos depois e ainda com a certeza de poder contar com o carinho da família Manuel, conseguia evitar.
Mal tinham avistado a enorme porta que dava acesso ao castelo quando um ginete passou por eles a galope, ultrapassando o séquito. O cavaleiro era um homem jovem e bem-parecido. Vestia roupas de caça e ia acompanhado de um escudeiro. Saudou os viajantes com um aceno amável e Inês ficou fascinada por um olhar tão azul quanto o seu. Sem que o pudesse evitar, assomou à janela da liteira para vê-lo afastar-se, mas rapidamente se recolheu ao ver-se surpreendida pelo cavaleiro que, como ela, quis verificar a fugaz aparição que tinha entrevisto na sua carreira». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «Inês, por amor de Deus, sossegai. Até parece que sois vós que estais a preparar-vos para a apresentação ao futuro esposo. - E se estivesse? - replicou, mantendo o velho hábito de responder a uma pergunta com outra»

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Um amor que confunde palácios e governos
«(…) Chegaram à fronteira depois de vários dias de viagem. Percorriam pequenas distâncias em cada dia, descansando em velhos solares que lhes eram cedidos pelo nobres locais ou em tendas semelhantes às das tropas, que lhes permitiam ficar fora das povoações. Passavam as horas no interior da liteira, a apreciar a paisagem ou a jogar xadrez e dados. Por vezes, Inês seguia a cavalo, enquanto Constança, recostada nas almofadas, contemplava a planície onde, de quando em vez, se recortavam as sombras de algumas árvores. Continuava calada, o olhar melancólico perdido na distância. Inês, pelo contrário, ia exultante. Desde o dia em que partira de A Limia, e sem que isso significasse desacordo com a família Manuel, sempre se convencera intimamente de que estava a viver uma etapa de transição, uma espécie de período provisório que formava como que uma antecâmara do seu destino. A mesma intuição que lhe dizia que em Portugal a aguardava qualquer coisa, não sabia o quê, que prometia ser definitivo. Quando, antes de dormir, contava as estrelas, dava corpo e espírito ao futuro. O seu destino tomava então a forma de um homem bem-parecido e justo, o cheiro de um lareira acesa, o murmúrio de cantigas e brincadeiras infantis. Enfim, uma família, que seria a sua. Terminaria aquela vida errante, deixaria de ser uma filha sem pai, irmã de um outro sangue, senhora sem estatuto próprio. Não. Quando aquele homem aparecesse na sua vida, Inês teria, finalmente, encontrado o seu lugar. Deixaria aquela situação indefinida, passaria a ter nome e apelidos.
Não conseguia entender o estado de espírito de Constança. Era incapaz de compreender os seus temores. A amiga sempre fora reconhecida como filha de João Manuel, infante de Castela. Agora era noiva do herdeiro do trono de Portugal e, um dia, seria rainha. A sua vida seguia, portanto, uma linha bem direita, era um quadro bem definido, uma trajectória previsível com datas e nomes concretos. Além do mais, o astrólogo fora bem claro. Em Portugal esperavam-nas amor e carinhos, risos e prantos, nascimentos e mortes. Para fazer uma tal previsão, não era necessário consultar os astros. O vaticínio confirmara o que Inês já sabia. Em Portugal aguardava-as a vida.
Logo que atravessaram a fronteira, Inês voltou a sentir-se criança. A fala trazia-lhe de volta recordações escondidas, aromas esquecidos e até certas cores que, em Castela, se haviam diluído numa gama de tons de ocre. Pouco a pouco, foi despertando nela a memória da língua em que tinha crescido e pôs todo o seu empenho em ensinar a Constança os rudimentos de um idioma em que, agora, descobria melodias e sonoridades ignoradas. Os vinhedos de entre o Douro e o Mondego, a vegetação exuberante das serras da Estremadura portuguesa e, por fim, o largo e caudaloso Tejo, trouxeram-lhe de volta os arvoredos da infância e aquele cheiro a terra molhada que€, mesmo quando não estava a chover, andava pelo ar. Depois, chegada já ao destino, a paisagem tornava-se mais agreste, ainda que a serra de Sintra lhe proporcionasse o reencontro com a paisagem do passado.
Em Agosto, na data prevista, chegaram a Lisboa. A comitiva deteve-se às portas da cidade e organizou-se um pequeno acampamento, onde as pessoas podiam libertar-se do pó dos caminhos e recobrar forças para aquele que se previa fosse o grande dia da vida de Constança. Segundo estava acordado, o infante Pedro viria ao seu encontro para a escoltar até à capital. Inês dirigia as camaristas encarregadas de preparar o vestuário e o calçado da noiva. Dissimulava o nervosismo com a verborreia prolixa e o movimento incessante. Uma sucessão infinda de perguntas sem resposta, de passos sem destino, de arcas que eram abertas e logo fechadas, o preparar de enfeites e o rumorejar de sedas. À sua volta, Nieve era vítima do mesmo frenesim, dando pequenos saltos e latindo de vez em quando. As amas tentavam acompanhá-la, sem o conseguirem, e as camaristas torciam o nariz e procuravam compreender as ordens que ia dando.
Por fim, Constança não aguentou mais: - Inês, por amor de Deus, sossegai. Até parece que sois vós que estais a preparar-vos para a apresentação ao futuro esposo. - E se estivesse? - replicou, mantendo o velho hábito de responder a uma pergunta com outra. - Não será possível que no séquito do infante Pedro venha um belo donzel que repare nesta dama recém-chegada? Enquanto falava, envolvia-se, divertida, num dos mantos de seda da amiga e, com uma reverência exagerada, imitava os gestos de uma grande senhora». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «O coração avisava-a de que uma névoa espessa e escura, como a que costumava cobrir a várzea banhada pelo ‘Duratón’ em Novembro, se espalhava sobre o seu futuro em Portugal»

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Um amor que confunde palácios e governos
«(…) Contra o previsto pelos hábitos da corte, tinha entrado nos aposentos da amiga sem aviso prévio. Embora estivesse a amanhecer, a penumbra do quarto levara Constança crer que ainda era noite. Mesmo assim, espreguiçou-se e recostou-se nas grandes almofadas para, sorridente, aceitar as carícias de Nieve que, de um salto, tinha subido para a cama. O cão costumava dormir num canto do quarto, bobre um pequeno escabelo, mas a entrada impetuosa de Inês tinha-o feito acordar em sobressalto e levara-o a refugiar-se junto da dona. - Constança, ouvi-me, a comitiva está pronta, as mulas carregadas e as nossas liteiras preparadas - dizia Inês, falando muito depressa e quase comendo as palavras. - Como é possível que ainda tenhais de vos vestir?
 - Acalmai-vos, Inês! Para quê esse alvoroço? Até o Nieve está a tremer! Que pressas são essas? Já sei que partimos hoje, mas não há necessidade de nos precipitarmos. Mais parece que tendes pressa de sair desta casa! Se tivésseis tanto medo como eu tenho! - Medo? Que temeis, Constança? Afirma-se que o infante Pedro é galhardo de figura e gentil de modos, que o casal real, Afonso e D. Beatriz, arde de desejos de vos abraçar como filha e que Lisboa é uma cidade junto do mar, agradável e alegre. Que vêm para aqui fazer esses temores infundados? - Inês, já saí de minha casa noutra ocasião. Era apenas uma criança e tive de saber o que são noites sem fim, sentindo saudades de vozes amigas e da paisagem que, todos os dias, recordava. Fui em busca de um destino que me parecia feliz e só achei solidão e tristeza. Quem me garante que a história não vai repetir-se?
 - Não devíeis recordar tão triste episódio. Também eu parti de casa sendo criança e nem por isso tenho medo. – Mas encontrastes uma família e eu só achei desprezo. E se fosse esse o meu destino? - Não tem de sê-lo. Talvez tenhamos trocado de sortes e que agora acheis a felicidade e eu, as lágrimas. Em qualquer caso, não estou preocupada. À nossa frente temos uma aventura que nos levará a conhecer novas terras, novas gentes e novos costumes. Espera-nos, o que não é pouco, a excitação da descoberta. - Ou a decepção perante a descoberta. - Não será o caso, Constança. O astrólogo consultado pelo vosso pai assegurou que vos aguardam grandes venturas. Falou de dias de amor, de ardores e de paixões. De novas vidas que assomam e de outras que se apagam. De risos de crianças e das alegrias de mãe, depois de lutos justamente lamentados.
 - E quem vos assegura que essa vida que se apaga não seja a minha? Ou que me estão reservados esses ardores que confundem amores e alteram consciências? - Tende calma e raciocinai! - respondeu Inês, visivelmente alterada. - A carta falava de amores: dos vossos com o vosso futuro esposo. De ardores: dos que ele, arrebatado de paixão, sentirá quando a vossa beleza for elogiada por todos. De risos infantis: os dos filhos que Deus vos concederá. E, por fim, de momentos felizes que se sucedem a momentos tristes. Pois bem, como eu a interpreto, a profecia refere-se logicamente ao governo ditoso do infante Pedro e à morte inevitável de Afonso IV de Portugal, que Deus guarde.
Constança limitou-se a fazer um gesto de resignação. Os passos da ama que, ignorando que Inês se lhe antecipara, acudia a despertá-la, poupara-lhe o esforço de responder à amiga. Invejava o optimismo de Inês. Talvez não tivesse percebido, como ela, que a esperavam dias felizes e um destino glorioso! No entanto, o coração avisava-a de que uma névoa espessa e escura, como a que costumava cobrir a várzea banhada pelo Duratón em Novembro, se espalhava sobre o seu futuro em Portugal. Contudo, sabia também qüe, feliz ou desgraçado, aquele era o seu destino e que não estava na sua mão modificá-lo. Sem sair do seu mutismo, levantou-se e deixou que D. Leonor, Inês e as aias preparassem a partida».

In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «Entre guerras e pendências, passaram-se quase dois anos desde o anúncio da boda. Constança, já afectada por uma má experiência, desesperava ao pensar que o seu futuro não passava pelo casamento…»

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De como o cavaleiro começou a sua narrativa
«(…) Desagradou-lhe que a amiga fosse dada de presente, em troca de prebendas e honras para o Infante. Mas, sobretudo, ficou desesperada ante a certeza de que Constança, a única referência fixa da sua vida, deveria mudar-se para além do Douro. De novo, como quando era criança, voltou a sentir a angústia de crer que estava só e desamparada. Não foi assim. Horas mais tarde, depois de convidados e familiares se terem retirado e de se ter visto livre de conversas e de compromissos, Constança foi à procura de Inês. Encontrou-a num dos terraços do castelo, encolhida e chorosa. Uma vez mais conseguira enganar D. Maria e tinha-se escapado das abóbadas de pedra para, a céu aberto, falar com as estrelas. Constança aproximou-se e sentou-se ao lado dela.  - A que se devem essas lágrimas? Acaso pensaste que me ia embora sem ti? Inês abraçou-se à amiga.
 - Ouve. Falei com o meu pai. Pedi-lhe que vás comigo. Não posso, não quero separar-me de ti. O que ia ser de mim, numa terra estranha, se não pudesse contar com a tua alegria, sem a tua força? Repara que não sou como tu. Eras ainda uma criança quando chegaste a Peñafiel e logo nessa altura soube que nos completávamos. Tu dás-me o ânimo de que careço. Fazes-me ver a luz e a cor de cada dia, de cada hora. Em troca, procuro que sossegues e arranjo-te coisas vulgares de que nem imaginas necessitar. Não, Inês. Não podem separar-nos. Que sei eu acerca do que me espera para além do Douro? Que sabes tu acerca daquilo que a vida te trará? Temos de descobri-lo juntas.
Inês encarou-a, de olhos bem abertos. Com os olhos ainda cheios de lágrimas, sorriu e fez um gesto de assentimento. E depois, como se procurasse a mãe ausente, descansou a cabeça no regaço da amiga. Ficaram assim até que as sobressaltou a voz aguda de Maria:
 - Menina Inês! Menina Inês! Louvado seja Deus que vos encontro! Leonor, vinde, estão aqui as duas. D. Blanca perguntou-nos por vós e não soubemos responder. Ides apanhar um resfriamento com a humidade da noite. Vamos! São horas de recolher! Com uma atitude quase infantil, Inês e Constança obedeceram às ordens imperiosas das amas. Decerto eram horas de descansar. Apenas dispunham de uns meses para preparar aquela que se anunciava como a grande viagem das suas vidas.

Um amor que confunde palácios e governos
A partida não foi tão rápida quanto se esperava. Os ventos de guerra voltaram a pôr frente a frente o monarca castelhano e o infante João Manuel, e o Rei de Portugal não se manteve de fora. Depois, as duas coroas resolveram voltar-se contra os mouros. Portanto, a guerra tornou-se inevitável e devia conduzir à assinatura de uma nova paz que permitisse ao Rei de Castela aceitar como Rainha de Portugal aquela que um dia desprezara como companheira de trono e de leito.
Assim, entre guerras e pendências, passaram-se quase dois anos desde o anúncio da boda. Constança, já afectada por uma má experiência, desesperava ao pensar que o seu futuro não passava pelo casamento. Inês partilhava do desespero da amiga não tanto por ter pressa de se casar, pois não havia promessa de amores no horizonte, mas por sentir-se presa numa espiral de interesses, amizades e inimizades que lhe eram totalmente estranhas. Conforme era costume, Constança procurava resignar-se, enquanto Inês discorria sobre a difícil condição do seu sexo. Porém, para não piorar a disposição da amiga, calava as preocupações e dava menos importância ao assunto. Por fim, uma vez apaziguado o reino, a viagem foi fixada para o final da Primavera de 1339. No dia da partida, Inês despertou presa de uma grande agitação: - Vamos, Constança! Como podeis estar ainda a dormir? Levantai-vos, temos de partir.

In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «… a sua amada filha D. Constança Manuel estava comprometida a casar-se com o infante Pedro, herdeiro do trono português. ‘Não’. Não lhe pareceu justo que “Constança” não tivesse ‘sido avisada antes do anúncio’. Não achou bem que não tivessem pedido consentimento à interessada»


jdact e cortesia de costapinheiro

«Os anos tinham convertido Inês numa adolescente desenvolta e esbelta. O sol que se filtrava através da janela enorme fazia brilhar ainda mais aquela abundante cabeleira dourada e o pescoço comprido, o colo de garça, cantado pelos artistas que frequentavam o castelo, parecia ainda mais branco e mais perfeito. Não. Não lhe faltavam qualidades, nem aspecto. Inês tinha, sem dúvida, porte de rainha. Alheia às reflexões da amiga Inês continuava a palrar sem descanso. Que sim, que Constança havia nascido para reinar que o manto real lhe faria realçar ainda mais os cabelos de azeviche e os olhos escuros, que sim, que a brancura da sua pele era digna de um rei; e continuava a falar, sem cessar, das amenidades de um Portugal que, nas recordações dos seus anos de criança, assimilava às verdes colinas e à placidez das suas terras galegas.
 - Sim - concluiu. - O meu amado senhor João quer dar-te o destino de rainha que te corresponde. Vendo-te assim, uma moça tão bela, bem deve lamentar o nosso rei Afonso XI, que Deus guarde, a maneira como te tratou em menina É claro que… - aqui sorriu, com brejeirice, talvez não te agrade a ideia de virem a chegar a Portugal as palavras bonitas de certo jovem, aquele que nas justas enverga a faixa que lhe bordaste e que gosta de te acompanhar durante o passeio matinal. Constança não deu resposta. Inês até tinha razão. Álvaro Fáñez de Valbuena costumava concorrer, como fidalgo da terra, às justas e torneios realizados no castelo. Em mais de uma ocasião, sendo um apaixonado das rimas, havia dedicado versos a Constança e, durante o último torneio, tinha defendido as suas cores. Também era verdade que, em mais de uma ocasião, dera consigo a pensar nele e ficava nervosa sempre que ele estava presente, mas sabia que o seu destino estava nas mãos do pai e que este não perderia a ocasião se aparecesse um casamento vantajoso. Não se importava.
Aceitava de bom grado ser a peça decisiva para o culminar da carreira política do infante João Manuel. No fim de contas, como dizia a ama o amor era um sentimento próprio dos livros e dos romances. As mulheres da classe a que pertencia tinham um destino a cumprir: ser úteis aos pais, dar sucessão aos maridos e educar os filhos de acordo com a fé e a honra. Ela seria fiel à sua condição e agiria como tal. Continuou em silêncio. Sabia que se falasse acabaria a discutir com Inês. A amiga era mais sonhadora. Apaixonava-se com facilidade e em várias ocasiões havia suspirado ante os requebros de algum cortesão. Além do mais, recusava-se a aceitar as limitações próprias da sua condição de mulher. Certamente gostava tanto do arranjo pessoal como dos livros, dos bailes como das rezas, mas, para desespero da ama, obstinava-se em lançar-se a galope pela veiga, ou a conversar com rapazes que haviam sido companheiros de folguedos infantis, a quem agora, já crescidos, devia mostrar a reserva aconselhada pela sua condição de donzela. Uma e outra vez, evocando a figura de D. Maria de Molina, discutia com mestres e prelados as razões por que o mundo das armas e das letras estava vedado às mulheres, recusando-se a aceitar que estas devessem limitar-se ao papel de sujeitos passivos na vida. Quando, farta do discurso, Constança lhe perguntava o que faria se pudesse mudar a situação, calava-se, matutava durante uns segundos, para a seguir responder: - Não sei, mas não é justo.
Tampouco lhe pareceu justo que, poucos dias depois da partida dos portugueses, o infante João Manuel reunisse os cortesãos na grande sala abobadada e anunciasse solenemente que, segundo o acordo alcançado com o Rei de Portugal, a sua amada filha D. Constança Manuel estava comprometida a casar-se com o infante Pedro, herdeiro do trono português. Não. Não lhe pareceu justo que Constança não tivesse sido avisada antes do anúncio. Não achou bem que não tivessem pedido consentimento à interessada». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Leituras. Inês de Castro. Maria Pilar del Hierro. «Inês e Constança, seguidas a distância prudente pelas respectivas amas, continuaram a conversa durante o caminho de regresso aos seus aposentos. Por momentos, Inês deteve-se junto a uma ogiva da galeria que comunicava com a ala privada do castelo. Constança apreciou a beleza da amiga»

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«Sensíveis, inteligentes e refinadas, se o que sobressaía em Inês era a luminosidade e o calor do amanhecer, em Constança era a serenidade e o recolhimento do ocaso. E, talvez por isso, a ligação entre ambas ia-se tornando mais forte em cada dia que passava. Às brincadeiras, sucederam-se as confidências, ao estudo das línguas clássicas e das artes, os mistérios da vida, e, à rivalidade de ser mais ágil ou atrevida, a sadia capacidade de despertar a atenção dos jovens que frequentavam o castelo. A vida nos domínios do senhor de Peñafiel não podia ser classificada de monótona. Nos quase sete anos em que Inês viveu ali, o infante João Manuel, por causa da política e das obrigações da guerra, teve de se afastar com frequência das suas terras mas, quando regressava, os bailes e as festas alternavam com justas e torneios que atraíam a atenção de todo o povo. Nas ausências dele, Constança e Inês tampouco se aborreciam. Os seus dias eram ocupados com rezas, estudos, bordados, música e excursões pela veiga. Ali perseguiam borboletas e colhiam flores com que construíam coroas, que ofereciam uma à outra. Constança, mais sossegada, gostava de leitura e bordados, enquanto Inês preferia desenhar ou cavalgar, com a liberdade própria de um rapaz, pelo parque do castelo ou seguindo o curso do Duratón até este desaguar no Douro. Ambas tinham, porém, um gosto comum: assistir ao trabalho dos calígrafos que, na esplêndida biblioteca do castelo, adornavam com belas cores os livros do seu senhor.
Naquele dia de 1337, Constança e Inês foram até ao escritório, como tinham feito tantas vezes. Foram surpreendidas pela pressa de copistas e desenhadores. Um deles, um frade dominicano, que também atendia as necessidades espirituais dos habitantes do castelo, explicou-lhes o motivo de todo aquele alvoroço. Tinham de acabar uma primorosa cópia do Libro de los Enxiemplos, a última obra do infante João Manuel. Este exemplar ia ser oferecido ao monarca português, Afonso IV e, por isso, o resultado final da edição devia estar à altura de tão alto soberano. Na manhã seguinte, continuou o frade a informar, Duarte de Oliveira, o gentil-homem português que, como sabiam, passara as duas últimas semanas alojado no castelo, partiria para Lisboa juntamente com o seu séquito e tinha de levar o livro com ele. Segundo se dizia, o cavaleiro e o infante tinham chegado a acordo acerca dos graves assuntos que o português viera tratar.
Inês, mais desenvolta e sem reparar nas dificuldades que tinha o bom do frade para fixar a lãmina de oiro com que enchia as volutas de uma complicadíssima letra maiúscula, perguntou ao informador se ele sabia que negócios eram esses que mereciam que o embaixador Duarte levasse tão valioso presente ao soberano do país vizinho. O monge, depois de lhe rogar que não o distraísse, pois a tarefa exigia toda a sua atenção, respondeu: - Não sei, D. Inês, mas não seria de estranhar que, havendo nesta casa uma moça como D. Constança e estando por casar o herdeiro do trono português, o embaixador Duarte de Oliveira fosse despedido com repicar de sinos a anunciar boda. Inês olhou para Constança.
Antes que pudesse responder, a amiga adiantou-se. – Estais equivocado, frei Gonzalo. Quem iria querer-me depois de ter sido desprezada pelo rei de Castela? - Não há outra moça casadoira nesta casa - interveio Inês. - A vossa irmã, D. Juana, tem apenas um ano e não creio que o infante de Portugal queira esperar tanto tempo. - Quedais vós, minha senhora D. Inês - acrescentou o frade. - Eu? Que desvario, meu bom frade! Como é que o príncipe Pedro podia reparar em mim? Como iria o herdeiro de tão alta coroa reparar em quem chegou a esta casa para aliviar a miséria da sua própria família? Como me iria converter em rainha se, a despeito do casamento precipitado dos meus pais, arrasto comigo uma sombra de bastardia?
 - Inês, não sejais modesta - pediu Constança, a emendar a amiga. - Sabeis que o vosso pai é segundo primo de Afonso de Portugal. Se a isso acrescentardes as vossas qualidades e a vossa beleza, não careceis de mais prendas para serdes digna de um príncipe. E, além disso, o meu pai não vos negaria um bom dote. O frade voltara ao seu trabalho. Inês e Constança, seguidas a distância prudente pelas respectivas amas, continuaram a conversa durante o caminho de regresso aos seus aposentos. Por momentos, Inês deteve-se junto a uma ogiva da galeria que comunicava com a ala privada do castelo. Constança apreciou a beleza da amiga». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

domingo, 30 de setembro de 2012

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «Constança, se bem que não tão formosa quanto Inês, era de trato suave e agradável e, pouco a pouco, abandonou o hábito de se recolher em si própria e começou a abrir-se ao encanto indiscutível da recém-chegada. A jovem filha de João Manuel era uma menina introvertida e dócil…»


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«Dito isto, e já com modos de grande dama, seguida por Constança, regressou ao assento, junto da janela. Contudo, Constança continuava calada e a olhá-la com aqueles olhos imensos, inquisidores e muito abertos. Inês percebeu que, se queria derreter o gelo, tinha de tomar a iniciativa. Apontando para o céu, comentou:
- Olha aquela nuvem, senhora, parece um cão.
Misturava as formas de tratamento. Sabia que Constança não era mais uma das companheiras de folguedos que tinha tido até então mas, pela idade e por uma estranha cumplicidade que se ia estabelecendo entre ambas, não sabia bem se devia dar-lhe o tratamento devido à sua classe. Toda a sua vida continuava a manter esta ambiguidade de trato, nascida mais do hábito e do carinho mútuo do que da vontade expressa, por parte de Inês, de encurtar distâncias.
- Na Galiza andava sempre acompanhada por um cachorro a que pus o nome de Albo, porque tinha o pelo branco, da cor daquela nuvem. Não tendes um cão para vos acompanhar?
- Tive um, no lugar onde vivi até há pouco tempo. Foi uma sorte tê-lo. Era a única companhia da minha solidão e, quando se acercava e me lambia as mãos, confortava-me pensar que ele, ao menos, gostava de mim.
- Confortava-vos? Então, onde vivíeis que tão só estáveis? -É uma história comprida, Inês. Tentarei explicar-vos. Por azar e devido aos negócios do meu pai, fui privada da sua companhia e recolhida num castelo afastado, sem mais amigos que a minha ama e o cão. O resto, tudo hostilidade e silêncio. Inês, em ‘A Limia’, vivias com gente da tua idade? Inês olhou-a com dó. Até então tinha tomado o silêncio de Constança por indiferença, ou até por desprezo pela sua condição.
Porém, as palavras dela confirmavam os rumores sobre o frustrado compromisso matrimonial de Constança com o rei Afonso XI de Castela. O seu mutismo era, portanto, a consequência inevitável de ter crescido em solidão e afastada de tudo o que amava.
Voltou a recordar-se do solar familiar de ‘A Limia’. Vieram-lhe à memória as correrias por entre carvalhos e azinheiras, rindo-se com os irmãos e escondendo-se da ama nas sombras do bosque e não pôde deixar de sentir pena de Constança. Aquela menina de doze anos, que lhe havia parecido distante pelo seu silêncio, era, no fundo, digna de compaixão. Não era ela, Inês, a parente pobre, que precisava de companhia. Sorriu-lhe abertamente e, como era seu costume, em vez de explicar quem tinham sido os seus companheiros na Galiza, respondeu-lhe com outra pergunta.
- Não gostarias de ter um cão?

Ao contrário do que pensara, e como vaticinara a ama, Inês habituou-se rapidamente a Peñafiel. A chave foi Nieve, um cachorro branco, brincalhão e travesso que, perante o assombro da amiga, obteve sem dificuldade da generosidade do infante João Manuel. Os olhos inocentes e escuros do cão, as suas correrias de uma para a outra, a obrigação de encher-lhe a escudela ou a maneira que tinha de aninhar-se alternadamente nos dois regaços, criaram entre ambas a cumplicidade própria de pessoas que têm uma tarefa comum.
Constança, se bem que não tão formosa quanto Inês, era de trato suave e agradável e, pouco a pouco, abandonou o hábito de se recolher em si própria e começou a abrir-se ao encanto indiscutível da recém-chegada. A jovem filha de João Manuel era uma menina introvertida e dócil que, com o tempo, iria converter-se numa mulher resignada, de sorriso fugaz e palavras brandas. Talvez por isso, apreciava o riso franco de Inês, o seu carácter inquieto e até a sua capacidade de correr em campo aberto, de se relacionar com criados e senhores ou a desenvoltura com que, se necessário, trepava às árvores do pomar ou se encarcapitava pelos declives da colina em que assentava o castelo. Além disso, o infante João Manuel não se revelou um amo zeloso ou severo, e a presença de Maria del Carrión contribuiu para aplacar qualquer assomo de melancolia.
De facto, o carinho com que os 'Manuel' a tratavam compensava a falta de comodidades do castelo e a inclemência de um clima que a incomodava. Na Galiza, sempre a sua pele fora fresca e elástica, aqui ficava seca e pouco flexível. Tinha de pigarrear constantemente para aclarar a voz e de molhar os cabelos com água de rosas para manter aquela ondulação de que tanto se orgulhava. Inês, que nunca havia experimentado frios ou calores extremos, sentia-se agora gelar no Inverno e parecia morrer de calor durante o Verão. Contudo, tal como a pele se suavizava com o bálsamo que, receita herdada de uma serva moura, Constança lhe aplicava na testa e nas faces, o trato afectuoso que esta lhe proporcionava tranquilizava-lhe a alma e via-se, cada vez com maior frequência, a dar graças a Deus pela sorte que tivera.
Bastaram poucos dias para se perceber que as duas amigas eram o verso e o reverso de uma mesma moeda. Sensíveis, inteligentes e refinadas, se o que sobressaía em Inês era a luminosidade e o calor do amanhecer, em Constança era a serenidade e o recolhimento do ocaso». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «Levantou-se e, para fazer qualquer coisa, começou a remexer nos poucos brinquedos que tinha trazido da Galiza. É que, para os trazer, tivera de os esconder na bagagem. Tanto o pai como a ama a tinham advertido de que, aos dez anos, uma menina está prestes a tornar-se mulher»


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«Naquele momento ouviu-se a voz jovial de D. Blanca. - Vamos, senhoras, para quê tanta cerimónia.
- É evidente que a presença de tantos estranhos vos incomoda. Constança, acompanhai Inês aos seus aposentos e aí, enquanto a ama dispõe dos seus pertences, podereis começar a falar das vossas coisas. Deveis advertir a nossa hóspede dos horários, dos hábitos da casa, de quando e como deverá despachar com o capelão e ouvir os ensinamentos dos preceptores que compartilhareis.
Inês olhou para Constança, esperando dela um gesto, um sinal a indicar que podia retirar-se e que direcção tomar. Sentia-se oprimida pela presença de tantos estranhos e pela magnificência do salão. No entanto, Constança continuava panda diante dela, com um ar de admiração nas faces incendiadas. Timidamente, Inês estendeu a mão para ela, como que a indicar-lhe que avançasse, mas a jovem dona do castelo ficara como que petrificada. A voz rotunda do infante João Manuel veio arrancá-la daquela estupefacção.
- Haveis ouvido o que disse D. Blanca. Vá lá, Constança, andai.
- Já' de seguida, pai, como mandais - e , voltando-se para Inês, pegou-lhe na mão, dizendo-lhe num fio de voz - Vinde, Inês.
No caminho para os quartos não trocaram palavra. As amas, pelo contrário, pareciam conhecer-se desde sempre e palraram sem descanso a explicar a viagem, os hábitos do castelo, a debater as vantagens e os inconvenientes de viver ali.
Chegadas aos quartos, Constança sentou-se sobre um almofadão que cobria o assento de pedra colocado junto da janela ogival que abria para a veiga do Duratón. Com um gesto, indicou à nova amiga o assento em frente do seu.
Inês bem gostaria de saber as razões que levavam Constança a manter o silêncio e a não tirar os olhos dela. Acanhada, tentou distrair-se com o panorama que o quebra-luz da ogiva deixava entrever. Mas nem assim conseguia evitar o olhar inquisitorial da herdeira dos Manuel.
‘É uma presumida’, pensou. Tem a aspereza desta terra castelhana e a altivez dos seus castelos.
Levantou-se e, para fazer qualquer coisa, começou a remexer nos poucos brinquedos que tinha trazido da Galiza. É que, para os trazer, tivera de os esconder na bagagem. Tanto o pai como a ama a tinham advertido de que, aos dez anos, uma menina está prestes a tornar-se mulher e, como tal, deve despedir-se de brinquedos e travessuras, para pensar no seu destino de esposa e mãe.
A mãe, D. Aldonza, tinha casado aos catorze anos e a avó dera à luz o seu primogénito quando tinha apenas treze. Por conseguinte, ela devia preparar a despedida da infância. É claro que, pensou aliviada, a sua nova amiga se lhe anteciparia. Teria agora doze ou treze anos, pelo menos.
Sobressaltou-se ao ouvir a voz de Constança vinda de trás de si.
- Posso mexer-lhes?
- Mexer em quê? Nos meus brinquedos? Tu já és muito crescida...
- Não, nos teus cabelos.
-Para que queres mexer nos meus cabelos? São como os teus.
- Não, os teus parecem de oiro. Por mais que olhe para eles, não consigo ter a certeza de que são como os cabelos comuns.
Inês sorriu. Tinha orgulho na sua melena desde que ouvira o pai dizer que aquela cabeleira loira a fazia parecer uma das princesas e fadas que, nas lendas, povoavam os vizinhos bosques asturianos.
Porém, o que a fez mesmo sorrir foi a descoberta da razão daquele olhar insistente de Constança. Afinal, não tinha a ver com as roupas simples que trazia, nem com a sua falta de desenvoltura no ambiente palaciano. Estava a admirar-lhe os cabelos! Divertida, e sabendo a partida ganha, olhou-a bem de frente e, como se lhe fizesse grande mercê, disse:

- Está bem, podes tocar neles. Mas não me despenteies. E acrescentou, com displicência. - Os teus caracóis também são bonitos... ainda que escuros.

Dito isto, e já com modos de grande dama, seguida por Constança, regressou ao assento, junto da janela». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Costa Pinheiro e jdact

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «… uma dama muito mais jovem do que ele, de feições suaves e cujo ventre abaulado era um sinal claro de que estava prestes a dar à luz, fez sinal para que Inês se aproximasse. Entretanto, o cavaleiro que Inês identificara, acertadamente, como o infante João Manuel, chamou-a pelo nome»



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«Já dentro do pátio, Inês e a ama desceram da liteira e, enquanto era descarregada a exígua bagagem, um criado conduziu-as, através de um dédalo de corredores álgidos e sombrios, à presença do senhor do castelo. Inês não conseguiu evitar uma expressão de assombro ao ver a magnificência do salão. As paredes estavam adornadas de tapeçarias e cortinados e havia uma dupla galeria interior, a que se chegava através de quatro escadas de caracol, para permitirem à assistência contemplar as recepções, bailes, ou trovas, tudo com a devida discrição e reserva. O ambiente era aquecido por umas quantas braseiras de cobre colocadas em pontos estratégicos e algumas peças de cerâmica, de fabrico inequivocamente muçulmano, eram, só por si, provas das incursões do dono do castelo por terras de infiéis.
Ao fundo da sala, junto de uma mesa comprida e sentados em confortáveis cadeirões de madeira e couro, distinguiu um cavaleiro de meia-idade, acompanhado de uns criados e alguns cortesãos. A seu lado, uma dama muito mais jovem do que ele, de feições suaves e cujo ventre abaulado era um sinal claro de que estava prestes a dar à luz, fez sinal para que Inês se aproximasse. Entretanto, o cavaleiro que Inês identificara, acertadamente, como o infante João Manuel, chamou-a pelo nome.
- Querida Inês! Bem-vinda sejais - saudou, fazendo um sinal a Maria del Carríon para que se detivesse. - Aproximai-vos, menina. Inês deu uns passos e, instintivamente, voltou-se para a ama a implorar-lhe, com o olhar, que a acompanhasse. Vendo que o infante rectificava o gesto, Maria del Carrión colocou-se junto de Inês e empurrou-a suavemente pela cintura, fazendo-a avançar. A presença da ama a seu lado pareceu dar-lhe ânimo e, com passo decidido, foi ao encontro dos anfitriões.
- Sede bem-vin da a esta que já é a vossa casa. Muito me haviam falado dos vossos méritos e agora posso confirmar que sois delicada de feições e contida de gestos. Isso, sem dúvida, diz muito sobre os vossos dotes e comedimento.
A voz grave e imponente do infante João Manuel ressoava pelo salão e conferia à cena um certo ar teatral. O infante, sem parecer muito preocupado com o efeito das suas palavras, continuou a falar:
  • - Sabereis por vosso pai que haveis chegado a esta casa por minha vontade. Desejo que façais companhia a minha filha Constança, que a sirvais em tudo o que precise e que esteja na vossa mão proporcionar-lhe. Tende em conta que nem por isso deveis considerar-vos uma criada, pois não vos faltarão moças, cristãs ou mouras, para vos servirem. Pelo contrário, quero que vejais em D. Constança uma irmã e em D. Blanca de la Cerda, minha esposa, a mãe que tão cedo perdestes. Pela minha parte, estarei atento à vossa educação e corresponderei na medida dos vossos merecimentos que, pelo vosso porte, presumo serem do mais alto grau.
Vinde, Constança - acrescentou ao fazer adiantar-se uma rapariga de tranças de cabelo escuro e uns imensos olhos castanhos, que olhava a recém-chegada fixamente.
Então, é esta a D. Constança Manuel, pensou Inês. Que diferente dos pequenos com quem tinha brincado até então! Os modos cortesãos e o discreto comportamento de Constança eram-lhe em absoluto estranhos. Em ‘A Limia’, servos e senhores misturavam-se no esforço comum que permitia a sobrevivência. Além disso, tinha sido criada entre rapazes, pois era cinco anos mais velha do que a única irmã, Juana, que desde a morte da mãe crescera junto da ama-de-leite que a amamentara.
Constança acercou-se dela e saudou-a com uma reverência cortês. Inês, atónita, não soube como responder e procurou conselho nos olhos da ama que, com um gesto, lhe indicou que devia retribuir a saudação. Ao baixar a cabeça, os olhos de Inês detiveram-se no rico brocado do vestido de Constança. De um carmesim forte e recamado com fios de prata, os brilhos do metal e da seda confundiam-se numa mescla que a fascinou. Instintivamente, estabeleceu a comparação com a lã parda da sua capa de viagem e enrubesceu. Qual não foi a sua surpresa quando, ao levantar os olhos, viu que o rubor também se tinha apoderado das faces de quem a recebia». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Inês de Castro. Leituras. Maria Pilar del Hierro. «Bem longe estava de saber que seria outro o rio, o Mondego, o que, com o correr do tempo, seria testemunha privilegiada dos dias mais felizes da sua vida. E, claro, tampouco podia adivinhar as muitas e copiosas lágrimas que havia de verter nele»



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«Depois de vários dias de viagem incómoda, a comitiva chegou, finalmente, a terras de Peñafiel. Já clareava quando a voz suave da ama, Maria del Carrión, a despertou:
-Inês, Inês, desperta. Já se avista o castelo dos Manuel.
Ficou surpreendida com a expressão sorridente da ama. Logo de seguida, percebeu o motivo. Maria tinha nascido em Quintanilla de Arriba, uma pequena aldeia, mas o amor tinha-a levado para as brumas do Norte. Agora, viúva, voltava à terra natal.
- Estás contente, ama. Regressas a casa.
- Estou contente por ti, minha menina. Castela é nobre e poderosa. Como os fidalgos, escolhe aqueles que senta à sua mesa mas, uma vez abertas as portas, dá-se sem reservas. Tenho a certeza de que esta terra te trará a ventura que mereces e fará que se cumpra o teu grande destino.
- Falaste com a ‘meiga’, (bruxa galega) ama?
-É claro que sim, Inêsinha. Assegurou-me que um príncipe te amará pelo teu colo de garça e pelos teus cabelos loiros, e que as tuas fontes virão a ser cingidas por uma coroa real.
Inês sorriu e arredou a cortina da liteira. Por entre a bruma distinguiu um pequeno casario de pedra avermelhada e, mais atrás, uma colina sobre a qual se erguia a silhueta altaneira de um castelo.
- Maria, onde estamos? Parece um barco.
- Não é barco, menina, é castelo. Um bom navio de pedra com que se pode navegar por mares de trigo e viver novas aventuras.
A luz rosada e nebulosa do amanhecer delineava o perfil da colina, de modo que o castelo parecia emergir de um mar de nuvens e flutuar no ar. Realmente, Inês não se enganara. A configuração do castelo fazia-o parecer um navio de popa afilada, em que a torre de menagem fazia as vezes de vela enfunada pelo vento.
- Parece ser vila rica, Maria. Tem muralhas e creio avistar igrejas e conventos.
- Segundo me disse o meu amo, Pedro, teu pai, Peñafiel é um feudo da família Manuel desde há várias gerações. Sempre que João Manuel consegue afastar-se dos negócios do Estado e das artes da guerra, gosta de vir morar naquele castelo, onde escreve os seus livros e comanda uma legião de amanuenses e desenhadores de iluminuras que se dedicam ao trabalho de ampliar a biblioteca.
- Nesse caso, o meu tio sabe de livros e de poesia.
- Sim, Inês, é voz corrente que o vosso tio gosta da pena e tem um grande talento para as letras. A seu lado aprendereis mais de artes e latins do que se tivésseis ficado na aldeia onde, infelizmente, só poderíeis ficar a conhecer esconjuros de bruxas ou métodos de lavoura...
- Talvez. No entanto, Maria, é lá que tenho o meu pai, os meus irmãos e desatando a chorar, a minha mãe enterrada.
- Logo vereis que D. Constança é boa companhia e, quanto ao infante, um pai amoroso para ambas. Vamos, secai essas lágrimas e sorride. Ver-vos chegar em pranto causará má impressão aos vossos benfeitores.
Assim falou a ama e com estas palavras se tranquilizou a alma de Inês. À medida que se acercava da vila, a curiosidade de saber o que a esperava substituía a nostalgia do que ia ficando para trás. Da liteira, entreteve-se a contemplar o calmo fluir das águas do Duratón. Bem longe estava de saber que seria outro o rio, o Mondego, o que, com o correr do tempo, seria testemunha privilegiada dos dias mais felizes da sua vida. E, claro, tampouco podia adivinhar as muitas e copiosas lágrimas que havia de verter nele. A comitiva avançou pela estrada que, como uma grande serpente, se enroscava em volta da colina coroada pelo castelo. O silêncio era praticamente absoluto e nada dava a entender que por detrás daqueles muros havia vida. Duas sentinelas guardavam o portão que dava para o pátio do castelo reservado aos cavalos. Tão firmes eram as suas figuras, tão hierático o porte, que mais pareciam estátuas de pedra colocadas junto dos robustos muros de alvenaria.
Foram eles quem, depois de ditos o santo e a senha combinados, deram passagem aos viajantes». In Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-23-3081-7.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT