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sexta-feira, 25 de março de 2016

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura»

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«(…) Permaneci ali sentada, aturdida, em frente daquele amontoado de escombros e rodeada por pessoas e crianças que me fitavam de perto, atónitas, enquanto ia engolindo, a custo, o chá com cardamomo. A humidade escorria-me pela face, como uma espécie de orvalho das noites de Verão que tínhamos no Faial. Voltei a casa ainda muito combalida pela minha primeira experiência na Índia. Toda a família concordou então que devia descansar uns tempos antes de voltar a mergulhar noutra dura experiência da vida indiana. Eram já horas de jantar e tinha de me refrescar para tirar de mim a sujidade e o pó daquele dia e, quem sabe, talvez mesmo limpar-me dos pensamentos mais íntimos e da tristeza que me acabrunhava. Esta era a primeira refeição principal desde a nossa chegada. E eu bem sabia que Taí fizera uso de toda a sua culinária para nos preparar um menu tradicional. A família reuniu-se na sala de jantar e todos se foram sentando nos lugares habituais à volta da enorme mesa. Bhauji ficou à cabeceira, Taí ao seu lado direito e Mohan, o filho mais velho, do lado esquerdo. Mohan tinha sido um bom estudante e agora trabalhava no Departamento de Estatísticas do Governo de Bombaim. Ao seu lado estava Kishori, a mulher, e, completando a roda, seguia-se Shalini e Meena, a filha mais nova de Taí. Na cabeceira oposta, Lica e eu. À frente de cada um de nós havia um thalli, um enorme prato de metal inoxidável, com uma borda à volta. Do lado esquerdo do thalli tinham colocado um copo com água.
O criado trouxe para a mesa os chapatis, uma espécie de pancake, feito com farinha, água e sal, que serve de pão nas refeições indianas. Depois vieram mais três travessas, com diferentes preparações de vegetais com especiarias, servidas em pequenos recipientes do mesmo metal e colocadas na borda, mas dentro do thalli. Estes preparados, que se assemelham a um guisado, são chamados subji, ou chàque, e fazem parte de todas as refeições. Usando as duas mãos, tirei um bocado do chapati e, dobrando-o como se fosse uma pequena concha, meti tudo na boca de uma só vez. Assim me fui servindo dos diferentes recipientes, observando sempre como os outros faziam. Infelizmente, não reparei nas mãos. Foi-me dito imediatamente que nunca devia usar a mão esquerda para pegar na comida. Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura.
O diferente uso das mãos era verdadeiramente extraordinário. Chegava a ser bastante desrespeitoso se estendêssemos a mão esquerda para aceitar uma oferta ou qualquer coisa que nos dessem. O mesmo acontecia em cerimónias tradicionais ou religiosas, quando se recebia o prassad, uma espécie de água ou doce bento. De futuro teria de me lembrar sempre disto. O criado voltou com o prato principal, arroz cozido sem sal e o caril de peixe. No centro do thalli foram servidas umas colheres de arroz e, ao 1ado, perto do arroz, o caril. Nunca se deve servir o caril por cima do arroz, de forma nenhuma, disseram-me, em casa de um saraswat-brahma nunca se deve fazer uma coisa dessas. Isso é um mau hábito das castas inferiores. Depois do caril de peixe foi servido, uma vez mais, arroz, mas desta vez com iogurte. Esta parte da refeição acabava com o cuddi, uma bebida fresca feita com leite de coco e especiarias. Terminado o repasto, levantámo-nos e dirigimo-nos ao compartimento seguinte, onde havia lavabos. Era aqui que se podia bochechar e lavar os dentes e as mãos. Só depois desta primeira ablução parcial é que a fruta e os doces eram trazidos para a mesa. Depois do jantar fomos para a sala e começou a conversa. Todos falavam animadamente, oscilando entre duas ou três línguas diferentes. Todos falavam, menos eu. Completamente exausta pelo longo dia, fiquei de 1ado, enquanto as experiências do dia me iam passando pela mente, mais parecendo um sonho do que uma realidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias»

Cunhados 
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«(…) Em casa, todos foram de opinião que devia pôr as minhas roupas europeias de lado. Shalini, toda desembaraçada, foi imediatamente buscar um magnífico sari de seda branca, estampado com enormes flores cor-de-rosa. As blusas dela serviam-me perfeitamente e pude escolher com facilidade uma da mesma cor das flores. Nunca tinha usado um sari, mas senti-me razoavelmente confortável e fiquei logo pronta para sair. No entanto, por precaução, seguraram-me as pregas com um grande alfinete de segurança, não me fosse suceder algum imprevisto. Pouco depois saí com Bhauji no seu novo Oldsmobile, guiado pelo motorista. O cenário era espectacular. O mar cortava a costa já dentada, formando aqui e ali pequenas enseadas. Por vezes abria caminho terra adentro, como pequenos fiordes, formando extensos backwaters que reflectiam os altos montes rochosos que se elevavam entre a planície e a costa. Esta paisagem dramática poderia ser um verdadeiro paraíso para os pintores se não fosse a colossal tragédia humana que acolhia. O meu primeiro passeio turístico na Índia acabara por ser uma visita ao maior campo de refugiados em todo o estado de Maharashtra.
Havia passado um ano depois da divisão da Índia, que tanta miséria e infortúnio trouxera ao povo. Depois da independência da Grã-Bretanha, o país fora dividido para formar dois países independentes. O Paquistão ficou para os muçulmanos e a Índia para todos os outros. Milhares de pessoas viram famílias e amigos separados por uma barreira artificial que daria início a um grande êxodo dos dois lados. A maior parte dos refugiados preferia vir para a Índia, visto ter sido sempre um país secular, aceitando a igualdade de religiões. Em pouco tempo milhares de famílias começaram a passar a fronteira para a Índia. E a corrente continuava. Fugiam a pé, de automóvel ou até em carro de bois, apinhados com tudo o que pudessem acarretar.
Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias. Actualmente, após tão intensa tempestade, poucos eram os tectos intactos e o campo estava num caos; muitos dos escassos valores pessoais que estas infelizes famílias tinham trazido estavam agora perdidos. Cada família procurava ficar reunida à volta do seu fogareiro. Centenas delas cozinhavam assim ao ar livre ou em qualquer canto de uma tosca barraca. Escombros e lixo viam-se por toda a parte, enquanto a miudagem, de caras sujas e roupas enxovalhadas, corria pelo campo e brincava nas poças de lama ali à roda.
O sol ia já alto e o calor apertava quando chegámos a Kalyan. O tempo estava muito abafado. Bhauji saiu do carro e foi a pé fazer a inspecção deste enorme acampamento com os outros engenheiros da localidade. Eu fiquei ali sentada à espera enquanto ia observando tudo o que me rodeava. Inesperadamente, alguém chegou ao carro, onde me mantinha sentada, trazendo-me uma chávena de chá. Aceitei de bom grado e agradeci o chá, que fumegava e cheirava a cardamomo. À minha volta surgiu logo um grupo de miúdos de caras sujas que me olhavam curiosos. Talvez por verem ali uma europeia vestida de sari! Senti-me exposta, desconfortável e com uma grande tristeza pela imensa miséria que me rodeava. A Índia dos meus sonhos, de palácios e templos, de cores vivas e beleza natural, transformara-se rapidamente numa cidade destroçada e na sordidez opressiva de um campo de refugiados destruído pelo ciclone. Senti uma dor profunda no coração. Lembrei-me com saudade da minha terra, das verdes pastagens cortadas por altas sebes de hortênsias azuis, do mar azuis, transparente, e das criptomérias, que oscilam com a brisa suave. Todo aquele mundo distante, perdido agora para mim, passou levemente pelo meu pensamento». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

terça-feira, 1 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto…»

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«(…) Estava verdadeiramente fatigada e estonteada depois daquela esgotante viagem que acabáramos de fazer Senti uma enorme tristeza. Só me dava vontade de chorar com a dor do meu desapontamento e desconforto da situação em que me encontrava. Ia já a arrastar os pés e a ficar para trás: seguiam todos em grande palreio e alheios ao que se passava. Quando chamei por Lica, ele voltou-se para mim e disse em português: … tem paciência, não te posso ajudar, o que diriam se te vissem encostada a mim? Olhei para a frente quase em lágrimas. Iam todos ligeiros, a andar naturalmente, chapinhando ao longo do terreno lamacento e irregular. Quem era eu para me queixar? Ganhei coragem e continuei a andar, como uma autómata e em silêncio, enterrando as minhas sandálias de salto alto na lama quente e escorregadia, sem mais me importar. Um pouco antes de chegarmos a casa parámos numa lojeca que vendia chá, à beira da estrada, na esperança de que houvesse qualquer coisa para comermos. Todos os serviços estavam paralisados e nada havia em casa para comer, nem mesmo pão ou leite. Ao sair do carro, Bhauji, nunca dado a muitas palavras, voltou-se para mim e disse, com um sorriso malicioso: veja lá, com a sua chegada à Índia até todo o país tremeu. Nem me lembro se cheguei a sorrir ou não.
Entrámos na loja do chá. Era uma verdadeira espelunca de madeira com um balcão por cima da sala de entrada e com uma escada bastante precária por onde se subia para lá chegar. Parecia que tudo oscilava debaixo dos nossos pés. Era mesmo para admirar como tudo aquilo não foi pelos ares na fúria do ciclone. Havia várias mesas cheias de pratos sujos e copos de chá que tinham deixado a marca em várias rodelas de chá espalhado sobre a superfície das mesas. Já nem fiz caso do cheiro das frituras enroladas em especiarias. Trepámos logo para o balcão, subindo as escadas oscilantes, cuja madeira rangia a cada pegada, na esperança de que talvez ali estivesse mais limpo. Pelo menos seria mais afastado da turba do 1.º piso. Foi-nos servido o chá. Não consegui comer nada. Fazia agora um calor terrível e o barulho tornava-se ensurdecedor. Tudo me parecia tão irreal! Quase um pesadelo. Olhei para Taí, envolta no seu sari de organdi cor-de-rosa e flores de jasmim a enfeitar o cabelo. Silenciosamente, continuava a bebericar o chá em pequenos goles, alheia a tudo o que a rodeava. Veio-me subitamente ao pensamento a ideia de uma flor de lótus caída numa poça de lama.
Quando chegámos a casa fomos levados directamente para o nosso quarto, no 1.º andar Estava exausta. Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto e de seguida entrou um criado com o chá da manhã numa bandeja. Era ainda cedo, mas a luz do dia já parecia brilhante e no céu não se via uma única nuvem. Este era decerto um grande contraste em comparação com o nevoeiro e o céu cinzento de Paris, onde as árvores já estavam nuas, em preparação para o Inverno. Senti-me mais descontraída e em paz. Sentámo-nos na cama a bebericar o chá, deliciosamente preparado à maneira indiana com leite e açúcar. Que luxo sermos servidos na cama. Pela janela aberta podia ouvir-se o som de um comboio que passava ao longe e a música de um rádio na vizinhança. De repente apareceu à porta a nossa sobrinha Shalini, que vinha dar-nos os bons dias e perguntar se eu gostaria de alinhar num longo passeio de automóvel com o pai, que tinha de ir fazer uma inspecção para avaliar os danos causados pelo ciclone. O passeio duraria todo o dia e levar-nos-ia ao longo da costa, através de uma área cortada por enseadas e backwaters de beleza excepcional. Saltei logo da cama, entusiasmada. Que sorte maravilhosa poder ver alguma coisa do país mal tinha chegado. Lica não quis ir mas eu não podia perder esta óptima oportunidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

terça-feira, 21 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido»

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«(…) Acenderam-se os sinais de apenar cintos e apagar os cigarros. Olhei outra vez para fora e franzi os olhos, forçando-me a ver melhor através daquela escuridão. Com efeito, lá estava uma fosca luzinha a piscar, muito ao longe. Continuei a perscrutar através da janela evitando olhar para Lica. Não suportava vê-lo tão desapontado. Pobre Lica, tinha esperado dez longos anos para voltar ao seu país e as luzes de Bombaim tinham sido a última visão que guardara na memória. Mas não estavam lá. As luzes não se viam.
Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido. A vida quotidiana fora severamente perturbada e a destruição era incalculável. Não admirava, portanto, que a notícia do que tinha ocorrido nos tivesse sido ocultada durante o voo pela tripulação de bordo. Havia já muito tempo que a tensão e excitação, pelo que me estava reservado para um futuro próximo, viera a aumentar de dia para dia, de tal forma que quando, finalmente, cheguei à Índia senti-me como que destituída de qualquer sensação. O impacto foi violento. Acabava de chegar a um mundo totalmente diferente, impregnado de cheiros intensos e vozes múltiplas em línguas múltiplas. As pessoas pareciam diferentes, vestidas de maneiras diversas, falando um babel de línguas estranhas e sempre apressadas, num contínuo vaivém, a empurrar carrinhos ou em discussões umas com as outras.
A confusão e o caos dos primeiros momentos desnortearam-me por completo. O grande temporal tinha causado um extenso apagão e toda a área de Bombaim estava às escuras. O edifício do aeroporto e a alfândega eram agora iluminados pelas fracas luzes de vários candeeiros petromax, cujo cheiro a petróleo se juntava aos outros odores. Todo aquele estado estava desordenado e às escuras. Quando saímos do edifício das alfândegas, chamou-me a atenção um grande grupo de pessoas que nos abanavam freneticamente. Parecia impossível, mas muitos dos nossos familiares tinham conseguido enfrentar a natureza para irem ao aeroporto. Parecia incrível terem conseguido lá chegar com tais condições atmosféricas. Fiquei admirada com o grupo que se me deparou à frente. A maior parte deles eram jovens. Havia duas raparigas que trajavam saris e tinham duas longas tranças; ao lado, quatro ou cinco rapazes que me pareciam todos idênticos em idade e aparência. Fui logo apresentada a todos eles naquela altura e várias vezes depois. Ao princípio não conseguia mesmo distingui-los.
As raparigas em saris eram a Kishori, casada com o sobrinho mais velho de Lica, e a Shalini, uma das sobrinhas, já estudante de Medicina. Pareciam tão jovens! Reparei então na senhora indiana que estava por detrás, mais baixa e de pele muito branca, que me olhava, sorridente. Nem me parecia uma figura real. Havia qualquer coisa de etéreo na sua aparência. Tinha o cabelo penteado para trás, preso num rolo e enfeitado à volta com uma pequena grinalda de jasmim branco. Os brincos de diamantes em forma de coração e um outro preso à narina direita faiscavam mesmo àquela fraca luz dos petromax. Envergava um sari cor-de-rosa de fino organdi que me fazia lembrar uma delicada boneca de Dresden. Esta é a Taí, disse Lica, orgulhoso, a minha irmã mais velha. Taí sorriu e saudou-me, juntando as mãos num namasté. Eu sorri também e fiquei calada, sem saber o que dizer Começaram logo todos a falar entusiasticamente numa língua que me era desconhecida. Riam e gracejavam com grande animação, por vezes todos ao mesmo tempo. Nem era para admirar, uma vez que Lica voltava a casa depois de dez anos de ausência.
Quando o bagageiro apareceu com as malas, despedimo-nos dos membros da família que voltavam para o centro de Bombaim e juntámo-nos a Taí e a Bhauji, o nosso cunhado, com quem ficaríamos a viver provisoriamente. Bhauji era um homem de meia-idade, alto, forte e de tez morena, homem de poucas palavras, mas sempre de bom humor. Era então o engenheiro chefe do distrito de Thana, que ficava a alguns quilómetros da cidade de Bombaim. Bhauji vivia numa enorme moradia de dois andares, rodeada por jardins, numa área mais afastada destinada a funcionários de chefia. No total, havia talvez uma meia dúzia de moradias. À volta delas havia ainda um clube e campos de jogos para uso dos moradores. O filho de Bhauji, recentemente casado vivia com eles. Em condições normais, o trajecto do aeroporto até Thana levaria cerca de meia hora de automóvel. Todavia, isso tinha-se tornado quase impossível devido à destruição causada pela tempestade. Havia árvores sem conta caídas por terra, entulhos de destroços a bloquear as estradas, de tal forma que tivemos frequentemente de nos meter através de prados, a corta-mato, para ultrapassarmos as vias bloqueadas. A certa altura tivemos de nos apear para caminharmos ao lado do carto, evitando assim que, com o nosso peso, as rodas ficassem enterradas na terra mole. Não se via nada na escuridão da noite e nem via onde punha os pés». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José

Cortesia de E. Tágide/JDACT

sexta-feira, 17 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas…»

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«(…) Embarcámos num Skymaster, preparados para uma longa viagem aérea até à Índia. Iríamos parar em Lyon, Roma, Atenas, Cairo, Darham e, por fim, Bombaim, no total, trinta e seis horas... Não havia jets nesses dias, e todas as vezes que parávamos para abastecimento de combustível ou troca de passageiros éramos levados para bons restaurantes nos aeroportos e tínhamos anda tempo suficiente para dar uma volta pelas lojas, sempre abarrotadas de artigos regionais e nacionais. Quão diferentes eram então as viagens das de hoje, em aviões que oferecem uma viagem rápida, depois do tédio das esperas prolongadas e de serviços de aeroporto demorados!
Íamos agora direitos à Índia e, à medida que o tempo passava, sentia-me cada vez mais excitada e ansiosa. Ao meu lado, Lica repetia constantemente o que eu teria de fazer ou não fazer quando lá chegássemos: como deveria cumprimentar a família e a quem me dirigir primeiro. Repetia-me os nomes e explicava-me a relação que tinham uns com os outros. Tarefa árdua quando se tratava de uma enorme família como a dos Gaitonde. Mais uma paragem antes de Bombaim. Ainda tínhamos de aterrar em Darham, no Médio Oriente. Quanto chegámos, disseram imediatamente ao comandante que o avião não poderia prosseguir viagem para a Índia. Tínhamos de ficar ali até novas ordens. Que terrível desapontamento! A seguir fomos conduzidos por um árabe alto e corpulento até às nossas acomodações improvisadas. Era já noite. Saímos com o nosso guia do edifício da alfândega e começámos imediatamente a pisar areia. Parecia que tínhamos entrado em pleno deserto. Estava tão escuro que não se podia ver além de um ou dois metros. Por fim, chegámos a umas barracas abandonadas. Teríamos de passar a noite ali o mais confortavelmente que nos fosse possível. Ao entrar notei logo que a barraca estava dividida ao longo de todo o comprimento por um corredor, com quartos de um lado e retretes do outro.
O cheiro nauseabundo de urina quase nos sufocava. Cada quarto tinha apenas uma cama de ferro com um colchão e em cima, dobrado, um par de lençóis. A janela não tinha cortinados, deixando-nos à vista de quem passasse do lado de fora. Estava um calor mortal, mas as janelas tinham sido seguras com pregos para não deixarem entrar os mosquitos da malária. O calor era sufocante e sentia as gotas de suor a escolher-me pelo corpo abaixo. Experimentei ir ao banheiro para uma rápida lavadela, mas tive de voltar a correr para o quarto, pois não havia água, o autoclismo não funcionava e o cheiro da sanita, bloqueada, era insuportável. Esta foi, sem dúvida, uma noite memorável, tirada mesmo das Mil e uma noites...
Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas não favoráveis ou a qualquer coisa relacionada com a guerra em Israel.
Começava já a sentir-me sonolenta, devido ao contínuo roncar do motor do avião, mas Lica mostrava-se cada vez mais excitado. Quantos anos tinha esperado por este momento! Olha, daqui a nada vais ver no horizonte uma enorme auréola cor de lannja reflectida no céu... São as luzes da cidade de Bombaim. É uma maravilha Olhei para fora mas não se via nada. Estava tudo escuro, escuro como breu. Não falta muito, dizia ele, vais ver é uma vista para nunca esquecer. Olhei outra vez, continuava escuro. Depois de quase meia hora e com um pouco menos de entusiasmo, Lica repetiu: já deve estar por pouco. Vai ser urna vista maravilhosa, o céu vai parecer como se estivesse em fogo, tal é o esplendor da brilhante iluminação de Bombaim. Eu continuava a olhar para aquela noite escura. De súbito ouviu-se um clique do autofalante e a seguir a voz do comandante, que anunciava: Senhoras e senhores, estamos a sobrevoar Bombaim e preparamo-nos para aterrar dentro de minutos». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Uns dias antes de partirmos para a Índia fui recebida por Olivier Messien, que, me aconselhou: ‘Primeiro comece por aprender o sânscrito e alguma coisa da filosofia indiana; a música virá depois. Foi assim que fiz’»

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«(…) Chegámos, finalmente, a Bombaim (actual Mumbai) com pouco dinheiro, sem trabalho em vista, mas cheios de sonhos. Que grande maluquice, diziam-nos. Por que não concorres a um lugar em Goa? Lica só sorria e nada dizia. Como seria possível pedir a um governo estrangeiro um lugar para ele no seu próprio país?! Não te aflijas, vamos sobreviver a isto, dizia ele para me acalmar. Porém, eu própria tinha as minhas dúvidas e a esperança no futuro começava a enfraquecer. Mas, sempre que houvesse uma pequena crise, Lica faria por me confortar, entoando baixinho os versos de Gitah: Tens só o direito ao trabalho. Mas nunca ao fruto desse trabalho. Nos nossos planos de ir para a Índia ou onde iríamos viver quando lá chegássemos tínhamos incluído Paris como uma pausa preliminar no nosso itinerário. Lica queria encontrar-se primeiro com Vijayalaxmi Pandit, embaixador da Índia nas Nações Unidas, que nessa altura operava no Palais de Chaillot, em Paris. Tinha até preparado antecipadamente um detalhado relatório sobre os prisioneiros goeses que se encontravam no Forte de Peniche e insistia em apresentar-lhe este relatório. Pela minha parte, também tinha um grande desejo de visitar o Conservatório de Paris e, se possível, encontrar-me com Olivier Messien, um dos grande compositores contemporâneos da França, que tinha sido grandemente influenciado pela música e filosofia indianas. No segundo dia da nossa jornada chegámos, finalmente, a Paris. Fazia um frio de rachar e os bagageiros estavam em greve, coisa completamente desconhecida para mim porque as greves em Portugal tinham sido proibidas com o advento da ditadura. Com os dedos tolhidos pelo frio mal podia segurar a minha maleta. Quando pusemos a nossa bagagem fora da estação, o meu grande entusiasmo por ter finalmente chegado à cidade-luz já tinha sofrido um temporário set back.
As nossas modestas acomodações tinham sido organizadas por Trimbak, um primo de Lica que estava a trabalhar em Paris. Ficámos num pequeno hotel na Rue de la Victoire, ao Chaussée d'Antin, muito perto da Opera e do Caffé de la Paix, que veio a ser o nosso ponto de encontro preferido. Foi através de Trimbak que viemos a conhecer muitas pessoas de enorme interesse para nós e que nos fizeram sentir o pulso intelectual da vida parisiense. Entre os amigos de Trimbak havia a família Duparc, em cuja residência nos reunimos várias vezes. Madame Duparc era escritora, o marido escultor e o filho organista no último ano do conservatório. Foi nos estúdios da casa Duparc que nos encontrámos com  Bragança Cunha, irmão de Tristão, o nosso amigo recluso no Forte de Peniche. Tinha deixado a Índia ainda jovem, como estudante, e mais tarde casara com uma senhora russa e tinha ido viver para aquele país. Durante esse tempo trabalhara com Lenine. O Bragança Cunha era um homem alto e de longas barbas brancas, que me faziam lembrar a figura de Tolstoi. Adorei estas tertúlias, onde debatíamos diversos problemas da actualidade, bebericando, em pequenas taças elegantes, o café de chicória que a senhora Duparc deixava preparado no samovar sobre a salamandra. Ocasionalmente, a senhora Duparc trazia uma bisnaga de leite condensado que lhe era enviada da Suíça. A guerra tinha terminado três anos antes, mas o leite era ainda muito escasso em Paris. No hotel onde estávamos o nosso pequeno-almoço constava sempre de uma chávena de café de cevada, sem leite, e de um croissant... mais nada.

O relatório sobre os prisioneiros de Peniche foi, finalmente, entregue e ainda pudemos assistir a algumas conferências no Palais de Chaillot. Uns dias antes de partirmos para a Índia fui recebida por Olivier Messien, que, com gentileza e sensatez, me aconselhou: Primeiro comece por aprender o sânscrito e alguma coisa da filosofia indiana; a música virá depois. Foi assim que fiz. No final de Novembro de 1948 tivemos de deixar os nossos novos amigos e aquela maravilhosa vida parisiense. Mas lembrar-me-ei sempre dos concertos, das visitas ao café Deux Magots, onde Sartre ia, e, acima de tudo, da amizade que as pessoas nos ofereceram». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

domingo, 24 de novembro de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Depois do fim do chamado “British Raj”, (fulano de tal…) mudou, de uma penada, o nome de ‘colónias’ para ‘províncias ultramarinas’, transformando, assim, qualquer futuro problema internacional “em assunto interno”»

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«(…) Primeiro veio Lica com Hegde e o guarda que o acompanhava. A seguir, o Keni e o Camotim. Ouvira muitas vezes o nome de Priti Camotim, este rapaz alto e simpático que Lica muito estimava e considerava quase como um irmão, mas ainda não o tinha conhecido. Priti chegara de Coimbra, onde estudara Direito, e, como os outros goeses, também estava emocionalmente envolvido com o movimento de libertação. Depois dos aperitivos fomos para a sala de jantar e sentámo-nos à mesa, nos lugares indicados. Ao lado tínhamos colocado, não muito longe de Rama, uma mesa de chá com um lugar para o guarda. Começou a servir-se o almoço. Quando chegou a altura de trazer para a mesa o caril, comecei a ficar muito apreensiva e mal podia concentrar-me noutra coisa. Lica devia ter tomado em consideração a minha ansiedade, pois, mal tinha levado à boca a primeira garfada, voltou-se para mim e disse: Está muito bom. Até suspirei de alívio! Mas logo, do outro lado da mesa, Rama acrescentou: Está mesmo delicioso. O que é?

O dia da nossa partida aproximava-se rapidamente e eu começava a ficar inquieta, com pensamentos confusos de ansiedade e de excitação sobre o nosso futuro. Estava de partida uma vez mais, mas agora, quem poderia sabê-lo? - talvez para sempre. A Índia ficava tão longe e os meios de transporte então existentes tornavam essa distância ainda maior. Partimos para a Índia em Novembro de 1948. Aquele país tinha-se libertado do jugo britânico havia apenas um ano e emergia agora uma nova Índia, vibrante e cheia de esperança num futuro brilhante. Começava também a tentar sacudir do seu solo os últimos colonizadores: França e Portugal.
A estação do Rossio estava apinhada de gente. Alguns dos nossos amigos já lá se encontravam quando chegámos. Havia carregadores com carretas cheias de malas por toda a parte. Os meus pais não conseguiam esconder a tristeza. Alguns dias antes tínhamos lido um livro que narrava a triste história de uma rapariga que casara com um jovem forasteiro de terra distante. Nas cartas para a mãe ela tentava esconder a infelicidade e a vida dura que levava na terra do marido com histórias inventadas de sonhos e fantasias. Escrevia então: Mamã, isto é tão lindo que até as maçãs do nosso pomar são enormes e de cor muito, muito azul! Durante algum tempo a minha mãe acabava sempre as longas cartas que me escrevia com a mesma pergunta: Diz-me, filha, as maçãs do teu pomar são mesmo tão azuis?
A pouco e pouco o comboio começou a andar, deixando lentamente a plataforma, com todos a acenarem um último adeus de despedida. Não pude mais esconder as lágrimas e, mal entrámos no túnel do Rossio, sentei-me desfalecida, com uma grande angústia a apertar-me o coração e banhada em lágrimas. Acordei sobressaltada. O comboio tinha parado numa pequena estação. Olhei para fora; estávamos ainda em Espanha. A manhã já ia avançada e começava a ouvir Lica no cubículo adjacente, que era a casa de banho. Ouvia-se o ruído do chapinhar de água na bacia. A nossa vida, como marido e mulher, tinha apenas começado e à nossa frente abria-se agora um vasto mundo cheio de sonhos. Nos últimos anos, Lica andara cada vez mais inquieto em relação aos problemas da Índia. Alguns meses antes tinha sofrido um grande choque: Gandhi fora assassinado. Desde então, o impulso e grande desejo de voltar para o seu país aumentava de dia para dia. Após a independência da Índia sentiu se desiludido com a situação de Goa. O primeiro congresso para a independência da Índia tinha se reunido em Belgão, perto de Goa, mas todo o subcontinente estava agora livre, excepto Goa e uns pequenos territórios que a França ainda segurava. Depois do fim do chamado British Raj, Salazar mudou, de uma penada, o nome de colónias para províncias ultramarinas, transformando, assim, qualquer futuro problema internacional em assunto interno. A partir dessa altura, Goa passou a ser considerada parte integrante de Portugal, com o lema Aqui também é Portugal. Este gesto infantil, fez-me lembrar a história do Sadhu (santo indiano), que, para fazer parar o avanço do exército inimigo, mandou estender, atravessado no caminho, o dhoti amarelo-açafrão dos Sadhus para barrar a passagem. Estava convencido de que ninguém teria a coragem de pisar aquele pano sagrado…» In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Piano. Jazz. Stefano Bollani. «Eu sabia que ele estava satisfeito, na verdade, radiante. Tinha dado o primeiro passo para o que ele esperava que fosse a última luta pela libertação de Goa. Lica foi então levado para um dos carros da polícia, desaparecendo na curva da estrada, por detrás do largo do mercado»

Cortesia de wikipedia



«Eu sabia que ele estava satisfeito, na verdade, radiante. Tinha dado o primeiro passo para o que ele esperava que fosse a última luta pela libertação de Goa. Lica foi então levado para um dos carros da polícia, desaparecendo na curva da estrada, por detrás do largo do mercado. O jogo do cão e do gato tinha terminado. Podiam todos voltar para casa. Todos, menos eu. Onde era agora a minha casa? Senti um terrível vazio à minha volta. Estava completamente´só. Tinha caído numa terra de ninguém, num limbo político. Nem leste nem oeste. Nem portuguesa nem indiana. Nem hindu nem cristã. Sem Lica estava perdida. Outra noite em branco. A minha mente num remoinho. Sabia muito bem que dentro em breve apareceriam forças externas que tentariam influenciar-me para que tomasse certas decisões, mas eu nunca trairia Lica. Agora tinha de ser cautelosa. Muito cautelosa, mesmo».

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Um dia recebemos uma carta de Rama Hegde, o nosso amigo do Forte de Peniche. Estava doente e precisava de ser visto por um especialista. Com a ajuda de um amigo de Lica, arranjou-se maneira de trazer o prisioneiro a Lisboa»

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«(…) Os nossos amigos goeses entraram logo de seguida, saudando-nos e felicitando-nos uma vez mais. Eles próprios tinham feito o almoço nas cozinhas do forte. Sentámo-nos todos à volta da mesa, saboreando pratos deliciosos e participando alegremente na conversa geral que se seguiu, enquanto os guardas, ao lado, nos observavam com olhar condescendente. Desta vez havia entre nós alguém que não conhecia. Era uma jornalista francesa que tinha acabado de chegar de Paris com o fim de visitar um dos presos, o Bragança Cunha, e que agora se tinha reunido ao nosso grupo. De vez em quando, a senhora olhava para nós de uma maneta inquisitiva, como se estivesse a consumir-se em curiosidade. Porém, a conversa entre nós não convidava a perguntas íntimas, dirigidas a pessoas que mal se conheciam.
Pouco depois, quando tomávamos o café, a jornalista voltou-se súbito para Lica e perguntou-lhe sem rodeios: O que é que o fez escolher este lugar para a sua lua-de-mel? Ninguém estava preparado para tal pergunta e tão abrupta. Estávamos demasiado envolvidos nos nossos problemas para analisarmos as razões das nossas acções. Mas a resposta de Lica foi rápida espontânea e saiu-lhe como um suspiro da alma: Homenagem ao sacrifício.

Decidimos partir para a Índia antes do fim do ano, o que nos deixou com apenas quatro meses para nos prepararmos para a viagem. Foi um tempo deveras excitante porque tive a oportunidade de me encontrar com os amigos e colegas de Lica, tanto portugueses como indianos. Lica tinha chegado a Lisboa muito antes de mim e feito muitos amigos. Os mais íntimos eram, sem dúvida, Vitória e Teresa Lavradio, filhas do marquês do Lavradio, cuja amizade perdurou até ao fim dos seus dias. Foi em casa do marquês que Lica foi apresentado à destronada rainha de Portugal, D. Amélia de Bragança, que tinha vindo a Portugal, do seu exílio em Versalhes, com uma licença especial para visitar o grande amigo marquês do Lavradio, que estava nos últimos dias de vida. Esta foi a primeira e última visita da rainha depois da implantação da República em 1910. Foi uma reunião muito emotiva entre grandes amigos, sempre muito unidos, mesmo na enorme adversidade que os tinha atingido com a extinção da monarquia e durante o exílio na Inglaterra. Foram horas tristes que marcaram os últimos vestígios de uma era que tinha deixado de existir.
À medida que o tempo de partir se aproximava, aumentava o meu intenso desejo de começar a aprender a língua do meu marido. Infelizmente, ele parecia não ter inclinação ou desejo de o fazer. Andava sempre muito ocupado ou talvez preocupado com o nosso futuro. A única ajuda que me deu nesse sentido foi ensinar-me o alfabeto indiano, o devnagari, que aprendi rapidamente e comecei a usar nas minhas notas para ele. Assim, passei a escrever-lhe em português, mas com caracteres indianos, o que veio a ficar como uma espécie de jogo entre nós. Por vezes perguntava-lhe como se preparavam alguns pratos indianos, que naqueles dias eram ainda quase desconhecidos em Lisboa. Lica dava-me então uma lista de condimentos, a maior parte deles completamente estranhos à nossa culinária, acabando por dizer, com ar convencido: junta tudo e coze bem. Depois de umas tantas experiências desastrosas, tive de desistir. Só muito depois é que vim a aperceber-me de que ele não tinha a menor ideia do que fosse a culinária, haute cuisine ou não, facto que lhe custava admitir.
Um dia recebemos uma carta de Rama Hegde, o nosso amigo do Forte de Peniche. Estava doente e precisava de ser visto por um especialista. Com a ajuda de um amigo de Lica, que era comandante da Polícia de Lisboa, arranjou-se maneira de trazer o prisioneiro a Lisboa; acompanhado por um guarda e sob a responsabilidade do meu marido, que ficaria encarregado da parte médica. Aproveitámos esta oportunidade para convidar para o almoço dois outros goeses que também conheciam o Rama, o Shencora Camotim e Datta Keni, o nosso best man, que ainda se encontrava em Lisboa. Lica andava excitadíssimo. Estava a preparar-se para, depois do exame médico, dar oportunidade ao seu amigo de passar umas horas de bom convívio antes de regressar à prisão.
Nessa manhã, ao sair para o hospital, voltou-se para mim com um sorriso verdadeiramente encantador, dizendo à queima-roupa, que os convidados chegariam para o almoço por volta das 13 horas e que esperava que eu cozinhasse um bom caril de peixe. Mas, Deus dos céus, como seria possível? Nunca tal tinha experimentado antes! Quando reparou na minha expressão de desespero, tentou animar-me, acrescentando: Não vale a pena afligires-te! Corta um coco, junta-lhe uns tomates e cebola, pó de caril e, no fim, o peixe. Como vês, é muito fácil, não custa nada. E com aquela última frase desapareceu porta fora. Nem queria acreditar no que acabara de me acontecer. Tinha de preparar rapidamente um prato exótico do qual só ouvira o nome e para uns convidados que mal conhecia. Sempre acabei por encontrar um coco na única delicatesse em toda a Lisboa onde se podiam comprar produtos de terras distantes, mas levou-me algum tempo e duas facas partidas até poder arrancar a parte comestível do coco da dura casca que o envolvia. Estava ainda a acabar de melhorar o mais possível o sabor do meu caril de peixe quando os convidados começaram a chegar». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

quinta-feira, 2 de maio de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Eram todos homens de extraordinária coragem que se tinham unido numa causa comum, a luta contra a ditadura salazarista, que quase tinha transformado Portugal num enorme campo de concentração. Lutavam pelas mais elementares liberdades e direitos comuns»

A primeira foto com sari depois do casamento
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«Peniche é uma pacata cidade situada à beira-mar, poucos quilómetros a norte de Lisboa. É tradicionalmente conhecida pela pesca e pelas delicadas rendas de bilros. Ainda me lembro do que vi quando a visitei pela primeira vez com o meu pai. As mulheres do povo sentavam-se então às portas das casas com os cochins de bilros à frente, trabalhando incessantemente nessas rendas maravilhosas, enquanto esperavam pelos maridos, que andavam à pesca no mar alto. As grandes ondas do oceano rebentavam contra os rochedos e as grossas paredes do velho forte, construído sobre a pequena península rochosa. Por detrás daquelas paredes estavam enclausurados muitos homens, alguns ainda jovens, que tinham sacrificado as suas vidas por um ideal. As pessoas da localidade iam e vinham nas suas azáfamas quotidianas, sem se aperceberem das vidas restritas e destroçadas daqueles que se encontravam dentro daquelas espessas muralhas. Este velho e delapidado forte, construído há muitos séculos pelos árabes, ainda antes de Portugal ser uma nação, servia agora de prisão para reclusos políticos. Todos estes prisioneiros eram homens de grande qualidade moral e intelectual que compartilhavam diferentes ideologias políticas. Havia entre eles republicanos e democratas, comunistas, socialistas e até mesmo anarquistas. Eram todos homens de extraordinária coragem que se tinham unido numa causa comum, a luta contra a ditadura salazarista, que quase tinha transformado Portugal num enorme campo de concentração. Lutavam pelas mais elementares liberdades e direitos comuns.
Entre eles havia um grupo de goeses que tinham tomado parte na última revolução para a libertação daquela colónia do jugo português. Fazendo parte desse grupo, estava um velho amigo e colega de Lica. Até poucos anos antes eu ignorava totalmente que houvesse uma luta de goeses pela sua independência. Ninguém à minha volta parecia estar a par do que se passava. Ninguém mesmo o poderia saber, pois o povo, em geral, era sempre deixado em perfeita ignorância de tais assuntos, o que, aliás, era coisa fácil de manter, um vez que a imprensa era censurada. Mas, à medida que ia tendo mais conhecimento sobre a situação, através de Lica, fui-me apercebendo, dolorosamente, da enorme injustiça cometida para com o seu povo. A persistente e secular perseguição aos hindus, pela simples razão de professarem uma religião diferente do catolicismo, era mesmo inacreditável. As tradições e os costumes hindus eram considerados incivilizados pelos portugueses e, evidentemente, eliminados a todo o custo.
Uns anos antes de sair dos Açores já tinha tido a minha primeira experiência do que era a corrupção política quando o meu pai foi temporariamente suspenso do ensino. Isso deu-se por ter tido a audácia de publicar uns artigos em que mencionava certas irregularidades levadas a efeito pelas autoridades locais. Sem o apoio da justiça, numa sociedade injusta, isto deixou-nos com um sentimento de irremediável desespero. Mas este incidente, que nos tinha parecido uma amarga experiência, não era nada comparável ao sofrimento que Portugal tinha causado, ao longo do tempo, aos hindus de Goa.
A partir do momento em que visitámos pela primeira vez os nossos amigos no forte decidimos que a nossa lua-de-mel seria ali mesmo, em Peniche, e que passaríamos todo o tempo que nos fosse permitido na prisão com os nossos amigos reclusos. Chegámos naquela sexta-feira à tarde. Deixámos as malas no primeiro hotel decente que encontrámos e fomos de corrida para o forte, chegando mesmo a tempo da ultima visita do dia. Os prisioneiros foram então chamados à nossa presença: Inácio de Loiola, advogado, Tristão de Bragança Cunha, escritor; Laxmicant Bhembre, professor, Purshotham Kakodkar, político, e Rama Hegde, médico, amigo e colega de Lica. Vieram todos juntos para nos felicitarem e logo de seguida, com grande surpresa nossa, convidaram-nos para um almoço no dia seguinte, ali mesmo no forte, para festejar o nosso casamento. Já tinham pedido e obtido o devido consentimento. Na manhã seguinte, uns minutos antes das horas de visita, já lá estávamos à espera, junto ao maciço portão que dava entrada ao forte. Quando, finalmente, entrámos, fomos direitos à sala de recepção, como era costume. Desta vez, porém, tudo tinha mudado. A sala já estava maravilhosamente preparada para a cerimónia, com uma longa mesa coberta com uma toalha branca, lindamente enfeitada com flores.
No centro tinham colocado um bolo de noiva, sobre o qual estava escrita, em açucar a palavra felicidades. Que surpresa extraordinária, que linda ideia! Ficámos imensamente comovidos e sem palavras que pudessem transmitir o que então sentíamos». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.



A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de E. Tágide/JDACT

sábado, 27 de abril de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Felizmente, acabara de chegar a Lisboa um conterrâneo de Lica, Datta Keni, vindo da Alemanha, de passagem para a Índia»

Edila no dia do casamento civil em Lisboa, 1948
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«Algumas semanas antes do casamento um cavalheiro da comunidade católica de Goa, encontrando-se com o meu pai no Café Nicola, teve o mau gosto de lhe dizer que Lica certamente já era casado, pois os hindus casavam sempre enquanto crianças, embora o casamento só fosse consumado mais tarde. Esta notícia veio causar grande consternação e demorou algum tempo até compreendermos que tais informações em relação aos costumes hindus, quando vindas de um goês católico, deixavam algo a desejar. As duas comunidades viviam estritamente segregadas e histórias narradas sobre costumes e tradições de parte a parte não passavam, por vezes, de grandes fantasias.
No registo civil também não foi muito fácil. Insistiram em que no dia do casamento o noivo apresentasse, como testemunha, uma pessoa que o tivesse conhecido no seu país de origem. Possivelmente, todas estas precauções eram requeridas, uma vez que nunca dantes tinha havido um casamento misto como o nosso. Naquela altura, dos únicos três hindus que residiam em Portugal, dois encontravam-se ausentes. Felizmente, acabara de chegar a Lisboa um conterrâneo de Lica, Datta Keni, vindo da Alemanha, de passagem para a Índia. Talvez pudesse ajudar-nos. O convite foi aceite e imediatamente se fixou o dia do casamento.
A mesa de noivado foi preparada com requinte. A mamã tinha levado toda a semana a preparar iguarias e a decorar bolos. Na verdade, para além das testemunhas necessárias e da família próxima, não tínhamos convidados, mas, mesmo assim, a mamã insistiu em preparar um bom copo-de-água, para depois da cerimónia. Dez e meia, tempo para nos prepararmos. Vesti o vestido de noiva e olhei-me no espelho. Fiquei satisfeita com a minha figura e pensei, com um sorriso a aflorar-me aos lábios: Não está mal...não está mesmo nada mal... O vestido era de uma seda cinzenta prateada, com um diminuto desenho de pequeninas flores brancas e enfeitado no decote, à roda do pescoço, e, a descer para a frente, com uma fina renda branca. As mangas compridas terminavam também com punhos debruados com a mesma fina renda branca. O cabelo, que chegava à altura dos ombros, estava agora enrolado à volta da cabeça com a ajuda de uma madeixa artificial para o acrescentar, como era então a moda. Ainda não tinha completado a maquilhagem quando Lica chegou, envergando o seu melhor fato. Logo depois chegaram os padrinhos.
Sentámo-nos todos na sala à espera do funcionário do governo civil que iria conduzir a cerimónia do casamento. A mamã andava de um lado para outro para se certificar de que estava tudo em ordem, enquanto as outras pessoas conversavam animadamente. Eu, porém, permanecia serena, envolta nos meus pensamentos e infinitamente distante de toda aquela tagarelice. De repente, o som agudo da campainha da porta soou bruscamente, vibrando por toda a casa. Entrou então o esperado funcionário do registo civil, trajando um fato escuro de riscas brancas, com um botão de rosa na lapela.
Dirigimo-nos para o escritório e a cerimónia começou. Lica estava um pouco nervoso. Eu, não menos, mas em poucos minutos a cerimónia tinha terminado. Estávamos casados. A minha mãe chorava em silêncio e eu até me sentia quase envergonhada por estar tão feliz. Cortado o bolo, foi servido o champanhe. Partimos logo a seguir para Peniche, onde íamos passar a lua-de-mel». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

terça-feira, 23 de abril de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Mas o amor e a dedicação que tínhamos um pelo outro conservaram-nos unidos ao longo daqueles intermináveis meses de intensa angústia e preocupação. Os meus pais, embora gostassem de Lica…»

Edila em 2010
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«A partir de então, as visitas a Mormugão tornaram-se semanais e depois de cada uma delas era enviada uma carta terrivelmente depressiva. Mas logo a seguir, com pouco tempo de intervalo, chegava mais uma carta do pai a dizer: por favor, rasga a carta- anterior e faz como desejas. Infelizmente, uma semana depois, mais uma visita ao tio e tudo voltava ao anterior com mais uma triste e dolorosa missiva: Não, não podes fazer uma coisa tão terrível, tão desastrosa. Não podes destruir a família. O nosso stress emocional começava a ficar insuportável: feliz, depois da aprovação paterna, em desespero, quando chegava a triste ideia da destruição da família, pois isso era o que de forma alguma desejaríamos. Mas o amor e a dedicação que tínhamos um pelo outro conservaram-nos unidos ao longo daqueles intermináveis meses de intensa angústia e preocupação. Os meus pais, embora gostassem de Lica, temiam o que poderia acontecer-me num ambiente desconhecido, pois nunca tinham estado no Oriente nem tão-pouco ouvido de católica alguma que tivesse casado com um hindu. Por outro lado, a ideia de haver uma eventual conversão não era aplicável, uma vez que um hindu nasce hindu e não se torna hindu. Por fim, chegou-nos o definitivo e firme consentimento.

Aquele sábado teve um sabor especial para mim. Era um lindo dia de sol e temperatura amena e o meu coração pulsava de alegria. Para qualquer rapariga, o dia do casamento é o mais importante da sua vida. Mas, no meu caso particular a minha vida iria mudar radicalmente, pois tínhamos decidido ir viver para a Índia. Uma vez mais teria de sair do meu ambiente, desta vez para viver entre pessoas que não falavam a minha língua, não partilhava a mesma religião ou os mesmos hábitos. Tudo aquilo a que estava habituada era para elas alheio e a maneira de viver dessas pessoas totalmente diferente da minha. Entretanto, permanecia de espírito alegre porque sabia que Lica estaria sempre ao meu lado para me guiar e confortar nos momentos difíceis de adaptação ao novo modo de vida. A única sombra que ofuscava a minha felicidade era a triste lembrança de ter de deixar os meus queridos pais e a minha irmã Marília, provavelmente para sempre.
Partia sem ter dado à minha mãe a felicidade de ver o seu grande desejo satisfeito, a filha casada segundo os hábitos tradicionais. A minha irmã já tinha casado por procuração, embora a cerimónia tivesse sido na igreja. Eu nem seria abençoada por um padre. Iríamos casar em casa, numa cerimónia civil, porque Lica não era cristão facto este que tinha já originado algumas complicações e mal-entendidos». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de E. Tágide/JDACT

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «A “catástrofe”, como a notícia veio a ser considerada, foi longamente discutida e foi enviada uma carta com urgência para Portugal com a desaprovação total da família. Não podes destruir o bom nome dos nossos antepassados, não podes casar fora da tua casta, não podes casar com uma estrangeira»


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«O jovem saudou primeiro os pais, curvando-se num namaste e tocando nos pés de cada um, como que a pedir a bênção. Depois repetiu o mesmo com todos os membros da família e amigos, recebendo os presentes que cada um lhe ia oferecendo. Poucos dias depois da cerimónia, Lica deixava a casa paterna para começar a segunda fase da sua educação, mas, em vez de ir para o asbram, como era costume, foi para o colégio António José de Almeida. o desejo de seguir medicina veio dar-lhe mais tarde a oportunidade de admissão na Escola Médica, em Pangim, a mais antiga de toda a Ásia, que sempre seguiu as linhas da medicina ocidental.
Depois de se formar, Pundlik embarcou para Portugal com o fim de repetir o curso em Lisboa e especializar-se em cirurgia, deixando o pai com o entendimento de que voltaria para casar com uma rapariga brâmane, segundo a escolha do pai, como ditava a velha tradição. Chegou a Lisboa cerca de cinco anos antes da minha partida dos Açores. A coincidência da inesperada doença de uma amiga veio juntar-nos. A mútua atracção foi instantânea.
Para ambos, os anos que se seguiram foram de intenso trabalho. Só depois de completarmos os estudos, Lica em cirurgia e eu estagiária no Liceu Pedro Nunes, é que começámos a pensar numa relação mais estável. O romance continuava cada vez mais intenso e pensávamos a sério no casamento. Cada um de nós tinha feito uma promessa que, com o tempo e a separação, acabara por se esvair nas memórias de um passado que nos parecia já longínquo... Agora queríamos simplesmente selar o nosso romance com o casamento para iniciarmos uma nova vida. Este desejo seria hoje a coisa mais simples do mundo, mas naquele tempo não. Nunca quando tal união ia contra os princípios básicos de duas culturas totalmente diferentes.
Lica levou imenso tempo e muitas noites sem dormir até ganhar coragem para dar a notícia ao pai. Como se temia, a reacção foi de tal magnitude que nos chocou a todos. Foi como se o mundo se tivesse desmoronado debaixo dos nossos pés. No nosso amor um pelo outro, tínhamos esquecido completamente a dor que causaríamos ao pai, o cabeça-de-casal de uma famfília brâmane. Íamos destruir, uma tradição religiosa e uma maneira de viver que tinha perdurado, livre de influências exteriores, desde tempos imemoriais.
Depois de receber a desastrosa proposta do nosso casamento, Mangueshbab foi até Mormugão consultar o irmão, que era reitor no Railway School. A catástrofe, como a notícia veio a ser considerada, foi longamente discutida e foi enviada uma carta com urgência para Portugal com a desaprovação total da família:
  • não podes destruir o bom nome dos nossos antepassados, não podes casar fora da tua casta, não podes casar com uma estrangeira.
Eram estas as frases constantemente repetidas.
A partir de então, as visitas a Mormugão tornaram-se semanais e depois de cada uma delas era enviada uma carta terrivelmente depressiva». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT