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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Marie. A Duquesa das Intrigas. Juliette Benzoni. «No interior do veículo forrado de veludo verde e guarnecido de almofadas para amortecer os solavancos do caminho, duas mulheres, sensivelmente da mesma idade…»

jdact

Sede de Vingança

A Casa da Galigai

«Â tempestade voadora de dezasseis cascos ferrados devorava a estrada estreita, rebocando uma carruagem cujo habitáculo verde-escuro sem brasão e cortinas de couro descidas não deixaram distinguir os ocupantes. Acabavam de atravessar Boissy-Saint-Léger sem parar, evitando o fecho das portas e, à justa, uma carroça, salva da colisão pelo portão de uma granja. Aquele dia de Abril de 1622 estava muito frio, já era tarde e tratava-se de chegar antes do cair da noite.

O único lacaio do veículo lançado a toda a velocidade ia agarrado na boleia com unhas e dentes, ao lado do vigoros cocheiro quase tão largo quanto alto e cujos punhos seguravam com à-vontade as rédeas dos quatro furiosos demónios da sua atrelagem. O homem chamava-se Peran, um bretão maciço e silencioso com um chapéu preto enterrado até às sobrancelhas, uma silhueta que se diria talhada a cinzel no seu granito natal. Ao serviço da duquesa praticamente desde sempre, era-lhc totalmente devotado, totalmente obediente, contestando-a apenas quando a sua fantasia imprevisível a fazia correr perigo.

No interior do veículo forrado de veludo verde e guarnecido de almofadas para amortecer os solavancos do caminho, duas mulheres, sensivelmente da mesma idade, iam sentadas cada uma no seu canto e no mais absoluto silêncio. Desde a saída de Paris que não trocavam palavra. Uma delas era uma bela jovem morena de tez clara, elegante, com um vestido cinzento bordado a sutache de seda, tão branca como e pequena gola de renda engomada que lhe dava um ar fino, um pouco grave,  talvez, mas iluminado por dois belos olhos aveludados cor de castanha, uns olhos que regressavam sem cessar ao perfil imóvel da sua companheira com uma profundidade e uma inquietação que não ousavam exprimir. Nunca Elen du Latz, dama de companhia privilegiada da duquesa, lhe vira aquela expressão tensa, aqueles lábios cerrados, aquelas pupilas cintilantes de lágrimas que um orgulho abrasador impedia que caíssem e não percebia a razão de um tal estado de espírito por parte daquela que era, sem dúvida, a mais bela e a mais invejada das damas do reino». In Juliette Benzoni, Marie, A Duquesa das Intrigas, Editiones Plon, Bertrand Editora, 2004, ISBN 972-251-432-6.

Cortesia de BEditora/JDACT

JDACT, Juliette Benzoni, Literatura, Conhecimento, França,

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «As duas crianças, unidas por uma profunda ternura e por uma confiança total, sempre se entendiam às mil maravilhas, enquanto, que tinham relações muito mais distantes, até protocolares, com o irmão mais velho, Luis XV…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Era exactamente o que François sentia mas, nem por um momento, pensou em dissimular: é verdade, senhora. Vedes algum inconveniente? Talvez. Dizei-me, primeiro, por que pretendeis lá ir. Será por causa daquela rapariga? Ontem reparei que ela vos tinha sorrido e que lhe havíeis respondido. Já vos encontrastes com ela? Nunca. Foi por isso que tive vontade de voltar a vê-la. Não achais que ela é bem bonita? Decerto, decerto, mas vós sois muito novo para vos interessardes pelas raparigas. Ademais não tenho a certeza de que sereis bem acolhido por lá. Os Séguier não são nossos amigos. Contudo, não compareceram ontem à missa? Tratava-se de prestar homenagem ao defunto rei, vosso antepassado. Além disso, as terras deles dependem do nosso principado de Anet: isso acarreta obrigações, mas não significa que esses novos nobres estejam dispostos a jurar-nos fidelidade. Aliás, o vosso pai não o desejaria: como muitos desses senhores do Parlamento, os Séguier pretendem-se próximos do senhor Cardeal e proclamam bem alto quanto se sentem ligados ao rei Luís. E nós? Não nos encontramos ligados ao Rei? Trata-se do Rei. Devemos-lhe amor e obediência. O mesmo não poderá esperar o bispo de Luçon. Satisfazei-me, François, e tratai de esquecer que uma rapariguinha vos sorriu... A criança inclinou a cabeça.
Esforçar-me-ei pelo amor que vos dedico, senhora, murmurou, sem conseguir suster um enorme suspiro que trouxe um sorriso ao rosto um pouco severo da duquesa. François, gosto da vossa franqueza e obediência. Vinde abraçar-me! Era um raro favor, desde que o jovem tinha sido confiado às mãos dos homens. Apreciou o seu devido valor e ficou um pouco consolado pelo sacrifício que fizera, mas quando alguém se passeia pelo nosso espírito é difícil expulsá-lo de lá. Sob os tectos dourados do hotel Vendôme, em Paris, François não conseguiu esquecer-se de Louise e quando a duquesa, as suas crianças e todo o casario foram, no fim de Maio, apanhar os ares do estio nas margens do Eure, fugindo dos maus cheiros parisienses, o apaixonado de dez anos não pôde impedir-se de sentir uma alegria inabitual. Com um pouco de sorte ia poder voltar a vê-la!
Contudo, se pensava que o seu segredo estava escondido entre ele e a mãe, François enganava-se. A sua irmã Elisabeth, dois anos mais velha que ele, apercebera-se de algo. Bruscos devaneios, rubores fugazes, eram manifestações até aí desconhecidas num rapaz turbulento, irrequieto, apaixonado por cavalos, por armas, independente e dotado de uma vitalidade que as governantas e os preceptores consideravam unanimemente desgastante tudo isso dera-lhe muito que pensar durante os meses de Inverno. Porém, guardara para si as suas impressões e foi apenas ao descer da carruagem no pátio principal do castelo que, deixando o irmão mais velho, Louis de Mercceur (na alta nobreza, o filho mais velho tem sempre um nome diferente até à morte do pai; Fronsac para os Richelieu, Crussol para os Uzès, Mercoeur para os Vendôme, etc.), de catorze anos, acompanhar a mãe até ao interior, ela puxou François à parte, pretextando ir ao encontro dos cisnes nas pequenas lagoas do jardim. Na realidade foram dar um passeio ao longo do canal de carpas. Em silêncio, de começo, o que o rapaz não suportou muito tempo. Se tens algo a dizer-me, di-lo já!, resmungou, empregando a fórmula da segunda pessoa do singular, da qual se serviam quando estavam a sós. Terei feito alguma asneira? Não, mas tens muita vontade de fazer uma. Senti-o há pouco, quando Mme. de Bure falou das damas de Sorel. A nossa mãe mandou-a logo calar-se, mas tu ficaste todo corado e exalaste um suspiro capaz de voltar uma carruagem. Estás a morrer para voltar a ver essa Louise, não estás?
As duas crianças, unidas por uma profunda ternura e por uma confiança total, sempre se entendiam às mil maravilhas, enquanto, que tinham relações muito mais distantes, até protocolares, com o irmão mais velho, Luis XV, ele era o herdeiro, por isso respeitavam-no, mas não gostavam nada dele. François nem sequer tentou negar. É verdade, mas fiz uma promessa à mãe. E lamentas? François desviou a cabeça, baixou-se, e pegou numa pedra que atirou, com um gesto vivo e seguro, fazendo-a ricochetear, por três vezes, na superfície lisa do canal. Por fim fungou e, sabendo que Elisabeth não se satisfaria com uma meia resposta, disse: hum..., sim!... Enquanto estivemos em Paris era fácil. Aqui é outra coisa. Já estava à espera disso. Que vais fazer? Fazes perguntas estúpidas, irmã: não se volta atrás com a palavra dada! Continuo de acordo. Só que..., eu não prometi nada». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Um belo sorriso esparso, que ele lhe devolveu como pôde, mas que não escapara a dele! A madame Vendôme, de muito mau humor, nesse dia em que desempenhava o papel de chefe de família numa cerimónia que não lhe agradava. Efectivamente, o seu esposo, o duque César, encontrava-se retido no governo da Bretanha, onde se atarefava em criar dificuldades ao homem que mais detestava no mundo: o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII. Todavia, durante o regresso, ela nada disse. Quando, após uma noite agitada, François desceu às cavalariças nas primeiras horas da alvorada, teve, no entanto, a surpresa de encontrar o escudeiro de sua mãe, o cavaleiro de Raguenel, que não parava de andar de um lado para o outro no meio das idas e voltas dos moços de estrebaria e dos aguadeiros. François fez de conta que não o vira, mas o empregado  veio ter com ele na altura em que chegava aos portões. Ora bem, meu senhor François, onde pretendeis dirigir-vos a estas horas tão matinais? Dar um último passeio.
Perceval Raguenel era um homem cortês, amável; contudo, François achou-o francamente antipático quando ele lhe perguntou: e para onde contais ir, por favor? Acaso ignorais que temos de regressar a Paris daqui a pouco? O que vos deixa sem tempo disponível. A não ser que tenhais apenas a intenção de dar a volta ao parque... François ficou todo corado: quer dizer, eu...
Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe? Mas, porquê? Penso que vos dirá. Despachai-vos! Dentro de dez minutos ela irá à capela ler o livro de orações. Como não descortinava maneira de agir de outro modo, François desatou a correr e, alguns momentos mais tarde, uma camareira introduzia-o no quarto onde Françoise Vendôme acabava de se pentear. Era o antigo quarto de Diane Poitiers, uma divisão sumptuosa, mas não muito mais do que o eram as outras vinte e duas daquele castelo quase real. As paredes e o tecto estavam pintados de cores vivas, realçadas a ouro; vários tapetes cobriam o soalho precioso e tapeçarias magníficas aqueciam quase tanto a atmosfera quanto o fogo que ardia na grande chaminé de mármore multicolor. Nessa manhã de Março, o dia passava através das travessas da janela onde se encastoavam vitrais pintados em camafeu cinzento que, podendo dar a ilusão de um relevo e representando cenas do Antigo Testamento, não deixavam filtrar nenhuma luz; no entanto, o fogo e as altas velas de cera branca encarregavam-se disso.
Logo que transpôs a entrada, o jovem fez uma saudação, avançando, em seguida, para a sua mãe, no meio do bailado das acompanhantes que o olhavam sorrindo. Quanto a madame Vendôme, ela não sorria. Ah! Eis-vos aqui! Julie, parece-me que isto está bem, acrescentou, dirigindo-se à sua cabeleireira. Agora deixem-me e ide-vos todas embora. Depois, quando a última aia transpôs a porta: pois bem, onde contáveis ir a estas horas da manhã? Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel? O pequeno príncipe corou sem ousar responder, considerando a mãe com certa apreensão. Na realidade, apesar do cuidadoso amor que lhes dispensava, sem o mostrar excessivamente, Françoise Lorraine-Mercceur, duquesa de Vendôme pelo seu casamento, possuía o dom de impressionar as suas três crianças bem mais que o pai delas, o duque César, cujo carácter jovial e inclinação pelas brincadeiras frequentemente jocosas e cuja despreocupação recordavam muitas vezes as suas origens da região de Béarn (é uma região que corresponde à parte oriental do departamento dos Pirenéus-Atlânticos Unida ao condado de Foix (1290), no século XV passa com este para a casa de Navarra; o futuro rei Henrique IV, rei de Navarra em 1572, foi o último conde de Béarn; Luís XIII anexá-la à Coroa em 1620), faziam dele um interlocutor menos imponente. Isso era devido ao facto de ela se considerar, sobretudo, como serviçal do Senhor, tendo sido educada pela mãe segundo princípios cristãos de grande rigidez que lhe permitiam ostentar uma certa simplicidade no meio do fausto em que a colocavam a sua linhagem, a grande fortuna de que dispunha fora um dos mais belos partidos da Europa e o amor que dedicava a um esposo cujos gostos eram opostos aos seus, salvo no que dizia respeito ao esplendor e ao poder da casa.
César, que era antes de tudo um homem de armas, gostava de despender vastas somas e de levar uma bela vida, enquanto Françoise, afilhada do falecido bispo de Génova, François Sale, amiga de Jeanne de Chantal e dessa prodigiosa personagem a quem chamavam o senhor Vincent, interessava-se, sobretudo, pela salvação eterna dos seus e pela prática de uma caridade que se estendia até bem longe até às prostitutas parisienses das margens do Sena e às do bordel, obrigatoriamente tolerado devido à presença de soldados em Anet. Deste modo, quando uma das crianças devia responder por algum disparate cometido, tinha sempre a vaga impressão de comparecer perante o tribunal do próprio Deus». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 21 de julho de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Um belo sorriso esparso, que ele lhe devolveu como pôde, mas que não escapara a dele! A Mme. de Vendôme, de muito mau humor, nesse dia em que desempenhava o papel de chefe de família numa cerimónia que não lhe agradava. Efectivamente, o seu esposo, o duque César, encontrava-se retido no governo da Bretanha, onde se atarefava em criar dificuldades ao homem que mais detestava no mundo: o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII. Todavia, durante o regresso, ela nada disse. Quando, após uma noite agitada, François desceu às cavalariças nas primeiras horas da alvorada, teve, no entanto, a surpresa de encontrar o escudeiro de sua mãe, o cavaleiro de Raguenel, que não parava de andar de um lado para o outro no meio das idas e voltas dos moços de estrebaria e dos aguadeiros. François fez de conta que não o vira, mas o empregado veio ter com ele na altura em que chegava aos portões. Ora bem, meu senhor François, onde pretendeis dirigir-vos a estas horas tão matinais? Dar um último passeio. Perceval Raguenel era um homem cortês, amável; contudo, François achou-o francamente antipático quando ele lhe perguntou: e para onde contais ir, por favor? Acaso ignorais que temos de regressar a Paris daqui a pouco? O que vos deixa sem tempo disponível. A não ser que tenhais apenas a intenção de dar a volta ao parque... François ficou todo corado: quer dizer, eu... Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe? Mas, porquê? Penso que vos dirá. Despachai-vos! Dentro de dez minutos ela irá à capela ler o livro de orações.
Como não descortinava maneira de agir de outro modo, François desatou a correr e, alguns momentos mais tarde, uma camareira introduzia-o no quarto onde Françoise Vendôme acabava de se pentear. Era o antigo quarto de Diane Poitiers, uma divisão sumptuosa, mas não muito mais do que o eram as outras vinte e duas daquele castelo quase real. As paredes e o tecto estavam pintados de cores vivas, realçadas a ouro; vários tapetes cobriam o soalho precioso e tapeçarias magníficas aqueciam quase tanto a atmosfera quanto o fogo que ardia na grande chaminé de mármore multicolor. Nessa manhã de Março, o dia passava através das travessas da janela onde se encastoavam vitrais pintados em camafeu cinzento que, podendo dar a ilusão de um relevo e representando cenas do Antigo Testamento, não deixavam filtrar nenhuma luz; no entanto, o fogo e as altas velas de cera branca encarregavam-se disso.
Logo que transpôs a entrada, o jovem fez uma saudação, avançando, em seguida, para sua mãe, no meio do bailado das acompanhantes que o olhavam sorrindo. Quanto a Mme. Vendôme, ela não sorria. Ah! Eis-vos aqui! Julie, parece-me que isto está bem, acrescentou, dirigindo-se à sua cabeleireira. Agora deixem-me e ide-vos todas embora. Depois, quando a última aia transpôs a porta: pois bem, onde contáveis ir a estas horas da manhã? Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel? O pequeno príncipe corou sem ousar responder, considerando a mãe com certa apreensão. Na realidade, apesar do cuidadoso amor que lhes dispensava, sem o mostrar excessivamente, Françoise Lorraine-Mercceur, duquesa de Vendôme pelo seu casamento, possuía o dom de impressionar as suas três crianças bem mais que o pai delas, o duque César, cujo carácter jovial e inclinação pelas brincadeiras frequentemente jocosas e cuja despreocupação recordavam muitas vezes as suas origens da região de Béarn (é uma região que corresponde à parte oriental do departamento dos Pirenéus-Atlânticos Unida ao condado de Foix (1290), no século XV passa com este para a casa de Navarra. O futuro rei Henrique IV, rei de Navarra em 1572, foi o último conde de Béarn; Luís XIII anexá-la à Coroa em 1620), faziam dele um interlocutor menos imponente». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 9 de julho de 2019

O Rei do Mercado. O Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Um velho, que devia ser o chefe, aproximou-se do cavalo: monsenhor, será que ficaremos em segurança? O homem que..., residia ali, pertencia ao... Ao senhor Cardeal?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A casa para o mar. Três homens ao serviço de Deus. 1638
«O fogo rangia furiosamente, atiçado pelo vento, expelindo para o céu feixes de faíscas e caudais de fumo. O dia nascia. Um dia que se anunciava sombrio e cuja única luminosidade seria fornecida por aquele incêndio expiatório que as pessoas da aldeia vizinha contemplavam amedrontadas, dispostas numa encosta como pássaros empoleirados num ramo. De vez em quando, explodia uma das cargas de pólvora disseminadas pelo castelo, o que ocasionava novas chamas. Daqui a pouco, La Ferrière seria apenas um montão de ruínas sobre as quais a floresta, com a hera e as urtigas, viria reclamar os seus direitos; só a capela permaneceria intacta, protegida pelo largo espaço vazio que a rodeava. Tal fora o desejo de François Vendôme, duque de Beaufort, quando ateara o seu auto-de-fé. Montado a cavalo, no outeiro atrás do qual se dissimulava a aldeola, ele contemplava a realização da vingança incendiária, com a qual retribuía o martírio por que passara Sylvie. Uma vingança incompleta, aliás, dado que só um dos carrascos fora punido mas, cada coisa a seu tempo, e, por ora, François dava-se por satisfeito. Quando as chamas diminuíram, dirigiu o cavalo para a encosta onde os camponeses estavam especados, de boina na mão. Ao verem-no aproximar-se, aconchegaram-se ainda mais uns aos outros. Estavam tão assustados que, por pouco, não se ajoelharam. É verdade que o jovem duque, com as roupas sujas, a tez escurecida e manchas de sangue no ombro, não oferecia um aspecto reconfortante, mas sorriu-lhes, revelando toda a brancura dos dentes, enquanto o seu olhar límpido perdia a dureza de há pouco: quando o fogo se apagar e as cinzas esfriarem, procurareis os restos mortais daqueles que por lá ficaram e dar-lhes-eis uma sepultura cristã. Além disso, aquilo que puderdes recuperar será para vós.
Um velho, que devia ser o chefe, aproximou-se do cavalo: monsenhor, será que ficaremos em segurança? O homem que..., residia ali, pertencia ao... Ao senhor Cardeal? Bem sei, meu amigo. Mas não deixa de ser um criminoso e o que acaba de se desenrolar nesta residência, onde o sangue correu por demais, é a justiça divina! Quanto a vocês, ficai sabendo que não têm nada a temer: falarei com o bailio de Anet e encontrar-me-ei com Sua Eminência em Paris. Tomai!, acrescentou, estendendo a sua bolsa bem recheada. Dividi isso entre vós! Mas não vos esqueceis de rezar pelas almas penadas daqueles que por lá ficaram. Já mais seguro, o homem fez uma saudação e foi ter com os companheiros enquanto Beaufort, trotando devagar, ia ao encontro do seu escudeiro, Pierre Ganseville, de Corentin e dos três guardas que trouxera consigo para a expedição punitiva. Regressemos, senhores!, disse-lhes. Não temos mais nada a fazer aqui. Os aldeãos ficaram no mesmo sítio durante bastante tempo, parados à beira do caminho, até que o vento de oeste trouxe pesadas nuvens carregadas de chuva. A torrente de água molhou-os de tal modo, enquanto fazia gemer o enorme braseiro, que se apressaram a regressar a suas casas para se secarem, enquanto inventariavam as suas novas riquezas. Mais tarde, quando a chuva lhes tivesse concedido a graça de apagar as brasas, seria altura de ir ver o que restava do castelo e de enterrar os seus últimos habitantes com grandes quantidades de água benta, de forma a que não pudessem regressar para assombrar os locais. E também se encomendariam algumas preces...
No castelo de Rueil, o cardeal-duque de Richelieu, ministro do rei Luís XIII, desceu, numa certa manhã de Abril, na direcção dos seus jardins, acompanhado pelo superintendente das Belas-Artes, M. Sublet Noyers, a fim de inquirir do estado de crescimento das recentes plantações de castanheiro. Essas pequenas árvores as primeiras a serem implantadas em França eram uma verdadeira raridade. O Cardeal pagara-as bem caro à Sereníssima República de Veneza que, por seu turno, as importara da Índia, a fim de satisfazer o pedido. Por isso, dedicava-lhes uma atenção quase paternal. Esse dia era importante, pois os jovens castanheiros iam deixar o laranjal e os seus grandes vasos em madeira, para serem colocados numa área que fora especialmente concebida para eles e onde os jardineiros tinham acabado de cavar os buracos destinados a receber os grandes motes de terra que seriam alimentados com estrume de cavalo». In Juliette Benzoni, O Rei do Mercado, O Segredo de Estado, 1998, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-989-2.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 7 de julho de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Ela perguntar-lhe-ia de onde vinha e, como ainda não sabia mentir, dir-lhe-ia a verdade. O castigo viria mais tarde mas, naquele momento preciso, teria de suportar o seu olhar severo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«O céu encobria-se. Enquanto galopava, o jovem cavaleiro lançou um olhar pleno de rancor à nuvem negra que pairava sobre a sua cabeça desde que saíra do castelo de Sorel. Se por acaso fosse menos bom cristão ter-lhe-ia mostrado o punho, mas tal gesto teria sido uma ofensa a Deus, o que um miúdo de dez anos não se podia permitir, mesmo tratando-se de François Vendôme, príncipe de Martigues e neto do rei Henrique IV que, quanto a ele, se permitira muitas outras coisas. Isso não impedia que, caso a trovoada se desencadeasse naquela altura, ela o atrasasse e em nada contribuísse para compor as suas histórias, já então impregnadas de aventuras. Sabia, no entanto, a que se arriscava ao deixar Anet sem prevenir, ele próprio selara o seu cavalo e as consequências da sua escapadela eram fáceis de adivinhar. A única oportunidade de lhes escapar era regressar discretamente. Chegar depois do toque de trompa que anunciava a tempestade seria uma verdadeira catástrofe, pois o seu preceptor, M. d’Estrades, não brincava com a disciplina: François seria vergastado. Já se preparava para isso, mas algumas azorragadas a mais ou a menos era sempre algo a levar em consideração. Sem contar com o acolhimento que receberia da duquesa, sua mãe...
Ela perguntar-lhe-ia de onde vinha e, como ainda não sabia mentir, dir-lhe-ia a verdade. O castigo viria mais tarde mas, naquele momento preciso, teria de suportar o seu olhar severo, tanto mais penoso porquanto pesar-lhe-ia um silêncio que lhe daria plena consciência de ter decepcionado uma mãe que amava e admirava, não estando longe de ver nela uma santa. Todavia, fora com conhecimento de causa que desobedecera: por vezes, acontece termos de escolher entre o dever e os arrebatamentos do coração. Já havia algum tempo que o de François o atraía para o castelo de Sorel mas, nesse dia, a atracção tornara-se irresistível. O rapaz acabara de saber que a pequena Louise apanhara uma doença cujo nome não conseguira decorar. Apenas entendera que dela se podia morrer ou ficar desfigurado. Uma ideia que o apaixonado de dez anos não podia suportar: era preciso que fosse ver! O seu encontro com a pequena Séguier datava de 14 de Março, alguns dias antes da Primavera. Nessa data celebrava-se, todos os anos, uma missa de acção de graças na abadia beneditina de Ivry, em memória da vitória alcançada pelo rei Henrique IV sobre as tropas do duque de Mayenne. Os Vendôme compareciam em peso à cerimónia, apesar da duquesa que recebera à nascença o nome de Françoise Lorraine-Mercoeur contasse o vencido entre a sua parentela. Assim o desejava o duque César, filho varão do grande rei e da encantadora Gabrielle d’Estrees. É claro que para as famílias de certa importância, residentes nas proximidades, era um dever comparecer. Era o caso da de um rico conselheiro no Parlamento em Paris, Pierre Séguier, conde de Sorel, acompanhado de sua mulher, Marguerite de la Guesle, e de sua filha. Louise era criança única de um casal que a adorava visivelmente, e que dela muito se orgulhava. E com devida razão: ninguém podia olhar para aquele pedacinho de mulher de seis anos sem sentir a necessidade de a abraçar ou, pelo menos, de lhe sorrir. Plena de frescura, de tez cor-de-rosa, delicada como uma rosa silvestre, ela exibia uns cabelos louros e encaracolados deslumbrantes, que a tira de veludo azul do mesmo azul que o dos seus olhos mal conseguia manter no devido lugar. Bem-comportada, sentada ao lado de sua mãe, durante todo o serviço ela conservou os olhos baixos no terço de marfim enrodilhado nos seus dedinhos, à excepção de um breve momento em que voltou a cabeça, como se sentisse que a olhavam, erguendo os olhos na direcção do rapazinho, para lhe sorrir». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas»

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Ao princípio eram os deuses…
O harém de Amon…
«(…) Tal como Karnak, Ipt-resit era dedicado não apenas a Amon, o senhor dos deuses, representado na sua forma humana com duas grandes plumas na cabeça e o sexo erecto do deus Min, simbolizando a sua força fecundadora, mas também à sua esposa Mut e ao seu filho Khonsu. Mut, corpo de mulher e cabeça de abutre, tinha a coroa dupla do Alto e do Baixo Egipto. Quanto a Khonsu, era venerado sob a sua forma habitual: embrulhado num sudário e com o disco lunar na cabeça. No dia indicado, sempre na mesma data do mês de Paochi, a estátua de Amon deixava, aos ombros de uma centena de carregadores, a nave do grande templo e descia até ao Nilo para tomar lugar na sagrada e multicolorida nave dourada. Seguiam-no Mut, depois Khonsu e por fim o próprio faraó. Cada um dos membros da família sagrada era depositado numa barca quase tão magnífica como a de Amon. O trono dourado do faraó ocupava a popa. As quatro barcas divinas subiam então o Nilo até ao novo templo, erguido num terreno sobre-elevado para fugir às cheias. Os deuses abandonavam então as suas verdadeiras embarcações por navios simbólicos feitos de madeira dourada e munidos de esticadores, aos quais se atrelavam os sacerdotes mais vigorosos. Ao som dos tambores sagrados e dos cânticos religiosos, Amon, Mut, Khonsu e o faraó eram então levados para as profundezas do templo, cujas portas de cedro incrustadas a ouro se fechavam durante dez dias, ao mesmo tempo que cada uma das barcas-cadeiras era guardada numa capela particular.
Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas, mulher que, dizia-se, não fizera comércio com mais nenhum homem. O povo sonhava com o destino da criatura, que só podia ter uma beleza ideal e que, após dez dias de amor com o deus, viveria apenas das suas recordações. De facto, o papel de esposa divina pertencia a maior parte do tempo à própria rainha do Egipto ou a uma das numerosas esposas que povoavam o imponente harém do faraó, mas a Grande Esposa real podia estar grávida no momento da festa, levando a que o faraó desejasse outra companheira. Calcula-se que o efectivo do harém de um faraó por norma constituído fosse de mais ou menos trezentas e vinte mulheres. Assim, a virgem, do templo podia ser uma das princesas estrangeiras cujos pais, reis vencidos, enviavam para o Egipto para se tornarem esposas do faraó, caso da princesa Tadukhipa, filha do rei Tushratta de Mitanni, que foi oferecida a Amen-hotep IV (e que conheceu as dez noites de amor de Lucsor) e que alguns historiadores associaram a Nefertiti, A Bela Chegou.
Uma vez fechadas as portas, iniciava-se um cerimonial secreto, infinitamente mais complicado e mais estranho do que o praticado nos zigurates mesopotâmicos. O faraó e a sua esposa não caíam assim, sem mais nem menos, nos braços um do outro durante dez noites e dez dias. O ritual exigia que a identificação dos reis com os deuses fosse completa. Amon despia-se da sua divindade ao apoderar-se do corpo do faraó e este, no momento em que se transformava em Amon, devia vestir o traje e os atributos do deus: o toucado de plumas, a cruz ank, símbolo da vida, e o ceptro em forma de cabeça de chacal. À sua volta os sacerdotes e as sacerdotisas cobriam os rostos com máscaras representando as diversas divindades animais que escoltariam Amon ao leito real para a consumação do casamento místico e carnal segundo o texto da lei sagrada. Assim falou Amon-Ré, rei dos deuses, senhor de Karnak, supremo soberano de Tebas, ao assumir a forma deste macho (aqui o nome do faraó em exercício), rei do Alto e do Baixo Egipto, distribuidor da vida, ao encontrar a rainha quando ela repousava no esplendor do seu palácio. O perfume suave do deus acordou-a e encantou-a. Sua Majestade aproximou-se, apoderou-se dela, penetrou-a com o seu coração e revelou-lhe a sua forma divina. A beleza do deus arrebatou-a e o amor espalhou-se-lhe por todos os membros porque o odor e o bafo do deus cheiravam aos perfumes de Punt... A rainha, honrada, devia mostrar-se reconhecida: que a tua força seja duas vezes grande! Sublime de contemplar é o teu rosto quando me concedes a graça de te unires a mim. O teu orvalho fecunda-me os membros... De uma maneira geral, a. festa da fertilidade e as núpcias divinas culminavam com o nascimento de um príncipe ou de uma princesa, filho ou filha de deus, sem que alguém se atrevesse a pôr em causa uma tão augusta paternidade...» In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo»

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Ao princípio eram os deuses…
«(…) O senhor feudal, porque bravo entre os bravos (ou maligno entre os malignos), tomou o lugar da divindade. As coisas, claro, foram-se alterando ao longo dos dias e das noites. O direito sagrado dos primeiros tempos transformou-se depressa num privilégio aplicado em exclusivo às raparigas mais belas, mas entretanto os pretendentes também começaram a deixar de querer ver os mais corajosos do que eles abrirem a porta misteriosa por trás da qual esperava o templo da fecundação. Mas voltemos aos tempos em que os deuses estendiam o seu poder pelos quatro pontos cardeais. Esplêndida, portanto, era a noite que a Babilónia oferecia ao seu deus. Bastante mais austera, porém, era a que a severa Assíria oferecia, em Kalah e depois em Ninive, ao seu deus Nabn, no terceiro dia do mês de Igyar. Não havia orgias nem virgens divinas oferecidas nuas ao desejo de Nabn porque nenhum humano era digno de o encarnar incluindo o rei. Quem entrava na câmara, a meio caminho do céu, onde a esperava uma sacerdotisa, era a sua estátua de ouro e esmalte. Naquele dia o seu leito era consagrado na cidadela, o deus penetrava na câmara e regressava ao seu lugar no dia seguinte..., sem, entretanto, ter feito grande coisa.
Após a consagração do leito e a apresentação das oferendas rituais, a sacerdotisa pegava numa cana, mergulhava-a em óleo perfumado, purificava os pés da imagem divina, em seguida aproximava-se do leito, perfumava-o três vezes, ia beijar os pés da estátua e por fim sentava-se, após o que os sacerdotes regressavam para consagrar madeiras aromáticas, queimá-las e fazer libações com as cinzas. Em seguida vinha o banquete nupcial: longas e sumptuosas mesas em honra dos cruéis deuses do panteão assírio, mas só as efígies de ouro ou de prata é que tomavam assento, servidas com respeito e reverência. Por fim, a noite terminava com uma oração pelo rei, para que os deuses aceitassem abençoar as suas armas, sempre mais ou menos prontas a servi-los. Ao nascer do Sol o pobre Nabn era levado a casa em procissão. Instalavam-no num carro ao lado do condutor e levavam-no a dar uma volta até um certo bosque sagrado, onde ele recebia as homenagens e os sacrifícios de mais sacerdotes barbudos, mas onde não encontrava qualquer bacante, atraente ou não, disposta a brincar com ele, após o que o reintegravam, durante mais um ano, no seu templo obscuro, onde as únicas distracções eram as salmodias dos sacerdotes, os fumos do incenso, os sacrifícios e o sangue dos animais degolados, alternando com alguns banhos de pés oleosos e, nos dias de jejum, com o massacre ritual de alguns prisioneiros de guerra ou de alguns escravos quando o inimigo não estava pelos ajustes...
Têm-se os deuses que se merecem. Nabn não era um deus alegre. Em 612 a. C., o império assírio, rapace e guerreiro por natureza, desmoronou-se sob os golpes dos Medos e dos Babilónios, deixando atrás de si os gigantescos touros androcéfalos alados, os baixos-relevos do palácio de Sargon, em Khorsabad..., e também a morte fantasista de Sardanapale, obra do pincel romântico e genial, mas pouco documentado, de Eugène Delacroix, eternizando na memória dos homens a recordação dos Jardins Suspensos de Babilónia, o sonho de Sémiramis e a espantosa cultura das asas de tijolo nascida na aurora do mundo com os Sumérios e que ofuscou os séculos à custa de vários povos escravizados, mas que também concebeu a matemática e a ciência do Céu antes de se perder, pela mão de Deus, nas areias do deserto...

O harém de Amon…
Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo a pedido de Tié, a sua amada Grande Esposa real, para ali celebrar todos os anos as núpcias de Amon-Ré com a terra do Egipto, fecundada pela sua semente divina para ainda maior riqueza e felicidade do povo. Como grande construtor que era, Amen-hotep III mandara também construir na outra margem do rio, a dos mortos, porque era nela que o Sol se punha, um palácio gigantesco, do qual só restam, infelizmente, as famosas colunas de Memnon, para nele viver e reinar sob a protecção da Eternidade, para além de ter mandado ampliar e embelezar, na margem da vida e do Sol nascente, o grande templo de Karnak, templo principal de Amon, cujo novo santuário era apenas uma dependência». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

sábado, 28 de maio de 2016

Na Cama dos Reis. Juliette Benzoni. «Desde Eva, essa inocente, causa de toda a alegria e sofrimento do homem, que se deixou cair no pecado com tanto júbilo, que a mulher adquiriu o direito imprescritível à suspeita e à desconfiança masculinas…»

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«(…) A jovem fora escolhida entre centenas de candidatas pela sua beleza, que não devia ter qualquer defeito e tanto podia ser filha da nobreza como uma cativa ou até uma escrava. O abraço do deus arrancá-la-ia para sempre à sua condição, mas, terminada a noite, a eleita não se juntaria às servas de Ishtar dedicadas à prostituição sagrada, iria para a coorte das sacerdotisas de Marduk, dedicadas apenas ao deus e, portanto, à castidade perpétua, pelo menos oficialmente. De facto, como o deus tinha poucas hipóteses de se manifestar em pessoa, era o seu sumo-sacerdote que o encarnava, a menos que fosse de idade avançada ou estivesse em baixo de forma, o que seria uma catástrofe para as colheitas seguintes. e nesse caso seria substituído pelo próprio rei que, decerto, não se faria rogado.
Se a sua companheira por uma noite soubesse cativá-lo, sua majestade não teria qualquer dificuldade em fazê-la passar do templo para os aposentos femininos do seu palácio e se o sumo-sacerdote, tendo oficiado, se apaixonasse, poderia encontrar com toda a facilidade, no enorme dédalo do Esagil, aquela que tão forte impressão lhe causara. Se nascesse uma criança, o que era frequente e considerado sinal indubitável da benevolência de Marduk, esta destinar-se-ia, com toda a naturalidade, ao serviço do deus seu pai... Entretanto, quando este entrasse na câmara dourada, a virgem devia prostrar-se diante dele e recitar o poema de amor ritual vindo da antiga Suméria:

Tu cativaste-me, deixa-me tremer diante de ti
esposo, quero ser levada para o leito por ti
esposo, deixa-ma acariciar-te
a minha carícia amorosa
a minha carícia amorosa é mais suave do que o mel…

E, o que devia ser cumprido, cumpria-se. Seria preciso ser-se de pedra para se resistir a um convite pronunciado por uma rapariga encantadora e vestida apenas com a sua cabeleira. Em tal matéria os sacerdotes de Marduk não corriam qualquer risco e o resultado era certo, tanto mais que a bela jovem, bem instruída, juntava o gesto à palavra e apressava-se a demonstrar que as suas carícias eram, de facto, muito mais doces e sobretudo mais sábias do que o mel. No entanto, antes de sucumbir à vertigem, o deus devia olhar para o céu porque, segundo a tradição, Marduk só podia possuir a sua companheira no momento preciso em que nascesse a estrela de Ishtar. Só então o grande leito de marfim se transformaria em altar e o corpo intacto se abriria para o amante divino. Porém, o casal não estaria só. Um sacerdote de Marduk, o Vigilante Sagrado, estaria no terraço, perto da entrada da câmara. O seu dever era anunciar ao povo que o acto se cumpria para que todos os seus votos e as suas esperanças se realizassem.
Em baixo, milhares de olhares fixavam-se na sua silhueta branca, tão pequena àquela altura, e só a abandonavam depois de ele erguer os braços ao céu. Então estalava um grande clamor e Babilónia, certa de ter obtido dos deuses a fertilidade das suas terras e dos seus ventres, mergulhava numa frenética orgia de amor que durava até à alvorada..., pelo menos para aqueles com energia suficiente para não se deixarem adormecer. Babilónia considerava, assim, a mulher, e a virgem, uma companhia privilegiada do deus. Aliás, parece que a noção de virgindade não existia como hoje antes da época sumeriana porque os conhecimentos anatómicos ainda estavam na infância. Virgem era aquela que nenhum homem tocara, virgem era qualquer rapariga nova. A ideia de virgindade confundia-se com a da puberdade, durante a qual os seios começavam a crescer e o corpo adquiria as formas femininas...
Daí o costume no Ocidente, sobretudo nas famílias nobres, de casar as filhas ainda na puberdade, uma maneira como outra qualquer de tomar precauções contra eventuais surpresas desagradáveis, as quais não perturbavam muito os homens das civilizações antigas porque era frequente, entre os povos mediterrânicos, oferecer aos deuses a virgindade das raparigas, levando-as aos templos para ali serem desfloradas ritualmente por sacerdotes investidos do poder dos deuses. Uma homenagem, sem dúvida, mas também uma precaução porque o mistério do corpo feminino ainda selado inspirava alguma inquietação. Ninguém sabia que perigos, que malefícios, que demónios se podiam esconder na húmida obscuridade do ventre de uma virgem. Ao entregá-la a um deus, afastavam-se todos os medos: o sagrado tomava o risco a seu cargo, traçava o caminho no qual, em seguida, o eventual esposo entrava com toda a tranquilidade. Encontramos entre os Hebreus, nos Provérbios, vestígios dessa velha crença do homem face ao mistério feminino:

Há três coisas que são um mistério para mim
e uma quarta que não compreendo:
o voo da águia nos céus,
o rasto da cobra sobre a rocha,
o rumo de um navio em pleno mar
e a atitude do homem para com a donzela...

Desde Eva, essa inocente, causa de toda a alegria e sofrimento do homem, que se deixou cair no pecado com tanto júbilo, que a mulher adquiriu o direito imprescritível à suspeita e à desconfiança masculinas, razão pela qual o entusiasmo com que os antigos levavam as filhas ao leito dos deuses ou dos seus representantes, razão pela qual a existência do antigo princípio do famoso direito do senhor feudal, posto em prática por ocasião do aparecimento do cristianismo, após a falência dos velhos deuses». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

sábado, 26 de setembro de 2015

Noites de Núpcias. Na Cama dos Reis. Juliette Benzoni. «Os fiéis vinham, por vezes, de muito longe, mesmo de muito longe para aqueles que transportavam às costas as pesadas estátuas sob o sol implacável quando o transporte por via fluvial ou pelos canais era impossível»

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A noite de Babilónia
«Os raios ardentes de Shamash, o deus-sol, despediam-se pouco a pouco de Babilónia, levando com eles o calor abrasador. Porém, havia doze dias que a capital de Nabucodonosor permanecia num estado de loucura, loucura que atingiria, naquela noite, o paroxismo porque se estava no último dia das grandes festas do ano novo, celebrado todas as Primaveras no mês de Nisan. Os heróis das festas mais importantes do ano eram Marduk, deus da prosperidade, da fertilidade e senhor dos deuses e Ishtar, deusa do Amoq filha de Sin, o deus-lua e irmã de Shamash. E quando a noite descesse sobre a cidade, Marduk possuiria Ishtar na câmara-capela dourada que coroava os sete andares multicoloridos do Entemenanki, o maior zigurate de Babilónia, o zigurate do templo de Marduk, o Esagil.
Sob os raios declinantes do Sol, as cores que tingiam cada um dos andares da torre exaltavam-se e valorizavam-se entre si. O branco de Ishtar encorujava o negro de Adar, que por sua vez estimulava o púrpura profundo de Marduk. Depois, comprimindo-se sobre o andar inferior, vinham o azul-celeste de Nebu, o laranja-brilhante de Nergal, a doçura prateada de Sin e por fim o dourado fulgurante de Shamash. Não havia nada mais belo, para um coração babilónico, do que o Entemenanki, cujo esplendor se erguia entre o imenso quadrilátero do templo e o palácio do rei, adornado pela massa verdejante dos Jardins Suspensos, maravilha do mundo antigo. A via das Procissões e o Eufrates banhavam, de um lado e outro, os três edifícios, que por sua vez ocupavam o comprimento total da cidade, desde a porta de Urash à de Ishtar, palco nos últimos doze dias de cerimónias incessantes e faustosas porque todos os outros deuses das cidades e aldeias do império de Entre-os-Rios vinham prestar homenagem a Marduk, criador, destruidor, pleno de compaixão, piedade e, por sua ordem, de benevolência para com os deuses...
Os fiéis vinham, por vezes, de muito longe, mesmo de muito longe para aqueles que transportavam às costas as pesadas estátuas sob o sol implacável quando o transporte por via fluvial ou pelos canais era impossível. Porém, a sorte de tais escravos só atraía a piedade dos cativos que, escondidos por baixo dos três andares dos fabulosos Jardins Suspensos, accionavam sem cessar as imensas noras encarregadas de içar a água do rio até às luxuriantes maravilhas construídas por capricho de uma rainha lendária... Enquanto durassem as festas, os xilofones, as flautas, os tambores, as citaras, os címbalos e os sistros escoltariam os cortejos sagrados desde o rio ou das portas da cidade até ao adro do Esagil, ritmando as danças dos sacerdotes e das cortesãs sagradas, que se sucediam sem cessar. A maré de trajes brancos, amarelos e vermelhos, enriquecidos com os famosos bordados babilónicos cujo segredo se perdeu, invadia as ruas, os pátios e a grande via das Procissões. As jóias de ouro e prata brilhavam, mas menos do que as couraças polidas dos soldados de barba negra encaracolada, mais cerrada do que o astracã, vestidos com túnicas púrpura. A cidade, febril, transbordava de cor, sufocava devido aos perfumes e aos odores das cozinhas ao ar livre e naquela última noite embriagar-se-ia de amor..., e de vinho de tâmara.
À medida que a luz declinava, os olhares viravam-se de maneira irresistível para o alto do Entemenanki onde na última capela, que parecia suspensa do céu como uma jóia, uma virgem esperava entre um grande leito de marfim cheio de almofadas de seda e uma mesa de ouro puro, os únicos móveis da câmara divina. A jovem, envolta em véus para que ninguém lhe visse a beleza, reservada apenas ao deus, chegara quando o Sol começara a sua descida para o horizonte, transportada, como a estátua da própria Ishtar, aos ombros de um grupo cintilante de sacerdotisas do Amor. A liteira depositara-a na base do zigurate, em frente da escadaria que ia dar ao primeiro andar, o branco, e que ela subira sozinha, devagar, deixando cair o primeiro véu, também ele branco, no último degrau. Em seguida a jovem subira a escadaria negra de Adar e abandonara, no último degrau, o véu negro. O púrpura caíra-lhe dos ombros ao chegar à base do quarto andar, azul como o céu de Verão e o azul à entrada do terraço onde se erguia Nergal, o cor de laranja. Em seguida fora a vez do quinto. Por fim, lá no alto, contra o céu, a noiva do deus, silhueta delicada, prateada e depois dourada, pusera os pés no último terraço onde a esperavam os sacerdotes para a conduzir à câmara nupcial, na soleira da qual ela deixara cair o último véu para entrar nua e esperar, oferecida, aquele que havia de vir». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Mariana. A Estrela de Napoleão. Juliette Benzoni. «… a porta da biblioteca, deixada entreaberta pelo mordomo, se abriu para dar passagem a um homenzinho vestido de preto, trazendo qualquer coisa nos braços. Creio, contudo que recebereis “isto” disse ele com uma voz doce»

Cortesia de wikipedia

1973. Um coração solitário
«Com a ponta da bengala, Ellis Selton remexeu as achas que ardiam mal. Imediatamente surgiu uma longa chama que lambeu a madeira, torceu-se como uma víbora fulgurante e elevou-se para as alturas negras da chaminé. Com um suspiro, encostou-se no seu cadeirão. Nessa noite, detestava o mundo inteiro e a si própria mais ainda, do que todo o universo. Era sempre assim quando o peso da solidão se tornava insuportável. Lá fora, rajadas de vento agreste faziam curvar as ramagens das velhas árvores do parque, rodopiavam à volta do castelo e sibilavam nas chaminés em longos gemidos. A tempestade fazia sair da terra todas as vozes profundas dos desaparecidos. Pareciam vir dos tempos remotos até essa senhora, que incarnava os Selton. Já não havia homens para receber a nobre herança, nem rapazes arrogantes e alegres de voz forte, para quem essa tarefa não seria pesada. Havia apenas Ellis com os seus trinta e oito anos e a sua perna defeituosa, Ellis a coxa, a quem nunca ninguém falara de amor. É certo que teria podido casar-se facilmente, mas aqueles que eram atraídos pela sua fortuna e o fausto do palácio dos Selton inspiravam-lhe demasiado desprezo, para que se tivesse resignado a unir a vida a qualquer deles. De recusa em recusa, tinha-se tornado nessa criatura solitária de vestido cinzento, encerrada no seu orgulho e nas suas recordações... O rugido do vento parou por um instante. Das profundidades do parque veio o som abafado de uma sineta. O grande cão que dormia, com o focinho sobre as patas, aos pés da senhora abriu um olho. O seu olhar encontrou o da dona e rosnou surdamente. Quieto! Murmurou Ellis, pousando a mão sobre a cabeça do animal. É certamente um criado que chega atrasado, ou um vizinho que vem visitar o velho Jim.
Quis retomar a meditação, continuando a afagar a cabeça sedosa do cão, mas este recusava-se a adormecer. Com o pescoço esticado, escutava, como se o instinto lhe fizesse seguir os passos dum visitante através do parque sacudido pela tempestade. A sua atitude acabou por intrigar a dona. Seria alguma visita? Quem poderia chegar àquela hora? A entrada silenciosa de Parry, o mordomo, alguns instantes mais tarde, veio trazer a resposta. Habitualmente a própria imagem da serena dignidade, o servidor parecia agora muito perturbado. Está ali um homem, milady, um viajante que insiste em ver milady. Quem é? Que quer ele? Pareces pouco à vontade, Parry. É que, trata-se dum visitante estranho, milady, é uma gente que nós recebemos pouco. Só porque ele insistiu muito, eu me decidi a incomodar e... Basta, Parry, basta! Gritou Ellis, batendo impacientemente com a bengala no chão. Se te perdes nessas considerações, nunca chegarei a saber do que se trata, e já que decidiste incomodar-me, quero saber porquê.
O mordomo estava de tal modo agitado, que antes de responder permitiu-se fazer uma careta horrível, e depois os seus lábios pronunciaram com todo o desprezo de que era capaz: É um francês, milady, um padre católico!... e traz um bebé! O quê?... Estarás doido Parry? Ellis tinha-se erguido. O seu rosto tinha-se tornado tão cinzento como o vestido e, sob as espessas sobrancelhas, os olhos azuis brilharam de indignação. Um padre? Com uma criança? É, sem dúvida, algum refugiado perseguido pela polícia e que procura esconder o fruto dum pecado! Um francês, ainda para mais!... Um desses miseráveis que massacram a nobreza e cortam a cabeça ao seu soberano! E achas que eu vou receber isso...? Como protestante convicta, Ellis Selton não gostava dos católicos e votava aos padres uma espécie de horror cheio de desconfiança. Mas, à medida que falava, a voz alimentada pela cólera, tinha abandonado os limites calmos exigidos pela educação para atingir um tom agudo. Ia ordenar a Parry para pôr fora o intruso, quando a porta da biblioteca, deixada entreaberta pelo mordomo, se abriu para dar passagem a um homenzinho vestido de preto, trazendo qualquer coisa nos braços. Creio, contudo que recebereis isto disse ele com uma voz doce. Não se recusa aquilo que Deus envia. O recém-chegado era delgado, quase franzino. A barba e a sujidade que lhe manchavam as faces, davam um aspecto inquietante ao seu rosto magro e de traços incertos. O nariz arrebitado era uma nota insólita e maliciosa, mas que visível miséria do seu possuidor, se tornava trágica. Todavia, grandes olhos cinzentos muito belos e muito luminosos, ao mesmo tempo cândidos e profundos, conferiam um certo encanto à sua fisionomia inteligente, retirando-lhe qualquer grau de fealdade ou de banalidade. Apesar da cólera, lady Selton notou também a delicadeza das suas mãos e a pequenês dos pés, sinais infalíveis de alta estirpe, que contudo foram insuficientes para acalmar a indignação que sentia. O seu rosto pálido tornou-se muito vermelho. Portanto disse trocista é Deus quem vos envia? Parabéns, não vos falta ousadia. Parry, chama gente e põe lá fora este enviado do Senhor... e o bastardo que esconde consigo. Esperava ver a aflição do desconhecido, mas nada se passou. Sem recuar um passo, o homem contentou-se em abanar a cabeça, enquanto o seu belo olhar sincero se fixava na velha senhora colérica». In Juliette Benzoni, Mariana. A Estrela de Napoleão, tradução de Margarida Morais, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1972.

Cortesia de LCEditora/JDACT