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sexta-feira, 28 de março de 2014

Macau Histórico. Edição de 1926. Montalto de Jesus. «A jurisdição da colónia estendeu-se depois às regiões conquistadas de Heangshan, onde os portugueses possuíam várias quintas de cujos produtos a colónia subsistia em completa independência dos chineses»

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Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas
«(…) Pode ter sido o aspecto sepulcral da gruta que sugeriu ao exilado bardo a ideia, tão comoventemente expressa, de ali ser enterrado vivo. De facto, o trílito que forma aquela gruta é eminentemente sugestivo de um mausoléu rústico, ou antes daqueles monumentos megalíticos que misteriosamente revelam a adoração de heróis pelas antigas tribos bárbaras. Possivelmente, terá sido um dólmen dos árabes que, em eras passadas, tinham frequentado a costa da China; e pelo lintel oblíquo os antiquários podem talvez inferir que, como muitos dólmenes, a gruta serviu de altar de sacrifícios. Muito embora os geólogos possam dissipar o encanto arqueológico e atribuir a formação do trílito a um mero capricho da natureza, em alguma grande convulsão, a gruta continua, contudo, a ser grandiosa, o refúgio de um grande e perseguido génio, o santuário de um brilhante e mal recompensado patriotismo do malfado poeta-soldado cujo poema homérico, ali composto, é o orgulho e a glória imortal de Portugal.

A autonomia original de Macau. A questão do foro do chão. Política de conciliação. A fome, o poder dos mandarins sobre Macau. Prendas para o Cérbero. Frustrado o domínio espanhol. O regime senatorial
A cedência incondicional de Macau aos portugueses é atestada pelo facto de, originariamente, a colónia não pagar foro do chão e o seu governo, em rigoroso acordo com as leis de Portugal, não ser de modo algum dependente das leis da china, ou das dos mandarins, nem a eras subordinado ou com elas misturado. A jurisdição da colónia estendeu-se depois às regiões conquistadas de Heangshan, onde os portugueses possuíam várias quintas de cujos produtos a colónia subsistia em completa independência dos chineses. No documento oficial que regista tudo isto até o nome da ilha é aportuguesado de Heangshan para Anção. Por muito preconceituoso que seja, Ljungstedt não pode deixar de admitir a autonomia originária de Macau, ainda que a atribua à absurda suposição de que no início os mais altos mandarins fizeram pouco ou nenhum caso da colónia durante vinte cinco anos. Entretanto, a fim de obter a sanção imperial para a propagação do cristianismo na china, como tinha sido projectado por Francisco Xavier, Sebastião, o rei de Portugal, instruiu o conde de Redondo, vice-rei da Índia, a renomear Diogo Pereira como enviado. Mas, tendo sido eleito pelos colonos capitão-de-terra de Macau, Diogo Pereira, ao ser-lhe dado escolher, preferiu manter o posto, igual ao de tenente-governador. Foi, por isso, nomeado para a missão um parente seu, Gil Góis, que em 1562 partiu de Goa com dois jesuítas. Já em Cantão, o enviado não conseguiu aceitar as exigências dos costumes chineses e os mandarins recusaram-se a reconhecer a embaixada com a justificação de que esta era particularmente destituída de magnificência ostentosa e do acompanhamento necessário, em forma de tributo, para o Filho do Céu. A corte de Lisboa ficou, evidentemente, desagradada não só pela recusa do cargo de enviado por Diogo Pereira mas, também, pela sua eleição extra-oficial para o posto de capitão-de-terra e, em 1563, um decreto real tratou da abolição daquele posto que, contudo, Diogo Pereira conservou até 1587, tal era a popularidade e a confiança de que gozava como o amigo devotado que ajudou S. Francisco Xavier, e como um dos principais fundadores da colónia.
O governo de Macau foi primeiro investido no capitão-mor, ou comodoro, da frota comerciante que periodicamente lá aportava, a caminho do Japão ou à sua volta, e num conselho composto pelo capitão-de-terra, o juiz e os quatro principais mercadores nomeados pela comunidade. O facto de a maioria deste conselho ser representada por mercadores é, em si, sugestivo da superior influência comercial, ante a qual as considerações políticas se tornavam insignificantes. Por outro lado, um fluxo abundante de ouro atraía sobre a colónia a cupidez dos mandarins distritais que, cônscios do seu poder para perseguir o comércio estrangeiro, breve aprenderam, pela experiência, que uma maior intolerância representava maior quantidade e mais ricos presentes dos complacentes estrangeiros, nos quais o amargo passado imprimira a necessidade de uma política conciliatória, quando queriam que a recém-nascida colónia e o seu comércio florescente fossem poupados. Daqui a passividade e a subserviência que culminaram na dominação da colónia pelos chineses.
Ao começarem a cultivar em Heangshan os portugueses precaviam-se contra qualquer situação semelhante àquela que levou à catástrofe em Chincheu. Com o correr do tempo, contudo, esta medida prudente foi descurada, o distrito rural foi abandonado e a colónia colocada na mais imprudente dependência dos chineses, uma confiança fatal que mais tarde a deixaria completamente à mercê dos mandarins. A um simples aceno os colonos podiam agora, por desgraça, ser -reduzidos à submissão ou à fome. Segundo o relato de Martinho Melo Castro, os chineses, atraídos pela fertilidade do solo, foram invadindo as terras conquistadas de Heangshan, e imperceptivelmente, não encontrando a menor resistência, povoaram a localidade, sobre a qual os mandarins exerceram por fim a sua jurisdição. No istmo, entre a península de Macau e o continente, os chineses construíram então um muro-barreira com um portão, onde um mandarim e uma esquadra de soldados impediam aos estrangeiros a passagem para o continente, exceptuando aqueles a quem o mandarim fornecera um passaporte». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, Primeira Edição Portuguesa da versão Apreendida em 1926, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

Macau Histórico. Edição de 1926. Montalto de Jesus. «Porém, uma ainda maior homenagem foi prestada a um marinheiro português: no “Templo dos Quinhentos Génios”, em Cantão, uma efígie com feições nitidamente europeias foi em tempos conhecida como a de um marinheiro português naufragado na costa séculos antes, e durante muito tempo aí residente…»

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Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas
«(…) Por outro lado, a influência dos preconceitos nacionais, que tem um poder tão arbitrário nos historiadores, em lado algum é tão predominante como na China, especialmente em casos que envolvam estrangeiros. Seria absurdo, por isso, esperar um relato imparcial sobre a origem de Macau redigido pelas mãos dos xenófobos cronistas da China. Ao relatá-la, estavam naturalmente influenciados quer pelos mutilados relatos oficiais quer pelo constrangimento, originado pelo medo, de ferir a vaidade nacional ao atribuir a derrota dos poderosos piratas à coragem estrangeira; e embora a brecha que a colónia fez no exclusivismo do país tenha sido devidamente sancionada por um imperador de ideias liberais, a descomedida presunção nacional não podia evidentemente conciliar este facto com outro princípio que não fosse o de tornar o povo ocidental tributário do Filho do Céu. Além disso, Macau é um local intimamente associado à lenda de uma das mais veneradas divindades da China, a Tien How ou Rainha do Céu, de cujo nome, A-Ma, derivou o nome da própria colónia, originariamente chamada Povoação do Nome de Deos do Porto de Amacao na China. Ao baptizar assim a colónia, os seus marítimos fundadores não foram insensíveis ao romance marítimo da lenda, que, em traços largos, é o que se segue: um junco estava pronto para partir de um porto em Foquien quando apareceu uma rapariga pedindo uma passagem que lhe foi negada, por estar o barco cheio de passageiros e carga. As súplicas chorosas da rapariga, contudo, prevaleceram e, por fim, o capitão destinou-lhe um canto na proa. Pouco depois de sair do porto o junco foi apanhado por uma tempestade. Surgiu o pânico a bordo e, desesperado, o capitão esforçava-se por arranjar à rapariga um lugar mais seguro quando, da proa, uma voz argentina lhe pediu que não temesse e continuasse a viagem. E ele assim fez: à mercê do vento e das ondas, o barco navegou à deriva, até que ao dobrar um promontório, encontrou abrigo e ancorou perto da costa, em Macau. Tendo a rapariga desaparecido, os passageiros buscaram-na em terra e encontraram uma deusa, provavelmente o ídolo que ainda se pode ver no Pagode de Ma Kok, que mais tarde foi erigido em sua honra; e sobre uma rocha ali perto, ainda hoje religiosamente conservada, esculpiram uma imagem do privilegiado junco com uma faixa onde está registada a súplica de A-Ma ao capitão. Desde então o lugar tornou-se conhecido como Amagao e durante os tufões a população marítima invoca a deusa, gritando o seu nome; anualmente, na primavera, os peregrinos dirigiam-se ao pagode pitorescamente situado entre nichos silvestres e escarpados, no sopé de uma pequena elevação, de onde se supõe que a deusa tenha ascendido ao Céu. Ao confiar aos portugueses um lugar tão lendário a China prestou-lhes uma homenagem que não podia ter sido senão altamente estimada pelos navegadores que, em retribuição, ligaram o nome da deusa ao da colónia.
Porém, uma ainda maior homenagem foi prestada a um marinheiro português: no Templo dos Quinhentos Génios, em Cantão, uma efígie com feições nitidamente europeias (aquela que querem agora fazer passar pela de Marco Polo) foi em tempos conhecida como a de um marinheiro português naufragado na costa séculos antes, e durante muito tempo aí residente cujas virtudes levaram a que fosse canonizado como um santo budista. Mas, à semelhança da derrota de Chang Si Lao, também este facto é considerado por alguns como provavelmente um puro mito. Contudo, a boina da efígie é exactamente a de um marinheiro português dos tempos antigos, assim como o colarinho de folhas é igual aos usados habitualmente no século XVI, provas bastantes de se não tratar da época de Marco Polo. Para os portugueses e também para o mundo das letras, Macau é famoso pela gruta onde Camões compôs o seu imortal poema épico. Expulso pelo vice-rei da Índia em consequência de uma acutilante sátira sobre Goa, o poeta-soldado embarcou dali para a China na frota enviada em 1556 sob o comando de Francisco Martins. O visconde de Juromenha conjectura, inclusive, que do facto de a sua frota ter estado estacionada em Lampacao em 1557 se deve inferir que o próprio Camões terá dado uma mão no desbaratar da horda de piratas. Outra conjectura plausível do visconde de Juromenha é, a de que no soneto CLXXXI (do qual o excerto que se segue é apenas uma pobre tradução) Camões se refere à romântica gruta em Macau, cujo ambiente é bastante semelhante à descrição feita:

Onde acharei lugar tão apartado
e tão isento em tudo da ventura
que, não digo eu de humana criatura,
mas nem de feras seja frequentado?
Algum bosque medonho e carregado
ou selva solitária, triste e escura,
sem fonte clara ou plácida verdura,
enfim, lugar conforme a meu cuidado?
Porque ali, nas entranhas dos penedos,
em vida morto, sepultado em vida,
me queixe copiosa e livremente;
que, pois a minha pena é sem medida,
ali triste serei em dias ledos
e dias tristes me farão contente».

In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, Primeira Edição Portuguesa da versão Apreendida em 1926, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

domingo, 9 de março de 2014

Macau Histórico. Edição de 1926. Montalto de Jesus. «Ljungstedt, no entanto, ignora a seguinte versão de Du Halde: … O vice-rei comunicou esta vitória ao imperador que emitiu um édito pelo qual dava Macau a esses mercadores da Europa, a fim de que eles se pudessem lá instalar»

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Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas
«(…) Ljungstedt ignora do mesmo modo a versão do historiador espanhol, cujo trabalho aparece na lista de autoridades especialmente consultadas por ele, fr. Juan de la Concepcion, que, ao relatar o feito de armas pelo qual os portugueses ganharam Macau, frisa que o arrojado pirata invasor das Filipinas, Li Ma Hong, era um sobrevivente das hordas de Chang Si Lao. Faria Sousa e Semedo, segundo Ljungstedt, alegam que os portugueses obtiveram autorização para habitar Macau porque tinham limpado a ilha de piratas. Desta forma, o insidioso detractor de Macau, repisando sempre na autorização dos mandarins, falseia os relatos de dois eminentes historiadores, quanto ao facto de os portugueses terem sido presenteados com a posse de Macau e de que, tendo arrebatado o lugar aos piratas, à ponta de espada, fundaram a colónia incondicionalmente.
A versão de Faria Sousa é, em resumo, a seguinte: ermo árido, abundante em rochas, o que tornava o local facilmente sustentável e bem adaptado para refúgio de bandidos, Macau era, então, uma temida guarida de piratas. Os chineses queriam desalojá-los dessas cavernas mas, evidentemente, faltava-lhes a coragem para o fazer e mal avistaram os portugueses ao largo de Sanchuan apressaram-se a oferecer-lhes o perigoso local para habitação com a condição de estes expulsarem os piratas. Os portugueses aceitaram prontamente o papel de Hércules contra Cacus: cobiçavam o prémio e esperavam poder alcançá-lo com a sua coragem, e embora os bandidos tivessem a vantagem de ser bons conhecedores dos caminhos labirínticos do lugar, foram facilmente derrotados. Então, os vencedores, com as armas numa mão e a picareta na outra, fundaram a cidade instalando-se onde lhes apeteceu, visto não haver lá ninguém com quem partilhar a terra.
Do mesmo modo, relata Semedo, a partir de Macau uma grande horda de piratas hostilizava os distritos adjacentes; os chineses tentaram desenraizar o demónio e, quer por temor quer para evitar o risco, sabedores da bravura dos portugueses, pediram-lhes que realizassem a tarefa, prometendo-lhes Macau como residência, se de lá expulsassem os piratas. Os portugueses empreenderam a tarefa com alegria: eram muito inferiores em número mas, mais conhecedores da arte de guerrear, investiram contra o inimigo de tal maneira que sem sofrer grandes baixas, as infligiram pesadamente, cedo se achando senhores da situação. Imediatamente se puseram a construir, cada um escolhendo para si o local que mais lhe agradava. Se Macau tivesse sido conseguido por conquista, argumenta Ljungstedt, o facto não teria sido ignorado pelos primeiros jesuítas escritores na China. E não o foi: Semedo, que veio para Macau no princípio do século XVII, era um desses escritores. A famosa Déscription de la Chine de Du Halde é um repositório de informações autênticas, reunidas pelos jesuítas numa época em que gozavam de oportunidades excepcionais na China. Ljungstedt, no entanto, ignora a seguinte versão de Du Halde:

No reinado de Kia Tsing um pirata chamado Tchang Si Lao, que pirateava pelas águas de Cantão, tomou Macau e sitiou a capital da província. Os mandarins pediram ajuda aos europeus. Estes, que estavam a bordo dos seus barcos de mercadorias, puseram fim ao cerco e perseguiram o pirata até Macau, onde o mataram. O vice-rei comunicou esta vitória ao imperador que emitiu um édito pelo qual dava Macau a esses mercadores da Europa, a fim de que eles se pudessem lá instalar.

Segundo foi vigorosamente relatado por Sonnerat, Cantão era então assediada por bandidos que, saídos das distantes Ilhas dos Ladrões, assaltavam os barcos nativos. Fracos e temerosos, os chineses não mais se aventuraram a afastar-se da costa, ou a lutar contra um grupo de duros malfeitores a quem se contentavam em chamar selvagens. Coube a um povo europeu mostrar que esses selvagens não eram invencíveis. Ao desbaratá-los, os portugueses levaram a cabo a tarefa que os chineses ansiosamente desejavam. Estes, armaram-se todos, mas apenas para serem meros espectadores. Os portugueses alcançaram vitória após vitória, eventualmente varrendo a importante horda. Como recompensa os vencedores asseguraram uma pequena faixa de terra árida, onde fundaram a colónia de Macau, e obtiveram também grandes privilégios, de que foram mais tarde despojados. Certamente a perda daqueles privilégios, que foram substituídos pelas sempre crescentes exigências chinesas, que incluíam o foro do chão, colocou Macau numa posição que parecia substanciar as alegações dos cronistas chineses acerca da situação originária da colónia. Ljungstedt opina que Macau foi obtido apenas pelo pagamento do foro do chão e que seria mais seguro atribuir a sua posse à generosidade imperial do que ao direito de conquista, considerando que o local teria de ser abandonado se as autoridades chinesas decidissem proibir o fornecimento de provisões e ordenar a saída dos comerciantes, artífices e criados chineses. Por outras palavras, Ljungstedt insinua que, estando Macau em situação precária, o processo usual adoptado pelos gananciosos mandarins para obter presentes para o Cérbero poderia também ter servido para obrigar os portugueses a silenciar as tradições que honram os anais das relações europeias com a China.
Até onde as opiniões preconceituosas de Ljungstedt ainda prevalecem, pode bem ser avaliado pelo seguinte: Os portugueses exigiram sempre para Macau uma independência da jurisdição chinesa, que o governo chinês, até 1887, nunca consentiu. Muito se tem falado de um golden chop, que se diz ter sido concedido pelo imperador chinês e ter-se perdido representar o título de posse da colónia mas não há registo de alguma pessoa não oficial o ter jamais visto. Os factos são todos contra a reivindicação. O foro, um reconhecimento total de soberania, foi pago a Heungs-han Hien desde o princípio até ao coup d'état do governador Amaral em 1849. Mas, com efeito, esse foro surgiu de um simples agrado ao hai-tao; e mais de uma vez ele foi recusado por ordem do imperador, reimposto pelos mandarins e, em vão, o governo de Macau a ele se opôs insistentemente outra vez. Não há um pacto formal, uma prova documental para demonstrar que a posse original de Macau fosse um mero arrendamento, como se pretendia, em vez de uma cedência voluntária, em paga pela libertação de Cantão, como foi amplamente atestado pelo testemunho histórico europeu. Dificilmente se pode dizer que a versão portuguesa, durante longo tempo sustentada em condições deploráveis e derrogatórias, esteja influenciada por qualquer raison d'état. Nem pode haver razão convincente para que muitos historiadores imparciais e fidedignos, Raynal, por exemplo, apoiassem essa versão, a não ser pelo amor à verdade e à justiça». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da FOriente/JDACT

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Macau Histórico. Edição de 1926. Montalto de Jesus. «Mas os mercadores, seduzidos pela expectativa de lucro, vieram sub-repticiamente e construíram casas; e desta forma os francos obtiveram uma admissão ilícita ao império e os estrangeiros começaram a instalar-se em Macau»

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Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas
«(…) No entanto, o Ao-men Ki-lioh (Ou Mun Kei Leok), ou História de Macau, afirma que os portugueses chegaram a Macau em 1550, quando já lá tinha sido concentrado o comércio. Com a finalidade de conseguir facilidade especiais os portugueses subornaram as autoridades de Macau com uma renda de 500 taéis por ano. Como os chineses estavam, então, completamente ocupados em repelir os- piratas japoneses, foi considerado melhor não expulsar os portugueses de Macau, mas manter boas relações com eles, e vigiá-los, atentos a futuras emergências. A crónica de Heangshan pretende que, em 1553, chegaram a Macau alguns navios estrangeiros cujos capitães alegaram que, durante um tufão, artigos que eles traziam como tributo tinham sido molhados pela água do mar e pediam autorização para os secar em terra, ao que o hai-tao assentiu. Nessa altura, foram só levantadas barracas de esteira. Mas os mercadores, seduzidos pela expectativa de lucro, vieram sub-repticiamente e construíram casas; e desta forma os francos obtiveram uma admissão ilícita ao império e os estrangeiros começaram a instalar-se em Macau. Sem tomar em conta ou sem reparar nas discrepâncias reveladas neste discordante trio chinês, Ljungstedt, no seu Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China, impugna a versão de Martinho Melo Castro sem apresentar qualquer prova documental do contrário; e desviando-se do relato altamente preconceituoso, pelas suas características pronunciadamente chinesas, da crónica de Heangshan, explica a presença portuguesa em Macau com o simples facto de, para abrigo temporário e para secar as mercadorias estragadas pelo mar, os mercadores portugueses terem pedido e conseguido autorização para desembarcar e construir cabanas em Macau. Neste deturpado e capcioso relato baseia Ljungstedt os seus argumentos contra a versão portuguesa; e para dar colorido às suas opiniões preconceituosas o sofista recorre à sistemática prevaricação e a conclusões sem escrúpulos deduzidas de factos relativos a uma época, felizmente passada, em que a precária colónia, governada por mandarins, apresentava um aspecto deplorável que em nada se assemelhava à sua originária categoria autónoma. Na primeira edição do Historical Sketch, publicada em Macau em 1832, Ljungstedt atreve-se a conjecturar que a eliminação da pirataria foi uma lenda e o formidável chefe dos piratas, Chang Si Lao, outro não era que o famoso Ching Chi Lung que, à queda dos Ming, combateu os manchus como pretendente ao trono. Referindo-se a um desaparecido golden chop (a chapa de ouro atrás mencionada) pelo qual, supõe-se Macau foi cedido aos portugueses, Ljungstedt objecta que, a ter existido, tal documento poderia ter tido uma transcrição autenticada dos arquivos imperiais da China; e, porque um alegado inquérito em Cantão, como seria de esperar, resultou inútil, conclui que, assim como a derrota de Chang Si Lao, o golden chop é uma mera invenção característica da corrida marcial, que dava valor apenas às possessões que tinham sido conquistadas à ponta da espada. Na edição revista e alargada do Historical Sketch não há a mínima referência ao golden chop e a suspeita quanto à identidade do pirata aparece reduzida à simples interrogação de poder o nome de Chang Si Lao ter sido confundido com o de Ching Chi Lung. Et voilà justement comme on écrit I'histoire.
Uma completa supressão nesta instância teria sido menos desastrada do que esta fraca tentativa de apoiar uma conjectura leviana face a provas históricas convincentes que o contradizem, provas que Ljungstedt evita ou falseia com uma consumada subtileza. E as suas prevaricações são tanto mais odiosas quanto, em grande parte, o Historical Sketch é o fruto de cuidadosas pesquisas feitas por dois literatos portugueses: Miranda Lima, que em tempos projectara escrever ele próprio uma história de Macau, Ljungstedt obteve papéis valiosos; e através do bispo Saraiva teve acesso a uma grande quantidade de documentos de grande interesse histórico. O uso que ele deve ter feito desses papéis pode ser avaliado pela forma como trata os relatos de vários autores. Segundo Mendes Pinto, em 1557, os mandarins de Cantão, a pedido de mercadores nativos, deram Macau aos portugueses, que, tendo transformado a região inculta numa bela colónia europeia, lá viveram tão confiadamente e em segurança como se ela estivesse situada na parte mais segura de Portugal. Mas Ljungstedt põe o muito calunido Mendes Pinto a dizer que os chineses e os portugueses conviviam em Macau porque os mandarins permitiram aos estrangeiros que aqui se fixassem e abstém-se da menor alusão à confiança e à segurança inerentes à posse legítima da colónia». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

Macau Histórico. Edição de 1926. Montalto de Jesus. «Segundo o “Ming Shi”, os francos aproveitaram-se da preocupação da China com os piratas para tomarem posse de Macau. Em seguida, o comércio estrangeiro, que embora proibido desde 1522, tinha sido tolerado em Tienpak…»

Leal Senado, Ou Mun Kei Leok
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Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas
«(…) Enquanto as forças imperiais continuavam desorganizadas e desmoralizadas as frotas unidas dos piratas assumiam tais proporções que, segundo uma crónica chinesa, em 1551, já não era possível desbaratá-los. Em vão procurou o governo chinês vencer, por todos os meios possíveis, o seu extraordinário chefe. Depois de devastar várias cidades em Foquien os piratas mudaram-se para o Sul, em 1557, provocando grande consternação em Cantão. Segundo as tradições de Macau, nesta conjuntura, os portugueses atacaram e destruíram um grande número de piratas, desalojando-os do seu abrigo em Macau, pelo que os sobreviventes da horda se refugiaram numa ilha, desde então chamada Ilha de Ladrões. Com este feito de armas os portugueses adquiriram a posse de Macau. Os notáveis serviços por eles prestados foram relatados ao imperador, que expressou o seu reconhecimento enviando ao seu comandante a chapa de ouro. Nesse mesmo ano, 1557, os mandarins e os mercadores de Cantão obtiveram a sanção imperial para os portugueses se estabelecerem em Macau. O imperador confirmou isto em documentos que seguidamente foram gravados em pedra e em madeira na casa do Senado de Macau. O que foi feito destes documentos é um enigma; já não há registo sequer dos que foram gravados em pedra. Como foi afirmado pelo visconde de Santarém, na sua Memória sobre o estabelecimento dos portugueses em Macau na China, por sistemática negligência a história de Macau tem sido deixada envolta na obscuridade durante séculos, sem as provas documentais absolutamente necessárias para resolver as questões que se levantam do intrincado dos relatos contraditórios. Mesmo em relação à origem da colónia é demasiado estranho que dois historiadores contemporâneos, Barros e Couto, a não refiram nas suas Décadas, embora o silêncio de Couto possa ser devido ao facto de parte dos seus manuscritos ter sido destruída. Mas nem mesmo Camões menciona Macau nos Lusíadas, parcialmente compostos numa gruta, lá, quando a cidade estava a ser fundada. Obviamente, nenhum deles acreditava na estabilidade da colónia depois de tantos desaires na China. E só após dois séculos de mansa subserviência aos mandarins foi dada a seguinte versão oficial à autonomia original da colónia, como foi recolhido dos registos nos arquivos de Lisboa:

O mar da China estava infestado de piratas e insurrectos, que espalhavam a destruição no comércio e na navegação quando, após a devida preparação, os portugueses assaltaram os bandido, e em breve limparam o mar de escória, para grande olívio e alegria dos chineses. Os portugueses carregaram, então, sobre Heang-shan, onde grandes extensões estavam dominadas por um poderoso chefe. Depois de forte resistência este foi vencido e a ilha tomada pelos vassalos da coroa de Portugal; disso resulta que a soberania em questão é fundamentada no direito de conquista, adquirido pelas armas de Portugal e à custa do sangue português. Ocupada a ilha, e sendo Macau melhor adaptado para fins comerciais, o cidade foi construída naquela península. Isto, os chineses não teriam permitido a não ser por reconhecerem inteiramente os direitos portugueses sobre aquele território. Nem os portugueses teriam incorrido no pesado gasto que fizeram ao construir a cidade se não estivessem completamente certos dos seus direitos para assim fazer independentemente das leis e do governo da China. Está tradicionalmente registado, contudo, que para melhor salvaguarda os fundadores de Macau insistiram para que a sua possessão fosse confirmada pelo imperador chinês que, em paga pela salvação dos seus súbditos das depredações e atrocidades dos piratas, não só anuiu ao pedido mas também outorgou aos portugueses muitos privilégios e isenções.

Esta é a versão dada num exaustivo memorando de Martinho Melo Castro, o celebrado ministro das Colónias. Por outro lado, os cronistas chineses atribuem à colónia uma origem muito diferente. Segundo o Ming Shi, os francos aproveitaram-se da preocupação da China com os piratas para tomarem posse de Macau. Em seguida, o comércio estrangeiro, que embora proibido desde 1522, tinha sido tolerado em Tienpak por mor dos emolumentos fiscais foi, por meio de subornos, desviado em 1534 para Macau, onde os francos e vários comerciantes orientais asseguraram uma posição, estabelecendo-se uma espécie de estado de sua propriedade». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas. Origem da colónia de Macau e suas versões contraditórias. Por fim, as boas graças da mais exclusiva e preconceituosa das nações e asseguraram para eles, em Macau, uma posição excepcional»


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«É possível que tanto o vice-rei de Goa como S. Francisco tenham subestimado os riscos que uma embaixada à China, nessa altura, envolvia. O sacrifício de outra embaixada no altar do Filho do Céu não só seria fútil e impolítica mas extremamente derrogatório enquanto o projecto evangélico fosse considerado tão temerário que nenhum nativo em Sanchuan, por amor ou por dinheiro, conduzisse S. Francisco a Cantão. Daí por diante sempre que aportavam a Sanchuan os portugueses iam rezar ao túmulo do santo homem. Este costume, que continuou após a remoção dos seus venerados restos para Goa poderia ter levantado certas desconfianças: os mandarins, supõe-se temeram que os portugueses tencionassem apropriar-se do lugar com base no costume chinês de que os amigos e parentes dos mortos têm um direito sagrado sobre a sua sepultura. E em 1554 os portugueses foram proibidos de frequentar Sanchuan.
Na mesma altura, uma ilha contígua, Lampacao (Lang-pek-kau), foi designada como um local para comerciar com os estrangeiros. Aceitando pagar direitos, segundo se diz, os portugueses obtiveram autorização para aí se instalar e para comerciar em Cantão. Todavia a questão de fundo desta reconciliação pode ter residido, em grande medida, no facto de nesta época uma grande invasão de piratas ter tornado aconselhável aos chineses centralizar o comércio estrangeiro em Cantão, em vez de o fazer ao largo. Em breve, a comunidade em Lampacao excedia os quinhentos portugueses, desenvolvendo um próspero comércio sobretudo de pimenta trocada por seda e almíscar. Desde então, viveram em paz e sem as baixas que sofriam os seus navios nos tempos em que, escorraçados de todos os portos, ancoravam ao largo ficando à mercê dos tufões, aos quais poucos sobreviviam. O acordo foi efectuado por (?) de Sousa, o comodoro de uma frota que se dirigia ao Japão, o qual, numa carta ao infante Luís, datada de 1554, comentou que, segundo parecia, os portugueses eram pela primeira vez como tal conhecidos pelos chineses, tendo sido até então denominados francos, um termo usado pelos orientais para designar os europeus em geral.
Segundo Gaspar da Cruz, os portugueses eram agora considerados povo estrangeiro em vez de diabos estrangeiros, como eram chamados desde os dias dos desmandos de Andrade. Os relatos contraditórios dos chineses datam diversamente a origem da colónia de Macau antes de os portugueses se instalarem em Lampacao. Tais relatos são, no mínimo, pouco dignos de crédito. Para avaliar a influência exercida pela vaidade nacional dos chineses nos seus relatos acerca das relações com os estrangeiros, o exemplo seguinte é ao mesmo tempo, típico e divertido:
  • aí pelos meados da dinastia Ming, os portugueses pediram emprestado o uso de Haou-king-gao (Macau), que estava situado no meio de altas ondas, onde imensos peixes emergem e tornam o mergulhar nas profundezas, as nuvens pairam sobre ela e a paisagem é realmente bela.
Eles percorreram miríades de milhas sobre o oceano, duma forma maravilhosa, e grandes e pequenos se alinharam debaixo da influência renovadora do glorioso sol do Celeste Império. Os negros dias de vicissitudes tinham terminado. Uma melhor era estava a nascer quando, pagando com um grande bem injustiças gritantes, ao esmagar os piratas que infestavam a costa chinesa os portugueses ganharam, Por fim, as boas graças da mais exclusiva e preconceituosa das nações e asseguraram para eles, em Macau, uma posição excepcional que, embora insatisfatória em alguns aspectos, foi durante muito tempo invejada por muitas potências marítimas ambiciosas. Um reinado de terror criado pelos piratas. O cavalheirismo das armas portuguesas. Origem da colónia de Macau e suas versões contraditórias. A lenda de Tien How. O alegado ídolo representativo de Marco Polo. Camões em Macau. Pelos meados do século XVI, a política xenófoba da China, saturada como estava de afrontas irritantes, perseguiu de tal forma os japoneses que comerciavam ao longo da costa chinesa que estes, com os bandidos nativos, retaliaram com frequentes investidas contra províncias litorais, espalhando o horror e a devastação desde Che-Kiang a Kwang-tung». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2013

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Em Malaca, o governador, Álvaro da Gama, que segundo se dizia, invejava Diogo Pereira, deteve-o sob o pretexto de que, como filho de Vasco da Gama, era ele próprio a personalidade competente para o importante cargo de enviado à China…»

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«Segundo o relato de Mendes Pinto, em cinco horas, uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações reduziu Liampó a um monte de ruínas, uma catástrofe que custou as vidas de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses, que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarenta e dois juncos, perda que foi avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro. Vestígios da colónia foram descobertos em Ningpo, no século passado, as ruínas de um forte em Chin-hae de construção nitidamente europeia, com as armas nacionais de Portugal gravadas num portão, e o próprio templo, perto do Portão da Ponte que foi atribuído aos portugueses de 1528 como a Associação de Recepção de Estrangeiros. Nos Anais de Ningpo está registado que no vigésimo sexto ano de Kia Tsing (1548) os japoneses atacaram Ningpo e que no ano anterior tinham sido proibidas as relações com o estrangeiro, sob pena de decapitação, pelo governador provincial Chu Huan, que, por isso, se tornou tão impopular e sujeito a tantos ataques que foi destituído de todos os cargos. Por estranho que seja, nos Anais não há qualquer menção à catástrofe de Liampó, como foi narrada por Mendes Pinto.
Não obstante, à falta de uma versão autêntica no que se refere à história colonial portuguesa, o relato de Mendes Pinto sobre a catástrofe, estereótipo de quase todas as obras históricas sobre as relações da China com estrangeiros, fica como a versão não-desmentida da sorte misteriosa que teve a primeira colónia europeia na China, sem ter em conta o facto de, em 1543, uma frota pirata de trezentas embarcações ter, também, deixado Xangai em ruínas. Mendes Pinto, contudo, nada diz sobre os ataques japoneses daquela época, ataques cujas narrativas teriam tido menor impacte na China não fosse ter sido ele e os seus amigos quem, em Tanegashima, iniciou os japoneses no uso de armas de fogo, ao que se seguiu a sua manufactura, com febril actividade e maravilhosa arte. Não admira que, em Xangai, um cronista nativo atribua o sucesso japonês aos seus auxiliares estrangeiros, escravos negros e diabos brancos ao seu serviço, muito destros no uso de armas de fogo, espadas e lanças; nem que outro cronista atribua a derrota chinesa ao descontentamento provocado pela incapacidade do magistrado da cidade de fornecer, aos bravos de Kiangsi, cobras e cães para a sua ração habitual. Donde se infere que o pensamento ia primeiro para a comida e só depois, então, para as aflições da China.
Depois da destruição de Liampó os portugueses asseguraram uma base em Chicheu, perto de Amoy, por meio de pesados subornos. Também aí a mesma horrível sorte os alcançou, dois anos mais tarde segundo Mendes Pinto, em consequência de uma disputa pelos bens de um arménio morto. Um administrador oficial, Aires Botelho Sousa, com fama de homem sem princípios e ganancioso, tomou como fazenda parte dos bens e algumas mercadorias que dois comerciantes chineses diziam suas e que, como não lhes fossem restituídas, se queixaram aos mandarins, que imediatamente proibiram as relações dos nativos com os portugueses, racionando o fornecimento de provisões. Levados pela fome, passaram a região a pente fino.
Isto terminou em escaramuças que levantaram o distrito inteiro contra eles. Enquanto um exército acabava rapidamente com os portugueses uma frota deitou fogo aos seus barcos; e de quinhentos portugueses apenas cerca de trinta escaparam a uma morte atroz. Esta foi a horrível sorte das primeiras colonizações europeias na China, varridas da face da Terra pelas acções ilegítimas de alguns, como narrou Mendes Pinto e envolvendo a terrível expiação centenas de homens honestos e suas famílias. Com estas horríveis hecatombes a China queria evidentemente impedir os portugueses de frequentarem as suas costas inóspitas. No entanto nada intimidou estes esforçados navegadores.


Os proscritos dirigiam-se agora para Sanchuan. Mas, conscientes de uma instabilidade que era real, contentavam-se com visitas relâmpago. Alguns faziam tendas com as velas e os remos, outros levantavam barracas de esteiras que eram desmanchadas quando, realizado o comércio proibido, deixavam a ilha: eis quanto a comprada tolerância dos mandarins permitia. Aventurar-se até Cantão representava prisão perpétua, torturas e morte. Por precária e desencorajante que fosse a situação o intrépido missionário S. Francisco tão merecidamente chamado o Apóstolo do Oriente convenceu Afonso de Noronha, vice-rei de Goa, e enviar uma embaixada à China com o propósito de engrandecer a causa da cristandade e obter a libertação dos muitos portugueses aí prisioneiros. Foi escolhido como enviado um grande admirador e amigo do zeloso missionário Diogo Pereira, um mercador rico a expensas de quem eram os presentes levados para a corte de Pequim. Mas a caminho da China, em 1552, a missão teve um desaire:
  • Em Malaca, o governador, Álvaro da Gama, que segundo se dizia, invejava Diogo Pereira, deteve-o sob o pretexto de que, como filho de Vasco da Gama, era ele próprio a personalidade competente para o importante cargo de enviado à China e não quem tinha sido um simples servo de um nobre até há pouco. Para reforçar o impedimento, e com a justificação de que o navio era necessário à defesa do local, tiraram o leme ao barco de Diogo Pereira. S. Francisco excomungou Álvaro e sacudiu mesmo dos seus sapatos o pó de Malaca quando sem o enviado e os seus presentes, embarcou.
Doente angustiado, o destemido e abnegado aristocrata espanhol chegou a Sanchuan apenas para terminar a sua extraordinária carreira naquela solidão, enquanto esperava reunir-se com uma embaixada tributária do Sião». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Segundo o relato de Mendes Pinto, em cinco horas, uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações reduziu Liampó a um monte de ruínas, uma catástrofe que custou as vidas de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses, que morreram nas chamas»

 Tratado das Cousas da China, frei Gaspar da Cruz

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«O comércio, calculado em mais de três milhões de ouro (cruzados, evidentemente), rendia três ou quatro vezes o capital investido. A comunidade era de mil e duzentos portugueses e mil e oitocentos orientais, que por ali prosperavam sem ser molestados pelos piratas. Ao sul, no entanto, os portugueses eram muitas vezes vitimados e o comércio entre Malaca e Liampó disso se ressentia fortemente.
Por fim, António Faria, arruinado, resolveu vingar-se. Com o apoio dos seus companheiros equipou uma expedição contra o seu saqueador, o famoso corsário Coja Acém, terror da costa chinesa. A partir do Sião, Faria esmagou muitos piratas poderosos, e uma das vitórias impressionou tanto os chineses que estes lhe enviaram uma deputação, oferecendo-lhe um tributo de vinte mil taéis e solicitando a sua protecção como rei dos mares. Ele de boa vontade aceitou e emitiu salvos-condutos, pondo como condição que os portugueses fossem tratados de forma fraternal pelos chineses sempre que se encontrassem. Foi tal a procura de salvos-condutos que, cobrando cinco taéis a cada junco e dois a cada embarcação menor, um funcionário juntou, em trinta dias, quatro mil taéis, além de valiosos presentes de mercadores ansiosos de obter os seus documentos. Animada com a captura da noiva de um marinheiro chinês e do seu séquito, a expedição teve a seguir a fatalidade de naufragar numa ilha deserta, e a perseguição teria terminado aí não fosse o apresamento de um barco que casualmente lá aportou para se reabastecer de água.
Então, com a frota de um pirata chinês, Faria terá eventualmente conseguido alcançar, derrotar e matar Coja Acém e a sua horda, não dando quartel nem aos feridos e doentes encontrados em terra. A frota vitoriosa, carregada de ricos espólios, perdeu-se parcialmente num tufão, e a detenção em terra, de um grupo de náufragos, terminou numa movimentada cena. Para a libertação dos homens, Faria enviou ao mandarim uma petição e presentes, segundo o uso do país; isto não conseguiu satisfazer o mandarim, que prometeu apenas atender com o peticionário prostrado a seus pés. Faria, muito ofendido, exigiu a libertação, em termos de igualdade referindo o rei de Portugal e o imperador da China como amigos e irmãos. Altamente provocado com esta comparação, o presumido valido do Filho do Céu declarou que, como na petição se lhe haviam dirigido como a um grand seigneur, se tinha compadecido apesar de os presentes serem insignificantes; mas ordenava a Faria que partisse de imediato, sem mais negociações, pois tivera a ousadia de se intrometer em assuntos celestiais. Um resgate substancial foi rejeitado e o mensageiro barbaramente tratado. Em consequência disto os portugueses desembarcaram e marcharam sobre a cidade de Nou-day (Nan-wei?) e, ao esplendor das bandeiras, dos toques de gongo e das momices belicosas de uma turba antagonista, replicaram com uma fusilaria que pôs a multidão presa do pânico em debandada. Perseguiram-nos, não lhes dando quartel, e em quatro ou cinco credos, era então costume medir-se o tempo de duração de um combate ou de algum incidente notável pelo número de credos rezados nesse período, desbarataram as tropas estacionadas às portas da cidade, matando a tiro o mandarim em questão, o qual vestia uma antiquada couraça de veludo cor de púrpura, guarnecida de pregos dourados, que, conforme se verificou depois, pertencera ao infeliz Pires. Depois de efectuada a libertação a cidade foi saqueada e incendiada. À chegada a Liampó, Faria propôs que passassem o Inverno noutro lugar, receoso de que em consequência dos acontecimentos de Nou-day, a sua presença pudesse pôr em perigo a colónia. Foi tranquilizado com a afirmação de que até poderia ter queimado Cantão sem risco, tal a confusão que ia então na China. Em comemoração da vitória sobre Coja Acém, foi brindada a Faria uma recepção triunfal, em Liampó, durante a qual foi aclamado como um príncipe.
Em seguida, instigado por um flibusteiro chinês, começou a pilhar os templos imperiais perto de Nanquim, que se supunha conterem fabulosos tesouros, e, no regresso, Faria afogou-se no rio e Mendes foi, entre outros, feito prisioneiro. Depois de uma longa descrição, na qual dá largas à sua notória tendência para falsear a verdade, Mendes Pinto relata que nesse mesmo ano, 1542, o vice-rei de Chequiang ordenou a destruição de Liampó, apenas porque uma aldeia ali perto fora assaltada, por instigação de Lançarote Pereira, em represália pelas perdas ocasionadas aos comerciantes chineses que haviam tido necessidade de fugir com os seus bens.
Para Gaspar da Cruz, no entanto, só seis anos mais tarde, em 1548, uma frota imperial foi especialmente equipada, em Foquien, para correr com os piratas de Liampó. Segundo o relato de Mendes Pinto, em cinco horas, uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações reduziu Liampó a um monte de ruínas, uma catástrofe que custou as vidas de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses, que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarenta e dois juncos, perda que foi avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

sábado, 3 de novembro de 2012

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Um hábil ardil resultou na captura de dois juncos portugueses de mercadorias, cujos tripulantes, desafiados pelas pessoas que estavam em terra, desembarcaram para lutar; e enquanto eram ardilosamente afastados os seus navios foram capturados por uma esquadra que saíra de trás dum promontório nas cercanias»

Porta do Cerco, 1915
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«Enquanto, de Ormuz a Malaca, as armas portuguesas ganhavam muitas batalhas, a honra e a dignidade de Portugal eram repetidamente ultrajadas, com perfeita impunidade pelos menos poderosos chineses, porque as forças navais e militares necessárias para manter o prestígio da nação na China não podiam ser destacadas, sem sérias consequências, de um domínio permanentemente ameaçado que a bravura impulsiva de uma mão-cheia de heróis alargou até às dimensões assumidas e demasiado difíceis de manter com os fracos recursos a esse cometimento destinados. E por entre constantes apuros, o governo português não só abandonou o projecto de construir uma fortaleza na China como, depois do revés de Tamou, também tratou os interesses prospectivos naquele império com uma indiferença fatal. Por outro lado, embora privados de apoio estatal, alguns intrépidos aventureiros portugueses ainda desafiaram o exclusivismo e as barbaridades de um povo necessitado de outra Grande Muralha para resguardar o seu isolamento agora ameaçado desde o mar.
Segundo o Tratado da China, de Gaspar da Cruz, os chineses que emigraram em contravenção às suas leis dependiam dos portugueses para manter a comunicação com a China, forneciam-lhes guias e auxiliares, e, depois do imbróglio de Andrade levaram-nos a Liampó (Ningpo), onde os mandarins, largamente subornados, faziam vista grossa ao comércio proibido, que, com o passar do tempo se estendeu a Chincheu, chegando a restabelecer-se às próprias portas de Cantão. Possivelmente os portugueses que haviam chegado até Nanquim fixaram-se em Liampó.
Aí, tinham tudo menos pelourinho e forca através de procedimentos ilegais, alguns dos quais chegaram ao conhecimento do imperador que mandou uma frota, equipada em Foquien, correr com os ladrões, especialmente os de Liampó. Seguiu-se uma longa contenda em Chincheu: não era feita distinção entre bandidos e gente honesta e os comerciantes portugueses, constantemente hostilizados, estavam prestes a abandonar a costa quando, por uma sugestão particular, resolveram os problemas com os chefes chineses, oferecendo-lhes ricos presentes. Mais tarde, contudo, a frota retomou uma rigorosa vigilância. Um hábil ardil resultou na captura de dois juncos portugueses de mercadorias, cujos tripulantes, desafiados pelas pessoas que estavam em terra, desavisadamente desembarcaram para lutar; e enquanto eram ardilosamente afastados os seus navios foram capturados por uma esquadra que saíra rapidamente de trás dum promontório nas cercanias. O mandarim que urdiu o plano ficou delirante e, pela divisão do espólio, assegurou a conivência dos outros no sentido de conseguir uma promoção oficial. Passeou em parada os portugueses que tinham sido feitos prisioneiros: a maior parte ia em jaulas e quatro deles, de manto e chapéu, eram transportados em cadeiras, ladeados de estandartes e trombetas e apresentados como reis de Malaca capturados numa grande batalha. No meio de muita alegria popular o espectáculo foi de cidade em cidade, espalhando aos quatro ventos a fama do mandarim. Para que a impostura real não pudesse ser divulgada os auxiliares chineses dos juncos foram quase todos executados. Os gritos de desespero soltados pelos familiares provocaram, finalmente, um inquérito oficial por um alto funcionário de Pequim, que castigou o mandarim responsável e libertou a maioria dos prisioneiros, apesar dos persistentes esforços para frustrar os objectivos da justiça e incriminar os portugueses como ladrões.


Da leitura de outro relato contemporâneo, a famosa Peregrinação de Mendes Pinto, ressalta que Liampó foi sempre considerada como a mais bonita, a mais rica e a melhor abastecida colónia que os portugueses tiveram na Ásia, um município oficializado como cidade portuguesa e intitulado, nos testamentos e escrituras, Esta muy nobre e sempre leal cidade de Liampó, pelo Rey nosso senhor, como se se situasse em Portugal. A colónia atingiu o auge da sua prosperidade depois da descoberta do Japão». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Cartas de Cantão que chegaram, anos depois, às mãos dos portugueses revelaram os sofrimentos atrozes da embaixada na prisão, onde roubaram a Pires os presentes reais recusados, assim como uma quantidade de almíscar, ruibarbo, damasco, cetim, ouro e prata que ele trazia consigo para fins comerciais»


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«Em tão adversas circunstâncias, o enviado Tomé Pires, que permanecera em Cantão todo este tempo, foi, em 1520, convidado a ir a Pequim, para onde seguiu, pela rota do Grande Canal, com três naus arvorando a bandeira portuguesa, embora isso fosse contrário aos usos do país. Acostumada como estava, a corte de Pequim, a receber apenas embaixadas tributárias, o teor altivo da carta de Manuel I foi considerado derrogatório pÍtra com o Filho do Céu. Outra carta de Fernão Peres Andrade foi falseada pelos intérpretes em Cantão e transformada numa petição de vassalo enquanto uma nota do vice-rei de Cantão informava que Andrade pedira autorização para estabelecer uma feitoria em Cantão e que, difíceis de contentar, os conquistadores de Malaca eram muito presunçosos no tocante a honrarias. O conselho imperial, reparando na disparidade dos termos destas cartas, declarou Pires um impostor e um espião. E, como para ratificar o destino desta embaixada, chegaram, então, as notícias dos procedimentos arbitrários de Simão de Andrade, que, infelizmente, vieram dar credibilidade às difamações maldosas que pintavam os portugueses com as tintas mais negras. O imperador morreu durante esta crítica conjuntura e o seu sucessor, anulando a intenção da corte de executar Pires, mandou regressar a Cantão com os seus presentes, a infortunada embaixada, que seria libertada se os portugueses entregassem Malaca, sem o que os reféns sofreriam. Em qualquer caso, todas as relações entre portugueses e chineses, dali por diante cessariam. Em vez de devolver Malaca ao sultão os portugueses, depois de aí repelirem um ataque, caíram sobre Bintam. Cartas de Cantão que chegaram, anos depois, às mãos dos portugueses revelaram os sofrimentos atrozes da embaixada na prisão, onde roubaram a Pires os presentes reais recusados, assim como uma quantidade de almíscar, ruibarbo, damasco, cetim, ouro e prata que ele trazia consigo para fins comerciais. Era crença geral que por fim, a desgraçada embaixada teria morrido na prisão? Mas Mendes Pinto no decurso das suas deambulações pela China, vinte anos mais tarde parece ter encontrado uma filha de Pires por quem soube que depois de ter sobrevivido a torturas atrozes, seu pai e parte da sua comitiva haviam sido desterrados para várias províncias, e que Pires passara o resto da sua vida propagando a fé cristã, na qual a filha era versada, rezando em português com uma devoção que comoveu até às lágrimas o desamparado viajante.
Ignorando o triste destino da embaixada, e desejoso de concluir um tratado de paz e amizade com a China, Manuel I enviou uma frota comandada por Martim Coutinho, com ordens de construir em Tamou, ou onde fosse mais apropriado para proteger os portugueses na China, uma fortaleza, da qual assumiria depois o comando e cuja guarnição seria uma parte da tripulação, esperava-se que Pires tivesse facilitado as negociações de tudo isto. A frota, de seis naus, chegou a Tamou em Agosto de 1522, juntamente com Duarte Coelho, que prudentemente permaneceu ao largo. As naus entraram no porto completamente despreocupadas mas, poucos depois, em vista dos indícios de hostilidades, tentaram partir, quando uma poderosa frota imperial as atacou. Já eram em menor número mas ainda se incendiou e explodiu uma nau. Numa embarcação, um grupo chefiado por Pedro Homem adiantou-se para salvar da água os sobreviventes e, por entre prodígios de valentia caiu vítima do seu nobre esforço enquanto o resto da frota, achando a situação desesperada, abria caminho com a artilharia e rumava a Malaca. Muitos membros da tripulação, capturados pelos chineses, foram deixados morrer à fome ou torturados até à morte sendo alguns cortados aos bocados, em vida, como ladrões.
Atrocidade após atrocidade ficaram por vingar, sem falar das guerras sem fim, revoltas e dilemas que tornaram as conquistas de Portugal um fardo demasiado pesado para os ombros do pretendente a Atlas». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

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terça-feira, 17 de julho de 2012

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Em quase todas as narrativas das primeiras relações dos portugueses com a China, Simão Andrade é descrito como um odioso monstro, inumano e imoral. Para as suas atitudes despóticas em Tamou não se encontra justificação nem na intolerância exasperante dos mandarins, nem na abundante pirataria nem, ainda, na necessidade da criação de uma praça forte…»



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«A anexação de Tamou, aparentemente projectada quando Jorge Álvares lá erigiu o “padrão”, foi intrepidamente tentada por Simão Andrade, outro herói de Malaca, que, em 1518, chegou a Tamou com uma nau e três juncos. Com o propósito de defender o local dos ataques de piratas construiu um forte e, como elemento dissuasor, levantou uma forca numa ilhota adjacente onde é suposto ter sido executado um delinquente com todas as impressionantes formalidades de uma execução em Portugal, apropriação de soberania que produziu grandes suspeitas no governo chinês. Enquanto várias cidades eram saqueadas pelos piratas nativos, em nome dos estrangeiros, os portugueses tornaram-se ainda mais odiados devido aos clamores sensacionalistas de que muitos rapazes e raparigas, de boas famílias cantonesas, tinham sido raptados e vendidos a Simão Andrade a fim de serem, mais tarde, assados e comidos. Os preconceitos xenófobos, assim maldosamente despertados, foram ainda aumentados por outras medidas arbitrárias: Simão Andrade que controlava o comércio e a navegação de Tamou, recusou-se a pagar direitos e maltratou gravemente um funcionário de alfândega. Foi, obviamente este Andrade quem sovou um mandarim e, com isso, provocou a animosidade de que resultou, segundo Gaspar Cruz, a sua retirada em desespero com perda de algumas naus, na mesma altura em que, como relatou Couto, era afixado um édito imperial em grandes caracteres dourados, sobre a porta de Cantão, proibindo o acesso a “homens de longas barbas e grandes olhos”. Em quase todas as narrativas das primeiras relações dos portugueses com a China, Simão Andrade é descrito como um odioso monstro, inumano e imoral. Para as suas atitudes despóticas em Tamou não se encontra justificação nem na intolerância exasperante dos mandarins, nem na abundante pirataria nem, ainda, na necessidade da criação de uma praça forte portuguesa em costas tão perigosas e inóspitas; e embora se dê facilmente crédito a todas as difamações, as alegadas iniquidades nem sequer são conformes com os antecedentes, dignos de menção: Simão Andrade tal como Fernão Peres Andrade foi um dos distintos oficiais cujo sentido de justiça e humanidade impeliu a que protestassem contra a execução ultrajante de Ruy Dias. Por essa razão, os Andrades foram postos a ferros e só reabilitados pelo próprio Albuquerque em face das suas notáveis qualidades. Em 1521, outra frota apareceu em Tamou: um navio mercante de um importante nobre e vários juncos, incluindo o do pioneiro, que por ali morreu pouco depois e foi enterrado junto ao” padrão” que havia erigido, o marco mais remoto alguma vez levantado por um navegador português. À chegada, as embarcações foram mandadas para o largo porque conforme foi alegado, à morte de um imperador chinês todos os estrangeiros têm de sair do império. Recusando partir, os portugueses ficaram na defensiva. Uma frota imperial de cinquenta velas cercava o porto enquanto vários portugueses, a caminho de Cantão para fins comerciais, eram detidos e encarcerados. Outros, que vinham do Sião e de Patane, foram atacados, mortos ou capturados com as suas embarcações. Dois outros juncos chegaram então e Tamou: um deles, bem equipado, pertencia a Duarte Coelho, que tendo sido atacado enquanto tentava resolver as desavenças, fez estragos com a sua artilharia; os chineses tentaram ataques esporádicos durante o cerco mas não se atreveram a aproximar-se e, depois de um combate sangrento, foram enterrar os mortos numa baía a três léguas de distância, altura em que uma nau e um junco se esgueiraram para Tamou, onde a situação era precária. Os juncos estavam falhos de homens, não tendo qualquer deles mais de oito portugueses a bordo. Os capitães reuniram-se para consultas. Duarte Coelho, que chefiava o grupo, juntou, então, os homens em duas naus e no seu próprio junco e, a coberto da noite levantaram âncora depois de um cerco de quarenta dias. Na manhã seguinte, 8 de Setembro de 1521, as três embarcações encontravam a frota imperial. Seguiu-se uma refrega violenta durante a qual, com romântica devoção à Virgem, tão característica dos navegadores portugueses, Duarte Coelho ordenou que se fizesse um apelo geral à celeste protectora, pois era o dia da sua natividade; e a tempestade que oportunamente se levantou foi ingenuamente considerada como um seu auxílio, porquanto o temporal ajudou decisivamente os devotos da virgem na sua milagrosa fuga, em comemoração da qual Duarte Coelho, à chegada a Malaca, fundou um asilo em honra da Salvadora.
Entretanto chegou a Nanquim um emissário, reclamando a protecção do imperador para o rajá de Bintam, um vassalo do ex-sultão de Malaca; e em consequência das intrigas deste emissário, o vice-rei de Nanquim comunicou ao imperador que, com o pretexto de comerciar, os “francos”, assim eram chamados então os portugueses na China, tinham vindo espiar o ponto mais vulnerável do Império, com vista a estabelecer aí mercadores e tomar depois o local pela força das armas, como haviam feito na Índia e em Malaca». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT