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sábado, 8 de janeiro de 2011

Domingos Sequeira: «Foi um pintor extraordinário. Fez uma evolução dentro dos cânones, dos parâmetros da arte neoclássica para uma arte pré-romântica, ou mesmo romântica, quando na Europa ainda se estava a dar os primeiros passos nessa nova sensibilidade»

(1768-1837)
Lisboa
Cortesia de dubleudansmesnuages


O pintor Domingos António de Sequeira foi dos primeiros, a nível europeu, a explorar a sensibilidade romântica. O seu trabalho adquire uma rara dimensão internacional na cena artística do seu tempo. As suas obras foram criadas em Portugal, Itália e França, num persistente trabalho de pesquisa e estudo, o que revela a sua própria ambiguidade e complexidade. «A sua obra coloca a arte portuguesa ao nível da arte europeia», afirma o historiador de arte Miguel Soromenho. Um dos pintores mais influentes do século XVIII, «um legado que ultrapassa o da sua vida física».

O percurso profissional de Domingos Sequeira é norteado por vocação e trabalho persistente. Depois de frequentar a Casa Pia de Lisboa, o então aspirante a pintor contraria os planos que o pai tinha delineado para ele, seguir medicina. Em vez disso, procurou aperfeiçoar a sua técnica ao inscrevr-se em 1781 no curso da Aula Régia de Desenho.

Cortesia de commonswikimedia

Cortesia de memoriasimagens

A pintura não é a única forma que encontrou para explorar e construir o seu universo plástico. Miguel Soromenho lembra:
  • Foi um homem que utilizou a arte de uma forma moderna;
  • Fez design de moda, figurinos, projectos de fardas para secretários de Estado;
  • As primeiras notas do Banco de Portugal e desenhos para moedas;
  • A baixela para o duque de Wellington, 
Foi o princípio da polivalência que presidiu às suas deslocações entre Portugal, Itália e França, países onde apurou a técnica e cultivou experiências de vida.

Cortesia de arqnet
Cortesia de truelovetoo


A primeira vez que rumou a Itália foi em 1788, com uma pensão do governo de D. Maria I, patrocinada pelo marquês de Marialva. Ingressou na Academia Portuguesa em Roma e, posteriormente, na Academia de São Lucas, onde pintou:
  • Degolação de S. João Baptista,
  • A Alegoria à Casa Pia,
  • Aparição de Cristo a D. Afonso Henriques.
De volta a Lisboa, em 1796, não conseguiu vender o seu trabalho ao preço que praticava em Roma, o que o impediu de cumprir o seu sonho de ganhar dinheiro depressa para regressar à cidade eterna, onde se encontrava Nannina Cometti, com quem queria casar.

Cortesia de leilaodepensamentos
Cortesia de  www2crbucp

A desilusão e o seu estrutural ascetismo fizeram-no ingressar, enquanto noviço, no Convento da Cartuxa de Laveiras e por lá ficar até 1802, ano em que foi nomeado primeiro-pintor da corte e co-director, com Francisco Vieira Portuense, dos trabalhos de decoração do Paço da Ajuda, em construção.

Cortesia de lusomondoitalia
Cortesia de flickt  

A forma como viveu as convulsões políticas que se sucedem atesta a complexidade do pintor: «Não é uma personagem plana. É redonda, complexa, cheia de contradições. Apoiou D. João VI, apoiou os Franceses, depois apoiou D. Miguel e D. Pedro. Por fim, acabou por se exilar».
Foi para França, onde expôs, no Salão do Louvre, «A Morte de Camões», e ganhou uma medalha de ouro, o que confirma a dimensão europeia da sua obra.

Cortesia dearqnet
Cortesia de arqnet  

Em 1826, Domingos Sequeira decide regressar a Roma, cidade onde viria a falecer anos depois, em 7 de Março de 1837, sem nunca mais voltar a Portugal, pintando quadros como:
  • O Calvário,
  • A Adoração dos Mago,
  • A Ascensão,
  • Juízo Universal.
A consistência e a exigência do seu percurso artístico permitem a Miguel Soromenho afirmar que Domingos Sequeira «foi um pintor extraordinário. Fez uma evolução dentro dos cânones, dos parâmetros da arte neoclássica para uma arte pré-romântica, ou mesmo romântica, quando na Europa ainda se estava a dar os primeiros passos nessa nova sensibilidade».

Cortesia de embaixadaportugalbrasil
Cortesia de commonswikimedia  

Cortesia de Dicionário Histórico/JDACT

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Stuart Carvalhais: Caricaturista, humorista, ilustrador, pintor e autor de banda desenhada. Notabilizou-se com a criação das histórias de banda desenhada do Quim e Manecas

(1887-1961)
Vila Real
Cortesia de cimitan

José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, mais conhecido por Stuart Carvalhais, foi um pintor, e autor de banda desenhada.
Stuart Carvalhais é considerado o pai da banda desenhada em Portugal. O primeiro desenho, Cenas de Rua, é publicado no jornal O Século.

Cortesia de lambiek
A sua primeira banda desenhada, Quim e Manecas, é publicada pela primeira vez em 1915, no suplemento humorístico do jornal O Século. Estas personagens dão origem ao primeiro filme cómico, com o mesmo nome, apresentado em 1916, onde Stuart Carvalhais interpreta o pai de Manecas.
As histórias de Quim e Manecas serão publicadas até 1953. Paralelamente, Stuart Carvalhais teve, também, um papel de destaque no teatro português, nomeadamente o de revista, onde trabalhou como cenógrafo e figurinista.
Ao longo da sua vida, Carvalhais publicará os seus trabalhos em diversos jornais, dos quais se destacam A Batalha, o Diário de Notícias, o Diário de Lisboa, o Diário Popular e o jornal A Bola; e em revistas como a Sátira (publicação humorística), Repórter X, Ilustração Bertrand, Kino, Pica-Pau e Cara Alegre.

Cortesia de tipografos
Em 1949, Stuart Carvalhais recebe o prémio Domingos Sequeira.

http://www.flickr.com/photos/gatochy/sets/72157594242087324/

«O seu génio criativo permitia-lhe desenhar, com um traço instintivo, rápido e decidido, sob qualquer superfície (guardanapos, papel velho, cartão...) e com qualquer tipo de material (graxa, carvão, vinho, borra de café ou com fósforos!), tendo deixado uma obra de incalculável valor e extensão, pois sempre foi dispersando as centenas de trabalhos que realizou. Modesto como muito poucos, afirmou sobre si "[...] mas ser artista é ter talento, possuir garra, ser condecorado. [...] Eu não, nunca pintei nada [...], faço bonecos, para distrair a fome. [...] Artistas são os outros [...]." in República, 13 de Dezembro de 1940. De facto, Stuart tinha pena de não poder dedicar-se à pintura, mas o seu trabalho anárquico não lhe permitiu ter condições para prosseguir carreira de pintor, produzindo desenhos com extraordinária rapidez e facilidade, consoante as necessidades da bolsa. No entanto, apesar dos apertos económicos por que passou (pela vida desregrada que teve), nunca se lhe ouviu lamúrias nem regateava o preço que lhe pagavam pelos desenhos, sendo este desprendimento materialista marcado pelos muitos desenhos e gravuras que sempre foi, generosamente, oferecendo. Para além de divertir o público com os desenhos que apareciam nos jornais, revistas ou livros, quem com ele privou é unânime em afirmar que na vida pessoal sempre foi uma pessoa de trato muito divertido, sendo mais que muitas as anedotas reais que se passaram consigo. Apesar de grande parte do meio intelectual do seu tempo o olhar com desdém, o grande escritor que foi Aquilino Ribeiro definiu-o na perfeição: "O grande e pobre Stuart".
Para além da caricatura, da ilustração e, com menor produção, da pintura, Stuart notabilizou-se com a criação das célebre e duradouras histórias aos quadradinhos (BD) Quim e Manecas, que apareceram em 1915, em O Século Cómico.
Cortesia de diasquevoam
A extraordinária qualidade narrativa e plástica da série, protagonizada por dois irrequietos miúdos, corresponde a um caso raro de longevidade nas histórias aos quadradinhos em Portugal (se bem que com diferentes fases e passando por O Século, pela Ilustração Portuguesa, por Os Sports, pelo Sempre Fixe, pelo Diário de Lisboa e acabando no Cavaleiro Andante, em 1953), mais dadas a histórias completas ou a séries de curta duração. Por outro lado, esta série, constituída por mais de 500 episódios, foi das primeiras bandas desenhadas a utilizar balões em toda a Europa.
A enorme popularidade dos dois petizes foi associada à produção de um filme (datado de 1916, de que se perdeu o rasto), a novelas, jogos, brinquedos e publicidade. A série Quim e Manecas, numa curta fase (1939-1940), passou a designar-se Manecas e João Manuel, tendo aparecido no Sempre Fixe, um semanário humorístico que marcou o humor possível durante o Estado Novo. Realizou ainda, esporadicamente, bandas desenhadas como "Cocó, Reineta e Facada", entre outras divertidas personagens».
In Infopédia. Stuart Carvalhais. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-10-07]. Disponível na www: .

Cortesia de revistaantigaportuguesa
Para uma aproximação ao tema deste percurso, a primeira sugestão vai para uma visita à Bedeteca de Lisboa, a única biblioteca pública do país dedicada à banda desenhada e à ilustração. Aí pode encontrar uma selecção de títulos para constituir uma biblioteca mínima de banda desenhada, nacional e estrangeira, entre outros recursos em linha. Além de notícias actualizadas do mundo da BD e da ilustração, a Bedeteca dispõe de uma folha informativa electrónica e são várias as hiperligações sugeridas ao nível de autores, ilustradores e festivais.

Morre aos 73 anos de idade.
 
Cortesia de camilo20
 
Cortesia de wikipédia/Infopédia/Instituto Camões/JDACT

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Almada Negreiros: Um dos principais colaboradores da Revista Orpheu

(1893-1970)
Cortesia de catedral
José Sobral de Almada Negreiros foi um artista multidisciplinar, pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista português ligado ao grupo modernista e um dos principais colaboradores da Revista Orpheu. Parte da sua infância foi passada na ilha de São Tomé e Príncipe, terra natal de sua  mãe, Elvira Freire Sobral Bristot. Em 1911, Almada Negreiros, entra para a Escola Internacional de Lisboa onde irá desenvolver o seu trabalho, publicando, ainda nesse ano, o seu primeiro desenho na revista A Sátira. Publica também o jornal manuscrito A Paródia, onde é o único redactor e ilustrador. Em 1913, apresenta, na Escola Internacional de Lisboa, a sua primeira exposição individual, composta de 90 desenhos.Nesta Escola trava conhecimento com Fernando Pessoa, com quem edita a Revista Orpheu, juntamente com Mário de Sá Carneiro. A propósito desta revista, há uma troca de palavras com Júlio Dantas, (médico, poeta, jornalista e dramaturgo) ao afirmar que a revista é feita por gente sem juízo. Irónico, mordaz, provocador mesmo, Almada responde com o Manifesto Anti-Dantas (declamado por Mário Viegas) onde escreve: «…uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, morra! Pim!».  Recebeu o Prémio Columbano pela sua tela intitulada Mulher.

O manifesto teve algum impacto no meio artístico; é tempo de mudar as mentalidades e a sociedade, e Almada fá-lo como poucos, atacando a cultura burguesa instituída e os seus representantes ao mais alto nível. Em 1927, volta a deixar Portugal, desta vez para Espanha, onde, além de colaborar com diversas revistas, escreve El Uno, Tragédia de la Unidad, obra dedicada à pintora Sarah Afonso.

A partir daqui, Almada dedica-se principalmente ao desenho e à pintura. Pinta os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que o público, agarrado às tradições, não aprecia, o conhecido retrato de Fernando Pessoa (1954), os painéis das gares marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, pelas quais recebe o Prémio Domingos Sequeira, pinta o Edifício da Águas Livres e frescos na Escola Patrício Prazeres, pinta as fachadas dos edifícios da Cidade Universitária e faz tapeçarias para o Tribunal de Contas e para o Palácio da Justiça de Aveiro, entre muitas outras obras de arte.
Os seus últimos trabalhos, já com 75 anos, são o Painel Começar na Fundação Calouste Gulbenkian e os frescos da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Pinta também o seu célebre quadro «as mulheres amam-se».
Almada Negreiros morre aos 77 anos de idade, de falha cardíaca, no mesmo quarto do Hospital  em que também tinha morrido Fernando Pessoa.


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wikipédia/JDACT
(Manifesto Anti-Dantas)