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domingo, 5 de junho de 2016

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «… o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento…»

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«(…) Em 1355 encontramos outra referência do cronista a Martim Afonso Telo. A rainha dona Maria estava em Toro acompanhada de Martin Alfonso Tello, que era natural de Portogal, é viniera com la Reyna Doña María quando ella vino de Portogal, segundo dicho avemos. De Toro, dona Maria pediu aos seus enteados, Henrique Trastâmara Fradique, que fossem ter com ela àquela cidade, antes de o rei seu filho lá chegar, pois temia que este se vingasse da protecção que ela lhes tinha prestado anteriormente. Estes acederam e foram ter com a rainha. Em 1356, a rainha continuava em Toro, com Martim Afonso Telo, a condessa dona Joana, mulher de Henrique Trastâmara e outros cavaleiros. A aproximação do rei de Castela fê-los ir para a alcáçova da cidade, onde julgaram estar mais protegidos. Pedro I e os seus escudeiros entraram em Toro e mataram diversos cavaleiros que estavam contra o rei. Ao chegar à alcáçova, o rei exigiu que a mãe viesse ao seu encontro. Maria ainda tentou negociar o perdão dele para os homens que a acompanhavam, mas o filho mandou-a ir ter com ele, acrescentando que logo saberia o que fazer com os cavaleiros em questão. O resultado foi a morte destes, aos pés de dona Maria e de dona Joana, situação que provocou o desmaio às duas senhoras. Um desses cavaleiros foi Martim Afonso Telo. Ao recuperar os sentidos, a rainha amaldiçoou o filho e a vida e desejou morrer. Dias depois, Maria pediu ao filho que a enviasse para Portugal; o que de facto veio a suceder. A 10 de Janeiro de 1357 a rainha parece ter estado em Toro, segundo a Crónica de Alcântara, mas o Cronicon Conimbricense e a História genealógica da Casa Real portuguesa referem que a 18 de Janeiro a rainha dona Maria faleceu em Évora, depois de ter ido visitar os pais a Leiria.
A Crónica do rei Afonso IV (1325-1357) confirma que Maria faleceu viúva em Évora, mas não indica o ano. Acrescenta só que o corpo foi depois trasladado para a Capela dos Reis em Sevilha. A Crónica de Pedro I, de Fernão Lope, indica que Pedro I de Castela pediu ao seu homónimo, o rei Pedro I de Portugal, seu tio, logo que este começou a reinar, que lhe enviasse o corpo da mãe, para o sepultar ao lado do de seu pai, o rei Afonso XI, na Capela dos Reis, em Sevilha. Solicitou igualmente o envio das joias pertencentes a dona Maria. A História genealógica da Casa Real portuguesa afiança ainda que no testamento da rainha, outorgado a 8 de Novembro de 1351 (um ano depois de ficar viúva), Maria solicitava ser sepultada na dita capela, ao lado do marido, mas que, se este fosse trasladado para outro lugar, fizessem o mesmo com ela. Esta fonte não fez qualquer alusão ao adultério de Maria com o pai de Leonor Teles, antes descreveu a rainha como uma mulher que sempre dedicou ao marido o seu amor, quer em vida deste, quer depois da sua morte. Pero López Ayala também referenciou o óbito de Maria em 1357, e acrescentou-lhe um dado curioso, de que não encontrámos menção nas fontes portuguesas acima mencionadas: Maria morreu vítima de envenenamento causado pelo próprio pai, o monarca Afonso IV de Portugal: segund fué fama, dixeron que el Rey Don Alfonso de Portogal, su padre della, le ficiera dar hierbas con que moriese, por quanto non se pagaba de la fama que se oia della. O rumor era, pois, o adultério de Maria com Martim Afonso Telo, o pai de Leonor Teles.

O nascimento de Leonor Teles
Do nosso ponto de vista, consideramos credível que Leonor fosse natural de Trás-os-Montes. Vejamos os factos: na carta de doação de Vila Real de Trás-os-Montes dada a Leonor Teles, no ano de 1375, Fernando apresentou dois motivos para o acto: a obrigação que o casamento implicava e que o levou a ter de dar bens à rainha para ella sofrer os encargos que escusar nom poder; o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento de Afonso Télez (o quarto avô paterno de Leonor Teles), surge em 1258 como tenente de Bragança. Por outro lado, o irmão de João Afonso Telo I (o trisavô paterno da rainha dona Leonor Teles) foi Martim Afonso, que foi tenens de Santa Maria, Bragança e Montenegro. Por fim, Afonso Martins Telo (avô paterno da rainha) casou com Berenguela Lourenço, de Valadares. Esta família dos Valadares possuía importantes territórios no Norte de Portugal, nomeadamente em Trás-os-Montes, através de ligações matrimoniais estabelecidas com os senhores de Chacim. Leonor possuía, pois, relações familiares com a dita comarca, que prosseguiram ao longo da vida, já que a sua filha Beatriz foi presenteada por seu pai com a vila de Bragança em dote de casamento». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «É esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então…»


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A Amante do Pai
«(…) Em 1350, morreu Afonso XI de Castela, vítima da Peste Negra, e subiu ao trono o filho herdeiro dele e de Maria, Pedro I. No ano seguinte, foi mandada executar dona Leonor Gusmão, ao que parece por instigação da rainha viúva, dona Maria. Dona Leonor Gusmão, que fora concubina de Afonso XI, dera-lhe uma plêiade de filhos bastardos que rivalizavam em afectos e poder com o legítimo Pedro I. Foram eles Henrique, conde de Trastâmara; Frederico, mestre de Santiago; Fernando, senhor de Ledesma; Tello, senhor de Aguilhar, de Lara e de Biscaia; Sancho, conde de Albuquerque; João; Pedro; Joana, que casou com Fernando de Castro; e dois outros filhos que morreram de tenra idade. O reinado de Pedro I de Castela ficou marcado por guerras internas, que contaram com a participação de outros reinos, como Aragão e Inglaterra. A par do comportamento violento e indiscriminado de que era acusado, Pedro I também colhia antipatias de alguns sectores da nobreza pela atenção que prestava à sua concubina, dona Maria de Padilha, em detrimento da fraca consideração que votou às mulheres dos seus dois casamentos: dona Branca Bourbon e dona Joana Castro. Após o assassinato de dona Leonor Gusmão, a rivalidade entre Pedro I e os seus irmãos bastardos agravou-se. Henrique de Trastâmara opôs-se a Pedro I, de forma veemente, logo em 1352, com uma insurreição nas Astúrias contra a Coroa, que saiu fracassada. As disputas entre os dois irmãos continuaram por largos anos, já que Henrique não aceitou a autoridade do irmão, que acusou de ser cruel, acabando por se fazer coroar rei de Castela, em Huelgas de Burgos, no ano de 13661. Neste ano iniciou-se pois uma guerra fratricida, que terminou em 1369, com o homicídio de Pedro I às mãos de Henrique, em Montiel. Seguindo o percurso da rainha dona Maria depois de ficar viúva, observámos que esteve presente no casamento do filho, Pedro I de Castela, com dona Branca Bourbon, sobrinha do rei francês, que se celebrou a 3 de Junho de 1353 em Valhadolid3. Nesse mesmo dia, dona Maria tentou dissuadir o filho de ir ter com a sua favorita, dona Maria Padilha, uma vez que ta1 procedimento seria desonroso para a sua pessoa e vexatório para a noiva e o rei de França, seu parente. Pedro assegurou à mãe que o não faria, mas acabou por não cumprir, partindo para os braços da amada. A partir de então, acentuou-se a separação entre a mãe e o filho. Dona Maria protegeu a nora e os fidalgos que se opuseram ao comportamento de Pedro, como João Afonso, senhor de Albuquerque; João Nunes Prado, mestre de Calatrava; Álvaro Peres Castro e Álvaro Gonçalves Mourão. Estes dois últimos, fugindo às perseguições do rei de Castela, recolheram-se em Medina del Campo, onde estava a rainha dona Maria, que, inclusive, lhes cedeu cavalos. Álvaro Peres Castro partiu para Portugal e passou a estar ao serviço do infante Pedro, filho do rei Afonso IV de Portugal e amante ou marido da sua irmã, dona Inês de Castro.
A notícia do apoio prestado pela rainha dona Maria a estes fugitivos deve ter chegado aos ouvidos do filho. Na verdade, quando pouco depois, ainda no ano de 1353, se festejaram as bodas de Tello, irmão bastardo do rei, com dona Joana Lara, senhora de Biscaia, em Segóvia, a rainha dona Maria e os cavaleiros que estavam com ela foram proibidos de comparecer. Pedro de Castela decretou a prisão da mãe e enviou para junto dela uma série de guardas. Em 1354, porém, encontramos dona Maria, em Portugal, a visitar os pais e possivelmente também a assistir ao casamento de sua sobrinha, dona Maria (de 12 anos), com o infante Fernando de Aragão, que se celebrou em Évora. O cronista não referiu a presença da rainha dona Maria na cerimónia, mas indicou que a sua ida àquele reino se fizera com licencia del Rey su fijo. Foi igualmente nesta ocasião que Álvaro Peres Castro, a pedido de João Afonso Albuquerque e dos irmãos bastardos do rei de Castela, Henrique e Fradique, propôs ao infante Pedro de Portugal, filho de Afonso IV, que se candidatasse ao trono castelhano, visto ser neto legítimo do rei Sancho IV de Castela. O infante pareceu ficar satisfeito com o repto, mas o seu pai, Afonso IV fez por o dissuadir de tal empresa.
A rainha dona Maria apercebeu-se da conspiração que João Afonso Albuquerque e os outros planeavam contra o filho e, não querendo ser envolvida no plano, resolveu regressar a Castela, escolhendo um caminho onde não os pudesse encontrar. Acompanhada pelo irmão, o infante Pedro de Portugal (futuro rei D. Pedro I), pelo mestre de Cristo Rodrigo Eanes e por Álvaro Peres Castro, dona Maria partiu de Portalegre e foi para Nisa e depois para Castelo Branco. Aqui permaneceu oito dias, até que fueron aá Sant Vicente de la Vera: é lebaba Martin Alfonso Tello en este caminho á la Reyna Doña Maria por la rienda [rédea], é dalli se levanto la fama que despues ouvieron. É pois esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então e que a pretensa relação amorosa se iniciou também na mesma altura. Martim Afonso seguiu com a rainha para Castela (para Toro, ao encontro do rei Pedro), enquanto os outros acompanhantes foram só até pouco depois de cruzar a fronteira, regressando então a Portugal». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. « Mas dona Maria acabou por engravidar e Leonor de Gusmão temeu que a rainha desse a Afonso o desejado filho legítimo, facto que impediria que um dos seus ascendesse à Coroa»

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O Pai de dona Leonor em Castela
«(…) Dona Maria, filha de Afonso IV de Portugal, celebrou as suas bodas de casamento com Afonso XI, rei de Castela, em Alfaiates, no ano de 1328, e em 1333, na cidade de Burgos, o casal foi coroado. O consórcio não terá sido feliz, pois o monarca, dois anos depois de casar, não conseguindo que Maria engravidasse, iniciou uma relação amorosa com uma fidalga, Leonor Nunes Gusmão, de quem veio a ter muitos filhos. Esta relação manteve-se até ao final da vida de Afonso, apesar dos esforços dos seus vassalos e do seu sogro para que findasse. Leonor era a sua conselheira e exercia sobre ele e sobre o reino o verdadeiro poder. Reza a crónica que era em casa dela que Afonso XI reunia o seu Conselho e desembargava os assuntos do reino. Leonor estava rodeada dos melhores prelados e ricos-homens do reino, que lhe beijavam a mão e a tratavam como se ela fosse rainha de Castela. Quando o monarca partia em campanhas contra os mouros ou estava fora por outras razões, os oficiais de justiça e de chancelaria ficavam com ela.
Mas dona Maria acabou por engravidar e Leonor de Gusmão temeu que a rainha desse a Afonso o desejado filho legítimo, facto que impediria que um dos seus ascendesse à Coroa. Para evitar tal episódio, Leonor de Gusmão encomendou um feitiço a uma moura capaz de matar dona Maria e o seu rebento. No entanto, depois de dez dias e oito horas de parto agonizante, a rainha foi socorrida por um físico e astrólogo judeu que o monarca mandara chamar e que foi capaz de quebrar o encantamento. O infante Pedro, futuro Pedro I de Castela, o Cruel, nascia, pois, a 21 de Agosto de 1333. Apesar da alegria com que Afonso XI acolheu este acontecimento, a relação com a concubina manteve-se até ao final da sua vida. A rainha era preterida, recebendo Leonor Gusmão muitas das terras que tradicionalmente costumavam ser entregues às consortes legítimas dos monarcas de Castela.
Os melhores oficiais da rainha dona Maria foram-lhe retirados pelo próprio marido e alguns foram entregues aos filhos de Leonor Gusmão. A crónica fez menção de que um dos que saiu foi Rodrigo Álvares Astúrias, mordomo-mor de dona Maria, mas não indicou se foi servir os bastardos do rei. Ora, para nós, é importante registar que, por volta de 1333, a rainha ficou sem o seu mordomo-mor, já que sabemos que Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles, veio a ocupar este cargo, talvez logo nesta ocasião, ou apenas em 1340, conforme aventou Monteiro Machado. Este estudioso propôs esta data baseando-se na hipótese de que a formosíssima dona Maria, rainha de Castela, teria recrutado para seu mordomo-mor o dito Martim Afonso Telo ao vir a Évora pedir ao pai com grande humildade e muitas lágrimas auxílio militar na batalha (a dita Batalha do Salado) que o marido iria travar contra os reis de Marrocos e de Granada. Anselmo Braamcamp Freire acrescentou, por seu lado, que Martim Afonso Telo se veio a tornar amante da rainha de Castela, a infeliz dona Maria de Portugal.
Assim, tem sido relativamente consensual na historiografia portuguesa aceitar que os pais de dona Leonor Teles viveram em Castela, entre 1340 e 1356, (ano em que Martim Afonso Telo foi assassinado) e que os seus filhos terão lá vivido e talvez até nascido. A nossa investigação, porém, propõe-nos datas e convicções diferentes. Primeiro: lendo com atenção a crónica do rei Pedro, de Pero López Ayala, e não possuindo outras fontes, julgamos que Martim Afonso Telo passou a estar ao serviço da rainha dona Maria, em 1354, que morreu, de facto, em 1356, e que, durante este período, é provável que os dois tenham sido amantes. Segundo: consideramos muito possível que dona Leonor Teles tenha nascido em Portugal, possivelmente em Trás-os-Montes, como Fernando afiançou». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «A excelência do seu trabalho e a sua intensa formosura conquistaram o coração do bom lavrador. Acabou por lhe pedir a mão em casamento e Ximena aceitou de bom grado»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) Ana Paula Sousa sublinhou a urgência da dinastia de Avis em legitimar as suas origens (a bastardia e o golpe de Estado). Isabel Barros Dias afirmou que, quanto mais próximo se está dos acontecimentos narrados, mais feroz é a crítica, embora esta se faça de modo velado, não assumido. Segundo a investigadora, a exaltação dos novos detentores do poder tornava tentador o aproveitamento a partir de figuras marcadas como negativas, tais como Fernando e dona Leonor Teles. E o que teve a dizer Fernão Lopes sobre este assunto? Obviamente ele não escutou os reparos que sucintamente parafraseámos. Mas no seu Prólogo à Crónica de D. João I, primeira parte, respondeu já a algumas das questões suscitadas. Ao escrever as crónicas dos reis passados e do rei presente, João I, Fernão Lopes afirmou que a sua intenção não fora escrever um romance ou deturpar os factos históricos, de acordo com as conveniências afectivas e políticas, como tinham feito alguns historiadores de Castela e de Portugal que se haviam desviado da direita estrada, e corrido por semideiros escusos. Tão-pouco foi buscar a eloquência do discurso, pois se outros per venrura em esta crónica buscam formosura e novidade de palavras e não a certidão das histórias, desprazer-lhes-á de nosso razoado. O seu objectivo principal foi apenas contar a verdade, qualquer que esta fosse: nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mistura, leixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao povo quaisquer contrarias cousas da guisa que avieram. Se errar, foi por ignorância e não por vontade de deturpar a história, visto que mentira em este volume é muito afastada da nossa vontade.

A Lenda
Era uma vez um rei chamado Ordonho II, que governava em Leão em 921. Este rei tinha uma filha, Ximena, que era bela e gentil e que se deixara seduzir por um fidalgo da corte de seu pai. Algum tempo depois, a bela infanta viu-se abandonada pelo seu bem-amado. Sentindo-se só e amargurada, Ximena resolveu recolher-se no lugar de Meneses, em terra de Campos. A sobrevivência obrigou-a a procurar trabalho na casa de um lavrador abastado e honrado, que se chamava Telo Sanchez. Este acabou por se comover pelos modos modestos e desamparados que a bela serva demonstrava ter nas suas lides. A excelência do seu trabalho e a sua intensa formosura conquistaram o coração do bom lavrador. Acabou por lhe pedir a mão em casamento e Ximena aceitou de bom grado.
Passado pouco tempo, tinha já o casal dois filhos gémeos, Ordonho foi caçar para as montanhas e, chegada a noite, pediu agasalho na casa de Telo, a principal daquele lugar. Ximena reconheceu o ilustre viajante e, não querendo perder a oportunidade de se dar a reconhecer ao pai, preparou-lhe um belo repasto. Enquanto isso, resolveu ir buscar o vestido de brocado com que fugira da corte e um anel de rubi que o pai lhe tinha dado. Do vestido fez duas vestes para cada um dos seus filhos e o anel deitou-o no prato do pai, onde serviu um preparado de massa, azeite e ovos, a comida preferida do rei. À hora da refeição, Ximena mandou os filhos, vestidos com as ditas vestes, servirem o hóspede. Ordonho, que ainda não tinha suspeitado de nada, surpreendeu-se ao ver as duas crianças trajadas daquela singular maneira.
Depois, quando provou o manjar, admirou-se por lhe terem servido o seu prato predilecto. Mas a surpresa maior foi quando descobriu, no interior da massa, o anel de rubi! Ximena atirou-se então a seus pés e pediu-lhe perdão pela sua conduta. Ordonho reconciliou-se com a filha e reconheceu a magnitude do lavrador que casara com Ximena, julgando elevá-la socialmente. Declarou os filhos do casal como seus netos e nobilitou o lavrador. A família, unida, feliz e aumentada, partiu para a corte, onde foram celebradas justas festejando o regresso de Ximena e a sua descendência. Esta é a lenda que está associada ao lugar de Meneses, onde a família de Leonor Teles teve raízes. Cruzando esta narrativa com a História, sabemos que Ordonho II nasceu em 860 e faleceu em 924. Foi rei da Galiza, de 910 a 924, e rei de Leão, entre 914 e924. Casou três vezes, mas só teve descendência do primeiro consórcio, tendo sido Ximena a terceira dos seus filhos bastardos. Sucedeu-lhe o seu irmão, Fruela II, que reinou em Leão entre 924 e 925 e nas Astúrias entre 910 e 925. Fruela II foi o duodécimo avô de dona Leonor Teles». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Realeza no 31. Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação […] os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois, os quarenta e oito de João I passaram a quatro…»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) A leitura das crónicas, como de toda a outra documentação, deve ser feita com alguma reserva. No caso das crónicas lopesianas, náo deveremos deixar de ter em conta que foram escritas entre 1437 e 1443, ou seja, sensivelmente sessenta a setenta anos depois do reinado fernandino (1367-1383) e da regência de dona Leonor (22 de Outubro de 1383 a Janeiro de 1384). Esta distância temporal, embora não seja muito acentuada, difere da do tempo em que o cronista castelhano Pero López Ayala (1332-1407) viveu. É preciso que saibamos, também, que Ayala foi não só cronista, como curador do casamento entre o infante Henrique e a infanta portuguesa dona Beatriz; chanceler e alferes-mor do rei João I de Castela (marido da dita dona Beatriz); vassalo presente nos juramentos ao Tratado de Salvaterra de Magos e participante na batalha de Aljubarrota, do lado castelhano. Ou seja, ao contrário de Lopes, foi testemunha ocular de acontecimentos passados na época a que nos reportamos, acontecimentos esses muitas vezes relatados nas suas crónicas. Por fim, é importante ter em conta que a obra de Fernão Lopes resultou de uma encomenda feita pela dinastia de Avis, nos primeiros anos da sua vigência, quando urgia afirmar o reinado dos novos governantes.
A juntar a estes factores, existe a informação de que a maioria dos documentos que fizeram parte dos livos da chancelaria de Fernando I (que contém também os diplomas de dona Leonor Teles) não chegou até nós. Vejamos porquê. A Torre do Tombo, criada por Fernando I, em 1378, e instalada no castelo de São Jorge, passou a ser o arquivo onde se guardavam os livros das chancelarias régias. Com o passar dos anos, a desorganização foi-se instalando: o grande número de livros de registos, o desconhecimento da língua latina e do português arcaico, a ilegibilidade das grafias antigas, o estado de conservação, a proficuidade de traslados e cópias de um mesmo acto, a caducidade das cartas tornavam inútil uma parte dos diplomas guardados e dos registos feitos e, ao mesmo tempo, dificultavam o exame e a consulta dos mesmos.
Urgia reformular a Torre. Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação que marcou para sempre a História e que consistiu no seguinte: escolher nos livros de registo antigos os actos dignos de memória e copiá-los para novos livros de registo. Assim, os dez livros de Pedro I foram reduzidos a um, os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois (Livros 1 e 2, da sua chancelaria), os quarenta e oito de  João I passaram a quatro e os cinco de Duarte I a um. Os antigos livros de registo passaram à categoria de obsoletos e foram esquecidos, até acabarem por desaparecer no reinado de João III; se no inventário de 1526, feito por Tomé Lopes, guarda-mor da Torre, ainda constavam cerca de setenta desses livros antigos, entre os quais os dezassete de Fernando I, no inventário de 1529, elaborado pelo guarda-mor seguinte, Fernão Pina, a respeito do conteúdo deixado pelo seu antecessor, os mesmos já não foram citados. Assim sendo, só depois de João I e, sobretudo, a partir de Duarte I, voltaram a existir registos primitivos (e não registos reformados), com actos mais numerosos e mais bem conservados do que os livros de chancelaria dos reinados anteriores.
A chancelaria do rei Fernando I resume-se actualmente a quatro livros. O primeiro e o segundo são cópias do século XV e englobam todo o reinado. O terceiro é um livro original respeitante aos anos de 1381-1383. O quarto tem fólios originais dispersos que compunham alguns dos livros antigos da chancelaria fernandina, contendo actos produzidos nos anos de 1368-1378. Ao fazer a cópia do registo, o escriba riscava-o com um X ou um traço oblíquo, escrevendo por baixo traslado, passando depois ao registo seguinte, sobre o qual aplicava o mesmo processo. Esta triagem foi feita ao longo do tempo por diferentes agentes. No início, pelos próprios serviços de chancelaria que trabalhavam para Fernando I, depois pelo próprio Fernão Lopes, que foi guarda-mor da Torre e que teve ainda acesso aos dezassete livros iniciais da chancelaria fernandina, e, por fim, pelas depurações praticadas nos séculos XV e XVI. A partir do século XX, alguns historiadores chamaram a atenção para a suposta parcialidade do cronista. Horácio Ferreira Alves, por exemplo, alertou para o facto de as crónicas antigas, em que Fernão Lopes se baseou para escrever a história dos reis antigos, terem desaparecido depois dele. Na sua opinião, este desaparecimento foi intencional, já que a sua existência podia contrariar a verdade contada por Fernão Lopes. Enaltecer o reinado de João I, cujo filho sustentava o cronista, era imperioso, mas exigia que se deformassem e falsificassem os reinados anteriores, particularmente os de Pedro I e de Fernando I, de modo a que o governo de João I pudesse sobressair e ser aceite como uma tábua de salvação que reerguia Portugal da crise económica e social em que mergulhara no final do século XIV». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «Numa carta de 19 de Março de 1434, o monarca encarregou-o de pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente em Portugal foram, isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-rei meu senhor e padre, cuja alma Deus haja»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«As crónicas de Fernão Lopes sobre os rei Fernando I e João I (primeira parte) constituem a fonte do nosso conhecimento sobre a vida de dona Leonor Teles. Quanto à participação da rainha no reinado de Fernando I e na regência, é possível encontrar outras fontes) como os diplomas da chancelaria do rei (serviço responsável pela elaboração dos documentos régios) ou outros ligados aos mosteiros com os quais ela se relacionou. Por ora, debrucemo-nos sobre o cronista e conheçamos um pouco da sua vida e obra na pequena cronologia que se segue: 1380. Nascimento provável de Fernão Lopes, no seio de uma família de camponeses ou de mesteirais, em Lisboa. 1418. Data apontada para o início da sua carreira de guarda-mor da Torre do Tombo. Simultaneamente, foi escrivão do rei João I e do infante Duarte. 1419. Por ordem do infante Duarte, começou a escrever a Crónica dos sete primeiros reis de Portugal. Parece ter iniciado, também, as crónicas sobre Pedro I e Fernando I e as duas partes da crónica sobre João I. 1422. Exercício do cargo de escrivão de puridade (espécie de secretário dos assuntos particulares) do infante Fernando. 1434. Duarte, agora já rei, oficializou o trabalho de Fernão Lopes, que o deve ter iniciado em 1479. Numa carta de 19 de Março de 1434, o monarca encarregou-o de pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente em Portugal foram, isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-rei meu senhor e padre, cuja alma Deus haja. Em troca deste trabalho, o escritor recebeu uma tença de 14 000 reais anuais. Parece ter-lhe sido, igualmente, passada uma carta de nobreza, usando ele, a partir desta altura, o título de vassalo de el-rei; redacção da Crónica de D. Pedro I.
1437.Início da elaboração da Crónica de D. Fernando, cija redacção terá terminado em 1443. 1439. O regente Pedro confirmou-lhe a tença concedida por Duarte I, que falecera no ano anterior. 1443. Final da redacção da Crónica de D. Fernando; final da redacção da Crónica de D. João, Primeira Parte. 1449. Afonso V aumentou a tença anual do cronista para 20 000 reais anuais. Final da redação da Crónica de D. João I, segunda parte. 1454. Foi substituído no cargo de guardador das escrituras do Tombo, por Gomes Eanes Zurara, devido à idade avançada e a um estado de saúde mais debilitado. 1460. Data provável da sua morre.
As fontes utilizadas pelo cronista parece terem sido: crónicas de Pero López Ayala; Crónica do condestabre, anónima; redigida possivelmente entre 1431 e 1436; crónica latina sobre o reinado de João I, que Fernão Lopes atribuiu ao Doutor Christophorus; a crónica de Martim Afonso Melo, mencionada pelo próprio Lopes, no capítulo 47 da Crónica de D. Fernando; Livro de linhagens do conde D. Pedro. A obra de Ayala serviu como fonte para cinquenta e cinco capítulos da Crónica de D. Fernando, e a Crónica de Don Juan I foi aproveitada em setenta capítulos da Crónica de D. João I. A utilização da Crónica do condestabre como fonte é quase total; apenas oito capítulos não são utilizados por Lopes. As fontes narrativas dominaram a pesquisa de Fernão Lopes e a consulta das fontes documentais ocorreu, de forma pontual, somente para completar o relato. Primeira publicação das suas obras: 1644. Crónica de D. João I; 1735. Crónica de D. Pedro I; 1816. Crónica de D. Fernando». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

terça-feira, 11 de junho de 2013

Uma Rainha Inesperada. D. Leonor Teles. Isabel Baleiras. «Não sabemos o ano nem o local certos onde D. Leonor Teles nasceu. É provável que tenha sido por volta de 1350, em Trás-os-Montes. A sua morte permanece também um mistério. Julgamos que tenha falecido entre l391 e 1410, em Tordesilhas ou em Valhadolid»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) A partir do século XX, alguns historiadores chamaram a atenção para a suposta parcialidade do cronista. Horácio Ferreira Alves, por exemplo, alertou para o facto de as crónicas antigas, em que Fernão Lopes se baseou para escrever a história dos reis antigos, terem desaparecido depois dele. Na sua opinião, este desaparecimento foi intencional, já que a sua existência podia contrariar a verdade, contada por Fernão Lopes. Enaltecer o reinado de João I, cujo filho sustentava o cronista, era imperioso, mas exigia que se deformassem e falsificassem os reinados anteriores, particularmente os de Pedro I e de Fernando I, de modo a que o governo de João I pudesse sobressair e ser aceite como uma tábua de salvação que reerguia Portugal da crise económica e social em que mergulhara no final do século XIV.
Ana Paula Sousa sublinhou a urgência da dinastia de Avis em legitimar as suas origens, a bastardia e o golpe de Estado. Isabel de Barros Dias afirmou que, quanto mais próximo se está dos acontecimentos narrados, mais feroz é, a crítica, embora esta se faça de modo velado, não assumido. Segundo a investigadora, a exaltação dos novos detentores do poder tornava tentador o aproveitamento a partir de figuras marcadas como negativas, tais como Fernando I e D. Leonor Teles. E o que teve a dizer Fernão Lopes sobre este assunto? Obviamente ele não escutou os reparos que sucintamente parafraseámos. Mas no seu Prólogo, à Crónica de D. João I, primeira parte, respondeu já a algumas das questões suscitadas. Ao escrever as crónicas dos reis passados e do rei presente, João I, Fernão Lopes afirmou que a sua intenção não fora escrever um romance ou deturpar os factos históricos, de acordo com as conveniências afectivas e políticas, como tinham feito alguns historiadores de Castela e de Portugal que se haviam desviado da direita estrada e corrido por semideiros escusos. Tão-pouco foi buscar a eloquência do discurso, pois se outros per ventura em esta crónica buscam formosura e novidade de palavras e não a certidão das histórias, desprazer-lhes-á de nosso razoado. O seu objectivo principal foi apenas contar a verdade, qualquer que esta fosse:
  • nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mistura, leixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao povo quaisquer contrarias cousas da guisa que avieram. Se errar, foi por ignorância e não por vontade de deturpar a história, visto que mentira em este volume é muito afastada da nossa vontade.
Acreditamos que a verdade não é nenhum mito, mas que da mesma realidade surgem sempre diferentes leituras. É uma discussão muito antiga e Fernão Lopes já alude a ela. Na verdade, as fontes em que nos baseamos reflectem normalmente a ideologia dominante, mas não necessariamente a realidade. A equivalência entre facto e relato não existe, porque um é realidade e outro é narração e representação desse mesmo real. Ou seja, melhor dizendo, não há relato, o que há é recriação, construção de uma realidade a partir de outra ou de outras. E neste processo de transmissão da informação entram sempre em jogo diversos factores que se prendem com o tempo, com a motivação e as circunstâncias psicológicas, físicas, sociais e históricas envolventes.
Se, para a actualidade, é difícil ser-se exacto no que se conta ou escreve, para o passado medieval essa questão assume maior relevância, visto que as fontes rareiam e os que morreram já cá não estão para explicar como tudo se passou. No caso da História das mulheres medievais, as dificuldades são ainda maiores, não só porque a informação é geralmente parca e muito pontual, mas também porque quem a produziu foi, na maioria das vezes, um homem. E este, como lembrou mais uma vez Georges Duby, omitiu frequentemente o que se passava no universo feminino:
  • Se nos fiássemos demasiado nas palavras dos homens, correríamos o risco de cair no logro, pensando que a mulher estava destituída de poderes, numa posição de pobreza [...] Quando o véu se levanta, [...] vislumbramos um mundo feminino fortemente estruturado como uma pequena monarquia que exerce a esposa do senhor, a dama, que domina as outras mulheres da casa.
Portanto, resta aos investigadores conhecer as fontes possíveis, relacioná-las, cruzar informações recolhidas com outras emitidas por outros estudiosos e interpretar. A História é uma súmula de muitas interpretações que tem, na sua declaração de intenções, o propósito de estar o mais próximo possível da realidade invocada. E é isso que nos propomos fazer relativamente à vida de D. Leonor Teles: uma representação com base nos diplomas estudados, nas versões dos cronistas, em especial Fernão Lopes, e nas interpretações de muitos. Não sabemos o ano nem o local certos onde D. Leonor Teles nasceu. É provável que tenha sido por volta de 1350, em Trás-os-Montes. A sua morte permanece também um mistério. Julgamos que tenha falecido entre l391 e 1410, em Tordesilhas ou em Valhadolid». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Círculo de Leitores, 2012, ISBN -978-972-42-4706-9.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Uma Rainha Inesperada. D. Leonor Teles. Isabel Baleiras. «… que Ayala foi não só cronista, como curador do casamento entre o infante Henrique e a infanta portuguesa D. Beatriz; vassalo presente nos juramentos ao “Tratado de Salvaterra de Magos” e participante na Batalha de Aljubarrota, do lado castelhano»

Gravura de mjvalentim e hshaeffer
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Fernão Lopes, a verdade e a história
«As crónicas de Fernão Lopes sobre os monarcas Fernando I e João I (primeira parte) constituem a fonte do nosso conhecimento sobre a vida de D. Leonor Teles. Quanto à participação da rainha no reinado de Fernando I e na regência, é possível encontrar outras fontes, como os diplomas da chancelaria do rei, serviço responsável pela elaboração dos documentos régios, ou outros ligados aos mosteiros com os quais ela se relacionou. A leitura das crónicas, como de toda a outra documentação, deve ser feita com alguma reserva. No caso das crónicas lopesianas, não deveremos deixar de ter em  conta que foram escritas entre 1437 e 1443, ou seja, sensivelmente sessenta a setenta anos depois do reinado fernandino (1367-1183) e da regência de D. Leonor (22 de Outubro de 1383 a Janeiro de 1384). Esta distância temporal, embora não seja muito acentuada, difere da do tempo em que o cronista castelhano Pero López Ayala (1332-1407) viveu. É preciso que saibamos, também, que Ayala foi não só cronista, como curador do casamento entre o infante Henrique e a infanta portuguesa D. Beatriz; chanceler e alferes-mor do rei João I de Castela (marido da dita D. Beatriz); vassalo presente nos juramentos ao Tratado de Salvaterra de Magos e participante na Batalha de Aljubarrota, do lado castelhano. Ou seja, ao contrário de Lopes, foi testemunha ocular de acontecimentos passados na época a que nos reportamos, acontecimentos esses muitas vezes relatados nas suas crónicas.
Por fim, é importante ter em conta que a obra de Fernão Lopes resultou de uma encomenda feita pela dinastia de Avis, nos primeiros anos da sua vigência, quando urgia afirmar o reinado dos novos governantes. A juntar a estes factores, existe a informação de que a maioria dos documentos que fizeram parte dos livros da chancelaria do rei Fernando I (que contém também os diplomas de Leonor Teles) não chegou até nós. Vejamos porquê.
A Torre do Tombo, criada por Fernando I, em 1378, e instalada no castelo de São Jorge, passou a ser o arquivo onde se guardavam os livros das chancelarias régias. Com o passar dos anos, a desorganização foi-se instalando:
  • O grande número de livros de registos, o desconhecimento da língua latina e do português arcaico, a ilegibilidade das grafias antigas, o estado de conservação, a proficuidade de traslados e cópias de um mesmo acto, a caducidade das cartas tornavam inútil uma parte dos diplomas guardados e dos registos feitos e, ao mesmo tempo, dificultavam o exame e a consulta dos mesmos.
Urgia reformular a Torre. Em 1458, por ordem do rei Afonso V o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação que marcou para sempre a História e que consistiu no seguinte: escolher nos livros de registo antigos os actos dignos de memória e copiá-los para novos livros de registo. Assim, os dez livros de Pedro I foram reduzidos a um, os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois (Livros 1 e 2, da sua chancelaria), os quarenta e oito de João I passaram a quatro e os cinco de Duarte I a um. Os antigos livros de registo passaram à categoria de obsoletos e foram esquecidos, até acabarem por desaparecer no reinado de João III; se no inventário de 1526, feito por Tomé Lopes, guarda-mor da Torre, ainda constavam cerca de setenta desses livros antigos, entre os quais os dezassete de Fernando I, no inventário de 1529, elaborado pelo guarda-mor seguinte, Fernão Pina, a respeito do conteúdo deixado pelo seu antecessor, os mesmos já não foram citados. Assim sendo, só depois de João I e, sobretudo, a partir do rei Duarte, voltaram a existir registos primitivos, e não registos reformados, com actos mais numerosos e mais bem conservados do que os livros de chancelaria dos reinados anteriores.
A chancelaria do rei Fernando resume-se actualmente a quatro livros. O primeiro e o segundo são cópias do século XV e englobam todo o reinado. O terceiro é um livro original respeitante aos anos de 1381-1383. O quarto tem fólios originais dispersos que compunham alguns dos livros antigos da chancelaria fernandina, contendo actos produzidos nos anos de 1368-1378. Ao fazer a cópia do registo, o escriba riscava-o com um X ou um traço oblíquo, escrevendo por baixo traslado, passando depois ao registo seguinte, sobre o qual aplicava o mesmo processo.
Devemos ter a noção de que só chegou às nossas mãos a informação que os nossos antepassados quiseram que chegasse. Esta triagem foi feita ao longo do tempo por diferentes agentes. No início, pelos próprios serviços de chancelaria que trabalhavam para Fernando I, depois pelo próprio Fernão Lopes, que foi guarda-mor da Torre e que teve ainda acesso aos dezassete livros iniciais da chancelaria fernandina, e, por fim, pelas depurações praticadas nos séculos XV e XVI». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Círculo de Leitores, 2012, ISBN -978-972-42-4706-9.

Cortesia de CLeitores/JDACT