Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos

«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I

«(…) A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo. Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola, esmola-humana, fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia, eu mau como sou, estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes?

Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado (Provérbios), que não merece carinhos quem não tem para caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas. A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

JDACT, Albino Forjaz Sampaio, Cartas, Crónicas, A Arte,

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Relicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão. Quem oferece? Quem dá mais? Às vezes as religiões pregoam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta IV
«(…) A cidade, como a vida, é ignóbil. Ali, tudo se vende.
Quando custa uma virgindade? A glória? A fama? Um beijo? Uma alma? Um jantar? Um enterro? Quem é senhor do mundo, senhor da cidade, senhor da aldeia, senhor do campo? O dinheiro. É ele que faz cantar às almas as óperas da torpeza e do interesse. É essa lama bendita com que se compra o céu. Para o alcançar todos os dias o sol vê crimes inauditos e a humanidade se afadiga e sua e chora. Não há crenças, nem escrúpulos, nem religiões. É aquela luta brutal da tela de Rochegrosse. A honra? A honra é uma fórmula, É pagar uma letra no seu prazo com dinheiro que se ganhou a traficar escravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar sem que o roubado acuse. Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades imaculadas que todos desprezam. Religiões? A religião é uma comédia cuja representação já dura há séculos. Fez sucesso! É uma coisa fútil e extravagante que se parece com as histórias dos gnomos e das princesas encantadas. Quem a não tem, compra-a. Para que servem os padres senão para venderem Deus por grosso e a retalho (Zola).
Relicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão. Quem oferece? Quem dá mais? Às vezes as religiões pregoam entre os homens o Bem, a Paz e a Igualdade. Mentira, tudo mentira! Olhando bem a vida lá está sempre no fundo a sua face austera e verdadeira, uma Saint-Barthélemy. Que tragédia risível, grotesca, bizzara medonha, sofrida, desesperada e lancinante não é o mundo? A vida? A cidade? Lá em baixo nas vielas sujas ou no boulevard caro, a luz do gás, que baila a dança de S. Vito, pões lívida a carne, lívida a alma, lívido o sentimento. Há lá ruas inteiras de toleradas, ruas de loiras perfumadas de falas tão lânguidas como fúcsias, de morenas de beijos tão doces como medronhos, de ruivas de cabelos tão fulvos como o poente. São as filhas dos operários que espancam as mulheres quando chega à noite a casa, perdidos de bêbados; são as filhas dum ventre que não tinha nome e cujo pai é toda a gente; são aquelas que tendo vendido tudo se vendem afinal; são a legião enorme e interminável das nascidas não se sabe como, paridas não se sabe aonde, as filhas das ervas, filhas da rua.
Nos bancos sombrios do square há vultos enigmáticos, suspeitos, órfãos cujas almas são os íman da desgraça de todo o mundo, e à esquina das ruas pedem esmola velhos patriarcas como castanheiros centenários, filhas que fugiram aos pais pelos amantes que as abandonaram, pais que os filhos expulsaram de casa, mulheres que outrora foram belas e faladas. Embuçada num portal uma criaturinha esguia e franzina como uma santa, silenciosa, estende a quem passa a mão afilada e transparente e todos se afastam com o rancor, enquanto ela lá continua, no olhar a nostalgia das que passam os dias a tossir. Há carnes nuas que o frio corta e a nortada arroxeia a par de equipagens arrogantes mais brunidas que a água cristalina; vestes roçagantes e sumptuosas, arminhos e púrpuras, crachás e andrajos. Passeiam na mesma rua a majestade e o andrógino, a bêbada e a duquesa, e encontram-se muitas vezes no mesmo olhar os olhos que são alvoradas e os que são crateras sempre em perpétuas erupções de lágrimas. E na sombra, há criaturas emagrecidas pelas privações, recantos sinistros de infâmia onde a luz debuxa, às vezes, a traços esguios e esqueléticos, uma caricatura que em lugar de fazer rir faz arrepiar; há gestos de revolta, meio esboçados, repelentes, grotesco, divinos; punhos erguidos, caras crispadas, criaturas capazes de agatanhar os pais e lhes arrancar os olhos para castigo de as ter feito vir ao mundo.
E pensa a gente se foi só para todo este lodo, toda esta amargura, que sofreram todas as mulheres as dores do parto. Bizarramente, ao longe, silenciosa e erma como um túmulo, esgarça-se a brancura duma casita abandonada, e mais distante, na solidão duma encosta verde, umas árvores, com o seu reumatismo eterno, descarnadas, com seus troncos como aranhas monstruosas são tristes como a noite e como a desolação. O sol agoniza e a sombra que desce lentamente amortalha a terra com os seu manto funerário. Depois surge no céu a lua, muito grande, branca como a face duma defunta ou ensanguentada como a cabeça dos guilhotinados. Então por toda a terra se eleva o choro das ribeiras soluçantes, o ciclo longo das folhas que se abraçam, enquanto distante um ou outro galo perdido solta o seu grito de alarme como o das sentinelas à volta das prisões. E eu, debruçado sobre a cidade, escuto o seu respirar e sinto elevar-se da treva densa que abraça o mundo, num surdo formilhar, o arfar de mil opressos peitos que mal respiram e que semelham o ralo estertoroso de mil agonizantes». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, Editora Guerra e Paz, 2011, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/JDACT

quarta-feira, 11 de março de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão…»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Sentia o livro formar-se dentro de mim como um filho e passava os dias possuído por uma profunda e conturbada alegria, porque as dúvidas também me assaltavam. Estava no limbo, espécie de zona entre o sonho e a realidade, e movia-se dentro de mim como um feto no ventre de uma mulher. Era uma experiência nova. Obcecado pelo trabalho, falhei muitas vezes a mestre João Paz. Meu amigo alquimista copiou o que conseguiu. Que sonho é esse, rapaz? Estás absorto, pareces um fantasma, ou um velho meditabundo. Olhei-o. Se eu vos dissesse que tenho medo de não ter tempo, acreditáveis?, Ele sorriu. Acreditava. Sei o que isso é. Comigo, até eu aprender, foi a mesma coisa. Aquela necessidade de recuar dentro da nossa própria alma. É isso. Mas como foi possível aprender? Como? Terás tempo, o teu tempo, e aprenderás. Essa é a única coisa que te não posso ensinar. Agora vai ter com o teu tio e pede-lhe que alguém te ajude. Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão, talvez um pouco mais velho, de forte compleição, louro como eu, mas de olhos castanhos. Olha, filho, aqui tens o irmão Jerónimo. Veio de longe. Da Palestina. Vai ficar connosco por uns tempos. O irmão Jerónimo que parecia ocupar toda a cela, sorriu e apontou o grosso livro que eu embrulhara em pano e apertava sob o braço: precisas certamente de qualquer coisa, filho. Foi sempre a frase com que me recebeu, até há pouco tempo, quando me despedi dele. Com o apoio do tio Gil, mostrei o livro. Eu ajudo-te. Tens aqui um futuro sábio?, perguntou o meu tio. Ainda és muito novo, mas é de novo que se começa a aprender a arte e o caminho para a sabedoria. Vem ter comigo um dia destes, à biblioteca. Também estou a escrever. Uma encomenda. Para a Itália, para a casa de nossos irmãos no Norte de Itália. Continuei o trabalho durante todo esse ano até meados de Março de 1479. Resolvera festejar o meu aniversário na cela do tio Gil onde estariam também meu pai e minha mãe, além de mestre João Paz, homem culto e muito inteligente, de uma coruscante sagacidade. Eu iria ler-lhe os primeiros capítulos da obra iniciada. Fui combinar tudo para fazer surpresa a meu pai. Três dias depois, mestre João Paz chamou-me. Íamos partir para sul, ter com a mãe da Rainha. Um dos filhos não estava bem e o físico que por lá vivia não atinava com a febre. Fui contrariado, mas o trabalho exigia. Quando chegámos, deparou-se-nos uma azáfama inusitada. Uma das açafatas informou-nos de que a Infanta partia para Espanha. Que tomássemos conta do enfermo, o jovem Manuel.
Tanto a rainha Isabel de Castela como o príncipe João, pois o rei Afonso limitava-se a aceder, depois de perdidas as verdadeiras ilusões, desejavam concertar a paz. Dona. Beatriz, que era tia da rainha por parte de sua mãe, depois do infante João ter estado em secreto colóquio com a sogra na sua quinta de Belas, onde a viúva do infante Fernando passava longas temporadas, resolvera ajudar e, como se se tratasse de uma visita de cortesia (como instava, do outro lado, aliás, dona Isabel) encontrar-se com a esperta mulher de Fernando de Aragão. Seria em Alcântara, na zona fronteiriça. Para o efeito, dona Beatriz foi até ao seu paço de Beja preparar-se e organizar a cansativa viagem. Existia uma peça essencial neste jogo complicado de forças: a infeliz Beltraneja, a dona Joana que o próprio pai desacreditara, e que ingenuamente ainda assinava yo la Reyna, e se intitulava rainha de Castela, de Leão, de Portugal como herdeira de Henrique IV e esposa de Afonso de Portugal... La Chica, como se lhe referia Isabel de Castela, com o sorriso depreciativo dos que podem decidir, porque têm meios e força, o destino dos outros sem preconceitos nem hesitações. E Isabel estava decidida a crucificá-la. Em Beja, para onde seguimos no dorso de mulas, depois de várias paragens por hospedarias miseráveis onde dormíamos sobre enxergas coalhadas de percevejos, a ponto de colocar água à volta dos paus da cama que serviam de pés, pois as baratas e os percevejos percorriam o sobrado aos milhares, e sempre com um de nós de guarda por causa
das rapinas, fomos ver o jovem Manuel. O outro físico e mestre João lá se entenderam porque nisto de profissão não se deve arranjar problemas, mas colaborar...» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Em Toro ficara a cuidar da rainha dona Joana que depositara nele a sua defesa se a guerra se perdesse para Portugal. Tinha um incomensurável poder, a sua Casa aqui, em Castela, em Navarra e Aragão. Afonso compensou o filho com rendas, doações de terras, fortalezas, como Penamacor e o seu castelo, a alfândega de Setúbal, Mourão, Portalegre e Alegrete. Depois, a dízima das rendas de além-mar e o tributo dos mouros do Algarve e Marrocos. O pai, extasiado, perante a boa vontade do filho que lhe entregara nas mãos, de novo, o seu Reino bem-amado! Foi no ano em que morreu o Rei de Aragão e o marido de Isabel de Castela herdou o trono de seu pacífico pai, que foi o grande protector dos Judeus no seu tempo, e ainda os direitos sobre a Sardenha e as pretensões dinásticas sobre Nápoles e a Sicília. E João pensava: é preciso agir. E assim fez porque o Rei, de repente, após ter recebido uma embaixada de Castela, de fidalgos opositores a Isabel, começara novamente, cheio de sonhos miríficos, a pensar, como se nada anteriormente se tivesse passado nova aventura bélica para apoiar as frágeis pretensões da sobrinha Joana, que passara a ser conhecida como Excelente Senhora, no Reino de Portugal. Mas João estava alerta e Afonso, que se refugiava cada vez mais no seu retiro do Varatojo, não conseguiu o apoio do filho. Foi mais uma chaga que teve de sarar à sua custa, se é que a sarou ou ela seria para sarar, pois perdera toda a força perante a inteligente e arguta serenidade daquele jovem que o olhava com ternura, mas passara a manobra-lo à sua vontade.

Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz. Foi bom porque me tornei seu secretário, o cirurgião a seu serviço, com o apoio da família, pois descobrimos, o nosso parentesco. Ele baptizou-se com a mulher e o irmão, Ambrosius de nome como eu, que passara a residir no Porto. Tinha filhos que mais tarde mestre João adoptou. João Paz recebeu o apelido que o Príncipe lhe conferiu dada a sua devoção a Nossa Senhora da Paz. A mulher também aceitou o baptismo e recebeu o nome da mãe do Príncipe, Isabel. Foi por essa altura que Afonso o deu como médico ao filho e à nora, e foi por esse tempo também que a princesa dona Leonor o indicou para físico do seu jovem irmão Diogo. Sabia que João Paz nunca vivera na judiaria e, como homem conceituado e protegido da casa Real, teve sempre direito a habitação própria na cidade, perto da de Abravanel, morando parte do tempo com os Príncipes que servia, e na casa dos Bragança. Chegou a deslocar-se a Beja, onde cuidava de dona Beatriz e dos filhos, e a Vila Viçosa. As suas relações com a casa de Bragança nunca esmoreceram. Foi já pouco antes de Setembro de 1478, recordo-me perfeitamente, que, numa tarde muito quente, no intervalo de meus afazeres, na cera do tio Gil, conheci também outro dos mais puros homens que o destino fez cruzar com o meu e do qual me separei com desgosto, verdadeira consternação.
Trabalhava com afinco no meu livro. A cópia que meu tio Gil encontrara era um pedaço de um trecho de Plutarco sobre Alexandre. Um monge tinha raspado o pergaminho na oficina de um qualquer mosteiro e outro escrevera, por cima, a história dos mártires de Lyon. Mestre Tadeu retirou o que pôde da pele e começou a limpá-la com o auxílio de um líquido que ele guardava numa ampola de vidro azulado. Agora copia-se o que puderes e depressa, cabritinho! Porquê? Extasiado olhava-o a trabalhar. Terei de pedir a alguém. Não sei Grego. Não faz mal. Eu sei. De resto este texto parece uma cópia grega com poucos séculos. Como conseguiu? Com um ácido que eu retirei de uma espécie de noz. Mas não podes demorar muito tempo pois isto vai ficar tudo negro. De repente, ante meu olhar deslumbrado, começava a aparecer a cor avermelhada dos caracteres antigos. É um milagre, proferi, em êxtase. Não, Ambrosius, o seu rosto, muito sério, voltou-se para mim. Não é um milagre. É muito simples. Desde a antiguidade romana e grega que isto se faz. Só parece milagre o que o nosso espírito não pode ainda explicar. Mas isso é uma heresia! E é. É heresia para os néscios, os mal-intencionados, os fanáticos. A verdade é sempre simples e o tempo irá conceder-te também, se o quiseres, claro, esse dom da sabedoria. A simplicidade das grandes verdades, das grandes descobertas». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 16 de fevereiro de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai…»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Todas as qualidades que não servem em política. Acusaram-no, os Braganças, de desejar a morte do pai, até de o ter envenenado, como em Castela anunciou bem alto, depois do drama de Évora, o Montemor. Não creio. Que ele amava o pai é indiscutível. Eu sei. Todos o sabem e Antão Faria, Pina, Resende, a irmã, a tia Filipa que ele visitava amiúde para ouvir falar da mãe e do avô, confirmaram-no sempre. Mas queria o poder. É justo. É normal. Desejava ardentemente testar as suas capacidades e reformar as estruturas judicial, administrativa, económica, política do seu país. Com o pai vivo, isso seria impossível. A extensão do império colonial exigia uma gigantesca tarefa, uma nova concepção do poder real, a centralização das forças vivas da nação nas mãos do Monarca. Com Afonso isso seria completamente inviável, fora de questão. Nem mesmo reria compreendido. A força colocada nas mãos do Rei torná-lo-ia forte para a defesa da nação e das classes populares. João compreendeu cedo que por inimigos, como o avô, tinha apenas a alta nobreza, o que sucedia, aliás, em todo o lado e a França, com a labiríntica acção política daquele Rei Luís, que comera as papas na cabeça do seu pai, era bem um exemplo típico... Com João passou-se o que acontece no choque inevitável entre os filhos e os pais, por muito que estes sejam amados. Geralmente na doença, numa prolongada doença. Por mais amor que exista, a velhice é cansativa e cruel e, por muito que os filhos amem os progenitores, um dia, embora receiem esse terrível momento, também anseiam por ficar livres. A liberdade ganha-se sempre à custa de qualquer coisa. João sabia-o, como compreendia que a fraqueza do pai era a grande doença mortal daquele homem de quarenta e cinco anos, prematuramente envelhecido. Castela e Aragão continuavam a fazer escoar o que restava do erário público numa guerra sem fim. As Coroas de Portugal e Castela seriam unidas sob a égide de Portugal, mas isso levaria tempo e, no meio da questão, além disso tudo, estava aquele pai Rei, inconsciente de seus deveres, cavaleiro de eras devolutas, num mundo em mudança, inexorável e cruel. Ora a missão do Rei é divina e consiste na defesa intransigente do seu povo, da pátria, da nação. Não iria afastar-se nunca dessa missão. Sei tudo o que ele pensou. Só lamento que nesse jogo terrível estivesse, a partir de determinada altura, comprometida a minha alma pelo amor e o desespero.
Logo em Janeiro de 1471, nas Cortes de Montemor, o Príncipe explanara a necessidade da geral reformação do Estado. A carta do pai punha-o num dilema. Enviou o seu querido Antão Faria a França, em sigilo. A decepção do Rei e os seus desgostos convenceram o fiel camareiro do Príncipe... O duque de Bragança opunha-se à abdicação e, com ele, toda a nobreza, mas o Rei decidira e tinha-se de lhe obedecer, pois assim era a realidade de momento.
João é aclamado em Santarém, no Paço de São Francisco, em Novembro. O Rei não voltaria. A nobreza amava Afonso e o povo também, por motivos diferentes, mas o Rei era generoso e a todos custava o desfecho. Â 14 de Novembro Afonso escreve ao filho de França. Volto para Portugal, regresso ao Reino. Mais uma vez a nobreza, em terra estrangeira, aconselhara-o ao volta-face. O filho, como sempre, nada disse. Não acredito que se tenha aconselhado com ninguém. O que correu por aí (lá no Reino) foi que ele perguntara ao Bragança como o deveria receber, ao pai, e ele lhe respondera rispidamente: como quereis que o seja? Como pai e como Rei! João não perguntou, até porque não valia a pena. Conhecia as respostas e sabia melhor que ninguém que não poderia jamais impor o seu programa político com o pai vivo a custodiar a nobreza. Afonso abraçou-o comovido, à chegada, em Oeiras, e ficou encantado quando o filho, ajoelhado, recusou a coroa e até a divisão, pois Afonso propôs ficar Rei dos Algarves apenas. Tudo voltava à mesma com a diferença de que era necessário fazer a paz com Castela.
Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai, mas adoeceu e perderam-se as esperanças de o salvar. Sangraram-no até ficar exangue, discutiram, fizeram-no emborcar mezinhas... Nada feito. Sobreveio-lhe uma apoplexia que o deixara desfeito mentalmente. As sangrias já de nada lhe valiam. Tinha setenta e cinco anos de idade e por lá se finou, em Vila Viçosa, no primeiro dia de Abril. Foi pintado também, então homem mais novo, dos seus sessenta anos, nuns painéis que estavam na Catedral ou no Convento de S. Vicente, já não recordo bem, que estiveram alguns meses a ser pintados no armazém do município por ordem de El Rei Afonso e onde quis que ficassem gravados seus familiares e figuras gradas do Reino. Recordo-me do velho Duque. Com o seu rosto queimado pelo sol do Alentejo, o bigodão ainda preto e um certo ar de bonomia, apesar do olhar pesado e escuro. O filho, cunhado do Príncipe, tinha então quarenta e oito anos. Estivera com Afonso em todos os grandes momentos do Reino». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 20 de outubro de 2019

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Mas o que mais me fascinava eram uns diálogos às vezes compassados e solenes, outras vezes vivos e rápidos como o reflexo do sol varrido por uma janela que se fecha»

jdact

Molière e a Toutinegra
«(…) Ponho-me a pensar nos pares célebres que enchem a história e a literatura, Paulo e Virgínia, Heitor e Andrómaca, Otelo e Desdémona, Pedro e Inês, e tantos, tantos mais, sem esquecer aqueles outros ajuntamentos e conúbios que a natureza apenas suporta nas mitologias, como os de Leda e o Cisne, de Europa e o Touro, ponho-me a pensar em tudo isto e sorrio sozinho, enquanto olho pela janela da minha casa o diálogo de planos que os telhados vão alternando pela encosta. Tenho na lembrança uma outra janela, estreita, metida entre esconsos que mal me deixavam olhar a rua (sexto andar, água-furtada, perto do céu), donde, por todo o tempo que ali vivi, pouco mais podia ver que telhados e nuvens, mais um sol que fazia todos os dias o mesmo caminho e que deslocava, de um lado para o outro, até subir a parede e desaparecer, uma faixa de luz sobre o chão esfregado onde eu brincava. Conto isto em períodos longos, respirando profundamente para mergulhar no passado fugidio da infância, onde as verdades se diluem e resplendem como moedas de ouro deixadas entre limos. Foi naquela cadeira que pousei o pacotinho de pastilhas de chocolate que a senhora dona Albertina me deu na cozinha onde eu a visitava. Também podia andar pelo jardim, que era pequeno e húmido, com as áleas cheias de musgo e terriço, por onde se arrastavam, vagarosos e cinzentos, com muitas perninhas esbranquiçadas, quase translúcidas, os bichos-de-conta que tantas vezes não queriam enrolar-se, com grande escândalo da minha confiança nos instintos naturais que os mandavam fazer-se em bola à mais pequena carícia no dorso couraçado de anéis. E noite dentro me levantei da cama devagar, para não acordar meus pais que dormiam no mesmo quarto, e fui buscar, apalpando a escuridão que me cobria de teias de aranha as mãos e o rosto, o pacote das pastilhas de chocolate, e em três passos furtivos, com o coração a bater muito, voltei para a cama estreita, e entre os lençóis escorreguei, feliz, a comer, até que adormeci. Quando acordei de manhã, tinha esborrachado debaixo de mim o que restava do pacote, pegajoso e mole com o calor da cama. Chorei de desgosto, mas minha mãe não me bateu, a ainda hoje lhe beijo as mãos por isso.
Tinha oito anos e já sabia ler muito bem. Escrever, não tanto, mas fazia poucos erros para a idade, só a caligrafia era má, e assim veio a ficar sempre. Escrevia naqueles antigos cadernos de formosas letras desenhadas, e repetia-as com milagres de atenção, mas no fim da linha já começava a inventar um alfabeto novo, que nunca cheguei a organizar completamente. Mas lia muito bem os jornais e sabia tudo quanto se passava no mundo. Julgava eu que era tudo. Também tinha livros: havia um guia de conversação de português-francês, que ali fora parar não sei como, e cujas páginas, divididas em três partes, eram para mim um enigma que apenas parcialmente decifrava, pois tinha à esquerda uma coluna que eu podia entender, em português, depois outra em francês, que era como chinês, e finalmente a pronúncia figurada, muito pior do que todos os criptogramas do mundo. Havia outro livro, um só, muito grande, encadernado de azul, que eu pousava largamente em cima dos joelhos para poder lê-lo, e no qual se narravam profusamente as aventuras românticas duma menina pobre que vivia num moinho e que era tão bela que lhe chamavam a Toutinegra. Por isso é que o livro se intitulava A Toutinegra do Moinho: o autor, se a memória não me engana, era um Émile de Richebourg, homem das Arábias para histórias de chorar. E o livro, quando não estava em uso, passava o tempo numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, e largava, ao ser retirado, um cheiro de naftalina que provocava tonturas. Minha mãe entregava-mo com unção e mil recomendações. Talvez venha daí o respeito supersticioso que ainda hoje tenho pelos livros: não suporto que os dobrem, os risquem, os maltratem na minha frente. Durante muito tempo (dias? semanas? meses? que tamanho tem o tempo na infância?) me intrigou o guia de conversação. Lia nele coisas que me agradavam, que me divertiam: casos passados em caminhos-de-ferro e diligências, cavalos cansados, bagagens perdidas, rodas que se quebravam em sítios descampados, chegadas a estalagens, quartos que era preciso aquecer com grandes fogos de lenha. Apesar de não encontrar casos destes entre a casa e a escola, eu achava que devia ser bom viver assim, com tantos imprevistos da fortuna. Mas o que mais me fascinava eram uns diálogos às vezes compassados e solenes, outras vezes vivos e rápidos como o reflexo do sol varrido por uma janela que se fecha. Quando tal acontecia, punha-me a sorrir de uma certa maneira que só agora entendo: sorria como o adulto que ainda estava longe. Foi muitos anos depois que descobri que afinal já conhecia Molière desde a água-furtada: conversara comigo, fora meu guia de leitura, enquanto a Toutinegra dormia divorciada entre dois lençóis, na gaveta da cómoda, com cheiro a naftalina e a tempo não de todo perdido». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1969, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de ECaminho/JDACT

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Os braços já podem cingir o tronco, as mãos já se unem do outro lado. O topo está perto, oscilante como um pêndulo invertido. Todo o céu azul se adensa por cima da última folha»

jdact

A Minha Subida ao Evereste
«(…) Seja por causa da pressão atmosférica ou efeito de embaraço gástrico, há dias em que nos pomos a olhar o transcurso passado da nossa vida e o vemos vazio, inútil, assim como um deserto de esterilidades por cima do qual brilha um grande sol autoritário que não nos atrevemos a olhar de frente. Qualquer recanto nos serviria então para recolher a vergonha de não termos alcançado um simples patamar donde outra paisagem mais fértil se mostrasse. Nunca como nessas ocasiões se toma maior consciência de quanto é difícil este aparentemente imediato ofício de viver, que não parece sequer requerer aprendizagem. É nesses momentos que fazemos decididos projectos de exaltação pessoal e nos dispomos a modificar o mundo. O espelho é de muito auxílio no dispor das feições adequadas ao modelo que vamos seguir. Mas sobe a pressão, o bicarbonato equilibrou a acidez, e a vida vai andando, cambaia, como se levasse um prego no tacão e uma invencível preguiça de o arrancar. De modo que o mundo será de facto transformado mas não por nós. Não estarei, contudo, cometendo grave injustiça? Não haverá no deserto uma súbita ascensão que de longe ainda precipite a vertigem ímpar que é o lastro denso que nos justifica? Por outras palavras, e mais simples: não seremos todos nós transformadores do mundo? Um certo e breve minuto da existência não será a nossa prova, em vez de todos os sessenta ou setenta anos que nos couberam em quinhão? Mal é se vamos encontrar esse minuto num passado longe, ou no momento não temos olhos para outras ascensões mais próximas. Mas talvez haja aí uma escolha deliberada, consoante o lugar onde falamos do nosso deserto pessoal ou os ouvidos que nos escutam. Hoje, por exemplo, seja qual for a razão, estou a ver, à distância de trinta e muitos anos, uma árvore gigantesca, toda projectada em altura, que parecia, na lezíria circular e lisa, a haste de um grande relógio de sol. Era um freixo de couraça rugosa, toda fendida na base, e que desenvolvia ao longo do tronco uma sucessão de tufos ramosos, como andares que prometiam uma escada fácil. Mas eram, pelo menos, trinta metros de altura.
Vejo um garoto descalço rodear a árvore pela centésima vez. Ouço o bater do seu coração e sinto-lhe as palmas húmidas das mãos e um vago cheiro de seiva quente que sobe das ervas. O rapazinho levanta a cabeça e vê fá (?) no alto o topo da árvore que se agita lentamente como se estivesse caiando o céu de azul. Os dedos do pé descalço firmam-se na casca do freixo, enquanto o outro pé balouça o impulso que fará chegar a mão ansiosa ao primeiro ramo. Todo o corpo se cinge contra o tronco áspero, e a árvore decerto ouve as pancadas surdas do coração que se lhe entrega. Até ao nível das outras árvores antes conquistadas, a agilidade e a segurança alimentam-se do hábito. Mas, a partir daí, o mundo alarga-se subitamente, e todas as coisas, até então familiares, se vão tornando estranhas, pequenas, é como um abandono de tudo, e tudo abandona o rapaz que sobe.
Dez metros, quinze metros. O horizonte roda devagar, e cambaleia quando o tronco, cada vez mais delgado, oscila ao vento. E há uma vertigem que ameaça e não se decide nunca. Os pés arranhados são como garras que se prendem nos ramos e não os querem largar, enquanto as mãos buscam frementes a altura, e o corpo se contorce contra o corpo vertical da árvore. O suor escorre, e de repente um soluço seco irrompe à altura dos ninhos e dos cantos das aves. É o soluço do medo de não ter coragem. Vinte metros. A terra está definitivamente longe. As casas rasteiras são insignificantes, e as pessoas é como se tivessem desaparecido, e de todas apenas restasse o rapaz que sobe, precisamente porque sobe.
Os braços já podem cingir o tronco, as mãos já se unem do outro lado. O topo está perto, oscilante como um pêndulo invertido. Todo o céu azul se adensa por cima da última folha. O silêncio cobre a respiração arquejante e o sussurro do vento nos ramos. É este o grande dia da vitória. Não me lembro se o rapaz chegou ao cimo da árvore. Uma névoa persistente cobre essa memória. Mas talvez seja melhor assim: não ter alcançado o pináculo então, é uma boa razão para continuar subindo. Como um dever que nasce de dentro e porque o sol ainda vai alto». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1969, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Apesar de tão espessa nódoa de sangue na família, gosto de pensar neste homem, que veio de longe, misteriosamente de longe, de uma África de albornozes e areia…»

jdact

Retrato de Antepassados
«Nunca fui afecto a essa vaidade necrófila que leva tanta gente a pesquisar o passado e os que passaram, buscando os ramos e os enxertos da árvore que nenhuma botânica menciona, a genealógica. Entendo que cada um de nós é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda. Saber donde vimos e quem nos gerou, apenas nos dá um pouco mais de firmeza civil, apenas concede uma espécie de alforria para a qual em nada contribuímos, mas que poupa respostas embaraçosas e olhares mais curiosos do que a boa educação haveria de permitir. Ser filho de alguém bastante conhecido para que não fiquem em branco as linhas do cartão de identidade, é como vir ao mundo carimbado e com salvo-conduto. Por mim, nada me incomoda saber que para lá da terceira geração reinam as trevas completas. E como se os meus avós houvessem nascido por geração espontânea num mundo já todo formado, do qual não tinham qualquer responsabilidade: o mal e o bem eram obra alheia que a eles só competia tomar nas mãos inocentes. Apraz-me pensar assim, principalmente quando evoco um bisavô materno, que não cheguei a conhecer, oriundo da África do Norte, a respeito de quem me contavam histórias fabulosas. Descreviam-mo como um homem alto, magríssimo e escuro, de rosto de pedra, onde um sorriso, de tão raro, era uma festa. Disseram-me que matou um homem em duvidosas circunstâncias, a frio, como quem arranca uma silva. E também me disseram que a vítima é que tinha razão: mas não tinha espingarda.
Apesar de tão espessa nódoa de sangue na família, gosto de pensar neste homem, que veio de longe, misteriosamente de longe, de uma África de albornozes e areia, de montanhas frias e ardentes, pastor talvez, talvez salteador, e que ali fora iniciar-se na velha ciência agrícola, de que logo se afastou para ir guardar lezírias, de espingarda debaixo do braço, caminhando num passo elástico e balançado, infatigável. Depressa descobriu os segredos dos dias e das noites, e depressa descobriu também a negra fascinação que exercia nas mulheres o seu mistério de homem do outro lado do mundo. Por isso mesmo houve aquele crime de que falei. Nunca foi preso. Vivia longe da aldeia, numa barraca entre salgueiros, e tinha dois cães que olhavam os estranhos fixamente, sem ladrar, e não deixavam de olhar até que os visitantes se afastavam, a tremer. Este meu antepassado fascina-me como uma história de ladrões mouros. A um ponto tal que se fosse possível viajar no tempo, antes o queria ver a ele do que ao imperador Carlos Magno.
Mais perto de mim (tão perto que estendo a mão e toco a sua lembrança carnal, a cara seca e a barba crescida, os ombros magros que em mim se repetiram), aquele avô guardador de porcos, de cujos pais nada se sabia, posto na roda da Misericórdia, homem toda a vida secreto, de mínimas falas, também delgado e alto como uma vara. Este homem teve contra si o rancor de toda a aldeia, porque viera de fora, porque era filho das ervas, e, não obstante, dele se enamorara minha avó materna, a rapariga mais bela do tempo. Por isso meu avô teve de passar a sua noite de núpcias sentado à porta da casa, ao relento, de pau ferrado sobre os joelhos, à espera dos rivais ciosos que tinham jurado apedrejar-lhe o telhado. Ninguém apareceu, afinal, e a lua viajou toda a noite pelo céu, enquanto minha avó, de olhos abertos, aguardava o seu marido. E foi já madrugada clara que ambos se abraçaram um no outro.
E agora meus pais nesta fotografia com mais de cinquenta anos, tirada quando meu pai já voltara da guerra, a que para sempre ficou sendo a Grande Guerra, e minha mãe estava grávida de meu irmão, morto menino, de garrotilho. Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, com um ar de gravidade solene, que é talvez temor diante da máquina que fixa a imagem impossível de reter sobre os rostos assim preservados. Minha mãe tem o cotovelo direito assente numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como se fosse uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. Ao fundo, a tela mostra vagas arquitecturas neoclássicas.
Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, um outro avô posto na roda (filho oculto de uma duquesa, quem sabe?), uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato, que mais genealogia me importa? a que melhor árvore poderei encostar-me?» In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1969, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de ECaminho/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano... Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho…»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Nunca se sentira tão infeliz na vida. Agora, longe do solo pátrio, aterrorizado, levava dias a rezar como se isso pudesse restaurar-lhe a confiança em si próprio e na sua pobre alma partida onde sir Galaad e Lancelor dormiam o pesado sono da morte, porque o cavaleiro que julgara ser e o Rei que se orgulhara da sua missão tinham expirado em terras de França. Quando Deus, enfim, levasse a sua alma, ela estaria pronta para percorrer as novas paragens. Era apenas uma questão de tempo. Assim pensava e o confessava, com lágrimas nos olhos, aos seus companheiros, mirando o Sol nascente daquele Outubro frio, o mesmo Sol que fazia refulgir os telhados, as muralhas e as colinas em redor da sua Jerusalém ansiada onde desejava acabar a sua peregrinação, o seu caminho de sofrimento e aprendizagem.

De Alcântara a Alcáçovas pelo Bem do Mundo
João prosseguia, porque as circunstâncias a isso o obrigavam a guerra, a guerra de defesa, enquanto o pai abdicava de tudo, perdido em terras de França, desaparecendo, como um garoto, de sob a tutela paterna ou familiar, e assim o conseguiu uma vez, até que gente do Rei de França o foi encontrar num albergue miserável. Monsieur de Lébret apanhara um tremendo susto pois pensou que algo de terrível teria acontecido ao infortunado Rei português, cada vez mais instável no seu juízo e nas suas emoções. Os portugueses que acompanhavam o Rei achavam-se perfeitamente perdidos de aflição e pouco ajudavam, pois um dos criados do Rei trouxera-lhes uma carta onde Afonso informava que partia para Jerusalém. Sozinho, pelas estradas, tal um pedinte, o neto de Filipa de Lencastre, arrostando com intempéries, a fome, os salteadores... Lá o encontraram numa aldeia, onde se acolhera e já se deitara. Um tal Leboeuf foi quem o achou, acordou-o, pôs-se de guarda à estalagem e mandou avisar os portugueses. O conde de Penamacor, mais morto que vivo, acorreu e trouxe o desalentado Monarca. Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano...
Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho, interdito, como foi seu costume toda a vida, recolheu-se a meditar sobre a missiva. Guardou segredo até se decidir. Quando se decidia, pedia conselho. Era um método de trabalho como outro qualquer porque o conselho de nada servia. Só ele decidia e punha na mesa as pedras do jogo que sempre entendeu pôr. Não lhe levo a mal. Quando se deseja ordenar o mundo é assim que se faz. E um homem que, aos vinte anos, decide criar um império, tem de arrumar a casa primeiro. Aquele tempo de aprendizagem retirara-lhe muitas dúvidas, concedera-lhe as certezas possíveis, mas aplainara-lhe o difícil caminho que teria de percorrer. João era por de mais inteligente e lúcido e percebeu que o pai apenas servia para entravar-lhe o caminho nos negócios públicos, um inepto do ponto de vista político, embora um incapaz bem-intencionado, puro honesto». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Evidentemente que o Rei português, apesar de tudo, achou toda a conversação positiva, agradável, e saiu muito esperançado perante o olhar arguto do outro. Até se foi, em Dezembro, encontrar com o primo Carlos. A Casa de Borgonha achava-se nos espasmos finais, em estado de agonia, e Afonso não previra nunca isso. Nem ele nem ninguém. E o Duque avisou o primo que o outro, o Raposão, o intrujara. Ele apenas se divertira à custa do Africano, o herói da longínqua Arzila, de Tânger, o tal do Reino dos Algarves d'Aquém e Além Mar! O pobre Afonso soube logo em Janeiro, uns dias depois, que enquanto ele acreditara no Rei de França, este enviava-o para mediador e simultaneamente mandava reforços, um exército, para auxiliar o fim de Carlos e da Borgonha! O primo, esse, tivera a sorte do tio em Alfarrobeira. Pior sorte. Ficara em Nancy e o corpo, no meio do seu exército desbaratado, entregue à intempérie e à gula dos lobos que o devoraram em parte. Foi encontrado dois dias depois do desastre. O duque de Lorena vencera o filho de Isabel de Borgonha, o neto de João I de Portugal. O desastre arrastava a Casa de Borgonha, a bolsa florentina de Bruges, que os Médicis exploravam, e as esperanças do infeliz Rei de Portugal. Carlos, esse, não teve como o tio Pedro, quem chorasse por si e intercedesse junto do Papa pelos seus ossos aqui, em Portugal, como a mãe fizera pelos do irmão. O Rei Luís estava demasiado satisfeito para se importunar com o nefelibata Afonso de Portugal. Recebia, este, notícias de Portugal e sabia o filho aflito por falta de dinheiro. Sem dúvida a sua administração, a guerra, as suas loucuras e dissipações arrastavam o Reino para uma situação difícil que o rapaz era obrigado a solucionar.
A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido, não teria intenções de promover a discórdia para as bandas do Ocidente... O Rei Luís XI, inclusivamente, deixou de o tratar com a dignidade que lhe cabia, como o demonstrara em Arras. Praticamente o despediu, apressado e impaciente, embora com frases de melíflua complacência. Só lhe restava partir para Honfleur e regressar a Portugal. O pobre imbecil (as más línguas afirmavam que assim se lhe referira Luís XI) ainda teve um breve movimento de revolta. Partiu, sim, mas para longe! Ele iria entrar em religião, visitar a Terra Santa, abdicar. Morrer por morrer, só em Jerusalém. Como cantara o seu astrólogo judeu, o Guedelha, aquele esperto judeu amigo do Abravanel (mas este era um Príncipe, claro!, descendente da Casa de David!): oh Jerusalém, oh, Jerusalém de Ouro, se eu te esquecer que o Senhor retire a luz dos meus olhos e a paz ao meu coração! Persignou-se.
Aqueles eternos Judeus sempre a falar da Cidade do Senhor como se lhes pertencesse, a Cidade Santa, onde o tinham crucificado e cuspido na sua face! Mas eram belas aquelas frases e mestre Guedelha fora sempre um homem culto, inteligente e fiel. A sua decisão estava tomada. Não voltaria atrás. Talvez nesse instante se tenha recordado do tio que visitara Jerusalém e descansara à sombra do que restava do velho templo. Seria, da família, o segundo a pisar as suas ruas por onde as legiões romanas tinham marchado no passado longínquo e, mais tarde, outros também, porque o tempo não pára de deslizar sob os nossos pés indiferente, quantas vezes, ao nosso destino. Portanto, para Jerusalém! De França escreve uma carta, em Setembro, destinada ao filho e onde anuncia a sua abdicação». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Não sei quando o Príncipe teve tempo de a encontrar de novo, mas não a esquecera. Não conheço, igualmente, o que pensou a mulher do Príncipe, dona Leonor, jovem também…»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Mas Carlos é meu primo! É uma questão de família! Vou falar com ele e servir de embaixador, de mediador entre Borgonha e a França! E lá foi, em Agosto, cheio de esperança, depois de abraçar a família, os amigos, a mulher-criança e entregar o Governo, mais uma vez, ao Príncipe herdeiro. Era a derradeira etapa da sua desilusão, o fim do sonho do Lancelot de Portugal.

Dona Ana Mendonça veio no séquito da jovem Rainha para Portugal. Não sei quando o Príncipe teve tempo de a encontrar de novo, mas não a esquecera. Não conheço, igualmente, o que pensou a mulher do Príncipe, dona Leonor, jovem também, e apaixonada pelo marido. Ou não? Ao longo de toda a vida sei que o Rei esteve sempre ligado à mulher, à Rainha. Conheço até a sua dor se ela adoecia e a dor que ambos partilharam quando o destino lhes foi adverso, mas duvido que ela o tenha amado. Eu experimentei essa espécie de união e a outra não precisa de leis, normas, regras, a que marca definitivamente uma vida e, se o não faz até à morte, porque nada é eterno, deixa a sua marca funda em nós durante grande parte da nossa existência.
Não sei o que dona Leonor sentia pelo marido, no início, mas talvez fosse amor. No fim das suas vidas conheci melhor os seus sentimentos e sei que o ódio foi mais forte e o ódio é muitas vezes, também, a outra face de um grande amor. Dona Ana e João devem ter-se visto entre o regresso de Castela e o Outono de 1480, quando decidiram viver os dois a sua terna aventura em Cernache do Bonjardim, mas tudo se estabeleceu no silêncio do segredo, na discrição e na etiqueta da Corte que rodeava dona Joana. Nada transpirava. De resto, eram os admiráveis anos de aprendizagem do Príncipe. Quatro anos de admirável estudo e aprendizagem. Em França, o pai talhava com a sua proverbial imperícia o seu infeliz destino e o filho, por cá, governava o Reino e meditava, como o viu, mais velho, centenas de vezes, o bom do Resende (sempre gordo e reboludo, aquele simpático servidor de toda a gente, dos Reis, quero eu dizer, sejam eles quais forem), como o viu, ao Homem, pensativo, às vezes até triste pelas decisões que era obrigado a tomar, a organizar a vida dele, a do Reino, a do mundo, em frente do seu tabuleiro de xadrez, já longe dos amores, da paixão arrebatadora da carne, dos sentidos, na missão sagrada que o poder confere e que se não pode trair ou falhar.
A partida do Rei, que desceu no porto de Collioure, pressupunha o governo do Príncipe sem obstáculos, mas o jovem percebeu que ficavam no Reino, e disso deviam ter convencido o Monarca, Jorge Costa e o Bragança. É evidente que se devem ter prontificado a auxiliar o Regente enquanto o pai tratava da sua espinhosa missão... O cardeal, homem inteligente, deve ter percebido logo que a viagem do filho do eloquente Duarte I de santa memória seria infrutífera. O Bragança, não sei. Era demasiado terra a terra nas suas concepções políticas, de estado, para atingir um tal discernimento. Homem de terras, senhor de grande poder, homem do século devoluto como o pai e o avô, criado na velha tradição. Ao Príncipe, se não disse nada, não agradaram aquelas duas fastidiosas presenças. Compreendeu perfeitamente que apenas lhe serviam de censores, embora disfarçados, pois apenas queriam controlar as acções de alguém que adivinhavam adverso à sua causa.
Antes de Novembro, em Tours, o Rei Afonso de Portugal, que nunca estivera em local tão frígido, num Inverno, não teve esperanças de se encontrar face a face com o seu colega francês! Vira parte da bela França, os seus castelos, as cidades, e observara, com a devota atenção de um estudioso, os livros iluminados de Lanzarote e de Tristão. Finalmente, ricamente vestido, com o fausto comum à Corte portuguesa, Afonso lá se achou no vasto salão de recepção onde certamente ficou espantado com a ridícula e enfezada figura daquele rei literalmente atabafado em roupas, pálido mas com duas rodelas nas flácidas e magras bochechas, como os bêbedos, de nariz comprido e fonte grossa e arredondada e com chapéu sob o qual ainda usava dois capuchos e um barrete. Afonso não era um belo homem, estava prematuramente envelhecido, mas perante aquele ser de aparência mesquinha, era imponente. Tudo no outro era vulgar, ordinário, de má qualidade, menos a inteligência, a sagacidade de raposa, a sua astúcia.
O pobre Afonso de Portugal apenas recebeu promessas e esqueceu-se que só se negoceia em condições idênticas, senão um é o pedinte e o outro, o que regateia tudo, até a vida do que solicita, se for preciso. A fama do Rei de França chegou até nós, a toda a Europa. Afonso de Portugal perdeu mais essa batalha. Quantas mais crises e divisões na Península tanto melhor para o cristianíssimo Rei Luís... Divide et Impera já o escrevera Júlio César». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «… Carlos, que até também era português, diziam seus amigos, no feitio temerário e na cor dos cabelos, da tez, na compleição... Afonso não aprendera»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Afonso protegeu o castelo e preparava-se para a batalha final. Formou três corpos com os seus homens: à esquerda estavam as tropas do arcebispo de Toledo, do duque de Guimarães e do conde de Vila Real, no centro, os homens chefiados pelo próprio Monarca; à direita, com a tropa mais adestrada, o Príncipe João. A batalha não foi ganha por ninguém, a não ser pela ala do Príncipe. Depois de uma renhida chacina de parte a parte, apenas o corpo de exército do Príncipe foi vencedor e desbaratou o inimigo. O rei Afonso deu ordem de recuo e, aterrorizado perante a extensão do que julgava ser o fim das ilusões e do conflito militar, fugiu para Castro Nuño. Os castelhanos debandaram também, mas clamando vitória que, aliás, entre eles e Afonso fora impossível, porque empatavam no mútuo desastre. Só o Príncipe ficou em campo, sereno, e preparou-se para os três dias da praxe, tomando o espólio, usufruindo do saque mais os seus homens. A verdade é que Fernando de Aragão assistira, impotente e indefeso, ao recuo da sua vanguarda perante o futuro Rei de Portugal e, por isso, abandonou também o campo, os seus homens, e regressou a Zamora.
A chuva caía numa densa cortina, mas o Príncipe continuou no campo, juntando os seus homens. Acendeu fogueiras e mandou tocar a festejar a vitória. Os tambores ecoavam pela planura como um canto vindo das profundezas da terra. O arcebispo de Toledo aconselhou-o a não permanecer tanto tempo. Não três dias. Bastavam três horas. Ele ficou parte da noite. Não o denotava, mas estava preocupado. Que acontecera ao pai? Gonçalo Pires entregou-lhe a bandeira real que Duarte Almeida, de coutos ensanguentados, ainda agarrava nos dentes, tendo ficado prisioneiro. Em Toro não se achava o Rei. Todos se lamentavam. E foi então que o conde de Guimarães, futuro duque de Bragança, pois o pai só morreu dois anos mais tarde, o increpou violentamente: podiam eles chamar-se cavaleiros? Vós que abandonastes vosso Rei e Senhor? João não reagiu. Ficou a olhá-lo e os olhos negros, que pareciam deitar lume, apenas se raiaram de vermelho. Muito circunspecto, acalmou-o e não respondeu directamente ao remoque. Mas não esqueceu. Depois souberam que tudo estava bem e o Rei salvo e de saúde.

O futuro duque fizera mal em atacar o Príncipe, pois fora injusto, mas não era tempo de quezílias. O problema, em rermos políticos, resolvera-se de forma inegavelmente positiva para Aragão e Castela. O Príncipe compreendia que a união das duas Coroas não podia ser consumada pela guerra, mas pela diplomacia e pela ciência política, e custava-lhe ver o pai perder todo o prestígio de uma vida de guerreiro e defensor da Fé que conseguira em África. Do lado de Castela todos lhe viravam as costas... O duque de Arévalo e os outros. As incursões de pirataria em território nacional continuavam e, por outro lado, a rapacidade dos nobres portugueses avolumava-se. O Rei não teria coragem de lhes recusar nada. Por isso lá conseguiu do pai um documento em que este prometia contenção nas doações e autorizava o Príncipe a decidir segundo seu parecer, se caísse em tentação...
João regressa a Portugal. Deve ter deixado o Rei como um pai larga o filho em terra estrangeira. Estava-se na Páscoa e só em Junho Afonso cruzou a fronteira e entrou em terra portuguesa. Isabel de Castela e o marido também tinham compreendido que o grande jogo não se faria já com o infeliz e confiante Afonso, mas com aquele seu filho, o primo reservado, calado, de olhar severo e voz fanhosa. O Monarca, entretanto, enviara cartas para França a pedir auxílio ao astuto Rei Luís, e Álvaro Ataíde regressava da sua missão, felicíssimo. Novamente o pai de João, impante de alegria, preparou-se para viajar até à Corte do raposão que afirmara ao embaixador português que tudo faria logo que as coisas, se resolvessem com o opositor, o duque de Borgonha, aquele determinado e teimoso (saía à mãe portuguesa) Carlos, que até também era português, diziam seus amigos, no feitio temerário e na cor dos cabelos, da tez, na compleição... Afonso não aprendera. Jamais aprenderia. Eterno menino crescido, agora calvo, de barbas sulcadas de fios de prata, não aprenderia nunca que em política nada se resolve com simplicidade». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Os exércitos sabiam que a batalha estava para breve e seria ali, perto do castelo onde se refugiavam o Rei de Portugal, a Rainha, o Príncipe e seus partidários»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Saqueando e violando como bárbaros. O Príncipe, numa noite, com um punhado de bons soldados, teve de tomar de assalto Ouguela, ao pé de Estremoz, que um contingente castelhano conquistara... Afonso escreveu uma carta ao filho, pedindo-lhe auxílio e marcando-lhe um encontro em Zamora. Em Miranda do Douro, o herdeiro da coroa, em vez da escolta prometida pelo pai, tinha à sua espera Vasco Martins Chichorro, capitão da guarda real. Por Deus, não avançasse! Dois alcaides traidores tinham prometido a Fernando e Isabel prendê-lo como refém! A traição fora descoberta pelo Rei em Zamora e este tentara liquidar os dois traidores. Em vão, entrincheirados, junto à ponte, os castelhanos ainda dizimaram mais portugueses! A cidade berrava traição!, todos corriam, discutiam, a paz perdera-se, a histeria instalava-se e o Rei e a Rainha, no meio da confusão geral dos populares em desvario e dos conselheiros, não sabiam o que fazer. Dona Joana olhava, atónita, aquele gordo tio e marido, indeciso, desesperado, impotente como um bebé, perante o descalabro que se avizinhava. Portanto, se a traição imperava, era preferível seguir dali para o castelo de Toro, para redobrada segurança, aconselhou o arcebispo de Toledo. E assim se fez, embora isso provocasse o desalento nas próprias hostes partidárias do lado castelhano, que desejavam manter Afonso em Zamora...
O Príncipe achou que era de mais e não podia consentir em ver o pai numa tal situação pela sua honra e dignidade. Foi à Guarda. Convocou as cortes. Precisava de gente e dinheiro para atravessar a fronteira. Conseguiu-o com empréstimos, inclusive dos eclesiásticos, e a prata das igrejas. Claro que assistiu ao saque que os fidalgos fizeram, aproveitando-se da situação..., mas não era tempo para censuras e dialécticas de tom moral. O tempo urgia. Estava-se a 24 de Janeiro de 1476. Deixou a regência à mulher, dona Leonor. Entretanto, recebia notícia de um primo, Carlos de Borgonha, que começava também, com as suas ambições, a declinar: os franceses preparavam-se para o vencer no duelo de vida e de morte que se estabeleceu entre a sua Liga do Bem Público e a Coroa francesa. No início de Fevereiro chega a Toro. Levava consigo um exército de emergência, mas coeso e disciplinado. Saqueou San Felices, entrou em Ledesma, que se lhe entregou, e reabasteceu-se. Quando chegou junto do pai, a esperança voltou e o Monarca revigorou-se, parecia mais novo, cheio de sonhos como uma criança que alcança o aconchego do lar, no colo protector da mãe. E a verdade é que o filho passara a ser a mãe e o pai do Rei português. Passara a ser tudo. A madrasta, jovem e alegre, abraçou-o como salvador, no meio das suas damas, algumas tão jovens como ela. João olhou uma que o fixou também e que não mais iria esquecer. Era filha de Afonso Furtado Mendonça e, como açafata da Rainha, acompanhara-a a Toro. Descendente de subida linhagem, muito grácil e bonita, agradou ao Príncipe que, pela primeira vez, se sentiu enfeitiçado, experimentando o fulgor de um sentimento que desconhecera até então, mas havia trabalho a fazer. E trabalho inadiável.
O Inverno era duro e, nas tendas, os soldados tiritavam. O rei Afonso tentou reconquistar Zamora, depois de negociações que não se concluíram. Chegou a Toro praticamente seguido pelas tropas de Fernando, que o espiavam. Os soldados não conseguiam manter as tendas secas nem, muitas vezes, de pé, devido à ventania. A chuva caía, insistente, gelada. Os exércitos sabiam que a batalha estava para breve e seria ali, perto do castelo onde se refugiavam o Rei de Portugal, a Rainha, o Príncipe e seus partidários. E assim aconteceu numa terrível tarde de nevoeiro, chuva, frio, onde homens e cavalos se enterravam no lamaçal pegajoso por entre os rasteiros arbustos». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «O grande homem das conquistas africanas veria a sua estrela empalidecer nos ermos agrestes de Castela. Depois, pueril e sempre pusilânime, incapaz de uma decisão pensada…»

jdact

A morte de Lancelot
«(…) Que desejariam eles, nascidos perto do mar, alguns mesmo com o Atlântico a beijar-lhes o corpo crestado do sol, na pesca, ou sobre as tábuas das naus, quando num ou noutro arremedo de aventura, tinham andado pelo mar, senão o chamamento do oceano e dessedentar-se nas soberbas e copiosas planuras verdes, sonhando com ilhas ricas e férteis que os esperavam?... São sempre os sonhos de quem sofre na carne o jugo das opostas realidades nos momentos de sofrimento e desânimo. As orações dos intervenientes na campanha e as de dona Filipa em Odivelas, certamente, por aquele primo Rei que lhe matara o pai mas já estaria perdoado porque não fora a raiz e razão do Mal que o levara, de nada serviram ao Rei. Dona Leonor, a nora, rezava também enquanto se entretinha com o filho que era o enlevo dos seus olhos e dos do pai. Em Aveiro, dona Joana seguia os acontecimentos através de informadores que lhe referiam as novidades dos correios que singravam entre Placência, Toro, Burgos, Samora e Lisboa, rezava também para que o pai levasse a bom termo a guerra, tal como sucedia em todo o reino, mas as coisas complicavam-se. Dona Joana, mirando uma das iluminuras do livro de horas que pertencera ao avô, os olhos fixos na imagem da virgem, lia Ave gratia dominus tecum, e naquela tocante cena da Anunciação devia inspirar-se para uma oração muito especial à Mãe do Salvador por aquele pai adorado, bonacheirão e audaz, tão audaz nos seus ímpetos cavalheirescos, que estava a arrastar-se para uma outra cena no palco difícil e inexorável da política, onde iria em breve descobrir que já não tinha lugar, ou nunca o tivera.
O grande homem das conquistas africanas veria a sua estrela empalidecer nos ermos agrestes de Castela. Depois, pueril e sempre pusilânime, incapaz de uma decisão pensada, meditada, definitiva, deixava-se levar pelas correntes opostas, controversas, dos próprios partidários. Ora o aconselhavam a marchar sobre Madrid, e ele aceitava a ideia, mas recuava sob a chuva de protestos dos nobres portugueses, ora cedia às instâncias destes para ficar quieto em Zamora e no castelo do Toro, cujas torres circulares o protegiam de qualquer ataque inimigo.
Perplexo, sempre em ânsias, no centro de um complexo jogo que o ultrapassava, ia devorando nas etapas de uma guerra sem fim nem quaisquer garantias de uma decisiva vitória, o dinheiro, as possibilidades de alimentar o exército e o manter activo e sem suspeita de desalento. Veio de seguida a doença, com as infecções, as diarreias que o calor provocava, as febres que a ingestão de água contaminada e os frutos verdes activavam. Veio o desânimo. Os alcaides começavam a mudar de planos e a escrever a Isabel de Castela. A simplicidade, a bonomia do Rei português, a sua infantil credulidade tinham-nos decidido a abandoná-lo. Essas deserções podiam ser fatais e, pior do que isso, era o jogo duplo, velhaco, dos nobres castelhanos.
Por cá, a situação era difícil porque o Príncipe governava um país pobre, enfraquecido pela guerra, e começava a compreender, com alguma dor, a nefasta amplitude da deficiente administração paterna. Mas nada disse e fez os impossíveis por se sobrepor a essas dificuldades com uma mestria superior ao que se exigia da sua experiência e idade. Afonso desejava ardentemente que o filho estivesse com ele, conversasse com ele. Nunca, mesmo agora, na companhia de seus amigos, de Fernando de Bragança, de seus nobres que o idolatravam, se sentira tão só. Era essa a solidão total: não poder abrir a sua alma à inteligente compreensão do filho, à sua perspicácia. Adorava aquele rapaz esbelto, de tez branca como a mãe e de olhos negros onde cintilava uma espantosa luminosidade e que Isabel lhe dera meses antes de morrer. Perante aquela rapariguinha, filha da irmã, sua mulher no leito logo que o Papa autorizasse, não sentia um décimo do que sentira outrora pela mulher amada. Nem sentia coisa nenhuma a não ser uma grande piedade e a certeza moral do dever de homem e cavaleiro de a defender. Ela poderia dar-lhe a Coroa de Castela, mas, de repente, embora ainda novo, começava a sentir-se distante, envelhecido. Ainda, por cima, sabia-se, ao fim de meses de campanha, inútil, quase indefeso. Não possuía forças militares suficientes para alicerçar as suas posições nos inevitáveis lugares estratégicos que ocupara e prosseguir, em campo, a guerra. Além disso, o esforço de guerra também tinha de ser mantido ao longo da fronteira, do lado de Portugal, onde os inimigos castelhanos entravam em incursões frequentes, queimando, arrasando aldeias e vilas». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT