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terça-feira, 20 de setembro de 2016

A Trança Feiticeira. Henrique Fernandes. «Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente»

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«(…) Se visse a roupa que tinha e a quantidade de sapatos. Nisto, era muito exigente. Queria as calças bem vincadas, as camisas sem a mais pequena nódoa, os sapatos sempre lustrosos. Mas não berrava. Dizia o que queria. na sua amabilidade, e não era necessário repetir. Todos se esforçavam para lhe satisfazer os gostos. Mais baixinho. em coro, acrescentavam: o menino era uma jóia ao contrário dos outros. As senhoras, de língua afiada, impertinentes, sempre a descobrir e apontar defeitos. Todas umas preguiçosas que até obrigavam as criadas a deixarem as suas tarefas, para erguer do chão um lenço, caído aos pés delas. E o patrão movia-se nas mesmas águas, desabrido nas suas ordens que queria cumpridas rigorosamente, sob pena de violenta censura ou sumário despedimento.
A-Leng, já refeita do abalo, estava agora cheia de curiosidade. Até se esquecera doutras encomendas de água. Fazia perguntas, aceitava a lengalenga, sem desconto dos exageros. por qualquer prevenção íntima, não revelou que o Menino a sequestrava. Bebeu duas tigelas de chá, em vez duma, e comeu uma fatia de bolo, feito
na véspera, que a senhora distribuíra às criadas. Quando saiu, ia, de facto, abalada. O conceito sobre o homem até então perverso, modificara-se. Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente, o pensamento muito longe. Não se intrometia nas conversas, num silêncio distraído. Durante a noite inteira, a imagem do rapaz não a largou. Isto desesperou-a, porque estava mesmo a pensar demasiado nele, no tratamento gentilíssimo de siu-tché e no facto de deixá-la entrar primeiro através da porta. Com outro tipo de cara, não era nada feio, ao contrário do que a princípio achara.
À hora de levar a água da fonte, para a casa dele, enervara-se toda. O que sucederia nesse dia? Nada e teve uma desilusão. Não o viu, durante três dias. Guardou admirada outras tantas decepções. Ter-se-ia arrependido de conhecê-la, agora que era a aguadeira da casa? Temeria que ela fizesse alguma queixa? Mas se queixa houvesse, seria logo no primeiro dia. O que não adivinhava era que tudo fora planeado. Adozindo, com notável paciência queria que meditasse nele. No quarto dia, tivera um dia cansativo. Por mais que se empenhasse não chegaria à hora precisa, na casa do rapaz. Caminhava a passo regular, o corpo teso, as ancas a bambolear, ao ritmo pendular dos baldes. Nas axilas e nas costas, grandes manchas de suor. Na franja das calças e nos pés nus, lama. A única coisa limpa e apresentável, a trança negra, o seu incontestável orgulho. No cruzamento de duas ruas estreitas, parou, na sombra precária, para tomar alento. O sol de Junho refulgia implacável. Esfregou o rosto suarento, com o lenço pendurado na abertura da cabaia, junto à anca, devassando as artérias. Uma voz soou atrás. Boa-tarde. Estremeceu. Afinal, não a esquecera. Ele ali estava asseado, a camisa muito alva, o rosto cheirando a perfume que mais tarde aprendeu ser água de Colónia. Na mão direita, sangravam duas rosas aveludadas. O bem-estar dele era flagrante. Ela teve, pela primeira vez, a dolorosa noção de que estava suja, coberta de poeira, o corpo emanando a suor. Oferecendo as rosas, Adozindo disse: toma. Colhia-as para ti. São do meu jardim. Não posso aceitar. Tenho as mãos ocupadas. Queres que as deite fora? Não. São muito bonitas». In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia da FOriente/JDACT

sábado, 11 de junho de 2016

A Trança Feiticeira. Henrique Fernandes. «Desenvencilhou-se do varapau, mas não o brandiu. Volveu-se para ele que se aproximava, e perguntou-lhe ácida, sem elevar a voz: que deseja de mim?»

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«(…) Uma pena se caísse nas mãos brutas dum a-tâi qualquer que a pejaria de filhos, estragaria o corpo e esfrangalharia a trança. Uns anos mais, naquelas árduas andanças, sob a canga dos baldes, arrastando-se pelas ruas, ao sol e à chuva, tanto no Inverno como no Verão, e seria uma sombra ou um farrapo do que era hoje, um hino de sensualidade inconsciente e juventude. Quando ela se endireitou, não se moveu da janelinha. Precipitar-se seria prejudicar toda e qualquer oportunidade futura. Deixou-a partir e desceu para a dispensa, onde reclamou um copo de água. Perguntou à criada espevitada que mais tinha conversado com A-Leng, donde vinha aquele líquido transparente que tão generosamente matava a sede. A criada forneceu-lhe pormenores. Assim, o Belo Adozindo soube das horas em que invariavelmente era trazida. Não insistiu mais e saiu assobiando. Dois dias depois, era um sábado, não almoçou em casa e na hora devida cirandou pelas cercanias, calculou o trajecto dela e não se enganou. Avistou-a longe, equilibrando os baldes, em passo balançado, com a desenvoltura da profissão. Plantou-se, no passeio estreito, dando-lhe passagem livre. Ela acusou no rosto a surpresa, mas não reagiu, porque se achava fora do seu meio familiar. Adozindo sorriu-lhe, fez-lhe uma pequena vénia a que ela não correspondeu. Deixou-a afastar-se, sem medo do varapau, porque estava no seu próprio terreno, e seguiu-a então.
Estava no caminho para casa, ninguém diria que a perseguia. Ela, porém, sabia. Com o peso do varapau sobre os ombros, as mãos a segurá-lo para que não escorregasse do seu apoio, não podendo perder a água, fruto do seu trabalho, não podia virar-se para trás. Apenas um olhar de esguelha e o resto era pressentimento. Ela estacou, frente à porta do tardoz da casa. Desenvencilhou-se do varapau, mas não o brandiu. Volveu-se para ele que se aproximava, e perguntou-lhe ácida, sem elevar a voz: que deseja de mim? É comigo que fala? Eu..., eu não desejo nada. Vou para casa. Com voz melíflua, apontou para a porta e disse: não é para aqui que vai? Eu também vou. É a minha casa... A jovem embatucou. Um colorido tingiu o rosto moreno. Com viscosa gentileza, Adozindo exibiu a chave e abriu a porta. Num gesto cavalheiresco que jamais alguém tivera para com ela, disse: faça favor de entrar, siu-tché (menina).
Aquele siu-tché, escutado pela primeira vez e inusitado para uma aguadeira, habituada a rudeza de trato e de palavras, enleou-a mais. Ainda hesitou, mas, nisto, de dentro, apareceu A-Sâm, a criada espevitada. Esta não estranhou a presença do Menino. Ele costumava, as mais das vezes, entrar pela porta do tardoz. uma escada comunicava directamente o quintal com o primeiro andar e não tinha de incomodar ninguém quando regressava à noite. Do que se espantou, foi da delicadeza do Menino que permitiu que a aguadeira atravessasse a porta primeiro que ele. As faces de A-Leng cobriam-se de intensa vermelhidão, a garganta seca. Ao desprender-se dos baldes, entornou um bocado de água. Desculpa... Eu limpo já. Só molhara o chão, mas para ela fora um percalço humilhante. Adozindo atalhou: não faz mal. Não tem importância. Com o seu sorriso de matador, subiu a escada, não olhando para trás. Mas não tão depressa que não apanhasse o comentário de A-Sâm, toda envaidecida: o Menino é muito bem educado. Têm maneiras gentis.
Não foi preciso grudar-se à janelinha. A moça estaria assustada demais e, se o descobrisse a espreitar, seria capaz de nunca mais ali regressar. Fora um golpe magistral, a paciência ciar-lhe-ia a vitória final. Aproveitara bem a oportunidade e a trança negra e coruscante, mais o corpo coleante, pertencer-lhe-iam em breve. Nem sequer se lembrou que naquela mesma hora tinha a viúva à espera, abrasada de cio e roída de ciúmes. Demorou-se a pentear e só então se dirigiu à porta principal, a caminho do Baixo Monte. A-Sâm, no quintal, ignorante de todo esse enredo, foi uma cúmplice involuntária, no desiderato do patrãozinho. Vendo A-Leng aturdida e atribuindo isso à cortesia do Menino, pôs-se a gabá-lo, no que foi auxiliada pelo resto da criadagem. O Menino era bom, nunca ralhava com os servidores da casa nem tinha uma palavra desabrida. Levassem-lhe umas simples peúgas ou um copo de água e era logo um obrigado, na boca. Não os humilhava, por serem criados». In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia da FOriente/JDACT

domingo, 3 de abril de 2016

Portugal e a China. A Embaixada de Tomé Pires. Rui Manuel Loureiro. «… a fazer 5 mensuras diante de hum muro das casas do rey, todos em ordem, com ambos os jiolhos no chão e a cabeça e o rosto na terra, de bruços»

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«(…) A embaixada portuguesa encontrava-se em Pequim desde finais de 1520, ou talvez mesmo desde Agosto desse ano, encerrada no palácio destinado às missões estrangeiras, em humas casas de grandes curraes (Cartas). Tomé Pires e os seus companheiros apenas abandonavam estes aposentos para assistirem a sessões de instrução protocolar. Uma vez chegados à capital do Celeste Império, os estrangeiros que deveriam ser recebidos em audiência pelo Filho do Céu eram obrigados a ensaiar minuciosamente todos os passos da cerimónia. Uma das componentes obrigatórias do protocolo imperial incluía um conjunto de prostrações a realizar diante do soberano chinês. De acordo com Cristóvão Vieira, os portugueses, durante a sua estada em Pequim, dirigiam-se quinzenalmente ao palácio imperial, onde eram compelidos a fazer 5 mensuras diante de hum muro das casas do rey, todos em ordem, com ambos os jiolhos no chão e a cabeça e o rosto na terra, de bruços. Assim permaneciam até os mandarem alevantar 5 vezes a esta parede (Cartas). A descrição de Cristóvão Vieira corresponde basicamente ao koutou chinês, aportuguesado em co-tau, cerimónia ritual efectuada diante do imperador, que consistia em ajoelhar e tocar com a cabeça no chão repetidas vezes, normalmente nove. Entretanto, a carta de Vieira, único documento escrito por um membro da embaixada que possuímos, não se refere praticamente a Pequim, o que pode levar a supor que os portugueses não tiveram qualquer oportunidade de visitar demoradamente a cidade, estando quase sempre confinados aos seus aposentos ou encerrados em repartições oficiais. De facto, tinha-lhes sido aplicado um estatuto de semi-prisioneiros.
Depois de resolver a questão da revolta, Zhengde decidiu regressar a Pequim, onde chegou em meados de Janeiro de 1521. Durante a viagem de regresso à capital, porém, sofrera um acidente de barco, do qual não conseguiu recuperar. Depois de três meses de doença, o imperador chinês faleceu na Cidade Proibida, em Abril de 1521. Ainda antes desta data, a embaixada portuguesa começara a enfrentar os primeiros problemas com a burocracia imperial. Portugal nunca antes tivera relações oficiais com a China. Consequentemente, o país dos Folangji não figurava nas listas de estados tributários, cujas delegações eram periodicamente autorizadas a visitar Pequim. Em termos teóricos, os funcionários chineses poderiam aceitar pedidos de submissão à autoridade chinesa vindos de estados asiáticos. Havia exemplos anteriores de soberanos que tinham solicitado o selo imperial, como forma de reconhecimento da suserania da China sobre os seus territórios. Assumindo um compromisso meramente formal, estes governantes beneficiavam de uma protecção tutelar, que os punha ao abrigo, de um modo razoavelmente eficaz, da excessiva ambição territorial de vizinhos mais poderosos. Este sistema de relações externas não possuía qualquer equivalente aproximado na tradição europeia. Antes pelo contrário, el-rei Manuel I assumia nessa época uma postura quase imperial e apresentava-se aos soberanos orientais numa base de completa igualdade. Um dos motivos principais do fracasso da primeira missão portuguesa a Pequim seria precisamente a enorme distância que separava as formas portuguesa e chinesa de entender a política externa e as relações com outros estados. Ao chegar a Pequim, Tomé Pires apresentou às autoridades imperiais as suas credenciais. O embaixador era portador de uma carta selada, enviada pelo nosso monarca, cujo conteúdo se desconhece, mas onde, certamente, o Rei Venturoso escrevia a Zhengde em termos de igualdade, como o fizera antes a outros monarcas asiáticos, mostrando desejos de encetar relações de amizade e comércio. Nas palavras de João de Barros, el-rei Manuel I escrevia ao modo que elle usava escrever aos Reys Gentios daquellas partes». In Rui Manuel Loureiro, A Malograda Embaixada de Tomé Pires a Pequim, Portugal e a China, Conferências, Séculos XVI-XIX, Coordenação de Jorge Santos Alves, Fundação Oriente, Lisboa, 1997-1998, ISBN 972-9440-92-1.

Cortesia de FOriente/JDACT

sexta-feira, 25 de março de 2016

A Trança Feiticeira. Henrique Fernandes. «Sempre que via uma jovem transportando baldes e cestos, com o varapau ao ombro, o coração acelerava-se e a imagem, já diluída da rapariga, dançava-lhe diante dos olhos, a fulgurante trança»

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«(…) O pai já tivera uma longa conversa com ele. Era já altura de ter juízo. Preferia outra nora, é certo, mas não punha objecções quanto à viúva. Tinha dinheiro, era bonita e muito apresentável, talvez um tanto doidivanas, para o seu gosto. O resto da família levantava dificuldades, principalmente, a prima Catarina, toda venenosa. A mãe queria uma noiva virgem, que ainda não passara por trato de ninguém, no que era secundada pela avó e as tias. Adozindo não tugia nem mugia, alheando-se às discussões intermináveis, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Só ele sabia quanto a viúva podia ser de absorvente e cansativa.
Não se esquecera, porém, da aguadeira, embora afirmasse para consigo mesmo que a riscara como uma má recordação. O espinho da derrota ainda estava presente, a verrumar-lhe o amor-próprio. Se até uma inglesa, filha eleita e dilecta do Império Britânico lhe caíra nos braços, como era possível que uma aguadeira de pé descalço e analfabeta tivesse o desplante de repeli-lo? Para a sua vaidade, tal facto era uma coisa insuportável.
Sempre que via uma jovem transportando baldes e cestos, com o varapau ao ombro, o coração acelerava-se e a imagem, já diluída da rapariga, dançava-lhe diante dos olhos, a fulgurante trança, oscilando dum lado para o outro. Adorava essa trança, sentia as entranhas incendiarem-se quando imaginava acariciá-la, como não acontecia com qualquer outra cabeleira de mulher. Só por causa disso, voltaria de bom grado ao Cheok Chai Un. Mas temia o varapau.
Uma noite em que adormecera, com a mão sobre o peito, sonhara que desfazia voluptuosamente a trança, mas a moça irritada virara-se contra ele, com o varapau em riste, assumindo a grossura duma tranca portentosa. Acordou, com a sensação de ter sido sovado. Doíam-lhe os ossos do peito, dos braços e das pernas, o corpo coberto de suor. Interpretou o sonho como uma prevenção e supersticioso resistiu a qualquer tentação de ir ao bairro. A trança, no entanto, ficou como uma obsessão.
Naquele começo da tarde de fins de Maio, acordara bem disposto da sesta que fazia, antes de ir para a agência do pai. Saltou da cama e dirigiu-se para a casa de banho, no tardoz da casa. Da janelinha que se projectava para o quintal, subia o tagarelar das criadas que aproveitavam a sua hora de descanso, depois do almoço. Era um palreio que entrava no quotidiano, à mistura com a cega-rega das cigarras e demasiado usual para cativar a sua curiosidade.
Nisto, entre as vozes, ecoou um risinho diferente mas que já o surpreendera outrora. Debruçou-se, repassado de curiosidade, sobre o peitoril da janelinha. Recuou, instintivamente, o coração aos pulos. Ter-se-ia enganado? Com toda a cautela, como um ladrão que não quer ser visto, espreitou, de novo. Não fora ilusão nenhuma. A aguadeira dos seus sonhos, estava em baixo, de cócoras, falando animadamente e bebericando uma tigela de chá. Usava o (tun-sam-fu, preto de trabalho e, como sempre, andava com os pés nus, os dedos sujos de lama e poeira dos caminhos. Como estava entre criadas, desabotoara o botão da gargantilha mole, para estar mais à vontade. As calças, com a flexão dos joelhos, tinham subido, mostrando o tornozelo e um pedaço modelado das pernas. A trança lasciva enroscara-se para a frente do peito, para não sujá-la possivelmente com o contacto com o chão. Os cabelos, na curva da cabeça, tinham chispas azuladas, como asa de corvo ao sol.
A moça entrara mesmo na toca do lobo, sem pressentir. Substituíra uma colega doente e quebrada de idade. Lembrava-se agora da mãe ter-se referido à nova aguadeira que trazia uma água da fonte, muito boa e cristalina. Era a água do poço de Cheok Chai Un! Isto há coisa de um mês. E todo esse tempo, sem ele nada saber! Evitou todo e qualquer ruído. Bastaria ela voltar os olhos para cima e dava com ele. O choque seria grande demais, podia fugir e recusar-se, dali para diante, a levar água para aquela casa. E isto era o que ele não desejava, quando lhe descobrira outro dom. Tinha uma voz quente, bem timbrada, que provocava inefáveis arrepios. Em baixo, A-Leng espreguiçou-se. Como estava ali bem, naquela paz e como era difícil voltar ao poço, para outro carrego algures. Com a mão, brincava com a trança, levando-a ao nariz para cheirar, passando e repassando os dedos por ela, ajeitando os nós. Era uma flor entre as urtigas!» In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia daFOriente/JDACT

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura»

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«(…) Permaneci ali sentada, aturdida, em frente daquele amontoado de escombros e rodeada por pessoas e crianças que me fitavam de perto, atónitas, enquanto ia engolindo, a custo, o chá com cardamomo. A humidade escorria-me pela face, como uma espécie de orvalho das noites de Verão que tínhamos no Faial. Voltei a casa ainda muito combalida pela minha primeira experiência na Índia. Toda a família concordou então que devia descansar uns tempos antes de voltar a mergulhar noutra dura experiência da vida indiana. Eram já horas de jantar e tinha de me refrescar para tirar de mim a sujidade e o pó daquele dia e, quem sabe, talvez mesmo limpar-me dos pensamentos mais íntimos e da tristeza que me acabrunhava. Esta era a primeira refeição principal desde a nossa chegada. E eu bem sabia que Taí fizera uso de toda a sua culinária para nos preparar um menu tradicional. A família reuniu-se na sala de jantar e todos se foram sentando nos lugares habituais à volta da enorme mesa. Bhauji ficou à cabeceira, Taí ao seu lado direito e Mohan, o filho mais velho, do lado esquerdo. Mohan tinha sido um bom estudante e agora trabalhava no Departamento de Estatísticas do Governo de Bombaim. Ao seu lado estava Kishori, a mulher, e, completando a roda, seguia-se Shalini e Meena, a filha mais nova de Taí. Na cabeceira oposta, Lica e eu. À frente de cada um de nós havia um thalli, um enorme prato de metal inoxidável, com uma borda à volta. Do lado esquerdo do thalli tinham colocado um copo com água.
O criado trouxe para a mesa os chapatis, uma espécie de pancake, feito com farinha, água e sal, que serve de pão nas refeições indianas. Depois vieram mais três travessas, com diferentes preparações de vegetais com especiarias, servidas em pequenos recipientes do mesmo metal e colocadas na borda, mas dentro do thalli. Estes preparados, que se assemelham a um guisado, são chamados subji, ou chàque, e fazem parte de todas as refeições. Usando as duas mãos, tirei um bocado do chapati e, dobrando-o como se fosse uma pequena concha, meti tudo na boca de uma só vez. Assim me fui servindo dos diferentes recipientes, observando sempre como os outros faziam. Infelizmente, não reparei nas mãos. Foi-me dito imediatamente que nunca devia usar a mão esquerda para pegar na comida. Só a mão direita, lembre-se de que a mão esquerda só é usada para pegar num copo ou para nos lavarmos na toilette. É considerada uma mão impura.
O diferente uso das mãos era verdadeiramente extraordinário. Chegava a ser bastante desrespeitoso se estendêssemos a mão esquerda para aceitar uma oferta ou qualquer coisa que nos dessem. O mesmo acontecia em cerimónias tradicionais ou religiosas, quando se recebia o prassad, uma espécie de água ou doce bento. De futuro teria de me lembrar sempre disto. O criado voltou com o prato principal, arroz cozido sem sal e o caril de peixe. No centro do thalli foram servidas umas colheres de arroz e, ao 1ado, perto do arroz, o caril. Nunca se deve servir o caril por cima do arroz, de forma nenhuma, disseram-me, em casa de um saraswat-brahma nunca se deve fazer uma coisa dessas. Isso é um mau hábito das castas inferiores. Depois do caril de peixe foi servido, uma vez mais, arroz, mas desta vez com iogurte. Esta parte da refeição acabava com o cuddi, uma bebida fresca feita com leite de coco e especiarias. Terminado o repasto, levantámo-nos e dirigimo-nos ao compartimento seguinte, onde havia lavabos. Era aqui que se podia bochechar e lavar os dentes e as mãos. Só depois desta primeira ablução parcial é que a fruta e os doces eram trazidos para a mesa. Depois do jantar fomos para a sala e começou a conversa. Todos falavam animadamente, oscilando entre duas ou três línguas diferentes. Todos falavam, menos eu. Completamente exausta pelo longo dia, fiquei de 1ado, enquanto as experiências do dia me iam passando pela mente, mais parecendo um sonho do que uma realidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau»

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Finalmente, um pé em terra
«(…) Finalmente, e segundo as fontes chinesas da época, o facto de os portugueses conseguirem trazer para comerciar uma mercadoria raríssima e muito apreciada pelo imperador, em Beijing, o âmbar cinzento (obtido no Sueste Asiático), seria outro dos factores que abriram as portas ao comércio e mesmo à instalação em terra. Marginal à coroa portuguesa (que nesse ano de 1557 via morrer João III e aparecer no horizonte um  Sebastião ainda criança), ao Estado da Índia e aos imperadores, em Beijing, que durante muitos anos a desconheceram, a realidade de Macau iria impor-se. Até hoje.

Fernão Mendes Pinto e a China
Foi uma vida aventurosa. Pelas suas próprias palavras, foi vendido 16 vezes, feito escravo 13 e naufragou outras cinco. Fernão Mendes Pinto terá nascido em Montemor-o-Velho, por volta dos anos de 1509, 1511 ou mesmo 1514, no seio de uma famí1ia pobre. Em Dezembro de 1521, é trazido por um tio para Lisboa, nessa altura com 60 mil habitantes e o centro de um reino dependente dos seus rendimentos do comércio com a Ásia e a África (65 por cento), assolado por pestes e fomes e pelo fundamentalismo religioso da Inquisição. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal, ao serviço da casa do fidalgo Francisco Faria. e a partir de 1527 é moço de câmara na casa de Jorge, mestre de Santiago e filho bastardo de João II. Em 11 de Março de 1537, parte para a Ásia, numa armada de cinco naus comandada por Pedro Silva. Ia ao encontro de uma Ásia imensa e rica, habitada por 250 milhões de pessoas, sede de civilizações muito mais avançadas, em muitos aspectos, do que a europeia. Nesse mar de gentes e riquezas, uns escassos cinco mil portugueses, munidos da superioridade técnica militar (canhões), chegavam para controlar a maioria dos circuitos comerciais e estabelecer feitorias-fortalezas ao longo das costas do Índico e do Pacífico.
Nos primeiros anos, Fernão terá vivido como soldado, no Indico Ocidental (Goa, Diu, Ormuz), a partir de 1539 em Malaca e. até 1557, como mercador, sobretudo no Sueste Asiático (zonas de Patane, Sião, Pegu) e na Ásia Oriental (litorais da China e do Japão). Uma exposição dedicada a Fernão Mendes Pinto e os Mares da China esteve recentemente patente nas instalações da Missão de Macau, em Lisboa. Comissariada pelo historiador Luís Filipe Barreto, ela deu azo a um catálogo com texto de sua autoria. A vida de mercador aventureiro de Fernão Mendes Pinto deve ter começado por volta dos anos de 1539-40. É então enviado pelo capitão de Malaca, Pêro Faria, ao rei de Aru, em Samatra, e a Patane, na costa oriental da Península Malaia e Sião, na companhia de António Faria, escreve o historiador. Patane, tributária do Sião/Aiuthia, era um porto estratégico para os mercadores malaios e chineses e uma zona de produção de pimenta. A China consumia cerca de 75 por cento da pimenta do Sueste Asiático. Em Patane concentravam-se 300 portugueses ligados ao comércio privado da pimenta. cravo, maça, noz-moscada, âmbar, têxteis indianos de algodão, sedas, porcelanas, cânfora, almíscar, pau-da-china, ruibarbo, metais preciosos, moeda e armas de fogo. Entre 1541 e 1543, o nosso aventureiro vive em Martabão, no reino de Pegu, servindo no exército do rei da Birmânia. O mais tardar em 1543, Fernão Mendes Pinto vai, pela primeira vez, à China e integra-se nas redes de comércio entre o Sião, Pegu, a China e o Japão. Os portugueses começam a fazer comércio em Macau por volta de 1535, e a residir aí por volta de 1557. Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de FOriente/JDACT

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «Nas cartas que Metelo pediu aos missionários para que eles lhe dessem conselhos sobre o tipo de argumentos a tratar com o imperador, nenhum dos padres se atreveu a declarar que o embaixador tinha o dever de defender com força…»

jdact e wikipedia

«(…) Por esta razão o enviado real na última audiência com o imperador, para que fiquem claros os objectivos da missão, enfatiza a promessa imperial feita no primeiro encontro, dizendo a Yongzheng que comunicaria ao rei de Portugal: de que S. Mag.de Imperial tratava os Europeos do mesmo modo que o Imperador seu Pay, e que como este tinha expecial cuidado de favoresser aos moradores de Macau, esperava eu que tambem o actual Imperador lhe fizesse o mesmo favor, recomendando-os aos Men.os de Cantam. Metelo refere que a estas palavras não respondeu o Imperador, e ainda que alguns dizem que elle asenara com a cabeça, que sim, eu não reparey nesta acção. E a história confirma que o imperador não anuiu perante a afirmação de Metelo que pedia protecção para os macaenses e os outros portugueses presentes na China. A reticência imperial nasce sobretudo do facto de Yongzheng ter percebido que a situação mercantil estava extremamente comprometida com a realidade religiosa. O monarca chinês intuiu que na cultura portuguesa daquela época, política, economia e religião não se podiam facilmente separar: pertenciam todos a uma realidade complexa que se tinha instaurado de maneira unitária dentro do seu país. Ainda que o assunto da afirmação da catolicidade, pela extrema delicadeza que revestia e o melindroso confronto que apresentava, tivesse sido guardado sob prudente segredo o Filho do Céu era, sem dúvida, bem cônscio do facto de um dos interesses de João V que tinha feito do padroado católico português o seu baluarte religioso e político, era defender a presença dos cristãos portugueses no velho império: ele, em 9 de Julho, depois da primeira audiência, manda ao embaixador três mandarins para lhe dizer que o legado podia hir ver as Igrejas se [lhe] parecesse.
A corte imperial conhecia, portanto, a identidade explicitamenre católica da Coroa. Na carta de l8 de Dezembro de 1727, Metelo explica abertamente que o Imperador queria evitar audiencias, por reciar que eu lhe falasse na materia da missão, e talvez que entendesse lhe queria eu pedir pelo padre Mourão por entender-me não constava da sua morte. E sabemos que os temores de Yongzheng eram bem justificados. Por isso, o imperador, percebendo a atitude de João V, acusa explicitamente Parrenin e os católicos em geral de querer manipular a religiosidade chinesa, modificar os antigos usos sínicos e introduzir conceitos que podiam minar a paz no território oriental: que faria o Papa, e os outros Reynos da Europa, se eu lhe mandasse Bonzos, e Lamás rogando-os lhe dessem ajuda para introduzirem a sua Religião?.
Portanto, conhecendo a atitude fortemente anticristã do novo imperador, a Coroa considerava o problema da missionação e do jus patronatus estreitamente ligado a esta como um dado encoberto a não desvelar. O embaixador devia com habilidade aflorar o tema sem o abordar concreta e directamente: segundo as ordens que trago, sabia não era occazião oportuna de fallar na materia [da missionação]. Nas cartas que Metelo pediu aos missionários para que eles lhe dessem conselhos sobre o tipo de argumentos a tratar com o imperador, nenhum dos padres se atreveu a declarar que o embaixador tinha o dever de defender com força, perante Yongzheng, a fé católica. Logo em Macau, escreve o mesmo embaixador, me presentião de certificar os missionários, que o meio para comseguir algum alivio a misão da China, hera somente formarem os Chinas conseito de que seu Emperador se guardava daquella Embaxada, porque este agrado comprienderia todos os Europeos, e em consecoemsia delle serião os Mesionarios mais bem tratados dos Mandarins, e povo da China; porem que de nenhuma sorte comvinha fallar ao Emperador em revogar o seu decreto, porque suposto tinha sido expedido em consulta do tribunal dos ritos, por huma conta que tinha dado o Sumtó de Foquiem, me dizião que esta conta do Sumtó fora primeiro emsinuada da Corte, pella má vontade que o Emperador tinha aos Europeos.
Se de facto, verbalmente, podia existir algum jesuíta que favorecesse a intervenção directa perante o imperador, no momento de pôr as palavras por escrito todos mostram incerteza, medo e temor: as cartas são actos públicos ou que se podem tornar como tais; e situação começa a ser arriscada devido à perseguição e a comunidade cristã encontra-se perturbada; a documentação, toda assinada, podia chegar às mãos do imperador que não tinha hesitado, poucos dias antes da chegada de Metelo, em mandar matar o padrão Mourão. São estas só algumas das muitas razões que poderíamos aduzir para um velado silêncio eclesial que inibiu uma intervenção directa. E Merelo sai, portanto, justificado da sua atitude pouco explícita, mas confortado pelas suas decisões, livre de eventuais escrúpulos: vendo que os Missionarios que devião pelas suas experiências mostrarme os caminhos erão os mesmos, que me impedião os passos com os seus vottos. e com as ponderações que fazião do evidente risco que me perpunhão». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de F. Oriente/JDACT

domingo, 13 de dezembro de 2015

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «… aqui vos deixo em Pekim, e em Cantão para o commercio, e correspondencia com os Reys da Europa. Contudo, ele declara que não privilegiará as relações com os portugueses: eu no bom trato não faço distinção de estrangeyros, e ao mestiços»

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«(…) O embaixador defende a identidade cristã, olhando para os missionários como pessoas úteis à causa social chinesa. À lógica contestação do governo chinês que tenta perceber as razões pelas quais se seguia a Vossa Magestade de mandar Homens a China a emsinar a Ley da Europa Alexandre Sousa Meneses responde simplesmente que um dos principais preceitos da lei de Cristo era amaremse os Homens huns aos outros, e ajudarem-se resiprocamente e que em nenhuma couza se podia exersitar tanto esta caridade como ensinando aos Homens a viver com fellicidade. Mas as demoradas conversas com os grandes mandarins sobre este assunto não parecem derrubar o muro da incompreensão: o Imperador me dizia que não nesesitava no seu Imperio da Ley da Europa, nem os Mesionarios lhe ensinavão couza que na China se não soubesse. Com a mesma capacidade diplomática, e talvez encontrando idênticas dificuldades, o embaixador português trata a importância da sobrevivência daquela parcela de mundo macaense e a expansão dos portugueses na terra asiática.
Para este assunto Alexandre Sousa Meneses, na presença do imperador, não fala directamente em favor do mercado macaense, mas apresenta o tema como uma vantagem para os chineses: a defesa dos portugueses contra os holandeses. O embaixador, de facto, não protege frontalmente as frotas mercantis de Macau: ele dá a conhecer ao imperador as atitudes antichinesas dos maiores adversários portugueses, os holandeses, defendendo os interesses da Coroa e denegrindo aos olhos de Yongzheng as atitudes morais deles: e porque sendome presizo aribar a Betavia, terra de Olandezes, ali vira ser a maior parte daquella povação de Homens da China muitos dos coais se conservavão do tempo que os Olandezes tiverão Ilha Fremosa, uzando dos seus antigos trages, e deyxando crescer o cabelo, e que o mesmo praticavão a maior parte dos chinas, que todos os annos navegavão para Betavia, encoanto estavão naquella Cidade vivendo ali contra os estillos, e leis da China, e que coando se querião recolher ao Imperio, tornavão a cortar o seu cabello, e conseryavão correspondensia com os Chinas de Betavia, aonde tinhão parentes, e amigos e que isto não sabia o Imperador pois não premetiria estas correspondensias externas, contra as leis de Imperio; e menos se soubese a grande forsa com que os Olandezes pretendião atrair a si os Chinas.
A estas considerações Metelo acrescenta um outro elemento escandaloso para o imperador, que era o de ser a Holanda um território que se achava sem Rey, couza que muito abominarão as doctrinas dos Reinos da China, e avisa Yongzheng das relações que correm entre os holandeses e o governo moscovita, cujo representante diplomático tinha precedido o mesmo embaixador português: que tinhão estreita amizade com os Moscoviras, e que o Zar defunto marido da Imperatriz, então Reynante coando andou vendo varias cortes da Europa se demorou em Olanda com gosto, e com estreita união com os Olandezes, e dispois contraiu com elles serto parentesco espiritual, que os Cristãos contrae na ocazião em que Batizão os filhos. Diselhe tambem que heu não sabia com que fim o Embaxador de Moscovia pretendia comersio por mar com a China porque os olandezes lhe podiam dar as mesma conveniencias sem os navios de Moscovia virem a China, porque dentro de Betavia se achavão as fazendas da China, pelos mesmos presos que tinhão dentro do Imperio, aonde avião de pagar direitos de saida.
Mas, perante estas apaixonadas motivações, os mandarins ficam impassíveis, como se através das palavras percebessem outras finalidades. E a atirude imperial para com o pedido de protecção dos portugueses sintetiza-se nas seguintes palavras: a minha primeyra attenção foy imitar a meo Pay no seu modo de governo com tudo e principalmente na affeyção que teve aos esrrangeyros, o vos mesmo (falando para o reverendo padre Parrenin) o sabeis. Em relação ao quadro económico, Yongzheng mostra-se aparentemente disponível: no mesmo relatório do secretário de Metelo, o monarca chinês afirma: aqui vos deixo em Pekim, e em Cantão para o commercio, e correspondencia com os Reys da Europa. Contudo, ele declara que não privilegiará particularmente as suas relações com os portugueses: demais todos sabem que eu no bom trato não faço distinção de estrangeyros, e ao mestiços». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de F. Oriente/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias»

Cunhados 
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«(…) Em casa, todos foram de opinião que devia pôr as minhas roupas europeias de lado. Shalini, toda desembaraçada, foi imediatamente buscar um magnífico sari de seda branca, estampado com enormes flores cor-de-rosa. As blusas dela serviam-me perfeitamente e pude escolher com facilidade uma da mesma cor das flores. Nunca tinha usado um sari, mas senti-me razoavelmente confortável e fiquei logo pronta para sair. No entanto, por precaução, seguraram-me as pregas com um grande alfinete de segurança, não me fosse suceder algum imprevisto. Pouco depois saí com Bhauji no seu novo Oldsmobile, guiado pelo motorista. O cenário era espectacular. O mar cortava a costa já dentada, formando aqui e ali pequenas enseadas. Por vezes abria caminho terra adentro, como pequenos fiordes, formando extensos backwaters que reflectiam os altos montes rochosos que se elevavam entre a planície e a costa. Esta paisagem dramática poderia ser um verdadeiro paraíso para os pintores se não fosse a colossal tragédia humana que acolhia. O meu primeiro passeio turístico na Índia acabara por ser uma visita ao maior campo de refugiados em todo o estado de Maharashtra.
Havia passado um ano depois da divisão da Índia, que tanta miséria e infortúnio trouxera ao povo. Depois da independência da Grã-Bretanha, o país fora dividido para formar dois países independentes. O Paquistão ficou para os muçulmanos e a Índia para todos os outros. Milhares de pessoas viram famílias e amigos separados por uma barreira artificial que daria início a um grande êxodo dos dois lados. A maior parte dos refugiados preferia vir para a Índia, visto ter sido sempre um país secular, aceitando a igualdade de religiões. Em pouco tempo milhares de famílias começaram a passar a fronteira para a Índia. E a corrente continuava. Fugiam a pé, de automóvel ou até em carro de bois, apinhados com tudo o que pudessem acarretar.
Aqui, em Kalyan, o governo tinha construído um grande número de barracas pré- fabricadas, muito compridas, para cada uma delas poder alojar várias famílias. Actualmente, após tão intensa tempestade, poucos eram os tectos intactos e o campo estava num caos; muitos dos escassos valores pessoais que estas infelizes famílias tinham trazido estavam agora perdidos. Cada família procurava ficar reunida à volta do seu fogareiro. Centenas delas cozinhavam assim ao ar livre ou em qualquer canto de uma tosca barraca. Escombros e lixo viam-se por toda a parte, enquanto a miudagem, de caras sujas e roupas enxovalhadas, corria pelo campo e brincava nas poças de lama ali à roda.
O sol ia já alto e o calor apertava quando chegámos a Kalyan. O tempo estava muito abafado. Bhauji saiu do carro e foi a pé fazer a inspecção deste enorme acampamento com os outros engenheiros da localidade. Eu fiquei ali sentada à espera enquanto ia observando tudo o que me rodeava. Inesperadamente, alguém chegou ao carro, onde me mantinha sentada, trazendo-me uma chávena de chá. Aceitei de bom grado e agradeci o chá, que fumegava e cheirava a cardamomo. À minha volta surgiu logo um grupo de miúdos de caras sujas que me olhavam curiosos. Talvez por verem ali uma europeia vestida de sari! Senti-me exposta, desconfortável e com uma grande tristeza pela imensa miséria que me rodeava. A Índia dos meus sonhos, de palácios e templos, de cores vivas e beleza natural, transformara-se rapidamente numa cidade destroçada e na sordidez opressiva de um campo de refugiados destruído pelo ciclone. Senti uma dor profunda no coração. Lembrei-me com saudade da minha terra, das verdes pastagens cortadas por altas sebes de hortênsias azuis, do mar azuis, transparente, e das criptomérias, que oscilam com a brisa suave. Todo aquele mundo distante, perdido agora para mim, passou levemente pelo meu pensamento». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

terça-feira, 1 de setembro de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto…»

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«(…) Estava verdadeiramente fatigada e estonteada depois daquela esgotante viagem que acabáramos de fazer Senti uma enorme tristeza. Só me dava vontade de chorar com a dor do meu desapontamento e desconforto da situação em que me encontrava. Ia já a arrastar os pés e a ficar para trás: seguiam todos em grande palreio e alheios ao que se passava. Quando chamei por Lica, ele voltou-se para mim e disse em português: … tem paciência, não te posso ajudar, o que diriam se te vissem encostada a mim? Olhei para a frente quase em lágrimas. Iam todos ligeiros, a andar naturalmente, chapinhando ao longo do terreno lamacento e irregular. Quem era eu para me queixar? Ganhei coragem e continuei a andar, como uma autómata e em silêncio, enterrando as minhas sandálias de salto alto na lama quente e escorregadia, sem mais me importar. Um pouco antes de chegarmos a casa parámos numa lojeca que vendia chá, à beira da estrada, na esperança de que houvesse qualquer coisa para comermos. Todos os serviços estavam paralisados e nada havia em casa para comer, nem mesmo pão ou leite. Ao sair do carro, Bhauji, nunca dado a muitas palavras, voltou-se para mim e disse, com um sorriso malicioso: veja lá, com a sua chegada à Índia até todo o país tremeu. Nem me lembro se cheguei a sorrir ou não.
Entrámos na loja do chá. Era uma verdadeira espelunca de madeira com um balcão por cima da sala de entrada e com uma escada bastante precária por onde se subia para lá chegar. Parecia que tudo oscilava debaixo dos nossos pés. Era mesmo para admirar como tudo aquilo não foi pelos ares na fúria do ciclone. Havia várias mesas cheias de pratos sujos e copos de chá que tinham deixado a marca em várias rodelas de chá espalhado sobre a superfície das mesas. Já nem fiz caso do cheiro das frituras enroladas em especiarias. Trepámos logo para o balcão, subindo as escadas oscilantes, cuja madeira rangia a cada pegada, na esperança de que talvez ali estivesse mais limpo. Pelo menos seria mais afastado da turba do 1.º piso. Foi-nos servido o chá. Não consegui comer nada. Fazia agora um calor terrível e o barulho tornava-se ensurdecedor. Tudo me parecia tão irreal! Quase um pesadelo. Olhei para Taí, envolta no seu sari de organdi cor-de-rosa e flores de jasmim a enfeitar o cabelo. Silenciosamente, continuava a bebericar o chá em pequenos goles, alheia a tudo o que a rodeava. Veio-me subitamente ao pensamento a ideia de uma flor de lótus caída numa poça de lama.
Quando chegámos a casa fomos levados directamente para o nosso quarto, no 1.º andar Estava exausta. Tinha sido um longo dia, agitado e cheio de emoções. Atirei-me para cima da cama e caí num sono profundo. Bateram suavemente à porta do quarto e de seguida entrou um criado com o chá da manhã numa bandeja. Era ainda cedo, mas a luz do dia já parecia brilhante e no céu não se via uma única nuvem. Este era decerto um grande contraste em comparação com o nevoeiro e o céu cinzento de Paris, onde as árvores já estavam nuas, em preparação para o Inverno. Senti-me mais descontraída e em paz. Sentámo-nos na cama a bebericar o chá, deliciosamente preparado à maneira indiana com leite e açúcar. Que luxo sermos servidos na cama. Pela janela aberta podia ouvir-se o som de um comboio que passava ao longe e a música de um rádio na vizinhança. De repente apareceu à porta a nossa sobrinha Shalini, que vinha dar-nos os bons dias e perguntar se eu gostaria de alinhar num longo passeio de automóvel com o pai, que tinha de ir fazer uma inspecção para avaliar os danos causados pelo ciclone. O passeio duraria todo o dia e levar-nos-ia ao longo da costa, através de uma área cortada por enseadas e backwaters de beleza excepcional. Saltei logo da cama, entusiasmada. Que sorte maravilhosa poder ver alguma coisa do país mal tinha chegado. Lica não quis ir mas eu não podia perder esta óptima oportunidade». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José.

Cortesia de ETágide/JDACT

terça-feira, 21 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido»

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«(…) Acenderam-se os sinais de apenar cintos e apagar os cigarros. Olhei outra vez para fora e franzi os olhos, forçando-me a ver melhor através daquela escuridão. Com efeito, lá estava uma fosca luzinha a piscar, muito ao longe. Continuei a perscrutar através da janela evitando olhar para Lica. Não suportava vê-lo tão desapontado. Pobre Lica, tinha esperado dez longos anos para voltar ao seu país e as luzes de Bombaim tinham sido a última visão que guardara na memória. Mas não estavam lá. As luzes não se viam.
Levei algum tempo a aperceber-me de que aquele vasto manto negro que cobria toda a enorme área do estado de Maharashtra tinha sido causado pelo mais devastador ciclone que esta parte do subcontinente indiano jamais havia sofrido. A vida quotidiana fora severamente perturbada e a destruição era incalculável. Não admirava, portanto, que a notícia do que tinha ocorrido nos tivesse sido ocultada durante o voo pela tripulação de bordo. Havia já muito tempo que a tensão e excitação, pelo que me estava reservado para um futuro próximo, viera a aumentar de dia para dia, de tal forma que quando, finalmente, cheguei à Índia senti-me como que destituída de qualquer sensação. O impacto foi violento. Acabava de chegar a um mundo totalmente diferente, impregnado de cheiros intensos e vozes múltiplas em línguas múltiplas. As pessoas pareciam diferentes, vestidas de maneiras diversas, falando um babel de línguas estranhas e sempre apressadas, num contínuo vaivém, a empurrar carrinhos ou em discussões umas com as outras.
A confusão e o caos dos primeiros momentos desnortearam-me por completo. O grande temporal tinha causado um extenso apagão e toda a área de Bombaim estava às escuras. O edifício do aeroporto e a alfândega eram agora iluminados pelas fracas luzes de vários candeeiros petromax, cujo cheiro a petróleo se juntava aos outros odores. Todo aquele estado estava desordenado e às escuras. Quando saímos do edifício das alfândegas, chamou-me a atenção um grande grupo de pessoas que nos abanavam freneticamente. Parecia impossível, mas muitos dos nossos familiares tinham conseguido enfrentar a natureza para irem ao aeroporto. Parecia incrível terem conseguido lá chegar com tais condições atmosféricas. Fiquei admirada com o grupo que se me deparou à frente. A maior parte deles eram jovens. Havia duas raparigas que trajavam saris e tinham duas longas tranças; ao lado, quatro ou cinco rapazes que me pareciam todos idênticos em idade e aparência. Fui logo apresentada a todos eles naquela altura e várias vezes depois. Ao princípio não conseguia mesmo distingui-los.
As raparigas em saris eram a Kishori, casada com o sobrinho mais velho de Lica, e a Shalini, uma das sobrinhas, já estudante de Medicina. Pareciam tão jovens! Reparei então na senhora indiana que estava por detrás, mais baixa e de pele muito branca, que me olhava, sorridente. Nem me parecia uma figura real. Havia qualquer coisa de etéreo na sua aparência. Tinha o cabelo penteado para trás, preso num rolo e enfeitado à volta com uma pequena grinalda de jasmim branco. Os brincos de diamantes em forma de coração e um outro preso à narina direita faiscavam mesmo àquela fraca luz dos petromax. Envergava um sari cor-de-rosa de fino organdi que me fazia lembrar uma delicada boneca de Dresden. Esta é a Taí, disse Lica, orgulhoso, a minha irmã mais velha. Taí sorriu e saudou-me, juntando as mãos num namasté. Eu sorri também e fiquei calada, sem saber o que dizer Começaram logo todos a falar entusiasticamente numa língua que me era desconhecida. Riam e gracejavam com grande animação, por vezes todos ao mesmo tempo. Nem era para admirar, uma vez que Lica voltava a casa depois de dez anos de ausência.
Quando o bagageiro apareceu com as malas, despedimo-nos dos membros da família que voltavam para o centro de Bombaim e juntámo-nos a Taí e a Bhauji, o nosso cunhado, com quem ficaríamos a viver provisoriamente. Bhauji era um homem de meia-idade, alto, forte e de tez morena, homem de poucas palavras, mas sempre de bom humor. Era então o engenheiro chefe do distrito de Thana, que ficava a alguns quilómetros da cidade de Bombaim. Bhauji vivia numa enorme moradia de dois andares, rodeada por jardins, numa área mais afastada destinada a funcionários de chefia. No total, havia talvez uma meia dúzia de moradias. À volta delas havia ainda um clube e campos de jogos para uso dos moradores. O filho de Bhauji, recentemente casado vivia com eles. Em condições normais, o trajecto do aeroporto até Thana levaria cerca de meia hora de automóvel. Todavia, isso tinha-se tornado quase impossível devido à destruição causada pela tempestade. Havia árvores sem conta caídas por terra, entulhos de destroços a bloquear as estradas, de tal forma que tivemos frequentemente de nos meter através de prados, a corta-mato, para ultrapassarmos as vias bloqueadas. A certa altura tivemos de nos apear para caminharmos ao lado do carto, evitando assim que, com o nosso peso, as rodas ficassem enterradas na terra mole. Não se via nada na escuridão da noite e nem via onde punha os pés». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Em memória de Ofélia e Álvaro José

Cortesia de E. Tágide/JDACT

sexta-feira, 17 de julho de 2015

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas…»

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«(…) Embarcámos num Skymaster, preparados para uma longa viagem aérea até à Índia. Iríamos parar em Lyon, Roma, Atenas, Cairo, Darham e, por fim, Bombaim, no total, trinta e seis horas... Não havia jets nesses dias, e todas as vezes que parávamos para abastecimento de combustível ou troca de passageiros éramos levados para bons restaurantes nos aeroportos e tínhamos anda tempo suficiente para dar uma volta pelas lojas, sempre abarrotadas de artigos regionais e nacionais. Quão diferentes eram então as viagens das de hoje, em aviões que oferecem uma viagem rápida, depois do tédio das esperas prolongadas e de serviços de aeroporto demorados!
Íamos agora direitos à Índia e, à medida que o tempo passava, sentia-me cada vez mais excitada e ansiosa. Ao meu lado, Lica repetia constantemente o que eu teria de fazer ou não fazer quando lá chegássemos: como deveria cumprimentar a família e a quem me dirigir primeiro. Repetia-me os nomes e explicava-me a relação que tinham uns com os outros. Tarefa árdua quando se tratava de uma enorme família como a dos Gaitonde. Mais uma paragem antes de Bombaim. Ainda tínhamos de aterrar em Darham, no Médio Oriente. Quanto chegámos, disseram imediatamente ao comandante que o avião não poderia prosseguir viagem para a Índia. Tínhamos de ficar ali até novas ordens. Que terrível desapontamento! A seguir fomos conduzidos por um árabe alto e corpulento até às nossas acomodações improvisadas. Era já noite. Saímos com o nosso guia do edifício da alfândega e começámos imediatamente a pisar areia. Parecia que tínhamos entrado em pleno deserto. Estava tão escuro que não se podia ver além de um ou dois metros. Por fim, chegámos a umas barracas abandonadas. Teríamos de passar a noite ali o mais confortavelmente que nos fosse possível. Ao entrar notei logo que a barraca estava dividida ao longo de todo o comprimento por um corredor, com quartos de um lado e retretes do outro.
O cheiro nauseabundo de urina quase nos sufocava. Cada quarto tinha apenas uma cama de ferro com um colchão e em cima, dobrado, um par de lençóis. A janela não tinha cortinados, deixando-nos à vista de quem passasse do lado de fora. Estava um calor mortal, mas as janelas tinham sido seguras com pregos para não deixarem entrar os mosquitos da malária. O calor era sufocante e sentia as gotas de suor a escolher-me pelo corpo abaixo. Experimentei ir ao banheiro para uma rápida lavadela, mas tive de voltar a correr para o quarto, pois não havia água, o autoclismo não funcionava e o cheiro da sanita, bloqueada, era insuportável. Esta foi, sem dúvida, uma noite memorável, tirada mesmo das Mil e uma noites...
Na manhã seguinte fomos de novo conduzidos ao aeroporto para continuarmos a viagem. Nunca nos informaram da verdadeira causa daquela inesperada paragem prolongada, mas acabámos por deduzir que tivesse sido devido a condições atmosféricas não favoráveis ou a qualquer coisa relacionada com a guerra em Israel.
Começava já a sentir-me sonolenta, devido ao contínuo roncar do motor do avião, mas Lica mostrava-se cada vez mais excitado. Quantos anos tinha esperado por este momento! Olha, daqui a nada vais ver no horizonte uma enorme auréola cor de lannja reflectida no céu... São as luzes da cidade de Bombaim. É uma maravilha Olhei para fora mas não se via nada. Estava tudo escuro, escuro como breu. Não falta muito, dizia ele, vais ver é uma vista para nunca esquecer. Olhei outra vez, continuava escuro. Depois de quase meia hora e com um pouco menos de entusiasmo, Lica repetiu: já deve estar por pouco. Vai ser urna vista maravilhosa, o céu vai parecer como se estivesse em fogo, tal é o esplendor da brilhante iluminação de Bombaim. Eu continuava a olhar para aquela noite escura. De súbito ouviu-se um clique do autofalante e a seguir a voz do comandante, que anunciava: Senhoras e senhores, estamos a sobrevoar Bombaim e preparamo-nos para aterrar dentro de minutos». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ervas Silvestres. Lu Xun. «… como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!»

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Diário de um louco
«(…) Eu conheço dois irmãos. É desnecessário referir os seus nomes. Quando ambos frequentavam a escola secundária, éramos bons amigos. Passaram depois os anos e as notícias que me chegavam mais e mais raras se tornavam. Aconteceu porém que, não há muito, ouvi dizer que um deles estava gravemente doente. Aproveitando uma visita que tencionava fazer à terra natal, não deixei de, num salto, ir visitá-lo. Todavia, ao chegar, fui recebido não pelos dois, mas só pelo mais velho. Este, agradecendo a minha deslocação vindo de tão longe, informou-me estar já o seu irmão recuperado e em viagem. Ia tomar posse de um cargo oficial, após as respectivas provas. E, depois de uma sonora gargalhada, mostrou-me dois volumes manuscritos que constituíam um diário do meu antigo amigo. Referiu o quanto aquela leitura poderia mostrar como o seu irmão mais novo estivera doente. De todo o modo, não punha qualquer problema em que aquilo fosse lido pelos amigos do enfermo. Assim sendo, trouxe eu comigo o dito diário. Não foi necessário mais do que uma passagem de olhos para perceber quanto a sua doença era do foro da mente, da esquizofrenia ou do complexo da perseguição. Linguagem desordenada e sem lógica, do sem sentido ao disparate, sem ordem cronológica nem referência a datas, apenas a desigualdade no carregado do traço e a irregularidade caligráfica mostravam terem sido escritos em tempos necessariamente diferentes. Se bem que, de vez em vez, lá surgissem períodos um pouco mais coerentes. Mostro uma boa parte do referido texto como algo de exemplar ou como matéria para o estudo dos médicos. É como o que segue. Não corrigi um único erro. Apenas alterei os nomes que foram surgindo, apesar de dizerem respeito tão só a pouco importantes aldeões. Quanto ao título, foi dado pelo próprio, depois da sua recuperação. Assim o deixo». In 2 de Abril do ano 7.

«Esta noite está um belíssimo luar. E eu que não via um luar assim há mais de trinta anos! Hoje contemplo-o, e isso dá-me uma grande alegria. Só agora compreendo o quanto foi na escuridão que passei os meus últimos trinta anos. Preciso, porém, de ter muito cuidado. Senão..., por que é que aquele cão da família Zhao terá olhado tão insistentemente para mim? Eu tenho razão em ter medo.
Hoje não há lua. Sei como isso é um mau sintoma. De manhã, quando saía de casa, silenciosamente, bem que reparei no olhar estranho do senhor Zhao. Parece que tem medo de mim, que me quer mal. Também uma boa meia-dúzia de aldeões cochichavam sobre a minha pessoa, parecendo temer-me. Todos os que fui encontrando pelo caminho assim faziam. Um deles, mais bruto, sorriu-me, a boca muito aberta. Senti um frio percorrer-me da cabeça aos pés. Bem sei que eles têm tudo planeado. Mas não me deixo intimidar, sigo o meu caminho. Estava um grupo de crianças mais à frente. Também segredavam sobre mim e os seus olhares eram como os do senhor Zhao, caras fechadas. Mas que raio tenho eu que ver com as crianças? Por que se comportarão elas também assim? Não pude deixar de gritar: Digam-me! Mas fugiram. Pensava por que carga de água havia eu de ter alguma coisa que ver com o senhor Zhao, ou com as outras pessoas da rua. Tanto quanto sei, nunca lhes fiz mal algum. Aconteceu apenas que, já la vão vinte anos, maltratei um livro de história de um velho senhor. Parece que ele terá ficado muito zangado. Mas estou em crer que o senhor Zhao nem conhece esse velho. Será que ouviu dizer qualquer coisa e vem agora fazer justiça não encomendada? E terá mesmo combinado com todos os outros, agora meus inimigos! Mas, e as crianças? Quando isso se passou nem nascidas eram. Como é possível que também elas me olhem com olhares esquisitos, como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!
Não dormi bem durante a noite. As coisas precisam de ser bem investigadas, há que vê-las com maior clareza. Quanto a eles, uns foram condenados a açoites pelos oficiais locais, outros apanharam na cara bofetadas dos ricos, outros ainda souberam a esposa violada por funcionários governamentais, houve mesmo quem visse os próprios pais atirados para o suicídio pela opressão dos credores. Mas não tinham, nem mesmo então, caras tão horrorizadas e agressivas como ontem. A mais estranha foi aquela mulher na rua a bater no filho, dizendo: Palerma o que me apetece é morder-te! Mas com os olhos fixos em mim. Eu assustei-me. E denunciando eu o medo, os outros, com caras maldosas e dentes de lobo, desataram às gargalhadas. Foi quando Chen Lao-wu, o nosso criado, correu para mim e me puxou para dentro de casa». In Lu Xun, Ervas Silvestres, tradução do chinês de Sun Lin e Luís Cabral, Fundação Oriente, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, ISBN 972-8028-960-2.

Cortesia da FOriente/JDACT

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Tempo no Pensamento Islâmico. Loius Massignon. «O instante marca, ao crepúsculo, o início de um Dia, yawm, que estabelece uma indicação, ou épochè, um início de era: é assim o dia 16 de Julho de 622…»

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«Desde Kant que os matemáticos nos acostumaram a considerar o tempo como uma forma a priori da nossa intuição; ligado ao espaço tridimensional, o tempo constitui a quarta dimensão do universo em expansão. Contudo, sentimos uma espécie de contracção no nosso pensamento quando julgamos captar o tempo; sentimos que há mais no possível do que no existencializado, nos dados do problema do que nas suas soluções, na procura do que nas invenções. O tempo 4ª dimensão de Minkowski continua a ser discutível. Um pensamento religioso que tende para um monoteísmo transcendente, como é o Islamismo, tem uma visão totalmente diferente do tempo. Não se trata de o inventar, o tempo é que nos revela a ordem (amr) de Deus, esse fiat (kun, kûni) que provoca os nossos actos de pessoas responsáveis. Por conseguinte, para, o teólogo muçulmano, o tempo não é uma duração contínua, é uma constelação, uma via láctea de instantes (tal como o tempo não existe, o que existe são apenas pontos). A heresiografia condena como materialistas os Dahriyûn, os filósofos que divinizam a Duração (dahr). Para o Islamismo, que é ocasionalista e só descobre a causalidade divina na sua eficiência actual, só existe o instante, hîn, ân, piscadela de olho: lamh albasar, anúncio lacónico de uma decisão judiciária de Deus, que confere ao nosso acto nascente o seu estatuto (hukm): que será proclamado no Dia em que se ouvir o Clamor de Justiça.
Esta percepção descontínua do tempo em instantes não é mera subjectividade religiosa. Para toda a comunidade muçulmana, o instante é como uma revocação autoritária da Lei, tão inevitável como inesperada. O instante fundamental na vida do Islão surge ao cair da noite, com o primeiro Crescente do mês lunar, ghurrat al-hilâl, que declara aberto um prazo, de duração variável, para o cumprimento litúrgico dessa observância legal (peregrinação, em primeiro lugar; depois, prazo de isolamento, ou viuvez?, etc.). Não é permitido prever por meio de tabelas teóricas o primeiro Crescente, há que espiá-lo, constatá-lo empiricamente, por duas testemunhas do instante. Este método é ainda hoje o de todo o Islão (à excepção dos Ismaelitas). É o iltimâs al-hilâl. Nisso, o Islamismo aproxima-se da humanidade mais primitiva, que venera na própria irregularidade das fases da lua a manifestação de uma Vontade misteriosa independente das estações solares. Quando muito, tolera-se um calendário muito primitivo, chamado das 28 mansões lunares (364 dias), que fornece empiricamente o nome da estrela (Najm), ou melhor, da constelação zodiacal em que se deve espiar a aparição do primeiro Crescente no fim do mês lunar anterior. O instante marca, ao crepúsculo, o início de um Dia, yawm, que estabelece uma indicação, ou épochè, um início de era: é assim o dia 16 de Julho de 622, dia inaugural da hégira muçulmana em Medina: são assim, antes dela, os ayyâm al-‘Arab, dado que as lutas tribais constituem o único calendário real dos árabes antes do Islamismo. Instantes de paragem para as consciências, que implicam introversão, na memória». In Loius Massignon, O Tempo no Pensamento Islâmico e outros textos, tradução de Maria Figueiredo, Fundação Oriente, Edições Cotovia, Lisboa, 1983, 1997, ISBN 972-8028-98-9.

Cortesia da FOriente/JDACT

sábado, 15 de novembro de 2014

O Comportamento Cultural dos Macaenses perante o Nascimento. Isabel Correia Pinto. «É como uma ilusão de encontrar, às portas do Império do Meio, uma caixa de bombons antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que outra coisa não houve jamais, nesta terra longínqua, que não fossem os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças»

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Conceito de etnia macaense
«(…) De tudo o que foi referido, fica-nos a ideia de que o macaense é um mestiço português euro-asiático, cuja língua materna é o português caracterizado por uma pronúncia regional. Sendo de salientar, que as gerações mais antigas tinham também um modo de falar próprio, o patuá, que por razões várias, caiu em desuso nas primeiras décadas deste século. Para além do português, o macaense aprende quase sempre desde tenra idade o cantonense, o que faz dele um bilingue, dominando também muitas vezes o inglês. O macaense é católico, no meio de milhares de budistas que o cercam e identifica-se com a cultura portuguesa, não lhe sendo estranha no entanto a cultura chinesa, já que foi criado também em contacto com ela. Esta situação, traduziu -a Cecília Jorge num poema, de que transcrevemos uma passagem e que retrata bem um conceito sentido, (já que a autora é macaense), nessa ambivalência de uma identidade étnica, que se foi formando numa encruzilhada de povos e culturas, com acesso a todos mas sem pertencer a nenhum, senão o ser macaense.

Breve história de Macau
Macau é um pequeno território com uma longitude Este entre 113.º 34' 47" e 113.º 35' 20", e uma latitude Norte entre 22.º 06' 40" e 22.º 12' 01" situado na costa Sul da China, na margem direita da foz do delta formado pela confluência de dois rios: o rio do Oeste (Xi Yiang) e o rio das Pérolas (ZhtYiang). Metade da sua área constituída por terras conquistadas ao mar. Esta área está distribuída pela península de Macau e pelas ilhas de Taipa e Coloane que lhe estão adjacentes. Macau tem ligação directa com a ilha da Taipa através de duas pontes, estando a ligação entre esta ilha e a de Coloane assegurada por um istmo. Sem terrenos de cultivo ou grandes indústrias, Macau vive sobretudo do jogo. Neste estão também incluídas corridas de cavalos e de cães, mas são sobretudo os casinos (alguns dos quais a funcionar 24 horas por dia), que fazem do território a 2ª metrópole do jogo a seguir a Las Vegas. Este facto beneficia também o sector do turismo, que para além do movimento provocado por quem vem conhecer a cidade, faz com que os hotéis se encham sobretudo ao fim de semana de jogadores vindos de vários pontos da Ásia. É este vaivém constante de gente e o facto da cidade de Macau possuir a maior densidade populacional do mundo que lhe dão uma cor e um ritmo muito próprios. Numa cidade espartilhada entre a grande China e o mar, com ele disputa o espaço e ao mesmo tempo cresce em altura parecendo querer tocar o céu. Cidade antiga e moderna, onde o contraste nos surpreende a cada esquina: é a velha calçada à portuguesa, são os pátios e becos escondidos que fazem fronteira com avenidas de asfalto, são paredes de pedra e argamassa que espreitam por entre torres de vidro e de betão, é gente que passa, loira, morena, olhos redondos ou amendoados, dialectos estranhos ou familiares, assim é Macau. São templos e palacetes, vestígios de um passado que se enquadram numa cidade apressada e barulhenta como uma pintura surrealista. E a observá-la, para além do tempo, estão fortalezas e baluartes com canhões adormecidos nas ameias, guardando uma cidade que já não sabe guardar-se a si própria, porque os perigos que a espreitam hoje já não lhe vêm do mar. Estão dentro de si, na sombra de alguns dos que a habitam e tecem as malhas de uma outra cidade, feia e triste, onde os homens perderam a inocência e se vestem todos os dias de desencanto. Assim é Macau. Mas do alto dos edifícios de betão e vidro a cidade é uma só. Transforma-se por magia em miniatura, nós somos Guliver e Macau abarca-se num só olhar. A noite cai devagar. A cidade é um presépio a brilhar numa profusão de luz e cor, ilha suspensa em duas pontes, dois dragões ondulantes a brilhar pelo mar fora. E o farol da Guia continua a rodar, firme no seu posto como um velho general, embora a sua luz que guiou tantos barcos, hoje ilumine quase só as torres de betão. Porém, continua a ser guardião da sua fortaleza e o seu recorte na penumbra da noite traz à memória a magia de outras eras. Macau, cidade do Nome de Deus, que é feito dos outros Deuses a quem prestas culto nos templos, festas e tradições? Zangaram-se talvez os Deuses, porque o teu nome fala apenas num só. E esse Deus que ao teu nome ligaste, saberão os que hoje te habitam, qual deles é? E porque tem uma cidade no extremo sul da China, um nome tão invulgar? Porquê nesse local uma cidade assim? Um europeu, o conde de Beauvoir, ao visitar Macau em 1867, escrevia: É como uma ilusão de encontrar, às portas do Império do Meio, uma caixa de bombons antiga, com ruínas cristãs que parecem atestar que outra coisa não houve jamais, nesta terra longínqua, que não fossem os nossos velhos monumentos e as nossas velhas crenças…» In Isabel Maria R. Correia Pinto, O Comportamento Cultural dos Macaenses perante o Nascimento, Imprensa Oficial de Macau, Fundação Oriente, 2001, ISBN 99937-603-1-5.

Cortesia de FOriente/JDACT

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Comportamento Cultural dos Macaenses perante o Nascimento. Isabel Correia Pinto. «Ser Macaense é ser natural de Macau, mas ter cultura portuguesa... é ser português do Oriente...é ter certas maneiras de ser e estar, de pensar e falar que o identificam como macaense»

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Conceito de etnia macaense
«Não se foge à verdade quando se diz que macaense é aquele que é natural de Macau. Porém, embora essa afirmação seja verdadeira, é incompleta, já que não especifica a etnia da pessoa em causa. É esse pormenor que marca a grande diferença e que o termo macaense por ser ambíguo, não especifica; qualquer pessoa que nasça em Macau é macaense, independentemente de ser ou não dessa etnia. Talvez por essa razão, os etnicamente macaenses, se considerassem desde sempre um grupo diferente dos outros naturais de Macau e se auto designassem os filhos da Terra ou filhos de Macau. Também os chineses de Macau, o grupo etnicamente maioritário sente essa diferença, denominando os de etnia macaense de Tou Sán que significa nascidos na terra, enquanto que se autodesigna por gente de Macau. Perante esta realidade, pergunta-se: Quem são afinal os filhos da terra? Que características os distinguem e os fazem parecer duplamente macaenses: por etnia e por naturalidade?
Várias têm sido as pesquisas feitas sobre o assunto, algumas as opiniões emitidas e que por vezes são contraditórias. Senão vejamos: Relativamente à origem dos macaenses, a opinião geral dos autores consultados, é que estes resultaram do cruzamento entre homens portugueses que viajavam nas naus e caravelas e mulheres asiáticas. Porém, as ideias no que respeita à etnia dessas mulheres, já não são tão concordantes. Assim, para Bento da França (1897), os macaenses têm traços mongólicos, europeus, malaios, canarins e são produto de grande mistura de raças e sub-raças. Melo Machado (1913), considera os macaenses fruto do cruzamento de portugueses com mulheres japonesas e malaias primeiro e mais recentemente com mulheres chinesas. Carvalho Rego (1950), é de opinião que os macaenses não são de ascendência sino-portuguesa, mas sim do cruzamento de europeus com outras raças do oriente. Já Eduardo Brazão (1957), expressa uma ideia diferente, referindo terem os macaenses rara miscigenação com indianas e pelas características físicas que apresentam, a maior parte deve descender do cruzamento de portugueses com malaias e chinesas. Também Manuel Teixeira (1965), refere serem os macaenses descendentes de portugueses e chinesas. Ana Maria Amaro (1988), tem uma opinião diferente, afirmando que os macaenses descendem de portugueses e mulheres malaias, luso-malaias, indianas, luso-indianas, timorenses, japonesas e também chinesas. Opinião idêntica a esta última, expressa António Carmo (1993).
Porém não basta ser natural de Macau e ter origem euro-asiática, para se ser considerado etnicamente macaense. Existem dois outros vectores importantes, que os autores consultados igualmente referenciam como característicos dessa etnia. São eles a linguagem e a religião. Relativamente à linguagem, a que foi utilizada até às primeiras décadas deste século, era para além do português, o patuá ou falar da terra, uma mistura de português simplificado com malaio, a que se foram agregando muitos vocábulos chineses. Sendo este modo de falar, característico dos macaenses como grupo. Ao cair em desuso, a linguagem utilizada continuou a ser o português com pronúncia regional própria e cada vez mais o cantonense, a que não são alheias as transformações sociais e políticas que se têm vivido em Macau, onde se sente cada vez mais a influência chinesa. Seguindo a opinião de autores já referidos como Manuel Teixeira, Ana Maria Amaro e António Carmo, estes factores fazem do macaense um bilingue nas línguas portuguesa e no dialecto cantonense, podendo ainda na maior parte dos casos, segundo Ana Maria Amaro, exprimir-se facilmente em inglês.
Relativamente à religião, todos os autores consultados são unânimes em referir que os macaenses são tradicionalmente católicos. Ana Maria Amaro considera-os católicos muito conservadores. João Pina Cabral e Nelson Lourenço falam igualmente nos três vectores principais de auto-identificação, como sendo a mestiçagem euro-asiática, a língua portuguesa e a religião católica, transcrevendo um conceito de macaense dado por um membro dessa etnia: Ser Macaense é ser natural de Macau, mas ter cultura portuguesa... é ser português do Oriente...é ter certas maneiras de ser e estar, de pensar e falar que o identificam como macaense. Poderíamos incluir nestas maneiras de ser e estar, certos hábitos e tradições nomeadamente culinárias e que são também características dos macaenses». In Isabel Maria R. Correia Pinto, O Comportamento Cultural dos Macaenses perante o Nascimento, Imprensa Oficial de Macau, Fundação Oriente, 2001, ISBN 99937-603-1-5.

Cortesia de FOriente/JDACT