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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca…»

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«(…) O meu João está na oficina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João saiu. E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo... Diriam dela as vizinhas, a que está com o João na oficina, uma ruiva. Via-se aos domingos no passeio da Estrela com ele, em roda de coreto, fazendo volutas por entre os soldados de Caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçado atrás, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E dali a um ano, quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que tinham de ser o diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas, cuecas amareladas, de rastos, fazendo galos nas testas. Deixá-los! Também as outras se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito, Deus não me mate sem um loiro. Às vezes, ao acordar, na moleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando: ai! Um loiro...
E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguíneo da epiderme, pequeninas espirais de cabelinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delírio, na incoerência, prolongava nitidamente essas linhas, harmonizando-as, moldando-as, curvas suaves e veludíneas, cheias de saúde, aqueles brancos braços hercúleos e sem um pêlo, que lhe via na oficina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculturais, direitas. E diante dela surgia aquele corpo lutador, de atleta, grandes traços magistrais e simples, de um pureza de academia. E penetrava-se da cor da pele, fresca e clara, sob que se sentiam correr ímpetos de sangue rico, jovem, virginal, fremente. Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca, sorvendo o seu hálito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma dele.
Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento das noites de Inverno, como grandes coroas que se rezam, deixariam cair as horas no silêncio. No turbilhão dos seus devaneios sucediam-se rápidas as cenas, vibrantes como kolpodes que tumultuam na fermentação. Quereria a vida das vizinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou quimera. Via saias de goma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados característicos. As caras angulosas com manchas vinolentas sorriam para ela, deitando línguas negras de fora. E sem explicar porquê, como um ritmo original, ouvia as pancadas de uma enxada na terra do cemitério. Gelava-se. Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e flutuante numa grande incoerência. Agitada como estava, o sono fugia-lhe, e as ideias, desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemitério, o amor medonho dos cadáveres, em cuja gélida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrível, cheia de afinidades com a hiena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infâmia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semideus. Era feliz então, sentindo na alma aquela irisação de paz que a perfumava toda como num banho voluptuoso. Ser amada por aquele forte, apertada e vencida nos seus braços esculturais, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma coisa como um sonho febril. Dar-se-ia plenamente e sem reservas, com uma abundância louca de contactos, frenética e possuída de um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe, colorizada numa recordação deliciosa, sem compreender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura iluminada pela vela de sebo tinha uma curva nítida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miúdos, de gatazinha branca. E dilatou-se num vasto contentamento interior: era bela, de uma compleição tenuíssima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve, sobre a cara, uns cabelinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e apetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer!»

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«(…) E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como saco vazio de roupa velha. E o seu crânio pequenino de estúpida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota de uma cabaça oca. Quando ficaram sós, a senhora Marcelina, abaixando um pouco a voz, disse à filha do coveiro: tenho uma coisita para lhe dizer, seu interesse. Sim?, fez Carolina. Não é coisa nenhuma má, não senhor. O seu ao seu dono! O que é então? Não se zanga, não? Por que havia de zangar-me? Mas diga. Há aí um rapazola que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão! Carolina teve um sobressalto. O coeficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se num sorriso. Está a gozar, disse. Palavrinha, é coisa séria. Ele falou-me nisso. Para quê?, disse ela, trémula, penetrada. Ora! Namoricos; não sabe como as coisas são? Rapaziadas. Todos nós temos disso. Enfim, falar não ofende. Carolina estava pálida, sentia-se vagamente num deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcelina, de olhos no chão, mordia o lábio inferior, como quem reflecte. Com que então, disse Marcelina, gosta? Hi!... E, passado um momento: um rapaz com umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hem? Sua sonsinha... Hem? E, insinuando-se, velha toupeira: tendo juízo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cair antes de tempo, percebes? Carolina estava rubra, com palpitações doidas.
E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer! Aqui, em frente do beco, há uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos. Ah!, fez Carolina. Já sei. Há um oficial, o João, bonitote, muito claro. É esse. É esse então? Pois senhores... Um belo moço! É vê-lo além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hem! Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura. E depois?, disse ela. E ele pediu-me que arranjasse a coisa, que lhe falasse; tinha vergonha de vir ele mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo. E o meu pai? Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar. Nem sei, nem sei... Isso, o resto arranja-se. Amanhã há festa nos Prazeres, percebes? Ele vai por ali. Tu vais comigo. Entendam-se lá como quiserem. Gostas dele? Sei lá, sei lá! Não é feio... Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito. Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde. Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois. Adeusinho, adeusinho. Desceu a escada. No portal gritou para cima: e obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.
Não dormiu toda a noite. Uma turbulência de ideias desencontradas agitava-a. Havia dentro dela alguma coisa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cérebro e do seu coração. Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, enquanto, na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azuis, de merino, ricos lenços de seda com ramos, uma sombrinha e anéis, alguma coisa como uma opulência. A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes, com botas de biqueira. E mirava-se no espelho, embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surpreendia-se a murmurar baixinho. O meu João». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Tudo quanto é bom acaba. A gente fala, fala..., um dia chega. E dava suspiros. Carolina conhecia-a»


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«(…) Uma filarmónica sentia-se ao longe. Corriam. Era a procissão. À frente um marceneiro espadaúdo trazia o pendão, pomposo na sua capa de seda vermelha. Virgens de branco, rosas na cabeça, tipos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente, acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno trazia a imagem, cheia de flores de papel. Carolina com a garibaldi melhor, uma rede de contas nos cabelos ruivos, fora também à festa. O coveiro embebedava-se em casa do Pescada, com a barba feita, o seu carão anguloso e miserável, inerte sob as abas de um chapéu de Braga. Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco apetite da sua carne anémica, feminil e débil. E fora ao cemitério espairecer um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia Palma.
A senhora Marcelina, que fora ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e consertava cadeiras, tinha prometido a Carolina ir lá ter com ela mais a mulata, que saíra do hospital havia uma semana e lhe estava devendo coisa de quatro moedas. A Marcelina morava no pátio também, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia dúzia de lenços, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dores com olhos de vidro, mesmo viva, a olhar para uma pessoa. E falava-se: que havia papéis, uma panela de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas cómodas, que tinham pertencido à irmã do padre Anselmo. Marcelina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e roxo de hemorróida, feridas na perna emplastada, anéis pelos dedos e o vozeirão de um quartel-mestre saindo do capote d'alcoviteira. A sua história apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital e na Rua das Atafonas. De resto encontrara o padre Anselmo capelão da Guia e tomara-lhe amizade. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de Inverno, beberricava-lhe um quase-nada, ratão, pregando belas peças; manhã cedo, ela ainda na cama, e vinha ele da missa, descobria-a zás, uma palmada. E morrera.
Tudo quanto é bom acaba. A gente fala, fala..., um dia chega. E dava suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcelina corria a vidraça e vinha, de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradável; um dente trôpego, único e esquecido, esverdinhava-lhe na boca desmobilizara; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova, eléctrica, sob as festas do dono. Era-lhe demais a mais muito obrigada... De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguém dizia que ela escapava, a senhora Marcelina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletária. Havia dois anos. Mas não se davam muito; a Marcelina era mais das outras em frente, falava com elas de janela para janela, grossos risos e pesadas graças. E ratona, então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além disso andava sempre ocupada na vida, uma azáfama, xale traçado e sapato d'ourelo, a massa dos seios papuda e molemente batida por mais de meio século, arrotos estrondosos...
Saíam de casa dela pessoas lúgubres, de uma vez a polícia fora ali. Enfim, falavam-se coisas, ela sabia de facadas, e Carolina ouvia dizer isto, arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptível experimentara horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcelina estava à janela; falaram-se, como estava, como não estava, o pai como ia e que ela ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de boca, uma canseira, uma canseira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomando poses caras com a fortuna, mas o fastio era grande, aflições por dentro... O pior eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai!, dizia, quem tem mazela, tudo lhe dá nela. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as criaturas sérias como Carolina; nunca fora de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com o seu ovo; tudo lhe fazia mal. É caruncho, é caruncho, comentava. E convidara Carolina a entrar, descansar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores, minha rica mãe do céu!
Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridade da outra. A senhora Marcelina olhava para ela de face. E largou daí a nada este dito: há de ser um peixão! E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcelina fazia-lhe um ramilhete de rosas. Dali a nada veio a mulata, encostada às paredes, um rolo enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro mal morto, um cheiro a cigarro e a cânfora. Mas foi-se logo encostar. Com o tempo húmido, tinha dores do diabo nos ossos. Desejaria morrer já, raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras comovidas; que aquilo não havia de ser nada, em o tempo limpar já a coisa era outra, que tivesse paciência, coitadinha que tivesse paciência». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E todo o mundo ria à sua pândega, a fazer arraial com grossas piadas cruas de taberna e de oficina»


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«(…) Carolina recuava, humilhada e cheia de vergonha. E, sem uma palavra deitava a correr para a mansarda, subia a escada sem parar, fechava-se por dentro, e atirando-se para cima do leito desatava a soluçar sem remédio a desconsolação daquela vida, que flutuava sem linha de conduta. O candeeiro apagava-se no alongamento da noite. Das torres da Estrela uma badalada caía sobre a cidade adormecida, a vibração enorme alongava-se num círculo infinito... E, no silêncio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que dançavam fantasmas sardónicos com a cara do aprendiz. Era a tarde da nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenara, o céu não tinha nuvens e no azul espiritualizado os voos brancos dos pombos davam uma inocência casta ao ambiente. Havia arraial nessa tarde. A procissão, saída da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e verdores de buxo, devia entrar na capela do cemitério, à noitinha, no meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléu curioso. Na esplanada que vai terminar à porta dos Prazeres, as pequenas barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engomadas, olheiras fundas, com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nus, refogavam mexilhão, vermelhas de calor; em torno os soldados passavam, de chibata, rostos vulgares e bestiais, dilatados em risos enormes; e, abanando-se, diziam brutezas às pequenas ovarinas sujas. Na confusão dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando olhares famintos sobre os bolos secos das vendedeiras ambulantes, e de passagem pediam cinco réis. Aqui e além viam-se sobre a relva, petiscando, famílias de operários, pequenas louras e limpas, tipos de costureiras futuras, traços finos, cismadores e delicados. Os vadios esqueléticos, de calções em frangalhos, apregoavam água.
No ar os ruídos multíplices abafavam-se uns aos outros, e das contínuas pulsações resultantes elevava-se um ruído uniforme e indistinto, como de ebulição longínqua. Os municipais da patrulha iam atravessando devagar, nos seus cavalos negros, e os capacetes esguios, de cuja crista jorrava a branca cabeleira dos penachos de linho, salpicavam de originalidade e paisagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-nos suspirando. O ruído crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate no silêncio do rio, e o poente inflamado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemitério o mesmo movimento de quem ia e vinha. Pessoas abastecidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capelistas de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando, as inscrições tumulares. Admirava-se o mármore, as fachadas. Os pequenos, vagarosos, colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das rótulas, o interior dos jazigos, a ver quem tinha berloques de contas e figuras bordadas de lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos calosas descansavam na borda dos pedestais, tasquinhando as suas merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saúde aos compadres. E todo o mundo ria à sua pândega, a fazer arraial com grossas piadas cruas de taberna e de oficina.
As mulheres, de vestidos de merino, com folhos, mantas de lã com borlas caídas atrás, xaile bem dobrado no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de passagem, eram os mais originais e contrastantes. Veteranos procuravam o túmulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a atitude fera da estátua. Portugal velho!, comentavam. Ele e o Saldanha!... E familiares, um clarão purpúreo na face: O nosso velho!, diziam. No dezanove de Maio... E outros queriam ver o túmulo do Palmela. Uma velha de Aveiro ouvira dizer na terra que era obra famosa. Alguém explicava as riquezas do duque, as suas quintas, dois contos diários de rendimento; a duquesa era bonita, e um pouco gorda; ele tinha sido da Marinha. De resto, boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na Sé para os pobres e sustentavam asilos. E iam semeando o chão de espinhas de peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas estrondeavam foguetes». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E alguém, dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas»

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(…) Era já noite, muitas vezes, quando ia só para casa, fora do cemitério. O pai ficava embrulhado num cobertor com um gorro de lã preta, por cujos rasgões lhe furavam os cabelos; deitava-se no côncavo de algum velho túmulo vazio; se caía geada, erguia a tampa de um jazigo de família para ir estender-se nas gavetas, entre caixões de chumbo. Já estava acostumado àquela folia, e depois, assim, não dormia as manhãs na cama, e podia começar cedo o trabalho, regando logo de madrugada os canteiros dos túmulos das famílias que lhe pagavam esse trabalho, varrendo dos pedestais as folhas secas que o vento despregava dos ramos, e alta noite, com passadas lentas e lúgubres, nas trágicas encruzilhadas dos ciprestes, reanimando ou acendendo, com o rolo metido nos dedos, as lâmpadas extintas pelas lufadas do nordeste. Nem uma vez se lembrou de Carolina que ficava de noite, na cidade, separada dele, a sua filha, entregue à leviandade dos seus quinze e aos furores de coração de um aprendiz de marceneiro que a perseguia, preso de maus instintos. Carolina era branca, delicada e nervosa; o seu sangue tinha originalidades singulares, inquietações de luta e o furor da aventura, e do seu seio dimanava essa ânsia ardente de que se fazem os gozos, ansiava como uma sede antiga. Dormiam numa casita arruinada e miseranda, oculta no fundo de um pátio sem luz de lampião, para onde abriam as janelas de tabuinhas de casas suspeitas, em que marinheiros tocavam guitarra. A história das suas exaltações enraizava também, como uma hera, naquelas más janelas, pelas noites escuras de Verão, quando, encostada ao peitoril da janela, escutava altercações, descantes e venalidades, na confidência de carroceiros. Nestas disputas Carolina entrevia uma coisa, que se apoderava rapidamente do seu organismo, enroscando-se-lhe no corpo como serpente com frio, amarrotando e poluindo no amplexo alguma, ainda que pouca, dessa adorável modéstia que é o tesouro das mulheres honestas. Viam-na de manhã, quando saía, dar bons-dias à vizinhança e sorrir às pecadoras mendigas, que nas tabernas jantavam gravanzos por qualquer pataco, ter com elas palestras. Desassombradamente olhava para os homens, tinha desdéns para uma ordem de gente e criara predilecções pelos louros; nos seus trapos escolhia sempre cores que dessem na vista; e, calculista, com o olho febril, arquitectava aventuras: seria de noite, uma chuva miúda peneirar-se-ia do alto, sobre as calçadas; fugiria embrulhada no xalito com um louro... Hem? Da janela da sua mansarda, empinada sobre um banco de pinho, podia ver o que se passava na alcova de um pobre bordel carairo. Apagava a luz para não ser vista, subia ao banco, encostada à janela; e ali, durante horas, passava a espreitar o que fazia a vizinhança. Cenas equívocas desenrolavam-se por lá. Era tão curioso! A nudez impura dos contactos fazia-lhe regurgitar de dentro uma seiva cuja plenitude a estonteava. Era a febre do sangue inficionado pelos microzimas do vício e o desejo de cadela nubente que uma força espicaça de irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquilo vinha-lhe às ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitários. Coroas de padres esverdeados mostravam-se à luz de candeeiros de petróleo; no espelhinho dos toucadores das cómodas reflectiam-se grupos sombrios, estranhas fantasias das encarnações de Vixnu. E alguém, dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas. Toasts desbragados expluíam claramente. As vozes das mulheres guinchavam. Alguém rolava pelo sobrado e rimas de pratos caíam, com estrondo, em migalhas, no meio de pragas de raios de uma vez, tresloucada, descera à rua. Domingos de Inverno. A noite lôbrega alonga-se. Alguém gritava, Jornal da Noite, traz a lista de Espanha! O frio penetrava as carnes. Carolina tremia, lábios secos, uma aflição enorme subindo-lhe do estômago. Não sabia para onde ir. Quereria as coisas mais violentas, amplexos de ferro, beijos de lava, o vasto oceano de um amor sem fim e sem felicidade. Mas o aprendiz de marceneiro, um rapaz atlético e sanguíneo, apetites excêntricos, saía da oficina, dava com ela, aproximava-se com uma piada...» In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Às vezes, eram rapazes de quinze a vinte anos que jaziam. Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na ânsia de um desejo que jamais formulara»

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(…) Uma tarde, passeando na grande rua que corre ao longo da fachada do cemitério, tinha parado a contemplar, no alto de um pedestal glorioso, a estátua do conde das Antas. E falava, ainda, nos seus últimos dias, daquela enérgica figura de soldado, grande barba sobre o peito e cabeça de um vigor leonino, a mão apertando o punho da espada... e, desde então, a sua ânsia pedia-lhe militares, que arrastam nas ruas os sabres prateados e destacam, na agitação dos enterros, dentre os graves toilettes negros com a alegria embriagadora dos seus vivos rutilantes e das suas divisas sanguíneas, cor dos desejos insaciáveis. Nos seus devaneios passavam pálidas figuras de alferes, dos que tilintam esporas no lajedo dos passeios e retorcem bigodes frisados, contemplando as janelas, em domingos de procissão. Todos os dias visitava a casa das observações: ali, sobre bancas, expunham-se caixões abertos; ela mesma metia nas mãos dos mortos as argolas de alarme, e tal emprego quotidiano permitia-lhe ver gentes de todas as castas e profissões. Meninas ricas, filhas de milionários e nascidas entre veludos, áureas meninices em berços de renda, acalentadas por amas normandas de cachos louros, iam ali dormindo nos seus caixões de cetim, vítimas de tísica galopante, olhos vítreos e face cavada, lábios brancos em listras lívidas e o gelado sorriso dos mártires, clareando em reflexos os rostos, de uma rigidez de escultura. Rapazes pobres, dos que ao clarão das forjas crestaram a vida, figuras secas de famintos, torciam nos rostos expressões de sofrer infernal e gelavam-se na nudez miseranda da morte, ao lado de reverendos, com a barba bem feita, a batina nova e grave, quebrada em pregas simétricas, finas camisas de bretanha, tiras de folhos e sapatos de fivela, cingindo, à força de apertadas com uma fita contra o peito, cruzes de marfim bento, símbolo de uma fé que nunca os caracterizou na vida. E os grandes devassos, os magros adúlteros que nos foyers das óperas e nos camarins das cantoras, nas casas de batota e nas alcovas fáceis fazem pública a sua dissolução e desonra, vinham também, diante da pequena, exibir a última elegância. Carolina, pelo número e aspecto dos convidados de um enterro, chegara à perfeição de fixar a posição social de qualquer defunto.
Os conselheiros reuniam graves figuras circunspectas de velhotes de luva preta e grandes pés, folgados em botas macias. Os condes faziam-se acompanhar dos coches da casa real, riqueza oxidada e rota, em que se sentiam os anos, os ratos e o óleo dos cabelos reais. Os escritores arrastavam figuras chupadas, de luneta, vastas cabeleiras polvilhadas de caspa, expectoração de discursos com gestos amplos e eloquência estrondosa. Conhecia o bombeiro, o polícia, o correio e juiz de irmandade. E odiava quem vinha só para entrar na cova, os que embarcavam para o outro mundo sem deixar, na gare, alguns amigos da infância, ou herdeiros de guardar conveniências. Ouvia nesses momentos dizer ao pai: súcia de vadios! Quando tinha de abrir cova sem receber gorjeta. E aprendera a dizer com ele esta frase profunda: até morrem pelo amor de Deus; cambada! Havendo enterro grande, punha uma garihaldi vermelha, azeite nos cabelos ruivos, sapatos de duraque preto, sem tacões e chatos como linguados. Toda risonha, ajoelhava na passagem do préstito, movendo os lábios como quem reza. Depois, na volta: uma esmolinha por aquela alma de Deus! E comprava pevides, amendoim torrado e alféloa, à tia Palma, uma de capote verde, sem um olho, que vinha vender à porta, num tabuleiro velho, secas gulodices de arraial. O que a abalava era aquela vida na casa das observações. Olhava já sem terror os cadáveres, como se fossem pessoas adormecidas no mesmo quarto, cada qual na sua maca de estalagem. Os homens, sobretudo. Alguns eram ainda novos, louros, pálidos e bem-feitos; alguns, ricos, tinham a pele fina, de um contacto cetinoso e bom.
Nas horas de calor, de Verão, quando sob os ciprestes os empregados do cemitério dormiam, ia devagarinho, sem ser pressentida, à casa dos depósitos, escolhia os cadáveres dos moços, dos belos, se os havia, e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; metia a mão devagarinho pelo peito, metia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer; o olhar dilatava-se-lhe, havia na sua face uma mancha de excitação, mordia os lábios, exaltada; e, palpando, estudando, compreendendo e adivinhando, ficava absorta, um pouco curvada sobre os corpos, o hálito ardente, uma palpitação larga e cheia de ímpeto. A sua imaginação rasgava as névoas indecisas que, diante da inteligente maldade, a sua inexperiência despregava como uma máscara casta e límpida cheia de placidez. Estas explorações fizeram-na muito cedo mulher, preparando-a a compreender mistérios e umas meias frases que ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ela. Às vezes, eram rapazes de quinze a vinte anos que jaziam. Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na ânsia de um desejo que jamais formulara.
Duma vez tinha beijado sôfrega uma cara, com balbuciações aflitas, ardendo em pecado, como uma alma de réprobo. Não conhecera mãe, nunca uma boa mulher a beijara e o coveiro não reprimia diante da filha as suas expansões brutais. Entregue a si própria, chamuscada por carícias pérfidas de homens entregues à rota corrente da sua bestialidade, fizera-se nisto. Havia no entanto dentro dela, ainda, uma coisa ideal e inexplicável, certa virgindade infantil: de noite rezava! Vinham-lhe tristezas íntimas, a insónia triturava-lhe por vezes a saúde como num almofariz de bronze. Sem saber porquê, era desgraçada. Desejaria ser como uma pequena que vira um dia costurando à porta de uma carvoaria, com uma rosa nas tranças. Mas, de súbito, alguma coisa a arremessava à lembrança condenada dos homens adormecidos na casa das observações, e via-os surgir das suas mortalhas alinhavadas, sorrindo, com vida; estendiam os braços a procurá-la; roídos de vermes, muitos vinham, como na dança do Roberto, roçar-lhe pelos quadris os membros esquálidos e podres. E estonteada, fitando no vácuo aquela visão candente, miserável nos seus quinze anos, sentava-se, extenuada e languescida, à sombra dos ciprestes anosos e dos túmulos soberbos, com a cabeça aos baques, revolta a alma por criminosas comoções». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E, com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como o grito do estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com círculos de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçá-lo com uma chufa. Blasfemava-se…»

jdact

Contos. A Ruiva
«(…) Tentava caminhar; a sua sombra oscilava, amplificada na parede, como a de um antediluviano fenomenal, e quase se não compreendia bem como aquela coisa era um homem. Arrastou-se custosamente para um canto; ao passar por Zé Claudino tomou-lhe o copo, levou à boca o vinho e esteve bebendo devagar. As gotas, de um roxo sujo, caíam-lhe pelas barbas. O nó da garganta subia-lhe e descia com vagarosos movimentos de embalo no cilindro de uma bomba. Pousou o copo com ruído, com a manga da jaqueta limpou os beiços. E a filha?, perguntaram-lhe. A Ruiva... O tempo tem estado famoso para doentes. Um sol quentinho que é um forno. Do fundo, alguém disse para Zé Claudino: A Ruiva ainda é viva? E o trolha, curioso: Não era essa que deitava sangue pela boca? Na tenda do Malaquias vi eu..., foi pelo Santo Amaro, faz agora anos... Mas cada um procurava informar-se: Uma gaja de granha encarnada, um sinalzinho de cabelos no pescoço... O quê? Era filha daquilo? E apontava o coveiro. Bem sei, diziam; que peça! A que estava com o Nicolas das seges d’enterro. Contem-me cá quem isso era. Bêbeda como ratos! Ora esperem. Ela era também da súcia da Panasqueira. Lembras-te, Zé Claudino? Bons tempos, fez o interrogado do fundo da sua saudade dissoluta, aquela noite no palheiro do Panelas. Vinte raparigas dos casais, todas pimponas, vieram dormir à granja. Alta noite, piscava o olho, alta noite... Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva também era... Uma mulher dos diabos! Enfezadita dos nervos, mas coragem que tinha diabo. Quando ela se deitou ao Nicolau, aquela vez pelo Entrudo, além ao Quintalinho! Prega-lhe duas taponas, que nem eu sei como o não virou! O coveiro olhava, sem compreender, um pasmo idiota na face. Na penumbra da taberna, aquele asqueroso vulto tinha uma expressão rembrandtesca e crua, que fazia medo. O deboche nunca se concentrara tanto, podia-se jurar. Mas, tio Farrusco, a Ruiva vai melhor, hem? Melhor, melhor..., gaguejou ele. Esta manhã via-a estar dormindo..., mais branca! Pagas cambrainha, ó tirano? Uma pessoa, cos diabos, gosta de molhar a palavra. Quero lá saber!... Tentava apoiar-se na banca, com as duas mãos trémulas. Ouviam-no cantarolar baixo, babando-se: foi fazer uma caçada A serra de Montalvão! Aguardente.
E, com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como o grito do estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com círculos de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçá-lo com uma chufa. Blasfemava-se, em voz alta, uma riqueza inultrapassável de obscenidades. A minha filha, resmungou o tio Farrusco. Querem saber da minha filha, da Ruiva... Súcia de tarimbeiros!... Foi fazer uma caçada A serra... Ainda hoje o Nicolau, que atira à vala as reses que se abatem no hospital, me disse que a trazia ali. É boa! Se eu bem vi o saco..., e cosido que ele vinha. A Ruiva em postas! Ria-se. Caíra tudo num silêncio álgido. Calou-se, e depois: Também eu hei de morrer. Quero lá saber nada daquela grande velhaca! Vamos, disse eu. Há uma coisa pior que um cão danado: é um coveiro bêbedo. E saí. Um dia antes, o meu escalpelo penetrara o corpo dessa perdida criatura, que veio a fornecer subsídios notáveis à minha tese inaugural. Inquiri pormenores. Disseram-me que o tio Farrusco fora casado com uma vendedeira, a Marta, muito conhecida por Buenos Aires. Soube-se depois que as hortaliças que esta mulher vendia eram pelo marido plantadas no cemitério, para lá da vala e longe das vistas dos indiscretos, hortaliças que com o tempo e o belo tempero da terra adquiriam grande desenvolvimento. Se lhas gabavam, Marta retorquia: Ai!, bom dinheiro custam, freguesa. Vêm todas as manhãs de Odivelas, uma estopada que eu sei!... E explicava que um cunhado, da quinta do senhor marquês de Borba, tinha seu vintém e um bocadinho de terra.
É no Alto de S. João que se sepultam os cadáveres do hospital; para o nosso caso, porém, isso não importa onde se faziam os belos nabos e aquelas lombardas folhudas. Caro, tudo pelas últimas, dizia pondo a sogra, os cordões a luzir no peito. Carolina nasceu no dia da morte da mãe. Até ali, o coveiro vivera sem misérias, mas, morta a mulher, descobriu-se donde vinham as couves e ninguém mais lhas comprou. Não se sabe como a pequena se criara, mas aos doze anos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos. E, sem consciência do que via, acompanhava o pai na sinistra ocupação de sepultar os mortos. Assim crescera. Naquela miseranda existência entrara a criar predileções. Começou a amar principalmente os mortos que paravam à porta do cemitério em ricas berlindas douradas, entre filas de gatos-pingados lúgubres, de tochas acesas, e puxadas por seis parelhas cobertas de crepes. Visitava-os na casa das observações, acocorada a um canto, com o olhar absorto, durante as vinte e quatro horas que os caixões ali passavam abertos, e onde contemplava, deitados na pétrea imobilidade derradeira, os que na sua vaidade egoísta, corruptos e miasmáticos, iam habitar em sepulcros de mármore, com figuras sentimentais na fachada e pomposas inscrições nas lápides. Pode dizer-se que aprendeu a ler no cemitério, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições ocupadas no mundo pelos que habitavam aquela branca cidade de mármores, de que se julgava rainha». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Arte. Crítica e Sociedade na Obra de Fialho Almeida. Maria Inês Rodrigues. «A instrução secundária do meu país [...] e cansaços de encéfalo, que mais tarde nos faziam entrar na escola superior, cabisbaixos e desinteressados das questões»

Cortesia de mirodrigues

As Máscaras de Fialho de Almeida. Personalidade e Vivências
«Existem vidas fáceis e existem vidas das quais é difícil falar. E existem aquelas das quais é impossível escapar. A de Fialho de Almeida é, sem dúvida, um destes últimos singulares casos. Poderia facilmente supor-se que uma biografia do escritor seria desnecessária para este trabalho, ou porque esta estaria já suficientemente estudada ou porque os pormenores pessoais da vida de um escritor não contribuem de forma definitiva para a interpretação da sua obra. No caso específico de Fialho de Almeida, no entanto, arrolamo-nos o direito de o fazer. A personalidade complexa e fugidia deste homem assim o exige, até porque não deixando de realçar aqui os inúmeros estudos académicos dedicados ao autor, a verdade é que o assunto não se esgota e continua a ser importante dedicar um estudo mais exaustivo à vida de Fialho, que nós aqui, por ser outro o nosso centro de interesse, não vamos fazer. Decidimos, falar da sua vida e não porque seja nosso desejo invadir a privacidade do escritor ou a partir dela emitir juízos de valor, mas porque neste caso a sua vida interferiu directamente e de forma significativa na sua obra. Mais, muito poucos escritores viram as circunstâncias da sua vida particular condicionar negativamente a leitura da obra, como foi o caso de Fialho. O escritor nasceu em Vila de Frades, corria o ano de 1857 e cedo o pai, mestre-escola, o envia para Lisboa, para estudar no Colégio Europeu, experiência que o marcará para toda a vida e que relatará na primeira pessoa da célebre Autobiografia - Eu. No texto, que abre o volume À Esquina (publicado originalmente em 1900), relembra aquele período como tendo sido cinco anos de privações e de maus tratos.
Esta fase da sua vida acaba por influenciar a opinião negativa com que, depois, passa a olhar o ensino em Portugal, um dos muitos centros de interesse (para não dizer alvos) que ocupam a sua mente, a par da política, da crise moral e de costumes e da Arte em geral. Diz, a propósito da educação, no segundo volume d’ Os Gatos e responsabilizando-a pela fraqueza e inércia dos jovens, que: A instrução secundária do meu país [...] lá continua a proporcionar-lhes martírio idêntico aos inolvidáveis que eu sofri, e cansaços de encéfalo, que mais tarde nos faziam entrar na escola superior, cabisbaixos e desinteressados das questões. Este ponto, muito de cariz autobiográfico, vai regressar a espaços intermitentes, ao longo de toda a sua obra, em crónicas, contos e críticas ferozes. Neste mesmo texto, Fialho dá-nos a conhecer um pouco mais do que foi o seu dia-a-dia na escola alemã, onde nas aulas, quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo, dos venenos epidérmicos e pulmonares em exalação.
Durante a estada no colégio, a condição financeira dos seus pais, ao invés de estabilizar, piora, e por isso, cinco anos volvidos, em 1871, Fialho sai do internato e emprega-se numa botica, a Farmácia do Altinho, uma botica que era a projecção agravada da existência do colégio, com uma enclausura mais rude, uma fadiga física mais forte, e piorias consideráveis de tratamento e convívio. Foi neste lugar que o escritor, pela primeira vez, se plantou no corpo e no espírito de Fialho, o próprio o confessa na Autobiografia, e os primeiros escritos foram publicados aqui e ali, em vários jornais de província. Primeiro no A Correspondência de Leiria e n’ A Liberdade, em Viseu, mais tarde, em Barcelos, no Aurora do Cávado e por aí em diante, conforme nos elucida Costa Pimpão, no fundamental e mais extenso estudo biográfico alguma vez dedicado ao artista, Fialho. I. Introdução ao estudo da sua estética (1945). Em 1875, o escritor retoma os estudos e conclui os preparatórios com o intuito de depois cursar Medicina e a verdade é que no ano seguinte, encontra-se já matriculado na Escola Politécnica. Entretanto, e por ocasião da morte do pai, interrompe o seu percurso académico e regressa à aldeia natal, onde permanece durante uns tempos para ajudar a família. Não conseguindo manter-se, por muito tempo, afastado de Lisboa, acaba por voltar à capital em 1878 e inscreve-se na Escola Médica. Exercer Medicina acaba por fazê-lo, mas apenas acidentalmente. Contudo, continuou sempre a demonstrar interesse pela área através não só dos seus escritos mas também pela defesa que faz da campanha eugénica, emergente na altura, embora Costa Pimpão não arrisque classificá-lo como eugenista. A verdade é que diagnosticar doenças, só o fez relativamente à sociedade portuguesa do final do século XIX». In Maria Inês Birrento Nascimento Rodrigues, Arte. Crítica e Sociedade na Obra de Fialho Almeida, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Que é lá isso, patego? O seu olho envidraçado não podia fitar; os fios de baba desciam-lhe, lentos, aos cantos da boca. Olá!, fez o cabouqueiro, a maré encheu. E sacudia-o. Mais bêbedo é você, grande cavalgadura!»

jdact e wikipedia

Contos. A Ruiva
«A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sítio, especialmente de noite, à hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruído. Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a fachada opulenta da gélida cidade de cadáveres; na planura que medeia entre o cemitério e as terras, o terreno via-se revolto; os carros de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miúdas e de argamassas antigas tornavam penoso o trânsito. Na lama constante do caminho, eram profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até à porta do cemitério, escancarada sempre, como a goela de um plesiossauro faminto. Em anoitecendo, tudo aquilo era de uma contemplação lúgubre e misteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas; o ladrar dos cães tinha um eco desolado, que tornava depois mais sinistro o silêncio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos ciprestes e dos túmulos, diante de um santuário deserto, onde o Cristo, do alto, olhava vagamente o guarda-vento. Começavam então a chegar à tasca os guardas encanecidos no mester de receber enterros, graves nos seus uniformes fatídicos, os coveiros angulosos e vesgos lançando-se de si um fétido deletério; e cada um, dando boas-noites à tia Laureana, ia sentar-se à banca, no seu lugar, chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa se enchia e o aspecto era sempre o mesmo.
Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Laureana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pastéis de bacalhau, e pernas másculas saindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto o cego de chapeirão derrubado, atitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao ombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas, junto da porta, discutia o preço das couves e o número de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua autoridade indiscutível de orador popular fazia-lhe cair dos lábios, como um rosário de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poéticas, em misto turbulento e inteligente. Bêbedos extraordinários falam de tudo e descrevem parábolas no solo, com a sombra dos seus corpos embrutecidos. Dois ou três embirram com a sombra. Mete-te comigo, resmungam; cai nessa, minha tirana! A velhaca, comentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atrás. Mas não me larga! Bêbeda! Era o que me faltava! Súcia de marmanjos! E, insistentes, aos ziguezagues: Persegue-me, anda, persegue-me, que levas dois butes. Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso não digo eu... Que ele há um Deus que nos governa: é boa! Eu entrava, cumprimentando os velhos conhecimentos. Ditosos olhos, estudantinho!, dizia um. Ó seu casaca!, fazia outro.
Seja bem aparecido e pague-me dois dedos de marujo. Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicário experiente, tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo: Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco; que é uma reinação! Com um pastelinho, não lhe conto nada... Aqueles eram os meus amigos, perigosos amigos contraídos na intimidade do vício e no surdo deboche das tascas. Sentava-me. A Laureana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, apetecia os meus cabelos de um louro-claro, tons insípidos, sob as abas do chapéu esburacado. O seu hálito empestava a dez passos, trazido nas asas do seu amor quente e brutal, de uma infâmia cheia de mercancia. Ouvindo-me pedir qualquer coisa, o olhar adoçava-se-lhe como o dessas gatas a quem coçamos o crânio; e eu sentia exalar-se dela um fartum de gorduras fundidas, que me perturbava. Nessa noite chegou o tio Farrusco. Era coveiro e o mais asqueroso, o da vala; aspecto repelente, perfil áspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas, cheias de terra e de cabelos.
Sobre a testa, de uma polegada de largo, caíam grenhas fermentadas; as orelhas desapareciam-lhe sob a lã sebácea de um barrete cinzento; por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabelos hirsutos, brancos como um pé de junco seco, nascido entre as pedras de um muro arruinado de azenha decrépita. Quase lhe ficavam pelas esquinas a que se encostava os farrapos em que embrulhava o corpo esquelético e lustroso, como de couro curtido. Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no ombro: Tio Farrusco! O outro tentou aprumar a estatura lassa na moleza da embriaguez, e resmungou: Que é lá isso, patego? O seu olho envidraçado não podia fitar; os fios de baba desciam-lhe, lentos, aos cantos da boca. Olá!, fez o cabouqueiro, a maré encheu. E sacudia-o. Mais bêbedo é você, grande cavalgadura!» In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado. Fialho de Almeida. «Vinha adiante um monte de figuras, que me disseram ser os guarda-roupas, os moços de câmara, particulares e reposteiros, com brandões que derretiam de lado, ao revolutear dos fogachos…»

Cortesia de wikipedia

O seu enterro
«(…) Aos conselhos de um grande homem d'Estado que o adorava, deveu ele o levantar o respeito de si próprio à altura de uma força inexpugnável, e o desprezo pelos outros à categoria dum lema governativo, iniludível, o todo involucrado em tais formulas d'afectuosidade e deferência, que mesmo nas suas crises violentas de carácter, jamais alguém viu um tic que atraiçoar pudesse os exteriores da mais correcta impersonalidade. Poucos monarcas haverão seguido mais ao rigor as praxesconstitucionais, que fazem do rei um ídolo de barro, omnipotente e inútil, sagrado e subalterno, investido de poderes platónicos, quase sem responsabilidade nem exercício, assinando de cruz, discursando d'ouvido, e fazendo por toda a parte a caricatura dum Deus contemporâneo, dum Deus de Roma, que fala aos pecadores pela boca dos seus padres, e nem sequer é responsável pelas calamidades que eles acarretam.
Sabendo o preço de todos aqueles que o cercavam, e adivinhando pelos sarilhos jornalísticos ou parlamentares dos que ainda vinham de longe, aproximadamente o que esses lhe viriam a custar, era exímio em receber-lhes os botes impassível, té ao momento em que o inimigo se lhe tornasse perigoso ou necessário, e urgisse, para montá-lo manso, cingir-lhe ao dorso uma vistosa albarda de ministro. Das três geringonças políticas sobre que assenta a constituição do Estado, a representação popular, a coroa e a câmara alta, todas ele pesou na sua clara sagacidade d'alentejano e d'alemão, loiro e sabido.
Posto o seu conhecimento da subserviência e da torpeza dos homens, posto o inabalável conceito em que se tinha, a sua conduta de rei salta de chofre: fazer das duas câmaras rodados para o trono, atrelar-lhe os ministros como bridões esparvonados, e guiar ele mesmo o carro sozinho, mas sans en avoir l'air, e conservando aos cavalos a ilusão de serem eles os cocheiros.
Segunda-feira 21 d'Outubro, pelas 10 horas da noite, foi o cadáver do rei trazido da alcova mortuária de Cascais para o grande coche que devia arrastá-lo até aos Jerónimos. Estava uma noite escura e tormentosa, com ventania e chuviscos; por forma que a abalada da cidadela, à luz dos brandões e dos archotes, foi uma destas grandes pinturas a dois tons, negro e vermelho, magníficas para gravar no espírito a nota fúnebre, e para trazer a emotividade pública à suasão óptica duma espécie de catástrofe irreparável. Saído da câmara ardente, o cortejo desceu as escadas que vêm da bateria ao pátio da cidadela, desenrolando-se lentamente, em silhouettestenebrosas, sobre o fundo da muralha lambida pelo sanguino de chama dos luzeiros.
Vinha adiante um monte de figuras, que me disseram ser os guarda-roupas, os moços de câmara, particulares e reposteiros, com brandões que derretiam de lado, ao revolutear dos fogachos torcidos pelas inquietações da ventania; e logo após o grande vulto da tumba coberta de veludo roçagante, e trazida em padiola por archeiros fardados de vermelho e d'amarelo. Aquele enorme caixão vinha sem pressa, e d'onde eu estava, parecia que alguém por detrás se lhe tinha agarrado à cabeceira, como quem se abraça, desesperado, a uma jangada que vem de rustilhão, por uma cheia. Era a rainha.
Grande e de negro, com uma cauda de lástima e um grande véu de musa de tragédia, essa mulher tinha no porte a formidável rigidez com que a dor cadaveriza o orgulho humano, e esse prestígio hierárquico, amplíssimo, grandioso, que mesmo aos cépticos se impõe como um retoque de Deus, sagrando as castas predestinadas a eternamente intervir nos destinos dos homens e das nações. Ao lado o infante, o filho amado, o querido Sabóia, o mais que todo real e galhardo gentil-homem da família, esse de roda a cuja impetuosa mocidade, franqueza rude e limpidez serena de carácter, todas as simpatias acordam, como em presença duma figura deserdada por engano cronológico, da forma política de ser rei... E vêm depois ministros, açafatas, padres, gentis-homens; aquilo tudo espalha-se com atitudes fantasmáticas no pátio, num circuito piedoso que é todo um drama de tinta da China e vermelhão, à luz das tochas, quando devagar um coche avança, os padres se achegam murmurando as encomendações do ritual, e o ataúde entra por fim dentro do carro, no meio da estrupida da cavalaria que se põe a caminho, pela estrada de Lisboa, da soturnidade da noite que amadorna as alturas, da impaciência do vento que faz bruxulear as chamas dos tocheiros, e da melancolia do oceano, fosforescente, ali perto, a cantochar o salmo das grandes agonias apaziguadas enfim no seio da morte!» In Fialho de Almeida, Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado, Assírio Alvim, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-37-1441-8.

Cortesia de Assírio Alvim/JDACT

domingo, 9 de março de 2014

Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado. Fialho de Almeida. «… que teve d'abandonar o seu navio de guerra, quando uma noite, estando a jogar com camaradas, lhe vieram dizer que seu irmão, o rei, tinha morrido. Nada na sua vida de bordo atestaria as saburras selectíssimas do seu sangue, se não fora o tratamento d'alteza»

jdact e claudiamargarida

O seu enterro
«(…) E, fatalidade dum cargo que tantos invejam como supremo pináculo das grandezas da terra, fazendo trémulo àquela agonia do monarca, não há talvez uma única lágrima sincera, uma lágrima só, que evaporada deixe no cadinho outro resíduo além d'impuras coisas, ambições resvaladas, prestígios findos, favoritismos em naufrágio, lágrima que refranger pudesse a pura essência da angústia sem mistura, essa liquefacção terníssima da alma, que provocam no coração dos simples, os queridos mortos que deste mundo se vão sem blasfemar. Oh, é cruel pensar que mau grado a sincera intenção talvez de todos os comediantes daquele drama lúgubre que finda, nenhum deles possa eximir-se à suspeita de ter vindo ali chorar por parti-pris. Apenas a melancolia dum poderia mostrar-se como uma coisa isenta d'egoísmo: mas esse reviravolteava em velocípede, sobre a esplanada do paço, no dia em que os médicos tiravam das pernas de seu pai, pedaços de tecido em gangrena.
Fecha os olhos o rei, e o pano tomba sobre o quadro dos físicos que lhe agarram com pinças, sob uma chuva de fenol, na carne que vem aos bocados, e sobre que já não é possível produzir a mumificação pelos antipútridos e balsâmicos que manda a pragmática. E porque se desarma o tablado dos aparelhos fúnebres do cenotáfio, quando a carcaça do pobre literato vai engrossar o fumeiro real de S. Vicente, não se persuada o leitor que o drama finda, visto como apenas se representou ainda a primeira parte duma vibrante e grandiosa trilogia. Recompile se pode a súmula dessa primeira grande peça histórica, que teve o palácio d'Ajuda por cenário, e levou vinte e oito anos a representar em Portugal. Logo no prólogo figura um rapazola loiro e bonito, bravo e leal como um cadete, que teve d'abandonar o seu navio de guerra, quando uma noite, estando a jogar com camaradas, lhe vieram dizer que seu irmão, o rei, tinha morrido. Nada na sua vida de bordo atestaria as saburras selectíssimas do seu sangue, se não fora o tratamento d'alteza que lhe davam, tanto a sua expansiva gentileza, a cristalinidade, a graça, faziam dele um doidivanas d'escola, um jovial fellow de convés, com a paixão das viagens, do jogo, do vinho e das mulheres.
Em Angola, onde esteve aguarelando palmeiras e bebendo conhac, o governador preparou-lhe uma espécie de revolta com soldados e pretos ensaiados, persuadindo-o de ter sido ele o abafador da sedição. Ao baccarat, muita vez lhe sucedia perder tudo, e pedir dinheiro aos mais modestos guardas-marinhas que o cercavam. E quanto ao amor, o adorável rapaz tanto seguia à risca os preceitos do rei Sebastião o casto, seu parente, que até lhe imitou a aventura de que fala picarescamente o cronista: e como houvera calor nas casas da marquesa, se desceu el-rei à rua das fermosas, de quem houve moléstia. Para o trono, onde o assentou a morte dum rei que ia começar a ser funesto, ei-lo trazendo a bonomia fundamental da sua Íaça, que é uma espécie d'atrofia da vontade, complicada duma espécie de velhacaria. Entretanto a sua alegria tempera-se, a sua impetuosidade acalma-se e desse oficial de marinha pândego e sensual, dessa espécie d'edição anterior do infante Afonso, brota um personagem novo estudioso pachorrento, o céptico risonho, o grande corruptor bem humorado, que estudou nos livros a lei da reedição periódica dos caracteres, que soube amaciar as verduras juvenis pelo convívio das artes e das letras, que aprendeu a procurar nos homens a repercussão do mesmo ponto fraco, e a valer-se dele enfim para os domar sem ruído, nem aparente esforço, nem precipitações, nem compromissos». In Fialho de Almeida, Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado, Assírio Alvim, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-37-1441-8.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado. Fialho de Almeida. «Em torno à cadeira de rodas em que os lacaios passeiam da alcova para o terraço, este cadáver lúcido e nostálgico, reconstruir um drama é coisa fácil, a quem se lembrar de Frederico II d'Alemanha»

jdact e Cortesia de wikipedia

O seu enterro
«(…) Da boca dos facultativos do paço, nem uma palavra coada a tal respeito. À uma, o segredo profissional, naquela altura solene, mercê da hierarquia altíssima do enfermo, inibia-os de qualquer informação precisa ou categórica. À outra, a polícia da rainha, sobre sequestrar do paço os indiscretos, com tal arte assediava os assistentes, que lhes faria pagar com o desfavor do trono a mais ligeira indiscrição dalgum, cá fora, aos ouvidos da imprensa e da opinião. Compreende-se entanto a ansiedade geral, perante aquela misteriosa agonia passeada de palácio em palácio, quando entre os locais optimistas dos jornais do governo, e os sombrios prognósticos dos jornais da oposição, os dois jogando os dados com os últimos dias do rei, com o sentido no ganho das próximas eleições, um campo de cogitações se abria, enorme e vago, aos receios de uma súbita catástrofe que alancearia de mágoa o espírito público, ainda não preparado a ver no trono outra cabeça que a desse bonacheirão e céptico monarca Luís.
Todos à uma, incertos da duração dessa vida de rei, previam já o instante em que a paralisia das pernas lhe subisse aos braços, em que a esclerose cérebro-espinhal lhe estendesse a abolição sensorial, do ouvido aos olhos, tornando o enfermo numa espécie d'estranho morto-vivo, paralítico e cego, gastrálgico e mudo, consciente e delirante, alimentado por uma sonda, despejado das urinas por outra, parindo as fezes a ferros, lictinado, hediondo, coberto de escaras, e contaminando-se, pesadelo horrível dessa podridão vagarosa, metódica, generalizada, atrocíssima, sem pressa, em que os tecidos e os órgãos, já decompostos, ainda para assim dizer fingem ter vida, e em que a dor remorde o íntimo do ser continuamente, mil vezes mais fulgurante do que no organismo íntegro, porque o supliciado tem consciência dela, e já nem sequer pode jogar a voz p'ra se queixar!
Em torno à cadeira de rodas em que os lacaios passeiam da alcova para o terraço, este cadáver lúcido e nostálgico, reconstruir um drama é coisa fácil, a quem se lembrar de Frederico II d'Alemanha. São os velhos servidores, receosos, de perder o prestígio da corte, quando esse rei sorrir pela última vez, palidamente, às artificiosas consolações que lhe trouxerem. São os ministros, lívidos como grilhetas, e acossados como cães, num canto da antecâmara, a duvidar se acharão no carácter do rei novo, aquela amável tolerância com que sempre os recebera o rei finado. São os chefes da oposição, esfaimados por seis anos d'exílio, circunvagando de roda ao crepúsculo real as cínicas figuras, a especular com a impaciência febril do herdeiro do trono, cuja memória é boa, e fará presidente do conselho o que primeiro o tratar por majestade. É a Igreja que não quer perder o final d'acto, e a cada momento espreita à porta, impaciente, com as sagradas vestes numa trouxa, aguardando a hora em que haja de fazer engolir ao viajante o pão ázimo, como um bilhete de primeira classe, para a viagem das sibéricas neves do outro mundo. E finalmente a rainha, ia a dizer a imperatriz Frederico, soberba e escultural nas suas grandes roupas, os seus olhos d'estátua dolorosa, a palidez de Juno despenhada, arrastando-se sem forças, de sofá para sofá, lassa de vigílias sem conta, alucinada já de ciúmes sem refrigério, agarrando-se a todas as vergônteas da esperança, pedindo à ciência a ressurreição desse cadáver, prometendo a Deus magníficas oferendas; e logo renegando Deus e renegando a ciência, ao sentir as suas lástimas quebrarem-se d'encontro à mão de bronze do destino, que a relega, magnífica orgulhosa, à semi-sombra duma vida subalterna, tão asfixiadora para os predomínios teatrais da sua grande raça». In Fialho de Almeida, Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado, Assírio Alvim, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-37-1441-8.

Cortesia de AAlvim/JDACT

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado. Fialho de Almeida. «Em 19 de Outubro, pelas 11 horas e 5 minutos da manhã, morte de S. M. o rei Luí I, no palácio de Cascais. Desde muito se previa desfecho trágico à enfermidade do pobre agonizante…»

Cortesia de wikipedia

O seu enterro
«(…) De mais, V. M. já me conhece. Ora se não!... Eu era um que estava de chapéu de coco, num dos bancos do Aterro, haverá seis anos, uma tarde que V. M. passou de lunetas fumadas. Por sinal que até lhe mostrei o Diário de Notícias… tenho vinte e cinco anos de idade, lindo talhe de letra, e dês’que me meteram o ler e o escrever no corpo, ando mesmo hidrófobo por espatifar um desenvergonhado. Contrataste-me, senhor! Há em mim um sicário à altura da importância europeia de V. M., e garantias! Fui eu que atirei a bomba às janelas do rei do Porto, Correia Barros, de combinação com ele mesmo. Sou portanto um regicida com prática na província, um regicida em segunda mão, bem conservado, e podendo mostrar abonações como o primeiro. Juro que não farei questão de preço. Somente, como apesar do meu ódio, eu não quero que V. M. morra, porque enfim pode vir outro pior, combinaremos a conspirata por forma que ela revista todas as aparências de séria, sem todavia deixar d’abexigar-se por dentro, com todas as inofensividades de jocosa. Eu tenho lá em casa um revólver de níquel, muito lindo, e que é por sinal de cautchuc, onde, nos meus intervalos de facínora, uso guardar picado de Kentuky.
Se acordarmos em intrujar a Europa com a comediazinha de onde V. M. há-de sair ovante e heroicizado, pode combinar-se a coisa para os começos do Inverno, uma noite ao acabar do teatro… Eu ponho um estalo de entrudo no gatilho da arma; V. M. mete na boca um zagalote; e quando, sob um jorro eléctrico, puser o pé no estribo da carruagem, eu do lado, pif! Páf! E deito a fugir, enquanto V. M. cai nos braços dos seus oficiais, não sem primeiro entornar sobre a camisa um frasquinho de tinta carmesim. Atenta a cor da tinta, e o facto de V. M. cuspir a bala no delíquo, os médicos não se recusarão, creio eu, a jurar sobre os Evangelhos, que V. M. foi ferido… Entanto, neste tão fácil plano, só um temor me alanceia: Com a bravura que todos lhe conhecem, V. M. é capaz de morrer de susto, mesmo tendo a certeza de não ter morrido, de tiro». In Os Gatos, 31 d’Agosto de 1889.

Em 19 de Outubro, pelas 11 horas e 5 minutos da manhã, morte de S. M. o rei Luís I, no palácio de Cascais. Desde muito se previa desfecho trágico à enfermidade do pobre agonizante, cujos últimos meses foram um martírio cruel de todas as horas, quer latejando nas garras da tortura física, quer nas da intriga palaciana, de sobejo por ele adivinhada através das consolações ambíguas dos fâmulos, aborrecidos já de tantas noites perdidas ao derredor da sua paralisia. A doença do rei foi uma coisa obscura para todos, e acerca dela mil contraditórias versões, vieram correndo as folhas dos periódicos, versões, que uns atenuavam, e exageravam outros, conforme o interesse partidário ou pessoal ligado à conservação ou aniquilação do soberano». In Fialho de Almeida, Carta a D. Luís sobre as Vantagens de ser Assassinado, Assírio Alvim, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-37-1441-8.

Cortesia de Assírio Alvim/JDACT