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domingo, 27 de dezembro de 2020

A Fachada do Paço Ducal de Vila Viçosa. Vitor Serrrão. «Segundo regista uma fonte coetânea, em fim do anno de 1552 em tempo de El-Rey D. João III tem o terreiro do paço de Villa Viçosa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os arquitectos Nicolau Frias e Pero Vaz Pereira.

O Paço de Vila Viçosa, a Corte na Aldeia. Um problema de arte

«(…) A inspiração artística do prospecto é tomada seguramente maneirista, dentro dos preceitos civilistas ao italiano e em fidelidade à tratadística serliana, e remete para conhecimento, por parte dos seus responsáveis, de bons exemplos de construção aristocrática, tanto castelhana como transalpina. Apesar de a sua linguagem estilística se conformar à lição de módulos da arquitectura internacional, como aliás esclarecem as informações que nos podem ser fornecidas através da contra-prova arquivística, a cronologia da fachada ainda hoje continua a dividir a opinião dos historiadores de arte. Tem-se defendido uma cronologia temporã. Considerou o historiador de arte Rafael Moreira (e, na sua esteira, vários outros autores) que o duque Teodósio I, tendo sido indigitado como Condestável do Reino em 1535, e ao ter de negociar o casamento de sua irmã dona Isabel com o infante Duarte, irmão de João III, proveu a ampliação do velho Paço a fim de o tornar condigno para as festas que se anunciavam. Era um matrimónio prestigiante para a casa, mesmo descontando os dotes que envolvia em terras e bens, sendo portanto dessa época, segundo tal tese, a obra da imponente fachada que hoje admiramos. Ou seja, existiu um esforço de promoção da Casa de Bragança que levou Teodósio I a erguer um corpo palatino junto às casas velhas (o paço tardogótico do Reguengo), como que exorcizando a pesada memória de seu pai dom Jaime, o que tornaria Vila Viçosa o expoente urbanístico italianizado de um Renascimento de mármore. Estaríamos perante um caso ímpar de arquitectura de patrocínio aristocrático realizada no tempo de João III e de que o Paço calipolense seria o mais evoluído testemunho.

Essa opinião não é, todavia, consensual e pôde ser fundamentadamente contestada em estudos recentes, com base documental e no estudo analítico e comparatista da obra remanescente. As listas de contabilidade existente e o estudo formal da fachada, assim como a memória transcontextual que, a partir das fontes da iconografia, pode ser fixada, apontam para outra realidade. É certo que com as obras realizadas na sequência das festas de 1537 a fachada que lança para o Terreiro estava parcialmente erguida, em gosto ao romano, com dois pisos sobrepostos. Segundo regista uma fonte coetânea, em fim do anno de 1552 em tempo de El-Rey D. João III tem o terreiro do paço de Villa Viçosa de longo 66 braças e d’ancho 55. Por outro lado, o autor anónimo que descreveu as festas de 1537 refere-se à fachada existente como obra esplendorosa com suas janellas lavradas ao modo antigo romano de bases e capiteis cornigeas e outras obras romanas. Segundo Rafael Moreira, essa campanha seria da responsabilidade de Benedetto Ravena, um engenheiro militar de Carlos V que passa em 1535 por Portugal e trabalhará entretanto na fortaleza de Mazagão.

Ora sabemos pelos róis das Aposentadorias e pelas férias de pedreiros de Março de 1565 quais foram precisamente as obras custeadas pelo duque a seguir a 1537. Após o seu casamento com dona Beatriz de Lencastre, essas obras de Teodósio I foram avaliadas pelos mestres pedreiros Domingos Lourenço e Marcos Pina, e desse rol pode apurar-se com exactidão o tipo de trabalhos que se fez, tanto na fachada como em salas do paço. Pode, assim, reconstituir-se o pré-existente antes das definitivas remodelações dos anos de 1580 sob batuta de Nicolau Frias. De facto, com a governação de Teodósio I fizeram-se as primeiras obras de expansão do corpo palatino para a ala sul, excluindo-se a parte fundamental dessa ala, a torre central com o portal de serventia, e o terceiro piso da ala norte; aliás, este último ainda estava por ultimar à data em que Pier Maria Baldi desenha a fachada do paço, aquando da visita do grão-duque da Toscana Cosme Médicis em 1669. Pode saber-se, pelas contas de 1559 a 1563, que o duque iniciou o corpo do Terreiro com uma ala de dois pisos angulando com o velho paço do Reguengo, prolongando-o mais ou menos até ao lanço que integra a Sala dos Tudescos, e custeando a decoração fresquista dos salões e câmaras interiores» In Vitor Serrão, A Fachada do Paço Ducal de Vila Viçosa, Os arquitectos Nicolau Frias e Pero Vaz Pereira, O Paço de Vila Viçosa, a Corte na Aldeia. Um problema de arte, ARTIS-IHA-FLUL-Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Callipole, Revista de Cultura n.º 22, 2015.

Cortesia de Callipole/RCultura/JDACT

JDACT, Vitor Serrrão, Cultura e Conhecimento, Vila Viçosa, Alentejo,

sábado, 26 de dezembro de 2020

A Fachada do Paço Ducal de Vila Viçosa. Vitor Serrrão. «Entre as suas jóias de referência, a cidade dos mármores possui um Paço que é não só o maior e o mais importante monumento português de arquitectura civil do século XVI…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os arquitectos Nicolau Frias e Pero Vaz Pereira.

O Paço de Vila Viçosa, a Corte na Aldeia. Um problema de arte

«A candidatura de Vila Viçosa a Património da Humanidade junto das instâncias da UNESCO tem, entre as suas evidenciadas mais-valias patrimoniais, a força acrescida de incluír como peça mais aprimorada o conjunto monumental do Paço dos Duques de Bragança. Entre as suas jóias de referência, a cidade dos mármores possui um Paço que é não só o maior e o mais importante monumento português de arquitectura civil do século XVI, como um dos mais expressivos testemunhos da época maneirista, e desse gosto estilístico, a nível da Península. Essa é razão de sobra para que um processo de revalorização da cidade alentejana, como é a candidatura em curso, seja encarado com boas expectativas.  A fachada do Terreiro é de majestoso poder cenográfico, ainda que nem sempre tal tenha sido reconhecido pela historiografia que dela se ocupou. Não só a sua cenografia é grandiloquente, como o prospecto arquitectónico tem vincada erudição, mas tal nem sempre significou que sobre o edifício se lançasse o olhar analítico que merecia e impunha. O Paço Ducal, centro importante de vida literária e cultural que a fez cenário da famosa corte na aldeia de Rodrigues Lobo, é também mal conhecido no que diz respeito à génese das suas obras de construção, sendo a arquitectura da grande fachada que lança para o terreiro frequentemente considerada de época mais antiga: foi vista como tendo filiação renascentista, fruto das iniciativas do quinto titular da casa, o duque Teodósio I (1532-1563), e sequaz das linguagens classicistas do primeiro Renascimento italiano. Veremos que a tese não tem fundamentação histórico-artística.

É necessário perceber-se, antes de mais, o que foi construído no Paço de Vila Viçosa durante a segunda metade do século XVI, bem como o espírito que presidiu, ao mesmo tempo, às decorações intestinas das casas novas. A documentação abunda, e a leitura das formas artísticas permite que saibamos melhor o que persistiu das campanhas primevas iniciadas no tempo do 4º duque Jaime, e o que efectivamente lhe foi acrescentado, em monumentalidade e extensão, no tempo do sexto duque João I (1563-1583), fase em que os corpos do terreiro ducal foram concebidos e começaram a ser erigidos segundo o prospecto que remanesceu até aos nossos dias. Essa campanha maneirista concluiu a empresa ducal da fachada no tempo do sétimo duque Teodósio II (1583-1630).

Apura-se, pelo que ainda felizmente chegou aos nossos dias em termos de documentação arquivística, que coube ao arquitecto lisboeta Nicolau Frias um papel decisivo nessa concretização do plano de engrandecimento da Casa Ducal, à medida desejada dos seus interesses e estratégias políticas. Este arquitecto, ao mesmo tempo empregue por Teotónio de Bragança, arcebispo de Évora (1578-1602), na direcção das obras mais importantes da sua arquidiocese, vai ser essencial na definição dos valores que a fachada do Terreiro vai assumir, à entrada do último quartel do século XVI, num discurso nobiliárquico de forte aparato, apto a encantar os embaixadores e demais visitantes estrangeiros, pródigos em elogios à magnificência palacial apresentada pela sede da Casa de Bragança.

No término da construção ducal, em empreitadas teodosinas realizadas entre o final do século XVI e a passagem para o século XVII, destacar-se-á de seguida outro artista, Pero Vaz Pereira, educado na cidade de Roma, que será mesmo designado arquitecto e escultor do duque Teodósio II e que nesse âmbito ultimará o projecto da fachada de Nicolau Frias.

A monumental fachada palatina: estado da questão

O Paço Ducal de Vila Viçosa, emblemática sede da Casa de Bragança, estima-se, como se disse, entre os mais notáveis empreendimentos da arquitectura senhorial do pleno século XVI da Península Ibérica. A esplêndida massa da sua fachada dispõe-se em triplo andar com vinte e três tramos forrados de mármore, num longo e grandiloquente prospecto arquitectónico, único no seu tempo se se exceptuar o destruído Paço Real na Ribeira de Lisboa». In Vitor Serrão, A Fachada do Paço Ducal de Vila Viçosa, Os arquitectos Nicolau Frias e Pero Vaz Pereira, O Paço de Vila Viçosa, a Corte na Aldeia. Um problema de arte, ARTIS-IHA-FLUL-Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Callipole, Revista de Cultura n.º 22, 2015.

Cortesia de Callipole/RCultura/JDACT

JDACT, Vitor Serrrão, Cultura e Conhecimento, Vila Viçosa, Alentejo,

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «Encontraram-se morrões, e vários ingredientes incendiários. Tinha-se (foi então dito) descoberto ao Ministro da Fazenda a fraude de uns 70 contos de réis em alguns cofres, e este havia exigido o balanço desses cofres, com a comunicação de serem feitos rigorosamente no caso de não entrega»

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

As primeiras mudanças e os novos incêndios do século XIX
«Cumpridas quanto possível as determinações de D. José e reorganizado tão diligentemente, foi o Arquivo instalado no edifício da nova Praça do Comércio, entre a Rua Augusta e a Rua dos Ourives do Ouro onde funcionou o Tribunal da Junta da Casa de Bragança e o Conselho da Real Fazenda, "aí mesmo sofreu nova e considerável perda" num terceiro incêndio, sabe-se que antes de 1755 em data incerta, um outro o atingira, acontecido este agora no dia 10 de Junho de 1821. Uma série de documentos constantes do Ms. IG. 2000/1G.2425, historiam a repetida tragédia, de que deixamos uma sumária cronologia.

Reprodução do documento 1. MS. IG. 2000/NG. 24, fls. 4-7
jdact

1821, Junho 12
A Regência do Reino, em nome do Senhor D. João VI, houve por bem suspender do lugar de deputado da Junta do Estado e Casa de Bragança ao Lic. António Gomes Ribeiro pelo facto de não dar parte à Regência ou ao seu presidente, sendo o deputado mais antigo, do "funesto acontecimento do incêndio, que na mesma houve, e que não só destruiu as Casas do Tribunal, mas parte do seu Preciozo Cartorio; sendo tão distincto e zeloso o procedimento de Dom Miguel António de Mello que sem ser o Presidente do Conselho da Fazenda deu no mesmo dia duas contas relativas a este acontecimento".

1821, Junho 14
A mesma Regência, por portaria do dia 12, resolveu criar uma Comissão para proceder à inventariação dos papéis que se salvaram.

1821, Junho 14
Outro despacho ordena que na Junta se providencie quanto possível "que os seus papeis e o dinheiro estejão recolhidos em Casa de Abobeda, afim de obstar na mesma Junta, e as suas dependencias aos desastrosos efeitos, que o Incendio vem de cauzar".

1821, Junho 19
Sua Majestade foi servido ordenar que o Desembargador do Paço António Gomes Ribeiro haja de continuar no exercício do lugar de deputado da Junta do Estado e Casa de Bragança, “que tão dignamente tem ocupado, ficando sem efeito algum a injusta suposição que lhe foi imposta”. Outros documentos, provando a gravidade dos prejuízos, fogo que mereceu na sessão do dia 12 das Cortes Constituintes a classificação de «crime horroroso», e da mais abominável premeditação; as chamas surgiram ao mesmo tempo em quatro pontos diferentes, referem o infausto acontecimento.

Reprodução do documento MS. IG. 209/NG. 302, fls. 14 a 16
05 de Março de 1796
jdact
  • MS. NG. 74/AF. Almoxarifado de Estremoz/30.06.1821.
  • MS. NG. 305, fls. 74: Consulta sobre o perigo de incêndio no edifício da Secretária da Fazenda onde está também o Arquivo. 1811-1821.
  • MS. NG. 452. Lisboa. Caderno de Despachos e Vistas. Repartição da Justiça/1787-1821.
  • II/Começa este livro com o assento da primeira conferência que houve depois do dia 10 de Junho de 1821, em o qual dia se incendiou esta Secretaria da Câmara e Justiças da Repartição do Minho e Trás-os-Montes com todos os livros de iguais assentos que na dita Secretaria havia (15 de Junho de 1821 - 26 de Ju1ho de 1822). 49 fls.
  • NG. 581/8. Mais provas da destruição da Cartório da Sereníssima Casa de Bragança por causa dos incêndios /05 de Agosto de 1756 – 19 de Novembro de 1821/55 fls.
1830, Abril, 26
Extenso parecer da Junta da Casa de Bragança, subscrito pelo conde de Anadia, por António Gomes Ribeiro, Joaquim Guilherme da Costa Posser e Alexandre José Picaluga sobre um requerimento de Bernardino de Sousa e Andrade, com uma carreira de 23 anos de serviço na Secretaria da Fazenda desde oficial de registo até oficial maior, que pretende a graça de uma esmola de 4 moios de trigo, a exemplo dos seus colegas, para sua mulher D. Maria do Carmo Peixoto Valadares de Sousa e Andrade, no almoxarifado do Reguengo de Sacavém. E isto com alegação nos “serviços extraordinários” que prestou no incêndio do dia 10 de Junho de 1821 "com risco da sua própria vida (...) fazendo salvar não só todos os livros e papéis da sua Secrataria, mas tão bem os importantes títulos, e tombos do Archivo, fazendo conduzir tudo para o Arsenal Real da Marinha e depois organizando tudo na melhor ordem perante a Comissão que fora criada para o efeito. Despacho favorável de el-Rei D. Miguel a 30 daquele mês.

NG. 620/fls. 232
Chaves. Ofício de Inácio Xavier de Sousa Pizano para o escrivão da Câmara e Justiças do Minho e Trás-os-Montes dando notícia do incêndio que por essa altura devorou todos os papéis da Secretaria da Casa de Bragança/04-09-1826.

Reprodução do documento MS. IG. 209/NG. 302, fls. 14 a 16
05 de Março de 1796
jdact

Silva Ferrão procura justificar a criminalidade deste incêndio com a razão de se tentar "acobertar as fraudes e o roubo de bens e direitos patrimoniaes da Sereníssima Casa de Bragança (...)".

"Encontraram-se morrões, e vários ingredientes incendiários. Tinha-se (foi então dito) descoberto ao Ministro da Fazenda a fraude de uns 70 contos de réis em alguns cofres, e este havia exigido o balanço desses cofres, com a comunicação de serem feitos rigorosamente no caso de não entrega", diz ainda o mesmo autor, lembrando que no prédio se acolhia também a Junta do Comércio e o Conselho da Fazenda». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

Continua
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «E admite Correia da Franca "que na Serenissima Caza havia muitas preciozidades de devoção, e Relíquias como era hum Espinho da Coroa de Christo S.or que se conservava no Thezouro do Palacio do Duque, com a instituhisão de Vinculo da mesma Serenissima Caza, que com tudo o mais foi incendiado pelo Terremoto do 1º de Novembro do anno de 1755"».

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

A reforma de 1756 de Manuel da Maia e Manuel António de Ataíde
«O recurso a este expediente reconhece-se utilíssimo e eficaz, porquanto muitos desses documentos levou-os ou este ou outro dos posteriores incêndios da maldição que recaiu sobre o antigo cartório. E o que vale, reafirmo, é que nos sobejantes hoje disponíveis outras e muitas certidões conferidas, insertas em diversos processos de pleitos e sentenças, revelam inesperadas e preciosas informações históricas.

O padre Ataíde, ele próprio, tem de recorrer à decisão régia para confirmação do cargo de cartorário do Estado da Sereníssima Casa de Bragança, pois o alvará que em 18 de Dezembro de 1754 o nomeara também desaparecera ‘no incêndio sucessivo ao terramoto que houve nesta Cidade’, o que, de facto e logicamente obteve favorável despacho em 1757, Dezembro 16. Obtivera o lugar por dele se ter demitido Manuel da Maia, que prosseguira como guarda-mor da Torre do Tombo, é ele que autentica com assinatura e selo a quase totalidade das centenas de certidões extraídas para a reforma do cartório brigantino. 700 mil réis foi o ordenado estipulado a Manuel António de Ataíde, que, falecido entretanto a 29 de Janeiro de 1764, logo por documento de 17 de Fevereiro foi substituído por José da Silveira Morais Barba Rica, que fora, com outros funcionários escolhidos, um dos seus mais dedicados colaboradores na obra de levantamento do Cartório.

O Tesouro do Cartório
Por curiosidade, e pelo inegável interesse de que se reveste a informação para a própria história que estamos contando, acrescenta-se a notícia que por documentos desta data denuncia a existência do que poderemos chamar o “Tesouro do Cartório da Casa de Bragança”, do qual, aliás, encontrámos referências em outros livros, que desta forma se confirma, mas do qual também nunca mais se soube.

Cortesia de wikipedia

O Termo de Inventário datado de 10 de Fevereiro de 1764, lavrado:
  • "na traveça do Arco de Jezus junto à Rua formoza nas cazas em que morava o Cartorario do Sereníssimo Estado, e Caza de Bragança o Padre Manoel Antonio de Athayde ahonde eu Escrivam da Camara, e Justiças do mesmo Sereníssimo Estado viera comn Jozeph da Silveira Morais Barbarrica Cavaleiro profeço na Ordem de Christo, novamente provido do dito emprego" (...), descreve a existência de "todas as cartas, cofre, papeis, Doações, e livros, que na Caza do mesmo Cartorário falecido" se acharam e "sam as seguintes".
Resumem-se os maços e livros provindos das quatro comarcas e outros papéis, e ainda os tais tesouros, constituídos por um maço de sete cartas originais de vários santos, a saber:
  • 1 de Santo António de Lisboa,
  • 2 de S. Bernardo,
  • 1 de S. João da Mata,
  • 1 de Santa Catarina de Sena,
  • 1 de S. Luis de Gonzaga,
  • e outra da Infanta D. Joana, acompanhadas de uma cruz de metal com várias relíquias dentro.
NOTA: O inventário incluído no Tomo I das Memórias /de /tudo o que pertence à Sereníssima Casa de Bragança ,preparadas por J. S. M. Barba Rica em 1767 para uso de Jorge Manuel da Costa, pormenoriza que das 2 cartas de Bernardo, uma está escrita em português e é datada de 20 de Maio de 1141 e a outra, em francês, é de 2 de Agosto de 1185; a de S. João da Mata é de l0 de Maio de 1197; a de Santo António, de 2 de Março de 1223; a de Sta. Catarina, em língua italiana, é de 3 de Agosto de 1378; a de S. Luís de Gonzaga, de 12 de Março sem indicação do ano, está escrita em espanhol, e a da Infanta Santa Joana, em português, é de 22 de Janeiro de 1570. Não podem, porém, deixar-se passar em vão os anacronismos de duas destas cartas: uma de S. Bernardo com data posterior à sua morte em 1185 e a da Princesa Santa Joana, falecida em 1490, sendo a carta datada de 1570, o que logo nos pode conduzir à legitimidade, se não se tratar de admissível erro paleográfico.

O Secretário e escrivão da Câmara e Justiças da Junta da Serenissima Casa José António Correia da Franca foi no dia 5 do referido mês de Fevereiro à Travessa de Jesus e aí, de facto, achou na gaveta de um bufete embrulhadas numa folha de papel "huma Cruz pequena, com sete repartimentos dentro, em que se achão algumas santas Relíquias; e mais sete cartas de varios Santos", o que ele, secretário, supõe ser tudo verdadeiro "pela veneração com que forão restituhídas em anno de 1757 ao Tenente General Manoel da Maya mandadas do Convento de Rilhafoles e que enviou para guarda no Cartório".
E admite Correia da Franca "que na Serenissima Caza havia muitas preciozidades de devoção, e Relíquias como era hum Espinho da Coroa de Christo S.or que se conservava no Thezouro do Palacio do Duque, com a instituhisão de Vinculo da mesma Serenissima Caza, que com tudo o mais foi incendiado pelo Terremoto do 1º de Novembro do anno de 1755".

Reprodução do documento 1. MS. IG. 2000/NG. 24, fls. 4-7
jdact 

Que tudo, segundo parecer de Manuel da Maia, se deveria guardar não em casa dos escrivães, nem na do defunto Ataíde, nem na de BarbaRica, pela insegurança, "porque de nenhuna dellas se satisfaz a minha cautella á vista do que tem succedido em alguns livros das Chancelarias dos Fidelissimos Senhores Reys D. João o quinto, e D. Joze o primeiro, que se queimarão nas cazas dos Escrivâes, que tinhão levado para ellas tirando-os do tribunal da Chancellaria, em que se uzão, e só se deve escrever nelles, a qual disgraça, lê-se ainda no importante documento subscrito pelo guarda-mor da Torre do Tombo, he irreparavel, e com discredito do Archivo, aonde os tais livros se costumão conservar para socorro das partes, que procurão os traslados dos seus documentos; e que não sendo descubertos entendem-se, ser falta procedida do Archivo, e não do incendio das cazas dos Escrivães, o que muito se costuma encobrir".
Por todas estas razões, é de parecer "que no corpo do Edifício do Tribunal se faça eleição de lugar para o Carthorio para sua mayor segurança, e conservação, e também para ser vizitado, e observado promptamente pelo Procurador do Estado, a quem tocará a approvação, e inteireza de tudo, o que nelle se deve executar".

Esta "reformação" do Cartório durou seu tempo, no mínimo até Setembro de 1760, data do último registo das despesas com os oficiais que lhe assistiram, mas o facto do inventário de Correia da Franca ser datado de 1 de Fevereiro de 1764 deixa entender que se terá dado por findo o exaustivo trabalho de recuperação e reordenação. Doações, Privilégios, Sentenças e Posses extraídas da Torre do Tombo, Aforamentos e Emprazamentos dos Almoxarifados constituíam então o renovado acervo da antigo cartório brigantino». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

Continua
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «Solicitado parecer a Manuel António de Ataíde, logo em l755, Dezembro l7, informa em extenso documento sobre as medidas de reformação do Cartório que considera indispensáveis e urgentes, desde os traslados da Torre do Tombo às contas e cópias pedidas a todas as temas do Estado de Bragança de tombos…»

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

O período de formação, de 1422 a 1620
«Cremos, pois que é lícito concluir que um primeiro longo período, o da «formação do Cartório» decorre desde a criação do Ducado em 1442 até 1640, data em que o 8º duque e novo rei, até por força desta condição e com a sua chancelaria particular autorizada desde 1617, conforme referimos, dá ao arquivo uma estrutura orgânica que já traria de Vila Viçosa e que mais se impôs com a sua transferência para Lisboa em 1640. Acumulava-se então um espólio abundante de cerca de dois séculos e meio, onde não faltavam preciosos pergaminhos originais e códices de raro interesse, formando, decerto, um conjunto espectacular na dimensão que teria necessariamente de corresponder ao invulgar património de uma das mais poderosas casas da Europa.
É neste mar imenso de livros e de papéis que o insuperável pesquisador da história e da genealogia da Casa Real mergulha avidamente e onde recolhe material do mais puro quilate para a construção da sua obra monumental. O cartório da Casa de Bragança, "o qual, posso dizer (palavras de D. António Caetano de Sousa) que não tem papel, que eu não visse" foi, a par de outras fontes, o grande manancial alimentador do seu trabalho.

O período trágico das grandes calamidades, 1640 a 1836
Inicia-se pois, um segundo período da vida deste notável cartório, este, que, mercê das muitas desgraças que o atingiram, poderemos designar de «período trágico». Sofrera, mais nas comarcas e nos almoxarifados, acidentes e delapidações durante as guerras da Restauração e da Sucessão e sofreria o tremendo golpe que lhe desferiram os incêndios do terramoto de 1755 também, não apenas em Lisboa, já que, no nosso conceito, o Arquivo da Casa de Bragança entendemo-lo, desde a sua formação, como o conjunto de toda a documentação, sucessivamente acrescentada, desde os livros da Chancelaria até aos processos e papéis avulsos guardados na sede das comarcas e dos diferentes almoxarifados, do Minho ao Alentejo. Na verdade, foi mesmo em Lisboa por força da violência do grande sismo e das suas trágicas consequências que este património documental foi mais atingido. O palácio dos duques de Bragança pertencia à freguesia dos Mártires que foi, infelizmente, uma das zonas mais dilaceradas. E não apenas as derrocadas e o fogo, mas também a água com que se pretendia dominar o cataclismo, tudo contribuiu para a perdição sem remissa da parte mais valiosa do velho cartório.

Cortesia de casarealportuguesa

  • Apenas escaparam dez famílias no pátio de dentro, chamado dos coches, em palácio do Duque. Aqui se faz deplorável a grande perda do cartório da Sereníssima Casa de Brangança que não havia muito tempo estava reduzido à mais distinta arrumação pela excelente ideia do mestre de campo general e seu guarda-mor Manuel da Maia", palavras de Baptista de Castro no seu "Mapa de Portugal".
Esta história trágica do Arquivo está nele bastante bem documentada, comprovando que efectivamente a parte mais rica, diremos, a mais antiga, portanto, a mais importante e interessante para o conhecimento da Sereníssima Casa, desapareceu na totalidade. Valeu-lhe a fortuna ter-se salvo o muito que para o efeito guardava a Torre de Tombo e donde, logo a seguir, como veremos, se copiou a documentação necessária para comprovar direitos e privilégios.
Os próprios documentos do Arquivo falam, por si, desde os relatórios do Pe. Manuel António de Ataíde, seu cartorário na sucessão de Manuel da Maia, que também o foram ambos da Torre do Tombo, até às representações escritas do solicitador da Casa João Gonçalves Lobato dirigidas à rainha D. Maria prevenindo cautelas futuras, face à sucessão de incêndios posteriores a 1755.
Tomaram-se imediatas providências para salvar o que restava.
Solicitado parecer a Manuel António de Ataíde, logo em l755, Dezembro l7, informa em extenso documento sobre as medidas de reformação do Cartório que considera indispensáveis e urgentes, desde os traslados da Torre do Tombo às contas e cópias pedidas a todas as temas do Estado de Bragança de tombos, autos de posse e demais registos convenientes, um plano e uma metodologia de trabalho verdadeiramente magistral que levou à emissão do alvará régio de l3 de Março de l756 ordenando, de imediato, a extracção de certidões autenticadas pelo guarda-mor da Torre do Tombo Manuel da Maia. Este foi o trabalho que deu origem a 20 volumes cartonados que constituem o actual núcleo chamado da Reforma do Cartório, objecto de publicação recente.


Cortesia de geocaching e ppmbraga

A reforma de 1756 de Manuel da Maia e Manuel António de Ataíde
Em 1756, Setembro 13, são enviados ao cartonário Ataíde todos os papéis enunciados na sua informação para efeitos de "reformação" e de futuro pedido de crédito para valerem como «originais», o que foi depois declarado. Foi este dedicado funcionário o incansável obreiro da grande reforma que se impunha; entregou-se de alma e coração à recuperação do património documental da Casa que servia, seguindo de perto a "arrumação" do seu antecessor no cargo, o engenheiro militar Manuel da Maia.
  • «No que toca a caza para o Cartório em quanto a não houver propria, e destinada para elle, guardareis os papeis nas cazas em quviveis, pondo-os logo com methodo, e ordem para que se não faça esta a rumação por duas vezes, e com dobrada despesa, e vos permitto nomeeis as pessoas, que se devem empregar por hora nos treslados, ordem, e reparos do mesmo cartório para satisfação das quaes me declareis o salario, que devem vençer, pois assim esta despeza, como as demais, que se fizerem nesta reforma se hão de pagar pelo Thezouro da Caza (...) e vos mando me informeis tambem logo sobre a verdade dos papéis, que se acham copiados nos livros das provas da História Genealogica da Caza Real, declarando, os que com effeito existião nos lugares donde se dizem extrahidos, para depois de todas estas diligencias se guardarem no cartorio os ditos livros, com hum Alvará, em que se declare são verdadeiros os documentos que do mesmo cartorio se copiarão, e ficarem tendo a mesma força e valor, que os originaes».
Texto da ordem régia expedida para o cartorário Ataíde, concordante com os princípios por ele próprio estabelecidos para a recuperação dos documentos, em que se recorre ao conhecimento que o diligente arquivista tinha do conteúdo e organização da Torre do Tombo para se poder fazer fé nas referências de D. António Caetano de Sousa». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

Continua
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «…temos notícias dessa preocupação quando os duques transferem a residência do castelo de Vila Viçosa para o recém-constituído paço do Reguengo, onde na sala do despacho os escrivães faziam seus registos, como, por exemplo, os das Mercês»

Cortesia de casarealportuguesa

De Chaves a Vila Viçosa e Lisboa. As primeiras Chancelarias.
«Chaves, residência do 1º duque terá sido, naturalmente, a sede do incipiente cartório brigantino. Com D. Afonso, como na mão dos seus sucessores, andariam os papéis indispensáveis ao funcionamento da grande Casa que já era a sua. Nascia com ela o arquivo administrativo; organizá-lo-iam, tão funcional quanto possível, os escrivães da Casa.

Pergaminhos como a escritura da compra da Quinta de Gestaçô, que D. Afonso, ainda conde de Barcelos, fez em 1422. Out.30, quatro anos antes de negociar com o cabido de Santiago o extenso couto da Correlhã, chegaram até nós. Seguindo dentro de velhos arcazes os sucessivos percursos residenciais dos senhores da Casa, de Chaves para Barcelos, Guimarães, Ourém, Vila Viçosa e Lisboa. Quantos se perderam pelo caminho, quantos sofreram o desgaste do manuseamento, quantos devorou a labareda dos incêndios ou da incúria dos homens?

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

A medida que o tempo avança e o património ducal vai engrossando, crescendo o volume documental impõe-se a organização do cartório. Temos notícias dessa preocupação quando os duques transferem a residência do castelo de Vila Viçosa para o recém-constituído paço do Reguengo, onde na sala do despacho os escrivães faziam seus registos, como, por exemplo, os das Mercês.

O século XV é o período mais animado das grandes doações concedidas aos Senhores da Casa de Bragança. Aos chamados bens dotais, que derivam da liberalidade de D. João I e do Condestável, acrescentam-se os bens adquiridos. Instituem-se os morgados e as capelas, escrituram-se foros e arrendamentos. Do Minho e Trás-os-Montes até ao Alentejo, quase a raiar terras algarvias, o património da poderosa Casa de Bragança impõe a necessidade da criação de uma chancelaria própria com seus espaços e seus funcionários.
Admitimos, pois, que tais serviços se tivessem iniciado ainda no séc. XV, embora só no século seguinte tal se possa provar documentalmente. Assim, desde D. Teodósio I e de seu filho D. João I, em Vila Viçosa, provavelmente ainda em parte no Castelo, terá funcionado um arquivo dos papéis da Casa Ducal. Por seu lado, criadas que foram as comarcas brigantinas de Barcelos, Bragança, Ourém e Vila Viçosa com suas ouvidorias; nestas localidades constituem-se cartórios particulares onde vão ficando guardados os documentos que a seu despacho dizem respeito e que só virão à mão do duque quando se justifica.


Cortesia de geocaching e ppmbraga

Aos ouvidores do duque já se referem cartas régias de D. João III. O privilégio de dispor a Sereníssima casa de chancelaria própria vem detrás, referem-se-lhe documentos de 1583 de D. Teodósio II, é lhe atribuído e confirmado por Filipe 3º, respectivamente em 1617.Out.02 e 1638.Mai.31.

Os livros de registo de Mercês, conhecem-se os três do ducado de D. Teodósio II, de cuja elaboração foi encarregado o Lic. Arcádio de Andrade, ouvidor do Duque, e algumas peças soltas de datas anteriores vêm demonstrar que, por existirem serviços de chancelaria privada, do mesmo modo existiria organizado um arquivo documental. O contacto com a documentação que chegou até nós prova-nos que foi com D. João II, o futuro rei Restaurador, que a chancelaria, o arquivo e a livraria da casa Ducal sofreram tratamento e organização mais conveniente. Os livros de registo de consultas da Fazenda e desse tempo, assim como a nomeação do Dr. André Cardoso Godinho como chanceler de sua Casa e de outros magistrados seus, o Dr. Gaspar Vaz de Sousa, por exemplo, desembargador, em datas que se localizam entre 1630 e 1632, e ainda alvarás, consultas, pareceres e despachos da sua gestão administrativa, são mais provas de um trabalho de registo e arquivo organizado.
Na «História Genealógica da Casa Real Portuguesa» é igualmente frequente, como sabemos, a referência ao velho arquivo da Casa de Bragança, com transcrição nas «Provas» de documentos diversos, alguns mesmo mais tarde desaparecidos, sobreviventes outros apenas em certidões do arquivo reorganizado na chancelaria da Casa que hoje felizmente podemos consultar.

A consulta das «Provas» permitem-nos concluir de uma arrumação mínima que o Arquivo já trazia de trás, anteriormente às buscas para a publicação da «História Genealógica» iniciada em 1735». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

(Continua)
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

domingo, 14 de agosto de 2011

Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança: «Os originais de todos os papéis que historiam a função e a sobrevivência da Casa Ducal guardavam-se no arquivo real, na Torre do Tombo, com registo ou cópia na mão dos senhores da Casa. Arquivo da Casa de Bragança e arquivo do Estado durante séculos coabitaram nas mesmas instalações oficiais»

Cortesia deacademiapotuguesadahistoria

«Não obstante o seu valioso recheio, que abrange variados núcleos de documentação desde o século XV ao nosso tempo, o Arquivo da Casa de Bragança é ainda pouco conhecido dos historiadores nacionais e estrangeiros. Trata-se de um cartório particular que se tem mantido no Paço Ducal de Vila Viçosa, à guarda da ilustre Fundação que zela pelo seu património. Tal circunstância explica, em grande parte, o recolhimento que tem envolvido tão importante acervo documental, apenas referido por um ou outro investigador que beneficiou da sua consulta.
A publicação de «O Arquivo Histórico da Casa de Bragança» afirma-se, pois, do maior interesse para a cultura portuguesa, pelos dados informativos que a obra revela. Além de uma história breve desse cartório, o leitor toma ainda conhecimento da sua génese e das várias reformas da sua organização. Torna-se assim possível acompanhar a evolução histórica do mencionado Arquivo, bem como a formção dos seus actuais núcleos históricos.
Arquivista da Fundação da Casa de Bragança, o que lhe tem permitido um contacto directo com esses fundos de documentação, o Dr. Manuel Inácio Pestana elaborou com a costumada mestria o presente volume. E mais uma obra que enriquece a sua já extensa bibliografia sobre a multissecular história da Casa Ducal.

Investigador dotado, mereceu ser eleito, em 30 de Junho de 1989, membro Correspondente da Academia Portuguesa da História, a que tem dado o melhor do seu talento e dedicação, com algumas comunicações hauridas no importante fundo brigantino.

Cortesia de marcasdascienciasfcul

Objectivos.
Um arquivo é lugar de pesquisa e um campo de trabalho, um repositório de instrumentos de investigação, um registo da memória dos povos e das nações. Espaço físico onde o tempo parou, onde muitos tempos, todos os tempos, se encontram, lugar onde a história se lê, onde a história se constrói e reconstrói a todo o momento; um arquivo vive também a sua própria história, uma história que raramente é contada. O quanto, o como e o porquê da existência de um arquivo passa muitas vezes ao lado do historiador. Os arquivos, os antigos cartórios documentais, são assim comparáveis aos servidores de quem precisa, e, por quem precisa, imediatamente esquecidos. Fica-se pela citação das fontes, o que também nem sempÍe acontecia, que hoje felizmente é norma da técnica heurística e da ética hermenêutica.

Arquivos de Estado ou de casas particulares, classificados nesta ou naquela categoria segundo a natureza e o predomínio dos seus materiais, os arquivos podem, eles mesmos, contar a sua própria história. E isto que nos propomos fazer: proporcionar o encontro com um antigo e valioso cartório que em fontes documentais próprias se inspira para justificar historicamente e explicar documentalmente a sua existência.
Queremos referir-nos ao arquivo histórico da antiga casa senhorial dos Duques de Bragança, da qual pretendemos evocar as suas origens, as suas glórias e desventuras, evidenciar a quantidade e a qualidade das suas reservas documentais e falar da sua utilidade e funcionalidade no passado, no presente e, evidentemente, no futuro, ao serviço da historiografia portuguesa.
Cortesia de antoniogranjo

Génese do Cartório.
Com origem no casamento do filho bastardo de D. João I com D. Brites Pereira e nas doações e escambos de bens que o antecederam ou lhe sucederam, poderemos dizer que este arquivo existe, isto é, começou a construir-se, não exactamente e apenas no momento da fundação do ducado de Bragança (1422. Maio) mas em data mais remota. Se quiséssemos identificar o seu documento mais antigo - e servindo-nos já das suas próprias fontes - recuaríamos até 1208. Fevereiro.17, data da confirmação por D. Sancho I do foral de Barcelos, concedido por D. Afonso Henriques, seguido de idêntico pergaminho da vila de Rebordãos de 1208. Novembro, terras que, como tantas outras de Entre-Douro-e-Minho e de Trás-os-Montes, vieram a integrar os vastos domínios da futura casa dos duques de Bragança - documentos estes, que, tal como muitos outros dos sécs. XIII, XIV e XV, constam hoje do conjunto de apógrafos setecentistas da chamada Reforma do Cartório, cujos traslados da Torre do Tombo, ordenados por D. José I em 1756 para comprovação dos direitos e privilégios da Casa de Bragança, demonstram e justificam a génese remota do velho arquivo.

Os originais de todos os papéis que historiam a função e a sobrevivência da Casa Ducal guardavam-se no arquivo real, na Torre do Tombo, com registo ou cópia na mão dos senhores da Casa. Arquivo da Casa de Bragança e arquivo do Estado durante séculos coabitaram nas mesmas instalações oficiais. Provam-no documentos que historiam, por exemplo, os incêndios sofridos em diversas data. Instalações e cartórios comuns, organização e funcionamento, portanto, em comum. Acidentes, percalços, vicissitudes, incêndios e destruição também em comum». In Manuel Inácio Pestana. O Arquivo Histórico da Casa de Bragança, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1996, ISBN 972-624-108-1.

(Continua)
Cortesia da Academia Portuguesa da História/JDACT

sábado, 4 de junho de 2011

Florbela Espanca: Parte II. «A Vida é uma taça que se deve beber com sofreguidão. De tal modo que em "Prince Charmant" (soneto dedicado a Raul Proença, seu contemporâneo) são já os velhos fantasmas que retornam, desde as tardes que se morrem voluptuosas até à procura do ser eleito que se não encontra nunca. Essa procura do príncipe encantado dilui-se na "Charneca Alentejana" e a poetisa é a esfinge que olha a planície enorme».

Cortesia de entalpiapoetica

Em «O Nosso Mundo», Florbela erege um autêntico hino à vida e ao eros, original na sua poesia, tendo em conta o pessimismo que a caracteriza vulgarmente:

A vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…

A Vida é uma taça que se deve beber com sofreguidão. De tal modo que em «Prince Charmant» são já os velhos fantasmas que retornam, desde as tardes que se morrem voluptuosas até à procura do ser eleito que se não encontra nunca. Essa procura do príncipe encantado dilui-se na «Charneca Alentejana» e a poetisa é a esfinge que olha «a planície enorme».

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!

Os amantes fundem-se na paisagem, fazem parte intrínseca dela, ou então, como no poema «Tarde Demais», quando finalmente o ser adorado regressa, já a poetisa se encontra morta:

E há cem anos que eu fui nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
“Porque chegaste tarde, ó meu Amor?…

Cortesia de spleenbored 

Mas este Livro de Soror Saudade apresenta outros traços igualmente interessantes. Imagens de um Alentejo que se prende à voz dos «sinos e das noras». As «verbenas» que se morrem silenciosamente e um franciscanismo muito angélico desde o simples apelo aos poetas e aos irmãos até ao chamamento mais forte da vida, do vento e do sol:

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas,
Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Charneca em Flor é o livro publicado postumamente onde se concentram os poemas mais complexos de Florbela. Iniciemos um percurso por «Versos de Orgulho»:

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!
Porque o meu reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou alguém!

Neste entrecho o eu é um território inexpugnável, imenso, mediúnico, solitário porque único. Voltamos ao ego como centro de todas as problemáticas, de todos os dilemas. A insistência no Infinito, num horizonte sem fim, é o rasgar de limites para um eu que se pretende ilimitado. Também a interrogação sobre a morte é de uma grande lucidez:

O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

A resposta é de um pessimismo muito florbeliano: tudo será melhor para além da morte. Mas o erotismo é outro dos traços permanentes da poesia de Florbela. Charneca em Flor representa a consagração do eros subtil e suave, onde as mãos, a boca e o estreitar dos corpos se arriscam e se ousam:

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Ou então de um modo mais incisivo:

As tuas mãos tacteiam-se a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço
É como um jasmineiro em alvoroço
É o brio de sol, de aroma, de prazer!

Cortesia de laurapoesias 

Em Florbela a marca do amor é também a de um donjuanismo onde a influência de um Mário de Sá-Carneiro se faz sentir, um pouco na ambiência do poeta de Orpheu:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... Além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente?...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Neste entrecho o amor torna-se ele próprio subversor. Não interessa o objecto amado, mas o acto de amar. De um franciscanismo ingénuo passa-se a uma atitude radical onde se torna indiferente quem se ama, mas o acto de amar. Num outro poema, «Ambiciosa», reverte-se para o homem/ Deus:

O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem! - Quando eu sonho o amor dum deus!

Se era indiferente o objecto amado num soneto anterior, neste excerto o amor não pode ser mais humano, mais divino. Esta divinização prende-se com o enaltecimento do próprio eu. O ego é uma entidade complexa que tanto se deixa envolver, segundo a expressão de José Régio, num donjuanismo psicológicoamar este, aquele ou aqueloutro – num cortejar sem fim, como passa por uma sensualidade muito à flor da pele.
Se em Livro de Mágoas ainda se notava a nítida filiação em António Nobre, num apelo à Mágoa, à Dor, à atitude chorada, à medida que caminhamos na sua poesia, esta torna-se mais natural e pessoal, com uma carga erótica impressiva, num paganismo onde se mistura religiosismo e amor eterno. Como por exemplo:

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gosto das minhas mãos tontas de amor!

Sensualidade que é o grande traço desta poesia. Se não observemos ainda este excerto:

Ah, fixar o efémero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro.

A poesia de Florbela é de uma grande expressividade dramática, possui uma carga emocional que a torna diferente da poesia sua contemporânea. Daí que tenhamos escolhido esta poesia como paradigma de um tempo e de uma ambiência mental feminina, embora perdêssemos de vista porventura outras expressões literárias não tão perfeitas, mas mais triviais na sua resolução. Contudo, as linhas gerais estão traçadas. Os anos 30 e 40 seriam anos mais frutuosos: Maria Archer, Irene Lisboa, Maria Lamas na prosa. E outros tantos nomes na poesia. Mas dificilmente com a qualidade de Florbela». In Cecília Barreira, Instituto Camões.

Cortesia do Centro Virtual Camões/JDACT

terça-feira, 3 de maio de 2011

Vila Viçosa: Fundação ou princípio da primitiva povoação. «Querem alguns autores que seja fundação dos Cartagineses, 350 anos antes de Cristo; e para esse efeito alegam com o templo que Maarbal edificou então ao deus Endovélico. Porém, não foi edificado dentro de Vila Viçosa, senão a três léguas de distância, onde hoje chamam Terena a Velha»

Lusitânia Endovélico
Cortesia de sigillummilitum


«É tempo de darmos princípio à nossa história cronológica, sondando como e quando seria fundada a primitiva povoação de Vila Viçosa. Foi D. Afonso III, quem lhe deu a carta de foral, como vila portuguesa; e deve portanto este rei ser considerado como seu fundador. Mas a esse tempo existia uma aldeia no vale de Calípole; e portanto a questão reduz-se a indagar:
  • 1º se no terreno, em que a moderna vila foi levantada, estivera já outra povoação antiga, pequena ou grande, e desde quando;
  • 2º se perto da mesma vila, ou dentro do seu termo, há vestígios de povoações anteriores à erecção do Reino de Portugal.
O padre António Carvalho da Costa diz na Corografia Portuguesa, que Vila Viçosa foi fundada 350 anos antes de Cristo por Maarbal, capitão cartaginês. No entanto, este parecer não se abona em sólidos fundamentos; pois embora existisse já então a vila, o único argumento, aduzido por tal autor, não o prova terminantemente.
Cortesia de gabitogrupos
Querem alguns autores que «seja fundação dos Cartagineses, 350 anos antes de Cristo; e para esse efeito alegam com o templo que Maarbal edificou então ao deus Endovélico, que situam dentro da mesma vila. Porém, reconhecemos a muita antiguidade deste templo, temos por sem dúvida, que não foi edificado dentro de Vila Viçosa, senão a três léguas de distância, onde hoje chamam Terena a Velha; o que se convence claramente com as pedras e inscrições, que dali mandou tirar D. Teodósio, 5º duque de Bragança».
Os autores consultados não dizem, que o templo de Endovélico era situado em Vila Viçosa. Diz Resende, que as aras deste ídolo, vistas por ele no frontispício da igreja de S. Agostinho, foram mandadas trazer pelo duque de uma ermida antiga, que existe perto de Terena.

Cortesia de daruanove

Terena
Cortesia de terena
Alexandre Herculano no tomo II da sua História de Portugal:
  • «por todo o trato de terra ao oeste de Juromenha e Elvas, então de Sarracenos, se dilatavam descampados e ruínas, consequência das correrias e entradas dos cristãos da Beira ou das que os muçulmanos intentavam contra Portugal, transpondo o Tejo por aquela parte. Conhece-se o estado de despovoação, em que ainda se achavam nos fins do século XII, não só o Alto Alentejo, mas também o sul da Beira…».
De facto, à vista dos documentos, a nenhuma das povoações, que aí hoje subsistem, como Avis, Portalegre, Crato, Vila Viçosa, Borba, Estremoz, etc, se pode fazer remontar a origem além do século XIII. Na discussão distinguem-se três opiniões a respeito da origem de Vila Viçosa: 
  • uma, que põe a sua fundação em época anterior ao ano de 350 anos a. C.; outra, que a coloca no ano de 150 ou 153, também a. C.; e finalmente, outra que repõe essa fundação em 1270, reinando em Portugal D. Afonso III.
A primeira e mais antiga não se sustém de pé por falta de fundamento sólido, quando aprovar a existência da vila no seu actual assento em tal época. Cita-se apenas a fundação do templo de Endovélico naquela remota idade; como porém esse templo ficava na zona ocidental e perto de Terena, mediando entre ele e o sítio de Vila Viçosa duas léguas e meia, nada prova que esta já existisse então, ou concoresse o célebre templo para ela principiar a existir». In P. Joaquim José da Rocha Espanca, Cadernos Culturais da CM de Vila Viçosa, 1983.
Cortesia da CMVila Viçosa/JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2011

Há dias assim... Dia Mundial da Poesia: Florbela Espanca. «...É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente...»

Cortesia de  xoomervirgilioit

Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca

JDACT

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Carmen Balesteros: Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã.

Cortesia de callipole
Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã. Para o levantamento prévio em povoações da raia portuguesa e espanhola. Carmen Balesteros, Callipole, revista cultural, nº 3/4, 1995/1996

«Começámos por nos debruçar sobre esta questão aquando do estudo desenvolvido sobre a Judiaria e a Sinagoga de Castelo de Vide, e não pudemos ficar-lhe indiferentes quando estudámos a Sinagoga de Valência de Alcântara-Cáceres.
No decorrer do estudo sobre a Sinagoga Medieval de Évora, verificámos existirem no núcleo urbano medieval da cidade algumas constantes identificadas nos casos anteriores, no que diz respeito entre outras coisas, à existência de marcas de simbologia religiosa com um discurso simbólico e estético muito semelhante. Assim sendo, consideramos justificar-se um estudo específico do assunto.

Sobre a questão específica das Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristão importa agora juntar os dados obtidos pelo alargamento da área de investigação às povoações de Vila Viçosa, Elvas, Monsaraz, Redondo, Borba, Alandroal.

Cortesia de callipole

As marcas de simbologia religiosa judaica e cristã sobre as quais nos debruçámos, ocorrem sobretudo em ombreiras de porta ou de janela, permitindo-nos os levantamentos até agora realizados, a elaboração de uma tipologia genérica mas que aponta para uma divisão das marcas identificadas em quatro grupos:
  • As marcas nas mezuzot;
  • As marcas longitudinais;
  • As cruzes cristãs;
  • As abreviaturas católicas.
Até agora, as marcas menos frequentes são as marcas nas mezuzot e as abreviaturas católicas, estas ainda menos que aquelas. As marcas que nos parecem resultar da prática judaica de marcar as ombreiras das portas, ou marcas nas mezuzot, foram localizadas, até agora, em Évora, Monsaraz, Castelo de Vide e Albuquerque (Espanha), ao passo que as marcas longitudinais e as cruzes cristãs revelam, em contrapartida, uma frequência e uma dispersão geográfica significativamente maiores. As marcas identificáveis nas quatro localidades referidas são bastante semelhantes entre si, tratando-se de concavidades de cerca de 10 cm de altura por 2 cm de largura e o mesmo de espessura, abertas todas elas em portadas graníticas a uma altura do chão que varia naturalmente, em função das dimensões da respectiva porta. Em qualquer dos casos, a localização da concavidade possibilita(va) que uma pessoa de estatura média a pudesse tocar ao ultrapassar a porta.

Cortesia de callipole

As concavidades destinavam-se a guardar um pequeno estojo que continha no seu interior um rolo de pergaminho ou papel no qual se inscreviam as palavras do Shemá, oração fundamental o culto judaico, elaborada a partir das palavras de Deuteronómio ou de Êxodo.
Para além da total adesão íntima e pessoal à fé monoteísta, e da necessidade do esforço de transmissão no espaço do núcleo familiar do credo religioso monoteísta, pressupostos pelo texto sagrado, apela-se ainda à utilização de sinais exteriores no corpo humano mas também nos umbrais da casa, que marquem e lembrem constantemente aos seus utilizadores a fé que os identifica.
( … )
Um outro género de marcas é constituído pelas cruzes cristãs e abreviaturas católicas, cujo significado simbólico se torna de mais fácil e rápida identificação. Até agora, os núcleos urbanos antigos onde encontrámos as maiores frequências deste género de marcas foram os de Valência de Alcântara-Cáceres, Alpalhão e Trancoso, ainda que nesta e noutras localidades tenhamos também identificado alguns dos outros géneros de marcas já referidos. Se bem que a informação disponível não aponte para uma significativa presença judaica medieval em Alpalhão, o mesmo não podemos dizer de Trancoso, terra do sapateiro Bandarra, ou de Valência de Alcântara, onde se casaram D. Manuel I e a infanta D. Isabel, filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, existido em ambas as localidades comunas judaicas que possuíram as suas sinagogas.


Cortesia de callipole

A preocupação de cristianizar os espaços encontra-se nas casas, nas fortificações, ou mesmo noutros espaços públicos vitais como as fontes, como é o caso da fonte da praça Martim Afonso em Vila Viçosa, onde a base quadrangular de três das colunas marmóreas, apresenta a marcação de várias cruzes». In Carmen Balesteros, Callipole, revista cultural, nº 3/4, 1995/1996.

Cortesia de callipole
Cortesia de Callipole/Vila Viçosa

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Povoado Neolítico de Bencatel. Vila Viçosa: «Ocupa um cabeço de topo aplanado, com uma vertente bastante íngreme no lado ocidental, mas com declive moderado e comando quase nulo, no lado oposto. O sítio arqueológico localiza-se na borda do Maciço Calcário, à beira do patamar que o delimita pelo lado ocidental e domina visualmente boa parte da bacia do Lucefece»

Cortesia de uplasma  
Com a devida vénia a Manuel Calado, Callipole, revista cultural, 1995/1996.

O povoado neolítico de Bencatel foi licalizado em 1994, em prospecções de superfície, de carácter selectivo, desenvolvidas pelo autor no âmbito do Projecto Nimerso (Neolítico e Idades dos Metais da Região da Serra D’Ossa).

«Análise paisagística, com base em diversa informação geográfica, nomeadamente de tipo cartográfico e aerofotográfico e, sobretudo, na observação do terreno, foi o método mais utilizado para a selecção das áreas a prospectar, pretendeu-se, testando e corrigindo hipóteses relativas à distribuição do povoamento pró e protohistórico, obter o maior número de dados possível, para uma primeira abordagem regional, uma vez que a informação disponível se resumia quase exclusivamente ao megalitismo e escassos povoados do Bronze Final e do Ferro.

A área em que se encontram os vestígios do povoado neolítico de Bencatel, ocupa um cabeço de topo aplanado, com uma vertente bastante íngreme no lado ocidental, mas com declive moderado e comando quase nulo, no lado oposto. O terreno, com muitos afloramentos calcários, apresenta escassa aptidão agrícola; para além da exploração tradicional como olival e pastagem, foi em época recente, aberta uma pedreira na área central do cabeço, numa área onde aflora uma mancha de mármore de boa qualidade.

Cortesia de artblartwordpress

O sítio arqueológico localiza-se na borda do Maciço Calcário, à beira do patamar que o delimita pelo lado ocidental e domina visualmente boa parte da bacia do Lucefece (uma área deprimida que corresponde ao sinclinal de Terena) e o compartimento mais elevado da serra d’Ossa.

A aldeia actual de Bencatel situa-se a menos de 1 km a WSW do povoado neolítico, cujas coordenadas UTM são: x=635,7; Y=4290,3 e cuja altitude máxima atinge os 420 m (NMM).

Cortesia de wikipédia

O povoado neolítico de Bencatel, apresenta uma importância destacada para o estudo da neolitização. Por outro lado, é um elemento fundamental em termos da história local e regional, documentando um dos momentos mais antigos da presença de comunidades sedentárias no interior alentejano.

A identificação do sítio através da prospecção de superfície constitui apenas o primeiro passo para o respectivo estudo; apenas a implementação de trabalhos de escavação pode revelar novos dados fundamentais para a interpretação arqueológica da respectiva ocupação: saequência estratigráfica, cronologias absolutas, dados paleoeconómicos e paleogeográficos, etc.

O facto de este sítio se localizar numa zona muito sensível, em função da exploração intensiva das rochas ornamentais, justificaria uma série de medidas especiais para a salvaguarda da preciosa documentação arqueológica que encerra. Estas medidas deveriam passar pela escavação integral das áreas a afectar pelas pedreiras e pela definição de outras a proteger». In Manuel Calado, Callipole, revista cultural nº 2 e 3.
 
Cortesia de Revista Callipole 1995, 1996/Manuel Calado/wikipédia/JDACT