Mostrar mensagens com a etiqueta Combate de Flor da Rosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Combate de Flor da Rosa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Porém, o que consta é que ele se descuidou em tomar cautelas precisas, e que não fora avisado da chegada dos espanhóis, se não no momento de ser atacado. Não conheço o lugar da acção, mas sendo uma povoação imagino que teria ali meios de defesa…»

jdact

(continuação)

Um balanço incerto
«Sobre Flor da Rosa, Forbes Skellatei comenta:
  • ‘A expedição de Flor da Rosa era de sua natureza muito difícil e arriscada; mas por isso mesmo devia aquele comandante dobrar as suas cautelas, para ser avisado com bastante antecipação da chegada dos inimigos, a fim de poder seguir um partido, que sem se afastar das instruções que tinha, ou salvasse a tropa que mandava, ou resistisse defendendo-se enquanto tivesse munições. Porém, o que geralmente consta é que ele se descuidou em tomar cautelas precisas, e que não fora avisado da chegada dos espanhóis, se não no momento de ser atacado. Não conheço o lugar da acção, mas sendo uma povoação imagino que o dito comandante teria ali meios de defesa por muito tempo, causando grande perda aos inimigos, cuja principal força era a cavalaria’.
Prõssegue depois:
  • ‘As relações que o dito coronel apresenta destas duas acções me parecem extremamente exageradas, e são pouco conformes ao que é constante neste Exército; portanto, julgo que não será justo nem conveniente dar a este coronel a recompensa que ele pretende, quando a voz pública, e os sucessos, o não favorecem’.
E acrescenta, com certa benevolência:
  • ‘Devo contudo acrescentar que as circunstâncias em que se achou comprometido, o zelo, boa vontade e valor que mostrou, sempre que foi empregado, o fazem digno da indulgência de Sua Alteza Real, para que se não entre em averiguações destes factos, de que lhe poderiam resultar alguns danos, se não como particular, ao menos como Comandante’.
Epílogo
Carcome Lobo prosseguiu uma carreira militar que se adivinhava destinada a voos modestos. Mas o evoluir da situação internacional ir-lhe-á possibilitar uma ascensão inesperada. Em 1806 ainda era coronel, servindo no Regimento de Infantaria de Linha n.º 15. Um ano depois, a 24 de Junho, era promovido ao posto de Brigadeiro de Infantaria. Com a fuga de família real para o Brasil e a entrada das tropas francesas em Lisboa, iniciou-se um novo período na vida de José Carcome. Paradoxalmente, foi o seu momento de glória, proporcionado por aqueles contra cuja política combateu na Guerra das Laranjas. Junot, na sua qualidade de general-em-chefe, promoveu-o a marechal de campo, l - 4 - 1808, e com esse posto desempenhou um importante papel na organização da Legião Portuguesa, um dos vários corpos de tropas estrangeiras que combateram sob os auspícios de Napoleão, e que, no caso português, foi inicialmente comandado pelo marquês de Alorna.
Sobre a Legião Portuguesa existem diversas obras nas quais encontramos algumas alusões a José Carcome.
P. Boppe, no seu estudo exaustivo Le Légion Portugaise 1807-1813, para além de vários relatórios daquele militar, publica na parte final uma curiosa nota biográfica que foi, certamente, elaborada a partir de informações fornecidas pelo próprio José Carcome no tempo em que serviu na Legião, e que contém uma referência à ‘Guerra das Laranjas’.
Ainda em Portugal, e com a graduação de general de brigada (1 - 8 - 1808), participou na organização daquele Corpo, ficando à frente da 2ª Divisão. Comandou depois a 13ª Meia Brigada de elite organizada por decreto de 10 - 3 - 1809, e fez a campanha da Alemanha no exército do general Oudinot, tomando parte, juntamente com dois batalhões portugueses, na batalha de Wagran, 6  - 7 - 1809, contra os austríacos. O comportamento dos legionários nesse combate foi brilhante, reflectido nas elevadíssimas baixas sofridas, e impressionou favoravelmente Napoleão. Na peleja, Carcome Lobo ficou ferido no braço esquerdo, embora se levantassem algumas dúvidas quanto à efectividade desse ferimento. Ribeiro Artur reproduz o depoimento coevo de um dos oficiais da Legião, José Garcez Pinto Madureira:
  • ‘D. José Carcome apareceu de braço ao peito, mas Garcez que toma à sua conta o velho general, põe em dúvida esse ferimento’.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «… algum exagero no que se refere à artilharia capturada, a coluna possuía 4 canhões, tantos quantos foram apreendidos, e não 6, como refere o diário da Divisão de Vanguarda. A posição de ‘Carcome Lobo’ não sofreu beliscadura, mesmo após este novo desaire»

jdact

Um balanço incerto
«Quanto ao balanço do combate, não existe unanimidade. Nenhuma das fontes espanholas esclarece o número de baixas portuguesas. Godoy refere, na Gazeta de Madrid, que os espanhóis capturaram 340 portugueses, quedando el resto entre heridos y muertos, excepto los pocos que podrian librarse en la fuga, e que foram apreendidos 50 carros, 4 canhões com as respectivas munições e 400 espingardas. O mesmo autor, nas suas Memórias, nada acrescenta. Nos diários de operações das divisões espanholas os números são ligeiramente diferentes: 300 prisioneiros portugueses, muitas mortes e 4 canhões capturados, no caso do diário da 2ª Divisão, 360 prisioneiros, no caso do diário da Divisão de Vanguarda, que alude ainda ao facto de terem sido capturados 4 de los 6 cañones que tenian. Sobre as baixas espanholas, nem uma palavra...
Carcome Lobo, por seu turno, contabiliza as perdas portuguesas em 14 mortos, 22 feridos e 310 prisioneiros, com 240 mortes causadas às forças inimigas. Não podemos, infelizmente, comprovar estes números, uma vez que o livro de óbitos da paróquia de Aldeia da Mata, respeitante àquele ano, não se encontra no Arquivo Distrital de Portalegre. Também não localizámos a declaração do pároco que teria enterrado os cadáveres, referida no relatório de Carcome Lobo. No livro de registo de óbitos da Matriz, Crato, existente naquele Arquivo, encontrámos algumas referências a mortos em resultado de ferimentos recebidos em combate:
  • Bernardo José Picão, granadeiro do 2º Regimento de Olivença, ferido e prisioneiro no combate de Flor da Rosa, faleceu com todos os sacramentos em o Hospital desta Vila;
  • João Marques Durão, de 40 anos, pouco mais ou menos, casado com Silvéria Joana, moradores em Vale do Peso. Foi ferido em o combate de Flor da Rosa com os Espanhóis;
  • Outro soldado faleceu a 23 de Junho no Hospital de Crato. Foi ferido no Combate de Flor da Rosa. Era do Bispado do Algarve, do Regimento de Faro, mas não houve quem soubesse o seu nome.
A última referência que surge no livro, a 30 de Julho de 1801, é a de um militar espanhol. Pela descrição, foi certamente assassinado por populares:
  • Francisco Villa, soldado espanhol da quarta Companhia do primeiro Batalhão de Voluntários da Infantaria Ligeira da Catalunha, casado com Magdalena Villa, do mesmo Reino, aparecendo morto no pinhal de Flor da Rosa, a tiro de bala, e quartos, e com três feridas de faca no peito e coração.
Detectámos, isso sim, algum exagero no que se refere à artilharia capturada, a coluna possuía 4 canhões, tantos quantos foram apreendidos, e não 6, como refere o diário da Divisão de Vanguarda. O certo é que a posição de Carcome Lobo não sofreu beliscadura, mesmo após este novo desaire. A 18 de Junho de 1801 foi libertado, juntamente com outros militares portugueses, sob palavra de honra em como não voltariam a empunhar armas contra a Espanha nessa guerra.
O Príncipe Regente ordenou a realização de um inquérito, Aviso de 11 de Agosto, no seguimento de uma petição do polémico coronel em que, não só justificava todo o seu comportamento durante a guerra, como pretendia ser recompensado por bons serviços prestados em campanha, e que abrangeu as duas acções em que esteve envolvido, Arronches e Flor da Rosa. O parecer do general Forbes Skellater, datado de 15 de Agosto, embora relativamente moderado, não deixava de ser crítico:
  • ‘Na acção de Arronches, pela mesma relação que o dito coronel dá deste sucesso, e pela que remeto inclusa do brigadeiro Bernardim Freire, comandante do Corpo de Granadeiros, destinado a protegê-lo, se vê que a obstinação com que ele, coronel, persistiu em se conservar em Arronches, apesar dos avisos que teve, e da sua mesma determinação, que me tinha participado na véspera, fez com que ele fosse quase surpreendido e obrigado a fazer precipitadamente a sua retirada, sendo a Infantaria atropelada pela Cavalaria, e salvando-se o resto da Tropa assim desordenada pela protecção que lhe prestou o Corpo de Granadeiros que os inimigos não ousaram atacar’.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Surpreendido pelo inimigo no meio do descanso que dera à sua tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada da marcha que tinha feito, teve ainda tempo para formar e meter ordem de batalha»


jdact

Combate de Flor da Rosa visto pela historiografia liberal, Luz Soriano
«Reduzidos a este estado, tiveram de retirar pelo modo que lhes foi possível, até que ganharam a pequena coluna das quatro companhias de granadeiros, à testa das quais se achava o coronel José Carcome Lobo, e o meu imediato, o tenente-coronel de cavalaria, o conde de Leutaud. Efectuada que foi esta junção retiraram-se todos com muito trabalho por causa da viva perseguição que lhes fazia a cavalaria inimiga, que lhes ia sempre matando gente, enfraquecendo-se também os nossos pelas muitas deserções que durante a retirada iam tendo lugar. Aproveitando-se dos sítios pedregosos, que encontravam, assim andaram perto de légua e meia, até chegarem à Aldeia da Mata, onde entraram num pequeno bosque, que a precedia, guarnecido por um muro de pedra solta de que fizeram parapeito. Durante esta retirada perdeu-se a artilharia, já quase ao pé do serrado, não a podendo já puxar as bestas que o conduziam, por serem péssimas e acharem-se faltas de forças. Por espaço de duas horas se fez ali fogo contra o inimigo; mas desenvolvendo estes quinze esquadrões de cavalaria pelos flancos portugueses, e puxando sobre a sua frente três batalhões de infantaria, fizeram-lhes intimar por uma trombeta que imediatamente se rendessem, sob pena de serem passados à espada, quando assim o não o fizessem. Faltos já de munições, e atacados por todos os lados, vendo até já na sua frente em atitude ameaçadora artilharia inimiga, os nossos renderam-se finalmente à promessa de serem bem tratados, garantindo-se-lhes as bagagens e armas, assim como os cavalos aos oficiais que os tivessem. O número dos que assim se renderam, e em que também entrava o seu comandante, Carcome Lobo, andava por 400 homens, à excepção dos poucos que fugiram ou se extraviaram, e dos mortos, que dos nossos foram 12, reputando-se igual a este o número da parte dos espanhóis, apesar das notícias exageradas que erradamente se espalharam a respeito destes últimos, que não foram mais, nem talvez tantos.
Concluído o conflito, e concluída a capitulação, foi a nossa tropa conduzida a Portalegre, onde a oficialidade foi bem tratada e atendida dos generais, passando dali por Arronches e Santa Eulália para Badajoz, onde o príncipe da Paz lhes deu logo a liberdade de voltarem para Portugal, prometendo não pegarem mais em armas contra a Espanha, nem seus aliados na presente guerra. Da Aldeia da Mata voltaram os castelhanos soberbos e arrogantes, não só pela vitória alcançada, mas por também ter sido tão completa e acabada, que no meio dos seus esquadrões levavam os portugueses prisioneiros, e com os quais, à maneira de triunfo, entraram em Flor da Rosa, cujos moradores, bem como os do Crato, trataram mal, como já o tinham feito aos de Arronches. Tendo roubado e destruído campos, bem como as povoações, apresaram todo o gado, que encontraram nos seus distritos, que era muito, por não haver só o que pertencia aos seus moradores, mas até mesmo pelos rebanhos dos lavradores das terras vizinhas das fronteiras, que para ali os tinham conduzido, por serem lugares situados mais no coração da província. Apresaram e levaram também para Portalegre os mantimentos e munições que encontraram, desarmaram ambos os povos, e conduziram tudo ou para Badajoz, ou para outros lugares onde lhes convinha, para abastecerem e fornecerem as suas tropas. A nossa cavalaria para não perder a posse em que já estava de fugir e aterrar o exército, foi o primeiro correio, que no meio da sua precipitada carreira levou aos campos e vila do Gavião a triste notícia, não só do encontro da nossa tropa com a inimiga, mas até a da total derrota dos seus camaradas, exagerando o número de mortos, que não viu, e o destroço geral, que não quis experimentar, batendo-se como devia. O certo é que nesta empresa deu o coronel Carcome Lobo novas e evidentes provas da sua imperícia militar:
  • porque chegando a Flor da Rosa, nenhum cuidado teve em se informar das marchas e situação do inimigo;
  • não estabeleceu guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes;
  • não fez a marcha com a rapidez que convinha, e que na verdade foi mais dilatada do que devia ser, dizendo-se que por culpa dos guias.
Surpreendido pelo inimigo no meio do descanso que dera à sua tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada da marcha que tinha feito, teve ainda tempo para formar e meter ordem de batalha. Apesar de reduzido à crítica situação em que se achava, nenhuma participação fez, nem para o campo de Gavião, nem para a Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado chamar de Abrantes um destacamento bastantemente forte para auxiliar a sua retirada e a marcha do comboio por aquele lado. Finalmente não conhecendo a vantagem que lhe oferecia o convento, e a mesma povoação da Flor da Rosa, onde bem podia fazer-se forte e defender-se o tempo necessário para ser socorrido.
Quanto porém aos efeitos, que o desastre de Flor da Rosa produziu no exército português, acampado no Gavião, foram exactamente os mesmos que nele tinha produzido o desastre de Arronches, quando acampado em Portalegre, porque não só se não tentou ataque algum contra o inimigo, nem se recorreu a medida tendente a recuperar as munições e mantimentos perdidos, mas até nem se cuidou em defender a posição ocupada, apesar de forte e vantajosa, não lembrando mais que fugir novamente da guerra, e evitar quanto possível e cobardemente a vista dos castelhanos, e por modo tal, que não sendo as serras mais altas e inacessíveis do país asilo bastantemente forte para se abrigarem os nossos generais e as suas tropas, foram aqueles e estas buscar além do Tejo o refúgio que este caudaloso rio lhes oferecia, partindo para Abrantes no dia 6 de Junho, com muita pressa, e não menos confusão, sendo ali vitimas da fome, enquanto de Lisboa lhes não foram os necessários socorros». Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, Primeira Época, Tomo III, 1867.

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «Mas o que parecerá incrível é que na marcha retrógrada de Portalegre para Gavião não houvesse quem se lembrasse de mandar retirar do Crato e Flor da Rosa os géneros que ali havia, e com tanta mais razão, quanto que em Gavião nenhuns existiam…»

jdact

Combate de Flor da Rosa visto pela historiografia liberal, Luz Soriano
«Alguns traidores houve, que sem temor de Deus, nem dos homens, denunciaram aos espanhóis, não só os lugares em que na cidade de Portalegre se tinham escondido as munições do exército, mas até lhes declararam as povoações vizinhas, onde existiam armazéns e feitores com elas. Eram estas, além de outras, que já estavam em seu domínio, a vila do Crato, e o lugar de Flor da Rosa, pouco distante da dita vila, onde se havia recolhido grande número de moios de trigo e farinha, para provimento do exército de Portalegre e suas vizinhanças, de onde distavam apenas quatro pequenas léguas. No dia 4 de Junho mandou Ignacio de Lencastre sair de Portalegre o marechal de campo de Mora, com 2.500 cavalos e três batalhões de infantaria para a vila do Crato e lugar de Flor da Rosa com o fim de tomarem estes lugares pela voz de Espanha, e sobretudo com o de se apossarem das munições de boca, que ali se tinham juntado para fornecimento do nosso exército. Dos campos de Gavião saíram também para a vila do Crato e lugar de Flor da Rosa, das seis para as sete horas da tarde de uma quarta feira, 3 de Junho, por ordem do marechal general, duque de Lafões, e debaixo do comando do coronel José Carcome Lobo (não obstante a formal desobediência de ordens, que cometera na defesa de Arronches e da miserável maneira por que ali se conduziu), quatro companhias de granadeiros do 1º e 2º regimentos de Olivença, duas dos dois regimentos do Algarve e Setúbal, e duas de caçadores destes mesmos corpos, com 40 cavalos portugueses, e 28 ingleses, com quatro peças de artilharia, sendo duas de calibre 6 e duas de calibre 3, tudo gente a mais escolhida e forte de todo o nosso exército. Era o fim desta expedição conduzir para Gavião os mantimentos, que havia naqueles dois lugares, devendo ser escoltados e conduzidos por esta força, que para o cabal desempenho da sua comissão levava consigo até sessenta carros, dezasseis dos quais eram puxados por bestas, e todos os mais por bois, pertencentes aos moradores das vizinhanças de Gavião. Tinha esta expedição tanto de necessário, como de arriscada. Necessária, porque o exército, partindo tão apressadamente de Portalegre, não só deixara nesta cidade e terras circunvizinhas, já todas em poder dos espanhóis, todos os mantimentos necessários para a sua subsistência, mas porque, acampando no Gavião e suas vizinhanças, vira-se cortado de fome e de miséria, havendo dias em que se deu a 4 e 6 soldados um pão de munição, que diariamente se dava a um só. Arriscada era também esta empresa, não só pela probabilidade, que os espanhóis dela tivessem sido informados, estando muito mais bem servidos de espias do que o nosso exército, mas também pela quase certeza de que estivessem senhores do Crato e Flor da Rosa, tanto para abastecerem os seus soldados, como para privarem os nossos dos meios de subsistência.
Caminhou a nossa tropa de noite até à pequena vila de Tolosa, onde lhe amanheceu, e dali se dirigiu à Flor da Rosa, onde chegou pelas onze horas do dia, e largando as armas para descansar, deram parte as vedetas e avançadas da vista e proximidade do inimigo, que das estradas de Portalegre se encaminhava para aqueles sítios. Parece que aconselhava a prudência que ou se não arriscasse aquela pouca tropa portuguesa, que para ali foi mandada, à vista das ponderadas razões e circunstâncias, por ser bem de esperar que a vizinhança do inimigo embaraçasse a empresa, ou que a tentar-se, fosse em número suficiente para lhe fazer frente, e muito mais quando o exército ficava inútil em Gavião, onde se não podia recear ataque algum ou manobra do exército contrário, que inactivo se deixou ficar em Portalegre, de onde alguns espias, se é que havia alguns, podiam dar aviso, quando houvesse sinal de movimentos.
Mas o que parecerá incrível é que na marcha retrógrada de Portalegre para Gavião não houvesse quem se lembrasse de mandar retirar do Crato e Flor da Rosa os géneros que ali havia, e com tanta mais razão, quanto que em Gavião nenhuns existiam, nem era fácil havê-los. Determinada porém a operação, necessário era que a marcha se efectuasse rápida, forçando-a de maneira que antes do amanhecer do dia 4 de Junho os nossos estivessem em Flor da Rosa, o que podia bem suceder, pois que entre este posto e Gavião medeiam apenas cinco léguas de distância, e mandando-se logo carregar os carros, era provável que o transporte dos mantimentos se pudesse fazer sem maior risco. Entretanto não se fez assim, acontecendo mais que depois de chegarem as tropas ao lugar do seu destino, apareceu a dificuldade de não haverem sacos para a condução do trigo e farinhas, que em Flor da Rosa estavam a monte, falta a que se devia ter prestado a necessária atenção quando se fez sair a tropa de Gavião. O certo é que esta foi outra das causas do retardamento da operação, ou antes do seu completo malogro. Com a notícia da chegada dos castelhanos, os nossos correram às armas, postando-se duas bocas de fogo em lugar conveniente para bater o inimigo, logo que chegasse ao alcance de lhe poder fazer dano. Duas companhias de caçadores dos regimentos de Olivença se destacaram no intuito de ganharem dos agressores para o incomodarem e deterem o mais que lhes fosse possível, sendo as ditas companhias auxiliadas para este fim, tanto pelos 40 cavalos portugueses, como pelos 28 dragões ingleses. No meio de estas disposições avançou o inimigo, sendo por algum tempo demorado na sua marcha pelo fogo da artilharia; porém, nesta conjuntura, tanto a cavalaria portuguesa, como a inglesa, abandonando os caçadores, que deviam reforçar, fugiram a todo o galope, atropelando nesta fuga a gente que acharam diante de si.

Mapa da região do Crato, 1801, elaborado por espanhóis

Vendo-se expostos, e sem apoio algum, as companhias de caçadores fizeram quanto puderam pela sua parte para cumprirem com os seus deveres, no que perderam alguma gente, que lhes foi morta pelas partidas avançadas da cavalaria inimiga». In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

continua
Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 16 de junho de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. Comentado por Francisco de Borja Garção Stockler. «Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa»


jdact
 
«Entretanto existia ainda no Crato alguma porção de trigo e farinha, que era conveniente salvar, e para este fim mandou o Duque um Destacamento de quinhentos homens de Infantaria, e quarenta ou sessenta cavalos, cujo comando confiou ao coronel Carcome, ordenando-lhe que logo que chegasse a Flor de Rosa, aí tomasse Posto, e se mandasse informar se o inimigo tinha ou não já entrado no Crato; qual a situação de seus Postos avançados; e até onde lançava as suas Patrulhas, a fim de executar esta operação com toda a circunspecção, e prudência.
Nesta segunda comissão se houve Carcome como na primeira. Chegado a Flor de Rosa, em vez de tomar as cautelas convenientes, contentou-se com saber que no Crato não havia ainda espanhóis: e sem estabelecer guardas avançadas, nem vedetas nos lugares convenientes, assentou de dar algumas horas de descanso à sua Tropa, que ainda não tinha comido, e se achava assaz fatigada de marcha, que executara na noite precedente e na manhã daquele dia, a qual por culpa de seu guia fora mais dilatada do que deveria ser. No meio do descanso, a que se abandonara, foi surpreendido por um Corpo espanhol de dois a três mil homens, que o Inimigo mandava ao Crato com o fim de apoderar-se do Depósito secundário, que ali existia. Teve Carcome ainda tempo para formar a sua Tropa; mas em vez de expedir logo a notícia do aperto em que se achava para o Campo do Gavião, e para Ponte de Sor, para onde sabia que se tinha mandado marchar de Abrantes um Destacamento assaz forte para auxiliar a sua retirada, e a marcha do seu Comboio por aquele lado; não conhecendo a vantagem que lhe ofereciam o Convento, e a mesma Povoação de Flor da Rosa, aonde poderia fazer-se forte, e defender-se o tempo bastante para ser socorrido; não sabendo mesmo parquear-se com os seus carros; rumou o partido de bater-se em retirada, o que fez por espaço de uma légua Aldeia da Mata. Ali se defendeu valentemente até consumir o cartuxame, que a sua Infantaria tinha nas patronas: e achando-se envolvido por todos os lados, se rendeu prisioneiro de guerra com mais de metade do seu Destacamento, tendo perdido a sua artilharia e munições, e uma grande parte dos carros que conduzira para a evacuação do Depósito». Cartas do autor da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da restauração deste reino, por Francisco de Borja Garção Stockler [...], Rio de Janeiro, na Impressão Régia, 1813.
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”»



jdact

«Como se vê, Manuel Godoy equivoca-se em vários momentos. Nem o exército luso retirava em direcção a Crato, mas sim a Gavião, nem as tropas que saíram de Portalegre tinham como objectivo persegui-lo. O ‘general’ era, realmente, um coronel, e os fugitivos não levaram o ‘temor’ às tropas de Crato, rumando sim em direcção ao grosso do exército. Claro está que sabemos que estas memórias foram publicadas muitos anos após os acontecimentos que descrevem, e sem recurso a documentos coevos, pelo que é útil compulsarmos essa versão com a que o próprio Manuel Godoy inseriu na “Gaceta de Madrid”.
A descrição do combate, feita pelo comandante das tropas portugueses, apresenta algumas coincidências com a que escrevera sobre o combate de Arronches. Naturalmente que José Carcome Lobo procurava justificar o sucedido. Esse texto, que foi utilizado, certamente, por Luz Soriano na descrição que fez do mesmo episódio. Dele ressalta uma actuação quase impecável. Procedeu-se ao reconhecimento prévio do terreno, as tropas descansavam junto às suas armas mas com duas sentinelas colocadas na torre, presumimos que do mosteiro, dominante da planície. Carcome Lobo teria, também, disposto guardas avançadas, porque no relatório afirma que às duas da tarde fora avisado por ‘vedetas avançadas’ de que o inimigo vinha dos lados de Portalegre. Estava, segundo esta versão, excluída a hipótese de surpresa... E de imediato o comandante se dispôs a defender as posições ocupadas, aprontando as duas bocas de fogo, todos os soldados armados e grupos a proteger os flancos. Outro grupo de militares colocou-se na retaguarda para procurar melhores posições; os carros de bestas foram retirados, na impossibilidade de fazer o mesmo com os que eram puxados por bois, bem mais lentos. A artilharia portuguesa disparou sobre o inimigo, retardando-o, mas a cavalaria lusa repetiu a proeza de Arronches, fugindo precipitadamente e, como ali, atropelando na fuga a infantaria incluindo o próprio Carcome Lobo. Perante o ímpeto atacante, os portugueses retiraram em direcção à Aldeia da Mata, onde se entrincheiraram atrás de muros de pedra e num pequeno bosque, mantendo um fogo nutrido até que, esgotadas as munições, e após duas horas de tiroteio, acabaram por se render na sua grande maioria, incluindo o próprio comandante. Os espanhóis fizeram mais de três centenas de prisioneiros que foram levados para Badajoz e posteriormente libertados, depois de darem a sua palavra de honra em como não voltariam a pegar em armas durante aquela campanha.
A descrição de Carcome Lobo colide com todas as outras versões, nomeadamente com a de Neves Costa, embora este não tenha sido testemunha do combate; e, o que é mais sintomático, contrasta com a de Francisco de Borja Garção Stockler. Este foi, como se sabe, um colaborador íntimo do duque de Lafões, apontado por muitos como o grande responsável pelos desastrosos resultados da campanha de 1801. Já no Brasil, em 1813, no livro que escreveu em resposta às acusações formuladas contra si e o duque por José Acúrcio das Neves, embora reconhecendo alguma valentia a Carcome Lobo, Stockler julga-o muito negativamente, considerando, tal como Neves Costa, que ele fora completamente surpreendido e que não tinha tomado as necessárias medidas para prevenir qualquer ataque inopinado.
Ao menos neste ponto, estava de acordo com José Acúrcio das Neves...

NOTA: José Acúrcio das Neves escreveu a esse propósito: “De Gavião se fez uma expedição para salvar os [depósitos] do Crato, que se compunha de 600 homens e 80 cavalos; mas inutilmente, porque em Flor da Rosa foi ‘surpreendida’ e feita quase toda prisioneira por forças superiores”.

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir... Quando se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas»


jdact

«No dia 4 sucedeu um episódio curioso. Ao Campo de Gavião chegou um mensageiro espanhol, oficial de Hussares, ajudante de campo do general Inácio de Lencastre, comandante da 2ª Divisão, o qual era portador de uma mensagem para o duque de Lafões. No caminho encontrou a coluna de Carcome, junto a Gáfete, e ficara aparentemente convencido de que aquela se deslocava para Estremoz. À cautela, o coronel português fez-lhe vendar os olhos para que não visse qual o caminho tomado pelo destacamento. Quando o referido oficial espanhol regressou às suas linhas, foi escoltado por alguns portugueses, entre os quais o brigadeiro Neves Costa, que o conduziu por um caminho diferente do que inicialmente tomara, de modo a evitar um encontro com a coluna que fora a Flor da Rosa. No entanto, quando chegou a Alpalhão, Neves Costa aproveitou a sua missão de escolta, com o consequente salvo-conduto, para reconhecer o terreno:
  • ‘lembrando-me que talvez não tivéssemos tropas em Alpalhão, e ignorando-se se os espanhóis ali estavam, tinha agora uma excelente ocasião para me certificar disso; saber ali de algumas novidades relativas a Portalegre e Marvão, e na minha volta vir por Gáfete e Tolosa para saber do que se passava no Crato, etc.’
 Recebido pelo capitão-mór de Alpalhão, Neves Costa veio a saber que, na tarde do dia 3, uma força espanhola proveniente de Portalegre por ali passara em direcção a Crato e que, no dia seguinte, novos reforços de cavalaria e infantaria, com a mesma origem, tomaram idêntico caminho. De regresso a Gavião, o oficial português veio a apurar, em Gáfete, que houve um combate de Flor da Rosa, e que alguns fugitivos da coluna de Carcome Lobo tinham por ali passado, fugindo a bom fugir...
De facto, quando se encontravam em Flor da Rosa e se preparavam para carregar os abastecimentos ali armazenados, a força portuguesa foi atacada pelas tropas espanholas sob o comando do marquês de Mora, com uma flagrante superioridade:
  • 1 esquadrão de Hussares, 3 de Borbón, 2 de Alcântara, 3 de Farnesio, 3 de Almansa, 2 batalhões de Maiorca, 100 homens do 1º batalhão da Catalunha e 4 peças de artilharia.
Terão os espanhóis tido conhecimento atempado da expedição portuguesa, como receava Neves Costa, sendo, assim, deliberada a sua acção sobre Flor da Rosa e Crato com o objectivo de interceptar a coluna? Não obstante as críticas do brigadeiro Neves Costa sobre a falta de secretismo na sua preparação, no ‘Campo de Gavião’, e a possibilidade de ela ser conhecida do inimigo, as dificuldades de comunicação e até, a própria cronologia dos acontecimentos acaba, em nossa opinião, por inviabilizar aquela hipótese. Na verdade, a operação foi planeada a 2 de Junho, e as tropas portuguesas marcharam no dia seguinte, 3, ao pôr-do-sol. Ora, ao compulsarmos os diários de operações das divisões espanholas envolvidas na acção, nada consta sobre uma preparação deliberada ou sobre um conhecimento prévio do sucedido. Assim, no diário da Divisão de Vanguarda lê-se:
  • Dia 4
  • El Mariscal de Campo marquês de Mora con 100 hombres del 1º de Cataluña, 2 Escuadrones de Borbón, 1 de Húsares y otros 3 de la 2ª División, salió al amanezer para ocupar los almacenes que los enemigos habian dejado en Crato y en Flor de Rosa, y proporcionar al mismo tiempo forrages a la Caballeria que ya no podia subsistir en Porto Alegre. Al paso por el lugar de Flor de Rosa encontró con un destacamento enemigo compuesto de 6 Compañias completas de Granaderos y Cazadores, 40 Dragones ingleses, 25 portugueses y 6 piezas de Artilleria, que a las ordens del animoso coronel Josef Carcome llevaba el mismo objeto. El marqués de Mora lo atacó y derrotó completamente matando a muchos y tomando prisioneros 360 hombres entre los quales se encontraban l7 oficiales y el Comandante Principal, que también lo havia sido en la función de Arronches (continua)".
In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sábado, 17 de março de 2012

O Combate de Flor da Rosa. Conflito Luso-Espanhol de 1801. António Ventura. «É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes»

jdact

«Em alternativa, havia que ir buscar tudo o que a deficiente logística portuguesa tinha reunido, de forma a impedir que caísse em mãos inimigas. Consciente dessa dificuldade, Neves Costa apresentou um memorando ao duque de Lafões com algumas sugestões:  
  • ‘os destacamentos enviados a Nisa, Alpalhão e Crato para guardarem e protegerem a retirada dos efeitos que dali se houverem de transportar para o Campo do Gavião, podem e devem servir ali de primeira linha dos postos avançados, pois que estes lugares ficando rodeados de planícies podem facilmente descobrir os movimentos e marchas do inimigo numa grande distância. Para este fim, segurança e vantagem dos ditos destacamentos, é preciso que eles sejam compostos particularmente de cavalaria a fim de fazer as rondas e descobrir como se precisa, advertindo que as patrulhas de cada destacamento apenas sentirem o inimigo avisarão não só o respectivo corpo a que pertencerem, mas também os postos ou destacamentos que lhe ficarem contíguos a fim de se evitar a surpresa ou o ser cortado. E necessário recomendar providências para que em Abrantes se examinem os soldados que vão do Campo com o título de doentes, ou licenças, pois é provável que entre estes haja muitos que se retirem ilegitimamente; o que concorre a enfraquecer os corpos que compõem o exército. É necessário vigiar e procurar informações da parte de Alter, Avis e Ponte de Sor, sobre a marcha ou forças com que o inimigo se aproxima daquele lado, a fim de que alguma das suas colunas não se avance por aquela parte procurando cortar a nossa retirada sobre a ponte de Abrantes. E preciso também examinar a natureza e força das fortificações que defendem a dita ponte deste lado do Tejo; pois segundo algumas notícias elas não são capazes de a proteger contra qualquer ataque’.

Por fim, no dia 3 de Junho, projectou-se o envio de uma força a Gáfete, Tolosa, Flor da Rosa e Crato com o objectivo de recolher os abastecimentos ali existentes. Ao brigadeiro Bernardim Freire de Andrade foi confiado o comando da coluna, mas o seu estado de saúde não permitiu que o assumisse, sendo substituído pelo coronel José Carcome Lobo, o polémico comandante das tropas lusas em Arronches, o que não augurava nada de bom. O duque de Lafões assistiu, a cavalo, ao desfile das forças que eram constituídas por 4 companhias de granadeiros, 2 de caçadores, num total de 600 homens de infantaria, e 70 de cavalaria dos quais 30 dragões ingleses da escolta do duque, 2 canhões de 6 e 2 de 3. Este destacamento devia escoltar 60 carros, uns puxados por mulas e outros por bois, destinados ao transporte dos víveres e apetrechos existentes nos armazéns.

Quando a expedição deixou o Campo de Gavião, ao entardecer do dia 3 de Junho de 1801, o seu objectivo era conhecido há algumas horas. E surgiu o receio de que, se esse conhecimento era geral no acampamento português, o mesmo poderia suceder entre o inimigo, que poderia ser alertado pelos seus espiões não obstante a distância a que se encontrava.

jdact

O brigadeiro Neves Costa não podia ser mais pessimista quanto ao resultado da expedição que adivinhava desastroso pela qualidade do seu comandante, moral da tropa e publicidade dos objectivos:
  • ‘O oficial comandante de um corpo de tropas derrotadas em Arronches, era o mesmo que se escolhia para comandar uma expedição que se devia considerar terminando num segundo combate. Que confiança pois podiam ter estas tropas num chefe semelhante publicamente acusado justa ou injustamente como culpado e autor da derrota de Arronches? O soldado, e particularmente o soldado bisonho é perfeitamente uma máquina, ou um animal irracional que precisa de muito jeito para o fazer mover como se pretende. Ainda que Carcome fosse um hábil oficial, e tivesse desenvolvido grandes talentos na acção de Arronches, entretanto os soldados não estavam persuadidos disso, e era preciso no combate imediato atender absolutamente a esta prevenção dos soldados. Não era só Carcome batido e com o crédito de ignorante e de traidor para os soldados brutos, o oficial encarregado desta importante expedição; o conde de Lieutaud, que comandava em Arronches 200 cavalos que fugiram tão vergonhosamente, era novamente o comandante de uma cavalaria de menor número e que justificava o seu temor com a desconfiança e mau crédito do seu comandante. Não se podiam pois comentar, nem de propósito, erros tão crassos e palpavelmente funestos’.

A comparação com o ocorrido em Arronches era inevitável:  
  • ‘vendo que 200 cavalos fugiram ao inimigo em Arronches, agora julgavam suficientes 70 para defenderem um comboio de carros num terreno de planícies imensas’.

Criticando asperamente a incompetência já provada do duque de Lafões e do seu ajudante Francisco Stockler, mas também a aquiescência cúmplice de John Forbes e de Miguel Pereira Forjaz, Neves Costa analisava as características do terreno por onde se iam movimentar os portugueses:  
  • ‘Flor da Rosa e Crato distam do Gavião 5 para 6 léguas. Estas terras distam de Portalegre muito menos de 4, o terreno entre Gavião e Flor da Rosa é de planície aonde a cavalaria tem uma vantagem decisiva; é pois sobre um tal terreno, sobre a vanguarda do nosso exército e para a parte do inimigo que se envia um destacamento de 600 infantes e 70 cavalos, devendo executar a sua comissão num lugar mais próximo do inimigo do que nós; e nestas 5 léguas de distância ficando inteiramente abandonado, sem haver outro corpo que apoiasse em Gáfete ou noutro lugar a sua marcha retirada? Ainda se fosse um reconhecimento, um ataque repentino, etc., que eles tivessem de fazer, mas um movimento tão vagaroso qual era o de acompanhar carros, e fazê-los carregar, e conduzi-los carregados, não devia dar assaz tempo ao inimigo para marchar a atacar este comboio? Grande Deus, e é crível que nos nossos dias tantas loucuras se tenham podido cometer? E notando a publicidade da expedição projectada já no dia antecedente não ficava ainda mais certo o ataque do comboio?’

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 16 de março de 2012

Conflito Luso-Espanhol de 1801. O combate de Flor da Rosa. «A cavalaria inimiga foi rechaçada do lugar pelos soldados que ali se achavam; mas o nosso destacamento formando-se fora do dito lugar, e o inimigo reforçando-se com a sua Infantaria que vinha chegando, a nossa cavalaria foi a primeira em fugir…»


jdact

O Combate de Flor da Rosa apreciado por José Maria das Neves Costa

«Neste dia, 5 de Junho, se souberam pelos fugitivos as particularidades do combate de Flor de Rosa; pelo que se deduziu das relações destes, o destacamento foi surpreendido sem desculpa alguma.
Chegando a Flor de Rosa enquanto se faziam disposições para conduzir ou despejar os depósitos de farinha etc. a Tropa que se achava fatigada de ter marchado toda a noite, e parte da manhã se deitou a repousar enquanto outros dispunham e preparavam o que se havia de comer: Em lugar de entretanto se fazerem avançar rondas e patrulhas de cavalaria e Infantaria a uma a uma grande distância daquele lugar, não se faz mais do que colocar uma ou duas guardas a muito curta distância do corpo principal, no que se seguia o exemplo das que havia no Campo principal do Exército e a que eu chamava guardas de ‘cerimónia’ e não de segurança. Em consequência um destacamento de Hussares a cavalo e a pé que tinham saído de Portalegre no dia precedente ou antes naquela mesma manhã para o Crato talvez sabendo já da marcha projectada desde o dia 2 do nosso destacamento, ou não sei se unicamente por acaso, o certo é que pelas onze horas da manhã do dia 4 sabendo que os nossos se achavam em Flor da Rosa ali chegaram, e a sua vanguarda de cavalaria carregou e acutilou alguns dos nossos ainda desapercebidos mesmo à entrada do Lugar.

Então se tocou a rebate e tudo principiou em desordem e confusão.
A cavalaria inimiga foi rechaçada do lugar pelos soldados que ali se achavam; mas o nosso destacamento formando-se fora do dito lugar, e o inimigo reforçando-se com a sua Infantaria que vinha chegando, a nossa cavalaria foi a primeira em fugir, depois do que a Infantaria fez o mesmo, apesar do seu comandante dizer que se retirou em boa ordem por espaço de uma légua até à Aldeia da Mata. Esta retirada desordenada permitiu ao inimigo o fazer prisioneiros e acutilar muitos dos nossos soldados, e o apoderar-se das nossas 4 peças antes que estas pudessem fazer algum ou muito fogo. Finalmente Carcome não podendo mais conter a nossa Infantaria reunida mesmo em desordem, e restando-lhe ainda imensas planícies que atravessar diante da cavalaria inimiga que o acoçava se recolheu a uma tapada junto à Aldeia da Mata e ali depois de ter consumido o resto das munições que levaram os soldados se rendeu à discrição ficando prisioneiro de guerra, donde foi conduzido a Portalegre e Badajoz com todo o seu destacamento menos (além dos mortos) os que puderam fugir para o Gavião aonde chegaram o tenente-coronel Vasconcelos, o major José Profírio, e toda a cavalaria do destacamento. O conde de Lieutaud ficou também prisioneiro». In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.


Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Conflito Luso-Espanhol de 1801. O combate de Flor da Rosa. «…logo viram que o fogo ia enfraquecendo, e acabados todos as nossas munições e ameaçados de ser passados à espada e atacadas de todos os lados, e até com artilharia adiante de nós pronta a bater o bosque, eu capitulei a condição de bom trato à tropa…»

Cortesia de ecolibri

“Narração fiel e detalhada do combate do dia 4 de Junho entre as tropas Portuguesas comandadas pelo Coronel D. José Carcome Lobo, e Espanholas, pelo Marechal de Campo Marquês de Mora, junto à Vila de Flor da Rosa”

«Pelas 7 horas da tarde do dia quarta-feira, três de Junho saíram do Campo do Gavião 4 Companhias de Granadeiros, do 1º e 2º Regimento de Olivença, e 2 do Algarve, 2 de Caçadores e 40 cavalos portugueses e 28 ingleses, com 2 peças de 6 e 2 de três. Este destacamento, comandado pelo Coronel D. José Carcome Lobo, era seguido por 70 carros (17 de bestas, todos os mais de bois) a quem servia de escolta o Tenente de Cavalaria de Olivença Carlos António com 10 cavalos. O Tenente-Coronel de Cavalaria Conde de Liatou, e o de Infantaria do Algarve José de Vasconcelos, assim bem como o Sargento-maior do Regimento de Peniche José Porfírio vinham também adictos a este corpo, debaixo do comando do referido Coronel que trazia às suas ordens em qualidade de ajudantes (para a distribuição dos que precisasse dar) o Capitão Manuel António Caldeira e o Alferes José da Rosa e Sousa, ambos do 2º Regimento de Olivença. Depois de haver marchado toda a noite, veio romper o dia ao pé de Tolosa, cuja povoação eu fiz reconhecer, e informado de não haver inimigos, nem mesmo nas imediações, prossegui a minha marcha, fazendo avançar um corpo sobre Gáfete, de donde tive a mesma notícia, que nessa mesma manhã haviam saído daquela povoação, e debaixo de tais conhecimentos destaquei o Tenente-Coronel Vasconcelos com 60 granadeiros, 24 caçadores e 16 cavalos portugueses, para fazer transportar em alguns carros que lhe dei, os efeitos que eu já estava informado haver ali, pertencentes aos hospitais portugueses, dando ordem ao mesmo Tenente-Coronel que depois de feita aquela evacuação e transporte, se reunissem a mim, que me dirigia para a Vila de Flor da Rosa, e tudo assim se praticou.

Cortesia de ecolibri

E depois de reconhecido o mesmo lugar de Flor da Rosa, eu entrei e fiz descansar as tropa junto às suas armas, e a Cavalaria ao pé dos seus cavalos, e 2 sentinelas de Infantaria sobre a torre do lugar que é assaz eminente. Tudo nesta disposição pela uma para as duas horas da tarde, deram parte os Vedetas e avançadas de vir o inimigo pelo lado de Portalegre.

Fiz imediatamente pegar em armas a toda a tropa, e indo eu mesmo reconhecê-lo, presenciei e vi que se adiantavam. Coloquei duas bocas de fogo em lugar próprio de bater o inimigo de frente, logo que chegasse a alcance, encarregando esta comissão, além dos oficiais de Artilharia, ao Capitão de Granadeiros, António de Macedo Azevedo Galego, de conhecida honra e valor, a quem também acompanhou com a maior distinção o Tenente de Cascais António Tavares Castanheira. Destaquei duas companhias de Caçadores do 2º Regimento de Infantaria de Olivença e Setúbal, para vir ganhando pelo lados os flancos do inimigo, o incomodassem e entretivessem, ordenando também aos 40 Cavalos Portugueses e 28 Dragões Ingleses que sustentassem cada um destes partidos, as duas Companhias de Caçadores, confiando o comando e operação ao Sargento-maior José Porfírio. Dei o comando das Quatro Companhias de Granadeiros ao Tenente-Coronel Vasconcelos, para que marchando sobre a retaguarda buscasse uma posição livre da grande planície, que mesmo lhe notaria, pois que o ia seguir com o Tenente-Coronel Conde de Liatou, a quem eu imediatamente comuniquei todas as minhas instruções, como meu segundo, que em um instante poderia ser o primeiro sendo eu morto, e ordenei aos carros de bestas se retirassem com toda a pressa, o que era impossível fazer os de bois.
Tais foram as minhas disposições.

jdact

Adiantou-se o inimigo e principiou a artilharia a jogar sobre ele, o que demorou alguma coisa. Porém, a Cavalaria, tanto inglesa como portuguesa fugiu a toda a brida, atropelando não só a Infantaria mas até a minha própria pessoa; e então, expostos sem nenhum apoio as Companhias de Caçadores fizeram quanto puderam, e mesmo perdendo muita gente que lhes foi morta e ferida por partidos avançados da Cavalaria inimiga, se vieram retirando pelo modo que lhe foi possível, atirando sempre sobre o inimigo. E a coluna das quatro Companhias de Granadeiros cuja testa eu tomei comigo o Conde de Liatou, formou, seguindo a nossa retirada com muito trabalho, por causa da Cavalaria que nos seguia, sobre quem fizesse fuga; porém, enfraquecendo cada vez mais, não só pela gente que íamos perdendo ferida e morta, mas pelas muitas que se iam extraviando e fugindo. E nesta ordem de aperto, aproveitando todo o lugar pedregoso que mais nos pusesse ao abrigo da Cavalaria inimiga, vencemos uma légua e meia de terreno até à Aldeia da Mata, aonde encontrando um pequeno bosque com um pequeno muro de pedra solta, fiz entrar a Infantaria que me restasse e guarnecer o mesmo muro, tomando-o como parapeito. O capitão Macedo e o Tenente António Tavares Castanheira tiraram a Artilharia quase até ao mesmo serrado; porém, não podendo já de modo algum as bestas puxarem por serem péssimas e faltas de forças, se viram obrigados a abandoná-los e a unir-se ao Corpo que se achava dentro do senado que refiro, e ao abrigo do pequeno bosque que precede a Aldeia da Mata, aonde nos defendemos fazendo fogo sobre o inimigo por espaço de duas horas. Porém, entretanto desenvolvendo estes quinze Esquadrões de Cavalaria pelos flancos, e puxando sobre a frente três Batalhões de Infantaria, destacaram um trombeta para nos assumar, logo viram que o fogo ia enfraquecendo, e acabados todos as nossas munições e ameaçados de ser passados à espada e atacadas de todos os lados, e até com artilharia adiante de nós pronta a bater o bosque, eu capitulei a condição de bom trato à tropa, bagagem, armas e cavalgaduras ou oficiais, que se efectuou, e que tanto à [...] cumpriram, que havendo alguns oficiais que não tinham cavalos, os inimigos se apearam e lhes deram os seus.

Cortesia de panoramio

Todos os oficiais que comigo assinaram esta narração se portaram dignamente; porém nada posso dizer dos muitos que se extraviaram, cuja sorte ignoro. Mas não a de muitos Soldados que no princípio da acção fugiram, e soube com vergonhoso escândalo o seu destino. Às 10 para as 11 horas do dia foi a nossa entrada na Vila de Flor da Rosa, e às 9 do mesmo dia saiu da cidade de Portalegre o Marechal de Campo o Marquês de Mora, com 2500 Cavalos e três Batalhões de Infantaria, com que foi a acção e por quem formou prisioneiros.
Dizem os espanhóis que este corpo assaz tão superior se dirigiu àquele ponto com o mesmo fim para que nos fazíamos, sem mais conhecimento uns da estada dos outros, do que o encontro e o ataque dos pontos avançados de ambas as partes. O inimigo tem exercitado o mesmo com generosidade todas as leis da hospitalidade a favor de toda a tropa prisioneira, cuja distinção, comportamento e valor louvam.
Tal é o geral detalhe de todo o desgraçado sucesso que tenho a honra de transmitir às mãos de Vª. Exª.
Badajoz, 9 de Julho de 1801»

In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT


domingo, 8 de maio de 2011

Conflito Luso-Espanhol de 1801. O Combate de Flor da Rosa. «...A infantaria foi colocada nas alturas a sul de Gavião, formando as unidades de emigrados franceses a segunda linha. O parque de artilharia ficou junto à vila e a cavalaria num vale estreito a sul da mesma, ocupando uma posição impossível de defender uma vez que era dominada por elevações que os portugueses não controlavam»

Cortesia de edicoescolibri 

«Após a evacuação de Portalegre e das posições junto à serra de São Mamede, as tropas portuguesas procederam a uma retirada geral em direcção ao Tejo, acabando por se instalar junto a Gavião. A descrição minuciosa feita pelo Brigadeiro de Engenheiros José Maria das Neves Costa permite-nos acompanhar em pormenor essas movimentações. A 31 de Maio de 1801, já as forças lusas acampavam junto a Gavião, partindo no dia seguinte o Marquês de Tancos para Abrantes, acompanhado pelo desembargador João Ferreira Batalha, encarregado da logística, a fim de orientar a chegada das provisões destinadas a um exército onde o ânimo atingia níveis que rivalizavam com a penúria de alimentos. A infantaria foi colocada nas alturas a sul de Gavião, formando as unidades de emigrados franceses a segunda linha. O parque de artilharia ficou junto à vila e a cavalaria num vale estreito a sul da mesma, ocupando uma posição impossível de defender uma vez que era dominada por elevações que os portugueses não controlavam.

Cortesia de edicoescolibri
O desastre de Arronches não servira de lição ao comando português. Num vale tão exíguo, em caso de ataque inimigo, a coordenação entre infantaria e cavalaria seria impraticável. Por outro lado, o terreno situado entre a vila e o rio Tejo não estava ocupado militarmente nem sequer nele foram colocadas vigias, confiando os chefes militares portugueses na inacessibilidade do terreno. Neves Costa, o mais rigoroso crítico da campanha e dos chefes militares portugueses, verberou asperamente tal excesso de confiança nas defesas naturais, sublinhando que, se essas margens eram, de facto, avessas a qualquer força de cavalaria ou de artilharia, uma «infantaria atrevidamente conduzida podia por ali avançar e rodear a nossa esquerda e fazer-nos por isso perder uma batalha».

A opção pelas terras junto a Gavião para acantonar o exército português provocou, por outro lado, a perda de comunicações com outras localidades da província, com o consequente desconhecimento dos movimentos inimigos. Nem sequer se conservaram partidas de observação nos caminhos de Alpalhão e Portalegre que mantivessem o comando português informado da evolução das tropas espanholas.

Cortesia de edicoescolibri
A 2 de Junho chegou ao campo do Gavião a notícia da entrada dos espanhóis em Portalegre. Mas, sobre a situação de Campo Maior, nada se sabia. Consciente dessa falta, o Duque de Lafões incumbiu o general John Forbes Skellater de estabelecer postos avançados que dominassem as regiões circunvizinhas do acampamento, e de proceder ao levantamento topográfico do terreno onde o exército se encontrava bivacado e suas imediações, «com a individualização necessária das ribeiras, fontes, estradas, eminências e de tudo o que convém reconhecer para as disposições de defesa». O dispositivo montado estava, porém, longe do ideal. Os postos eram insuficientes e na sua maior parte situavam-se a curta distância do acampamento, o que impediria um aviso atempado em caso de ataque inimigo. Os flancos estavam desprotegidos e as patrulhas enviadas em reconhecimento pelo caminho de Gáfete raramente se atreviam a sair da estrada para se internarem no campo.

Outra situação ilustrativa da debilidade do campo do Gavião - sem falar nas deserções constantes - e da forma apressada e caótica como a retirada se efectuara, foi o facto de, embora Alpalhão, Nisa, Crato e outras localidades tenham sido abandonadas pelas tropas portuguesas, ali se conservarem importantes armazéns de víveres e apetrechos, completamente indefesos à mercê do inimigo. Restava determinar se era viável reparar o mal... Dada a proximidade daquelas localidades em relação às linhas espanholas, cuja localização continuava a ser ignorada, seria impossível o envio de tropas para defenderem os armazéns, a não ser que pudessem contar com poderosos efectivos, que, em boa verdade, não existiam». In António Ventura, O Combate de Flor da Rosa, Conflito Luso-Espanhol de 1801, Edições Colibri, C. M. do Crato, 1996, ISBN 972-8288-23-9.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Conflito Luso-Espanhol de 1801: Parte II. O «Combate de Arronches» A guerra que opôs portugueses e espanhóis, em 1801, teve como palco privilegiado o Alto Alentejo. Nessa breve campanha de duas semanas, que se saldou pela derrota das forças lusitanas e pela perda de Olivença e seu termo, apenas ocorreram acções militares com algum significado em Arronches, Flor da Rosa e Campo Maior

Cortesia de edicoescolibri

Com a devida vénia a António Ventura, o Combate de Flor da Rosa, edição patrocinada pela Câmara Municipal do Crato, ISBN 972-8288-23-9, Edições Colibri, Junho de 1996.

O Combate de Arronches
«A posição de Arronches foi ocupada por 1300 homens de Infantaria e de Cavalaria, sob o comando do Coronel D. José Carcome Lobo, com instruções para não guarnecer a praça, mas de a utilizar apenas como ponto de apoio. Não se pretendia conservar Arronches, que não tinha, aliás, condições para uma defesa eficaz, dado o mau estado das suas fortificações, mas apenas estacionar ali uma força de observação para manter linhas de comunicação e para qualquer eventual operação de auxílio a Campo Maior, que sofria um rigoroso cerco, ou surtida sobre Monforte. Essas forças deviam recusar um confronto de envergadura com o inimigo, e possuíam instruções para, em caso de ataque espanhol, retirar em boa ordem em direcção a Alegrete. As rotas estavam previamente definidas e, no lugar de Mosteiros, o Brigadeiro Bernardim Freire de Andrade, com algumas forças, apoiaria a operação a realizar ou daria cobertura à retirada.

Alegrete
Cortesia de azenhadoramalho
Verificada a impossibilidade de socorrer Campo Maior, chegam a Arronches notícias de uma próxima investida espanhola. Monforte fora ocupado, o mesmo sucedendo a Assumar. Pelos diários de operações das Divisões espanholas observamos que duas delas - a 2ª e a de Vanguarda – avançaram sobre Arronches, onde corriam notícias sobre uma hipotética presença de novas tropas em Codecera, o que, a ser verdade, e juntamente com as que avançavam a partir de Assumar, ameaçariam a praça pelos flancos. Alguns contactos havidos entre vedetas portuguesas e espanholas comprovavam que a ameaça era, pelo menos em parte, real. D. José Carcome, em vez de retirar, ficou em Arronches, e quase foi surpreendido pela chegada súbita das forças adversas. Nem sequer tomou partido de algumas vantagens do terreno, encontrando-se a maior parte dos soldados portugueses formados no Rossio, fora das muralhas.

Arronches
Cortesia de cmarronches
A derrota foi rápida e só não assumiu a forma de uma catástrofe total pela pronta intervenção de Bernardim Freire, que enviou algumas tropas de Mosteiros para protegerem a retirada dos que estavam em Arronches. A confusão não podia ser mais completa; a Cavalaria debandou no meio do maior caos, atropelando a Infantaria. Os soldados fugiam cada um para seu lado, encurralados entre o rio e os muros da Vila, abandonando bagagens e armas.O relatório de D. José Carcome, onde pretende justificar a sua actuação, deve ser confrontado com o que Bernardim Freire de Andrade elaborou sobre os mesmos sucessos. Apresentam, como é óbvio, diferenças assinaláveis...

D. Manuel Godoy, nas suas Memórias, escritas muitos anos depois, no exílio, sem recurso a documentos e, por isso mesmo, com numerosas imprecisões, descrevia o combate de Arronches da seguinte forma: «Era ya el 28; noticioso yo de que el 30 era el dia senalado para el ataque general de nuestias posiciones, resolvi anticiparme y cargué el 29 sobre Arronches. La guarnición de aquella plaza, fuerte casi de dos mil hombres de tropas veteranas, o fuese por estar mal segura de poder defenderia sin el auxilio de las tropas que debían mostrarse el 30, o creyendo más bien que el ataque general se comenzaba ya por otros puntos, dejó la fortaleza para hacernos frente a campo raso, cierta de tener a poco trecho detrás de ella la vanguãrdia del Ejército. Llegó, en efecto, ésta y la caballería enemiga cubriendo sus dos alas. Nuestras tropas ligeras de vanguardia y algunos escuadrones de la división primera nos bastaron para ahuyentar a los que en grande fuerza habían de sostener a los de Arronches; la caballería enemiga, huyendo a toda brida desde el primer encuentro, desbarató los batallones que venía cubriendo; la fuga de éstos fué precipitada; la guarnición de Arronches, cortada de la plaza, retirándose de un punto a otro, y aguardando el socorro, nos hizo frente un poco tiempo, pero en vano. Unos trescientos hombres quedaron fuera de combate entre muertos y heridos; outro número casi igual quedaron prisionerosj los demás pudieron escaparse amparados de las malezas y con mejor conocimiento que nosotros de las sendas y los rodeos de aquel terreno. Arronches fué ocupada por nosotros».

Manuel Godoy
Cortesia de wikipédia

D. José Carcome, muito criticado pela incompetência demonstrada, foi considerado responsável pelo ocorrido, mas não sofreu qualquer punição, continuando a manter a confiança do Duque de Lafões que, na noite em que recebeu a notícia do que sucedera em Arronches, elogiou o comportamento daquele oficial bebendo à saúde da sua bravura. No livro que dedicámos ao Combate de Arronches alinhámos algumas notas biográficas, ainda que incompletas, sobre aquele polémico militar.

D. José Carcome Lobo nascera em Ameixoeira, em 1757, filho e neto de militares. Assentou praça em Agosto de 1774 no Regimento de Lippe, transitando em 1778 para o de Setúbal. A partir de l781 faz serviço no Regimento da Armada,nomeadamente na nau «Santo António» e nas fragatas «Bom Despacho» e «Cisne» (1785). Em Abril de 1794 era Capitão graduado do Regimento de Cascais, passando para o Regimento de Infantaria de Castelo de Vide como Sargento-Mor (25 de Abril). Nesse mesmo ano, a 15 de Outubro, passou para a 2ª Companhia de Granadeiros do Exército Auxiliar à Coroa de Espanha. Como reconhecimento pelos serviços prestados no Rossilhão e na Catalunha, foi promovido a Tenente Coronel agregado do Regimento de Castelo de Vide (17-12-1795) e pelas «suas qualidades merecimentos e serviços», era novamente promovido em 17 de Dezembro de 1797, passando para o 2º Regimento de Infantaria de Olivença com a patente de Coronel.

Geografia Histórica, 1736
Cortesia de edicoescolibri

Quanto à sua experiência guerreira, existem referências contraditórias. Soriano, que escreve muito depois dos acontecimentos e certamente influenciado pela opinião geral desfavorável sobre o militar, afirma que fora «criado somente nos exercícios de paradas», enquanto que Stockler refere a experiência de Carcome no Rossilhão, concluindo que o que lhe faltava era preparação teórica, não deixando, porém, de rematar: «mas de que vale a prática da guerra sem os princípios da Arte?».

Após a derrota de Arronches, as tropas portuguesas sediadas entre aquela vila e Alegrete, comandadas por Bernardim Freire de Andrade, retiraram em direcção a Portalegre. Nesta cidade, onde já se encontrava o Duque de Lafões, as notícias da derrota causaram uma profunda inquietação, ampliada por boatos alarmistas que davam como certa a chegada de tropas espanholas aos arredores da cidade e de reforços inimigos a Valência de Alcântara, o que possibilitariam uma nova frente de ataque. O Exército português abandonou Portalegre e empreendeu uma retirada em direcção a Alpalhão, no que foi seguido quer pelas forças que marchavam a partir de Alegrete, e que tomaram a estrada de Castelo de Vide, quer por outros corpos que guarneciam a Serra de Portalegre. As tropas espanholas puderam avançar sem resistência, apoderando-se de armazéns, depósitos de munições, hospitais e bagagens que as forças portuguesas abandonaram. Em alguns casos, as próprias autoridades portuguesas cooperavam com os invasores , como sucedeu com o governador de Portalegre, Mateus de Pina Pereira Moscoso». In O Combate de Flor da Rosa, edição patrocinada pela Câmara Municipal do Crato, ISBN 972-8288-23-9, Edições Colibri, Junho de 1996.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT