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sábado, 13 de junho de 2020

O Deus das Pequenas Coisas. Arundhati Roy. «As velas grandes sobre o altar estavam arqueadas. As pequenas não. Uma velha senhora disfarçada de parente distante (que ninguém reconheceu)»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De qualquer modo, agora pensa em Estha e Rahel como Eles porque, separadamente, eles os dois já não são o que Eles eram ou aquilo que algum dia pensaram que Eles seriam.
Nunca mais.
As suas vidas têm agora tamanho e forma. Estha tem a dele e Rahel tem a dela.
Margens, Orlas, Fronteiras, Bordas e Limites apareceram como um bando de duendes nos seus horizontes separados. Criaturas pequenas com sombras longas, patrulhando o Fim. Turvo. Meias-luas suaves formaram-se sob os seus olhos e eles têm a idade que Ammu tinha quando morreu. Trinta e um.
Nem velhos.
Nem novos.
Mas de uma idade viável, morrível.

Estha e Rahel quase nasceram num autocarro: o carro em que Baba, o seu pai, transportava Ammu, a sua mãe, para o hospital de Shillong para ela dar à luz, avariou na estrada ziguezagueante da propriedade do chá em Assão. Abandonaram o carro e fizeram sinal a um autocarro apinhado dos Transportes Estatais. Devido à estranha compaixão dos muito pobres pelos comparativamente desafogados, ou talvez apenas por notarem a avançadíssima gravidez de Ammu, alguns passageiros sentados cederam o lugar ao casal e, durante o resto da viagem, o pai de Estha e Rahel teve de segurar o ventre da sua mãe (com eles lá dentro) para o impedir de balouçar. Isso foi antes de eles se divorciarem e de Ammu voltar a viver em Kerala.
Segundo Estha, se tivessem nascido no autocarro poderiam ter usufruído de viagens de autocarro gratuitas durante o resto da vida. Ninguém sabia exactamente onde ele obtivera tal informação, ou como é que sabia tais coisas, mas durante anos a fio os gémeos guardaram um leve ressentimento contra os pais por estes os terem deserdado de uma vida inteira de viagens de autocarro gratuitas.
Também acreditavam que, se fossem atropelados numa passadeira, o Governo pagaria os seus funerais. Tinham a certeza absoluta de que era para isso que as passadeiras existiam. Funerais pagos. Claro que em Ayemenem não havia passadeiras onde se pudesse ser atropelado, nem sequer em Kottayam, a cidade mais próxima, mas eles tinham visto algumas pela janela do carro no caminho para Cochim, que ficava a duas horas de viagem. O Governo nunca pagou o funeral de Sophie Mol porque ela não foi atropelada numa passadeira. O funeral dela foi em Ayemenem, na igreja velha recém-pintada. Sophie era prima de Estha e Rahel, filha do tio Chacko. Viera em visita de Inglaterra. Estha e Rahel tinham sete anos quando ela morreu. Sophie Mol tinha quase nove. Teve um caixão especial de tamanho infantil.
Forrado a cetim.
Com puxadores de bronze reluzentes.
Ela estava deitada no caixão, com as suas calças Crimplene amarelas à boca-de-sino, uma fita no cabelo e a sua adorada malinha go-go made in England. Tinha o rosto pálido e encarquilhado como o polegar de um dhobi depois de estar demasiado tempo na água a lavar roupa. A congregação reuniu-se à volta do caixão e a igreja amarela inchou como uma garganta ao som dos cânticos tristes. Os padres com barbas encaracoladas balouçavam os turíbulos de incenso suspensos em correntes e nunca sorriam aos bebés como costumavam sorrir aos domingos.
As velas grandes sobre o altar estavam arqueadas. As pequenas não.
Uma velha senhora disfarçada de parente distante (que ninguém reconheceu), mas que frequentemente aparecia perto dos cadáveres em funerais (uma viciada em funerais? Uma necrófila latente?), colocou colónia num chumaço de algodão e, com ar devoto e gentilmente desafiador, salpicou a testa de Sophie Mol. Sophie Mol cheirava a colónia e a madeira de caixão.
Margaret Kochamma, a mãe inglesa de Sophie Mol, não deixou Chacko, o pai biológico de Sophie Mol, pôr o braço à sua volta para a confortar.
A família aglomerou-se num canto. Margaret Kochamma, Chacko, Baby Kochamma e, ao lado dela, a cunhada, Mammachi, a avó de Estha e Rahel (e de Sophie Mol). Mammachi era quase cega e usava óculos escuros sempre que saía de casa. As lágrimas escorriam-lhe por trás dos óculos e tremiam-lhe no queixo como gotas de chuva num beiral. Parecia pequena e doente no seu sari branco-sujo e engomado. Chacko era o único filho de Mammachi. A dor dela doía-lhe. A dele dilacerava-a.
Embora Ammu, Estha e Rahel tivessem sido autorizados a assistir ao funeral, foram obrigados a permanecer separados do resto da família. Ninguém olhava para eles.
Estava calor na igreja e as pontas brancas dos jarros engelhavam e encaracolavam. Uma abelha morreu numa flor do caixão. As mãos de Ammu tremeram e, com elas, o livro de hinos. Tinha a pele fria. Junto dela estava Estha, quase a dormir, os olhos doendo e brilhando como vidro, a face escaldando a pele descoberta do braço de Ammu que tremia ao segurar o livro de hinos. Rahel, por seu lado, estava bem acordada, ferozmente vigilante, frágil e exausta na sua batalha contra a Vida Real». In Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, 1997, Edições ASA, 1998, ISBN 972-411-937-8.

Cortesia de EASA/JDACT

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O Deus das Pequenas Coisas. Arundhati Roy. «… é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Deus das Pequenas Coisas é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de muitas histórias. A história dos gémeos Estha e Rabel, nascidos em 1962, por entre notícias de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que ama de noite o homem que os filhos amam de dia, e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas. A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol. A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma, resignada a adiar para a eternidade o seu amor terreno pelo padre Mulligan... Estas são as pequenas histórias de uma família que vive numa época conturbada e de um país cuja essência parece eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer. O Deus das Pequenas Coisas é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez. Em 1997, mereceu o Booker Prize, o mais importante prémio literário da língua inglesa». In Sinopse

«Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam. Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e morrem, inchadas e aturdidas pelo sol. As noites são límpidas, mas inundadas de ócio e de soturna expectativa. Porém, no princípio de Junho, a monção sudoeste irrompe e principiam três meses de vento e água, com pequenas abertas de sol brilhante que crianças excitadas aproveitam para brincar. O campo cobre-se de um verde atrevido. As fronteiras esbatem-se à medida que as sebes de tapioca ganham raiz e florescem. Muros de tijolo cobrem-se de verde-musgo. As pimenteiras serpenteiam pelos postes de electricidade. Trepadeiras silvestres rebentam por entre as margens de laterite e galgam as estradas inundadas. Barcos bolinam nos bazares. E peixe miúdo agita-se nas poças que enchem os buracos nas estradas do Departamento de Obras Públicas.
Chovia quando Rahel regressou a Ayemenem. Oblíquas cordas prateadas estoiravam sobre a terra solta, sulcando-a como pólvora. A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas. As paredes, raiadas de musgo, tinham-se tornado moles e ligeiramente bojudas devido à humidade proveniente do solo. O jardim selvagem e pujante estava repleto do sussurro e frémito de vidas diminutas. Por entre a vegetação rasteira, uma cobra esfregava-se contra uma pedra cintilante. Rãs amarelas, enormes e esperançadas, navegavam pelo lago escumoso à procura de parceiros. Um mangusto encharcado disparou pela alameda coberta de folhas.
A casa parecia vazia. As portas e as janelas estavam trancadas. A varanda da frente deserta. Sem mobília. Mas o Plymouth azul-celeste com barbatanas cromadas ainda estava parado lá fora e Baby Kochamma ainda estava viva lá dentro. Era a tia-avó de Rahel, a irmã mais nova do seu avô. O seu verdadeiro nome era Navomi, Navomi Ipe, mas todos lhe chamavam Baby. Tornou-se Baby Kochamma quando já tinha idade suficiente para ser tia. Rahel não a viera ver, porém. Nem sobrinha nem tia-avó alimentavam ilusões a esse respeito. Rahel viera ver o irmão, Estha. Eram gémeos biovulares. Dizigóticos, chamavam-lhes os médicos. Nascidos de dois óvulos separados mas fertilizados simultaneamente. Estha, Esthappen, era mais velho dezoito minutos. Estha e Rahel nunca se pareceram muito, e mesmo quando eram crianças de braços magros e peito liso, com lombrigas na barriga e poupa à Elvis Presley, não despertavam o habitual Quem é quem? e Qual é qual?, a parentes demasiado sorridentes ou aos bispos sírios ortodoxos que amiúde visitavam a casa de Ayemenem pedindo donativos.
A confusão alojava-se num lugar mais fundo e secreto. Nesses primeiros anos amorfos, quando a memória estava ainda a começar, quando a vida parecia cheia de Princípios e sem Fins e Tudo era Para Sempre, juntos Esthappen e Rahel consideravam-se como Eu e, separada e individualmente, como Nós. Como se fossem uma espécie rara de gémeos siameses, fisicamente separados mas com identidades unidas. Agora, passados esses anos, Rahel lembra-se de acordar uma noite aos risinhos por causa do sonho divertido de Estha. Guarda também outras lembranças que não tem o direito de guardar. Lembra-se, por exemplo (embora não tenha lá estado), do que o Homem Laranjada Limonada fez a Estha no Cinema Fitas Abhilash. Lembra-se do sabor das sandes de tomate, sandes de Estha, que Estha comia, no Expresso de Madrasta para Madrasta. E estas eram apenas as pequenas coisas». In Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, 1997, Edições ASA, 1998, ISBN 972-411-937-8.

Cortesia de EASA/JDACT