Mostrar mensagens com a etiqueta Friedrich Nietzsche. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Friedrich Nietzsche. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Quando Nietzsche Chorou. Irvin D. Yalom. «Ali estava ela! A mulher descendo a Riva dei Carbon e adentrando o café. Somente ela poderia ter escrito aquela nota, aquela bela mulher, alta e esguia, envolta num casaco de peles…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O carrilhão de San Salvatore invadiu o devaneio de Josef Breuer. Puxou o pesado relógio de ouro do bolso do colete. Nove horas. Novamente, leu o pequeno cartão de borda prateada recebido no dia anterior: 21 de Outubro de 1882, doutor Breuer, preciso vê-lo para um assunto da maior urgência. O futuro da filosofia alemã está em jogo. Encontre-me amanhã cedo às nove horas no Café Sorrento. Lou Salomé.
Um bilhete impertinente! Havia anos ninguém o abordava com tanta sem-cerimónia. Ele não conhecia nenhuma Lou Salomé. Nenhum remetente no envelope. Nenhuma forma de informar a essa pessoa que nove horas era inconveniente, que a sra. Breuer não gostaria de tomar o café da manhã sozinha, que o Breuer estava de férias e que não estava interessado em assuntos urgentes, aliás, Breuer viera a Veneza precisamente para se livrar de assuntos urgentes. Não obstante, lá estava ele no Café Sorrento às nove horas em ponto, esquadrinhando os rostos ao seu redor e perguntando-se qual deles poderia ser a impertinente Lou Salomé. Outro café, senhor? Breuer anuiu com a cabeça para o empregado, um rapaz de treze ou quatorze anos e de cabelos pretos, lisos e húmidos, penteados para trás. Quanto tempo durara seu devaneio? Consultou novamente o relógio. Outros dez minutos de vida desperdiçados. E desperdiçados em quê? Como de hábito, devaneara sobre Bertha, a bela Bertha, sua paciente nos últimos dois anos. Estava recordando a sua voz provocante: doutor Breuer, porque tem tanto medo de mim? Lembrou as suas palavras quando lhe dissera que deixaria de ser seu médico: aguardarei. Você sempre será o único homem em minha vida. Ele se censurou: pelo amor de Deus, pare! Pare de pensar! Abra os olhos! Veja! Deixe o mundo entrar! Breuer ergueu a sua xícara, inalando o aroma do saboroso café, junto com profundas inspirações do frio ar veneziano do mês de Outubro. Volveu a cabeça e olhou ao redor. As outras mesas do Café Sorrento estavam repletas de homens e mulheres que faziam o desjejum, na maioria, turistas, e quase todos de meia-idade. Muitos seguravam o jornal com uma das mãos e a xícara de café com a outra. Para além das mesas, viam-se nuvens de pombos azul-cinza que esvoaçavam e mergulhavam. As águas paradas do Grand Canal, brilhando com os reflexos dos grandes palácios alinhados nas suas margens, eram perturbadas somente pela esteira ondulante de uma gôndola costeira. As outras embarcações ainda dormiam, amarradas em estacas tortas espalhadas aqui e ali ao longo do canal, qual lanças espetadas ao acaso por alguma mão gigante.
E isso mesmo: olhe ao redor, seu tolo! Breuer proferiu de si para consigo. As pessoas vêm do mundo inteiro para admirar Veneza; pessoas que se recusam a morrer sem serem abençoadas por esta beleza. Quanto da vida eu perdi, pensou-simplesmente por deixar de olhar? Ou por olhar e não ver? No dia anterior, fizera uma caminhada solitária pela ilha de Murano e, depois de uma hora, não vira nada, não registrará nada. Nenhuma imagem se transferira de sua retina para o córtex. Toda a sua atenção se consumira em pensamentos sobre Bertha: o sorriso encantador, os olhos adoráveis, a sensação de seu corpo quente e confiante e sua respiração acelerada quando ele a examinava ou massageava. Tais cenas tinham poder, uma vida própria; sempre que baixava a guarda, elas lhe invadiam a mente e usurpavam a sua imaginação. Será esta a minha sina para sempre?, se perguntou. Estarei destinado a ser um simples palco no qual as memórias de Bertha representam eternamente seu drama? Alguém se levantou na mesa ao lado. O ruído agudo da cadeira metálica contra o tijolo o despertou e, mais uma vez, ele procurou Lou Salomé. Ali estava ela! A mulher descendo a Riva dei Carbon e adentrando o café. Somente ela poderia ter escrito aquela nota, aquela bela mulher, alta e esguia, envolta num casaco de peles, marchando altivamente em direcção a ele, agora, através do emaranhado de mesas lotadas. Ao se aproximar, Breuer notou que ela era jovem, talvez até mais jovem do que Bertha, possivelmente uma colegial. Mas aquela presença impositiva, extraordinária! Poderia levá-la longe! Lou Salomé prosseguiu até ele sem demonstrar qualquer hesitação. Como poderia estar tão certa de sua pessoa? A mão esquerda de Breuer rapidamente golpeou as cerdas ruivas de sua barba para limpá-la das migalhas de pãozinho. Sua mão direita puxou a parte lateral da jaqueta preta que vestia para que não ficasse erguida em torno do pescoço. Ao chegar a poucos metros de distância, a jovem deteve-se por um instante e fitou-o ousadamente nos olhos. De súbito, a mente de Breuer cessou de tagarelar. Agora, olhar não exigia concentração. Agora, retina e córtex cooperavam perfeitamente, permitindo que a imagem de Lou Salomé penetrasse livre em sua mente. Era uma mulher de extraordinária beleza: testa altiva, queixo forte e bem esculpido, olhos azuis brilhantes, lábios cheios e sensuais, e seus cabelos louro-prateados, negligentemente penteados, se reuniam em um coque alto, expondo-lhe as orelhas e o pescoço longo e gracioso. Ele notou com especial prazer as mechas de cabelo que escapavam do coque e descaíam arrojadamente em todas as direções.
Mais três passos, e ela atingiu a sua mesa. Doutor Breuer, sou Lou Salomé. Posso?, perguntou, apontando a cadeira vazia. Sentou-se tão prontamente que Breuer não teve tempo de cumprimentá-la como devia: levantar-se, curvar-se, beijar-lhe as mãos e puxar a cadeira para ela. Garçom, garçom! Breuer estalou os dedos animadamente. Um café para a dama. Café com leite. Olhou em direcção à senhorita Salomé. Ela anuiu com a cabeça e, a despeito do frio matinal, tirou o casaco de peles. Sim, um café com leite. Breuer e sua companheira de café ficaram sentados em silêncio por um momento. Depois, Lou Salomé fitou-o directamente nos olhos e começou: tenho um amigo em desespero. Temo que venha a se matar num futuro muito próximo. Seria uma grande perda para mim e uma grande tragédia pessoal, pois eu carregaria certa responsabilidade». In Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou, 1992, Editora Ediouro, 1995, Saída de Emergência, 2005, ISBN 978-972-883-935-2.

Cortesia de Ediouro/SdeEmergencia/JDACT

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Filosofia a Golpes de Martelo. O Crepúsculo dos Ídolos. Friedrich W. Nietzsche. «O que precisa ser demonstrado para ser criado, não vale grande coisa. … a autoridade ainda é parte dos costumes aceitos, em todo o lugar em que não se ‘raciocina’, mas em que se comanda, o dialéctico é uma espécie de polichinelo»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Problema de Sócrates
«Em todos os tempos os sábios fizeram o mesmo juízo da vida: ela não vale nada... Sempre em toda parte ouvimos sair de suas bocas a mesma palavra, uma palavra replecta de dúvida, replecta de melancolia, replecta de cansaço da vida, replecta de resistência contra a vida. Mesmo Sócrates disse ao morrer. Viver, é estar há muito tempo enfermo: devo um galo a Esculápio libertador. Mesmo Sócrates tivera o bastante disso. O que isso demonstra? O que isso mostra? Outrora se teria dito (oh, e se disse, e muito alto, e nossos pessimistas em primeiro lugar!): É necessário que haja aqui algo de verdadeiro! O consensus sapientium demonstra a verdade. Falamos assim ainda hoje? Podemos? É preciso em todos os casos que haja aqui alguma coisa de enfermo, eis nossa resposta: esses sábios entre os sábios de todos os tempos, seria mister primeiramente vê-los de perto! Talvez não estivessem firmes sobre suas pernas, talvez fossem retardatários, vacilantes, decadentes? A sabedoria quem sabe aparecesse sobre a Terra como um corvo, ao qual um ligeiro odor de carniça entusiasma? ... Essa irreverência de considerar os grandes sábios como tipos de decadência nasce em mim precisamente num caso em que o preconceito letrado e iletrado se opõe com maior força: reconheci em Sócrates e em Platão sintomas de decadência, instrumentos da decomposição grega, pseudo-gregos, antigregos (A Origem da Tragédia, 1872). Esse consensos sapientium, sempre o compreendi claramente, não prova, de maneira alguma, que os sábios tivessem razão naquilo em que concordavam. Prova isto sim que eles, esses sábios entre os sábios, mantinham entre si algum acordo fisiológico, para assumirem diante da vida essa mesma atitude negativa, para serem tidos por tomá-la. julgamentos, avaliações da vida, a favor ou contra, não podem, em última instância, jamais ser verdadeiros: o único valor que apresentam é o de serem sintomas e só como sintomas merecem ser levados em consideração; em si tais julgamentos não passam de idiotices. É necessário portanto estender a mão para se poder apreender essa finesse extraordinária de que o valor da vida não pode ser apreciado. Não pode ser apreciado por um vivo, porque é parte e até objecto de litígio, e não juiz; nem pode ser apreciado por um morto, por outras razões. Tratando-se dum filósofo, ver um problema no valor da vida constitui uma objecção contra ele mesmo, constitui uma falta de discernimento e faz com que se ponha em dúvida sua sabedoria. Como? Todos esses grandes sábios não só teriam sido decadentes, mas, além disso, pode ser que nem fossem sequer sábios? De minha parte, volto ao problema de Sócrates.
Sócrates pertencia, por sua origem, ao populacho. Sabe-se, percebe-se que era feio. A fealdade, objecção em si era quase uma refutação entre os gregos. E, em suma, era grego Sócrates? A fealdade é, muitas vezes, sinal duma evolução entravada, pelo cruzamento, ou então o sinal duma evolução descendente. Os antropólogos que se dedicam à criminologia nos dizem que o tipo criminoso é feio; monstrum in fronte, monstrum in animo. E o criminoso é um decadente. Sócrates era um tipo criminoso? Pelo menos não parece contradizê-lo aquele famoso juízo fisionómico que chocou todos os amigos de Sócrates. De passagem por Atenas, um estrangeiro fisionomista disse frontalmente a Sócrates que ele era um monstro que ocultava todos os vícios e maus desejos. Sócrates respondeu simplesmente: Conheces-me, meu senhor. As licenciosidades que confessa e a anarquia dos instintos não são os únicos indícios de decadência em Sócrates; também constitui um indício a superfectação do lógico e essa malícia raquítica que o distingue. Não olvidemos tampouco as alucinações auditivas que sob o nome de demónio de Sócrates receberam uma interpretação religiosa. Tudo era nele exagerado, bufão, caricaturesco tudo, ademais, pleno de segundas intenções, de subterrâneos. Quisera adivinhar de que idiossincrasia pode nascer a equação socrática: razão = virtude = felicidade, a mais extravagante das equações e contrária, em particular, a todos os instintos dos antigos helenos.
Com Sócrates o gosto grego se altera em favor da dialéctica; na realidade, que se passou? Acima de tudo, trata-se dum gosto refinado que foi derrotado; com a dialéctica a ralé chega ao alto. Antes de Sócrates, as maneiras dialécticas eram repudiadas na boa sociedade: eram tidas como maneiras inconvenientes, eram comprometedoras. Os jovens eram advertidos em relação a elas e se desconfiava de que todos que apresentavam as suas razões por meio da dialéctica. As coisas honestas tanto quanto as pessoas honestas não tratam os seus princípios com as mãos. Aliás, é indecente servir-se dos cinco dedos. O que precisa ser demonstrado para ser criado, não vale grande coisa. Em todo o lugar que a autoridade ainda é parte dos costumes aceitos, em todo o lugar em que não se raciocina, mas em que se comanda, o dialéctico é uma espécie de polichinelo: ri-se dele, não é levado a sério. Sócrates foi o polichinelo que foi levado a sério: o que estava realmente acontecendo quando isso aconteceuIn Friedrich W. Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos, A Filosofia a Golpes de Martelo, Götzen-Dämmerung, 1976, Hemus Livraria e Editora, tradução de Edson Bini, Márcio Pugliesi, Universidade de São Paulo, 2001.

Cortesia USPaulo/Hemus/JDACT

terça-feira, 10 de maio de 2011

Alegoria da Dança. Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra: Parte IV. «A música exerce, na filosofia de Nietzsche, um papel fundamental. Tal papel educativo não se circunscreve à educação formal e seus métodos...»

Cortesia de wikipedia 

Reportando-me à exposição de António Sérgio na BM de Portalegre.
Com a devida vénia a Odilon José Roble.

Resumo
«Com base no pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, busca-se esclarecer o conceito de «dança» utilizado alegoricamente pelo autor nas suas obras, especialmente em «Assim Falou Zaratustra». Nota-se que tal conceito tem fundamento na sua admiração pelo helenismo, mais especificamente na estética dionisíaca, e que as formas actuais de compreensão da dança podem estar distantes da caracterização realizada por Nietzsche. Observa-se também que, na filosofia nietzschiana, a alegoria da dança configura-se como um importante instrumento para o projecto de transfiguração moral proposto pelo autor.

Cortesia de esca

A dança e a música
A música exerce, na filosofia de Nietzsche, um papel fundamental. Desde sua aproximação de Wagner até o rompimento de sua relação com o compositor, sempre esteve presente a convicção do filósofo alemão sobre o papel educativo central da música. Tal papel educativo não se circunscreve à educação formal e seus métodos, Nietzsche vê na música uma função educativa muito mais ampla, que tem a capacidade de conduzir a humanidade a uma esfera superior de sua relação com a vida, desequilibrando as obviedades pela «comovedora violência do som» (2003, p. 34). A teoria estética de Nietzsche sobre o mundo grego é baseada na divisão de forças entre dois grandes modelos, representados pelo apolíneo e pelo dionisíaco. Apolo, deus solar, é o representante estético da harmonia, das formas exactas, da ordem e da beleza equilibrada. Dionísio, deus do vinho e da metamorfose representa os excessos, o poder do caos, do entusiasmo e da energia. A arte apolínea, por excelência, é a escultura ao passo que arte dionisíaca é a música.
Cortesia de elo7

No entanto, notemos que, por essa origem ritualista que embaça a reflexão de Nietzsche, a dança e a música formam uma unidade e é assim que devemos entender, portanto, as menções posteriores que o filósofo fará à dança. Esse cuidado alerta-nos que, se tomarmos como referencial certos modelos actuais para compreender a dança estaremos escolhendo algo fundamentalmente diferente daquilo que deu substância ao pensamento nietzschiano. Nas festas dionisíacas, música e dança são uma unidade, não há estética contemplativa (que é apolínea e trágica), mas uma actividade, no sentido de uma participação ou entrega do indivíduo ao contexto.
A dança esquadrinhada, técnica, conduzida ao passo e à previsibilidade coreográfica nada tem em comum com a espontaneidade do culto dionisíaco. A dança que Zaratustra pode nos oferecer, portanto, não é da ordem do modelo, da técnica ou da norma, mas sim a do improviso, da embriaguez e da fruição. Segundo Nietzsche (2007, p. 82) a obra Assim falou Zaratustra” pode ser entendida, ela própria, «inteiramente como música».  In Alegoria da Dança, Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra.

Cortesia de Odilon José Roble/JDACT

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXIX. Friedrich Nietzsche. «Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade»

Cortesia de mentoscarinhos

Absurdo, Liberdade e Projecto
«Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.

(...) Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor». In Friedrich Nietzsche, «A Vontade de Poder».

Cortesia de aprenderafilosofar
 
Cortesia de O Citador/JDACT

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Alegoria da Dança. Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra. Parte III. «Como categoria filosófica, é essencial no sistema de pensamento de Schopenhauer, que define o sentido da vida como o da «vontade de viver» e, em Nietzsche, também é fundamental, na condição de «vontade de poder»»

(1844-1900)
Rocken, Alemanha
Cortesia de wikipedia

Reportando-me à exposição de António Sérgio na BM de Portalegre.
Com a devida vénia a Odilon José Roble.

Resumo
«Com base no pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, busca-se esclarecer o conceito de «dança» utilizado alegoricamente pelo autor nas suas obras, especialmente em «Assim Falou Zaratustra». Nota-se que tal conceito tem fundamento na sua admiração pelo helenismo, mais especificamente na estética dionisíaca, e que as formas actuais de compreensão da dança podem estar distantes da caracterização realizada por Nietzsche. Observa-se também que, na filosofia nietzschiana, a alegoria da dança configura-se como um importante instrumento para o projecto de transfiguração moral proposto pelo autor.

Cortesia de lagash
«O espírito humano pode ir ainda mais além da resistência do camelo ou da força do leão: ele pode assumir o espírito da criança. O mais poderoso dos espíritos é aquele que tem em si a criança e isso significa, fundamentalmente, a capacidade de ser livre, de brincar com a vida, de esquecer activamente e de amar a existência. Em suma, o espírito da criança é um grande «sim» à vida. Essa posição da filosofia de Nietzsche, que encontra fundamento, em parte, na influência que Schopenhauer teve sobre seu pensamento, é conhecida por «vitalismo». Tanto em Schopenhauer como em Nietzsche o vitalismo é uma filosofia de inclinação radical à vida. No caso da metáfora do primeiro discurso de Zaratustra, o espírito da criança compreende esse amor e, assim, trata do homem que tem vontade. A vontade, como categoria filosófica, é essencial no sistema de pensamento de Schopenhauer, que define o sentido da vida como o da «vontade de viver» e, em Nietzsche, também é fundamental, na condição de «vontade de poder».

Cortesia de anaelo15
Brincar com a realidade, dizer sim à vida, mover-se como um ser de vontade. Esses são os primeiros passos, ou o pano de fundo para se compreender o porquê da escolha de Nietzsche pela metáfora da dança. A dança parece querer essa leveza ou ligeireza. A agilidade do dançarino é o suporte da vida vivida com o espírito da criança. A dança que Nietzsche enxerga é aquela que não tem códigos determinando sua acção, mas, ao contrário, ela é a própria desintegrada dos códigos, dos lugares-comuns, da normalidade.

Desde suas primeiras obras Nietzsche percebe o papel transformador da arte. Em um mundo dominado pela fraqueza moral, na qual os homens se submetem ao medo e, assim, renunciam à vida, a arte aparece como representante de um poder vital. A dinâmica da arte é capaz de reintegrar o homem à vida, devolvendo a energia que a submissão lhe roubara. Essa forma de entender a arte é fundamentalmente antagónica àquela que se desenvolve após o advento da tragédia no cenário grego dos séculos V e IV a.C.

Cortesia de moltagge
Fundamentando um novo formato para o teatro, no qual nota-se a presença do solista, do coro ensaiado, dos recursos cénicos não espontâneos o teatro vai se configurando, na opinião de Nietzsche (2003), em uma forma institucionalizada de se conduzir as emoções e de se obliterar o papel dionisíaco da arte. Para que arte seja de facto vital e ofereça ao indivíduo uma experiência única e totalizante sobre a vida ela deve ter a energia anterior ao do regramento trágico, ela deve ser, em suma, dionisíaca.

Os cultos dionisíacos estão, certamente, entre as manifestações mais efusivas da cultura helenística. Em homenagem ao deus do vinho, clamando-se por sua fertilidade, os cortejos eram levados ao êxtase entusiástico conduzidos, sobretudo, pelo vinho e pela dança. A dedicação de Nietzsche ao resgate dos valores pré-socráticos da cultura grega, em especial, do dionisíaco, levou-o, assim, à valorização da dança. Pois então há de se compreender que essa dança, que Nietzsche nos apresenta como enérgica, visceral, destruidora, é uma dança dionisíaca, uma expressão de êxtase e entusiasmo do corpo com a música, com o divino e com o outro. Vejamos, brevemente, cada uma dessas relações em separado para, assim, tecermos mais algumas reflexões sobre a dança a partir das imagens de Nietzsche». In Alegoria da Dança, Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra.

Continua.

Cortesia de Odilon José Roble/JDACT

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Alegoria da Dança. Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra. Parte II. «Primeiramente o homem conhece o espírito do camelo, aquele que trabalha, que suporta grandes cargas, que obedece o «tu deves» como sua orientação de vida. Para esse espírito, nenhum esforço é demasiado e o homem que é dotado de tal energia não sucumbe facilmente às dificuldades que a realidade impõe»

(1844-1900)
Rocken, Alemanha
Cortesia de comunidademib

Reportando-me à exposição de António Sérgio na BM de Portalegre.
Com a devida vénia a Odilon José Roble.

Cortesia de crisart

Resumo
«Com base no pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, busca-se esclarecer o conceito de «dança» utilizado alegoricamente pelo autor nas suas obras, especialmente em «Assim Falou Zaratustra». Nota-se que tal conceito tem fundamento na sua admiração pelo helenismo, mais especificamente na estética dionisíaca, e que as formas actuais de compreensão da dança podem estar distantes da caracterização realizada por Nietzsche. Observa-se também que, na filosofia nietzschiana, a alegoria da dança configura-se como um importante instrumento para o projecto de transfiguração moral proposto pelo autor.

Cortesia de jasg08
Para responder a essas perguntas trata-se de realizar o caminho inverso da metáfora nietzschiana, ou seja, se no Zaratustra a dança aparece como um suporte para o desenvolvimento de certa reflexão filosófica, nossa tarefa é a de partir dessa reflexão expressa por Nietzsche conduzindo-a para o fenómeno particular da dança. O que queremos, numa imagem simples, é um movimento espiral tal qual o de um remoinho de vento que, circularmente, ascenderia, captaria outros saberes e os depositaria novamente no solo. Assim, dança e filosofia devem revelar traços comuns, intersecções, formas similares de se situar perante a vida. É justamente esse posicionamento perante a vida que move Zaratustra nas suas andanças. Caminhando de cidade em cidade, de povoado em povoado, Zaratustra conhece o ser humano e profere discursos sobre esse ser à luz do seu projeto que é tanto o de identificar quem é o homem, como o de propor um «além do homem».

Cortesia de musicalidadesvariadas
Esse homem que Zaratustra encontra não está pronto, é mutável na sua essência. A natureza do homem é, então, mudar de forma. Para Nietzsche, são três possíveis metamorfoses, e é com essa percepção que o primeiro discurso de Zaratustra é proferido (NIETZSCHE, 2005, pp. 51-53). Primeiramente o homem conhece o espírito do camelo, aquele que trabalha, que suporta grandes cargas, que obedece o «tu deves» como sua orientação de vida. Para esse espírito, nenhum esforço é demasiado e o homem que é dotado de tal energia não sucumbe facilmente às dificuldades que a realidade lhe impõe. No entanto, há um espírito ainda mais forte, um espírito que está além do esforço em cumprir tarefas, de carregar fardos, trata-se de um espírito que tem em si o poder, a omnipresença, a capacidade de se impor. Esse é o espírito do leão. Forte em sua essência, tranquilo em sua presença, absoluto em sua dominação. O leão é expressão do «eu quero». Mas resta ainda ao homem a possibilidade de uma terceira metamorfose». In Alegoria da Dança, Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra.

Continua.

Cortesia de Odilon José Roble/JDACT

Alegoria da Dança. Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra. Parte I. «De modo alegórico, a dança aparece como uma importante metáfora nas andanças do personagem central da obra, Zaratustra. Mas qual é o sentido dessa metáfora, ou de modo ainda mais circunscrito, o que essas metáforas podem trazer de interessante para o pensar sobre a dança?»

Cortesia de nazabarcellosmultiply

Reportando-me à exposição de António Sérgio na BM de Portalegre.
Com a devida vénia a Odilon José Roble.

Resumo
«Com base no pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, busca-se esclarecer o conceito de «dança» utilizado alegoricamente pelo autor nas suas obras, especialmente em «Assim Falou Zaratustra». Nota-se que tal conceito tem fundamento na sua admiração pelo helenismo, mais especificamente na estética dionisíaca, e que as formas actuais de compreensão da dança podem estar distantes da caracterização realizada por Nietzsche. Observa-se também que, na filosofia nietzschiana, a alegoria da dança configura-se como um importante instrumento para o projecto de transfiguração moral proposto pelo autor.

Cortesia de alguresaqui

Introdução
O objectivo desse texto é modesto, ainda que, possivelmente, de considerável pertinência:
  • trata-se de situar a noção de dança nos escritos de Nietzsche, mais especificamente, no seu Zaratustra.
Isso porque sabemos da importância que o filósofo conferiu à dança nessa obra, identificando o homem de «espírito livre» como «aquele que dança». No entanto, é necessário que se situe, com recortes da ética e da estética, a configuração desse termo «dança» para que, com isso, não sejamos levados a tomar a acepção usual moderna da palavra como matriz explicativa para o conceito realmente presente na filosofia nietzschiana. Para isso, é preciso que se compreenda que Nietzsche elege a dança com base num referencial helenístico, fundamentalmente inserido no que se chamavam cultos dionisíacos. A estética da dança, para Nietzsche, está compreendida num referencial antagónico aos modelos apolíneos que fundamentaram o nascimento da tragédia e, desse modo, podemos afirmar que a dança como modelo baseada no virtuosismo técnico e coreográfico, muitas vezes presente no cenário actual, é fundamentalmente diferente da alegoria nietzschiana.

Cortesia de odisseus
Estando o objectivo desse texto circunscrito ao conceito de dança em Nietzsche, muitos outros conceitos importantes do filósofo, relacionados inclusive com o universo do corpo, são apenas anunciados na sua formulação mais evidente, servindo de fundamento para análise mas não objecto da própria análise, o que seria tarefa profícua, mas transcenderia os interesses presentes. Ao situar o conceito de dança em Nietzsche no seu panorama teórico adequado pensamos contribuir tanto para um saber filosófico, concernente à justa adequação dos modelos explicativos aos seus fundamentos, como, também, para o universo de estudo do corpo que, ao se utilizarem do conceito em questão, fundamentem-se pela escolha certa das premissas.

(1844-1900)
Rocken, Alemanha
Cortesia de comunidademib
Nietzsche e a dança
A obra-prima do filósofo alemão Friedrich Nietzsche é, sem dúvida, o livro «Assim falou Zaratustra», produzido entre os anos de 1833 e 1885. Como escrito fundamental de seu pensamento, encontram-se nele os referenciais fundamentais de sua filosofia:
  • a vontade de poder como essência da vida, a crítica à racionalidade, o eterno-retorno, o super-homem, o apolíneo e o dionisíaco.
De modo alegórico, a dança aparece como uma importante metáfora nas andanças do personagem central da obra, Zaratustra. Mas qual é o sentido dessa metáfora, ou de modo ainda mais circunscrito, o que essas metáforas podem trazer de interessante para o pensar sobre a dança?». In Alegoria da Dança, Reflexões sobre a dança a partir das metáforas de Zaratustra.

Cortesia de Odilon José Roble/JDACT