Mostrar mensagens com a etiqueta AM Dean. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AM Dean. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de maio de 2021

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de… pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Talvez tenha escrito sobre esse assunto. Enquanto ele estava falando, a máquina de fax começou a funcionar com uma sequência abrupta de bipes e cliques. Emily se levantou da cadeira e caminhou até à mesinha onde ela estava. De uma coisa eu sei, observou Welsh. Ele descobria coisas em qualquer lugar aonde fosse. E, como você diz, passou um grande tempo no Egipto. Então, talvez haja alguma ligação, se tiver interesse em pesquisá-la. Mas quaisquer que fossem os interesses dele, eles agora estão acabados. Aquilo não era humor negro de primeira classe, mas pelo menos era preciso. No momento seguinte, uma folha de papel começou a aparecer na bandeja da máquina de fax. Quando uma segunda folha entrou no alimentador, Emily puxou a primeira de um rolo lento e a ergueu no nível dos olhos. Embora a qualidade fosse ruim e o fundo da carta estivesse ligeiramente cinzento em virtude do scaneamento em preto e branco do que Emily suspeitava ser a cor creme da carta original, o conteúdo era claramente legível. À medida que ela lia, seu corpo ia ficando cada vez mais tenso.

A força com que Emily segurava o papel era quase suficiente para rasgá-lo. Pegou a segunda folha que surgia na máquina de fax. Sua mente ficou intrigada diante do que se apresentava. Uma única linha de texto era seguida por um emblema desconhecido. Abaixo dele, três frases que não mostravam nenhuma relação óbvia entre si estavam listadas.

Duas para Oxford e uma para mais além.


Igreja da Universidade, a mais antiga de todas; Orar, entre duas Rainhas; Quinze, se for de manhã.

Emily ficou olhando a folha criptografada, completamente intrigada. Aquilo tudo tinha toda a aparência de um conjunto de…  pistas. Sua confusão silenciosa diante da estranha página só foi interrompida quando ouviu Welsh se aproximando. Ele tinha observado o olhar intenso de Emily enquanto as folhas saíam da máquina, e tinha decidido ver o que estava absorvendo tão completamente a atenção dela. Quando Emily o ouviu se aproximando, segurou os papéis contra o peito. Que foi? O que foi que desviou sua atenção tão de repente?, perguntou. O que você tem aí? Está tudo bem? Não é nada, não, repetiu Emily, não sei. Pelo menos o último comentário era totalmente verdadeiro. Com sua pulsação continuando a acelerar, Emily, de repente, sentiu-se desconfortável na presença dos seus colegas. Será que eles deveriam ver aquilo? Sem saber exactamente porquê, ela ansiava por privacidade. Sinto muito, preciso ir. Sem olhar nos olhos deles e sem esperar uma resposta, Emily dobrou as páginas que segurou na mão e saiu da sala; a porta bateu depois que ela saiu». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

AM Dean. A Biblioteca Perdida. «Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Vocês se importam se eu me sentar convosco?, perguntou. Suponho que estejam falando sobre Arno. Simplesmente não posso acreditar. Nós também não, respondeu Preslin, mexendo a cabeça num gesto acolhedor. Mas eventos dramáticos não são exactamente estranhos para Arno Holmstrand. E o único académico que eu conheço que consta na lista de terroristas feitas por três países diferentes, por causa do tempo que passou no Oriente Médio. Os EUA, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita o consideram uma pessoa de interesse. E o gabinete do Reitor recebeu uma ligaçãozinha telefónica bacana do Departamento de Segurança Interna quando ele veio para cá, querendo saber se nós conhecíamos o passado interessante dele, acrescentou Welsh. Nós falamos para eles que sim, continuou Preslin, que tinha trabalhado por dois semestres num cargo burocrático da universidade antes de retomar a sua função predominantemente docente. Mas acrescentamos que o velho tinha recebido honras em cinco países, tinha sido condecorado pela rainha da Inglaterra com a Ordem do Império Britânico e possuía títulos honorários de sete universidades diferentes.

Emily listou na sua cabeça os nomes que conhecia devido à imensa publicidade que tinha sido gerada em torno da nomeação de Holmstrand. As condecorações penduradas nas paredes da sala dele vinham de Stanford, Notre Dame, Cambridge, Oxford, Edinburgh, Sorbonne e da Universidade do Egipto. E esses eram apenas os que Holmstrand mencionava quando lhe perguntavam. Provavelmente havia uma enorme lista de outras instituições. Mas parece que o governo não achou que isso tinha importância, continuou Preslin. E independentemente de quantas vezes nós lhes disséssemos que o trabalho no Oriente Médio era arqueológico, eles viviam voltando ao ponto. Dava p’ra pensar que escavação arqueológica era um código para acampamento terrorista no vocabulário do governo. Olha, talvez seja mesmo, acrescentou Welsh. Os dois homens deram uma gargalhada sombria.

Como foi que conseguimos que ele viesse para cá?, perguntou Emily, interrompendo aquela temporária frivolidade. Ainda estava chocada demais para fazer brincadeiras, mesmo que fosse numa espécie de homenagem amigável. Nós não conseguimos, respondeu Welsh. Nós podemos ser uma instituição de primeira linha, mas não chegamos nem aos pés das universidades onde Holmstrand costumava actuar. Ele veio porque quis vir. A proposta partiu dele. Ele disse que queria paz e tranquilidade depois de suas aventuras, e desejava voltar às suas raízes numa cidade pequena. Carleton o atraiu, e ele nos escreveu. Ele até se mostrou disposto a aceitar um salário de iniciante, já que não era pelo dinheiro que estava querendo vir para cá.

Não, eu não imaginaria que fosse, disse Emily. Ela deixou que se passasse um momento de silêncio. O conteúdo da carta de Arno não lhe saía da cabeça. Sabem se Holmstrand tinha alguma coisa a ver com a Biblioteca de Alexandria?, perguntou finalmente, não podendo conter a sua curiosidade. Os olhares que vieram dos dois colegas expressavam surpresa. Nenhum dos dois esperava que a conversa tomasse esse rumo. A biblioteca antiga? A biblioteca perdida? O que quer dizer? Não tenho a certeza. Sei que ele estava profundamente envolvido com assuntos egípcios. Mas será que ele pesquisava particularmente a Biblioteca de Alexandria? Será que a estudava? Escrevia sobre ela? Preslin coçou o queixo. Não que eu saiba, respondeu. Mas o homem publicou quase 30 livros. Quem sabe?» In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto»

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Assassinado? No gabinete dele. Levou três tiros. Ela fez uma pausa e, sem querer, deu um tom ainda mais dramático ao que estava contando. Meu Deus, Emily , sinto muito! As palavras consoladoras de Michael eram sinceras, mas havia alguma hesitação nelas. Algo além de uma preocupação protectora e masculina chamava a sua atenção. Na verdade eu não o conhecia de facto, comentou Emily. Havia alguma falsidade nas suas palavras. Ela não conhecia Arno, mas sabia dele, admirava-o, acompanhava-o de longe. E estava sentindo muito a sua perda, independentemente do que deixasse transparecer ao telefone. Isso não faz tanta diferença, prosseguiu Michael. Quem atirou nele? Ninguém sabe. As investigações estão em curso. Há polícias por todo o campus. Dizem que parece ter sido um serviço profissional. As indicações são de um assassinato. Emily respirou fundo e engoliu em seco. E a coisa toda fica mais esquisita. Ela fez uma pausa para que Michael a sondasse, fizesse perguntas, mas ele permaneceu calado e, então, ela continuou. Hoje pela manhã, encontrei uma carta no meu gabinete. Escrita à mão, entregue pessoalmente. De Arno Holmstrand.

Emily firmou a voz. A carta, Mike, trata da morte dele. Ele a escreveu antes de ser morto, sabendo que seria morto. O silêncio continuava do outro lado da linha. E esta é a parte em que você realmente não vai acreditar. A carta me deu instruções para ligar para um determinado número de telefone que ele havia escrito no verso, sem nenhum nome a acompanhar. E aqui estou eu, falando com você. Finalmente, Michael falou. Na verdade, Emmy, acredito em tudo o que você disse. Ela se assustou. Jura? Juro. Porque eu voltei da minha corrida matinal há uns 20 minutos, e debaixo de minha porta havia um envelope. De cor creme e com meu nome escrito nele com tinta marrom. Emily ficou paralisada, sem saber que sentido dar ao que ouvia. Não pode ser. Mas é, interpôs Michael. Dentro dele há uma carta de Arno Holmstrand. Emily não conseguia conter sua incredulidade. O que diz a carta? Pouca coisa, respondeu Michael. Ela pôde ouvi-lo desdobrando uma folha de papel, preparando-se para ler a carta. Prezado Michael. Emily vai ligar esta manhã. Espere ao lado do telefone. Abra o segundo envelope e leia para ela o que está dentro dele quando ela ligar.

Segundo envelope? A confusão aumentava a cada segundo. Dentro do primeiro, com essa cartinha, tem um segundo envelope. Com o seu nome escrito nele, confirmou Michael. Porque ele está escrevendo para você? E por meu intermédio? Como nós estamos envolvidos na vida dele? Não tenho a menor ideia, Mike. Estou tentando entender, fez uma pausa. Esse segundo envelope…, você o abriu?, indagou Emily, agora no auge da tensão. Claro que abri, respondeu ele. Você acha que eu ia cruzar os braços e ficar sentado esperando? Apesar da tensão do momento, Emily não pôde evitar um leve sorriso. O costumeiro entusiasmo de Michael não tinha sido sufocado por aqueles acontecimentos estranhos. E…? E talvez você não venha para Chicago, fez uma pausa e, dessa vez, o silêncio dramático era inteiramente proposital. Dentro do envelope tem um e-ticket. Holmstrand reservou para você um voo para Londres. Esta noite. Londres?

O raciocínio de Michael agora estava rápido demais. Ele ultrapassou a confusão dela. Qual é o número do fax da sua sala, Emmy. Ela piscou, tentando recuperar a lucidez e disse automaticamente o número que sabia de cor, da máquina de fax da secretaria do departamento. Porque quer esse número?, perguntou por fim. Porque nesse segundo envelope, além da passagem, há também duas folhas de papel. Meu scanner está quebrado, então não dá para lhe enviar uma cópia por e-mail. Mas com certeza vai querer ver o que ele deixou para si.

Dez minutos mais tarde, Emily aguardava ansiosa ao lado da máquina de fax da secretaria do Departamento de Religião, a algumas portas de distância de seu gabinete. A linha exclusiva para mensagens de fax não tinha um toque audível e, por isso, ela estava ao lado da máquina, esperando que ela despertasse e produzisse cópias digitais das duas páginas que Michael havia prometido enviar nos próximos minutos. Sentados em torno de uma mesa de trabalho estavam dois colegas professores de religião. Como se poderia esperar, estavam discutindo o caso Holmstrand. Não, foram três, insistiu Bill Preslin, um dos professores de hebraico, corrigindo o outro homem. Você esqueceu a Arábia Saudita. É mesmo? Eu não fazia ideia, o outro homem era David Welsh, especialista do departamento em religiões da América do Sul. Emily foi até a mesa e se sentou. Dali, podia ficar vigiando a máquina de fax». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

AM Dean. A Biblioteca Perdida. «Era um número que ela conhecia muito bem. Embora geralmente ligasse para ele pela tecla de discagem rápida de seu telemóvel, ainda reconhecia os dígitos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Minnesota

«(…) Emily ficou olhando a carta nas suas mãos. O papel se agitava no ar e percebeu, então, que estava tremendo. Ela o releu uma segunda, uma terceira, uma quarta vez. E de novo. Apenas alguns minutos antes, ficara sabendo que Arno Holmstrand tinha sido assassinado, e agora tinha nas mãos uma carta escrita exactamente por esse homem. Escrita antes da sua morte. Ele sabendo que iria morrer. Mais que isso, pensou Emily. Ele sabendo que seria assassinado. Esse facto fazia uma grande diferença. Consciente disso, Arno Holmstrand tinha escrito para Emily Wess. Um gigante, escrevendo para um peão, nos últimos momentos de sua vida. Ela não podia entender porquê. O que quer que Holmstrand tivesse descoberto, porque a estava envolvendo naquilo? A questão ficava ainda mais premente pela ligação directa entre a carta e a morte daquele que a escrevera. Parecia totalmente possível que o conhecimento a que a carta se referia tivesse causado a morte de Holmstrand. Ele sugeria exactamente isso na carta. Assim, não parecia improvável que, tendo a carta em seu poder, Emily agora corria perigo de vida. Seu estômago revirou quando pensou nisso, e na realidade do que tinha nas mãos. Virou o papel, e seus olhos logo se fixaram no número de telefone escrito no verso, em algarismos bem visíveis no centro da página. A carta instruía Emily a ligar para aquele número, embora não desse indicações de quem poderia atender do outro lado. Apesar disso, quando os seus olhos verificaram o número, seu corpo ficou paralisado. Ficou olhando, chocada e confusa, para os dez algarismos escritos em tinta marrom no papel do homem morto. Era um número que ela conhecia muito bem. Embora geralmente ligasse para ele pela tecla de discagem rápida de seu telemóvel, ainda reconhecia os dígitos. Não havia como não reconhecê-los. Pegando o telefone de sua sala, lentamente apertou as teclas de cada um dos dígitos. Talvez eu esteja errada, pensou, sabendo que não estava. Estou apenas agitada. Meus pensamentos estão confusos por causa do choque da notícia. Mas ela sabia que não era nada disso. A sua respiração ficou mais rápida enquanto o telefone chamava. Sabia no seu íntimo que, no momento em que a chamada fosse atendida, os eventos daquela manhã assumiriam uma perspectiva totalmente nova. Um instante depois, o momento chegou. A chamada foi atendida e uma respiração conhecida do outro lado serviu de preâmbulo para uma saudação, vindo de uma voz que já sabia quem estava ligando.

Emmy! O sotaque britânico na fala de Michael Torrance era inconfundível. Com uma exuberância que ficava à altura da confusão que sentia, o noivo de Emily Wess saudou o amor de sua vida.

Mike?, disse Emily, com o coração disparado. Aquela conexão pelo telefone, tendo como causa a enigmática carta de Arno Holmstrand, aumentava ainda mais a confusão. Onde você está?, disse Michael com a voz cheia de energia. Ainda estou no meu gabinete, respondeu Emily. Ainda não saí para o aeroporto. Ela não sabia como devia comunicar seu único pensamento. Mas finalmente decidiu que deveria ser o mais direta possível. Aconteceu uma coisa aqui no campus. Michael de repente ficou sério, numa reacção instantânea. Como assim? É alguma coisa grave? Você está bem? O tom dele denunciava um pânico gerado pelo seu instinto de protecção, e Emily percebeu que começara mal. Não, não é nada desse tipo. Estou bem. Ela ouviu um suspiro de alívio do outro lado da linha. Embora os dois fossem corajosos, o instinto protector de Michael era forte. Mas uma coisa realmente estranha está acontecendo por aqui. Você não acreditaria se eu contasse. Aceito o desafio. Um homem morreu aqui ontem à noite, continuou Emily. Se lembra do famoso professor aqui da universidade? Arno Holmstrand? Aquele do qual falou sem parar durante um ano? Claro, Emmy, eu me lembro, sim. Seguindo um costume que tinham de se comunicar com provocações, zombava de Emily dizendo que ela desenvolvera uma paixão recolhida de colegial quando o lendário professor viera para a universidade. Mais tarde confessara que se o entusiasmo dela não fosse tão enternecedor, ele teria desconfiado que ela estava de olho noutro homem. É ele mesmo, disse, engolindo em seco. Foi assassinado ontem». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

 Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Nossos planos estão seguros. Vamos então cuidar do nosso lado do negócio, e vocês cuidam do seu. Assim, todos ganhamos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Hines de repente não conseguiu esquecer a pergunta. Quantos anos tem, Mitch? A pergunta pegou o assistente de surpresa. Como? A sua idade. Qual é a sua idade? Forrester lançou-lhe um olhar estranho, o seu desdém velado agora misturando-se a uma confusão intrigada. Se eles estivessem sozinhos, poderia ter respondido com uma demonstração explícita do ódio que estava sentindo, mas estava muito consciente da presença de outro homem no escritório de Hines, alguém sentado no canto, em completo silêncio. Alguém que ele não queria que testemunhasse a sua impertinência. Vinte e seis, respondeu por fim. Vinte e seis, repetiu Hines, soltando um suspiro em reacção àquele número tão baixo. Teria sido ele tão petulante naquela idade? Tinha muito mais que o dobro disso, e sempre fora um sujeito cheio de ambição, mas acreditava que nunca tinha sido tão impetuoso quanto aquele rapaz diante dele. Não sei qual é a relevan… Relevância nenhuma, nenhuma, Hines o interrompeu, indicando com um gesto que deviam mudar de assunto. Ele parou por um instante. Alguma coisa mais? Nada ainda, respondeu Forrester secamente. Assim que recebermos alguma notícia, eu lhe comunico, senhor. Ele deixou que a pausa antes da sua última palavra acentuasse a sua insatisfação pelo modo como fora tratado. Ainda assim, com todo o egocentrismo da juventude, continuou ali parado, esperando algum reconhecimento. Hines, entretanto, simplesmente desviou os olhos dele na direcção das imagens da televisão. Percebendo finalmente que não conseguiria mais nada, o assistente se virou e saiu da sala.

Hines esperou uns bons 30 segundos em silêncio antes de virar a cabeça na direcção do homem sentado no outro canto de seu escritório. Embora estivesse acostumado há muito tempo com o serviço que esses homens faziam para a organização, ainda sentia uma ponta de nervosismo quando estava realmente sozinho com um deles. Seu papel na organização sempre fora diplomático, profissional. Nunca tinha feito o serviço sujo. Aquela era uma dimensão vil, mas essencial, da causa deles. Embora muitos no mundo o considerassem um indivíduo de grande influência, Jefferson Hines sabia que o homem sentado a poucos passos da sua mesa representava um poder muito maior que qualquer poder que ele jamais teria.

Acha que as coisas estão ligadas?, perguntou ele finalmente, apontando para o arquivo na sua mesa e depois para o televisor mudo. Ligadas à missão? Claro! Os dois homens não falavam do plano em nenhum outro termo a não ser a missão. Naquela cidade, e no seu escritório, era quase certo que as paredes tivessem ouvidos. Mas não deixe que isso o desestabilize. Vamos manter o curso das acções. Hines não estava satisfeito. Isso nunca foi discutido. Marlake, Gifford…, o resto; esse era o plano. Que diabos se está passando na Inglaterra? O outro homem se endireitou na cadeira enquanto Hines falava. Ele lhe lançou um olhar que nã deixava dúvidas sobre seu significado: cale a boca. Nomes nunca deveriam ser mencionados. Hines percebeu o olhar e a sua mensagem, batendo os dedos na mesa, meio irritado, meio ansioso. Diga-me que esperávamos reacções como essa, disse ele. Diga-me que nada disso é surpresa. Se o outro homem hesitou antes de responder, não havia demonstrado. Tinha o ar de um homem que desejava exalar confiança, e queria que o seu interlocutor permanecesse forte e imperturbável. Nossos planos estão seguros. Vamos então cuidar do nosso lado do negócio, e vocês cuidam do seu. Assim, todos ganhamos.

Fez uma pausa para que suas palavras permanecessem no ambiente pesado entre os dois. Não perca o seu alvo de vista. Apesar do medo instintivo que sentia daquele homem, Hines se sentiu mais tranquilo com aquela aparente certeza. Soltando um longo suspiro, recobrou a sua postura. Homens de estado deviam ser fortes, e ele estaria à altura da sua tarefa. Bom. Então suponho que devo falar-lhe amanhã? O outro homem fez que sim com a cabeça, levantando-se da sua poltrona. Isso mesmo, sr. vice-presidente». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério, 

A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Houve alguma resposta formal do governo britânico? Apenas que estão chocados e horrorizados, envidando todos os esforços para trazer à justiça os culpados…»

 
Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) O Guardião e o seu Assistente eram homens cujas vidas tinham inegável valor para ele, mas esse valor foi considerado menor que os riscos que eles representavam. O secretário tinha ficado tão absorto mns seus pensamentos que, a princípio, não notou o silêncio do outro lado da linha. De repente, entretanto, o silêncio disparou um alarme. Despertando dos seus devaneios, inclinou-se para a frente. O que aconteceu? O que deu errado? O facto de que ele sabia que estávamos chegando; talvez seja mais relevante do que o senhor imagina. O secretário estremeceu. Era um homem que não gostava de surpresas. Inclinou-se mais para a frente, pressionando o telefone contra o ouvido. Fale! Ele chegou ao gabinete antes que eu pudesse acabar com ele. Algo não me pareceu muito certo naquele momento, mas eu não podia demorar-me mais. Quando voltei hoje de manhã para acompanhar os acontecimentos, as minhas suspeitas se confirmaram. Continue, ordenou o secretário, mantendo uma calma, que conseguia manipular depois de muito treinamento. Tinha décadas de experiência em receber más notícias. Controle nos momentos difíceis, sempre soube, era importante. Um bom líder estava no seu nível mais feroz e mais temível quando estava no seu nível máximo de calma. Tinha um livro sobre a mesa dele, disse o Amigo. Três das páginas estavam faltando; tinham sido arrancadas. Eu as encontrei queimadas na lixeira perto da cadeira dele. Fez uma pausa, permitindo que o secretário digerisse os detalhes. Não esperava ou aguardava uma resposta. Não era assim que o relacionamento deles funcionava. Esperava-se que ele dissesse o necessário. Se quisesse ouvir mais, o secretário perguntaria. O homem mais velho ficou pensando no estranho relato. Então, havia algo que o Guardião não queria que o seu assassino visse. Mesmo à beira da morte, estava determinado em despistá-los. As próximas palavras do secretário tinham um tom de ameaça misturado ao de um questionamento. Obteve detalhes sobre o livro? Claro, senhor! Tentou relaxar os músculos dos ombros. O Amigo fora bem treinado. Quero os detalhes na minha mesa dentro de meia hora. Consiga-os para mim enquanto estiver a caminho de Washington. A caçada não ia terminar daquele jeito. E me traga um exemplar desse livro.

Washington, D.C..10H45 (9H45 em Minnesota)

A notícia que estava na pasta vermelha nas suas mãos era perturbadora, mas não superava muito nos seus detalhes o que a loira atrás do letreiro eletrónico da CNN estava reportando no televisor do outro lado da sala. Tinha eliminado o som do aparelho poucos minutos antes que o seu assistente entrasse na sala. A âncora anunciara a notícia da explosão no Reino Unido e um helicóptero sobre o local filmava e transmitia ao vivo cenas das ruínas, mas, além do horário da explosão e de imagens da extensão dos danos, pouco mais se sabia naquele estágio da investigação. Uma importante igreja antiga, marco da herança inglesa, fora destruída por uma bomba no início da manhã. Não havia vítimas registadas, apenas a perda em termos sentimentais e históricos. Alguém reivindicou a responsabilidade?, perguntou ele. Não, sr. Hines, respondeu o assistente. Jefferson cerrou os dentes em reacção à falta de respeito daquele jovem. Não se referir a ele mencionando o seu cargo era, ele sabia, totalmente intencional. A CIA está acompanhando o Serviço de Inteligência Britânico na busca de informações, mas, até agora, nem mesmo os loucos de sempre estão disputando a responsabilidade. Hines processou a informação, ou melhor, a falta de informação. Atentados a bomba eram, em geral, seguidos de uma chuva de reivindicações de responsabilidade feitas por vários grupos, que desejavam também a publicidade que acompanhava o ataque à Grande Besta do Ocidente. Havia excepções, claro, e elas eram suficientemente frequentes para que a falta de reivindicações do caso actual não disparasse muitos alarmes, mas ainda assim aquele silêncio era interessante.

Houve alguma resposta formal do governo britânico? Apenas que estão chocados e horrorizados, envidando todos os esforços para trazer à justiça os culpados por esse crime hediondo, etc. etc. etc. Mitch Forrester mexia os dedos no ar num gesto que indicava a falta de sentido daquelas respostas padronizadas. Ele só trabalhava no escritório de Hines havia seis meses e, mesmo assim, transmitia os comentários com um ar de quem já ouvira tudo aquilo antes». In AM Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

JDACT, AM Dean, Literatura, Mistério,

quarta-feira, 10 de junho de 2020

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «Prezada Emily , começava o bilhete, escrito na mesma caligrafia elegante, com a mesma tinta marrom do envelope. Minha morte com certeza precedeu esta carta»

Cortesia de wikipedia e jdact

9H35
«(…) Talvez fosse um convite para alguma festa ou evento, embora o estilo do envelope sugerisse um nível de sofisticação bem mais alto do que o das festas que ela costumava frequentar. Ela passou habilidosamente o dedo mindinho pela aba do envelope para abri-lo, e uma única folha de papel, dobrada ao meio, caiu no seu colo. Desdobrou o papel. Se as primeiras impressões definissem o cenário, pensou Emily, aquele bilhete pretendia criar uma cena extravagante. O papel era fino, obviamente caro, de uma cor creme bem clara e, se não estivesse enganada, tinha um leve perfume de cedro. O que viu no topo da página fez seu estômago contorcer-se. Em relevo, destacando-se levemente do tom do papel, havia um cabeçalho.

Do gabinete do professor Arno Holmstrand,
BA, MA, D.Phil, PhD, OBE
Arno Holmstrand, com todos aqueles títulos académicos e honrarias, o homem assassinado na noite anterior. O eminente professor. O professor morto. O que vinha a seguir capturou toda sua atenção.
Prezada Emily , começava o bilhete, escrito na mesma caligrafia elegante, com a mesma tinta marrom do envelope. Minha morte com certeza precedeu esta carta.


Carta

Nova York. 10h35
O secretário pegou no telefone antes que o primeiro toque se completasse. Alô! Feito. Exactamente de acordo com suas instruções. A voz do outro lado da linha falava num tom directo e frio. O Guardião está morto? Eu mesmo cuidei disso. Ontem à noite. A polícia encontrou-o hoje. O secretário recostou-se na poltrona, tomado por uma sensação de satisfação e poder. Um nobre objectivo fora alcançado e o futuro do seu projecto havia sido preservado. Poucos homens na história tinham tentado o que eles tentavam agora. Menos ainda eram os que tinham atingido os objectivos agora alcançados por eles. Mas eles teriam sucesso e, como mostrava o progresso da semana anterior, não havia quem pudesse se interpor no seu caminho. O secretário passou os dedos pelos cabelos grisalhos. Ele estava nos esperando, disse o outro homem. Aquilo era de se esperar. A eliminação do Assistente na semana anterior fora amplamente noticiada. Não tinha sido possível evitar. Não se assassinava um Chefe de Patentes de Washington sem que a comunicação social tomasse conhecimento. Além disso, não era objectivo do Conselho ocultar a eliminação. Esses assassinatos seriam dados como assassinatos para a maioria das pessoas, mas entre aquelas que eram seus alvos, eles seriam interpretados como recados. Advertências.
Isso é irrelevante, respondeu o secretário, contanto que tenha feito o seu trabalho. Além da fonte, com quem vamos lidar em breve, ele era o último homem que tinha visto a lista. O vazamento da lista fora imperdoável. Tudo o que eles lutaram para construir tinha sido colocado em risco por algo tão banal quanto uma lista de nomes. Uma lista que incluía nomes que ninguém poderia saber. Daquele sigilo, daquele anonimato, dependia todo o plano deles. E mesmo assim, de alguma forma, a lista caíra em mãos erradas. A única reacção possível era agir e erradicar os que tinham posto os olhos nela». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «O rapaz não respondeu, ignorando a persistência de Al, mas finalmente colocou o livro de volta na mesa. Ajeitando o casaco, voltou-se para o investigador com um ar de eficiência burocrática»


Cortesia de wikipedia e jdact

9H30
«(…) Acho que temos três aqui, confirmou o rapaz, indicando as folhas queimadas na lixeira. Não entendo, disse Al. O velho leva um tiro no corredor, mas consegue vir cambaleando de volta ao seu gabinete, até à sua mesa. Há um telefone bem à sua frente, mas ele não pega. Não pede socorro. Com papel e canetas por todo lado, não escreve nada. Em vez disso, abre um livro de ilustrações, arranca umas páginas e as queima. Não faz sentido. O rapaz não respondeu. Pegando o livro, examinou-o com uma intensidade que superava a frustração que Al estava sentindo. Ele ficou olhando, furioso. Olha, rapaz, disse Al. Não ouvi o seu nome. Eu nunca o vi por aqui antes. Faz tempo que está nas Cidades? A maioria dos investigadores das Cidades Gêmeas de Minneapolis e Saint Paul, o centro do serviço policial na parte sul do estado, conheciam-se pelo menos de vista. Não sou daqui. Foi tudo o que ele disse. O jovem não ofereceu mais nenhuma informação, nem deu sinal de desejar continuar com aquelas cortesias profissionais. Virou mais uma vez o livro nas mãos, olhando para o papel queimado na lixeira. Al não estava tão disposto a encerrar o assunto. Não é daqui? Você é estadual? O que a polícia estadual está fazendo aqui? Esse caso é evidentemente municipal. Maldita polícia estadual.
O rapaz não respondeu, ignorando a persistência de Al, mas finalmente colocou o livro de volta na mesa. Ajeitando o casaco, voltou-se para o investigador com um ar de eficiência burocrática. Pela primeira vez desde que tinham começado a conversar, ele olhou directamente nos olhos de Al. Sinto muito. Já tenho o bastante para o meu relatório. Prazer em conhecê-lo, detective. Seu relatório? A observação foi quase exagerada. Um livro e um punhado de papel queimado significavam alguma coisa em termos materiais, mas não eram o suficiente para um relatório. Al olhou em torno da sala observando o burburinho: coletas de amostras de impressões digitais, manchas de sangue, respingos, pegadas. Tudo aquilo daria um relatório. E apesar disso o rapaz parecia ignorar todo o resto, dedicando sua atenção apenas à mesa e ao papel queimado na lixeira. Como se todo o resto da cena do crime não existisse. Não era um comportamento normal de investigação, mesmo para um policial estadual. Voltou-se novamente para o agente desconhecido, pronto para uma tirada sarcástica, mas viu-se sozinho na sala.

9H35
A questão que me preocupa é, se um de nossos colegas foi atacado e morto bem aqui no campus, quem será o próximo? Já que os seus colegas tinham saído para ministrar as suas aulas, Emily ficou sozinha no seu gabinete ponderando sobre os estranhos contornos da conversa que haviam tido. As palavras de Emma Ericksen permaneciam na mente de Emily. Não eram apenas as perguntas sem resposta associadas com o assassinato de Arno Holmstrand que contribuíam para o incómodo receio que sentia. Era também a nefasta presença da própria morte. Houve um assassinato, de um colega, a poucos metros de distância de seu escritório. Será que havia um perigo maior? Estariam todos em risco? Será que eu estou? Emily afastou o pensamento assim que ele lhe ocorreu. Encarar a situação em termos pessoais era irracional e só iria nutrir seu medo. Teria de combater os seus pensamentos fugidios com uma actividade: trabalho, e as poucas tarefas que ela ainda precisava fazer antes de deixar o campus e viajar ao encontro de Michael.
Baixou, enfim, os olhos para a pilha de correspondências que havia retirado do escaninho; naquele momento, era o que havia de mais imediato para distrair seus pensamentos perturbadores. Lixo, lixo, lixo. Emily tinha adquirido a reputação de não apanhar a sua correspondência e o motivo era exactamente esse. A correspondência de quase duas semanas, e a maior parte era lixo. Um envelope de uma editora, anunciando um livro que com quase toda a certeza jamais leria. Uma circular sobre a conscientização dos direitos dos animais, cópia exacta da circular que recebera sobre o mesmo assunto na semana passada, e na semana anterior. Um comunicado informando a sua nova senha para a máquina copiadora do departamento, que a secretária anunciava com a mesma gravidade e importância que mereceria a publicação de códigos de activação da reserva nuclear do país. A vida académica podia ser intelectualmente estimulante, mas cheia de adrenalina é que não era. Emily jogou o comunicado, juntamente com os outros papéis, na lixeira.
Em baixo deles havia um único envelope cor de creme, feito de um papel texturizado que eraobviamente caro. O nome de Emily estava harmoniosamente escrito sobre ele, mas não havia selos nem indicação do remetente. Alguma coisa nele chamou a atenção de Emily. Observou a caligrafia elegante em que o seu nome estava escrito. As letras eram de uma tinta marrom e tinham os evidentes arcos e volteios característicos de uma caneta-tinteiro. Emily virou o envelope e observou a superfície em branco. Não havia selos, nem indicação de quem o enviara. Alguém havia deixado o envelope no escaninho dela pessoalmente». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «Um flash chamou a sua atenção no momento em que um jovem perito da equipe de Homicídios tirou uma foto do livro, juntamente com a mão de Al. Al imaginou a cena»

Cortesia de wikipedia e jdact

9H30
«(…) Dois pequenos orifícios perfuravam o couro da velha poltrona, marca dos tiros fatais que tinham tirado a vida de Arno Holmstrand. Os tiros foram dados bem no meio do tronco, com pouco mais de dois centímetros de distância entre si. Sinais que denunciavam o trabalho de um profissional. Agora, com o corpo removido, o detective podia retraçar a trajectória das balas a partir dos dois buracos deixados no estofamento da poltrona. O assassino tinha parado na entrada do gabinete; ele não tinha mais que 1,70m de altura. A vítima estava sentada, de cara para seu algoz. O detective Al Johnson observava os técnicos que vasculhavam a cena do crime. Uma fina pinça, manuseada com habilidade pelas mãos enluvadas de um homem que obviamente já tinha feito aquilo antes, extraíram uma bala de um dos orifícios da poltrona. Talvez um 38, Al considerou, embora não estivesse em hipótese alguma preparado para insistir no palpite. Esse era o terreno dos técnicos em balística. Para ele, bastava saber que se tratava de um revólver, que aquilo era sem dúvida um assassinato, e que claramente fora perpetrado por um profissional. Coisas que ele já vira antes. O corpo fora levado para o necrotério mais cedo naquele mesmo dia. Três ferimentos à bala no total. O do lado direito viera primeiro, provavelmente quando a vítima ainda estava fora do gabinete.
Johnson perscrutou o rastro de sangue que se estendia até o interior da sala. O médico legista suspeitava que o primeiro ferimento já teria sido fatal, mas a vítima tinha sobrevivido tempo suficiente para passar pela porta aos tropeços, o detective ergueu-se do chão tentando reconstituir os passos hipotéticos, passar pela porta aos tropeços e chegar até a mesa. Para quê? Havia um telefone sobre a mesa, mas nenhum sinal de que fora usado, e o 911 não recebera chamada alguma até à manhã seguinte, quando um zelador chegou à cena do crime. Outro perito pulverizava o batente da porta em busca de impressões digitais. Um terceiro fazia o mesmo na mesa. Dois sujeitos uniformizados tiravam fotos, o parceiro de Johnson entrevistava os funcionários da noite no corredor, e pelo menos seis outras pessoas se movimentavam pela sala. Não foi a primeira vez que Al se surpreendeu diante da vibração de vida que pode haver na cena de um crime. Era um dos paradoxos da função.
Al chegou mais perto da mesa. Ela era como imaginava a mesa de um velho professor: abajur verde, porta-canetas de bronze, mata-borrão desbotado e um computador que parecia já estar ultrapassado desde a época de sua fabricação. Uma bandeja de couro continha cartas velhas, cada uma meticulosamente aberta com uma espátula de marfim, que repousava sobre elas. Espátula de marfim, torre de marfim…, o ambiente era um conjunto de símbolos de um status cultural. No centro da mesa, havia um grande livro de capa dura cheio de fotografias. Estava aberto, mais ou menos na página central. O detective se aproximou e correu levemente a mão enluvada pela superfície das páginas. Por baixo do látex cheio de talco, os seus dedos calejados se detiveram ao tactear bordas inesperadamente ásperas. A encadernação no centro do livro escondia uma irregularidade no papel, no ponto onde algumas páginas haviam sido evidentemente arrancadas pouco tempo antes.
Um flash chamou a sua atenção no momento em que um jovem perito da equipe de Homicídios tirou uma foto do livro, juntamente com a mão de Al. Al imaginou a cena. Um homem, atingido por um tiro no peito, caminha com dificuldade de volta à sua sala para arrancar algumas páginas de um livro. Aquilo fazia pouco sentido. Mas também, assassinatos quase nunca faziam muito sentido. Outra foto, a câmera agora focou os pés dele. Al olhou para baixo na direcção de uma lixeira, cheia de restos de papel queimado. De joelhos, um jovem pretensioso, vestindo um casaco feito sob medida, examinava os restos chamuscados. Belo casaco, pensou Al, imediatamente irritado. Um rapaz das agendas do governo, era só o que faltava. Não era fã dos grandes filmes comerciais de Holly wood, mas achava que eles representavam muito bem a perturbação causada quando várias agências de segurança disputavam um caso. E os detectives das equipes locais nunca vestiam casacos elegantes. Não sabia de onde o rapaz era, mas independentemente disso, Al já sentia que a situação seria terrivelmente frustrante. É costume dos professores de História queimar o seu lixo?, perguntou o rapaz, sem olhar para cima. Agora fiquei surpreso, rapaz.
O rapaz de casaco retraiu-se visivelmente quando proferida esta última palavra, evidentemente insatisfeito por ter sido lembrado de sua pouca idade. Levantou-se bem devagar, forçando-se a recuperar a tranquilidade. Não é muita coisa. Só algumas páginas amassadas, queimadas todas juntas, eu acho. Al apontou o livro sobre a mesa. Algumas páginas foram arrancadas dali, disse, indicando as bordas rasgadas do volume. Ao que parece pelos números antes e depois, três páginas estão faltando». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

sexta-feira, 6 de março de 2020

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «O restante do dia, se tudo corresse como havia planeado, seria dedicado aos preparativos de uma viagem muito esperada, de Minneapolis a Chicago, de um feriado com o seu noivo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Alguém sabe quem atirou nele? O ritmo hesitante das palavras de Emily revelava o seu mal-estar. Ainda não podia imaginar porque alguém poderia querer matar Arno Holmstrand. Sem dúvida, o homem era a figura pública mais famosa da universidade, mas também era velho, do ponto de vista de Emily, já tinha os seus setenta e tantos anos. Essencialmente um homem calado, embora excêntrico. Emily não o conhecia bem. Haviam-se encontrado algumas vezes, e Arno fizera ocasionalmente estranhos comentários sobre a pesquisa de Emily (considerava-se uma espécie de direito adquirido que os velhos professores colocassem objecções ao trabalho dos seus colegas mais novos). Mas o relacionamento nunca passara disso. Eram colegas, não amigos. Isso, entretanto, não suavizava em nada o choque. Uma morte no campus, ainda mais um assassinato, não era notícia comum. E Emily sentia um certo apego a Holmstrand, mesmo que fosse mais pela sua admiração pela reputação profissional dele do que por alguma interacção pessoal.
Ninguém sabe de nada, respondeu Jim Reynolds. Os investigadores estão no prédio dele agora. Toda a ala está bloqueada. Vai ser assim o dia todo. Num impulso, Emily tomou outro gole do seu café, mas, dessa vez, o gesto de trazer o copinho até a boca pareceu forçado e óbvio, quase desrespeitoso, como se fosse uma acção normal demais para ser realizada ante uma notícia daquele porte. Não acredito que isso tenha acontecido, disse Maggie Larson, cuja voz ainda denunciava o seu medo. Se alguém estava atrás dele. Ela não terminou a frase. A afirmação apenas insinuada servia para todos: com um colega assassinado, todos se sentiam em perigo.
Um longo silêncio dominou o grupo, e só foi desfeito quando a campainha da escola soou. O próximo período de aulas daquele dia estava prestes a começar; eles trocaram olhares preocupados enquanto saíam em direcção às suas salas e obrigações. A medida que os colegas se preparavam para sair, Emily sentiu um incómodo remorso. Era aceitável simplesmente ir embora, cuidar da própria vida como sempre, depois de uma conversa sobre um colega assassinado? Sem dúvida, alguma coisa precisava ser dita, pelo menos algo para reconhecer a comoção daquele momento. Eu, bem…, sinto muito por Arno.
Foi tudo o que conseguiu dizer. Ficou surpresa com a intensidade da perda que sentia. A reacção emocional que estava experimentando seria mais justificada em relação à morte de um amigo próximo, o que Arno Holmstrand nunca tinha sido. Aileen deu-lhe um sorriso amigável e saiu. Emily, tentando superar o choque, voltou para o seu gabinete, destrancou a sala e entrou no pequeno ambiente. Era incrível como rapidamente o foco de um dia mudava, como um facto trágico podia abalar as pessoas. Até o momento em que ficara sabendo da morte de Arno, estivera concentrada em algo completamente diferente, em imagens de um encontro que teria com o homem que amava. A última quarta-feira antes de um feriado prolongado de Acção de Graças significava apenas uma única aula, a primeira da manhã. O restante do dia, se tudo corresse como havia planeado, seria dedicado aos preparativos de uma viagem muito esperada, de Minneapolis a Chicago, de um feriado com o seu noivo, Michael. Eles haviam-se conhecido quatro anos antes, no mesmo feriado de Acção de Graças. Ele, um inglês estudando na sua terra natal; ela, uma ávida estudante de mestrado fazendo pesquisa no exterior, tentando comunicar a importância da grande tradição norte-americana para os antigos colonizadores, e esse dia para eles se tornou especial.
Mas aquele devaneio feliz tinha sido interrompido bruscamente. O coração de Emily agora estava disparado, a sua adrenalina subindo, desde que soubera da notícia. Mesmo assim, tentou conter o mal-estar e ligou o computador sobre sua mesa. O trabalho do dia não podia ser totalmente abandonado, independentemente do choque. Abrindo o braço, Emily deixou a correspondência que recolhera no escaninho cair sobre a mesa. Com a mente ainda envolvida em pensamentos de assassinato e perda, não notou, a princípio, um pequeno envelope cor de creme que estava entre dois folhetos de cores berrantes. Os seus olhos não captaram a caligrafia estranha e elegante do sobrescrito, nem a ausência de selos ou carimbos, muito menos a falta de indicações de um remetente. O envelope passou despercebido do seu campo de visão e se misturou com todo o resto». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «O que quer de mim? É só isso, respondeu Cole. Não quero nada. Isto não é um interrogatório nem um sequestro. O que é então?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A estranha sensação que Emily sentira correndo pela sua pele agora tinha sido substituída por verdadeiros arrepios. Um assassinato no campus do Carleton College era algo inaudito. Mas o assassinato de um colega… O efeito da notícia combinou choque a uma espécie muito genuína de medo. Ele foi perseguido no corredor, acrescentou Aileen. Encontraram sangue do lado de fora do gabinete dele. Eu não vi por dentro. A voz dela fraquejou. Ela olhou para Emily. Você não notou a presença da polícia no campus? Emily estava entorpecida com a notícia. Ela tinha visto viaturas da polícia quando estacionava o seu carro antes da aula da manhã, mas não tinha dado muita atenção ao facto. A polícia não era uma presença totalmente incomum num campus universitário. Eu…, eu não tinha ideia do motivo, respondeu, e depois de uma pausa indagou: Porque Arno? Ela não conseguia imaginar mais nada que pudesse perguntar. Não é essa a questão que me preocupa. A voz dessa vez, tímida e amedrontada, vinha da colega de Emily, historiadora das religiões, Emma Ericksen. E qual é a questão?, perguntou Emily. A questão que me preocupa é, se um de nossos colegas foi atacado e morto bem aqui no campus, quem será o próximo?

Do lado de fora da sala de reuniões número 26H, D. Burton Gifford entregou a sua maleta a um serviçal e lançou-lhe um olhar que deixava claro que não queria ver ninguém após a reunião deles naquela manhã. Ficando de lado enquanto os outros homens saíam da sala e se afastavam pelo corredor em direcção à saída, ignorou os vários avisos de Proibido Fumar, tirou um Pall Mall sem filtro de uma cigarreira no bolso da camisa e acendeu-o. Trabalhara, por dois anos, como conselheiro no comité de política externa do presidente, desde que o grande homem assumira o cargo. Era um leal servidor do trabalho do presidente no Médio Oriente, mesmo que o chefe da nação não concordasse com suas ideias de uma política mais agressiva, mais negociadora, no trabalho de reconstrução pós-guerra naquela região. Tornara-se um dos mais influentes conselheiros do chefe de estado, definindo políticas e também assegurando que o presidente sempre soubesse diferenciar os amigos dos inimigos. A experiência de Gifford era em negócios, e os negócios não eram nada mais que um mundo de redes. Gostava de pensar que o presidente estava conectado, ou não conectado, em virtude da sua sabedoria e influência. E ele não estava totalmente errado. Era o homem que tinha os contactos; o presidente era apenas a voz moral que escolhia as ligações correctas.
Sem ser visto, às sombras, um homem chamado Cole aguardava em pé, imóvel. Seu rosto exibia uma expressão de ódio pelo imponente e arrogante comerciante de poder, que se encaixava perfeitamente no estereótipo do sujeito rico, dominador e influente. Inchado tanto fisicamente quanto no seu ego, Gifford ignorava tudo o que não considerava relevante para os seus próprios desígnios. Esse era um defeito pelo qual ele iria pagar hoje. No corredor vazio, Gifford puxou uma longa inspiração, com o cigarro pendurado nos seus lábios enquanto usava as mãos para alinhar o casaco. Tirando vantagem dessa distracção e também daquele posicionamento vulnerável, Cole escolheu esse momento para sair do escritório e avançar no corredor. Num único e suave movimento, agarrou o corpulento homem pelos pulsos e o forçou a entrar de novo na sala de reuniões. Que diabos está fazendo?, Gifford perguntou, espantado, o cigarro caindo da sua boca. Fique quieto e as coisas serão mais fáceis, respondeu Cole. Manteve Gifford numa chave de braço com a sua mão esquerda enquanto fechava a porta atrás de si com a direita.
Agora sente-se aí, disse ele, empurrando Gifford para uma das recém-desocupadas poltronas de couro ao redor da longa mesa de reuniões. Gifford estava indignado. Aquele homem insubordinado não apenas o havia tratado com brutalidade, mas também torcido o seu pulso. Enfurecido, trouxe as mãos até ao peito e as esfregou, tentando aliviar a dor. já estava resmungando quando começou a virar a sua cadeira na direcção do homem que o atacara. Vou lhe dizer, meu jovem, não sou um homem que simplesmente aceita esse tipo de… Ele interrompeu o resmungo no momento em que a poltrona completou o círculo e seus olhos pousaram nas mãos de Cole. Calmamente dando as últimas voltas no silenciador para prendê-lo à sua 357 SIG Glock 32, Cole respondeu sem nem erguer os olhos. Sei exactamente quem é, sr. Gifford. Estou aqui justamente por ser quem o senhor é. A ira condescendente de Gifford desapareceu, sendo totalmente substituída por um terror desesperado. Ele não tirava os olhos da arma. O que…, o que você quer? Este momento, respondeu Cole, encaixando o silenciador na sua posição travada e soltando a trava de segurança do gatilho da Glock. Este momento é tudo o que eu quero. Não estou entendendo, disse rápido um Gifford horrorizado, instintivamente se encostando na poltrona como se esperasse encontrar algum refúgio contra a ameaça diante dele. O que quer de mim? É só isso, respondeu Cole. Não quero nada. Isto não é um interrogatório nem um sequestro. O que é então? Cole finalmente ergueu os olhos e os fixou nos olhos grandes e aterrorizados de D. Burton Gifford. É o fim. Eu…, não estou entendendo. Não, respondeu Cole, acho que não está mesmo. A conversa foi interrompida pelas três balas que ele disparou contra o coração de Gifford, o seu ombro direito facilmente absorvendo o familiar estampido da pequena arma e a longa sala ecoando muito suavemente os suaves ruídos abafados pelo silenciador. Gifford olhou embasbacado para a ténue fumaça que subia do cano da arma que há pouco descarregara a munição no seu tórax. O sangue começou a escorrer do seu coração, vazando também das feridas no seu peito e costas; Gifford desabou na cadeira. Cole ficou observando o homem dar o seu último suspiro, enquanto o corpo se curvava para a frente, mergulhado na escuridão». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

domingo, 5 de janeiro de 2020

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «Ela também fora membro da banca que seleccionara Emily quando ela se candidatou ao seu cargo quase dois anos antes, e Emily, desde essa época, nutria um carinho por ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O dia que iria mudar a vida da professora Emily Wess começou de forma bastante banal. Não havia indícios de tragédia, nenhum sinal de urgência no modo como ela tinha começado a mesma rotina matinal que mantinha todos os dias durante o semestre lectivo. Tinha feito a sua corrida, dado a sua aula, comprado seu café da manhã. Mesmo assim, enquanto o pesado ar de Outono que respirava todas as manhãs no campus do Carleton College passava pelas suas narinas, sentia que havia algo errado. Alguma coisa, que não sabia definir completamente, fez arrepiar a sua pele quando ía da sala de aula para o seu gabinete. O dia tinha um aspecto estranho, um jeito incomum que ela não conseguia descrever. Bom-dia, pessoal, disse ao surgir do corredor central do Leighton Hall, um edifício de três andares onde ficava o Departamento de Religião. Dirigiu-se para a porta que conduzia a seu gabinete. Este fazia parte de um grupo de salas dispostas em torno de um pequeno espaço comum ao qual se tinha acesso por uma porta, que, não fosse por isso, não chamaria muito a atenção. Quatro outros professores tinham gabinetes no mesmo espaço. Eles, mais um colega, estavam de pé num dos cantos quando Emily entrou.
Ela sorriu, mas o grupinho estava completamente absorto numa conversa meio sussurrada. Depois de um período mais longo que o habitual, um olá emergiu em resposta vindo de alguém do grupo, mas ninguém se voltou para a cumprimentar. Foi nesse momento que tomou consciência de uma atmosfera estranha que estivera presente durante toda a manhã e que até aquele momento não tinha captado completamente a sua atenção. Um silêncio esquisito tomava conta dos corredores. Os eus colegas entreolhavam-se obliquamente e tinham expressões preocupadas. Apanhando as chaves dentro da bolsa, Emily parou em frente a um conjunto de escaninhos e esvaziou o conteúdo do seu, uma braçada de correspondência: lixo postal que havia deliberadamente deixado acumular por duas semanas. Achava um aborrecimento fazer aquilo todos os dias. Continuava a ouvir as vozes abafadas dos colegas atrás dela. Olhou por sobre os ombros no momento em que encaixava uma chavinha na porta do seu gabinete. Um dos zeladores encontrou-o esta manhã, disse uma voz baixa, deliberadamente sussurrada, que Emily pôde entreouvir. Não dá pra acreditar, disse outra voz. Tomei café com ele ontem mesmo.
Maggie Larson, a professora de Ética Cristã que fizera a última observação, tinha uma expressão sóbria no rosto. Não, pensou Emily consigo quando olhou com mais atenção. Ela parece perturbada. A sua curiosidade se aguçou quando ela percebeu que perturbada também não era a palavra certa. Não, ela parece amedrontada. Emily deixou a chave na posição em que estava na fechadura e virou-se para os colegas. Algo estava absorvendo a atenção deles. Algo que não parecia, ou não soava, bem. Me desculpem, não quero parecer mal-educada, mas o que está acontecendo?, perguntou, dando um passo na direcção deles. Aquela estranha atmosfera de tensão ia ficando mais densa a cada palavra, mas Emily não sabia de que outra maneira poderia se inserir na conversa deles, já que não sabia de nenhum detalhe, nem mesmo sabia qual era o assunto.
Os outros, entretanto, não pretendiam mantê-la desinformada. Acho que ainda não está sabendo, respondeu uma colega. Aileen Merrin era professora titular da cadeira de Novo Testamento. Ela também fora membro da banca que seleccionara Emily quando ela se candidatou ao seu cargo quase dois anos antes, e Emily, desde essa época, nutria um carinho por ela. Emily esperava que, quando chegasse a época, ficasse tão bem de cabelos grisalhos quanto Aileen. Com certeza não, disse Emily tomando um gole de café frio de um copinho descartável. Feito havia mais de uma hora, tinha ficado ruim de beber, mas o acto de erguer o café até aos lábios ajudava a disfarçar o embaraço daquele momento com algo um pouco mais normal. Sabendo de quê? Conhece Arno Holmstrand, da História?
Claro, respondeu Emily. Todos conheciam o professor que era o baluarte do Departamento de História. Mesmo que Emily não pertencesse aos dois departamentos, o de História e o de Religião, ainda assim conheceria o académico mais famoso e eminente da faculdade. Ele descobriu algum outro manuscrito perdido? Ou foi expulso de algum país do Médio Oriente por ter violado as leis da escavação arqueológica? A seu ver, todas as vezes que se fazia menção ao nome de Holmstrand, era no contexto de alguma importante descoberta ou aventura académica. Ele não levou a faculdade à falência com mais uma de suas viagens, né? Não, ele não fez nada disso, disse Aileen, que de repente assumiu uma expressão de mal-estar. Sua voz se transformou num sussurro: ele está morto.
Morto!?, perguntou Emily, forçando levemente a sua entrada no grupo com um empurrãozinho, abalada com a notícia. De que estão falando? Quando? Como? Ontem à noite. Acham que ele foi morto, aqui no campus. Eles não acham, eles têm a certeza, interpôs Jim Reynolds, um especialista em Reforma Protestante. Foi assassinado. Três tiros bem no peito; foi isso que ouvi. Estava à mesa do gabinete. Trabalho de profissional». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Bibliotecário. AM Dean. «Talvez esteja enganada, conjecturou, sabendo que não era assim. Estou um pouco perturbada e confusa desde que me deram a notícia do assassínio»

jdact

«(…) Os nossos planos são seguros. Por isso, deixe-nos tratar da nossa parte, e o senhor trata da sua. Assim, todos ficamos a ganhar. Permitiu que as palavras flutuassem entre eles no pesado ar do gabinete. Não perca de vista o seu rumo. Aquela aparente segurança incutiu confiança a Hines, apesar do pavor que sentia daquele tipo. Expirou, endireitou as costas e recuperou a compostura. Os estadistas deviam ser fortes, e ele estaria à altura da tarefa. Bem, então, falo consigo amanhã? O seu interlocutor assentiu e levantou-se da cadeira. Claro que sim, senhor vice-presidente.

Minnesota, 9h 45m CST
Emily ficou a olhar para a carta que tinha nas mãos. A folha oscilava e isso fê-la tomar consciência do seu próprio tremor. Releu a missiva uma vez mais, e outra e outra. Ficara a saber do assassínio de Arno Holmstrand há poucos minutos, e naquele momento segurava uma carta escrita por ele. Escrita antes da sua morte. Sabendo que ia morrer. É mais do que isso, ponderou Emily. Sabendo que ia ser assassinado. Esse facto constituía uma diferença considerável. E, sabendo-o, Arno Holmstrand havia escrito a Emily Wess. Um rei a escrever a um serviçal nos últimos momentos de vida. Não conseguia perceber porquê. O que quer que Arno tivesse descoberto, porque estaria ele a envolvê-la nisso? A relação directa entre a carta e a morte do seu autor fazia com que tudo se tornasse mais premente. Parecia plausível que o conhecimento mencionado naquela carta tivesse sido a causa do homicídio de Holmstrand. Ele mesmo o sugeria. E, portanto, não parecia improvável que a vida de Emily estivesse em risco pelo simples facto de ter a dita carta em seu poder. Revolveu-se-lhe o estômago só de pensar nisso e na realidade daquilo que tinha em seu poder.
Virou a carta e os seus olhos pousaram no número de telefone escrito no centro da página. O pedido de Arno era que ligasse para esse número, mas não esclarecera quem iria atender. Ficou gelada quando leu os dez dígitos escritos a tinta castanha no papel de carta do defunto. Estava surpreendida e confusa.
Era um número que conhecia na perfeição. Costumava ligar para aí através da sua lista de contactos, porém, ainda era capaz de recordar esse número. Era impossível não se lembrar. Pegou no auscultador do telefone do seu gabinete e marcou lentamente cada um dos dígitos. Talvez esteja enganada, conjecturou, sabendo que não era assim. Estou um pouco perturbada e confusa desde que me deram a notícia do assassínio. Não obstante, sabia que isso era mentira. A sua respiração acelerou quando deu o toque de chamada. Estava consciente de que, assim que se estabelecesse a ligação, os acontecimentos daquela manhã iam assumir uma nova dimensão. Esse momento chegou uns instantes depois. Quando atenderam do outro lado, escutou uma inspiração familiar como preâmbulo a uma saudação formulada por quem conhecia a pessoa que estava  ligar. Em! O sotaque britânico de Michael Torrance era inconfundível. Com um entusiasmo comparável à confusão dela, o noivo de Emily Wess cumprimentou o amor da sua vida». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

No 31. O Bibliotecário. AM Dean. «Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota»

jdact

«(…) Hines digeriu a informação, ou melhor, a falta dela. Após cada atentado terrorista, havia sempre uma mancheia de grupos que declarava a autoria do mesmo em busca da publicidade que proporcionavam os atentados contra a Grande Besta do Ocidente. Também existiam excepções, claro, e eram bastante frequentes para que a ausência de reivindicação, como no caso presente, não fizesse soar nenhum alarme, mas não deixava de ser um silêncio interessante. Já houve alguma reacção oficial por parte do Governo britânico? Limitaram-se a expressar a sua surpresa e o horror e a assegurar que estão a trabalhar com celeridade para levarem os culpados de tão horrendo crime perante a justiça, et ceterat et cetera. Mitch Forrester agitou os dedos num trejeito que indicava a total ausência de conteúdo daquelas respostas padronizadas. Trabalhava no gabinete de Hines há apenas seis meses, mas fazia aqueles comentários com um ar de quem já tinha escutado tudo aquilo antes. Hines não foi capaz de conter-se e perguntou-lhe: quantos anos tem, Mitch? A pergunta apanhou o assistente desprevenido. Desculpe? Estou a perguntar-lhe a idade. Quantos anos tem?
O jovem Forrester mirou-o de um modo estranho, com uma expressão que combinava o seu desdém habitual e a mais completa perplexidade. Se estivessem sozinhos, teria retorquido manifestando a aversão que sentia naquele momento, contudo, estava demasiado consciente da presença de outro homem no gabinete de Hines, tipo sentado silenciosamente a um canto. E não desejava que essa pessoa fosse testemunha da sua impertinência. Vinte e seis, respondeu por fim.
Vinte e seis, repetiu Hines, e deixou escapar um suspiro, deprimido com aquele número tão pequeno. Teria sido ele tão cabeça-dura nessa idade? Passaram-se mais de vinte e seis anos desde essa altura. Ele sempre fora ambicioso, porém, não acreditava que se tivesse comportado com a impetuosidade do rapaz que se encontrava à sua frente. Não tenho a certeza de que isso seja relevante para... Não é, não é, interrompeu Hines, agitando a mão. Mais alguma coisa? Por enquanto não, redarguiu Forrester secamente. Informá-lo-ei assim que tivermos mais novidades... Senhor. Deixou que a pausa antes da última palavra evidenciasse o seu descontentamento pelo modo como fora tratado. Ainda assim, com todo o egotismo da juventude, ficou de pé à espera de reconhecimento pelo seu trabalho. Hines limitou-se a olhar para o televisor. O jovem assistente girou nos calcanhares e saiu quando compreendeu, por fim, que não ia receber nada em troca. Hines esperou meio minuto em silêncio antes de se voltar para o homem sentado no canto mais afastado do gabinete. Embora há muito se tivesse resignado ao serviço que aqueles homens prestavam à organização, ainda sentia uma pontada de nervosismo de cada vez que ficava sozinho com um deles. O seu papel na organização sempre havia sido diplomático, profissional. Nunca fora um desses tipos que faziam o sempre necessário trabalho sujo. Era uma dimensão vil da causa, mas essencial. Embora a maioria das pessoas o considerasse um indivíduo com muita influência, Jefferson Hines sabia que o homem sentado a escassos metros dele representava um poder maior do que alguma vez seria capaz de alcançar.
Acredita que esteja relacionado?, indagou por fim, apontando para a pasta vermelha na sua secretária e depois para o televisor sem som. Relacionado com a missão. Claro. Ambos sabiam que não deviam falar do plano de outro modo que não fosse a missão. Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota. Hines não estava satisfeito. Nunca discutimos isto. Marlake, Gifford..., e os restantes. Esse era o plano. Que diabo se passa em Inglaterra? O seu interlocutor levantou-se quando Hines começou a falar e lançou-lhe um olhar fulminante cujo significado não deixava margem para dúvidas: Cala-te. Nunca deviam mencionar os nomes.
Hines compreendeu o olhar e a mensagem que este encerrava. Tamborilou com os dedos sobre a mesa, contrariado e nervoso. Diga-me que já esperávamos respostas deste tipo, pediu. Diga-me que isto não constitui uma surpresa. Se o seu interlocutor sentia algum tipo de hesitação antes de responder, não o demonstrou. Exibia o ar de um homem que desejava emanar confiança, de alguém que pretendia que o seu ouvinte se mantivesse firme e inabalável». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT