Mostrar mensagens com a etiqueta Vitorino Nemésio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vitorino Nemésio. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mau Tempo no Canal. Vitorino Nemésio. «Quando eu voltar é outra coisa. Se fizer concurso... Se for nomeado... Mesmo que fique número três... O número três deve ir para Bragança; é frio... Dali a um ano..., não?»

jdact

A serpente cega
«(…) O Açor parecia realmente despido da sua pele de cão de guarda, de olhos espantados e fitos naquele par misteriosamente formado, com uma trepidação nas beiçanas pendentes, escorridas de baba. Como que lhe tinham transtornado o campo de operações: a sombra inimiga estava de portas adentro de um lugar que ele tinha obrigação de manter limpo de todos os vultos que ali se atrevessem sozinhos, mas em cuja população acompanhada pelos donos não tinha nada que cheirar. E se conservava um resto de gana no lombo e no focinho anelante, traduzida num rosnar que o vento levava em dueto, é que há sempre intervalo entre um corte de corrente e o parar do motor. Então Margarida tomou mais consciência da situação em que estavam, e, tornada ao ponto em que a sua recente intimidade com João Garcia recuava sobre o antigo constrangimento de dois estranhos, disse-lhe: vá-se! Podem ver da estrada... Não vêem. Comigo no caminho é que é pouco prudente. Agora que nos vamos separar, sempre te digo que temos facilitado um pouco. Esta gente da vizinhança é linguareira; mas como havia de ser? Quando eu voltar é outra coisa. Se fizer concurso... Se for nomeado... Mesmo que fique número três... O número três deve ir para Bragança; é frio... Dali a um ano..., não? Ficou à espera, tomando-lhe a mão com doçura. Margarida ouvia-o como se estivesse longe e chegasse muito devagar ao calor de tais propostas. Deus sabe o que nos espera, daqui até lá... E, vendo-se outra vez entre João Garcia e o cão ainda desconfiado e coçando uma orelha à pata, aplicou o ouvido à estrada. Foi ao muro: está sempre a passar gente. João Garcia espreitou, na ponta dos pés; dois vultos dobravam o começo da curva, seguidos das sombras disformes: meu tio Ângelo e o Pretextato... Vão dar a sua volta. Quanto mais perto estivermos da lâmpada, pior! Ao nome de Ângelo Garcia, Margarida perdeu o alvoroço em que a presença do namorado e os nervos do cão a punham. A recordação do maricas acordava nela a soberba dos Clarks, aquele sentimento maciço, enjoado e um pouco cínico, que contribuíra para correr Januário Garcia do escritório da casa Clark & Sons e envolvia a família Garcia num desdém mais snobe do que odiento. Representou-se-lhe Ângelo de bigodinho frisado a ferro, faces de menina, o cabelo ruço e melado sob o chapéu de coco, correndo as casas da Horta com o seu pezinho atrasado. A ideia do avô sempre doente em casa ligou-se-lhe à rápida repulsa. O pai, fora. A mãe, sentada ao pé da voltam do avô, embrulhada no cachiné das noites compridas, com uma irritação a que o seu feitio romântico dava uma poesia desafinada, das pessoas que choram e riem sem ter de quê. Olhou para o casarão engolido no escuro da quinta, apenas visível pela esteira de luz que vinha do quarto do avô quebrar-se na janela da saleta. Um pé-de-vento abalou as faias e os cedros, levantando-lhe a ponta do casaco e uma mecha de cabelo. João Garcia tinha de novo a mão dela nas suas, mas aquela pausa como que a cortara do braço de Margarida. Ia a dizer-lhe outra vez que se fosse, atraída para os lados de casa, quando sentiu melhor o calor daquele homem parado no meio das árvores, ali ao pé dela e a uma distância que a viagem de Lisboa tornava saudosa e sem fim. João Garcia pareceu entender este íntimo movimento e sossegou-a: não tenhas medo. Então não estou ao pé de ti e não hei-de voltar daqui a meses?... Mas há tão pouco que nos falamos, e entrares na quinta assim de noite! Se nos vissem... Teu pai vem tarde. Às vezes entra pelo portão da canada... Salto o muro. Os cedros tornaram a ramalhar bruscamente. Agora as guinadas do vento repetiam-se. Vinha certeiro no silêncio e experimentava fortemente as árvores, que durante um segundo descreviam um círculo cheio, como piões no torpor. Mas entre duas lufadas a quinta cerrava-se outra vez; ficava tudo compacto, debaixo de um bafo. Um cheiro a lava salgada e a seiva de cedro inebriava». In Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, 1944, Bertrand, BIS, colecção BIS, 2010, ISBN 978-989-660-041-9.

Cortesia de Bertrand/BIS/JDACT

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mau Tempo no Canal. Vitorino Nemésio. «Naturalmente, também, se vieste aqui hoje, foi para não estares fechada..., disse João Garcia, sorrindo e desenrolando um fio de despiques pequeninos»

jdact

A serpente cega
«Mas não voltas tão cedo... João Garcia garantiu que sim, que voltava. Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou: quem sabe...? Demoro-me pouco..., palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas e mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo..., rever a legislação. Entrava em pormenores. Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento. Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado. Dali a entrada da quinta corria um muro de pedra solta onde espreitavam trepadeiras, e só a uns vinte metros se erguia a parede nobre com o grande portão verde de padieira grossa, que ao abrir bem atrás, devido a uma posição mal calculada, batia na borda da sineta arrematada do naufrágio de um veleiro. Do lado oposto à cidade a estrada descrevia uma curva ao longo de muros de cerrados, onde os grilos pareciam, de Verão, o queixume da ilha abafada e em que pairava agora um pasmo solto de tudo, menos do mar. As lâmpadas da rede, lá para Porto Pim, faziam mais escura a massa de águas que devia rolar enrefegada a um começo de vento levantado, pouco e já duro. De vez em quando, o cão da quinta dos Dulmos, poucos metros atrás de Margarida, esticava a corrente e rosnava. Açor!... Eu nem devia falar contigo a esta hora, com o avô assim tão doente! O pai já anda desconfiado... E que tem?! Não é a última vez?... Última?..., credo! Isso, nem que tudo acabasse. Mesmo que Lisboa te faça esquecer de mim, somos da mesma ilha, quase vizinhos..., apesar do que se passou. Do Granel do avô via-te ir todas as tardes pela muralha fora. Oh! muito antes de perceber...! Nem me passava pela cabeça! É que não posso estar muito tempo fechada; dá-me a impressão de que abafo..., até nas Vinhas! Olha que no Pico é a mesma coisa... Já não sei quantas vezes te ouvi isso! Naturalmente, também, se vieste aqui hoje, foi para não estares fechada..., disse João Garcia, sorrindo e desenrolando um fio de despiques pequeninos, a linha mais excitante de um namoro em que era a quarta ou quinta vez que se falavam.
Mas o cão estava insofrido e ameaçava arrastar a casota para junto de Margarida. Era um cão de fila, um rabo-torto da Terceira, espécie de buldogue atarracado e cor de rolão. João Garcia viu-lhe as orelhas cortadas e guichas do lado de dentro da quinta, num salto de pêndulo que lhe punha as virilhas à mostra, e correspondia, na instabilidade, à posição do namorado na rampa de terra da estrada, que o obrigava a escorregar e a trepar alternadamente, para não perder o contacto com a borda do muro. De mais a mais, o vento começava a enrodilhar as folhas das faias e dos cedros, e de baixo, do caminho, tornava-se difícil perceber o que se dissesse em cima. Margarida atirou-se ao animal: Ache! Vá-se deitar, Açor! Vá-se deitar! E ficou de mão espalmada na cabeça quadrada do bicho, que meteu para as patas de trás o inútil vigor de sentinela. João Garcia fincara os pés na rampa e as mãos no muro, elevando-se como se estivesse a trabalhar de espaldar. A fúria do cão enchia-o de um atrevimento nervoso, como se Margarida estivesse em perigo ou o quisesse experimentar criando-lhe um inimigo inferior. Agora era o Açor que o via em posição de ataque, só a cabeça e os cotovelos. Açulado por aquela sombra, o cão atirou-se por cima da dona ao vulto, de gorgomilos rascantes estrangulados na coleira. com o impulso, Margarida resvalou; mas, apanhando rapidamente o casaco cinzento que pusera pelos ombros, fez frente à fera, intimidando-a. João Garcia, de um salto, tinha-se posto ao pé dela. Cuidado, que te morde!, gritou Margarida; e, vendo a cobardia do cão e o perigo de falar alto: deixa..., podem-nos ver! Não, não foi nada. Só me rasguei na saia. Sacudiu-se. Mas a rapidez da cena fizera-a logo esquecer que João Garcia estava da parte de dentro da quinta; deixou que ele lhe pegasse na mão raspada pela queda, atento ao arranhão como um enfermeiro profissional. Não tem importância nenhuma. Mas ainda assim havia sinal de sangue. Voltou-se para o cão: Estúpido! Deite-se! Ah, seu estúpido!» In Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, 1944, Bertrand, BIS, colecção BIS, 2010, ISBN 978-989-660-041-9.

Cortesia de Bertrand/BIS/JDACT

sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. Vitorino Nemésio. Mário Dionísio. «Esta é uma infância viva, que transforma o adulto em comparsa do jogo infantil, recuando a sua experiência e prolongando o seu percurso. Toca-nos a presença dos dois corpos, e descobre-se eco no eco de si em que reinveste»

jdact

O futuro perfeito
«A neta explora-me os dentes,
penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
meu rosto diverte-a, parda
imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
fura-me os olhos cansados,
íntima aos meus próprios medos
deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
em tempo de sua vida».
Poema de Vitorino Nemésio, in ‘Os Poemas da Minha Vida, Praia da Vitória, Ilha Terceira, 1901-1978


A casa deserta
«Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...

Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo
parece que é gente que vem a entrar...

E é só o vento soprando, soprando
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...»
Poema de Mário Dionísio, in

Poema de Mário Dionísio, in ‘Os Poemas da Minha Vida, Lisboa, 1916-1993

JDACT

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Homem que Viajou Sozinho. Leituras. Virgil Gheorghiu. «Quando Grigore avistou o comboio na estação deixou que os cavalos descessem mais depressa. Sabia que o único comboio que chegava de manhã não partia senão ao, meio-dia, e que tinham ainda tempo»

jdact

«(…) Mas era o feitio de Traian, deixar-se ficar quieto na varanda, com os livros. Até à idade de vinte anos, até agora, fora essa a sua maior felicidade. O seu sonho secreto era vir a ser um padre de aldeia, como era o pai e como tinham sido todos os seus antepassados, naquela região da Moldávia do Norte, junto aos Cárpatos. Mas a vida tornara-se difícil. Naquela região toda a terra era estéril. Os homens eram pobres, o clima duro. Traian tivera de escolher outra carreira. Decidira então matricular-se na Faculdade, em Bucareste, para ser professor. Tinha de ganhar a vida enquanto estudasse. O pai era muito pobre para o ajudar; tinha que pagar os estudos aos quatro filhos mais novos com o pouco que tinha. No entanto, Traian partiu para a Universidade cheio de grandes esperanças. Ainda no liceu, publicara dois volumes de poesia: A Vida Quotidiana do Poeta e Esboços. Colaborara em todas as revistas literárias da capital. Graças a ser já conhecido como um dos escritores novos, esperava arranjar um lugar de redactor num jornal de Bucareste e ganhar" dinheiro suficiente para viver durante o curso e pagar as matrículas. Tinha já mesmo algumas promessas. Deixava Isvor cheio de confiança. De repente lembrou-se das lágrimas da mãe. Voltou-se para Grigore, que guiava os -cavalos, e quis-lhe perguntar: …porque é que a mãe chorava como se eu fosse para o fim do mundo? Mas Grigore, que estava ao serviço do padre há mais de vinte anos, mergulhara nos seus pensamentos. Fitava, absorto, a estrada que se estendia diante deles. Traian não quis perturbar-lhe a meditação. Não lhe perguntou nada. Fitou também a estrada, como Grigore. A carruagem avançava ao trote dos cavalos na estrada que atravessava a aldeia. A estrada e os pátios estravam desertos. Nem vivalma. Como a terra era pobre, os habitantes de Isvor iam ganhar o dia a centenas de quilómetros dali. Agora tinham ido vindimar para a Moldávia do Sul com as mulheres, os filhos e as carroças. Ninguém ficava em Isvor, a não ser os velhos e os doentes. O carro do padre avançava na estrada deserta. Diante deles, à direita, ficava a última casa de Isvor. Era a casa do professor. Igualzinha à do padre: paredes brancas, telhado de varedo, varanda de madeira, flores à janela e, diante da porta, um poço com uma roda.
Diante do poço estava a filha única do professor, com uma saia azul como as flores que se chamam não-me-deixes. Traian despedira-se na véspera; Maria, no entanto, queria tornar a vê-lo ainda antes da partida. Por isso veio ao encontro dele, para junto do poço, quando ouviu ao longe o ruído do carro. Maria andava no liceu de Kichinev, que Traian frequentara durante oito anos. Também ela, dali a um ano, sairia do liceu. Às vezes, ao domingo, encontravam-se em Kichinev. Traian dedicara-lhe alguns versos, e Maria sentira-se toda orgulhosa por ser a musa de um poeta. Hei-de te mandar a direcção do Lar para onde vou ficar em Buoareste, logo que lá chegue, disse Traian no momento em que o carro chegava à porta do professor. Os cavalos iam agora a passo. Traian disse: Saúda por mim Kichinev e toda a Bessarábia, Maria! Parto amanhã de manhã às sete horas, disse ela. A rapariga estava encostada ao poço. A saia, azul como as flores das miosótis, desfraldava-se ao vento. Adeus, até às férias do Natal!, disse Traian acenando. Os cavalos meteram de novo a trote. Traian olhou para trás. Alguns minutos depois, a estrada virava para a direita e grandes árvores esconderam a casa do professor, o poço de roda de madeira e a rapariga de saia azul. O Natal era dali a quatro meses. Traian esperava voltar coberto de glória e pensava no que iria acontecer quando voltasse. Enfrentava o futuro com confiança. Alguns instantes depois, a estrada começava a descer. A estação ficava a quatro quilómetros, no vale. Traian avistava agora a minúscula estação, com as paredes brancas e o telhado de telhas vermelhas. Era uma estação-términus, a que só chegava um comboio por dia. Esse comboio, composto de três pequenas carruagens e de uma locomotiva, estava agora diante do edifício de paredes brancas e de telhado vermelho. Quando Grigore avistou o comboio na estação deixou que os cavalos descessem mais depressa. Sabia que o único comboio que chegava de manhã não partia senão ao, meio-dia, e que tinham ainda tempo. Mas, instintivamente, deixou ir os cavalos mais depressa. Quando o menino voltar, no Natal, vai nevar, disse Grigore. Hei-de vir busca-lo de trenó». In C. Virgil Gheorghiu, O Homem que Viajou Sòzinho, tradução de Vitorino Nemésio, 4ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia da LBertrand/JDACT

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Leituras. O Homem que Viajou Sòzinho. Virgil Gheorghiu. «Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais»

jdact

«Sei que tudo te há-de correr bem - disse a mãe de Traian Matisi. - Estou certa que tudo te há-de correr bem. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Com a mão direita segurava o rebordo da carruagem prestes a partir. Agarrava-a como se a-quisesse deter. Com a mão esquerda limpava as lágrimas quando lhe chegavam aos lábios. - Não tens razão nenhuma para chorar – disse Traian depois de ter arrumado a mala na carruagem. - Chorar para quê, se tens a certeza de que me vou sair bem? A carruagem, atrelada a dois cavalos, estava parada diante da escada da casa.
Traian, envergando o seu primeiro trajo civil, partira para a Universidade, em Bucareste. Todos os seus, à volta da carruagem, assistiam à partida: o pai, o padre de Isvor, direito, magro, apertado na sotaina. - Estava calado. Junto dele estavam as três irmãs e Nicolau, o irmão de Traian. Também calados. - Bem sabes que hei-de vir de tempos a tempos a casa - disse Traian. Pôs uma mão protectora no ombro da mãe, que o fitou cara a cara. Enquanto olhava para o filho, os olhos dilatavam-se-1he, interrogadores e assustados.
 - Pois claro que volto sempre nas férias a casa - disse Traian, vendo o medo invadir os olhos enevoados de lágrimas da mãe. - Voltas? Sério? - perguntou ela, incrédula, com uma voz hesitante. Depois de fazer a pergunta, a mãe de Traian desatou a soluçar. - Não queres acreditar que volto? - disse ele; e apertou-lhe com mais força o ombro. - É por isso que estás a chorar? Porque julgas que não volto? - Acredito que voltas - disse ela. As lágrimas - deslizaram-lhe de novo até aos lábios e limpou-as com a mão esquerda. Depois continuou:
  • Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais. É só isso. Que voltes tarde de mais. Quando eu já cá não estiver.
A mãe de Traian Matisi desprendeu a mão da carruagem; agora deixava-a partir. Dissera ao filho tudo o que tinha a dizer-lhe. Toda a sua angústia. Deu um passo atrás para deixar partir a carruagem. Traian voltou-se, interrogador, para o pai. O padre estava imóvel. As três irmãs de Traian também. Junto da escada deu com o olhar do Solitário.
Era um cavalo serrano, um pouco maior do que um poney, que, um belo dia, chegara ao pátio do padre de Isvor, onde espinoteava em liberdade, partilhando da vida das crianças, das galinhas, dos patos e dos outros animais domésticos. O Solitário olhava agora para Traian com os mesmos olhos indagadores, fixos e um pouco inquietos, com que o olhavam todas as pessoas reunidas à volta dele. - Mas para quê, esta despedida trágica? – disse Traian. - Como se eu fosse para o fim do mundo...
A voz tornou-se-lhe enérgica. Continuou:
  • Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Mamã, não chores mais!
Traian Matisi beijou a mão ao pai, que lhe deu um beijo na testa. Beijou a mão da mãe. A mãe deu-lhe um beijo na testa também. Beijou as irmãs, na face direita. Para beijá-las tinha de se curvar, que as três eram mais pequenas do que ele. Puseram-se, cada uma por sua vez, nos bicos dos pés e beijaram também Traian na face direita. Nicolau, o irmão de Traian, tinha dez anos. Recebeu com gravidade o beijo na face direita. - Agora, adeus! - disse bruscamente Traian. - Adeus! Até às férias do Natal. Antes de saltar para a carruagem encontrou de novo os olhos inquietos do cavalinho, do Solitário, que olhava fixamente para ele.
 - Também queres que te diga adeus? - perguntou Traian.
Traian beijou rapidamente o cavalinho na testa, entre os olhos. Depois saltou para a carruagem. Grigore, o criado que o levava à estação, enxotou com o chicote os patos, os gansos e as peruas que se tinham instalado debaixo do carro. Depois subiu para o pé de Traian e chicoteou os cavalos. - Volta, como prometeste! - disse a mãe de Traian. Fora mais para si mesma que falara, quando a carruagem largou. No mesmo instante ouviu-se a voz de Nicolau, que parodiava a recomendação materna ao irmão que partia: - Ó defunto, não voltes tarde de mais!
A alcunha de defunto, lançada naquele momento por Nicolau, provocou o riso das crianças. Traian também riu. O padre sorriu, a mãe de Traian sorriu por entre as lágrimas. E até Grigore. Todos riam quando a carruagem deixou o pátio do padre de Isvor. As irmãs e o irmão tinham posto a Traian a alcunha de defunto. Traian era o filho mais velho do padre. Durante as férias, passava os dias a ler na varanda da casa. As irmãs e Nicolau tinham posto ao irmão mais velho o nome de defunto para se vingarem de ele nunca brincar com eles. Tinham decidido que só um morto, um defunto podia ficar imóvel todo o dia, com a cabeça metida entre os livros». In C. Virgil Gheorghiu, O Homem que Viajou Sòzinho, tradução de Vitorino Nemésio, 4ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia da L. Bertrand/JDACT

sábado, 29 de setembro de 2012

A Tavolagem do Besteiro. Lisboa século XV. Vitorino Nemésio. «… jazia a Alfama, a cuja frente se elevava a velha catedral. A Alfama fora no tempo do domínio serraceno o arrabalde de Lisboa gótica; fora o bairro casquilho, aristocrático, alindado, culto quando a Medina Achbuna pousava enroscada…»



jdact e cortesia da literaturaacoriana

Ordenamos e estabelecemos por lei que nós nem outrem do nosso senhorio, de qualquer estado e condição que seja, nem tenha tavolagem em praça, nem em escondido’. In Livro das Leis e Posturas Antigas, Lei de Afonso IV.

«Quem hoje se encaminhar ao longo da rua vulgarmente chamada dos Capelistas, dobrar o penúltimo quarteirão da rua Nova da Princesa e seguir pela rua dos Confeiteiros, caminho da Ribeira Velha, terá passado por cima da sepultura das mais nobres ruínas da antiga Lisboa. A rua Nova, designada assim por antonomásia, passava pouco mais ou menos pelo sítio em que hoje está lançada a rua Nova de El-rei: a sua origem remontava quase ao berço da monarquia e já no tempo do rei Fernando I era o centro da actividade comercial da cidade, então frequentada de estrangeiros de diversas nações, que vinham buscar o nosso trato e comércio. Depois da feitura da nova muralha (1373-5) prolongava-se com esta e vinha findar nas proximidades da moderna igreja de S. Julião pelo lado do ocidente, enquanto pelo topo oriental terminava no Pelourinho Velho. Aqui, a povoação dividia-se como em dois troncis:
  • um que, subdividido em muitos ramos de ruas enredadas e escuras, subia para a Alcáçova;
  • outro que seguia ao longo da muralha e ia desembocar fora das Portas do Mar, no bairro chamado Vila Nova de Gibraltar.
Entre estas duas divisões jazia a Alfama, a cuja frente se elevava a velha catedral. A Alfama fora no tempo do domínio serraceno o arrabalde de Lisboa gótica; fora o bairro casquilho, aristocrático, alindado, culto quando a Medina Achbuna pousava enroscada tristemente no seu ninho de pedra, no que depois se chamou a Alcáçova e hoje o Castelo. Quando, porém, no século XIII a população cristã, alargando-se para o ocidente, veio expulsar os judeus do seu bairro primitivo, situado na actual cidade baixa, e os encantou para a parte do sul da catedral, a Alfama foi perdendo gradualmente a sua importância, e converteu-se afinal num bairro de gente miúda e, sobretudo, de pescadores. A rua Nova, a porta de Lisboa, rica de seiva, chamara a redor de si toda a vida da povoação. A velha judiaria era agora o coração da cidade, e a Alfama, em parte feita plebeia, e judaizando em parte, viu pender e murchar a sua guapice, transitória e morredoura como todas as glórias do mundo.
Nesse bairro, no fim da rua chamada há séculos das Canastras, junto às Portas do Mar, corria uma casa baixa, mas solidamente edificada, a qual contrastava com as que lhe estavam próximas pela sua muita antiguidade: as duas janelas, cujas vergas se arqueavam à feição de uma ferradura, abertas nos dois extremos da frontaria, a igual distância do largo e achatado portal que lhes ficava no meio, desdiziam das frestas pontiagudas e estreitas que davam luz às moradas vizinhas, bem como o portal, igualmente terminado em volta de ferradura, contrastava com as elegantes portadas góticas dos outros edifícios, cujos telhados angulosos e bordados de ameias também diversificavam do tecto daquele edifício mourisco, que oferecia aos seus habitadores um eirado espaçoso, onde pelas madrugadas serenas ou ao pôr do Sol de um dia de estio, podiam ir respirar uma viração mais pura, que raras vezes passava pelas ruas tortuosas, estreitas e imundas da velha cidade.
Eram perto das seis da tarde do dia 6 de Maio do ano de 1389. No pequeno terreiro que dizia, pela parte inferior do muro, para as Portas do Mar, já mal se divisavam os objectos, porque a noite descia rapidamente do lado oriental, posto que ainda o clarão avermelhado do crepúsculo tingisse os altíssimos coruchéus azulejados que serviam de topo e remate às torres da catedral». In Vitorino Nemésio, Portugal a Terra e o Homem, Antologia de Textos de Escritores dos séculos XIX-XX, Edição da F. C Gulbenkian, Lisboa, 1978.

Cortesia da F. C. Gulbenkian/JDACT

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Bela Poesia: Vitorino Nemésio. «De armas que empunham rapazes de guarda a uma egípcia esfinge e um vento de guerra passa e o pau da bandeira ringe antes de fazer as pazes»

Cortesia de adispersapalavra

Um Dia é Pouco ao Pé de Margarida
A nossa intimidade a três ou quatro é constrangida.
Tenho medo no ângor e uma urtiga no pé.
Um dia é pouco ao pé de Margarida:
A ausência é menos sozinha,
A muita companhia dá bandos longe. Até
A vida
É
Se tua, já menos minha:
Se própria de meu, repartida,
Por muitos na atenção, nem tua é.
Só nossa solidão dual e penetrada
Evita o perigo do nada
A que, por condição, setas, as nossas pernas
Apontam na cavidade inexorável,
Fim de molécula qualquer.
Mas, entretanto, Margarida amável
Será flor, ou mulher?
Vitorino Nemésio
 
Quando Toda és Terra a Terra
Marga, teu busto tufa,
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.

Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.

Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...
Vitorino Nemésio
 
Cortesia de juliodantas
 
JDACT

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vitorino Nemésio: «Equaciona o sentido da existência humana perante os diversos conflitos que a centram: o sagrado e o profano, o saber e a ingenuidade, a cultura e a natureza, o amor excessivo e os desapegos da banalidade quotidiana»

Cortesia de asilhasencantadas

Pedra de Canto
Ainda terás alento e pedra de canto,
Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,
Para cantar em sílabas ásperas o canto,
De rima em -anto, o pranto,
O amor, o apego, o sossego, a rima interna
Das almas calmas, isto e aquilo, o canto
Do pranto em pedra aparelhada a corpo e escopro,
O estupro de outrora, a triste vida dela, o canto,
Buraco onde te metes, duplamente: com falo,
Falas, fá-la chorar e ganir, com falo o canto
No buraco de grilo onde anoiteces,
No buraco de falso eremita onde conheces
Teu nada, o dela, o buraco dela, o canto
De pedra, sim, canteiro por cantares e aparelhares
Com ela em rua e cama o falo fá-la cheia,
Canteiro porque o falo a julga flores, o canto
Áspero do canteiro de pedra e sémen que tu és
(No buraco do falo falaste),
Tu, falazão de amor, que a amas e conheces.
Amas a quem? Conheces quem? Pobre Hipocrene,
Apolo de pataco, Camões binocular, poeta de merda,

Embora isso em sangue dessa pobre alma em ferida:
A dela, a tua, cadela a tua pura e fiel no canto
De lama e amor como não há no charco em torno,
Maravilhoso canto só de soprares na ponta a um corno
E logo a sílaba e o inferno te obedecem
E as dores íntimas dela nas tuas falas se conhecem,
Sua íntima vergonha inconfessada desponta,
Passiflora penada, pequenina vulva triste
Em teu sémen sarada e já livre de afronta:
O canto em pedra e voz, psicóide e bem vibrado,
Límpido como vidro a altas horas lavado,
Como o galo de bronze pela dor acordado,
No amor e na morte alevantado,
Da trampa mentirosa resgatado,
Como Dante o lavrou em pedra de Florença
E Deus to deu de amor por ela no atoleiro?
Flor menina de orvalho em amor verdadeiro?

Ainda terás amor e pedra de canto,
Fé nela e sua dor de arrependida e enganada,
Ou, enfim, amor a fogo dado e perdão puro...
Eu quero lá saber! Amor de Deus no canto
De misericórdia e paz, mesmo para os violentos
Da violada violeta, a breve miosótis
Ao canto unida e em tuas lágrimas orvalhada?
Cala-te e humilha-te como ela,
Que é maior do que tu no canto
E a esta hora só bebe talvez água salgada,
Oh poeta de água doce!

Mas, antes de calar espada e voz, responde:
Ainda terás alento e pedra de canto
Para cantar estas coisas,
Encantar outra vez a donzela roubada ou nina morta,
Enfim, o teu amor?
Dize lá, sem-vergonha,
Homem singelo:
Pois se nisto me mentes nunca mais a verás.

(Quem fala?)
Vitorino Nemésio, in «Obras Completas»

Cortesia de O Citador.
Com amizade, JDACT

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vitorino Nemésio: Foi um dos grandes escritores portugueses do séc. XX, tendo recebido em 1965, o Prémio Nacional da Literatura. Está sepultado em Coimbra mas, pediu mais, que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados

(1901-1978)
Cortesia de sebentadonando

O Poema em que te Busco é a Minha Rede
O poema em que te busco é a minha rede,
Bem mais de borboletas que de peixes,
E é o copo em que te bebo: morro à sede
Mas ainda és margarida e não-me-deixes
E muito mais, no enumerar das coisas:
Cordão de laço e corda de violino,
Saliva de verdade nalgum beijo,
E poisas
Como ave de aço em pão se não te vejo.
Mas onde mais real do céu me avisas
É nas tuas camisas,
Calças de cor no catre bem dobradas.
E és os meus pensamentos, se te ausentas,
Meu ciúme escuro como vinho em toalha;
E o branco circular das horas lentas
Que um perfurante amor lembrado espalha.
Põe o penso no velo intercrural
Com um atilho vertical:
Rosa coberta esquiva
Quer a mão do desejo, quer
O conhecido cravo da agressão
Que estendo às tuas formas de mulher,
Com esta soma e verbal percaução
De um fónico doutor de Mompilher.
Vitorino Nemésio, in «Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga»

Tenho uma Saudade tão Braba
Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.
Vitorino Nemésio, in «Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga»

Cortesia de O Citador/JDACT

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Vitorino Nemésio: Crónica

No pp dia 20 de Fevereiro completaram-se trinta e dois anos sobre a morte do genial Vitorino Nemésio, autor do «romance das ilhas» a que carinhosamente intitulou de Mau Tempo no Canal, a sua obra mais emblemática. Distinguiu-se como uma personalidade completa, com um talento pleno de intelectualidade numa mística de poeta e de sábio. Vitorino Nemésio era um comunicados por excelência, era um virtuoso na recriação da palavra, um fascínio quando pronunciava a frase emblemática e tão popular «Se bem me lembro... »
Como ele dizia: Fui feito de lama quente,/ Pisado de barro à mão./ Enchi de mais a vasilha,/ Quebrou-se-me o coração.
Para seu filho, Manuel Nemésio, o comandante, da «Contrução da Casa do Ser», vão estes comentários que antecedem a Crónica «O capuchinho da Arrábida» da autoria de seu pai, o açoriano poeta e romancista que soube transmitir o seu saber através de inúmeras linguagens. Manuel Nemésio afirmou: «O meu pai era um amante da vida. Era uma espécie de Internet antes de tempo, com tudo o que tinha lá dentro, embora nunca deixasse de usar o seu lápis e a sua agenda»
Maria Maia Gouveia/ICLP, 1ª edição 1986/Adaptação de JDACT