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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Obra Poética. Sophia de Mello Breyner Andresen. «Mistério das luzes e das sombras sobre os caminhos de areia, rios de palidez em que escorre sobre os campos a lua cheia, ansioso subir de cada voz, que na noite clara se desfaz e morre»

jdact

Poesia I, 1944

Apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias.


Noite
Mais, uma vez encontro a tua face,
ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
sobre os caminhos de areia,
rios de palidez em que escorre
sobre os campos a lua cheia,
ansioso subir de cada voz,
que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
de mil gestos entre a folhagem,
tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
reconheço e adoro a tua face,
tão exaltadamente desejada,
tão exaltadamente encontrada,
que a vida há-de passar, sem que ela passe,
do fundo dos meus olhos onde está gravada.

Poemas de Sophia Breyner Andresen, in ‘Obra Poética’


JDACT

Raiz de Orvalho. Mia Couto. «Qualquer coisa, pergunta-me qualquer coisa, uma tolice, um mistério indecifrável, simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber, para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer»

jdact

Saudade
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura,
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés.

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar,
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas.

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio,
tua virtude, tua carência,
eu
que longe de ti sou fraco,
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta.

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água,
dá ocupação à minha ternura vadia,
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
In 1979


Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo,
se acendes ainda
o minuto de cinza,
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue.

Pergunta-me
se o vento não traz nada,
se o vento tudo arrasta,
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos.

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas,
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser.

Se eras tu
que reunias pedaços do meu poema,
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente.

Qualquer coisa,
pergunta-me qualquer coisa,
uma tolice,
um mistério indecifrável,
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber,
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.
In 1981

Poemas de Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

JDACT

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sttau Monteiro: Felizmente Há Luar! Esta peça histórica, que recorda a rebelião do general Gomes Freire de Andrade, foi proibida pela censura tendo sido representada no nosso país apenas em 1978. Um espírito crítico e combativo

(1926-1993)
Lisboa
Cortesia de gramaticaportuguesa

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro foi um ficcionista, autor dramático, encenador e jornalista. Era formado em Direito.
De ascendência espanhola, viveu uma parte da adolescência em Inglaterra, onde o seu pai foi embaixador. Nos anos 70 do século XX, desenvolveu actividade como jornalista, tendo colaborado com o Diário de Notícias e com o Expresso.
Iniciou a sua carreira literária com a narrativa Um Homem Não Chora, obra saudada como uma revelação da ficção portuguesa contemporânea, a que se seguiu um romance de grande êxito, Angústia para o Jantar, onde se salientam a «ironia, o gosto pela sátira, a distanciação emocional, o cinismo [...] e, no plano estilístico, a vivacidade dos diálogos».
Cortesia de sfraa
Situado numa segunda geração neo-realista, foi sobretudo pela sua obra dramática que viria a ser consagrado, recebendo com Felizmente Há Luar!, em 1962, o Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores. Essa peça histórica, que recorda a rebelião do general Gomes Freire de Andrade, foi proibida pela censura tendo sido representada no nosso país apenas em 1978.
As suas sátiras sobre a ditadura e a Guerra Colonial, fruto do seu espírito crítico e combativo, tornaram-no objecto de perseguição política, chegando mesmo a ser preso como quando publicou A Estátua e A Guerra Santa. Embora levadas à cena por companhias estrangeiras, poucas peças de Luís de Sttau Monteiro foram representadas em Portugal antes do 25 de Abril, exceptuando-se As Mãos de Abraão Zacut, estreada em 1969 pela Companhia do Teatro Estúdio de Lisboa, sob a direcção de Luzia Maria Martins.
Homem essencialmente de teatro, Sttau Monteiro foi ainda autor de uma adaptação da novela O Barão, de Branquinho da Fonseca, e de várias traduções de autores dramáticos como Shakespeare ou Ibsen, que ele próprio levou à cena.

Cortesia de daruaonze 
Bibliografia:
  • Um Homem Não Chora, Lisboa, 1960;
  • Angústia para o Jantar, Lisboa, 1961;
  • Felizmente Há Luar!, Lisboa, 1961;
  • Todos os Anos, pela Primavera, Lisboa, 1963;
  • O Barão, Lisboa, 1964;
  • Auto da Barca do Motor fora da Borda, Lisboa, 1966;
  • A Guerra Santa, Lisboa, 1967;
  • A Estátua, Lisboa, 1967;
  • As Mãos de Abraão Zacut, Lisboa, 1968;
  • Sua Excelência, Lisboa, 1971;
  • E se For Rapariga chama-se Custódia, 1978;
  • Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes, Lisboa, 1981.
Cortesia de mestregratis

Felizmente Há Luar!
A obra
«A peça em dois actos Felizmente Há Luar!, de Sttau Monteiro, publicada em 1961, foi suprimida pela censura da ditadura; representada pela primeira vez em 1969, em Paris, só chegaria aos palcos portugueses em 1978, no Teatro Nacional, encenada pelo próprio autor. Esta peça tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817, uma conspiração, encabeçada pelo general Gomes Freire de Andrade, que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi descoberta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir...
No entanto, esta peça marca também posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, como denúncia da opressão que se vivia na época em que foi escrita, 1961, sob a ditadura do Estado Novo. O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do seu tempo.

Felizmente Há Luar! é um drama narrativo, dentro dos princípios do teatro épico, que descreve a «trágica apoteose» do movimento liberal oitocentista, em Portugal, e interpreta as condições da sociedade portuguesa do início do século XIX e a revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas, contra o poder absolutista e tirânico dos governadores e do generalíssimo Beresford.
Gomes Freire, amado por uns e odiado pelos que temem perder o poder, é acusado de chefe da revolta, de estrangeirado e grão-mestre da Maçonaria, por ser um soldado brilhante e idolatrado pelo povo». In Infopédia, Luís de Sttau Monteiro. Porto: Porto Editora, 2003-2006. 

Cortesia da Infopédia/JDACT