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terça-feira, 27 de setembro de 2011

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte III. «… o livro em debate, em vez de simpatia, compreensão, admiração, vinha só polvilhado de inveja, de insensibilidade e do desejo escuro de diminuir o renome de António Nobre. Renegando subitamente a instância das fainas em decurso, procurei-o e li-o dum fôlego»

Cortesia de livrariacentral

«Poderiam elas ter vindo a lume mais cedo, visto o livro do sr. Forjaz circular no mercado há já meses. Poderiam, mas não deveriam, acho eu, se bem que a maior parte desse atraso se deva apenas à circunstância de só tardiamente eu ter tido conhecimento da essência da obra do sr. Forjaz, pois preocupado com outras fainas instantes no momento em que ela surgiu, mal tive tempo de lhe ler o título, ficando-me na presunção de que se tratava duma rememoração simpática, duma análise inteligente, duma homenagem enternecida a um dos mais originais e delicados Poetas da nossa Terra. Isto, apesar do pouco, mas bastante para formar tal juízo, que conhecia da bagagem escritural daquele autor não me autorizar robustas esperanças nas suas aptidões para trabalhos dum tal jaez, requerentes, acima de tudo, de identidade poética e delicada ao serviço duma especial acuidade crítica.

Semanas depois, o acaso da leitura dum jornal atirou-me para debaixo dos olhos com o registo do aparecimento do opúsculo, registo de aberta censura, e desvendou-me, então, o seu criminoso miolo. Dando razão à anemia daquelas esperanças e arruinando a presunção que o seu título traiçoeiramente me impusera, o livro em debate, em vez de simpatia, compreensão, admiração, vinha só polvilhado de inveja, de insensibilidade e do desejo escuro de diminuir o renome de António Nobre. Renegando subitamente a instância das fainas em decurso, procurei-o e li-o dum fôlego. E, ao cabo, compenetrado de que no seu autor se acentuava cada vez mais uma aguda crise de mercantilismo literário, cujos alarmantes sintomas já vinham de longe, e necessário era, portanto, opor-lhe um imediato e enérgico antídoto, lancei-me a prepará-lo. Folheei livros e jornais e revistas, investiguei e até me impus o pesado sacrifício de ler toda a obra do sr. Forjaz de Sampaio, evitando precipitações, sempre temíveis em casos tais, e recrutando e coordenando com segurança todos os seus elementos.

Cortesia de falcaodejade

E, a este respeito, julgo que me será lícito o orgulho de supor que não realizei obra leviana, peca e falha de documentação. Fica assim justificado o atraso, e a quem praticamente conheça as canseiras e o fatal consumo largo de tempo a que tarefas desta natureza obrigam, decerto até ele parecerá exíguo.
Sairá daqui mal ferido o sr. Forjaz? Não me regozijo com isso, creiam, nem o procurei, pois, aparte o meu desapreço pela sua obra, não me galvaniza qualquer particular sentimento de animosidade contra ele. Respondem estas palavras aos que, entre o gentio que lhe estrondeia batuques cultuais, queiram insinuar que vim aqui saldar rancores antigos. Pessoalmente, creio que nunca vi o sr. Albino Forjaz de Sampaio. Literariamente, estou até na convicção de que lhe devo uma fineza: a dumas referências, curtas mas elogiosas sem parcimónia, que, a propósito dum trabalhito meu em verso, publicado há uns três anos, A Luta inseriu então, e que, embora não assinadas, me deixaram convencido, pelo toque, de que eram do seu punho. Já vêem...
Quero ainda fazer notar a esses mesmos que padecem de fanatismo pelo sr. Forjaz que não abrigo a ingenuidade de esperar que ele, acossado por esta condenação, se vá pôr em fuga do campo das letras. Não, não é a vez primeira que esse gentio vê, com alma apertada, o seu manipanso fortemente zurzido. E ele, ora coxo, ora zarolho, ora manco, honra seja feita à sua indefectível valentia, jamais se arredou uma polegada da senda trilhada. Desconfio mesmo que já calejou e que as pancadas, metaforicamente falando, claro está, que lhe caem no lombo já lhe não fazem móssega alguma nem arrancam um pio sequer. De quatro tundas formidáveis me recordo agora. Uma, quando da morte de Silva Pinto. Outra, a que o sr. Avelino de Sousa, sem dó nem piedade, lhe aplicou a propósito do fado, «O Fado e os seus censores». Ministra-nos ali conhecimentos interessantes sobre a nativa pecha do sr. Forjaz de não ter uma opinião sua e fixa sobre os assuntos-temas dos seus escritos, sempre acomodatícios ao momento que passa, na busca torturada de efeitos mirabolantes, numa lógica de pé-coxinho, que, de contínuo brigando consigo própria, já não consegue crédito em espíritos rectos.

Cortesia de livrariacentral

Depois, temos a tunda mestra que o ilustre jornalista sr. Adelino Mendes lhe infligiu por ocasião da sua famosa negociata da ida a França à custa do pródigo papá-Estado, para escrever um livro de impressões sobre o “front” português. Finalmente, a quarta das que me lembram é a do “Veneno”, resposta às “Palavras Cínicas”, do sr. João Coelho, “soi-disant” escritor brasileiro, e que foi a mais infeliz de todas, pois, querem concepção, querem execução, as “Palavras Cínicas”, com todos os seus defeitos, valem bem mais do que esse livro de refutação, género literatura “gá-gá” de que se ria Fialho, trôpego na forma e, para mais, com tão desgraçada revisão tipográfica, que deixa o leitor na dúvida de que o seu autor tivesse jamais pegado numa gramática. Em pontuação, é horrível! Em resumo, faz-nos ficar com mais piedade do espancador do que do espancado.
Desculpou-o o editor, em conversa comigo, dizendo que o “Veneno”, fora escrito no veloz espaço de oito dias. Seria. E para que, se não havia nenhuma urgência a aguilhoá-lo, visto as “Palavras Cínicas” serem já velhas de catorze anos?

Seis meses ou um ano mais para essa resposta, se não lha dariam, também não lhe tirariam a qualidade de oportuna, que, em qualquer caso, já não alcançava, e tinham permitido ao sr. João Coelho realizar obra mais capaz de merecer elogios. Como veio a público, resultou mais do que inane: contraproducente.
Desta feita, repito, já vêem os senhores que o sr. Albino Forjaz de Sampaio, como de costume, receberá, firme e cínico, este meu ataque e nenhuma melhoria para ele e para nós daqui advirá, se não me secundarem todos, gritando-lhe a plena voz que se regenere e mude de processos, se quer continuar a viver literariamente, ou que, pelo menos, não alveje para assunto das suas cabriolices escriturais motivos que quase todos nós temos como sagrados.
E, então, aos de alma delicada, aos que têm sentido, como eu, o espírito deliciosamente estrelado de emoções dulcíssimas sempre que evocam a figura estranha de Anto, o Poeta singular e infeliz do
  • ... livro mais triste que há em Portugal.
a esses não preciso de pedir que estejam comigo nesta cruzada. Tenho até de mim para mim que, se tomei da pena para traçar estas páginas, não fiz mais do que obedecer, por um fenómeno de telepatia, à sua dispersa mas poderosa sugestão, vibrando forte em todo o peito português, de homem ou de mulher, ainda não dessorado do leite da humana ternura, de que falava Shakespeare, e ainda ungido de amor por estas claras e divinas coisas da Poesia e da Beleza…». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

terça-feira, 6 de setembro de 2011

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte II. «Livro após livro, numa produção diluvial e toda numa sequência de estampidos de morteiros, verruma-o o delírio de fugir ao esquecimento, essa suprema tortura dos artistas, mas para ele apenas o fantasma da ruína, o estancamento duma fonte de mandantes proventos»

Cortesia de sebodomessias

«Mas voltemos ao sério, que o caso serio é.
Demais tem sido a complacência de todos nós, leitores e escritores, velhos e novos, ante as suas arremetidas habilidosas de «jongleur», literário, complacência que já vai tomando visos de cobardia. Urge entravar-lhe o passo, pois mal irá a um povo que alarvemente se ri ou, pelo menos, não se indigna ao ver um funâmbulo no meio da praça esfarripar, caricaturar, cobrir de lama as memórias dos momentos mais altos da sua história e dos vultos tutelares e eleitos da sua estirpe! Urge despertar a consciência pública, por estas claras coisas ainda interessada, de modo a iniciar, a pôr em marcha, a intensificar um movimento de reprovação contra os processos literários do sr. Forjaz, que, obstinadamente, quase sem um eclipse, desde a sua estreia, se caracterizam pela falta de escrúpulo na escolha dos assuntos, pela carência de higiene moral, pela ostentação de cinismos e torpezas, pela ausência de superiores motivos de beleza, pelo ar artificiosamente «frondeur» das suas asserções perseverando no erro, tão abusado nas gerações últimas, de imbuir de pessimismo e descrença a mentalidade hodierna, condenável catequese que nele tem ainda a agravante de não ser espontânea, sincera, mas sim filha dum cálculo menos honroso. Livro após livro, numa produção diluvial e toda numa sequência de estampidos de morteiros, verruma-o o delírio de fugir ao esquecimento, essa suprema tortura dos artistas, mas para ele apenas o fantasma da ruína, o estancamento duma fonte de mandantes proventos. O que mais teme é que os milhares, verdadeiros ou fictícios, das suas edições encontrem um dia no indiferentismo público a eclusa que imobilize e estagne a massa limosa e pútrida da sua torrente : por isso, aos pinchos, aos urros, mantendo sempre viva ao redor de si a atmosfera vermelha do reclamo, tem conseguido, com provas medíocres de talento, galgar vertiginosamente os postos da hierarquia literária, onde hoje ostenta largos e doirados galões.

Cortesia de wikipedia

Pois bem:
  • erga-se de toda a parte um brado de indignação e de reprovação contra aquele autor, que vá arrancar as cataratas aos olhos dos que, por ausência de bom gosto e de ordenada cultura, vivem fanaticamente boquiabertos diante do seu malabarismo, e que, paralelamente, o force a parar e a arrepiar caminho, sob pena de ser exautorado, de se lhe arrancarem os galões que pavoneia;
  • ou aproveita as suas medianas qualidades de escritor em trabalho sério e dalgum modo belo, ou o público se desinteressará dele e das suas malas-artes, relegando-o para o charco em que chafurdam os literais sem mérito e sem vergonha.
Compreende-se, quase mesmo se desculpa, o exotismo das suas «Palavras Cínicas». Representam um «golpe de estado» literário para se apossar dum lugar a dentro do «cercle» da notoriedade, barrado hermeticamente pelos consagrados. Quase todos os novos sentem necessidade de dá-lo, em vista do já tradicional egoísmo daqueles, incapaz de se descerrar para acolher os recém-vindos. O sr. Forjaz deu o seu com um êxito pleno: as censuras e os aplausos silvaram à sua roda, foi discutido barulhentamente, decoraram-lhe o nome, compraram-lhe o livro. Assim, forçada a porta do destaque, impunha-se-lhe despir imediatamente a vestimenta vistosa e jogralesca do assalto e, compenetrado da linha fidalga da sua missão, deitar-se ao trabalho progressivo, a um trabalho pautado por normas do bom senso e inteligência equilibrada, seleccionando o pendor que lhe fosse próprio e construindo nesse terreno a sua catedral de beleza, com voadura de arcaria conforme ao sopro íntimo de sua inspiração. Não o fez, porém. E não o fez até hoje, como toda a sua obra o demonstra à sobre posse, porque descobriu naquela ruim espécie de literatura de escândalo um inesgotável filão de oiro.

 
Cortesia de livrariacentraleditora

Ora, o seu último livro «António Nobre» não só é disso mais um documento, como até ameaça de enveredar decidido por caminho que se lhe deve desde já tornar defeso, e onde decerto fará a mais estouvada destruição num património que é de todos nós: a lembrança venerada daqueles que, de entre a mole escura e rasurada da Raça se alçaram a atestar-lhe valores mais altos e iluminados de luz eterna, magníficas possibilidades de aquilates destinos, direitos incontestáveis à ressurreição do seu antigo e viril imperialismo, já nas energias da sensibilidade, já nas da acção.
Se o deixarmos sem freio, irá não sei a que vandálicas empresas. Esgotado o património nacional, correndo do campo literário para o scientífico e deste para o guerreiro, irá depois por todo o universo, talando, rasgando, ensanguentando, destruindo. Não ficará pedra sobre pedra. Estou em crer que já premeditou arrancar as barbas honradas de D. João de Castro, e consta-me que Aristóteles, assustado, lá do fundo da antiguidade, todos os dias implora de Jeová um raio que reduza a torresmos o Átila-anão.

É com o escopo de suscitar uma corrente de reacção contra tais processos que este livro se publica. Tem o significado dum protesto. É esse o seu fulcro, atravessando o pretexto de desafrontar a memória de Anto duma diatribe incoerente e especuladora. Assim, dividi o meu trabalho em três partes:
  • na primeira, digo da minha impressão ante a individualidade artística do Poeta do Só;
  • na segunda, foco em conjunto a vida literária, a única ao meu justo alcance e ao do publico, do sr. Albino Forjaz de Sampaio;
  • na terceira, faço a autópsia ao livro «António Nobre», a que este meu constitui réplica.
Tanto numa como noutra destas duas últimas partes não vou com o bisturi esgrimindo à laia de navalha, aceso na vesânia de só encontrar defeitos, manchas, falências, com a cegueira que dá a paixão da hostilidade. Mas, também não quebro o gume do instrumento, para suavizar o corte, para rombamente deixar indene muita fibra avariada, numa quebreira de piedade de que o atacado não tem necessidade, nem merece, nem me agradeceria, estou certo. Não tomo cenho de carrasco nem sorriso untuoso de asperzidor de água-benta. E a sinceridade que me intumece as veias do pulso na hora em que manejo a pena neste pleito é, pelo menos para mim, o bastante fiador da justiça que preside a estas páginas». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

César de Frias. A Afronta António Nobre. Parte I. «Tarefa agradável e consoladora? Ou, antes, safara de gozo e mortificante? Uma e outra coisa, simultaneamente, com a dupla face, risonha e carrancuda, que todos os aspectos do mundo apresentam a olhos mortais. Se agradabilidade e consolo me ungiram a alma enquanto nela, esquecido do seu motivo nodal…»


Cortesia de livrariacentral

«Saibam quantos estas laudas virem que eu não quis fazer com elas uma obra de estrondo, que me pusesse repentinamente em foco, dado que o sr. Albino Forjaz de Sampaio já alcançou foros de consagrado e o autor é praça recente na milícia das letras. Demais, é óbvio que, nestas circunstâncias, o que eu teria a fazer, no interesse do meu futuro literário, em vez de hostilizar aquele sr., que pontifica para aí em coisas de pseudo-crítica e anda na roda dos imortais num tu cá, tu lá familiar, era dirigir-lhe vários e curvadíssimos salamaleques, no intento de lhe captar as simpatias, para quando saísse a lume ter sempre sua eminência a benzer-me magnanimamente com o seu hissope. Digo-o de começo para murchar bastardas insinuações dos punitivos vesgos, seus acólitos e panegiristas.
Não amo a literatura petardo. Não. Pelo contrário. Tendo as faculdades gustativas, não sei se por excessivo requinte ou por embotamento mórbido, nada afeitas ao sabor de iguarias condimentadas de escândalo, pesa-me bastante sentir que, de facto e contra a minha vontade, algum cheiro a escândalo daqui tresanda, roçando e açulando o olfacto e o apetite do público ledo gulosamente ávido de escritos em que tal excêntrico tempero seja certo e bravo. E muito hesitei mesmo antes de acometer esta faina, cuja índole, pela sua tonalidade crítica, fica destoando no plano de trabalhos, que, obedecendo a um forte e actual pendor do meu espírito, eu estabelecera para o decurso do ciclo inicial da minha vida escritural, plano quase de todo em todo entretecido apenas de obras de ficção artística. A emergência, pois, que me atirou para a tarefa presente constituiu para mim, primeiro do que para ninguém, a maior das surpresas.


Cortesia de emicles e rascunhosemvida

Tarefa agradável e consoladora? Ou, antes, safara de gozo e mortificante?
Uma e outra coisa, simultaneamente, com a dupla face, risonha e carrancuda, que todos os aspectos do mundo apresentam a olhos mortais. Se agradabilidade e consolo me ungiram a alma enquanto nela, esquecido do seu motivo nodal, o da réplica ao desajeitado comentador do Poeta, falei de António Nobre, esse alto e diligentíssimo astro do lirismo português dos últimos tempos, a que devoto a mais enraizada e velha admiração, velha da velhice capaz de caber nuns vinte e tantos anos, tédio e mágoa me toldaram breve as doces emoções hauridas naquela primeira parte da minha faina, ao lembrar-me de que a executava somente como alicerce duma outra mais áspera e para a qual, já o disse, não só me escasseia propensão, como até se levanta dentro de mim invencível repulsa:
  • A de impugnar quem cometeu o desacato contra a memória do infeliz Poeta, não pela pessoa atacada, que isso nada me importa, mas apenas porque um ataque não se leva a cabo sem ferimentos e sem estridor, nem se compadece do melindre dos espíritos contemplativos e tolerantes, que só a custo consentem em amarrotar a túnica branca da serenidade que os veste sob a chispante e pesada cota de armas, forçosa de envergar para entrar em combate, sempre febril e sem tréguas, bastas vezes injusto e sem nobreza.
Mas o sr. Albino Forjaz de Sampaio assim o quis, publicando o seu último inferior e revoltante livro, e assim o quiseram também os meus irmãos mais velhos nas letras, que egoistamente se quedaram, silenciosos e neutrais, perante a afronta que ele comporta, não vindo, arrancar a carcaça infantil e delicada do Poeta àquelas mãos profanadoras, já reincidentes e velhuscas no crime de violar túmulos de mortos ilustres. E ficar-me-á sempre a mágoa de que outras penas, mais autorizadas, mais idosas e mais hábeis do que a minha, humilde entre as humildes, outras penas, dizia, como por exemplo, as de Justino de Montalvão, António Patrício, Antero de Figueiredo e Alberto de Oliveira, quatro Mestres da prosa portuguesa contemporânea e, para mais, quatro ferventes admiradores do Poeta do «Só», ou por anquilosado desdém pelo seu detractor ou por simples desconhecimento do desacato, não tivessem tido o arranco de indignação esperado, para morderem, sulcarem, vaticinarem no papel, no cometimento da empresa justiceira a que eu me arrojei, mas só quando vi que um silêncio demasiadamente longo, e possivelmente suspeito de cumplicidade, envolvia o delito, como se nada houvesse a objectar ao ignominioso «veridictum» e só depois de ter averiguado que ninguém mais trazia entre mãos obra similar, que, a publicar-se, me libertaria do encargo que penosamente ia tomar sobre os ombros.

Casa de António Nobre, Av. do Brasil no Porto
Cortesia de wikipedia 

Não alimento a ingenuidade de supor que em todos os espíritos esta defesa de António Nobre vá suscitar unânime e intenso entusiasmo e trazer-me a força da sua solidariedade. Demais sei que bastantes miopemente o consideram um Poeta de ordem menor, olhando mais para o continente pequeno da sua curta obra, curta como a sua vida, do que para o âmago rico de potência lírica do seu conteúdo.
Eles terão sorrido, quem sabe se com prazer?, da heresia do sr. Forjaz, como sorrirão amanhã da minha réplica, achando que exagero e que o assunto não merece tanta importância e tanto alarme. Pois até para esses eu julgo que este caso não deve ser alvo de tão gelada apatia.
O que o sr. Forjaz fez hoje com «Anto», fá-lo-á amanhã, como já prometeu claramente, e usando decerto de igual, se não maior, violência iconoclasta, com outras individualidades, que mais alto e florido altar disfrutem no culto da gente desdenhadora do géniode Nobre. Sobre a pedra de alicerce desta defesa restrita e actual poderá ser erguido o arcaboiço largo do edifício da generalidade, em que tenham asilo outros casos que a todos importam.
Bem sabem: ontem, mal tinham entrado na Morte os cadáveres, ainda quentes, de Silva Pinto, Ramalho, Bulhão Pato, correu logo, numa fúria irreverente, a cuspir-lhe sem cima. Agora, em nova sortida, sacou do sepulcrosito de António Nobre e revolveu-lhe as cinzas brancas com os estos raivosos que a mediocridade costuma ranger à vista da grandeza. E, enquanto bolsa insultos contra o Poeta do «Só», que não pode ter culpa de que o Destino lhe tivesse dado, e para seu mal, o que recusou ao desajeitado crítico, declara não ficar por ali. Voltará amanhã a quebrar as lousas das campas de Camilo, de Fialho, de Eça, de Cesário Verde, de José Duro, e de muitos mais, no propósito evidente de apenumbrar, enferrujar, amachucar a auréola duns, e a outros na intenção esconsa e hipócrita, manhosa e ridícula, de lhes pôr os méritos em melhor destaque, de os sacudir do pó do esquecimento, em que a sua alma, boa e piedosa da última hora, não consente que vão cair. Como se os talentos raiados de génio de Camilo, do Fialho ou do Eça, necessitassem para circular no nosso entusiasmo admirativo da apresentação gaguejada dum sr. Albino Forjaz de Sampaio!... Armou o homem em porteiro cicerone do Panteon, salte a nomeação no «Diário do Governo» e dêem-lhe a farda agaloada!». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

(Continua)
Cortesia de Livraria Central Editores/JDACT