Mostrar mensagens com a etiqueta O vento nas palavras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O vento nas palavras. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Beltrão. «Luís e Zulmira eram o casal ‘réussi’ da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher…»

jdact

«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Albertina olhou para o outro lado da sala, lá estava o sobrinho, tão triste, como ele devia sofrer com tantos conflitos à sua volta, pobre criança! Se Júlio permitisse ela tomá-lo-ia à sua guarda como um pequeno pássaro sem ninho. Mas já iam receber Heitor. Não que ela se importasse, Júlio é que podia não querer. Pedro, de longe, captava as movimentações sobre a sua sorte, intuía-o da habitual cotação de menino abandonado, mas, nada deixando transparecer, conversava com o primo Alvarito, cuja desenvoltura invejava. Eram muito diferentes estes dois primos quase da mesma idade, com destinos de berço tão diversos e que no entanto se entendiam: o desvalido Pedro tinha figura de príncipe, alto e loiro; Alvarito, filho do primogénito Luís e de sua mulher Zulmira Maldonado, de nove anos mimados, pequeno e rechonchudo, crescia em feitio brincalhão, que a vida era uma brincadeira inconsequente dada a indulgência dos pais que o adoravam e lhe perdoavam as fantasias rocambolescas ditadas por fértil imaginação. Graves sensaborias tinham já sofrido, que ele não poupava ninguém.
De uma vez, num dos numerosos jantares elegantes que Zulmira costumava dar, houvera, entre outras sobremesas, uma mousse au chocolat, doce recentemente importado da admirável cozinha francesa. Alvarito, que recolhera cedo como convinha a uma criança, aparecera na casa de jantar no momento em que o criado servia a apreciada iguaria e, com ar compungido, bichanara em voz suficiente para ser ouvido por todos, boa noite, isso que vão comer tem fezes da mamã que a cozinheira pôs no chocolate. Ninguém comera a mousse au chocolat, apesar das invectivas indignadas de Zulmira, siderada, com a alusão às suas fezes. Comera-a ele mais tarde, regaladamente. O alvo preferido das suas partidas era o severo tio Francisco, filho do primeiro casamento do conde e marido da tia Antoninha. Até houvera uma questão entre Luís e Francisco, cujas relações tinham esfriado desde então.
Luís e Zulmira eram o casal réussi da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher, um trem de vida luxuoso, idas frequentes a Paris, festas magníficas frequentadas sobretudo por gente das artes e das letras. Zulmira, Maldonado de solteira, tinha uma sede inesgotável de sucesso, sobretudo em relação aos homens, o que provocava cenas de ciúmes no marido, inseguro perante a sua beleza insinuante e os seus dotes poéticos. Embora também dado a aventuras galantes, era Luís um homem responsável dos deveres familiares e cívicos, auxiliando os parentes com a disponibilidade própria do estatuto de primogénito. Fora ele o padrinho da neófita e dera-lhe de presente um rico broche de brilhantes.
Também lá se encontravam as duas outras filhas de Ana, as inseparáveis Elisa e Laura, esta sem o marido, ocupado na lavoura das terras, e aquela ainda solteira inconsolável, que continuavam trilhando o seu caminho de diferenças: Elisa fina e elegante, Laura infantil nas suas saídas intempestivas e pesadas. Por fim, Antoninha, enteada de Ana e seu marido Francisco de Riba Coutinho, ele pouco comunicativo, ela doce como sempre, cada vez mais apagada e silenciosa; tinham voltado definitivamente a viver em São Jerónimo desde a última crise do conde, a quem Francisco amava num silêncio discreto. Como Guilhermina dizia, maldosamente, era uma família grande que aparentemente se dava bem.
De regresso a Coimbra, Júlio voltou à vida académica e Albertina às lides domésticas, agravadas agora pela presença dos dois hóspedes. A casa era espaçosa para os albergar, mas traziam eles um ritmo diferente ao quotidiano. Heitor, obrigado a frequentar pela primeira vez o colégio, tentava escapulir-se aos seus deveres e fazia-o com êxito, iludindo a ingenuidade bondosa de Albertina. Conhecedor dos gostos de Júlio pela caça e pelos desportos em geral, desafiava-o, tentador, conseguindo a pouco e pouco os seus intentos. Terno e amável, oferecia-se para passear a pequena Maria Teresa que crescia adorável e precoce e trazia pequenos presentes; porém, os estudos continuavam para ele uma actividade absurda, não ligava às conversas, achando enfadonhas e escusadas as questões que discutiam. O irmão bem tentava puxar-lhe pelos dotes do espírito, contudo, sem êxito algum: o Júlio, vocês argumentam, argumentam e ficam sempre na  mesma. Eu acho que a vida está para a acção, não para as palavras e para os papéis». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso…»

jdact

«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Também António a procurara depois do almoço farto que Ana mandara servir com os habituais requintes. Guilhermina viera de Lisboa, de caminho para a Figueira, continuava a recusar-se ir para Coimbra, apesar da bela casa que António alugara por noventa e nove anos e mobilara com um conforto notável. Passarei contigo os meses de Verão na Figueira, como é costume, mas para Coimbra não vou e podes levar o Pedro, fica melhor contigo, eu não me entendo com o feitio dele. António vinha pedir a Albertina que convencesse a mulher a mudar de ideias, já viste o horror que é ficarmos separados, e o pobre do meu filho rejeitado pela mãe? Albertina, impressionada, acedera a conversar com a cunhada, embora mal a conheça!, porém, rejeitar um filho de dez anos era um sacrilégio. Vencendo a timidez e levando o seu bebé para se dar coragem, aproximara-se de Guilhermina que se mantinha um pouco afastada, não era pessoa querida na família. Ainda não pegaste na Maria Teresa. Já viste como é bonita? Guilhermina olhou-a com indiferença, desprezava todos estes burguesinhos, esta família a fingir que tudo corria bem, não a enganavam a ela que vinha de cepa fidalga e que nunca ninguém reconhecera como tal:
Para mim os bebés são todos iguais. Encarnados e feios. Mas ainda bem que estás contente com o teu. Albertina continuou heroicamente: Acho o Pedro tão crescido! Parece ter muito mais do que dez anos. E é um rapaz com um ar tão fino, tão ajuizado! A expressão de Guilhermina suavizou-se e os belos olhos cinzentos tomaram uma tonalidade quase azul: Não percas tempo, Albertina. Vejo que o António te encarregou de me convencer a ir para Coimbra. Mas eu não vou porque estou farta dele e dos seus disparates. E já agora, para te mostrar que as coisas não são o que vós pensais, vou-te contar o que ele fez, e isto é só uma amostra. Tu sabes que nós frequentávamos muito os meus primos, os barões do Limoal. Eles não têm filhos e afeiçoaram-se ao Pedro. Gostavam dele como de um filho, de modo que fizeram um testamento a deixar-lhe a sua enorme fortuna. Acontece que o teu querido António, em paga da amizade, se meteu com a minha prima Mariana, já a tinha debaixo de olho há muito tempo. E se ela era uma mulher honesta!
O Bemardo descobriu a marosca, fez uma cena das grandes, expulsou o António de casa e rasgou o testamento que tinha feito a favor do Pedro. Albertina ficou chocada, que horror! Que horror, é imperdoável! Atraiçoar a confiança de um amigo! E para ti, coitadinha, que humilhação, que desgosto! Meter-se com a tua prima! Guilhermina avaliou a cunhada, que corara de indignação: Para te ser franca, é-me indiferente que ele se meta com a minha prima ou com outra qualquer. Aliás ele mete-se com todas. Os homens são assim, o teu não há-de fugir à regra, se é que ainda não deste por isso. O problema que me enfurece é o testamento. O Pedro tinha o seu futuro assegurado, tal como eu. E por causa da estupidez desmiolada do meu esposo, lá se vai tudo por água abaixo.
Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso, porém perdia-a ao abandonar o filho: O Pedro é que não tem culpa nenhuma! Porque te queres separar dele? Porque me quero separar do Pedro? Porque não tenho dinheiro! Julgas que sou uma desalmada, como todos querem fazer crer? O vosso querido António gastou tudo. Vivo modestamente e vou vendendo as jóias que ele me deu quando ainda tinha fortuna. Mas um dia as jóias acabam. E depois? Como é depois? O António tem que sustentar o filho. Além disso, ainda há outra coisa: o Pedro não fala, não ri, sempre com um ar de tristeza. Não tenho paciência para melancolias. É uma maçada educar crianças e andar sempre num sobressalto por causa delas. Não tenho feitio para isso. Para te falar com franqueza, estou farta desta família que sempre me tratou como uma intrusa. Olha, quanto menos estiver convosco, melhor. O António tem sorte que eu ainda aceite vê-lo, a ele e ao Pedro, nos meses de Verão, na Figueira. Albertina ficara impressionadíssima. Quando António, ansioso, lhe viera perguntar pelo resultado da conversa, ela descompô-lo: És impossível! Desonraste o teu lar e o lar dos teus primos. O que é que tu esperavas? Se fosse comigo, nunca mais te queria ver!
António fez um ar de menino arrependido: Não te zangues comigo, Albertina. Foi um azar. Mas a Mariana valia bem uma fortuna! Ela não achou graça nenhuma: Vou mesmo deixar de te falar! Não tens vergonha de teres prejudicado o futuro do teu filho? O cunhado abraçou-a, risonho: Ora, as fortunas vão e vêm, como o teu pai teve a amabilidade de dizer ao teu valoroso marido. Entretempos o Bernardo podia mudar o testamento por outra razão qualquer. E tornando-se sério de repente: Agora o Pedro separado da mãe, isso é que é mau! Ele tem uma sensibilidade de menina. Tu é que o compreendias! Não o queres receber na tua casa? Pelo menos nos primeiros tempos». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência»

jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Próximo do Natal na Quinta de São Jerónimo foi o baptizado da primeira neta da condessa, que já tinha dois netos varões, e Júlio ficara desiludido por não lhe ter calhado também um, como se fosse deficiência sua o sexo incompleto. Mas não deu mostras de nada, era o que faltava depois do que a pobre sofrera, outra vez seria. A Quinta de São Jerónimo mantinha o seu requinte aristocrático, sem mudanças, e a ela acorreram os membros da família, dispersos a pouco e pouco pelos condicionalismos da vida, os membros da família de Júlio, que a de Albertina não viera, a desobediência ao patriarca Diogo Silveira era ainda recente e o patriarca proibira-lhes que fossem, aquela filha estava morta para si e portanto para os outros. Na festa de baptizado ela sentira a orfandade com mais violência, como se fora filha das ervas, sem testemunhas de sangue a confirmarem-lhe a progenitura. A madrinha da neófita foi a avó paterna, Ana, condessa de Aguim, que gostava desta nora, mais do que das outras duas e por isso lhe manifestava ternura, admirando nela a força com que enfrentara o pai e a serenidade com que ainda sofria a falta da família. Ana via essas coisas mas nada dizia, não são coisas que se digam em meios civilizados, há que manter o pudor dos sentimentos. A sua figura imponente mantinha-se direita, quase a chegar aos cinquenta, parca nas manifestações, discreta no respeito pela vida dos seus, mas referência segura na autoridade fundadora. Seu marido, segundo de matrimónio, nunca fora chefe de família, cego havia duas décadas e agora preso pelas dores da gota, mantinha aquela disposição amável que sempre o caracterizara, afugentando de si e dos outros as torpezas da decrepitude. Também ele gostava de Albertina, infelizmente não a posso ver, mas sei que é linda e feminina, os cegos têm modos especiais de apreciar a beleza, que os outros não entendem. Albertina costumava acompanhá-lo, quando de visita a São Jerónimo, nos passeios de carruagem, e deleitava-se com esse patriarca de barbas brancas, cheio de sabedoria e de sedução que mantinha intacto o seu amor à Vida e à Mulher.
Apesar dos seus noventa e quatro anos, porfiava nos trabalhos literários, no interesse pelos destinos da pátria, à qual dedicara praticamente toda a vida. Possuía uma vitalidade tão grande que Ana confidenciara um dia a Albertina cumprir ainda ele gostosamente o seu dever conjugal, e muito bem!; a jovem corara envergonhada pela alusão ao tabu, porém a sogra era assim, livre e desassombrada, cada vez mais livre e desassombrada à medida que envelhecia, como se os anos lhe dessem o direito de se revelar enfim sem disfarces. Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência. O amor de sua vida fora este ancião e, por arrasto, o filho de ambos, o jovem e hercúleo Heitor, que aos vinte anos preguiçava no remanso do lar, sem outros interesses que não fossem a equitação e a caça. A mãe tinha o secreto temor de que ele não trilhasse as pisadas do pai, mas Heitor amavelmente continuava a olhar os livros como material de sucata e subvertia os ânimos dos vários preceptores, incumbidos de lhe abrir o espírito. A relação entre Ana e Albertina estabelecera-se como um amor à primeira vista, a atracção dos contrários que se completam, a jovem apresentava-se como produto genuíno e perfeito da mulher do seu tempo: doce, modesta, prazenteira; tinha mãos de fada nos bordados e rendas que confeccionava, cumpria gostosamente as actividades caseiras. Talvez por isso, aquando da entrada para a família, conquistara um lugar cimeiro, a sua disponibilidade levava os outros a abrirem-se com ela.
A festa do baptizado da pequena Maria Teresa era bem o exemplo disso, vários foram os que se lhe dirigiram a solicitar ajuda. Ana pedira-lhe que recebesse em casa o jovem Heitor a ver se o convencia a afeiçoar-se aos estudos: - Aqui na Bairrada só procura a companhia dos cocheiros, dos moços de estrebaria e outra gentinha do género! Talvez em Coimbra, no meio dos estudantes, ele entenda que a cultura é importante! Nunca se preocupara muito com o futuro dos cinco filhos que o primeiro marido lhe dera, talvez porque fosse nova, talvez porque eles fossem ricos, talvez porque muito mais amava este filho do que amara os outros. - Ó mamã, tenho o maior gosto em lhe ser prestável! Se o Júlio estiver de acordo, claro. Júlio esteve de acordo e Heitor sujeitou-se, se a mamã deseja, farei a sua vontade. Ficou combinado que depois das férias iria para Coimbra frequentar, como externo, o mesmo colégio de padres onde os irmãos tinham estado». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 14 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Doido de aflição, descontrolado, ‘ai se ela morre, porque não nasce a criança?’, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias…»

jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) O trabalho ainda está muito atrasado. A Albertina tem que ficar calma, isto vai ser duro, mas lembre-se de que tudo o que sofre é pelo seu filho. Foram dois dias e duas noites de padecimento atroz, a violência das dores era tal que por vezes ela perdia a consciência e isso era um bálsamo. A parteira foi obrigada a amarrar-lhe os braços e mesmo assim os espasmos vinham-lhe tão fortes que a cabeça, ao embater na cabeceira da cama de mogno, a rachou de alto a baixo. Albertina nunca quis desfazer-se dela, foi um testemunho que ali ficou para mostrar à posteridade o seu martírio. Júlio fora proibido de entrar no quarto. Doido de aflição, descontrolado, ai se ela morre, porque não nasce a criança?, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias, impotente, sem poder acudir-lhe. Agarrava-se ao irmão, chorando como um menino, ela vai morrer, ela vai morrer!, e António consolava-o, como anos atrás, quando Júlio tivera a sífilis. Albertina já não sabia quem era, perdera a noção do tempo, se era noite ou se era dia, a única coisa viva era o seu ventre volumoso que se contorcia, rebentava, em estertores tremendos. O médico, preocupado pela demora, vinha várias vezes ao dia já não podemos operá-la, a cabeça está encaixada, ela é, muito estreita de ancas, assim o coração aguente. O coração aguentou. E na tarde do dia doze de Outubro de 1891, nascia uma menina de quatro quilos que imediatamente gritou bem alto a proclamar o seu lugar no mundo. A mãe estava tão fraca que, ao ouvir-lhe os berros, nem se regozijou, só depois, mais tarde, quando lhe voltaram as forças. Mas logo as dores desapareceram e adormeceu confortada com a missão cumprida, já nasceu e é saudável. Entretanto chegara um telegrama da irmã da parturiente, Matilde Reis Torguim, a perguntar se tudo corria bem, porque Elvirinha, a outra irmã, tivera uma das suas visões onde descortinava Albertina envolta em labaredas, gritando numa angústia de alma danada, que se lhe pegara, ai a minha irmã, ai a minha irmã! Isto passara-se na véspera do nascimento da criança e ela logo contara a Matilde, o papá não pode saber, mas por amor de Deus mana, fala com a Albertina para que eu possa rezar com acerto. E Matilde mandara o telegrama porque lhe conhecia os poderes divinatórios e todos na Bairrada vieram a saber que a estranha donzela os tinha.
Albertina encantou-se com a filha, num apego de fêmea, mas a natureza não ajudava, o peito que oferecia amorosamente não funcionava bem, o leite não saía, novas dores lancinantes vieram com os caroços, ó meu amor, porque não queres o meu leite?, a febre abateu-a ainda mais, lembrava-se da tortura de sua própria mãe que morrera de infecções da mama, se ela se lembrava!, fora o seu primeiro desgosto. Por fim já saía leite com sangue e pus, teve que se procurar uma ama para que desse à filha alimento mercenário, são destas injustiças que a lei humana não prevê, mãe tão extremosa e tantos embaraços lhe vinham. Não pense nunca mais em amamentar, só lhe trará complicações, dissera Daniel Mattos e ela aceitara, se tanto sofrimento lhe era imposto, algum mérito sobraria para o futuro. Rodeava a pequenina de cuidados, numa inveja triste da ama que se deixava sugar com tal despejo». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nenhuma Palavra. Nenhuma Lembrança. Manuel A. Pina. «Não temos mais nada, e com tão pouco havemos de amar e de ser amados, e de nos conformar à vida e à morte, e ao desespero, e à alegria, havemos de comer e de vestir, e de saber e de não saber…»

jdact

Primeiro Poema
«Sem horizonte ou lua, sem vento nem bandeira». In Maaske

«A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio náo fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!»
1991


Ludwig W. em 1951
«As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem
que palavras?
E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com aS nossas palavras construi-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma».
Poemas de Manuel António Pina, in ‘Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

In Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, Assírio e Alvim, Peninsulares 56, Lisboa, 1999, ISBN 972-37-0541-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «… quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, ‘mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança’»

Retrato de José Malhoa
jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) As dores aumentavam de intensidade, o marido estava prestes a acordar e então iria confortá-la, ela aprendera a captar-lhe a ternura imensa que se escondia por detrás da reserva, sabia lidar com os seus rompantes violentos que se quebravam na serenidade branda dela, era uma questão de jeito. Aprendera a apreciar-lhe a força de carácter que o levara aos vinte e seis anos a recomeçar os estudos para a merecer, como os cavaleiros de antanho que sofriam provações pela dama eleita. Ele amava-a assim, embora ela soubesse que esta situação era como uma lua-de-mel prolongada que teria um fim quando o marido deixasse de ser estudante, porque a vida de estudante era preparatória da de adulto e nessa altura os homens apartavam-se do universo feminino, cada um com os seus próprios deveres. Por isso saboreava este tempo bendito em que partilhavam quase tudo. Vinha-lhe um frio arrepanhado, tremia por baixo dos cobertores, os intervalos entre as dores diminuíam, ai meu Deus, dai-me forças para aguentar! Júlio levantara-se devagarinho para não a acordar e, por entre as pálpebras, ela via a figura atlética envolta na camisa de dormir mover-se com cuidado na penumbra do quarto. Mesmo agora, apesar do sofrimento, sentia desejo do seu corpo musculoso, dos seus braços fortes, como amava esse homem a quem se entregara, cortando com tudo, desobedecendo ao pai, incorrendo na sua ira, separando-se das suas queridas irmãs, atiraada sozinha para um mundo novo. Uma dor mais forte fê-la soltar um gemido e Júlio aproximou-se: - o que foi, minha querida? Sentes-te mal? Oh, meu Deus! Estás encharcada em suor! Então ela abriu-se à piedade dele: - Começaram as dores, o nosso filho vai nascer. Júlio exaltou-se numa ansiedade atabalhoada perante a situação embaraçosa que se avizinhava: - Vou chamar o médico, a parteira, porque é que não me acordaste há mais tempo?
E vestia-se numa pressa aflita, chamava a criada para tratar da senhora, a casa animava-se e agora ela já não estava sozinha com as dores que cresciam dentro de si, as dores solitárias angustiam mais. O cunhado António pediu licença para entrar: - posso entrar, mana? Estava hospedado em casa deles, precisava de atenção, coitado do pobre António, e logo neste momento em que ninguém lha poderia dar. Era muito diferente do irmão Júlio, baixo e franzino, tinha um charme contagiante que a seduzia, aproximou-se da cama e o seu cheiro inconfundível a lavanda inglesa invadiu o quarto como aragem primaveril: - Ó minha querida mana, então agora é que é! Habemus Papam! Deixa-me arranjar-te as almofadas. Assim. Ficas mais bem instalada para venceres a grande batalha. Com movimentos hábeis encaixou-lhe o corpo dorido e depois sentou-se ao seu lado, pegando-lhe na mão; Albertina gostava muito de António e penalizava-a ver o infortúnio do seu casamento que ele jamais referia, fingindo que estava tudo bem; mas não estava. Casara por amor com uma mulher interesseira que o aceitara por dinheiro, parecia não haver um pingo de quentura dentro desse serzinho delgado e diáfano, essa Guilhermina que nada parecia comover. Não é que António fosse fácil|, mostrava-se gastador, disparatado, maluco com mulheres, mas adorava a sua, apesar de tudo. E era tão bom, tão tocantemente bom, tão insensatamente bom, como uma criança afável que tenta agradar a todos. A fortuna herdada do pai gastara-a até ao derradeiro vintém e a última aquisição fora um cofre. O que todos tinham rido, ele inclusive, quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança. Seu irmão Luís, o primogénito, que era o esperto da família para os negócios, arranjara-lhe emprego como director de uma fábrica de loiças em Coimbra; Guilhermina não quisera por nada acompanhá-lo e sair de Lisboa, Deus me livre, estou aqui muito bem, odeio mudanças! António não se zangara, ora, ela há-de acabar por vir, coitada, no fundo gosta de mim, tem lá o seu feitio, arranjo uma casa tão bonita que ela não vai resistir! Mas neste momento, António não pensava nos seus problemas, preocupava-se em mimar Albertina, era esse o seu maior encanto, nada havia de tão importante que o perturbasse a ponto de estragar o que fazia no presente. Júlio chegava, acompanhado do médico e da parteira, Daniel Mattos mandou sair os homens e observou-a com cuidado, vamos lá ver esse maroto que está a afligir toda a gente! Albertina enleada deixou-o mexer-lhe na intimidade do corpo, o seu pudor revoltava-se contra aquelas mãos estranhas que a penetravam, que vergonhaIn Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez…»

Retrato de Laura Sauvinet, José Malhoa
jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Mas voltando à vida de meus paes, estiveram quatro anos em Coimbra, até meu pae acabar o curso. Ali foram muito felizes. Minha mãe sempre falava com muita saudade dessa epoca e lá tiveram dois filhos, Maria Tereza e Joaquim, o primeiro filho não vingou, com grande desgosto de minha mãe, que nunca se esquecia dele. Sofria horrores com os partos, dificeis e dolorosos, excepto o meu, pois eu era muito pequenina, acho que foi assim toda a vida, nunca dei grandes trabalhos a ninguem. Meu pae, apezar de forte e voluntarioso, não tinha coragem para o sofrimento e chegava a sair de casa até ao nascimento. Não conseguia enfrentar as dores dos outros. E tanto que ele sofreu, coitado! Era generoso, ajudando os pobres, sobretudo os que queriam estudar, pois dava muito valor aos estudos. Minha irmã Maria Tereza foi desde pequenina linda e precoce, encantando toda a gente com a sua graça, fonte de inspiração de varios poetas. Ainda conservo alguns poemas sobre ela, quando tinha uns cinco ou seis anos. Nasceu em Coimbra, assim como meu irmão Joaquim, tambem perfeito e forte. Eu nasci em 1894, na Figueira, no mesmo ano em que meu pae acabou o curso, o conde de Aguim morreu e minha mãe fez as pazes com meu avô Antonio Diogo. Minha mãe sofria muito com os partos, lembro-me de a ouvir contar do seu martirio, ter filhos custa muito, não havemos nós de amar as nossas mães!

As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez, o terror de que a criança não vingasse, como a outra que morrera porque o seu corpo a expulsara no quinto mês, como excrescência indesejada. Lembrava-se do desgosto que a arrepanhara ao ver de relance aquela coisa sanguinolenta que mais tarde soube ser um rapaz. Chorara tanto por esse filho incompleto e pelos outros que viessem, no medo de que as suas entranhas, misteriosas como um feitiço, apenas fossem capazes de fabricar monstros... O médico, Daniel Mattos, grande amigo de Júlio, assegurara-lhe que não, minha querida Albertina, estas coisas acontecem, a Natureza é sábia, nós é que não sabemos lê-la, a criança não tinha hipóteses, foi melhor assim, o próximo há-de sair bem, sois um casal novo e saudável. O marido dormia na cama ao lado, alheio ao que se passava, ela gostaria de o acordar e procurar nele apoio, mas isto era assunto de mulher, tinha que aguentar sozinha, sofrer os espinhos que o castigo divino lhe destinara, a vida era assim mesmo, pagavam-se preços pela felicidade e ela era feliz desde que há ano e meio se casara. Jamais, nos seus devaneios de menina, sonhara com ventura tão plena, tão alegre, a casa cheia de amigos, de estudantes, de professores; a animação reinava à sua volta, festiva e jovial, tratavam-na como rainha, faziam-lhe confidências de solidões, contavam-lhe episódios burlescos da vida académica e pequenas lembranças encantadoras de que só os estudantes se lembram. Alguns faziam-lhe versos, chamando-lhe musa, mãe-terra e outros nomes surpreendentes e o marido, apesar de ciumento, não se importava porque eles a respeitavam como a uma coisa sagrada; ela adorava conviver, nascera com a vocação de amar e ser amada no meio da espontaneidade risonha que a tornava tão amável.
Conhecera de perto os problemas da política, esse mundo fascinante que lhe fora vedado em solteira - até casar, a existência decorrera-lhe pacata nas aprendizagens da domesticidade, nas leituras, nos bordados, nas obrigações religiosas, nas amigas de colégio cujas conversas giravam em volta de pequenas minúcias femininas, a política era assunto de homens e seu pai sempre velara para que se mantivessem as distâncias. Porém, agora ouvia-os discorrer sobre as novas ideias e os distúrbios ruidosos dos estudantes; os íntimos eram todos bem pensantes, miguelistas, regeneradores, progressistas, mas falavam muito dos republicanos. Acontecia ser condiscípulo de Júlio um dos mais assanhados, Afonso Costa de seu nome, que, de parceria com outros, organizava comícios e bolsava violentos discursos; Albertina soubera de um célebre estudante de Medicina, António José de Almeida, preso pelos insultos ao monarca Carlos I; ela reflectia muito nesses rapazes, que ódio haveria neles para se sujeitarem assim a humilhações públicas, para ofenderem a Deus e ao rei? Gostava muito de ouvir os homens falar, o espírito vivo abria-se-lhe às grandes questões nacionais, que ideia essa de considerar as mulheres umas tontas!... Não que ela quisesse ingerir-se como sempre fazia a sogra, a sogra era especial, nunca vira senhora tão desassombrada e tão firme. Albertina preferia compreender as coisas, como quando, meses atrás, se dera aquela revolução republicana no Porto, com mortes e degredos, se uma mulher não entendesse nada, os acontecimentos invulgares seriam considerados obra do demónio, como dizia sua irmã Elvirinha, uma mulher não devia ser uma ilha, apenas ligada ao continente por seu marido ou por seu pai». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremesas»

jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«Quando casaram, em 1890, meus paes foram viver para uma casa na Rua Alexandre Herculano, em Coimbra, onde meu pae frequentava o curso de Leis. Já expliquei atraz que meu pae, aos vinte e seis anos, voltou aos estudos, no lyceu, por exigencia de meu avô, Antonio Diogo Silveira, quando lhe foi pedir licença paro namorar a filha, Albertina: - só com um curso superior lha darei, foi a resposta. E apesar de meu pae cumprir o prometido, não lhes deu a autorisação, tendo eles casado contra a sua vontade. Meu avô era um homem muito teimoso e duro e nunca fez as pazes com o genro. Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de hoje, um pae tinha todos os direitos sobre as filhas, que lhe obedeciam cegamente. Uma desobediencia era um acto reprovavel e pouco vulgar. Assim, minha mãe, que era muito doce, teve uma coragem inaudita, ditada por grande amor, ao sair de casa dias depois de faser os vinte e um anos, contrariando as ordens dele.
Lembro-me de meu pae, muito alto, consta-me que bonito homem, saudavel, bem proporcionado, musculoso e forte, moreno de olhos pretos, expressivos e vivos, eguaes aos da filha Maria Tereza, minha irma. Digo consta-me, porque a ideia que me ficou dele, já estragado pela doença, não era essa. Era muito sociavel mas pouco comunicativo quanto aos seus sentimentos e até quanto aos dos outros, pois nunca lhe ouvi criticas nem palavras de censura contra o mau procedimento de ninguem. Mas quando embirrava com uma pessoa era manifestamente antipatico. Pouco meigo com os filhos, encobria os seus sentimentos, excepto com minha mãe a quem adorava a seu modo. Digo a seu modo porque, discretamente, era muito dado às damas, tal como seus irmãos, todos os Teixeiras sempre foram sensuais e loucos por mulheres. Mas nesse tempo não se achava mal nisso, desde que não prejudicasse a vida familiar; até se considerava prova de virilidade um homem ter aventuras fóra do casamento. Meu pae tinha uma rara força de vontade para conseguir os seus fins. Manifestou-a na sua rapida abstenção de fumar, ele que era um grande fumador, e sobretudo na realização dos seus estudos que abandonara em rapaz para se dedicar à estroinice. Por causa da estroinice gastou uma grande parte da fortuna que herdou, antes de conhecer minha mãe. Em novo teve saude, dinheiro e abandono da familia, o pae morrera quando ele era pequeno e a mãe voltara a casar um ano depois, metendo os filhos em colegios internos religiosos. Os padres desse tempo erem, na maior parte dos casos, pouco zelosos e imprimiam pouca religiao nos alunos.
Minha mãe era do genero mignone, muito branca, cabelos e olhos escuros, figura linda e cinturinha de vespa. Foi sempre muito apreciada por todos, nunca ouvi ninguem dizer senão bem dela, o que é dificil, pois a má lingua encontra sempre alguma coisa para criticar. Fazia rendas e bordados lindos, apesar de sua mãe, minha avó materna que não conheci, costumar dizer às filhas que elas não bordavam, alinhavavam. As senhoras dessa epoca tinham uma paciência extraordinária, bordando a cabelo ou finos fios de seda, tambem é verdade que tinham tempo. Minha avó Ana, mãe de meu pae, é que nunca bordou e gostava de minha mãe como filha, desconfio que gostava mais da nora que do proprio filho. Sendo autoritaria, agradava-se da meiguice dela. Minha mãe, muito sociavel, alegre e generosa, onde estava, fazia logo amigos. Até com os creados, que nessa altura eram tratados com muita rispidês, tambem é verdade que eram muito boçais, ela era simpatica. Nesse tempo as senhoras eram muito boas donas de casa, destinavam optimas refeiçoes, olhavam pelo serviço das creadas e pelas roupas da lavadeira, que vinha dos arredores de Lisboa em galeras puxadas a 4 cavalos. Fasiam as compras da mercearia ao mez, fechavam tudo à chave na dispensa, que era aberta todas as manhãs para a senhora dar à cosinheira o necessarío para aquele dia. Os róis da mercearia e das roupas eram um primor de bem feitos, com uma letrinha muito bonita. Havia muita abundancia mas nada era desperdiçado. As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremezas. Quando havia vizitas serviam-se muito mais pratos. Tudo mudou, até os gostos. Lembro-me de meu pae recomendar que não se desse pescada em dias de cerimonia porque era um peixe ordinario. Hoje, à pescada chega-lhe quem pode. Mas acima de tudo, o que espanta é como se podia comer tanto.
Quando eram convidadas para jantar fora, as senhoras não comiam quase nada e ficavam cheias de fome, porque era feio mostrar apetite. As veses sahiam, apenas de tarde e raramente sosinhas: visitavam as amigas ou iam à Baixa comprar um carrinho de linhas, ou agulhas, um pretexto para encontrarem conhecimentos. O chá das cinco em Lisboa era na Ferrari, na Bénard, no Rendez-vous des Gourmets, conforme a moda do momento. Cada senhora tinha o seu dia de receber, minha mãe recebia ao Domingo. Os senhores elegantes, depois do trabalho, ou aqueles que nada fasiam, e eram muitos, iam postar-se, de tarde, à porta da Brazileira ou da Havaneza, no Chiado, para verem passar as senhoras que cumprimentavam, tirando o chapéu de coco, ou o chapéu mole (isto passava-se em Lisboa, porque na provincea era diferente)». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Imitação. Outras Imitações. A imitação e o Renascimento. Infopédia. «… segundo os sociólogos e antropólogos, porque imita um maior número de seres e fá-lo de forma mais profunda. Graças à linguagem, imita não só o que se vê, que se faz ou que se sente mas também o que se pensa»

Cortesia de nadirafonso e jdact

Outras "imitações"
«(…) Os sociólogos, por exemplo, definiram a imitação como um facto social elementar e característico, caracterizando esta a vida social, quer entre os animais quer entre o Homem. O Homem progrediu mais do ponto de vista social porque, segundo os sociólogos e antropólogos, porque imita um maior número de seres e fá-lo de forma mais profunda. Graças à linguagem, imita não só o que se vê, que se faz ou que se sente mas também o que se pensa.

A imitação e o Renascimento
O tema da imitação, se foi lançado por Platão, como se viu, o conceito em si era para este filósofo mais alargado do que é hoje, conotando-o tanto com o mal e com as coisas secundárias como lhe dava também um sentido mais positivo, conferindo-lhe um significado simbólico, foi com o Renascimento que ganhou expressão e um conjunto de interrogações cada vez mais arrebatadas, procurando-se desde então um mais claro discernimento entre os verdadeiros espíritos criadores e os copistas ou plagiadores. Foi talvez o problema mais agudo e traumático dessa época, que por um lado afirmava orgulhosamente a sua originalidade ou criatividade mas que não deixava de assentar num regresso ao passado glorioso dos clássicos gregos e romanos. Todo o médico do século XVI tinha que ter lido Hipócrates e Galeno, como todos os filósofos e pensadores escolásticos na Idade Média tinham que ter lido Aristóteles. Em S. Tomás de Aquino, já no século XIII, não se pode entender toda a sua monumental criação filosófica que é a sua Summa Theologica sem se conhecer Aristóteles e as suas categorias do conhecimento humano. Mesmo um orador não o poderia ser no Renascimento sem nunca ter lido Cícero, Bartolomeo Ricci, na sua De Imitatione (1545), defendeu que o indivíduo tem duas alternativas: ou deve procurar conformar-se a um modelo exterior ou então seguir a sua natureza sem imitar ou seguir alguém. Montaigne, mais tarde, ultrapassa esta ideia de Ricci, introduzindo o tema do mastigar de novo, enquanto nova forma de revisitar os Clássicos. Muitos já o tinham feito, à sua maneira, como Petrarca e o tema das abelhas, de Séneca, como fez também F. Bacon, ou S. Bernardino de Siena, como o seu Sermão da Quaresma de 1425, imitando o Cristianismo primitivo. Para o indivíduo do Renascimento, enfim, compreender ou procurar modelos nos Antigos é compreender-se a si mesmo, uma forma de se descobrir através de modelos de outrora, para além de que o prestígio destes mesmos modelos, mais do que criar o desejo de os imitar, deve estimular a criação de novas obras. De novos modelos, novas pontes para o futuro. Como dizia Maquiavel, a uma longa experiência das coisas modernas deve corresponder uma permanente lição das antigas. A Idade Média fora o tempo dos exempla, ligados à pregação popular e à conversão, em associação assim à retórica da persuasão, através do contar de história edificantes. O exemplo dos antigos tinha uma outra dimensão, heróica, a partir da qual se apela aos tempos primordiais e se tenta imitá-los. Os homens do Renascimento tentaram reavivar esta dimensão, o ressuscitar os primórdios, imitando os textos gregos e romanos, procurando os mitos e os tempos fabulosos das origens, rompendo com o dogmatismo medieval da imitação dos exempla. Esta redescoberta do mundo maravilhoso e exponencial das origens atingiu também a própria Igreja do século XV, que apresentava já mudanças nas mentalidades e nos programas devocionais e expressões de caridade reactivadas. O grande exemplo dessa redescoberta ou dessa procura do tempo heróico e perfeito das origens do Cristianismo, ainda que servindo também de modelo aos vindouros, foi a obra Imitação de Cristo, de um anónimo do século XV, recopiada e imitada até à exaustão ao longo de séculos, tendo sido, durante o século XVI, o livro mais lido depois da Bíblia. É atribuída a sua autoria a Tomás de Kempis, ou a Gerson, mas ambas as hipóteses (mais a segunda) são discutíveis». In Infopédia, Porto Editora, Porto.

Cortesia de Infopédia/JDACT

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Imitação. Literatura. Música. Outras Imitações. Infopédia. «A imitação desde sempre existiu na música, tendo sido parte integrante da polifonia da Idade Média e do Renascimento. A imitação nesta arte é um dos artifícios mais úteis e necessários na composição»

Cortesia de wikipedia e jdact

Imitação na Literatura
«(…) O poeta mais não faz senão imitar as coisas sensíveis, que já não são o que elas verdadeiramente são mas apenas reflexos deteriorados da única realidade verdadeira: o mundo das ideias. Portanto, tudo é imitação, tudo é idealismo, ao contrário do que Aristóteles defendia, quando dizia na sua Poética que a origem da poesia devia ser procurada no instinto primitivo do homem que consiste em fruir das imitações feitas pelos seus semelhantes. Aristóteles defendia mesmo vários tipos de imitação, como a narrativa, que definia a epopeia, e a imitação dramática, em que a acção é imitada pela própria acção e não pelo discurso (o drama). Na literatura, a imitação reside no facto de um autor tomar a outro, não só os argumentos, plano e disposição da obra, como também a elocução e estilo da mesma. Por vezes, a imitação literária limita-se a apenas um destes elementos. Senão, veja-se: Virgílio imitou Homero no argumento, nas personagens e nas situações, mas não na elocução. Corneille e Molière, por exemplo, retiraram do teatro espanhol os argumentos das suas comédias, embora lhes tenham dado uma elocução e estilo próprios. Chama-se inspiração em obra alheia, o que é uma imitação menor, sempre que um autor cultiva o género a que aquela pertence, no intuito de produzir algo que seja o mais pessoal possível, sem cair no plágio (cópia servil) ou cópia, preservando a maior margem de originalidade, ou criatividade, dir-se-ia, do autor.

Imitação na Música
Como a poesia, não imita directamente a natureza, repete a mesma melodia, parcial ou, quase sempre, totalmente. No caso da música, a imitação assume contornos evidentes. É, de facto, um elemento fundamental da música constituída por melodias sobrepostas. A imitação desde sempre existiu na música, tendo sido parte integrante da polifonia da Idade Média e do Renascimento. A imitação nesta arte é um dos artifícios mais úteis e necessários na composição. Forma parte do estudo do contraponto e consiste na reprodução, mais ou menos exacta, por uma voz ou instrumento, de um desenho melódico ou rítmico previamente enunciado por outra voz ou instrumento. A imitação, esteticamente, é uma das leis fundamentais que regem a forma na arte musical. É assim um processo compositivo que é a base da polifonia e das principais formas de contraponto, como o cânone ou a fuga. Na composição em geral, proporciona ao artista recursos inesgotáveis de particular beleza, quando empregada com bom gosto. Mas atente-se: na música, imitação não é repetição de um motivo melódico ou rítmico nem progressão melódica ou harmónica. Na imitação, ao contrário dos outros casos, a reprodução é feita de uma forma diferente da que apresenta o modelo. Grandes exemplos de imitação são as suites e fugas de Bach, as sinfonias, quartetos e sonatas de Haydn, Mozart e Beethoven. Todos os compositores clássicos e românticos, tanto na suas obras vocais como nas instrumentais, conseguiram admiráveis efeitos usando a imitação.
 
Outras "imitações"
Também no teatro ou no cinema, as artes ditas miméticas, ou na vida quotidiana de qualquer sociedade, o gesto, o tique, a dicção, a maneira de vestir ou de olhar, são alvo de imitação».
In Infopédia, Porto Editora, Porto.

Cortesia de Infopédia/JDACT

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Imitação. Psicologia. Literatura. Música. Infopédia. «É na literatura, um pouco como nas artes decorativas, que a “imitação” assume contornos mais visíveis, mais problemáticos e até mais condenáveis pela sociedade, que tudo imita»

jdact

Imitação na Psicologia
«As ciências e a filosofia também não fogem à imitação, que afinal em tudo toca. A filosofia define-a como a um processo de criação artística que consiste na inspiração na natureza para se criar um objecto. A psicologia dá-lhe mais um sentido de reprodução, de um gesto, de um mimetismo, de uma postura, de um acontecimento, de uma sequência. Também Piaget, por exemplo, desenvolveu modelos de imitação de acordo com os modelos de desenvolvimento psicossomático do indivíduo por ele definidos. A imitação aperfeiçoa-se e torna-se cada vez mais à medida que o indivíduo cresce. A imitação, cópia intencional de acções de outra pessoa, foi um dos principais temas debatidos pelos psicólogos da psicologia social. O sociólogo francês Gabriel Tarde escreveu uma monografia inteiramente dedicada a este tema denominada As leis da Imitação (Les lois de l`imitation, 1890), uma vez que acreditava que a imitação era um dos processos fundamentais da realidade social.
Inicialmente, ela era entendida como uma conduta não criativa, não inteligente e, portanto, com pouco interesse. Contudo, mais tarde com a teoria da aprendizagem social do teórico Albert Bandura, passou a ser alvo de estudo exaustivo uma vez que se provou as inúmeras vantagens que a imitação proporciona ao nível da aprendizagem. A imitação favorece a aprendizagem de comportamentos que de outra forma teriam uma fraca probabilidade de ocorrer, isto é, de serem apreendidos.
De acordo com o psicólogo social Albert Bandura, no processo da imitação ocorrem dois momentos: um primeiro momento com a aquisição (durante o qual o sujeito aprende por observação o comportamento de um modelo, ou seja, o comportamento de outra pessoa) e num segundo momento ocorre a fase de performance (quando o sujeito reproduz o comportamento observado, isto é, apresentado pelo modelo).
Do momento da aquisição para o momento da performance outros quatro processos intervêm. Durante a aquisição intervêm sobretudo os processos da atenção (registo sensorial do comportamento a adquirir) e os processos da retenção que provocam uma representação mnemónica (esta é um sistema artificial que visa melhorar a capacidade de memorização). Por sua vez, durante a fase da performance, intervêm os processos da reprodução motora (imitar um comportamento executando-o) e os processos da motivação (se o sujeito estiver motivado memoriza mais facilmente o comportamento observado, ou seja, imita com mais facilidade e reproduz sem se esquecer de um único detalhe).
Os principais factores que contribuem para a realização de uma imitação são: o afecto na relação modelo-sujeito (por exemplo, uma criança reproduz mais facilmente os comportamentos do pai ou da mãe); a semelhança inicial entre o modelo e o sujeito (um comportamento é mais imitado se o modelo que o produz é do mesmo sexo que o sujeito); o estatuto do modelo (quanto maior for o estatuto do modelo mais facilidade há em imitá-lo); e os reforços vicariantes (são incentivos ou punições) que são experimentados única e exclusivamente pelo modelo e, portanto, cujas vantagens ou desvantagens o sujeito observador não experimenta mas aprende a partir deles.
Pode-se dizer que a imitação possui principalmente três funções: pode aumentar a rapidez e a eficácia de uma aprendizagem; pode desempenhar uma função de desinibição (imitamos algo que nunca fizemos ou que pensávamos que não podíamos fazer) ou de inibição (a observação do comportamento de outra pessoa pode fazer com que determinado comportamento em nós nunca mais se repita); e pode assumir um papel de facilitação geral, isto é, facilita o aparecimento de respostas já anteriormente adquiridas e socialmente aceitáveis.

Imitação na Literatura
É na literatura, um pouco como nas artes decorativas, que a imitação assume contornos mais visíveis, mais problemáticos e até mais condenáveis pela sociedade, que tudo imita, provavelmente. Platão dizia que existe imitação da aparência e uma relação desta (a aparência) com o ser; por outro lado, pode existir simplesmente a imitação de um autor por outro, pura e simplesmente. Platão, que foi quem abriu o debate em torno da imitação (mimésis), não deixou de afirmar que ela é o princípio de toda a actividade criativa, artística, do que resulta uma desvalorização da arte». In Infopédia, Porto Editora, Porto.

Cortesia de Infopédia/JDACT

Imitação. Belas Artes. Infopédia. « Os grandes artistas tiveram sempre que imitar os seus antecessores, antes de conseguirem ter autonomia criativa para traçarem a sua própria forma de ver a natureza»

Cortesia de wikipedia e jdact

O que é a imitação?
«Acção de imitar qualquer um, de reproduzir os traços significativos do seu comportamento exterior ou de evocar qualquer coisa, ou o resultado destas acções. Pode ser a imitação também a tomada de qualquer pessoa como modelo ou de se inspirar no seu exemplo, como aconteceu, por exemplo, com S. Francisco ao imitar Cristo, tal como inúmeros outros santos carismáticos, ou na sua obra, artística ou literária. Muitos são os mestres da pintura, da escultura, da literatura que têm imitadores na sua época ou na sua posteridade. A imitação pode ser assim também a composição segundo o género ou estilo de um outro autor, ou nele inspirada directamente, apresentando, em relação a esse modelo, uma originalidade variável, mais no domínio da criatividade. Este tipo de imitação sucedia imenso no Renascimento, com o revisitar dos autores clássicos, tendo-se feito imensas obras à sombra de outras ou de outros autores. Aqui sucede aquilo que os franceses chamam de pastiche, cópia ou decalque, em Portugal. O termo outro, refira-se, no que concerne à imitação reveste-se de um significado abrangente, já que se trata da apropriação parcial ou total de outrem. O outro é na imitação, por assim dizer, o modelo, o exemplo, algo que se procura seguir de forma mais ou menos acentuada. É neste contexto que se segue o exemplo de alguém, de alguma instituição. Com o sucesso das companhias majestáticas de comércio dos holandeses em finais do século XVI e meados do seguinte, muitas outras lhes seguiram o exemplo, quase como um comerciante que baixa os preços...
A imitação é também a reprodução artificial de algo, de uma matéria ou objecto, a sua cópia enquanto algo com valor passível de ser imitado. Quantas peças de mobiliário, vestuário, obras das artes decorativas, antiguidades, até, foram, e são, imitadas. Aparece neste sentido muitas vezes a palavra (ou derivado) imitação junto da matéria imitada, como, por exemplo, uma carteira de imitação.

Imitação nas Belas Artes
São tradicionalmente conhecidas como artes da imitação a pintura e a escultura, nas quais se procura reproduzir os objectos na sua natureza própria, num meio artificial e de forma incompleta. Começa-se sempre por imitar nas Belas Artes. Aquilo que normalmente se chama de criação nos grandes artistas mais não é do que uma maneira particular de cada um ver e assimilar a natureza, a forma de renovar nos espíritos dos espectadores as impressões, as recordações, as emoções e as sensações que formam ou devem ser reproduzidas pela coisa representada. Os grandes artistas tiveram sempre que imitar os seus antecessores, antes de conseguirem ter autonomia criativa para traçarem a sua própria forma de ver a natureza. Aristóteles, por exemplo, considerava a arte como imitação, com um valor puramente artístico e purificador do sentimento (Kátarsis), para além de produtor de coisas belas.
Rafael, um dos grandes pintores do Renascimento, foi, segundo muitos estudiosos da arte, um dos que mais se aplicou a imitar, desde os seus mestres às obras pictóricas e escultóricas da Antiguidade Clássica, bem como a outros mestres que o precederam e mesmo outros seus contemporâneos, como Albrecht Dürer, Ticiano, Michelangelo, entre outros. Rubens, por exemplo, foi um dos grandes imitadores da pintura, não deixando, no entanto, de se afirmar como um dos maiores artistas do seu tempo. Contudo, não se poderá chamar a estes artistas, como a outros também, de imitadores. A pintura não consegue, de facto, operar sobre o espírito do espectador com toda a amplitude do ser real. Por isso é que esses pintores não são meros imitadores, pois foram mestres no uso dos meios de imitação que a arte dispõe para compensar ou superar as insuficiências ou limitações da representação do real, que nem sempre é exacta. A imitação é também a acção mediante a qual se opera de acordo com um modelo artificial, ou copiando-o exactamente (cópia) ou, trabalhando sobre um assunto original, à maneira e ao gosto do artista (pastiche).
Desde as mais antigas civilizações que a imitação existiu na pintura e na escultura. Recordemos as imagens gravadas em grutas (Altamira ou Lascaux) ou em esculturas zoomórficas oriundas, posteriormente, do Crescente Fértil, reveladoras já de um forte sentido de imitação. A natureza desde logo foi o elemento a imitar, porque o único, nos seus fenómenos, que impressionava o homem e o induzia a reproduzir, sob vários suportes materiais e segundo diversas técnicas, era aquilo que via. A imaginação despertava depois a fantasia, surgindo a estilização e, consequentemente, abria-se o caminho à criação. Por isso, os pintores e escultores de todos os tempos não pararam nunca de imitar, os outros ou as coisas à sua volta, nas suas obras. Deste modo, a imitação artística é a reprodução através de um meio artificial da aparência de um ser real. Todavia, as artes da imitação não se limitam a reproduzir o aspecto dos seres reais, pois também procuram renovar no espírito do espectador as impressões, as recordações, as sensações e as emoções que foram ou deveriam ser produzidas pela coisa representada. A missão das artes plásticas, concluindo, é a de idealizar a realidade, ainda que o ideal não tenha modelo na natureza e só exista na imaginação, pondo de lado as imperfeições e fealdades da mesma, num primeiro momento de imitação, e buscando nas dificuldades vencidas a máxima emoção estética». In Infopédia, Porto Editora, Porto.

Cortesia de Infopédia/JDACT

terça-feira, 6 de novembro de 2012

@rrob@. Qual o seu Significado e como Apareceu. A Origem e o que Significa @ no e-mail. «O termo arroba vem da palavra árabe arruba, que significa a quarta parte: uma arroba (15 kg, em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg»

Cortesia de wikipedia

Foi divertida a mensagem do amigo José Rui.
 
@
«O mundo inteiro usa este símbolo na correspondência electrónica, mas poucos sabem o seu significado e origem. Durante a Idade Média eram escritos pekos copistas, à mão. Precursores dos taquígrafos, os copistas simplificavam o seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido, tempo não faltava naquela época. O motivo era de ordem económica: tinta e papel eram valiosíssimos.
Assim, surgiu o til (~) para substituir o m ou n que nasalizava a vogal anterior. Se reparar bem, verá que o til é um enezinho sobre a letra. O nome espanhol Francisco, também grafado Phrancisco, foi abreviado para Phco e Pco(?) o que explica, em espanhol o apelido Paco.
Ao citarem os santos, os copistas identificavam-nos por algum detalhe significativo das suas vidas. O nome de São José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativus, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde, os copistas passaram a adoptar a abreviatura JHS PP e depois, simplesmente, PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica porque José, em espanhol, tem o apelido de Pepe.
Já para substituir a palavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras; o &, popularmente conhecido como e comercial, em português, e ampersand, em inglês, junção de and (e, em inglês), per se (por si, em latim) e and . e foi com esse mesmo recurso de entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outos, o sentido de casa de.
Foram os copistas, veio a imprensa, mas os símbolos @ e & continuaram firmes nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: o registo de contabilidade 10@£3 significava 10 unidades, ao preço de 3 libras, cada uma. Nessa época, o símbolo @ significava, em inglês, at (a ou em).
No século XIX, na Catalunha, o comércio e a indústria procuravam imitar as práticas comerciais e contabilísticas dos ingleses. E como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo devia ser uma unidade de peso. Para isso, contribuíram duas coincidências:
  • A unidade de peso comum para os espanhóis, na época, era a arroba, cujo inicial lembra a forma do símbolo;
  • Os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Por isso, os espanhóis interpretavam aquele registo de 10@£3 assim: dez arrobas custa 3 libras cada uma. Então, o símbolo @ passou a ser usado por eles para designar a arroba (medida de peso).
O termo arroba vem da palavra árabe arruba, que significa a quarta parte: uma arroba (15 kg, em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg.
As máquinas de escrever, que começaram a ser comercializadas na sua forma definita no século XIX, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos, Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar os seus originais dactilografados, trouxeram ao seu teclado o símbolo @, mantido no seu sucessor, o computador.
Então, em 1972, ao criar o programa de correio electrónico (o e-mail), Roy Tomlinson usou o símbolo @ (at), disponível no teclado dessa máquina, entre o nome do usuário e o nome do provedor. E foi assim que Fulano@Provedor, X ficou a significar Fulano no provedor X.
Na maioria dos idiomas, o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com a sua forma:
  • Em italiano, chiocciola, caracol;
  • Em sueco, sanabel, tromba de elefante;
  • Em Holandês, apestaart, rabo de macaco;
  • Em alguns, tem o nome de certo doce de forma circular, shtrudel, em iídisch, strudel em alemão, pretzel, em vários outros idiomas europeus.
No nosso manteve a sua denominação original @rroba». In texto de Stella Calazans, composição de Linito. Comunicação oferecida pelo sempre castelovidense/portalegrense/lagóia.


Cortesia de Rui Rabaça/JDACT

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O vento nas Palavras: Palavras que falam da amizade, do amor, do vento, dos nossos pensamentos e sonhos mais profundos

Cortesia de Direcção Regional de Cultura do Alentejo
Teatro d'O Semeador
O ponto de partida reside na necessidade de dar a conhecer aos mais novos a poesia portuguesa de um modo agradável e despretensioso, num discurso dinâmico e aliciante.

E de Novo, Lisboa...
E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?
Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

Bom e Expressivo
Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra...

Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

O Amor é o Amor
O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!
O amor é o amor — e depois?
Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado'

Vaga, no Azul Amplo Solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento
A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
E o da criança loura?
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Teus Olhos Entristecem
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Cortesia de Escape by Expresso
Encenação de Susana Teixeira
Interpretação de Ana Rodrigues e Verónica Barata 

Palavras que falam da amizade, do amor, do vento, dos nossos pensamentos e sonhos mais profundos.
Cortesia de Escape.Expresso/Direcção Regional de Cultura do Alentejo/JDACT