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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pedro Cid. As Fortificações Medievais de Castelo de Vide: «A chamada “Orogenia Hercínica”e a própria erosão diferencial são citadas pelos especialistas como os fenómenos mais importantes na geologia da zona, (…) a ocorrência de certas “falhas”, a extensa fractura que deu origem ao desenho desencontrado que a cumeada montanhosa ostenta 1,5 km a sueste da capela de Nossa Senhora da Penha»

Cortesia de ippar

O Sítio
«Castelo de vide constitui um daqueles sítios, únicos, em que a Natureza de imediato convida à fixação humana. O relevo, a hidrografia e o clima são os três elementos definidores dessas peculiares condições do meio ambiente, mas é sobretudo o primeiro, através da presença tutelar da Serra de São Mamede (1025 m), que mais contribui para a caracterização paisagística das terras de Castelo de Vide.
Assim, ao observador que dirige o seu olhar da vila sede do concelho para sul depara-se um horizonte eriçado de cristas rochosas, num efeito cénico que se amplifica ainda pelo facto de a povoação se implantar sobre um contraforte (607 m) da serra, e não já no seu maciço principal.
O serrilhado dessas cristas quartzíticas realça a nítida orientação sueste-noroeste da cadeia montanhosa e é bem demonstrativo da influência dos processos geológicos ali actuantes há centenas de milhões de anos. A chamada “Orogenia Hercínica”e a própria erosão diferencial são citadas pelos especialistas como os fenómenos mais importantes na geologia da zona, havendo ainda que referir a ocorrência de certas “falhas”, entre as quais se destaca a de “Castelo de Vide”, a extensa fractura que deu origem ao desenho desencontrado que a cumeada montanhosa ostenta 1,5 km a sueste da capela de Nossa Senhora da Penha.
Além dos quartzitos, uma outra rocha que ali ganha particular expressão é o granito, que aflora rigorosamente por exemplo na vertente setentrional do núcleo muralhado de Castelo de Vide. Depois, de modo disperso é possível reconhecer a existência de xistos, de grauvaques e de calcários, e é precisamente um vasto depósito calcário que surge ao pé da aldeia de Escusa. Aí se pode visitar uma impressionante pedreira (abandonada nos anos 60 do século XX) e um grande número de fornos, todos construídos propositadamente para fabricar “cal preta e branca” com a matéria-prima que esses calcários constituíam.

O castanheiro assume a sua presença em redor de C. de Vide
(foto de Manuel Ribeiro)
Cortesia de ippar

Para norte do povoado de Castelo de Vide o terreno muda de feição, tornando-se globalmente plano, embora a sua topografia conserve algumas zonas mais acidentadas. Esse amplo espaço, com cerca de 15 x 15 km, abarca as quatro freguesias do concelho entre elas a de Póvoa e Meadas (dantes com estatuto municipal independente), indo rematar contra os domínios de Nisa-Montalvão e contra o rio Sever no trecho em que a fronteira é definida pelo seu curso. Nessa parte do território de Castelo de Vide, onde aliás os solos, delgados e pedregosos, têm um muito menor potencial agrícola, descobre-se uma afinidade mais evidente com as extensões abertas do restante Alentejo. Todavia, essa semelhança é até certo ponto enganadora, porque, se o termo do município abrange as duas grandes entidades morfológicas referidas, a montanha e a peneplanície que lhe fica a norte, não há uma exclusão mútua de ambos os sectores. Em simultâneo, convém lembrar que Portugal combina na sua personalidade geográfica traços do Mediterrâneo e do Atlântico, o que faz com que umafÍaixa intermédia do País apresente características “mistas”, sendo que, dentro dessa troca de influências (a que acresce ainda o peso da continentalidade...), a região de Castelo de Vide acaba por se distinguir de forma fecunda e em larga medida original.

Assim, se o cunho mediterrânico é incontroverso na luminosidade intensa da atmosfera, na elevada temperatura de tantos dias do ano, coberto vegetal ajustado a um perfil climático tipicamente meridional, com bosques ou montados de sobro e azinho e com outra flora arbustiva autóctone, também se identifica uma série de elementos muito diferentes, sem dúvida graças à maior pluviosidade e à maior altitude dos terrenos. Assiste-se, inclusive, ao aparecimento de frondosos castanheiros (uma das riquezas locais...) e de outras variedades arbóreas de regimes mais frios, o que proporciona uma paisagem verdejante extremamente aprazível.

Fonte dos Besteiros, ou de Fora, na margem da ribeira de S. João
(foto de Manuel Ribeiro)
Cortesia de ippar

Não admira, por isso que Castelo de Vide já tenha sido apelidada de “Sintra do Alentejo”, em todo o lado surgindo alguma sombra acolhedora. De “pomares, quintas e hortas”, havia mais “de duzentas” no começo do século XVIII, num quadro que, especialmente junto a duas das principais ribeiras que sulcam o espaço concelhio, as de São João e de Vide, dir-se-ia quase o de um oásis, com múltiplas fazendas a disputar entre si esses terrenos de maior fertilidade. Repare-se que as ditas ribeiras são afluentes da margem esquerda do Sever, pelo que só mais adiante as suas águas alcançam as do Tejo (perto do lugar espanhol de Cedilho), enquanto a Ribeira de Nisa, que passa mais a ocidente no concelho ali vai desaguar directamente.

Que a distribuição dos pontos com água condicionou a escolha dos sítios a ocupar é um fenómeno que a própria toponímia ilustra em nomes como os de “Água Formosa”, “Ribeiro da Fonte”, “Ribeirinho”, etc., sendo por outro lado óbvio que essa opulência hídrica de Castelo de Vide se deve à contiguidade da Serra de São Mamede. E daí não resultaram vantagens exclusivamente para a agricultura, pois outras actividades houve, como a criação de gado, a indústria dos panos de lã ou a caça, que disso beneficiaram, percebendo-se que a abundância de água permitia a manutenção dos prados, o accionar dos engenhos de pisões e moinhos, e a atracção das espécies cinegéticas mais valiosas. Destas, muitas ainda ali têm o seu habitat, integrando a lista de fauna protegida do “Parque Natural da Serra de São Mamede”. Mediante uma ligeira adaptação de escala e de tempo manter-se-á, assim, válido o que um antigo relato nos diz acerca da zona das Meadas:
  • que a mesma era de enorme abastança para a “caça de javalins, veados, coelhos, perdizes”.
É este o panorama geral da região de Castelo de Vide, mas não se pode ignorar que também o Homem desempenhou um papel decisivo na modelação da paisagem. Isto é, se a “alma” das gentes locais deve muito à sua “terra”, de igual forma esta acusa a acção das sucessivas gerações que nela viveram e labutaram. Disso nos dá um esplêndido testemunho a arquitectura dos seus núcleos urbanos e das suas fortificações, legado que aqui se toma como objecto central de análise». In Pedro Cid, As Fortificações Medievais de Castelo de Vide, IPPAR, Ministério da Cultura, 2005, ISBN 972-8736-86-X.

Cortesia de IPPAR/Ministério da Cultura/JDACT

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Museu da Fundação Calouste Gulbenkian: Permite ao «visitante» um diálogo constante entre a Natureza e a Arte

Cortesia da FCG
No Museu, a distribuição e articulação das galerias de exposição permanente estão orientadas por uma sistematização cronológica e geográfica que determinou, dentro de um percurso geral, dois circuitos independentes.
  • O primeiro circuito é dedicado à Arte Oriental e Clássica e evolui através das galerias da Arte Egípcia, Greco-Romana, Mesopotâmia, Oriente Islâmico, Arménia e Extremo-Oriente;
  • O segundo percurso é dedicado à Arte Europeia, com núcleos dedicados à Arte do Livro, à Escultura, Pintura e Artes Decorativas, esta última com especial destaque para a arte francesa do século XVIII e para a obra de René Lalique. Expõe-se neste circuito uma diversidade de peças representativa das variadas manifestações artísticas da Europa, desde o século XI até meados do século XX.
Cortesia da FCG
A iniciar este sector destaca-se um conjunto de marfins e de livros manuscritos iluminados, a que se segue uma selecção de Escultura e Pintura dos séculos XV, XVI e XVII. A arte do período do Renascimento produzida na Flandres, França e Itália encontra-se representada na sala seguinte. O século XVIII francês ocupa nas salas do Museu um lugar especial com as Artes Decorativas – destacando-se a Ourivesaria e o Mobiliário, a Pintura e a Escultura. Seguem-se galerias onde podem observar-se um núcleo de Pintura de Francesco Guardi, Pintura inglesa dos séculos XVIII e XIX, Escultura e Pintura do século XIX francês e finalmente um importante núcleo de jóias e vidros de René Lalique, em sala própria.

Cortesia da FCG
O Edifício do Museu foi inaugurado em 1969. O projecto do edifício da Sede e Museu da Fundação Calouste Gulbenkian resulta de um concurso restrito dirigido pela Administração a três equipas de arquitectos, que decorreu entre 1959 e 1960. O caderno de encargos, ambicioso e detalhado, obedecia ao pressuposto de que o novo edifício fosse «uma perpétua homenagem à memória de Calouste Gulbenkian, em cujas linhas se adivinhassem os traços fundamentais do seu carácter, espiritualidade concentrada, força criadora e simplicidade de vida».
Cortesia da FCG
Desta forma o projecto deveria prever a articulação de diversas tipologias de instalações para cumprirem o objectivo de albergar a Sede, o Museu, Auditórios e Biblioteca da Fundação, com as respectivas estruturas de apoio. O local escolhido foi o Parque de Santa Gertrudes em Palhavã (localização actual).
Das três soluções apresentadas a concurso, foi seleccionada a da equipa formada pelos arquitectos Ruy Jervis d'Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, a qual apresentou um projecto que coincidia com os desígnios da encomenda: um conjunto arquitectónico de grande unidade, sóbrio e digno. Neste projecto trabalhou um grande número de especialistas em diversas áreas, coordenados pela equipa vencedora.
Os restantes projectos a concurso eram da autoria das equipas de arquitectura formadas, uma, por Arnaldo Araújo, Frederico George e Manuel Laginha, e, outra, por Formosinho Sanches, Arménio Losa e Pádua Ramos.
Cortesia da FCG
O conjunto arquitectónico existente, de estrutura aparentemente simples, e áreas sabiamente interligadas, encontra-se envolvido por um espaço verde projectado pelos arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto, de onde se destacam extensos relvados, lagos e ainda um anfiteatro ao ar livre.
Cortesia da FCG
O exterior do Museu apresenta-se como um maciço paralelepípedo rectangular, onde a utilização do betão aparente e do granito revela um equilíbrio cromático contido. Planificado em função de cada objecto reunido por Calouste Gulbenkian, possui no piso inferior uma Galeria de Exposições Temporárias, uma loja e uma cafetaria. Neste piso encontra-se, ainda, a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian.
Um marco na arquitectura museológica portuguesa, o edifício do Museu, organizado em torno de dois jardins interiores e com inúmeros vãos envidraçados para o exterior, permite ao visitante um diálogo constante entre a Natureza e a Arte.
Cortesia da FCG
Notável exemplo dos novos caminhos da Arquitectura Moderna Portuguesa da década de 1960, o edifício da Fundação Calouste Gulbenkian foi distinguido com o Prémio Valmor, em 1975.

Fundação Calouste Gulbenkian/JDACT