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domingo, 28 de janeiro de 2018

A Bibliotecária. Logan Belle. «Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Despertou com um barulho que a fez pensar que alguém estava arrombando o apartamento. Ao menos, isso lhe pareceu. Logo se deu conta de que só era a cabeceira da cama de Carly batendo contra a parede. O ruído chegava acompanhado de uns gemidos da sua colega e sem dúvida desnecessário grito de: fo…-me! Mais gemidos, dessa vez masculinos. O ruído da cabeceira se fez mais forte e mais rápido e o tom das vozes pareceu de repente mais indicativo de violência do que prazer. Logo silêncio. Regina respirou com dificuldade, embora ela não sabia se devia ao sobressalto ou à natureza do que tinha ouvido. Era perturbador e excitante ao mesmo tempo e isso a preocupou mais do que o facto de que a vida sexual da sua companheira de apartamento estivesse roubando as suas horas de sono. Sabia que estava muito desactualizada em todo o tema de sexo; ser virgem na sua idade era impensável para a maioria das pessoas. Mas era a sua realidade, uma realidade que a preocupava desde que se mudou para Nova Iorque e se deu conta de que era a última a chegar na festa. Não é que pensasse não praticar sexo. Não tinha feito voto de castidade, muito pelo contrário. Era porque não tinha aparecido oportunidade. As suas amigas diziam que passou pela vida sem perceber que os rapazes sempre se fixavam nela e que lhe pediriam para sair mais frequentemente e se esforçasse mais por relacionar-se e fazer as coisas. É sempre tão séria..., diziam-lhe.
Não é que não queria divertir-se. Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a, desviar a sua atenção do que era importante para ela: aprender, trabalhar duro, conquistar um futuro. Determinação. Era o pensamento da mãe, que não demorou em prevenir Regina de que os rapazes não eram nada mais do que uma distracção, um modo muito eficaz de impedir o seu futuro. Tinha-lhe passado, advertiu-lhe com tom solene. Regina tinha ouvido a história dezenas de vezes, mas a sua mãe sempre lhe contava como havia tinha renunciado aos seus sonhos para apoiar o pai de Regina, enquanto este estudava arquitectura e logo nos primeiros anos de luta... E mais tarde veio a sua gravidez. Depois o pai morreu e deixou-me com toda a responsabilidade. Ninguém pensa em imprevistos, Regina. Olhou o relógio. Eram duas da manhã. Faltavam cinco horas para que soasse o despertador. Ouviu risadas e outro gemido de Carly.
Deitou–se de barriga para cima, desesperada para dormir de novo. A camisola, um objecto folgado de algodão cinza da marca OldNavy, enroscou-se na cintura. Regina soltou-o, mas a deixou por cima dos quadris. Acariciou o estômago tentando relaxar para recuperar o sono. E então, como se movesse por vontade própria, a sua mão desceu até a borda da cueca. Deteve-se. Do quarto ao lado só chegava silêncio. Colocou a mão por debaixo da roupa íntima e acariciou-se levemente com os dedos entre as pernas. Pensar que havia um homem a poucos metros de distância, do outro lado da parede, excitou-a e a distraiu ao mesmo tempo. Fazia muito tempo que um rapaz não a tocava e as poucas experiências que tinha tido até ao momento, tinham sido vergonhosas e não valia a pena recordar. Agora resultava-lhe impossível imaginar a mão de outra pessoa naquele lugar íntimo e sensível, alguém que a acariciasse até que se humedecesse e logo entrasse e saísse de seu corpo do modo adequado para provocar aquela potente libertação. Moveu a mão depressa, as paredes de sua vagina palpitaram contra o seu dedo, e quadris balançaram-se ao mesmo ritmo. Experimentou a familiar onda de prazer e logo ficou quieta sob o enrugado edredom. O coração pulsava com força. Como seria ter alguém com ela nesse momento de clímax? Começava a perguntar-se se algum dia saberia». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Bibliotecária. Logan Belle. «Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É obvio, Regina procurou no Google Mark Ronak e descobriu que o pai de Carly era o fundador da gravadora de hip-hop mais importante do país. Esse pequeno detalhe serviu para aumentar ainda mais a distância que já havia entre as duas. Era impossível imaginar seu pai ou sua mãe escutando hip hop, ou qualquer música pop. O pai de Regina rondava os trinta e cinco anos quando ela nasceu e morreu oito anos depois. Era arquitecto e a única música que escutava era ópera. A mãe de Regina era uma violoncelista que só gostava de música clássica e insistia que na sua casa só se ouvisse esse tipo de música. Enquanto Alice Finch estava em causa, as únicas formas de música, pintura e literatura aceitáveis eram os clássicos, por isso Regina tinha crescido sem música pop, arte moderna, nem ficção barata. Como foi o seu primeiro dia?, perguntou-lhe Carly, levantando a vista da revista W. Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas. Vestia uma calça jeans perfeitamente descolorida e queimados, um pulôver de caxemira que lhe chegava logo abaixo do peito e prendeu o cabelo loiro dourado num descuidado coque. A sala cheirava ao seu perfume, Chanel Allure.
Muito bem. Obrigada!, respondeu Regina, enquanto deixava a sua pesada bolsa no chão e ia à cozinha pegar uma Coca-Cola. Nunca sabia se Carly estava realmente interessada em falar com ela ou era só um gesto automático por ser ela a única pessoa que havia ali. Regina sabia que a garota não compreendia que pôr livros em estantes, segundo as suas próprias palavras, pudesse ser o sonho da vida de alguém. Mas isso era exactamente para Regina. Desde que tinha seis anos e seu pai tinha começado a levá-la à biblioteca todos os sábado à tarde, embora não fosse a de Nova Iorque, e sim a pequena biblioteca no Gladwynne, Pensilvânia, Regina sabia que esse era seu lugar. Nunca passou por uma fase em que queria ser professora, veterinária ou bailarina. Para ela o seu sonho tinha sido sempre tornar-se uma bibliotecária. Desejava trabalhar rodeada pelo cheiro dos livros, ser responsável por fileiras e mais fileiras de ordenadas prateleiras, e de uma meticulosa catalogação e de ajudar às pessoas a descobrir um grande romance, ou o livro que os ajudaria no projecto de uma pesquisa com o qual obteriam o seu título ou solucionariam um enigma intelectual.
Sabia desde que era pequena, e nunca tinha perdido de vista o seu objectivo. E agora o seu sonho virou realidade, por muito insignificante e ridículo que pudesse parecer para alguém como Carly Ronak. Fico feliz, comentou. Vou receber a visita de um amigo. Espero que não a incomodemos. O que realmente lhe estava a dizer era que esperava que ficasse no seu quarto e não incomodasse. Não se preocupe. Tenho muito que ler. Ah e sua mãe ligou. Duas vezes, comentou Carly, dando-lhe uma nota com a mensagem ilegível rabiscada com marcador permanente. Para reduzir despesas na sua mudança para Nova Iorque, Regina tinha excluído o telefone móvel da sua vida. Isso foi óptimo já que ficou impossível para sua mãe contactá-la as vinte e quatro horas do dia, mas, infelizmente, qualquer pessoa que tivesse um relacionamento com Regina e possuísse uma linha fixa pagava o preço. Dobrou a nota e meteu-a no bolso». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Bibliotecária. Logan Belle. «Regina desejou dizer-lhe que se especializou em Arquivos e Conservação, mas não queria que parecesse que estava competindo com ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A sala era impressionante; só com o seu tamanho conseguia deslumbrá-la. O tecto tinha uns quinze metros de altura, só três metros menos alto que os típicos edifícios de pedra calcária de Manhattan. A sala media vinte e quatro metros de largura e noventa de comprimento, aproximadamente a longitude de todo um bloco de prédios. Pelas enormes janelas em arco entrava a luz do sol. E logo estava o tecto, uma pintura de um céu com nuvens do Yohannes Aynalem, rodeada por ornamentadas talhas douradas de madeira de querubins, golfinhos e volutas. Mas a sua parte favorita daquela sala eram os lustres de quatro fileiras, de madeira escura e latão, com máscaras de sátiros esculpidas entre as lâmpadas.
Sloan deteve-se frente ao balcão de empréstimos que presidia a sala. Era mais que um balcão: ornamentada, a peça de madeira escura abrangia a metade do comprido da sala e era, basicamente, o centro de comando. Estava dividido em onze espaços com um guiché em arco cada um, separados por colunas dóricas romanas. Sloan inclinou-se sobre um dos ocos. Aqui está, o seu novo lar, anunciou. Regina sentiu-se confusa. Vou trabalhar no balcão de empréstimos? Sim, respondeu Sloan. Mas... Especializei-me em Arquivos e Conservação. A sua chefe dirigiu-lhe um olhar de desaprovação, com uma mão de unhas perfeitamente arrumadas sobre o quadril.
Não se precipite. É inteligente, como o foram todos os candidatos para este posto. Poderá abrir caminho como aos demais. Por outro lado, a biblioteca tem os arquivos cuidados por Margaret. Teve oportunidade de conhecer Margaret? Ela mesma está muito bem conservada. Acredito que trabalhe aqui desde que se colocou a primeira pedra. Regina sentiu uma sensação de vazio no estômago. Trabalhar no balcão de empréstimos não era um trabalho muito estimulante. A única coisa que faria seria sentar-se no seu posto, receber os pedidos e inseri-lo no computador e aguardar que alguém trouxesse os livros das diversas salas e espaços para poder entregar ao visitante, que aguardaria sentado numa mesa com uma senha. Tentou não se deixar levar pelo pânico. Todos tinham que começar em algum lugar, disse a si mesma. E poderia ser pior: poderiam colocá-la no balcão de devoluções. O importante era que se encontrava ali. No final era bibliotecária. E demonstraria que era digna desse trabalho.
Regina pegou o saco de papel marrom em que levava o almoço e sentou-se lá fora, no alto da escada da biblioteca. Abriu a garrafa térmica de leite e contemplou a Quinta Avenida. É a nova bibliotecária?, perguntou-lhe uma senhora que se deteve a seu lado antes de descer a escada. Sim, sou Regina, respondeu ela, enquanto mastigava tapando a boca com a mão. Bem-vinda. Sou Margaret Saddle. Incomodava por estar sentada enquanto a mulher permanecia em pé, Regina levantou-se e alisou a saia vincada de algodão que vestia. Ah, sim. Trabalha na Sala de Arquivos, não é? A senhora Saddle assentiu. Há cinquenta anos. Verdade, é... Impressionante.
Margaret tinha o cabelo branco e o usava meio preso, estilo anos 60, e os olhos eram de um azul muito claro. Além de blush no rosto, não usava maquilhagem. Estava com um colar de pérolas de várias voltas e, se Regina tivesse que apostar, diria que eram autênticas. A mulher voltou o olhar para o edifício. Este é um lugar que vale a pena dedicar toda uma vida profissional, afirmou. Embora tudo foi de mal a pior desde que perdemos o Brooke Astor. Bom, prazer em conhecê-la. Venha-me visitar no quarto andar quando quiser. Provavelmente terá dúvidas e Deus sabe que nenhum outro se apressará em respondê-las, se é que sabem a resposta. Bom, desfrute do sol.
Regina desejou dizer-lhe que se especializou em Arquivos e Conservação, mas não queria que parecesse que estava competindo com ela. Entretanto, tinha a certeza que preferia trabalhar com a Margaret Saddle do que com a Sloan Caldwell. A mulher afastou-se e Regina sentou-se novamente no degrau, esquecendo que tinha deixado a garrafa térmica com leite aberta. Derrubou-a, o leite derramou pela escada e a pesada tampa caiu ricocheteando como uma bola». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «O quê? Não dizes nada? O olhar turvo tornou-se sério. Acaso não estás contente com o nosso novo “Burgermeister?”»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) Por isso, reservara para ele o final do discurso. O novo burgomestre rogou-lhe que conduzisse todos os presentes numa prece. Cedeu-lhe a posição frente à assistência e Heller colocou-se junto à esposa. Sem olhar para ela, tomou-lhe a mão e adoptou uma atitude piedosa. Agripina baixou a cabeça e ouviu com fervor as palavras do arcebispo. Um solene ámen, encheu toda a praça. Nesse instante, os músicos fizeram soar os seus instrumentos e o silêncio desapareceu numa onda, tal como chegara. O público dirigiu-se aos diferentes locais que o alcaide havia disposto para que os seus concidadãos pudessem deleitar-se bebendo. De imediato foi lançada para trás das costas a piedade das palavras: o júbilo, as risadas e os bailes tornaram-se donos do centro da cidade.
Dentro do edifício, Heller dirigiu-se à sala para onde ele próprio havia convocado as autoridades a fim de celebrar a ascensão ao poder e onde já os aguardava o banquete pronto para o selecto grupo de comensais. Todos se apressaram a felicitar Heller pela nomeação e pelo discurso. Diferentemente do que acontecia na rua, ali corria o vinho mais delicioso. Um homem alto, de uns cinquenta anos, com uma larga boina magenta a combinar com a elegante túnica de tecido pesado e de requinte, esperava o momento para iniciar os elogios. Os meus mais sinceros parabéns, Burgermeister. Acompanhou as palavras com uma breve inclinação do corpo. Obrigado, meu bom Nikolas, respondeu, colocando especial ênfase no bom. Ides deleitar-nos com a vossa presença no banquete que a corporação preparou? Com certeza. Vós sabeis que a ocasião o merece, Herr…
Heller interrompeu-o, levantando a mão. Não há formalismos entre nós... Espero que desfruteis dos manjares que o consistório entendeu por bem preparar para celebrar este humilde acto. Não fiqueis afastado de mim, Nikolas. Noutro momento falaremos das vossas…, habilidades. Não duvideis. Estou à vossa inteira disposição, disse Nikolas Fischer enquanto franqueava a passagem ao burgomestre e à esposa com uma reverência. Agripina contemplava inebriada a conversa. A presença de tantas personalidades desorientava-a, pois na sua vida quotidiana via-se sempre rodeada das mesmas serviçais, de modos artificiais e melosos. O seu rosto ruborizou-se quando o homem da bela túnica magenta também a observou: surpreendida nos seus pensamentos, o olhar inteligente daquela figura parecia conhecê-los. Por um momento sentiu-se aturdida.
Um a um, foram desfilando todos os convidados. De cada qual, Heller procurou armazenar na memória o tom com que se referiam a ele, desejoso de distinguir os que estavam realmente contentes com a sua nomeação. Descobrir onde poderia ocultar-se o inimigo iria ser, a partir daquele instante, uma das suas tarefas quotidianas. O último a entrar foi o arcebispo. Heller tomou-lhe a mão entre as suas e, ajoelhando-se, beijou-lhe o anel. Bem, bem... Descontraí-vos, burgomestre. Heller apertou os dentes para simular um trejeito de orgulho. Hoje é o vosso dia. Reconheço que me surpreendeu o vosso belo discurso… Calou-se por um segundo, com a atenção fixada no bulício proveniente do exterior. Não há dúvida de que soubestes ganhar o coração dos cidadãos. Os olhos do arcebispo divergiam das suas amáveis palavras. Coroados por espessas sobrancelhas que caíam apontando ao cenho como flechas, mostravam-se duros, impenetráveis. Heller recordou-se do que se dizia: mais do que um havia tremido perante aquele olhar furibundo. Não foi mais do que um acto de agradecimento à cidade que tanto me tem dado, excelência reverendíssima. Estou convencido de que o Senhor se coloca ao lado daqueles que sabem ser agradecidos, assentiu o arcebispo com um leve sorriso. Heller sentiu um leve calafrio na nuca. Inclinou-se de novo enquanto o arcebispo deu a bênção, para se voltar lesto para a mesa do banquete. As suas mandíbulas estavam apertadas. A seu lado, Agripina suspirou. Que se passa contigo?, perguntou o marido, contrariado. Nada. É que o arcebispo foi tão amável ao saudar-nos... Não é verdade, esposo meu?
Uma figura esbelta, conquanto larga de ombros, atravessava a praça do município. Ia envolta numa túnica azul e num grande capuz da mesma cor que lhe ensombrava o rosto. Na praça, a celebração encontrava-se num momento culminante. Um homem bochechudo e rosado munido de uma enorme caneca de barro transbordante de cerveja interpôs-se no seu caminho. Pareceis um monge. Escapastes do mosteiro para virdes aqui, irmão? Soltou uma gargalhada que tresandava a álcool. O desconhecido não lhe respondeu. O homem, contrariado, afastou o capuz com um puxão. Céus, se não é um galhardo jovem! Acaso serves de escudeiro a algum cavaleiro? O outro continuava sem lhe responder. Só o cabelo ondulado e loiro se agitava quase imperceptivelmente. Os olhos, estranhamente escuros, estavam fixos no rosto do interlocutor.
O quê? Não dizes nada? O olhar turvo tornou-se sério. Acaso não estás contente com o nosso novo Burgermeister? És um desses desbocados que dizem que o grande Heller Overstolz é um assassino? Ah! Desgraçados! O seu rival morreu quando foi assaltado por meliantes, precisamente uma das muitas coisas que Heller resolverá! Decerto! Perante o silêncio, o homem franziu os lábios, visivelmente incomodado. Toma, bebe. Colocou-lhe a caneca frente ao rosto, firme. Vamos. Bebe! O jovem, após meditar um momento, segurou com uma só mão a caneca, sem a levar à boca. Por que esperas? Não estamos a celebrar?, insistiu o barrigudo, arrastando as palavras. Aproximou então a caneca dos lábios, levantou-a com rapidez e bebeu todo o seu conteúdo. Virou-a de boca para baixo para demonstrar ao bêbedo que já tinha terminado». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Ao mesmo tempo que o marido manobrava no sentido da ascensão social, Agripina continuou a viver rodeada de criadas. Embora a princípio tenha protestado»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) A vestimenta era constituída por valiosas roupagens de veludo preto, e um manto de pele de bela confecção resguardava-o do leve frio. Na cabeça, um chapéu largo e abaulado recentemente trazido da Flandres. Heller continuava a recitar o discurso enquanto a sua mente visitava outros lugares. Embora continuasse a sorrir, os seus olhos cinzentos emoldurados por umas sobrancelhas quase inexistentes deixaram de prestar atenção à plebe para olharem para dentro, para as suas recordações. Sentia-se extremamente satisfeito com o que conseguira. Hábil no ofício da construção, que herdou do pai, chegou muito jovem a mestre; o mais jovem de toda a Renânia. Mas rapidamente a sua ambição o conduziu pelas veredas da política e do poder. Subiu os degraus dentro do seu grémio até atingir a direcção do conselho da congregação dos mestres construtores. A partir daí, colheu fama de duro negociador na sua luta feroz pela manutenção da autonomia de todos os seus agremiados perante o poder local, sempre disposto a intervir, tentando controlar os preços, as transacções, os impostos. Heller aprendeu de maneira natural a ser persuasivo, constante e tenaz. E também a mostrar-se ameaçador quando era necessário. Porém, acima de tudo aprendeu que sem poder ficaria sempre às portas de atingir as suas metas.
Para as conseguir abrir tinha de ganhar a confiança dos nobres. Muitos burgueses compravam por bom dinheiro um título nobiliário. Pugnavam por conseguir a chave para uma muito privada instância do prestígio social, um patamar de onde se decidia o destino do resto da população. Com paciência de formiga, Heller foi acumulando o dinheiro necessário. De repente, apresentou-se-lhe um atalho: a filha de um idoso barão atravessou-se no seu caminho. Agripina, assim chamada em honra da mulher do imperador romano Cláudio, que cedeu o seu nome à cidade (Colonia Agrippina), era apenas uma adolescente fruto de um casamento tardio. A sua mãe falecera quando ela nasceu, pelo que a doce e ingénua rapariga cresceu menina mimada por um pai com mais de sessenta anos e pelas criadas que dela cuidavam.
A candura da moça era tal que, ao conhecê-la, Heller compreendeu que seria um delito não aproveitar a oportunidade. Fez uso de toda a sua capacidade de persuasão até que a menina se sentiu a mulher mais apaixonada do mundo. O casamento acabou por ser celebrado, malgrado a oposição inicial do barão, que pretendia reservar a filha para algum nobre de melhor linhagem. Heller, portanto, viu-se tornado barão por obra e graça do sacramento do matrimónio. Enquanto saboreava o mel dos esponsais precoces, conseguiu fazer com que o sogro, cada vez mais débil, lhe fosse confiando a direcção das suas propriedades e, sobretudo, a representação em público do seu cargo. Quando o barão faleceu, Heller já era tratado como mais um nobre e, com pouco mais de quarenta anos, um firme candidato a cargos de poder.
Ao mesmo tempo que o marido manobrava no sentido da ascensão social, Agripina continuou a viver rodeada de criadas. Embora a princípio tenha protestado, batendo o pé, tentando chamar a atenção de um marido que via cada vez menos, acabou por se render. Parecia que o seu destino estava escrito: viver sem que nada de material lhe faltasse e sem homem a quem abraçar. Enquanto o povo de Colónia o interrompia com aplausos, Heller desviou por um instante o olhar para a sua mulher e fez uma pausa. Chegara o momento dos agradecimentos. O novo Burgermeister estava consciente de que devia cuidar muito bem das suas relações. Sabia que estava colocado num lugar idóneo conquanto frágil. Encontrava-se entre os nobres pelo casamento. Era membro dos grémios, sempre tensos com as autoridades locais, das quais era agora a cabeça visível. Um passo em falso e ninguém lho perdoaria.
Havia ainda o arcebispo, o mais intransigente, o mais perigoso. Dieter von Morse era um dos homens mais poderosos de todo o Sacro Império Romano Germânico e, além de arcebispo, um dos sete príncipes eleitores. Entre as prerrogativas destes estava a de escolher o imperador. Devia mostrar-se submisso e obediente perante ele. A relação com o imperador, com o papa de Roma e com a nobreza, os Von Morse eram uma das famílias mais antigas, tornava-o depositário do poder autêntico em Colónia, se bem que vivesse realmente em Bona. As suas visitas eram constantes e inúmeras as suas propriedades por toda a cidade. Também o eram no campo: se um dia impedisse a passagem pelo seu território, Colónia ficaria isolada. Até a água do Reno se deteria a uma só ordem dele». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «A torre sul da catedral inacabada começava a erguer-se majestosa e espalhava o seu influxo sobre cada um dos presentes, dizia-se que, uma vez que as duas torres estivessem completas»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) Nessa manhã de Outubro, o dia tinha-se levantado instável. Nas ruas desordenadas, multidões começavam a percorrer a cidade mais antiga do império. Havia já catorze séculos que fora fundada pelos romanos ao expulsarem uns bárbaros dos seus acampamentos nas margens do Reno. Apesar de ter amanhecido nublado e da chuva intermitente que ferroava do céu, as cores vivas estavam presentes como fragmentos de um mosaico espalhado pelas principais praças da cidade. Os habitantes transbordavam de alegria: o novo burgomestre celebrava a sua ascensão ao cargo com abundante cerveja e com numerosos actos para regozijo dos cidadãos. Muitos assistiam porque na maioria das oficinas tinham dado o dia como feriado; alguns, porque se sentiam contagiados pela estridência de outros; uns poucos, porque a aglomeração de gente lhes permitia aproximarem-se das bolsas dos mais descuidados. Em geral, Colónia respirava efervescência. A recente colheita não fora má. Logo chegaria o duro Inverno com as suas longas noites de frio e de preocupações.
A torre sul da catedral inacabada começava a erguer-se majestosa e espalhava o seu influxo sobre cada um dos presentes, dizia-se que, uma vez que as duas torres estivessem completas, do mais alto delas e num dia limpo seria possível divisar a cidade de Breda e a desembocadura do Reno. No interior das muralhas, não ficava recanto que um olhar de pássaro não alcançasse. Desde a praça, o Altmarkt, centro nevrálgico e dinamizador da cidade, até aos extremos da rua principal, a Hochstrasse, os cidadãos sentiam o abrigo clemente da pedra sagrada erguida como tributo a Deus e aos seus adoradores, os Reis Magos. Os seus restos descansavam ali, trazidos de terras longínquas.
Extramuros, a sua influência era também notável e, a partir do topo, avistavam-se muitas léguas em redor. O perfil recortado da grande sé prometia aos camponeses uma aproximação ao Criador. A paisagem ocre e dura da campina mostrava os canteiros poligonais a formarem as diferentes peças de um quebra-cabeças. No meio, como o talhe impossível de uma faca descomunal, o Reno, avançando sinuoso até se perder na distância, o ar cada vez mais espesso, o horizonte diluído na neblina dividindo a meio o quadro da paisagem: em cima, no alto de tudo, um azul rasgado pelas nuvens; ao fundo, o ocre e o amarelo das alamedas e dos freixiais que acompanhavam o curso das águas sem se atreverem a tocar-lhes. Mais longe, estendendo-se para leste e para norte, o verde dos bosques de coníferas: um imenso mar impossível de abarcar por inteiro. Dispersos, a meio caminho, o acobreado e o laranja dos telhados húmidos salpicando a natureza, avisando da presença humana para lá da cidade repleta e buliçosa que marcava o ponto final na harmonia da paisagem.
O recém-nomeado burgomestre tinha convidado os cidadãos a celebrar a sua ascensão ao poder consistorial, uma coisa por que ele, Heller Overstolz, ansiava havia anos. A figura de Heller mal se via da praça quando assomou à torre gótica que coroava a fachada da câmara municipal, a Rathaus. Num acto invulgar, dirigiu-se à cidadania com um discurso inflamado e cheio de promessas. Em baixo, a assistência silenciou-se por instantes, grata pela festa de que desfrutava. A maioria dos assistentes escutou enlevada o que dizia o novo Burgermeister, não tanto porque estivesse interessada no discurso em si, mas porque representava uma novidade, uma ruptura com a rotina. A boca de Heller esboçou um sorriso semelhante ao de um réptil aos olhos de todos aqueles rostos atentos. Não distinguia as fisionomias, tão-somente as ricas cores dos seus trajos festivos e as caras sorridentes daqueles que já haviam provado a cerveja grátis. Aspirou fundo enquanto continuava com as suas palavras, uma alocução embutida na memória na noite anterior. O seu corpo delgado mantinha-se estático, cativando a atenção no braço direito, que se movimentava para cima e para baixo como se estivesse a marcar um compasso». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 21 de maio de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «As promessas daquele homem entravam-lhe pelos ouvidos como uma aprazível brisa primaveril, expandindo-se pelos nervos e prolongavam-se até à ponta dos dedos. Havia muito tempo que ninguém era amável com ele»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«(…) Desgrenhado, indefeso, débil e disforme, afastado da família por vontade própria, o rapaz avistou, de uma escarpa, as muralhas de Colónia, a maior cidade das redondezas. Encaminhou-se para lá, resignado, já acostumado ao silêncio que o acompanharia pelo resto da vida. Esperava esconder entre os milhares de almas que a habitavam o seu recém-adquirido aspecto. Pelo menos, entre o exército dos aleijados que povoavam as ruas, ninguém repararia na sua horrível cicatriz. Contava apenas treze anos, mas havia já dois meses que a infância o abandonara, amarrada junto a ele naquele castanheiro. No primeiro dia da sua estada na cidade, calhou dar com as pessoas que saíam da Igreja de São Miguel. Disseram-lhe que ali distribuíam sopa quente a todo aquele que estivesse disposto a aceitá-la. O sustento, conquanto escasso, era suficiente. E assim se foi aguentando. De repente, numa tarde como outra qualquer, uma mão forte e inesperada pousou no seu ombro, sobressaltando-o. Aquele que encontrou atrás si ao voltar-se não era muito mais alto, ia vestido com uma capa longa e um capuz de cor preta e manteve nele o olhar fixo do fundo das suas roupagens. Tinha a pele da mão pálida, quase transparente, sulcada de veias violáceas. Perante aquela aparição, tornaram os fantasmas do bosque que o haviam desfigurado, marginalizando-o para toda a vida. Desta vez, no entanto, decidiu que venderia cara a sua pele. Desatou a correr com todas as suas forças. O manto surrado que o cobria ficou agarrado na mão do estranho.
Corria sem olhar para trás. Pressentia na nuca o perigo, perseguindo-o por entre as ruas estreitas. Depressa os passos se multiplicaram. Não era o eco, nem sequer dos seus próprios passos, uma vez que ia descalço. Quando virou numa rua, deparou-se-lhe um muro alto que lhe cortava a saída. Chegou ao fim e encostou-se à parede como se assim pudesse fazê-la cair. Estava apanhado. Os passos já não ressoavam fortes. Agora eram lentos e pausados. Cinco figuras iguais à anterior apareceram no extremo oposto da calçada. Com os rostos envolvidos pela sombra, aproximavam-se sem pressa. O rapaz tremia, à procura de um buraco por onde fugir. Quando estavam próximos, lançaram-se sobre ele sem sequer perguntar. Agarraram-lhe os braços e puxaram por eles com força, imobilizando-o no solo. Nos olhos do jovem condensou-se o terror dos últimos tempos, das noites envolvidas na dor e no frio, das pancadas do pai quando era mais pequeno, do cheiro da sua própria carne queimada, dos seus pés pegajosos pelo sangue seco e pela lama, o terror do duro despertar do inverno envolto em tremuras. Começou a uivar como um animai que se sabe capturado e prestes a morrer.
Uma sexta sombra aproximou-se e puxou para trás o capuz, enquanto todos os outros se mantinham embuçados nas suas vestimentas. O rosto desta nova figura não era pálido. As feições tinham um desenho suave e os olhos azuis exibiam uma limpidez inabitual. Os gritos do menino foram-se esbatendo e o seu lugar foi ocupado por um sussurro delicado, dirigido só a ele. Lembrou-se da mãe, lá na aldeia, submetida a toda a brutalidade do pai, e umas palavras cálidas acompanharam a recordação: há já algum tempo que te observamos. Não precisas de te preocupar. Há muitos outros como tu. Em breve conhecê-los-ás. O rapaz continuava receoso, apesar de ter deixado de sacudir os braços e as pernas. Respirava com agitação. Sei o injusto que o mundo tem sido contigo e tens de saber que, a partir de agora, estás a salvo. Ninguém voltará. jamais a ferir-te e deixarás de estar só. Confia em mim.
As promessas daquele homem entravam-lhe pelos ouvidos como uma aprazível brisa primaveril, expandindo-se pelos nervos e prolongavam-se até à ponta dos dedos. Havia muito tempo que ninguém era amável com ele, ou pelo menos era o que lhe parecia. Afasta as tuas preocupações, pequeno. De agora em diante, Nikolas Fischer protege-te. Aquela figura selou a promessa com um abraço. Então, as obscuras personagens apartaram-se, deixando-o livre. O pequeno, envolto em lágrimas e ainda trémulo, devolveu o abraço e decidiu confiar nesse homem. Foi-se sossegando a pouco e pouco. Apegou-se ao desconhecido como um náufrago a um escolho. Uma nova família acabava de o adoptar e, mesmo que fosse só por isso, na sua desgraça estaria para sempre agradecido». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Já não podes fazer nada! Os seus membros não lhe respondiam. Novas mãos ajudaram as anteriores nessa tarefa. Via que estava cada vez mais perto da saída e que nada podia fazer para o evitar»

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Arredores de Colónia. 1430
«(…) Arrastou a arca das mantas e colocou-a sob o buraco. Subiu por ela e tentou alcançar o soalho do segundo piso. Deu um salto e a madeira a que tentou firmar-se com as mãos cedeu. Rodou até uma labareda junto à mesa. caído no chão, um estrondo fê-lo erguer o olhar. O tecto começara a fender-se. Uma viga caiu-lhe em cima, conquanto tenha conseguido esquivar-se dela. E, ao fazê-lo, colocou-se justamente no lugar onde caiu a seguinte. O golpe não foi tão forte como seria de esperar, mas uma queimadura atravessou-lhe as costas e fê-lo gritar, com o rasgão. Recobrou e voltou a subir para a arca. Quando se ergueu totalmente para ganhar impulso, a pele das costas retesou-se como a de um tambor e caiu outra vez dobrado aos pés do baú. Acocorou-se para se erguer de novo. No entanto, uma mão agarrou o que lhe festava de roupa e começou a puxar por ele. Não compreendia nada. Apenas sabia que a esposa estava lá em cima e que ainda a não tinha salvado. Tentou lutar com as poucas forças que lhe restavam.
Sai daqui, louco! Já não podes fazer nada! Os seus membros não lhe respondiam. Novas mãos ajudaram as anteriores nessa tarefa. Via que estava cada vez mais perto da saída e que nada podia fazer para o evitar. Um novo estrondo obrigou-o a erguer os olhos. O piso de cima caía em pedaços. Voltou a defender-se com pontapés, com safanões para o ar, com mordidelas. Um dos vizinhos aplicou-lhe um forte soco no queixo. Tudo na sua mente se foi dissipando e, quase inconsciente, derrotado, deixou-se levar. Os dois vizinhos estenderam-no no chão, onde a filha fora deitada um momento antes. Em poucos segundos, com o reflexo das chamas a encher-lhe as pupilas, pôde ver como o telhado da sua casa desabava por completo.
Permaneceu imóvel a observar o fogo, abrindo e fechando os olhos avermelhados, como se ainda esperasse despertar daquele terrível pesadelo. Os ruídos da demolição tornavam-se insuportáveis. Já não sobrava quase nada do que fora o seu lar. Perdera absolutamente tudo. Sentiu uma presença próxima. Uma das vizinhas havia-se aproximado com a filha dele nos braços. Sem dizer nada, depositou-lha no regaço. Só então reagiu. Olhou para a filha. Não podia cair, não podia afundar-se na tristeza incomensurável que lhe nascia muito de dentro. Abraçou-a fortemente, protector. A pequena não chorava; o seu olhar parecia ter ficado parado em algum lugar das recordações. Encostou o rosto enegrecido contra o peito do pai e, então sim, as primeiras lágrimas negras sulcaram lentamente a sua face suave, arrastando a fuligem. Alguma coisa começou a rasgar-lhe as costas. Uma dor pungente parecia arrancar-lhe a pele. Levou a mão atrás para perceber do que se tratava. Era o rasto que o fogo tinha deixado nele. Sentiu como a queimadura se expandia pelo corpo, abrasando-o por inteiro. Rendido à dor, as lágrimas começaram também a humedecer-lhe o rosto, juntando-se às da sua filha. Teve a inconfundível certeza de que, a partir daquele momento, só se tinham um ao outro.
Durante semanas, o pequeno mutilado errou pelos bosques próximos do rio, evitando aproximar-se dos lugares habitados. Sobreviveu à base de insectos e de raízes. A simples visão de um grupo de pessoas, ou das suas vozes a ecoar por perto, causava-lhe pânico. Mas, finalmente, teve de claudicar». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Não esperou que respondesse. Ergueu a pequena para a colocar sobre o ombro, como antes fizera com a mulher. Mas esta não se desprendia da mão da mãe. Precisou de dar um puxão para as separar»

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Arredores de Colónia. 1430
«(…) Um rangido fez tremer o soalho aos seus pés. Uma viga havia cedido e as chamas subiam com força em direção ao segundo piso. Olhou para a filha, pálida, assustada. Tossia, engasgada pelo fumo que tudo cobria. Depois, olhou para a esposa; parecia dormir tranquilamente e em paz na cama, por baixo do fumo intenso que roçava o tecto e ia descendo. Pensou que ainda havia algum tempo. Lançou um olhar em redor: o soalho podia resistir um pouco mais. Entre as pranchas de madeira distinguia-se em baixo o resplendor das labaredas, mas não parecia imediato o soçobro. Não havia tempo a perder. Ergueu a mulher e colocou-a sobre o ombro. Segurou depois a menina pela mão e estacou no topo das escadas. Ali, o espectáculo que se lhe apresentou obrigou-o a pensar. O fogo subia, degrau a degrau, lento mas constante. Estás a fazer-me doer, papá. Só os olhos assomavam por cima do lenço. Deu-se então conta da pressão que exercia com a mão. Lamento, filha. Voltemos por um momento. Deixou de novo a mulher sobre o leito e agachou-se até ficar à altura da pequena. Tinha os olhos vermelhos de cansaço e do fumo. Temos de deixar aqui a mamã. Não posso levar as duas. As escadas não aguentarão. Mas o fogo chegará à mamã e não a deixará sair. Não querida. Voltarei logo e salvá-la-ei. Não te preocupes.
Não esperou que respondesse. Ergueu a pequena para a colocar sobre o ombro, como antes fizera com a mulher. Mas esta não se desprendia da mão da mãe. Precisou de dar um puxão para as separar. A criança rompeu a chorar com mais força. As chamas invadiam já as escadas. Uma língua de fogo avançava como um ser vivo, em assaltos constantes. Tomou balanço e, sem pensar, saltou grande parte dos degraus. Caiu sobre o chão de pedra. Uma dor muito forte na planta dos pés fê-lo recuar. Não largou a filha. A casa havia-se tornado um inferno. O fumo e as chamas não o deixavam ver qualquer espaço livre por onde fugir. Na sua frente, a arca de madeira com mantas estava intacta. Deixou a filha no chão. A pequena, desfalecida e meio asfixiada, balbuciava palavras desconexas. Ao abrir o móvel, sentiu como o fogo se agarrava à palma das mãos; o ferro das dobradiças da arca recebia o calor do incêndio e fechava-o como a um tesouro. Incapaz de agir, reparou que as pernas se dobravam. Estava quase a render-se quando o choro abafado da criança o fez voltar a si.
Uma vez mais, colocou a filha sobre ele com um abraço, envolveu uma das mantas por cima com o cuidado de proteger os dois, agarrou-se firmemente ao cobertor e correu; correu até à entrada, ignorando as chamas que os envolviam. Arremeteu contra a porta e esta cedeu facilmente, já quase desfeita. Ao atravessá-la, saiu aos tropeções e caiu aos pés de todos os vizinhos, que tentavam organizar-se para apagar o incêndio. Muitos levavam já os seus baldes de madeira. Desorientado com a visão de toda aquela gente amontoada em seu redor e cm as tochas que se aproximavam e se afastavam na noite húmida, abraçou-se com força à sua pequena. A filha começou a tremer, uma vez que se viu a salvo, mas ainda teve tempo para soltar um lamento: mamã...
O pai pôs-se de pé, como que impelido por uma mola. Voltou a envolver-se na manta e atravessou as chamas que tinham substituído a porta de madeira. Cego pela imperiosa necessidade de salvar a esposa, não via o perigo terrível em que se internava. Atrás ficavam as visões alucinadas dos vizinhos e dos prantos das mulheres; todas se esforçavam por dar atenção à filha. Quando chegou ao interior, só sentiu o fogo. O ar quente quase irrespirável invadia-o todo. Tinha de encontrar maneira de chegar aonde estava a esposa e salvá-la. O terror apoderou-se dele: as escadas tinham desaparecido por completo. Um buraco negro abria-se no tecto e o fumo subia como que absorvido por uma chaminé. Volveu o olhar para o fogo e pareceu-lhe ver que as chamas eram formadas por semblantes luminosos que o observavam e se dirigiam a ele, que o increpavam e queriam apanhá-lo, rostos que engoliam tudo, desmembrando o que fora o seu lar durante tantos anos». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

quinta-feira, 17 de março de 2016

A Bibliotecária. Logan Belle. «A sua única finalidade é permitir que os visitantes procurem os livros que necessitam, os números de referência e demais informações, para logo solicitá-los…»

Cortesia de wikipedia

«Regina Finch deteve-se na esquina da Quinta Avenida com a Rua Quarenta e dois. As pessoas empurravam para a esquerda e para a direita na sua pressa por passar. Os peões moviam-se como ondas rompendo contra uma rocha. Depois de um mês em Nova Iorque, ainda não se tinha acostumado ao horário de ponta. Mesmo assim, não permitiu que as pessoas a distraíssem. Era o seu primeiro dia no trabalho dos seus sonhos e ia saborear cada minuto. Um mês depois de finalizar uma pós-graduação em Bibliotecas e Informática na Universidade do Drexel, dirigia-se à biblioteca mais magnífica de todo o país. Elevou a vista para o formoso edifício, uma assombrosa obra de arquitectura em pedra calcária branca e mármore. Regina não podia imaginar que existisse um lugar mais perfeito que a Biblioteca Pública de Nova Iorque. Está olhando os gémeos?, perguntou-lhe uma senhora. Tinha o cabelo tão branco que parecia quase rosa e vestia um traje azul esverdeado com uns brilhantes botões dourados. Estava com um colar de cristais incrustados, o qual pendia um cachorrinho branco. Perdão?, disse Regina. Os leões, esclareceu a mulher. Ah, os leões. Em cada lado da ampla escada de pedra que subia até a biblioteca havia a estátua de um leão de mármore branco. Eram umas criaturas de aspecto real, que, sentadas sobre uns pilares de pedra, pareciam guardar o conhecimento que habitava o edifício. Eu gosto dos leões, afirmou Regina. A sua colega de quarto tinha advertido muito séria que não devia responder a todos os pirados que lhe falassem na rua. Mas Regina era da Pensilvânia e sentia-se incapaz de ser mal-educada.
Paciência e Integridade, respondeu a mulher. Esses são seus nomes. De verdade?, exclamou Regina. Não sabia. Paciência e Integridade, repetiu a mulher e partiu. Regina não soube como dizer à sua nova chefe, Sloan Caldwell, que não necessitava de uma visita guiada pela biblioteca, porque tinha ido ali com frequência desde que era menina. Mas Sloan, uma loira alta e fria do Upper East Side, tinha-lhe parecido intimidadora durante a entrevista e, de algum modo, o parecia ainda mais agora que tinha conseguido o trabalho. Não quer tomar notas enquanto caminhamos?, perguntou-lhe Sloan. Regina abriu a bolsa e procurou um papel e um lápis. Seguiu a mulher pelo grande vestíbulo de mármore, cujo estilo Belas Artes sempre lhe recordava as fotografias dos grandes edifícios da Europa. Mas o seu pai havia-lhe dito muitas vezes que não tinha sentido comparar a sede central da Biblioteca Pública de Nova Iorque com nada, já que, como obra de arquitectura, era única. E esta é a Sala do Catálogo Público, anunciou Sloan. A magnífica sala, oficialmente chamada Sala do Catálogo Público Bill Blass, e composta por mesas baixas de madeira escura, providas de abajures de bronze distintivas da biblioteca, com telas de metal rematadas em bronze escuro. Os computadores pareciam estar fora de lugar, já que os móveis lembravam o início do século XX. Estes computadores não têm acesso à Internet, comentou Sloan, claramente aborrecida pela explicação que, sem dúvida, teria dado infinitas vezes. A sua única finalidade é permitir que os visitantes procurem os livros que necessitam, os números de referência e demais informações, para logo solicitá-los em empréstimo. É óbvio, Regina conhecia esse sistema melhor que tudo na vida.
Ela adorava era um bom sistema. Para ela, a ordem estava acima de tudo. Depois de procurar os livros, os visitantes escreviam os títulos e os números de referência num papel com os pequenos lápis que tinham ao seu dispor nos boxes de ambos os lados das largas mesas. Para Regina era reconfortante o facto de que nessa época, em que tudo se fazia pelo SMS ou correio eletrónico, a Biblioteca Pública de Nova Iorque era o único lugar onde os leitores ainda tivessem que usar papel e lápis. Sloan continuou andando e os saltos de sua Ankle Boot ressoaram no chão de mármore. Usava o cabelo liso preso num delicado coque baixo e estava vestida da cabeça aos pés de Ralph Lauren. Igual à companheira de apartamento de Regina, Sloan Caldwell, a olhou de cima a baixo e disfarçou o seu veredicto: ruim! Muito ruim!. Regina se perguntou se em Manhattan haveria algum código secreto para se vestir, e que todo o mundo conhecia menos ela. Desde que mudou para a cidade, sentia-se como um dos extraterrestres da invasão dos ladrões de corpos; quase parecia uma nova-iorquina, mas quem a olhasse com mais atenção via que não era bem assim. E aqui temos o coração da biblioteca, a Sala Principal de Leitura. O pai da Regina ia com frequência à Nova Iorque por negócios e a levava com ele. Viajavam de comboio, comiam no Serendipity e visitavam a sede central da Biblioteca Pública de Nova Iorque, na Quinta Avenida; um ritual para estreitar laços afectivos. O leve aroma de fechado, da Sala Principal de Leitura, recordava o seu pai de um modo tão vívido e intenso que sempre necessitava de um momento para se recuperar. Deteve-se para ler a inscrição que havia sobre a porta, um protesto contra acensura de 1644 do Areopagítica de Milton: um bom livro é a preciosa seiva para um espírito magistral, embalsamado e entesourado com o propósito de dar vida além da vida». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa»

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Arredores de Colónia. 1430
«(…) Então, o oficial introduziu a ponta da lâmina naquela boca que teimava em permanecer fechada. Ao mesmo tempo que procurava não ferir Koller, que puxava com força paru abrir a mandíbula, tentou cortar a língua, pondo-se na ponta dos pés, basculando o seu própriopeso sobre o joelho no estômago do pequeno, como um barbeiro a arrancar um molar. Mas não podia. Quase sem fôlego, o rapaz não deixava de se mexer, e escapava por instantes da prisão dos soldados. O sangue começou a esguichar abundantemente. Os seus uivos de dor encheram o bosque. Mer…, segurai-o. Com mais força!, gritou o oficial. Estamos a tentar, senhor, disse Bawer, mas o cabrãozinho não para quieto. Pois tanto pior para ele. Levantou o punhal e deixou-o cair sobre o rosto assustado. Passou rente à mão de Koller, que se afastou mesmo a tempo. Um olhar de surpresa assomou aos olhos do soldado. Agravou-se com o terrível grito do rapaz, inumano. Já não tinha capacidade para emitir palavras, apenas sons abafados pelo gorgolejar do sangue que lhe entrava pela garganta e que, se não o socorressem, em breve inundaria os pulmões. O golpe, horrível, havia cortado rente os lábios do menino e ferido a língua e as gengivas. Algum dente caído revelava o branco por entre a erva e a lama. Ainda preso a um pedaço de carne viva, palpitava no solo como uma serpente decapitada. Os soldados não conseguiam afastar a vista do espectáculo sanguinário que se lhes apresentava. Não queriam olhar e, no entanto, não podiam deixar de o fazer, silenciosos. Passai-me esse pau. Os soldados não responderam, ausentes, atemorizados. Nenhum deles se mexeu. O oficial, entre pragas, apanhou uma acha da fogueira e aproximou-a do rosto do rapaz, que, ainda atado, permanecia inconsciente com a cabeça caída. Levantou-a, agarrando-o pelo cabelo, e aproximou a tocha até a apertar contra a ferida. O sangue deixou de imediato de esguichar, mas o cheiro a carne queimada gravou-se na consciência dos presentes como um estalo de chicote.
Na sua casa de Colónia, um homem dormitava a altas horas da madrugada, debruçado sobre uma grossa mesa de madeira. Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa e alguma tapeçaria das paredes e estavam prestes a atingir as vigas. Desorientado, quis levantar-se e correr à procura da mulher e da filha, mas alguma coisa o tolhia, como se não estivesse completamente desperto ou como se o crepitar das chamas o houvesse hipnotizado. Quando se libertou dessa sensação, levantou-se; o fumo, denso e pesado, estreitou-se como uma mão sobre a sua garganta. Agachou-se e conseguiu chegar à bacia. Com o gomil, lançou a pouca água que restava. Não teve qualquer efeito sobre o fogo, que respondeu com raiva às intenções de ser apagado; o líquido parecia o combustível que o alimentava. Apanhou um trapo molhado e tapou com ele o nariz e a boca. Finalmente, conseguiu chegar ao primeiro degrau.
No piso de cima, o fogo não se tinha assenhoreado do espaço, mas o fumo era ainda mais consistente. Por entre a obscuridade, com o brilho do fogo a subir pelo vazio das escadas, mal se podiam ver as mãos. Quase a tatear, abriu caminho para a cama da filha. Estava vazia. Com o coração na garganta dirigiu-se ao quarto de dormir principal. No catre, a mulher dormia ausente de tudo, enquanto a filha, dominada por uma tosse agressiva, tentava despertá-la com sacudidelas e gritos. A mamã não acorda!, bradava, assustada. A madeira estalava por toda a parte. Se ninguém socorresse, a sua casa em breve haveria de tornar-se um monte de cinzas. O homem sacudiu a mulher com as duas mãos. A princípio com delicadeza, depois mais violentamente. Mexia-lhe a cara de um lado para o outro, levantando-lhe o tronco e tentando pô-la em pé, mas ela não reagia. Um nó no estômago provocou-lhe náuseas. Mami, por favor…, rogava a menina, agarrada à mão da mãe. O marido aproximou o ouvido da boca dela. Um débil alento parecia emergir do interior, concedendo um vislumbre de esperança. Tentou tranquilizar a filha. Está só adormecida». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «O rapaz não respondeu. Os pulsos ardiam-lhe, amarrados pela corda. O rosto começou igualmente a arder-lhe. O soldado tinha-o golpeado com a luva de malha...»

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Arredores de Colónia. 1430
«Uma pequena figura observava acaçapada por entre as ramagens mais baixas de um imenso castanheiro. A densidade do bosque justificava a sua posição. De repente, a paciência compensou os seus desejos e um coelho, pardo e peludo, apareceu por trás de um grosso tronco de uma faia centenária. Mal se ergueu, esfregou o focinho com as patas dianteiras. Quando estava mais perto, lançou-se sobre ele a toda a velocidade. Um rápido movimento de punho, um estalido e a peça passou a estar pendente, inerte, no cinturão. Iniciou o caminho de regresso a casa com um alegre assobio. O pai tinha-o posto fora nessa mesma manhã chamando-lhe preguiçoso e aproveitador, mas poucas horas depois voltaria com um coelho para o jantar e ele teria de engolir as suas palavras. Despreocupado, continuou a subir a vereda sombria. O que viu quando chegou ao topo deixou-o paralisado: um destacamento de cinco guardas observava-o em silêncio. Ficou especado diante deles por uns instantes, mudo, e os soldados devolveram-lhe os olhares. Quando o pequeno soltou a correr, regressando pelo mesmo caminho montanha abaixo, começaram a persegui-lo. Koller, o mais rápido dos homens, largou o capacete e a alabarda e logo o alcançou. O soldado levantou-o em bolandas e, enquanto o rapazito esperneava no ar, esperou até que os outros chegassem. Depois, cumpriu a ordem do chefe da guarda, que mandou atá-lo a uma árvore. Casualmente, indicou o castanheiro atrás do qual o menino se escondera um momento antes. Ainda estavam frescas as marcas do pulo sobre a terra húmida. Não sabes que estas terras pertencem ao arcebispo?, gritou o oficial.
O rapaz não respondeu. Os pulsos ardiam-lhe, amarrados pela corda. O rosto começou igualmente a arder-lhe. O soldado tinha-o golpeado com a luva de malha. Agitava-a diante dele, ameaçador. Ah, não falas? Ter-te-á o gato comido a língua? Vamos já verificar. Acendam uma fogueira. Os quatro homens entreolharam-se sem compreender. Aquele furtivo era apenas um adolescente. Confirmava-o uma sombra de buço sob o nariz, acima do lábio superior. Não me ouvistes? Andai, instou o oficial. Instantes depois, a fogueira chegava sem dificuldade às ramagens da árvore. As tenras folhas do castanheiro começaram a retorcer-se sobre si próprias. O vento balançou uma delas, desprendeu-a e fê-la cair sobre o braço do menino, onde deixou o seu rasto de fogo. Uma queixa abafada saiu-lhe da boca. Hum... Quantos coelhos caçaste até hoje?, perguntou de novo o oficial. Mas ele mantinha-se em silêncio, os lábios apertados, o gesto desafiador. Não és mudo, isso é claro. E ainda assim não dizes nada. O olhar do rapaz tornou-se esquivo. Não queria falar com aqueles soldados: a peça era sua porque a havia conseguido com o seu esforço. E o bosque era de todos. Apertou mais os lábios para demonstrar a sua firmeza. Vendo esse gesto de desafio, o oficial não se conformou. Então é isso, hem? Pois agora sim, não falarás. E, brandindo o punhal, apertou com força o pescoço do menino. Bawer, Koller, ajudai-me. Os dois soldados entreolharam-se, assustados. Eram jovens e inexperientes e cumpriam a sua primeira missão extramuros. Que não se mova, ordenou a um. E, tu, prende-lhe a boca. Como se fosse um cavalo. Assim mesmo. Não tens nada para dizer?, dirigiu-se ao pequeno. É a tua última oportunidade. Qualquer um podia ver como o terror inundava os olhos do rapaz». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Mas o que foi isso!? Ela tentou ver alguma coisa no meio da poeira e a penumbra do anoitecer. Saia já! Não levo americanos. Do rádio jorrava um palavreado incompreensível na voz de um locutor iraquiano»

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«Depois de criar o céu e a Terra, Deus gerou, à sua própria imagem, o primeiro homem, e chamou-o de Adão. Ele então mandou que todas as legiões do Céu, os Anjos e Arcanjos, se curvassem perante Adão e lhe prestassem homenagem e respeito, pois Deus daria a Adão o controle sobre toda a Terra e as suas criaturas. Lúcifer, porém, o mais belo anjo de todos, enciumou-se e recusou-se a curvar-se perante Adão. Reuniu ao redor de si outros anjos com esse mesmo sentimento e eles formaram um exército numeroso, que se revoltou contra o Criador. Uma batalha feroz deflagrou entre os anjos de Deus e aqueles que deram as costas a Ele. Tanto sangue foi derramado que se formaram dois rios caudalosos atravessando o deserto abrasador. No final, o grande guerreiro, o Arcanjo Miguel, juntamente com a Hoste do Céu, derrotou Lúcifer e expulsou-o com os seus rebeldes para fora do paraíso.  Os Anjos Caídos, ou Nefilins, como foram chamados na Bíblia, estavam proibidos para sempre de retornar ao Céu. Então eles desceram para a Terra e caminharam furtivamente entre os homens. Ao longo das eras, o seu ódio cresceu, e Lúcifer jurou que algum dia teria a sua vingança. Mas havia um entre eles que se arrependera e secretamente desejava o perdão do Criador. O nome dele era Furmiel, o Anjo da 11ª Hora. Por causa do remorso dele, Deus concordou em lhe dar a mortalidade e permitiu que vivesse o resto da sua existência como homem. Uma vez que o espírito de Furmiel não poderia jamais retornar ao Céu, Deus permitiu que ele tivesse uma filha que seria levada ao nascer para assumir o lugar do pai entre os Anjos. Mas porque Deus sentiu que o momento da vingança de Lúcifer era chegado, ele permitiu que a esposa de Furmiel desse à luz gêmeas, sendo que a segunda filha viveria na Terra. Ela chegou à idade adulta sem saber que o sangue dos Nefilins corria nas suas veias. E por causa desse laço de sangue, ela estava destinada a ser escolhida.

Abandonada
Nínive, norte do Iraque. Saia! A voz esganiçada do motorista iraquiano ecoou rispidamente no interior do carro. Uma nuvem de areia e pó formou-se do lado de fora depois da travagem brusca. Rudemente acordada, Cotten Stone endireitou-se no banco. Mas o que foi isso!? Ela tentou ver alguma coisa no meio da poeira e a penumbra do anoitecer. Saia já! Não levo americanos. Do rádio jorrava um palavreado incompreensível na voz de um locutor iraquiano. O que aconteceu?, insistiu ela. O que está errado? O motorista saiu pela porta que tinha escancarado e correu para a parte de trás do carro. Cotten forçou a maçaneta da porta empoeirada até ouvir um estalido seco. Oiça, o que pensa que está a fazer?, gritou, saltando para fora. O motorista já abria a bagageira, de onde tirou as duas malas que lhe pertenciam, que jogou na beira da estrada. Não me pode deixar aqui, protestou, dando a volta ao carro. Estamos no meio de um maldito deserto! Impassível, o motorista indicou com a cabeça o falatório do rádio. Cotten abaixou-se para pegar a sacola de lona em estilo militar que continha as suas gravações e jogou-a de volta à bagageira. Escute, dei-lhe todo o meu dinheiro. Não tenho mais nada. Virou do avesso os bolsos vazios das calças. Era uma mentira estratégica. Antes de embarcar, tinha escondido quase duzentos dólares dentro de uma embalagem de filme vazia. Era a sua reserva de emergência. Não está entendendo? Veja, não tenho mais dinheiro. Eu paguei-lhe para me levar até à fronteira. O motorista tocou-lhe no ombro com o indicador. Fim da linha para americanos. Tornando a arrancar a sacola da bagageira, o motorista atirou-a com toda a força no peito dela, quase derrubando-a, e obrigando-a a recuar cambaleando uns passos para trás. Em seguida, ele contornou o carro, reassumiu o lugar de condutor, engatou a marcha e saiu disparado, com o velho Fiat derrapando na areia pedragosa. Não acredito que isto esteja acontecendo, queixou-se ela. Desalentada, Cotten soltou a sacola ao lado da outra e, ajeitando uma mecha dos cabelos cor de chá atrás da orelha, acompanhou com o olhar as lanternas traseiras do táxi até que desapareceram na distância. O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de Janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo, Cotten abriu a outra sacola, tirou um casaco impermeável em estilo militar e vestiu-o. Para se aquecer, saltitou no lugar, as mãos enfiadas até o fundo dos bolsos. A escuridão, brusca como o rude iraquiano, caía de repente sobre o deserto. Bem que alguém poderia aparecer..., precisava que aparecesse, ela pensou. Passaram-se dez minutos sem nenhum sinal de outro veículo. Finalmente, resolveu pegar as sacolas e começar a andar. Os pedregulhos e a areia rangiam como pedaços de vidro sob as suas botas de acampamento. Relanceou o olhar para trás, desejando ver o brilho de faróis, mas nada se destacava no deserto escuro e árido. Não sei o que me deu para confiar naquele sujeito, resmungou, a voz soando áspera no ar seco.
Alguma coisa o motorista devia ter escutado no rádio para ficar tão fora de si. Cotten sabia que as forças armadas americanas se preparavam para uma invasão. Havia uma semana que corriam rumores entre os jornalistas da comunicação social estrangeira de que ressoavam cada vez mais alto os tambores de guerra em Washington e Londres. Não era nenhum segredo que algumas equipas avançadas das forças americanas e britânicas tinham-se infiltrado no país. Podia ser que a invasão acontecesse meses depois, mas era difícil esconder a concentração de tropas nos países árabes que faziam fronteira com o sul do Iraque. O noticiário árabe local vivia de imagens das forças especiais e dos fuzileiros navais aparecendo e desaparecendo no meio da noite. Testemunhavam-se até mesmo voos estratégicos de caças, assim como a presença de aeronaves do tipo Predator, avião guiado por controlo remoto que não leva tripulação, e de reconhecimento de alta altitude, para testar os graus de vulnerabilidade das instalações de mísseis e de radares iraquianos». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, tradução de Henrique Monteiro, Editora Pensamento Cultrix, Brasil, 2007, ISBN 978-853-151-498-2.

Cortesia de EPensamento/JDACT

domingo, 14 de dezembro de 2014

A Menina que Não Sabia Ler. John Harding. «A brincadeira foi logo esquecida; fui de prateleira em prateleira, pegando um livro atrás do outro, espirrando com a poeira ao abrir cada um deles. E claro que eu não sabia ler, mas por algum motivo isso me deixava ainda mais maravilhada…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«É uma história curiosa a que tenho de contar, uma história de difícil absorção e entendimento, por isso é uma sorte que eu tenha as palavras para cumprir a tarefa. Se eu mesma digo isso, quando talvez não devesse, é que, para uma menina da minha idade, tenho um óptimo vocabulário. Extremamente bom, para falar com franqueza. Porém, devido às opiniões rígidas de meu tio em relação à educação das mulheres, tenho escondido minha eloquência, soterrado meu talento e mantido apenas as formas mais simples de expressão aprisionadas no cérebro. Tal dissimulação transformou-se em hábito e foi motivada pelo medo, pelo grande medo de que, se falasse como penso, ficaria evidente meu contacto com os livros e eu seria banida da biblioteca. E, como expliquei para a pobre Whitaker (pouco antes de sua trágica morte no lago), isso é algo que não acredito que possa suportar. Blithe House é um grande celeiro, uma mansão de pedra rústica com muitos cómodos, tão imensa que meu irmão caçula, Giles, tão rápido nas pernas quanto lento na cabeça, leva três minutos ou mais para percorrê-la; uma casa desconfortável e deteriorada pela prudência, negligenciada, com os gastos controlados rigidamente (meu tio ausente tendo perdido todo o interesse por ela), com vazamentos e buracos, traças e ferrugem, fria, mal iluminada, repleta de cantos escuros, de modo que, apesar de ter vivido aqui toda a vida até onde consigo me lembrar, às vezes, especialmente às vésperas do inverno, quando vem caindo o crepúsculo, sinto tremores.
Blithe tem dois corações, um quente, um frio; um iluminado, outro sombrio mesmo no dia mais ensolarado. A cozinha, onde o forno está constantemente ardendo, é alegrada pela gorda Meg, sempre sorridente e com os braços enfiados na farinha, normalmente namorando com John, o empregado, que tenta conseguir um beijo, mas contenta-se com uma bitoca enfarinhada. Na porta ao lado, com o fogo estalando durante nove meses do ano, fica a sala da governanta, onde se pode encontrar Grouse sentada na poltrona costurando ou diante da escrivaninha às voltas com inúmeros papéis, tentando, como ela diz, dar sentido às coisas sem pé nem cabeça, o que me parece contraditório, para que se encaixem. Esses dois aposentos formam um dos corações, o quente. O coração frio (mas não para mim! Ah, não para mim!) bate no outro lado da casa. Mal-amada e esquecida, excepto por mim, a biblioteca não poderia ser mais diferente da cozinha: sem lareira, fria até no auge do verão, gelada no inverno, as janelas escurecidas por cortinas pesadas jamais abertas, de maneira que preciso roubar velas para ler e depois limpar os pingos incriminadores do chão. De uma ponta à outra mede 104 passos meus com sapatos, e 37 na largura. Três homens poderiam ficar em pé, um em cima do outro, e mal conseguiriam tocar o tecto. Cada centímetro das paredes, tirando a porta, as janelas e os assentos abaixo delas, está coberto por prateleiras de madeira, do chão até ao tecto, todas ocupadas inteiramente por livros.
Nenhuma criada jamais entra aqui; o piso não é varrido, pois, se intocado por passos, por que deveria sê-lo? As prateleiras não têm marcas de impressões digitais, as escadas móveis para se chegar às prateleiras mais altas são mantidas sempre no mesmo lugar, os livros suplicando para serem abertos, todo o lugar relegado à poeira e ao abandono. Sempre foi assim (excepto quando havia governanta, mais adiante), ao menos até onde me lembro, pois aqui cheguei pela primeira vez há um terço da minha vida, quando tinha 8 anos. Ainda não tínhamos governanta, porque Giles, que é três anos mais novo que eu, e a quem se destinava a educação, era considerado jovem demais para a escola ou para qualquer tipo de aprendizem, e um dia estávamos brincando de esconde-esconde quando abri uma porta estranha, uma que até então sempre estivera trancada, ou assim pensava eu, provavelmente devido à sua rigidez, que meu eu mais jovem não conseguiu vencer, para me esconder dele ali, e descobri esse imenso tesouro de palavras. A brincadeira foi logo esquecida; fui de prateleira em prateleira, pegando um livro atrás do outro, espirrando com a poeira ao abrir cada um deles. E claro que eu não sabia ler, mas por algum motivo isso me deixava ainda mais maravilhada, todos os milhares, acho que milhões, de linhas codificadas com impressão indecifrável. Muitos livros eram ilustrados, com xilogravuras e gravuras coloridas, citações frustrantes logo abaixo, cada uma delas mostrando a miserável impotência do tracejar dos dedos. Depois, após receber uma reprimenda por ter desaparecido por tanto tempo que a Grouse colocara todo mundo à minha procura, não apenas as criadas mas também a enfarinhada Meg e John, pedi à Grouse que me ensinasse a ler. Instintivamente, nada falei da biblioteca e senti muito medo quando ela me olhou de forma estranha e disse: Muito bem, senhorita, o que foi que a levou a ter essa ideia? Era uma daquelas perguntas que é melhor não responder, pois, se fica em silêncio, os adultos sempre partem para alguma outra coisa; falta-lhes a persistência das crianças. Ela respirou profundamente e soltou um longo suspiro. A verdade, Florence, é que não estou certa de que seu tio queira isso. Ele deixou muito clara a sua visão a respeito da educação das jovens. Acho que ele diria que este não é o momento». In John Harding, A Menina que Não Sabia Ler, Leya Brasil, 2010, ISBN 856-293-611-1.

Cortesia de Leya/JDACT

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Museu das Palavras. António Galrinho. «Era muito novo, mas o contacto regular que há alguns anos tinha com a livraria, e a aprendizagem feita com o meu tio, sobretudo nos períodos de férias escolares, facilitaram-me o começo»

jdact

Tempo de Apresentar. Uma herança peculiar
«(…) E continuou: - Em tempos pensei fazer disto um pequeno museu de trabalhos de ferreiro, quando abandonasse o oficio, mas desisti da ideia. Mas olha que ficava aqui bem uma livraria!, que é uma espécie de museu das palavras, não é? Espantado com o discurso do velho ferreiro, logo nesse momento o meu tio decidiu qual seria o nome da livraria. Naqueles tempos, os imóveis antigos tinham pouco valor, mesmo os situados no centro da cidade, pois não havia a dinâmica comercial nem a procura que viria a surgir anos mais tarde, que muito os valorizaria. Sem recorrer a empréstimo nem a qualquer documento escrito, o meu avô pagou a loja em cinco anos, tal como combinado com o ferreiro. Para reforçar a ideia de um museu de palavras, o meu tio expôs uma máquina de escrever antiga sobre uma secretária, ao lado de pequenas pilhas de livros ainda mais antigos. Coisa curiosa era o facto de, regularmente, ele procurar nos dicionários uma palavra e escrevê-la com aquela máquina numa pequena cartolina. A palavra era escrita com maiúsculas vermelhas e sob ela o significado, a preto. Colocava uma dezena desses papelinhos na livraria, em pequenos expositores de madeira, inclinados. Cada dia substituía um. Os clientes olhavam-nos curiosos, olhavam e olham, pois eu continuo a fazer rodar as centenas de cartolinas que ele deixou guardadas na gaveta da secretaria, onde continuam. Agora já estão amarelas e começam a ter o cheiro próprio do papel antigo e muito mexido. Tornaram-se também peças de museu, e talvez também por isso suscitem a curiosidade dos clientes.
A planta da livraria tem a forma de um L, gordo, virado para baixo do lado de quem entra. A ponta do braço mais curto é um recanto à direita, por trás do volume ocupado pela escada que dá acesso ao andar de cima. Debaixo da escada está uma retrete minúscula, também a arrecadação dos apetrechos de limpeza. O tecto é atravessado por fortes e toscos barrotes, onde assenta o soalho que serve de chão ao andar de cima. No barrote do meio, mais volumoso do que os outros, permanece um gancho de ferro, com cerca de um palmo, a que o ferreiro dava uso no seu trabalho. Essas madeiras, escurecidas pelo tempo, jogam bem com as grandes pedras centenárias do chão, toscas, irregulares e polidas pelo uso, que o meu tio fez questão de preservar. A secretária com a máquina de escrever está encostada ao fundo, com a frente virada para quem entra. Ao seu lado, uma cadeira, também antiga, convida os clientes a nela se sentarem. Um balcão, com apenas cinco palmos de comprimento e um e meio de largura, está junto à entrada, com um topo formado no pequeno espaço de parede que existe entre a porta e a pequena janela-montra. Por trás está uma cadeira alta, onde me sento quando tenho necessidade de descansar as pernas ou para tratar de assuntos mais demorados que envolvam papeladas. Tudo o mais são estantes cheias, ao ponto de quase não deixarem ver as paredes por trás.
O meu tio mexia nos livros como quem faz festas a um gato: com jeito e carinho. Assim que retirava um da prateleira, soprava-o, para expulsar o pó acumulado sobre as folhas apertadas umas nas outras. Fazia isso mesmo que não houvesse pó. Passava com a mão na capa, olhava-a e só depois abria o livro, devagar. Livros de capa fina e com muitas páginas abria-os com os polegares fazendo pressão com os restantes dedos junto da lombada, para não lhe criar vincos. Outros, com capa dura e grandes páginas, abria-os completamente, passando com as mãos por elas como quem alisa um pequeno lençol. Não teve filhos. Casou com uma mulher que sofreu durante muitos anos de uma doença rara, que a foi secando até à morte, antes dos quarenta. E não voltou a casar. Morreu com sessenta e dois anos, num dia igual a tantos outros, caindo inanimado ao virar a primeira esquina depois de ter saído da livraria. Estava eu no último ano do curso, precisamente o mesmo que o meu tio tirara, quando ele morreu. Mal o terminei peguei no negócio. Era muito novo, mas o contacto regular que há alguns anos tinha com a livraria, e a aprendizagem feita com o meu tio, sobretudo nos períodos de férias escolares, facilitaram-me o começo. Apaixonei-me por livros muito cedo, e da paixão fiz profissão». In António Galrinho, O Museu das Palavras, Temas Originais, Setúbal, Livraria Uni-Verso, 2014, ISBN 978-989-688-216-7.

Cortesia de TOriginais/JDACT