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terça-feira, 31 de outubro de 2023

No 31. Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «A Igreja Católica tentou conter a expansão cátara. Começou enviando missões de catequização formadas por monges cistercianos, a mesma Ordem de Bernardo de Clairvaux…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cátaros e o Segredo do Santo

Organização da Igreja cátara

«O segundo era o consolamentum, já citado, feito de forma espiritual, nunca com água que, como qualquer coisa material, é maldita. Era necessário passar por este para se tornar um perfeito. Acontecia em duas partes: o servitium era uma confissão geral feita pela assembleia; o paternoster era uma cerimônia em que o candidato se prostrava diante do bispo-chefe e rogava para que este o abençoasse e por ele intercedesse junto a Deus enquanto renunciava à Igreja romana e à cruz traçada na cabeça na hora do baptismo.

Essa cerimónia terminava com a troca de beijos entre os presentes, chamada de paz. Havia ainda dois outros sacramentos conhecidos: a penitência e a quebra do pão, uma espécie de comunhão, já que não acreditavam na material transubstanciação.

Cada igreja cátara tinha um bispo-chefe, que era auxiliado por dois perfeitos, identificados como filius maior e filius minor, que também recebiam a denominação de bispos. Quando o chefe morria, o cargo era automaticamente passado para o filuis maior.

As lendas do Santo Graal

Os cátaros coleccionaram, ao longo dos anos, muitas lendas que, segundo algumas fontes, estão registadas em documentos dos Arquivos Secretos do Vaticano. Pela mitologia dos caçadores de tesouros, o Santo Graal estará ligado a dois grupos religiosos que têm sua existência comprovada historicamente: os cavaleiros templários e os cátaros ou albigenses. Em muitas das histórias contadas, os cátaros figuram como o grupo que possui o segredo da localização do Santo Graal e de outro Santo Sudário, que não o famoso de Turim. Isso despertou a imaginação de caçadores de tesouros com o passar dos anos.

Os templários são conhecidos por terem supostamente passado muitos anos acampados no Monte do Templo, em Jerusalém, e terem usado os estábulos de Salomão para fazer escavações. Eles teriam encontrado algo valioso sob as ruínas. Alguns escritores acreditam que eles teriam achado o Santo Graal, e outros creem que foi a Arca da Aliança. Há também outras suposições. De tudo o que se especulou sobre a posse de tesouros pelos templários, o facto é que jamais foram encontrados, e nunca se soube de qualquer registo histórico que comprovasse sua existência.

Os cátaros também eram tidos como guardiões e protectores de tesouros, mas isso varia de acordo com a versão da lenda que se propaga. Na verdade, o Santo Graal foi um dos supostos tesouros em seu poder. Fontes históricas francesas sugerem, sem nenhuma prova, que o cálice de Cristo passou das mãos dos templários para as dos cátaros e que foi levado para um local desconhecido quando houve o cerco à fortaleza de Montségur, em 1224. Não é preciso ser historiador para ver que a data desse acontecimento e a da queda de Acre não batem, pois o primeiro, acontecido por volta de 1291, seria posterior ao segundo.

Mas o que sabemos, hoje em dia, sobre os cátaros? Os arquivos da própria seita foram queimados durante o processo da Igreja Católica contra eles. As informações que temos vêm dos processos católicos contra os cátaros, registados pela Inquisição (maldita) que, por seu posicionamento ante os condenados, são claramente inclinados a distorcer as informações lá contidas. Foram esses processos que erradicaram os cátaros da região do sul da França conhecida como Languedoc por meio de uma cruzada, criada e orientada pelo papa Inocêncio III. O fascínio de suas doutrinas, entretanto, chegou até os dias de hoje e gerou movimentos que estão em plena actividade na mesma região da França.

Nos Arquivos Secretos há alguns documentos fascinantes a esse respeito, como o Pergaminho de Chinon, que absolve os Cavaleiros Templários da acusação de heresia. Porém, até onde se sabe, não foi encontrado, ou melhor, divulgado, nada que tenha absolvido os cátaros.

O Santo Graal nos romances

Dan Brown se aproveitou das várias lendas e da fascinação dos leitores sobre os históricos e trágicos personagens cátaros e templários para se valer dos contos em que os últimos teriam retirado o tesouro, seja ele Graal, a Arca da Aliança, seja outro qualquer, quando da queda da cidade de São João de Acre, na Palestina, capital dos cruzados por um século, após a perda de Jerusalém nas mãos dos muçulmanos, em 1291.

A Cruzada Albigense

A Igreja Católica tentou conter a expansão cátara. Começou enviando missões de catequização formadas por monges cistercianos, a mesma Ordem de Bernardo de Clairvaux, um dos maiores entusiastas dos templários e autor das regras que ditavam o comportamento dos monges cavaleiros. As conversões foram poucas, e os monges, apesar do esforço, foram recebidos com vaias nas ruas de Toulouse. A coisa começou a piorar quando um escudeiro do conde Raymond VI de Toulouse, seguidor cátaro, matou um enviado do papa Inocêncio III à cidade». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

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domingo, 29 de outubro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. « Praticavam o jejum absoluto três vezes por ano, condenavam o serviço militar e tinham o suicídio como ideal de santidade, sendo sua forma mais perfeita…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cátaros e o Segredo do Santo

Quem eram os cátaros

«A salvação, nesse caso, seria a libertação das parcelas de luz perdidas nas trevas do corpo. Acreditavam na reencarnação: se alguém falhasse nesta vida teria uma próxima chance de conseguir seu intento. A cruz de Cristo, para eles, era um símbolo falso, pois não teria havido uma morte real (física), já que Jesus era um ser espiritual.

Seu serviço eclesiástico era composto de uma leitura do evangelho, um breve sermão, uma bênção e a Oração do Senhor. Esse serviço podia ser feito em qualquer lugar. Essa abordagem simples da liturgia teria, segundo alguns estudiosos, antecipado a simplicidade de seitas protestantes de épocas posteriores.

Maniqueísmo: a origem do catarismo

Uma das doutrinas que deu origem ao catarismo foi o maniqueísmo. O maniqueísmo é uma religião de origem persa, que deve seu nome ao lendário Manés, ou Manion Manique (215-276), da Babilónia, que teria vivido nos primeiros séculos da nossa era, talvez no século III. Manés, que se dizia filho da luz, seguia os ensinamentos de Zoroastro e defendia uma reforma religiosa que procurasse a transcendência e a libertação das ilusões da vida terrena e corpórea. Tinha um pensamento dualista, ou seja, para ele o mundo material era ruim, enquanto o espiritual era o bom. São dois reinos: o da luz, dominado por Deus, identificado como Ormuzde ou Ahura Mazda, e o das trevas, de domínio de Satã, Ahrimã ou Anrô Mainiu.

O ser humano, preso por Satã, deveria lutar sem descanso para se libertar das trevas e readquirir a luz. Sua libertação só poderia acontecer mediante uma vida austera, passando por três selos ou modificações: o selo da boca (jejum), o da mão (abstenção do trabalho) e o do ventre (castidade).

O maniqueísmo conquistou a atenção de homens como Santo Agostinho. Um de seus mais famosos discípulos foi Madek, do século VI, que afirmava que todo o mal do mundo era causado pelo desejo de posse de fortuna e mulheres. Por isso, pregava que esses mesmos itens deviam ser de posse comum, ou seja, de usufruto de todos. Essa doutrina se estendeu da África do Norte até a China e, embora fosse combatida tanto pela Igreja quanto pelos governos dos países onde entrava, se prolongou até a Idade Média, quando ressurgiu com os cátaros.

Organização da Igreja cátara

Sabe-se pouco sobre o modo como os cátaros se organizavam. O que chegou até nós dá uma ideia vaga, mas consistente. Tinham duas classes ou graus. A primeira, que englobava os leigos, era conhecida com o nome de crentes ou auditores. A segunda era composta pelos perfeitos ou eleitos, que enfrentavam um período de prova de dois anos.

Os crentes tinham regras para fazer seu jejum e não podiam comer carne, ovos ou leite. A principal obrigação dessa casta era adorar e alimentar os perfeitos. Os crentes jamais poderiam aspirar ascender à casta dos perfeitos, considerados de alto nível.

No leito de morte, podiam receber o consolamentum ou baptismo espiritual, que combinava características de baptismo, confirmação e ordenação. Caso não morressem, eram colocados em regime de fome.

Os perfeitos tornavam-se membros dessa casta depois do período mencionado, no qual renunciavam a todos os bens terrenos e viviam comunalmente com outros da mesma classe. Evitavam as tentações da carne isolando-se completamente do convívio com o sexo oposto, além de fazer voto para nunca dormirem nus. Eram completamente contra a união sexual, pois perpetuava a vida e aprisionava mais um espírito no mundo espúrio material. Praticavam o jejum absoluto três vezes por ano, condenavam o serviço militar e tinham o suicídio como ideal de santidade, sendo sua forma mais perfeita a endura, onde passavam fome até morrer.

Uma pessoa podia ingressar na igreja catara por meio de dois ritos de iniciação. O primeiro era a conveneza, palavra de origem ocitânia, a língua dos cátaros, que significa acordo ou pacto, um acordo por meio do qual o crente era consolado na hora da morte mesmo que não estivesse consciente e em condições de recitar o Pai-Nosso em voz alta». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

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Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «Para os cátaros, o homem, que foi criado por Deus, o lado bom, é prisioneiro da matéria. Esta, que foi criada por Satã, identificado como Javé…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cátaros e o Segredo do Santo

«Os principais acusados de levar a Igreja Católica à criação da Inquisição foram os cátaros. Embora até hoje pesquisadores e historiadores discutam as verdadeiras intenções da existência dessa seita, é difícil não prestar atenção aos seus verdadeiros intentos.

A fascinante seita dos cátaros foi a principal causa da primeira e única cruzada de cristãos contra cristãos. Na época da Cruzada Albigense, entre 1209 e 1244, o ponto de vista maniqueísta desse grupo levou os católicos mais ortodoxos a afirmar a unicidade de Deus. Portanto, o facto de acreditar em dois deuses, como os cátaros faziam, seria uma heresia. A diferença entre o comportamento de Deus no Antigo Testamento e no Novo Testamento, no primeiro era uma entidade brava e rancorosa e no outro se torna uma entidade benévola e condescendente, dava bases para que a crença crescesse firme e forte.

Os dirigentes da Igreja começaram uma perseguição implacável aos adeptos daquele movimento, a ponto de invadir cidades do sul da França e matar sua população na totalidade.

Quem eram os cátaros

A palavra cátaro vem do grego katarós, que significa puro. Esse grupo também ficou conhecido como albigense, pois se concentrou mais na cidade de Albi, tida como um dos grandes centros de influência herética no sul da França. Os cátaros floresceram no século XII, um período em que o contacto entre Oriente e Ocidente era grande, por causa das cruzadas e do constante fluxo de pessoas entre a Europa e a Terra Santa. Isso propiciou que muitas ideias e filosofias fossem trazidas de terras distantes junto com suas mercadorias e ganhassem adeptos europeus.

No século XII, as pessoas viam a decadência do clero. A Igreja era uma potência, com seus padres e bispos vivendo no luxo e perdoando pecados em troca de dinheiro. Esse era o clima ideal para o surgimento de uma seita que se enraizou primeiramente no norte da Itália, graças aos intercâmbios culturais entre Veneza e o mundo bizantino. De lá se espalhou para regiões como Milão, Lombardia e Florença, e depois para outros países como Alemanha (onde apareceu pela primeira vez a palavra cátaro, em 1163), Inglaterra (onde são chamados de lolardos) Flandres e sul da França. O medo das represálias da Igreja fez com que os cátaros mantivessem seu credo em silêncio. Porém, a popularização do movimento atraiu tanta gente que seus seguidores passaram a agir abertamente, já que dispunham da protecção de senhores feudais.

Não demorou muito para o catarismo e para outro movimento ligeiramente semelhante, chamado de valdensianismo, criado em Lion por Pedro Valdo, em 1176, se tornassem as religiões predominantes do Languedoc.

Mas o que os tornava tão perigosos para a Igreja? O principal motivo foi o conflito de suas crenças, que iam de encontro às de Roma. Por exemplo, enquanto os católicos viam a salvação obtida por meio do sofrimento físico de Jesus, para os cátaros a redenção não vinha de Sua morte, mas sim de Sua vida. Para os cátaros, o mundo físico é imperfeito, portanto não poderia ser criação de um Deus perfeito. Rejeitavam toda a visão bíblica da criação, por isso chegavam, por extensão, a rejeitar todo o Antigo Testamento.

De acordo com João Ribeiro Júnior, em Pequena história das heresias, eles

chegaram a reescrever o Novo Testamento e elaborar uma mitologia inteira, a fim de substituir o Antigo Testamento. Para os cátaros, a humanidade tinha sido moldada pelo demônio. Para um cátaro, para alcançar a salvação, era necessário conhecer o verdadeiro destino e origem da humanidade e só poderia atingir esse verdadeiro conhecimento por meio da renúncia do mundo satânico da carne, levando uma vida de abstinência e pobreza.

Tomemos algumas definições encontradas no livro de Stephen O'shea, A heresia perfeita. Para os cátaros, o homem, que foi criado por Deus, o lado bom, é prisioneiro da matéria. Esta, que foi criada por Satã, identificado como Javé, está presa ao mundo. O dualismo, herdado do maniqueísmo, é a luta da carne contra o espírito. Assim, para nos salvar, Jesus, que seria um anjo, teria se revestido de um corpo aparente, algo ilusório, para que pudesse nos transmitir a maneira de obter essa libertação». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

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sábado, 21 de outubro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «Vale lembrar que a aplicação da tortura não era, de modo algum, uniforme em todos os tribunais inquisitórios e variava entre as cidades, e mesmo entre os países onde actuavam»

Cortesia de wikipedia e jdact

Outra visão da Inquisição

«Exemplo de ódio radical contra a Igreja e da manipulação a que me referi é um quadro no Museu Nacional de Budapeste, apresentando uma sala de torturas, intitulado no catálogo Inquisição. Só depois de muitos protestos de historiadores, mostrando que o quadro apresentava cena de tortura em um tribunal civil, é que o título foi mudado para Sala de torturas. Lembremo-nos de que foram as descrições caricaturais de Diderot, Voltaire e até de Dostoiévski que formaram na mente do homem de hoje a visão da Inquisição (maldita) como um espectro. Os historiadores poloneses também não ficaram atrás dos historiadores progressistas. Deparando diariamente com essa visão distorcida da Inquisição (maldita), o homem comum é inclinado a aceitá-la como verdadeira.

Talvez a opinião do pesquisador seja a verdade. Afinal, há um grande número de pesquisadores que insistem em afirmar que os inquisidores eram homens esclarecidos e que tratavam os hereges como portadores de doenças mentais. O suspeito de heresia, segundo os registos históricos, era tratado assim: o suspeito não recebia os sacramentos necessários e estabelecidos pelo catolicismo. Caso ele não se arrependesse de sua conduta, seria chamada a autoridade não religiosa, principalmente em casos de agressão verbal ou física.

Se nem mesmo assim a pessoa se mostrasse arrependida, era considerada como anátema, ou seja, reconhecida como passível de excomunhão. Alguns autores vão mais longe e afirmam que o uso da tortura em processos inquisidores era um facto bastante restrito, embora não se saiba mais detalhes do quanto poderia ser restrito. Ainda de acordo com essas pesquisas, a tortura era autorizada em casos em que não houvesse provas confiáveis, testemunhas fidedignas ou quando o acusado já tivesse antecedentes como má fama, maus costumes ou tentativas de fuga. Assim, o Concilio de Viena indicou que os inquisidores recorressem à tortura apenas em caso de aprovação pelo bispo diocesano e por uma comissão julgadora que deveria analisar cada caso.

Há também quem afirme que a tortura da Inquisição (maldita) era mais branda que a aplicada pelos poderes civis e que violência como amputação de membros não era permitida sob nenhuma circunstância. Vale lembrar que a aplicação da tortura não era, de modo algum, uniforme em todos os tribunais inquisitórios e variava entre as cidades, e mesmo entre os países onde actuavam.

Alguns acessórios mais comumente usados pelos inquisidores para obter a confissão dos acusados

Cadeira inquisitória: Com até 1.600 pontas afiadas de ferro ou madeira, sobre as quais as vítimas, completamente nuas, se sentavam para serem interrogadas. Por vezes, a fim de aumentar o sofrimento, o assento de ferro era aquecido. Esmagador de joelhos, polegares e mãos: Cada um desses três instrumentos tinha funções específicas, conforme os nomes indicam. Eram, no geral, prensas que esmagavam as ditas partes do corpo.

Esmaga seios: O instrumento preferido no século XV para torturar as mulheres acusadas de bruxaria. O seio era envolto por um ferro rectangular aquecido ao máximo. Eram esmagados com movimentos bruscos e circulares.

Despertador: Uma espécie de cavalete de madeira ou de ferro, com um vértice pontiagudo. Os acusados eram puxados por cordas ligadas a roldanas e suspensos até certa altura. Depois eram rapidamente lançados sobre o despertador de forma que o ânus e as partes sexuais tocassem a ponta da pirâmide. Dependendo da maneira como o instrumento estivesse afiado, as partes íntimas arrebentavam, entre elas, os testículos, a vagina e o cóccix.

Roda de despedaçamento: O acusado era colocado de costas sobre uma roda de ferro, sob a qual havia brasas. Então a roda era girada lentamente, o que causava uma morte lenta depois de longas horas de dor e gerava queimaduras de alto grau. Há uma segunda versão onde a roda é usada para dilacerar o corpo dos condenados. Em vez de brasas, eram usados instrumentos pontiagudos.

Mesa de evisceração: Considerado um dos mais cruéis instrumentos. Era usado para extrair de maneira lenta e mecânica as vísceras dos condenados. Depois de abrir a região abdominal, as vísceras eram puxadas uma a uma por ganchos pequenos que eram presos a uma roldana que, por sua vez, era girada pelo carrasco». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

 Cortesia de EGutenberg/JDACT

JDACT, Sérgio Pereira Couto, Vaticano, Religião, Conhecimento,

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica. E importante registar que escritores protestantes, pouco simpáticos…»

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A Inquisição medieval

«Vejamos o que diz: Onde quer que os ocorra pregar, estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis.

Vale lembrar que os dominicanos eram chamados originalmente de Ordem dos Pregadores. Têm como objectivo pregar a mensagem de Jesus e a conversão ao cristianismo. Essa ordem foi fundada em Toulouse, na França, em 1216, por São Domingos de Gusmão, um sacerdote espanhol originário da Caleruega. Os religiosos dessa ordem viviam em conventos próximos a grandes cidades e realizavam votos de pobreza, obediência e castidade, o que os tornava religiosos não monges. Não é à toa que Humberto Eco escolheu Bernardo Gui, justamente um dominicano, para caracterizar seu inquisidor impiedoso. Essa figura histórica foi o bispo de Lodève, na região do Languedoc, e é considerado como um dos escritores mais produtivos da época.

A exemplo de muitos outros inquisidores, inclusive do polémico Savonarola, foi poderoso, temido e respeitado dentro e fora do ambiente eclesiástico por defender seus ideais com ferocidade. Foi um dos que mais atacou os cátaros, presidindo julgamentos entre 1307 e 1323.

Outra visão da Inquisição

Analisando os factos, é difícil pensar que alguém se atreveria a defender a Inquisição (maldita). Mesmo assim, o professor de filosofia Roman Konik, ligado à Faculdade de Filosofia da Universidade de Wroclaw, na Polónia, e autor do livro Em Defesa da Santa Inquisição arrisca essa posição. Seu livro despertou muito interesse, mas sofreu boicotes de livrarias, por causa da má fama que a Inquisição (maldita) tem até hoje. Em entrevista concedida à revista eletrónica Catolicismo ele comentou sobre a obra de Umberto Eco: Na mente do homem de hoje, há uma ideia comum que considera o inquisidor como um velho monge encapuzado com inclinações sádicas, inflamado do desejo de autoridade. O melhor exemplo disso é a figura de Bernard Gui, inquisidor de Toledo, descrito pelo conhecido medievalista italiano Umberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Pior ainda é a imagem apresentada no filme realizado com base em tal obra.

Bernard Gui, como figura histórica real, foi inquisidor de Toledo e durante 16 anos exerceu esse cargo. Julgou 913 pessoas, das quais apenas 42 ele entregou ao tribunal civil como perigosos rebeldes (reincidentes, pedófilos, criminosos), o que não significava absolutamente pena de morte para eles. Em muitos casos, Gui indicava tratar-se de doença psíquica, suspeição de heresia, desistindo de interrogatórios.

Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica. E importante registar que escritores protestantes, pouco simpáticos à Inquisição (maldita), começaram a escrever a história dela de maneira desfavorável, apresentando-a deformada. Também nas expressões artísticas das épocas posteriores à medieval verificou-se um reflexo dessa visão caricatural. Mas basta analisar o mundo artístico medieval para observar quadros que apresentam São Domingos convertendo os hereges, São Bernardo de Claraval discutindo com eles, ou então pinturas de inquisidores mártires morrendo nas mãos de hereges, por exemplo, o martírio de São Pedro de Verona, ou de São Pedro de Arbués, assassinado na catedral de Zaragoza». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

 Cortesia de EGutenberg/JDACT

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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «… por meio de duas bulas papais, assinadas por Gregório IX em Abril de 1233. A partir de então, a instituição julgou e condenou vários propagadores de heresias, mas também absolveu muitos…»

 

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As Principais Correntes Hereges

«Puritanismo. Concepção da fé cristã desenvolvida na Inglaterra por uma comunidade de protestantes radicais depois da Reforma. Pretendia purificar a Igreja Anglicana, ao retirar os resíduos do Catolicismo, de modo a tornar sua liturgia mais próxima à do Calvinismo.

Monarquianismo. Série de crenças que enfatizam a Unidade Absoluta de Deus. A crença conflita com a doutrina da Trindade, que vê em Deus uma unidade composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. O adicionismo, uma das suas correntes, diz que Deus é um único ser, superior a tudo e completamente indivisível. Assim, o Filho não foi coeterno com o Pai, mas sim revestido (ou adoptado) de Deus para pôr em prática seus desígnios.

Maniqueísmo. Fundada pelo profeta persa Mani ou Manes no século III, na Pérsia ou na Babilónia. Divide o mundo entre Bem, ou o Deus bom, e o Mal, ou o Deus mal. A matéria é intrinsecamente má, por isso o espírito é intrinsecamente bom e, ao tomar um corpo físico, deixa-se corromper.

Arianismo. Visão sustentada pelos seguidores de Arius, bispo de Alexandria nos primeiros tempos da Igreja primitiva. Esse movimento negava a existência da consubstancialidade (ou seja, que possui a mesma substância) entre Jesus e Deus. O Cristo seria preexistente, uma criatura mais excelsa, que encarnara em Jesus de Nazaré. Este seria, por sua vez, um subordinado de Deus, e não o próprio. Ário afirmava que só existe um Deus e que Jesus seria apenas seu filho, e não o próprio.

Nestorianismo. Doutrina do século V que afirma que há em Jesus Cristo duas pessoas distintas: uma humana e outra divina, completas de tal forma que constituem dois entes independentes. Essa doutrina surgiu em Antióquia e manteve forte influência na Síria. É sustentada ainda hoje por correntes ligadas ao movimento Rosa Cruz e à Gnose.

A Inquisição medieval

A versão medieval da Inquisição (maldita) começou suas actividades em 1184, na famosa região do Languedoc, no sul da França, lugar polêmico por ser acusado de ser o berço de movimentos heréticos, como o dos Cátaros ou Albigenses. Os Cátaros acreditavam em dois deuses: um bom e espiritual e outro mau e físico. Segundo a sua crença, Cristo teria sido enviado para salvar as almas boas, que iriam para o céu, enquanto as más voltariam por meio da reencarnação.

Isso fez com que os clérigos criassem uma Inquisição para avaliar a propagação de tais ideias em 1183, quando delegados papais descobriram essa vertente e a consideraram heresia no Concílio de Verona, em 1184, com o nome de Tribunal da Inquisição (maldito).

Tal criação se deu por meio de duas bulas papais, assinadas por Gregório IX em Abril de 1233. A partir de então, a instituição julgou e condenou vários propagadores de heresias, mas também absolveu muitos, o que é pouquíssimo divulgado. O texto seguinte é parte da bula Licet ad capiendos, de 1233, que marca o início da Inquisição (maldita) e é dirigida aos dominicanos inquisidores». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

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