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sábado, 9 de setembro de 2023

Blasfémia. Douglas Preston. «Colby pulsó algunas teclas, con lo que el sonido etéreo aumentó ligeramente. Noventa y seis, dijo. Luminosidad, diecisiete coma cuatro TeV, dijo Chen. Noventa y siete… noventa y ocho…»

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Julho

«Cinco horas después, y con el mismo número de malos cafés en el cuerpo, era Dolby quien estaba frente a la enorme pantalla plana, todavía oscura; los haces de protones materia-antimateria aún no se habían puesto en contacto. Se tardaba una eternidad en arrancar la máquina y enfriar los imanes superconductores del Isabella para que condujesen una potencia tan descomunal como la requerida. El paso siguiente era aumentar la luminosidad de los haces por incrementos del cinco por ciento, enfocar y colimar los haces, comprobar el estado de los imanes superconductores y ejecutar varios programas de prueba antes de aumentar otro cinco por ciento.

Potencia al noventa por ciento, informó Dolby. Mierda!, renegó Volkonski a sus espaldas, dando tal porrazo a la cafetera Sunbeam, que esta tembló como el Hombre de Hojalata. Ya está vacía!

Dolby reprimió una sonrisa. Durante las dos semanas que llevaban allí arriba, en la mesa, Volkonski se había revelado como todo un elemento, un sabelotodo entre colgado y con estilo: sucio, desgarbado, con el pelo largo y grasiento, camisetas desastradas y una mosca de pelo pegada a la barbilla; tenía más aspecto de drogadicto que de programador brillante. Claro que eso mismo podía decirse de muchos otros.

Transcurrieron algunos segundos, lentamente. Haces alineados y enfocados, dijo Rae Chen. Luminosidad catorce TeV. Esto, va bien, Isabella, dijo Volkonski. Luz verde en todos mis sistemas, informó Cecchini, el físico de partículas. Algo anormal, Wardlaw? Era el jefe de seguridad, que contestó desde su puesto de control. Solo cactus y coyotes. Bien, ya es la hora, dijo Hazelius. Hizo una pausa teatral. Ken, haz colisionar los haces. Dolby notó que se le aceleraba el corazón. Movió sus dedos largos y finos y ajustó los controles con la habilidad de un pianista. Lo siguiente que hizo fue teclear una serie de comandos. Contacto.

Los enormes monitores de pantalla plana distribuidos por la sala despertaron de golpe. Súbitamente pareció flotar música en el aire, como salida de todas partes a la vez, o de ninguna. Qué es eso?, preguntó Mercer, alarmada. Un billón de partículas pasando por los detectores, dijo Dolby. Producen una vibración muy aguda.

Madre mía! Suena como el monolito de 2001! Volkonski aulló como un mono, pero nadie le hizo caso.

En el panel central, el visualizador, apareció una imagen. Dolby se la quedó mirando como en trance. Era una especie de inmensa flor: trémulos chorros de colores brotaban de un solo punto y se retorcían como si quisieran salir de la pantalla. Le impresionó su intensa belleza.

Establecido el contacto, dijo Rae Chen. Los haces están enfocados y colimados. Dios, es una alineación perfecta! Se oyeron hurras y algún que otro aplauso. Señoras y señores, dijo Hazelius,  bienvenidos a las costas del Nuevo Mundo! Señaló el visualizador. Estáis viendo una densidad de energía que no se había visto en el universo desde el Big Bang. Se volvió hacia Dolby. Por favor, Ken, ve aumentando la potencia punto por punto hasta noventa y nueve.

Dolby pulsó algunas teclas, con lo que el sonido etéreo aumentó ligeramente. Noventa y seis, dijo. Luminosidad, diecisiete coma cuatro TeV, dijo Chen. Noventa y siete… noventa y ocho… Se hizo un silencio tenso. Solo se oía el zumbido que llenaba la sala de control subterránea, como si la montaña que los rodeaba cantase con voz propia.

Los haces siguen enfocados, informó Chen. Luminosidad, veintidós coma cinco TeV. Noventa y nueve». In Douglas Preston, Blasfémia, 2007, Saída de Emergência, 2010,ISBN 978-989-637-201-9.

 

Cortesia de SEmergência/JDACT

 

JDACT, Douglas Preston, Ciência, Literatura,

terça-feira, 18 de abril de 2017

Relicário. Douglas Preston e Lincoln Child. «O primeiro esqueleto, quando chegou à superfície no meio das águas agitadas, ainda estava coberto de imundices»

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Ossos velhos
«(…) No convés da lancha da polícia, o tenente D’Agosta observava, com um interesse desprendido, a ascensão do mergulhador novato à superfície. Era um espectáculo digno de se ver: o desgraçado esperneava, com os berros meio abafados pela lama e torrentes de fluidos cor de ocre a sangrarem do fato de mergulho e a mancharem as águas com a cor do chocolate. Devia ter perdido o contacto com a corda de segurança; de facto tivera muita, mas mesmo muita sorte em ter conseguido encontrar o caminho de regresso. D’Agosta aguardou pacientemente enquanto o mergulhador histérico era trazido a bordo, lhe despiam o fato estanque, o lavavam e acalmavam. Viu o homem a vomitar por cima da borda, não no convés, notou D’Agosta com aprovação. Tinha encontrado um esqueleto. Ou mesmo dois, aparentemente. Claro que não era aquilo que lhe tinham mandado fazer, mas mesmo assim não estava mal, para um primeiro mergulho. Havia de escrever uma recomendação qualquer, em nome do desgraçado. Tudo bem, desde que o puto não tivesse ingerido ou respirado nenhuma daquela mer… que ainda se lhe colava à boca e ao nariz. E mesmo que fosse esse o caso, bom, os antibióticos que havia por aí costumavam fazer milagres.
O primeiro esqueleto, quando chegou à superfície no meio das águas agitadas, ainda estava coberto de imundices. Um mergulhador que nadava ao lado arrastou-o até junto do casco da lancha de D’Agosta, embrulhou-o numa rede e subiu ao convés com um certo esforço. A rede, a pingar e a raspar em tudo quanto era sítio, passou por cima da borda e foi poisada sobre uma lona, junto aos pés de D’Agosta, como os restos de uma pescaria macabra. Céus, bem podiam ter passado isso por água!, disse D’Agosta com o nariz franzido por causa do cheiro a amónia. Agora que fora trazido à superfície, o esqueleto passava a fazer parte da sua jurisdição. Quem lhe dera que aquela coisa voltasse à procedência! Era notório que não havia nada no lugar onde era suposto encontrar-se a cabeça.
Dou-lhe uma mangueirada, chefe?, perguntou o mergulhador estendendo a mão para a bomba hidráulica. Lava-te primeiro. O mergulhador tinha um aspecto ridículo, com um preservativo colado à cabeça e lodo a escorrer-lhe por entre as pernas. Dois outros mergulhadores subiram a bordo e começaram a puxar por uma nova corda, enquanto um terceiro trazia à superfície o segundo esqueleto, sustentando-o com a mão livre. Quando o esqueleto foi parar ao convés, e toda a gente pôde confirmar que também este não tinha cabeça, gerou-se um silêncio pesado. D’Agosta passou os olhos pelo enorme tijolo de heroína que entretanto também tinha sido recuperado e que se encontrava agora devidamente selado num saco de provas. Era como se o tal tijolo tivesse de súbito perdido toda a importância.
Puxou uma baforada do charuto e desviou a vista na direcção da Cloaca. Os olhos acabaram por poisar na ancestral boca do esgoto West Side Lateral. Umas quantas estalactites pingavam do tecto como se fossem uma fiada de dentinhos. O West Side Lateral era um dos maiores da cidade, drenando praticamente todos os fluidos do Upper West Side. Cada vez que havia chuvadas em Manhattan, a central de Tratamento de Esgotos do Lower Hudson atingia a capacidade máxima e descarregava milhares de litros de desperdícios não reciclados no West Side Lateral. Precisamente na Cloaca. Com um suspiro profundo deitou os restos do charuto por cima da borda. Sinto muito, mas vocês vão ter de se molhar outra vez! Quero essas duas cabeças!» In Douglas Preston e Lincoln Child, Relicário, O inferno fica debaixo da terra, tradução de João Barreiros, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-989-637-126-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Blasfémia. Douglas Preston. «Só um momento, pronunciou Volkonsky, curvando-se sobre a estação de trabalho do supercomputador. Isabella estar..., lenta»

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Julho
«(…) Dolby sentiu o coração acelerar. Premiu os botões com os seus dedos araneiformes, ajustando-os com a leveza de um pianista. Prosseguiu com uma série de comandos golpeados no teclado. Contacto. Os enormes ecrâs planos a toda à volta despertaram repentinamente. Um súbito ruído cantado parecia flutuar no ar, vindo de todo o lado e de lado nenhum ao mesmo tempo.O que é isso?, perguntou Mercer, alarmada. Um bilião de partículas a passar pelos detectores, disse Dolby. Desencadeia uma vibração elevada. Céus, parece o monólito no 2001. Volkonsky guinchou como um macaco. Toda a gente o ignorou. Uma imagem apareceu no painel central, o Visualizador. Dolfy fixou-se nela, arrebatado. Assemelhava-se a uma enorme flor, trémulos jactos de cor difundindo-se a partir de um único ponto, retorcendo-se e serpenteando, como que a tentar libertar-se do ecrã. Permaneceu pasmado diante da sua beleza. Contacto bem sucedido, disse Rae Chen. Os feixes estão focados e colimados. Meu Deus, é um alinhamento perfeito! Vivas e algumas palmas secas e breves. Senhoras e senhores, pronunciou Hazelius, bem-vindos às margens do Novo Mundo. Gesticulou para o Visualizador. Estão a olhar para uma densidade de energia nunca vista no universo desde o Big Bang. Voltou-se para Dolby. Ken, por favor aumenta a potência em incrementos de décimas até noventa e nove. O som etéreo aumentou ligeiramente enquanto Dolby manipulava o teclado. Noventa e seis, disse. Luminosidade dezassete vírgula quatro TeV, disse Chen. Noventa e sete... Noventa e oito. A equipa mergulhou num tenso silêncio, sendo o único som audível o murmúrio que ocupava a sala de comando subterrânea, como se a montanha em redor deles estivesse a cantar. Feixes ainda focados, disse Chen. Luminosidade vinte e dois vírgula cinco TeV. Noventa e nove. O rumor de Isabella havia-se tornado ainda mais alto, mais límpido. Só um momento, pronunciou Volkonsky, curvando-se sobre a estação de trabalho do supercomputador. Isabella estar..., lenta. Dolby voltou-se bruscamente. Nada de errado, com o hardware. Deve ser mais uma avaria no software.  Software não ter problema, esclareceu Volkonsky.
Talvez devêssemos pará-la aqui, disse Mercer. Existe algum indício da criação de um micro buraco negro? Não, retorquiu Chen. Nem sinal de radiação Hawking. Noventa e nove vírgula cinco, indicou Dolby. Estou a registar um jet carregado a vinte e dois vírgula sete TeV, disse Chen. De que tipo?, inquiriu Hazelius. Uma ressonância desconhecida. Vê. Dois lobos vermelhos e reluzentes haviam-se desenvolvido em cada um dos lados da flor, no ecrã central, como as orelhas de um palhaço crescendo descontroladamente. Difusão forte, disse Hazelius. Gluões, talvez. Poderá ser indício de um gravitão de Kaluza-Klein. Impossível, proferiu Chen. Não com esta luminosidade. Noventa e nove vírgula seis. Gregory, acho que devíamos estabilizar a potência aqui, disse Mercer. Estão a acontecer muitas coisas ao mesmo tempo. É natural que estejamos a ver ressonâncias desconhecidas, disse Hazelius, num tom de voz não mais alto do que o dos demais, mas de certo modo distinto de todos eles. Estamos em território desconhecido. Noventa e nove vírgula sete, entoou Dolby. Tinha confiança absoluta na sua máquina. Podia levá-la aos 100 por cento e ainda mais acima, se necessário. Deixava-o em frenesim saber que naquele instante estavam a chupar quase um quarto da eletricidade da Barragem Hoover. Esse era o motivo pelo qual tinham de fazer os seus ensaios a meio da noite, quando o uso de energia era menor. Noventa e nove vírgula oito. Temos aqui uma espécie de interacção desconhecida mesmo grande, disse Mercer. Qual ser problema, cabra?, gritou Volkonsky para o computador. Acreditem no que vos digo, estamos a entrar num espaço de Kaluza-Klein, disse Chen. É incrível. Começou a aparecer estática no grande ecrã plano com a flor. Isabella estar portar-se estranho, anunciou Volkonsky. Como assim?, disse Hazelius a partir da sua posição no centro da Sala de Controlo. Brincalhão. Dolby revirou os olhos. Volkonsky era irritante até mais não. Todos os sistemas passam pelo meu painel de controlo. Volkonsky digitou furiosamente no teclado; emm seguida, praguejou em russo e golpeou o monitor com a palma da mão. Gregory, não achas que devíamos desligar?, perguntou Mercer. Dá-lhe mais um minuto, respondeu Hazelius. Noventa e nove vírgula nove, indicou Dolbv. Durante os cinco minutos anteriores, a sala passara de sonolenta a híper-desperta, exaltadamente tensa. Apenas Dolby se sentia relaxado. Concordar com a Kate, disse Volkonsky. Eu não gostar forma como Isabella porta-se. Começarmos sequência de desligar». In Douglas Preston, Blasfémia, 2007, Edições Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-201-9.

Cortesia de SEmergência/JDACT

Blasfémia. Douglas Preston. «Os meus cálculos poderão estar errados. Os teus cálculos nunca estão errados. Hazelius sorriu e voltou-se para Dolby. O que é que tu achas? Ela está pronta?»

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Julho
«Ken Dolby encontrava-se diante da sua estação de trabalho, acariciando com os dedos macios e refinados os comandos de Isabella. Esperou, saboreando o momento, e, em seguida, destrancou uma caixa no painel e fez descer uma pequena alavanca vermelha. Não houve qualquer murmúrio, qualquer som, nada que indicasse que o instrumento científico mais caro do planeta havia sido ligado. Excepção feita ao facto de, a trezentos quilómetros de distância, as luzes de Las Vegas terem diminuído ligeiramente de intensidade. À medida que Isabella aquecia, Dolby começou a sentir a sua subtil vibração atravessar o chão. Pensava na máquina como se de uma mulher se tratasse, e nos seus momentos mais fantasiosos chegara mesmo a imaginar a sua aparência, alta e esguia, com costas musculadas, negra como a noite do deserto, coberta de gotas de suor. Isabella. Não havia partilhado estes sentimentos com ninguém, era desnecessário atrair o escárnio. Para o resto dos cientistas envolvidos no projecto, Isabella era uma coisa, uma máquina morta construída para um propósito específico. Mas Dolby sempre sentira uma profunda afeição pelas máquinas que havia criado, desde a altura em que tinha dez anos e construíra o seu primeiro rádio a partir de um kit. Fred. Era esse o nome do rádio. E, quando pensava em Fred, via um branco gordo com cabelo cor de cenoura. O primeiro computador por ele construído fora Betty, que, na sua cabeça, tinha o aspecto de uma secretária expedita e eficiente. Não era capaz de explicar o motivo pelo qual as suas máquinas assumiam aquelas personalidades, simplesmente acontecia. E agora isto, o acelerador de partículas mais poderoso do mundo... Isabella.
Como é que vai isso?, perguntou Hazelius, o líder da equipa, aproximando-se e colocando-lhe uma mão afectuosa sobre o seu ombro. A ronronar como um gato, disse Dolby. Ainda bem. Hazelius endireitou-se e falou à equipa. Reúnam-se, tenho um anúncio a fazer. O silêncio instalou-se no momento em que os membros da equipa se endireitaram nas suas estações de trabalho e se puseram à espera. Hazelius atravessou a pequena sala em passada larga e posicionou-se diante do maior dos ecrãs de plasma. Pequeno, franzino, elegante e inquieto como uma doninha enjaulada, passeou-se diante do monitor por instantes, antes de se voltar para eles com um sorriso brilhante. A presença carismática daquele homem nunca deixara de provocar espanto em Dolby. Meus caros amigos, começou, percorrendo o grupo com os seus olhos azul-turquesa, corre o ano de 1492. Estamos na proa do Santa María, a contemplar o horizonte do mar, momentos antes de a linha costeira do Novo Mundo se tornar visível. Hoje é o dia em que navegaremos sobre aquele horizonte desconhecido e desembarcaremos nas margens do nosso próprio Novo Mundo. Fez descer o braço até ao interior do saco Chapman que trazia sempre consigo e sacou de uma garrafa de Veuve Clicquot. Ergueu-a como a um troféu, de olhos cintilantes, e pousou-a com estrondo sobre a mesa. Isto é para mais logo à noite, quando desembarcarmos na praia. Porque esta noite levamos a Isabella à potência máxima de cem por cento. O anúncio foi recebido com silêncio. Finalmente, Kate Mercer, a subdirectora do projecto, falou. Então e o plano de fazer três ensaios a noventa e cinco por cento? Hazelius retribuiu-lhe o olhar com um sorriso. Eu estou impaciente. Tu não?
Mercer puxou para trás o seu brilhante cabelo negro. E se atingirmos uma ressonância desconhecida ou gerarmos um micro buraco negro? Os teus próprios cálculos mostram que a probabilidade de esse problema em específico acontecer é de um para um trilião. Os meus cálculos poderão estar errados. Os teus cálculos nunca estão errados. Hazelius sorriu e voltou-se para Dolby. O que é que tu achas? Ela está pronta? Mais do que pronta. Hazelius afastou as mãos. Então? Todos se puseram a olhar uns para os outros. Deveriam eles arriscar? Volkonsky, o programador russo, subitamente quebrou o gelo. Sim, irmos a isso! Cumprimentou, com um dá cá mais cinco, um Hazelius inquietado, e depois todos começaram a dar palmadinhas nas costas uns dos outros, a dar apertos de mão, e a abraçar-se, à semelhança de uma equipa de basquetebol antes de um jogo.
Cinco horas e outros tantos cafés maus depois, Dolby encontrava-se diante do enorme ecrã de painel plano. Ainda estava escuro, os feixes de protões matéria-antimatéria não haviam interagido. Demorava uma eternidade ligar a máquina e arrefecer os magnetos supercondutores de Isabella de modo a conduzir as elevadíssimas correntes que eram necessárias. Depois, era uma questão de aumentar a luminosidade dos feixes através de incrementos de cinco por cento, focar e colimar os feixes, verificar os magnetos supercondutores e correr uma série de programas de ensaio antes de aumentar para os cinco por cento seguintes. Potência nos noventa por cento, entoou Dolby. Diabo, disse Volkonsky algures atrás dele, desferindo na máquina de café Sunbeam um golpe que a fez retinir como o Homem de Lata. Já vazia! Dolby reprimiu um sorriso. Ao longo das duas semanas que haviam passado no alto da mesa, Volkonsky revelara-se um finório, um desmazelado e sarnento exemplar de eurotrash (literalmente euro-lixo) com cabelo comprido e oleoso, t-shirts rasgadas, e um pequeno tufo púbico agarrado ao queixo. Parecia-se mais com um drogado do que com um brilhante engenheiro de software. Mas, bem vistas as coisas, muitos deles eram assim. Mais um tiquetaque calculado do relógio. Feixes alinhados e focados, disse Rae Chen. Luminosidade catorze TeV. Isabella trabalhar perfeição, disse Volkonsky. Os meus sistemas estão todos operacionais, disse Cecchini, o físico de partículas. Segurança, Sr. Wardlaw? O oficial superior de informações, Wardlaw falou a partir da sua estação de segurança. Apenas catos e coiotes, sr. Hazelius. Muito bem, disse Hazelius. É chegada a altura. Pausou de forma dramática. Ken? Faz os feixes colidir». In Douglas Preston, Blasfémia, 2007, Edições Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-201-9.

Cortesia de SEmergência/JDACT

terça-feira, 14 de junho de 2016

Relicário. Douglas Preston e Lincoln Child. «Lembrou-se que a época da pesca submarina começava já daqui a um mês. Verificou a corda e apertou-a mais em torno do cadáver. As mãos elevaram-se um pouco, em busca das costelas, do esterno»

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Ossos velhos
«(…) Sacudiu a mão livre, tal como lhe tinham ensinado, varrendo-a através da imundice. A mão começou a bater em coisas. No meio daquela escuridão, com as espessas luvas calçadas, era difícil saber que tipo de coisas eram: ramos de árvores, cambotas, terríveis emaranhados de arame, enfim, toda uma colecção de desperdícios capturados neste cemitério de lama. Resolveu descer mais três metros antes de voltar à superfície. E o cab… do Fernandez, que se atrevesse a troçar dele, depois disto. Bruscamente, o braço bateu contra qualquer coisa. Quando puxou por ela, o objecto deslizou na sua direcção com aquele tipo de lenta resistência que implicava um certo peso. Snow enrolou a corda de segurança na cova do braço direito e tocou-lhe. Fosse o que fosse, não era o tijolo de heroína- Deixou-a cair. A coisa contornou-o, a rodopiar na corrente pastosa provocada pelo movimento das barbatanas, e foi bater-lhe no meio da escuridão, arrancando-lhe a máscara da cabeça e o regulador de oxigénio da boca. Logo que conseguiu restabelecer o equilíbrio Snow passou a mão sobre o objecto em busca de um ponto de apoio por onde pudesse afastá-lo para longe. Era como se tivesse enfiado os dedos num novelo qualquer. Talvez um grosso ramo de uma árvore. Porém, este era inexplicavelmente mole em alguns pontos. Apalpou-o, sentindo as superfícies mais lisas, as excrescências rotundas, as protuberâncias flexíveis. Então, num repente, percebeu que estava a tocar num osso. E não apenas num só osso, mas em vários, ligados uns aos outros por farripas de tendões. Tratava-se dos restos quase esqueléticos de um bicho qualquer, talvez de um cavalo; porém, à medida que ia percorrendo os ossos com as mãos, concluiu que só podia tratar-se de um ser humano.
Um esqueleto humano. Uma vez mais, esforçou-se por controlar a respiração e pôr as ideias em ordem. O bom senso e o treino diziam-lhe que não podia abandoná-lo ali. Tinha de o levar consigo. Começou a enrolar a corda de segurança em torno da cintura e depois à volta dos ossos mais compridos, tão bem quanto lhe era possível fazê-lo, no meio do espesso lamaçal. Partiu do princípio que ainda haveria suficientes tendões a ligar os ossos para conseguir trazer aquela coisa numa única viagem. Snow nunca antes tinha tentado dar um nó com os dedos enluvados, no meio do lodo, numa escuridão de breu. Isto era algo que o brigadeiro não lhe ensinara durante os treinos. Afinal não tinha encontrado a heroína. Mas mesmo assim estava cheio de sorte por ter tropeçado em algo tão importante. Quem sabe se não se trataria de um crime ainda por resolver? O sacana do Fernandez ia roer-se de inveja quando visse o corpo. E, contudo, Snow não se sentia nada satisfeito. Só desejava pôr-se a andar dali para fora o mais depressa possível.
Tinha a respiração curta e acelerada. Já nem sequer fazia um esforço para a controlar. O fato estava frio, mas também não podia dar-se ao luxo de perder tempo a insuflá-lo. A corda deu de si e Snow abraçou-se ao esqueleto no meio do lodo, esforçando-se para não o deixar cair. Ainda não tinha deixado de pensar nos metros de lama que tinha por cima da cabeça, no lodo a remoinhar sobre a lama e por fim na zona de águas viscosas que a luz do Sol nunca chegava a penetrar... A corda apertou-se um pouco mais e Snow soltou um suspiro mental de agradecimento. Agora só tinha de verificar se ela continuava fixa e dar três puxões à linha para assinalar que tinha encontrado qualquer coisa. E depois poderia subir por ela acima para bem longe deste negro horror, entrar na embarcação e partir rumo à terra firme onde tomaria um duche de noventa minutos logo seguido de uma grande bebedeira, para só então começar a pensar se não deveria pedir para voltar ao antigo emprego. Lembrou-se que a época da pesca submarina começava já daqui a um mês. Verificou a corda e apertou-a mais em torno do cadáver. As mãos elevaram-se um pouco, em busca das costelas, do esterno. Enrolou um pouco mais de corda à volta dos ossos, certificando-se de que os laços estavam bem apertados e que a corda não ia deslizar quando o puxassem na direcção da superfície. Os dedos continuaram a subir até que se deram conta de que a coluna vertebral terminava apenas num pedaço de lama negra. Quanto à cabeça, nada de nada. Instintivamente, afastou a mão e só então compreendeu, num surto de pânico que tinha largado a corda de segurança. Começou a sacudir os braços em volta e tornou a bater com eles em qualquer coisa: era o esqueleto. Alivado abraçou-se a ele em desespero de causa. Rapidamente, apalpou-o um pouco mais abaixo em busca da corda, com os dedos a percorrerem as ossadas, esforçando-se por se recordar onde raio a tinha amarrado. A corda já ali não estava. Como é que se tinha soltado? Não, isso era impossível. Tentou sacudi-lo, dar-lhe a volta, sempre em busca da corda, e de súbito sentiu o tubo do ar ensarilhar-se em qualquer coisa. Recuou, de novo desorientado, e sentiu os selos da máscara a perderem adesão ao rosto. Qualquer coisa quente e espessa começou a esgueirar-se para o interior. Tentou soltar-se e sentiu que lhe arrancavam a máscara. Uma torrente de lama cobriu-lhe os olhos, enfiou-se-lhe pelo nariz, sugou-lhe o interior do ouvido esquerdo. No cúmulo do horror percebeu que estava ensarilhado num macabro abraço com um segundo esqueleto. E só então perdeu completamente o tino, num acesso de pânico cego». In Douglas Preston e Lincoln Child, Relicário, O inferno fica debaixo da terra, tradução de João Barreiros, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-989-637-126-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Relicário. Douglas Preston e Lincoln Child. «Um dos pés aflorou aquela estranha superfície, chegou mesmo a atravessá-la, e quase de imediato Snow viu-se envolvido por uma nuvem turbilhante que logo suprimiu toda a visibilidade»

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Ossos velhos
«(…) Snow olhou na direcção dos outros mergulhadores enquanto estes apertavam os cintos com os pesos, puxavam pelos fechos éclair dos fatos e esticavam as cordas pela borda da embarcação. Recordou-se da primeira regra número um da brigada fluvial: todos mergulham. Fernandez, que estava nesse momento a amarrar uma das cordas ao cunho, observava-o com um ar entendido. Eu também vou, chefe!, disse Snow. O brigadeiro continuou a olhá-lo durante um certo tempo: Lembra-te do que te ensinaram durante os treinos. Vai com calma. Quando mergulhamos pela primeira vez no meio daquele lodo, temos tendência a suster a respiração. Não faças isso; esse é o caminho mais rápido para uma embolia. Não enchas o fato com demasiado ar. E por amor de Deus, nunca largues a corda de segurança. No meio do lodo esquecemo-nos onde é que está a superfície. Se perderes a corda, pode ser que o próximo cadáver que encontremos seja o teu. Em seguida apontou na direcção da última corda. Chegou a tua vez. Snow ficou à espera, esforçando-se por controlar a respiração, enquanto enfiava a máscara por cima da cabeça e apertava a corda de segurança. Finalmente, depois de uma derradeira verificação, lançou-se por cima da borda. Mesmo através do fato apertado e sufocante, a água tinha um aspecto estranho. Ao mesmo tempo viscosa e xaroposa não lhe corria junto aos ouvidos ou entre os dedos das mãos. Empurrá-la para os lados era já um esforço, como se estivesse a nadar no meio de óleo de um cárter. Com o punho cerrado em torno da corda, deixou-se mergulhar uns quantos metros abaixo da superfície. A esta profundidade já mal se via o casco da lancha, engolido por um miasma de minúsculas partículas que coalhava o fluido à sua volta. Procurou concentrar-se no que o rodeava, através da luminosidade mortiça e esverdeada. Mesmo junto ao nariz, ainda conseguia ver a mão enluvada agarrada à corda. A uma distância maior, a outra mão esticada, a dedilhar as águas, era já quase invisível. Uma infinidade de minúsculas partículas negras pendia por todo o lado. Abaixo dos pés não se via coisa alguma: apenas escuridão. Sabia que a seis metros de profundidade estava próximo do tecto de um outro mundo: um mundo feito de lama espessa e constritora.
Pela primeira vez na vida, Snow percebeu como dependia da luz do Sol e das águas límpidas para se sentir em segurança. Mesmo a cinquenta metros de profundidade, as águas do mar de Cortez eram transparentes; ali, a luz da lanterna dava-lhe uma sensação de abertura e espaço. E ao pensar nisto, mergulhou mais uns dois metros, com os olhos a esforçarem-se contra a escuridão dos fundos. De súbito, quase nos limites do perceptível, viu, ou julgou ver, no meio da correnteza, uma névoa sólida, como se fosse uma superfície venosa e ondulante. Tratava-se da camada exterior de lodo. Mergulhou devagarinho com o estômago a apertar-se de nervosismo. O brigadeiro contara-lhe que os mergulhadores costumavam ver coisas estranhas nestas águas turvas. Às vezes tornava-se difícil diferenciar entre aquilo que era real e um simples produto da imaginação.
Um dos pés aflorou aquela estranha superfície, chegou mesmo a atravessá-la, e quase de imediato Snow viu-se envolvido por uma nuvem turbilhante que logo suprimiu toda a visibilidade. Tomado de pânico, num movimento convulsivo, agarrou-se à corda de segurança. Por fim lá conseguiu acalmar-se, lembrou-se do rosto trocista de Fernandez e mergulhou um pouco mais. Cada movimento que fazia despertava uma nova tempestade de líquido negro que se lhe colava à máscara. Descobriu que estava instintivamente a suster a respiração como se quisesse proteger-se deste ataque. Fez então um esforço para respirar de um modo calmo, profundo e regular. Raios partam isto, pensou. Bastou mergulhar uma única vez para a brigada fluvial e estou quase a passar-me. Parou durante alguns instantes, a controlar o ritmo da respiração. Por fim lá voltou a descer, agarrado à corda de segurança uns poucos metros de cada vez, com movimentos comedidos, fazendo um esforço enorme para se descontrair. Com uma certa surpresa deu-se conta de que já não lhe importava que os olhos estivessem abertos ou cerrados. Não conseguia deixar de pensar no espesso manto de lama que o aguardava lá no fundo. Decerto havia coisas encrostadas no meio dela, como se fossem insectos no âmbar...
De súbito as botas pareceram tocar no fundo. Mas este fundo era bem diferente de qualquer outro fundo marinho que Snow já visitara. Este aqui parecia estar em vias de decomposição; cedia sob o peso do seu corpo como um tipo de resistência elástica quase repugnante, trepava à socapa pelos seus tornozelos, pelos joelhos, e por fim pelo peito, como se estivesse a afundar-se num poço de pegajosas areias movediças. Não tardou que a lama lhe cobrisse a cabeça, e ele cada vez mais fundo, sempre a descer, agora mais devagarinho encapsulado da cabeça aos pés num visco que não podia ser visto mas apenas sentido, um visco que aderia ao neoprene do fato de mergulho. Ainda assim conseguia escutar o ruído das bolhas das suas exalações a esforçarem-se por ascender à superfície; porém, estas não subiam com o rápido abandono a que estava habituado mas sim numa lenta e pastosa flatulência. A lama parecia oferecer-lhe cada vez mais resistência à medida que mergulhava. Quantos mais metros deveria descer no meio desta me…?» In Douglas Preston e Lincoln Child, Relicário, O inferno fica debaixo da terra, tradução de João Barreiros, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-989-637-126-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT